O HOMEM QUE ENTERROU O JESUS
Capítulo 17
Jerusalém, noite de 14 de julho de 200_
Chiesa foi o primeiro a notar: - Olha, Dimitrov, os soldados estão indo embora.
O outro focalizou o binóculo e disse:
- Eles estão entrando em um caminhão de exército. Por que será que estão partindo?
- Eu não sei, mas veja: dois policiais há acabam de chegar em um carro-patrulha... e Landau veio com eles.
- Pararam na entrada da cratera.
- É muito estranho. Os policiais certamentevieram vigiar o local, mas, Landau, aqui,... a esta hora...
Chiesa não completou a frase. Calou e se começou a pensar. A mente astuta e intelectual do jesuita funcionava em velocidade máxima, tentando achar uma explicação racional para o que estava acontecendo. Finalmente, ele falou:
- Só há uma explicação lógica: Landau está esperando por alguém. E eu penso que eu sei de quem se trata.
- Como você pode saber? - perguntou Dimitrov que não primava por possuir uma mente privilegiada.
Chiesa olhou para ele com desprezo.
- Quem está desaparecido deste a manhã ? Quem, de acordo com você, deixou a cidade hoje cedo, para Tel Aviv?
- Olivieri
- Claro que sim. É por ele que Landau está esperando. Mas por que? Nós temos que esperar. Acho que, breve, teremos a resposta.
* * *
Dessa vez foi Dimitrov quem viu primeiro.
- Olha, Chiesa, um veículo está se aproximando.
O jesuíta ajustou o binóculo e acompanhou o movimento do carro. Ele parou, as luzes se apagaram, a porta do lado do motorista se abriu e um homem alto e magro saiu e caminhou na direção de Landau e dos policiais. Trocaram apertos de mão. Chiesa focou no recém chegado. Ele traazia uma mochila nas costas.
- É o Charles - disse o padre - O fotógrafo do grupo.
- Estou vendo - falou Dimitrov - E você tinha razão. A presença dele aqui sugere que Olivieri deve aparecer.
Cerca de dez minutos depois, Chiesa e o dominicano viram, pelos binóculos, um novo veículo se aproximando. Um furgão branco. Parou perto do outro carro. Três homens sairam. Um deles traazia o que parecia ser uma caixa de madeira. Quando ele parou junto a Landau, bem debaixo de um dos refletores que iluminavam a entrada da cratera, Chiesa reconheceu Olivieri. Novamente ele aumentou o foco e leu o que estava escrito na caixa que o italiano segurava por uma alça metálica: ferramentas arqueológicas. O jesuíta concentrou a atenção no grupo. Os arqueólogos e Landau estavam falando, enquanto os outros ficaram um pouco aparte, observando. Olivieri dirigiu-se aos dois homens que tinham vindo com ele e se despediu deles com um aperto de mão. Então, eles acenaram, entraram no furgão e partiram. Em seguida, Olivieri e Charles se dirigiram ao míni elevador e entraram nele. Chiesa ouviu o característico zumbido da máquina se movendo. O padre virou-se para o frade e disse:
- Eles vão para o sítio. Olivieri leva uma caixa onde esta escrito: ferramentas arqueológicas, mas eu duvido que eles vieram aqui, a esta hora da noite, só para trazer equipamento. O que eles vão fazer lá em baixo, com certeza tem a ver com aquele amaldiçoado pote.
Dimitrov fez o gesto característico de um dedo deslizando pelo pescoço e disse:
- Chiesa, eu posso eliminar, em uma questão de minutos, esses três que ficaram aqui em cima. Depois, desço por um dos andaimes, acabo com os dois arqueólogos e pego o pote.
O jesuíta fitou o outro, demoradamente e disse, com veemência:
- Não seja estúpido. Mesmo que você elimine os três homens na entrada da cratera, o barulho da briga será ouvido pelos que estão lá em baixo e nós perderemos o elemento surpresa. E se eles estiverem armados, atirarão no momento em que você alcançar o fundo da cratera. Agindo apressadamente, nós acabamos perdendo o que pode ser nossa única chance para pegar o vaso.
Chiesa amoleceu o tom e continuou:
- Seja paciente. Minha intuição diz que, logo, haverá um momento oportuno para nós agirmos. Olivieri e Charles não ficarão lá em baixo a noite toda. É possível que, quando eles partirem, Landau vá junto. Assim, ficarão apenas os dois policiais. E esse será o momento certo para você os neutralizar e apanhar o vaso. Portanto, vamos aguardar.
- Eu espero que você tenha razão.
- Eu tenho, Dimitrov, eu sempre tenho.
* * * * *
Capítulo 18
Jerusalém, noite de 14/15 de julho de200_
Passavam dois minutos da meia-noite quando Charles e eu chegamos ao solo da cratera e seguimos para o nosso QG. Refletores colocados nas estacas que sustentavam as paredes, iluminavam o local. E lá estava o pote, embrulhado pelo plástico, no mesmo lugar que nós o haviamos deixado no dia anterior. Eu pus a caixa que tinha trazido sbre uma das mesas e a abri, removendo o vaso feito por Moses. Então, retirei o invólucro do pote original e coloquei os dois juntos, lado a lado. Charles emitiu um assobio.
-Eles são absolutamente idênticos. Qual o próximo passo?
- Quebrar a cera do vaso original e extrair tudo que estiver dentro. Se forem pergaminhos, como espero, nós os colocaremos naquela outra mesa e você os fotografa, um por um.
- Se as palavras ou caracteres não estiverem relativamente claros, eu temo que a laica não nos dê boas reproduções.
Eu removi do bolso a mini câmera e a entreguei ao Charles.
- Você está familiarizado com este equipamento?
Ele examinou a máquina cuidadosamente e respondeu:
- Sim, já vi uma antes. Tem flash embutido e é excelente para fotografar documentos velhos.
- Você pode maneja-la?
- Nenhum problema.
- Ótimo. Trouxe a cera que eu pedi pelo telefone?
- Positivo.
Charles removeu um pacote da mochila e extraiu um tubo plástico.
- É pastoso - disse ele, enquanto me passava o objeto.
- Eu sei. - respondi - Já usei esta pasta duas vezes. É para refazer a tira de cera depois que nós repusermos os pergaminhos no pote.
Fiz uma pausa e perguntei:
- Trouxe o secador?
Novamente Charles abriu a mochila e extraiu um secador de cabelo movido à bateria. Eu continuei:
- OK. Depois de substituir os pergaminhos, nós aplicamos a pasta na extensão inteira da junção entre o corpo do vaso e a tampa. E, enquanto nós ventilamos, de forma que a pasta esfrie e endureça, modulamos a cera com uma espátula, recompondo a forma anterior. O procedimento deve levar de sete a dez minutos. Quem nunca examinou o vaso antes, não notará que foi manipulado.
Fiz outro pausa e disse:
- Você entendeu?
- Perfeitamente
- Então, vamos começar!
Eu destruí a cera do vaso original, afastei a tampa e comecei a extrair os pergaminhos, muito cuidadosamente, um por um, colocando-os sobre um plástico em cima de uma mesa. Eles estavam amarelados pelo tempo, mas relativamente bem preservados. Eram vinte e quatro ao todo. Os caracteres, semelhantes aos do grego antigo, estavam escritos em uma tinta preta semi-esmaecida e enchiam os pergaminhos completamente. Não entendi o que signifivam, mas estava certo de já visto os caracteres antes.
- O que pensa que são? - Perguntei ao Charles
- Lembram grego antigo, mas os caracteres são um pouco diferentes.
Eu olhei mais atentamente e tive um insight.
- Penso que sei o que eles são: Arimateia escreveu em Coine.
Charles fez um gesto afirmativo. Todo arqueólogo familiarizado com o Oriente Médio, tinha ouvido falar daquele idioma. O Coine era uma variante simplificada do grego antigo, comumente usado pelos habitantes dos territórios orientais ocupados pelos romanos, durante a época de glória e domínio do império. Mas por que um fariseu educado teria preferido registrar seu testemunho em tal um idioma popular, em vez de usar o hebraico ou o grego tradicional? Impossível adivinhar. Porém, essa tinha sido a opção de Arimathea... Virei-me para o Charles:
- OK. amigo, comece a fotografar.
Ele levou aproximadamente vinte minutos. Quando terminou de fotografar, rebobinou, removeu o carretel e passou-o para mim.
- Pode ser revelado como qualquer outro filme - explicou.
Eu devolvi o carretel.
- Guarde-o com você. Destrua a máquina fotográfica e revele o filme. Devolva-me quando eu voltar ao hotel. Estou levando o pote original para o Museu de Israel e você sabe como os israelenses são... de repente podem decidir me revistar.
Depois de recompor a tira de cera do pote verdadeiro, embrulhei-o num plástico e o coloquei dentro da caixa de madeira na qual tinha trazido o falso vaso. Depois pus o vaso falso no lugar em que antes estivera o original. Em seguida, examinamos o local, cuidadosamente, removendo qualquer vestígio que pudesse indicar que alguém tinha ido hoje à noite ao sítio. Satisfeitos, voltamos à superfície. No elevador eu perguntei para o Charles:
- Você não contou aos outros sobre o que nós falamos ao telefone, contou?
Ele olhou-me de maneira estranha, como se eu o tivesse ofendido, e respondeu:
- Claro que não. Eu fiz exatamente como você determinou. Eu não disse uma única palavra a mais, nem mesmo para a Irma.
- Eu sinto muito, Charles. Não deveria ter feito essa pergunta. De qualquer modo, agradeço o seu silêncio. Mais uma coisa, por favor: para todos os efeitos nós apenas trocamos os vasos. Não mencione a violação do pote para o nosso pessoal. Afinal de contas, embora o fizemos por uma boa razão, aos olhos do governo israelense nós cometemos um ato criminoso. Por que envolver os outros? Eles não podem ser culpados pelo que não sabem.
Charles me encarou durante um tempo antes de responder:
- OK, Toni, manteremos isso como nosso segredo particular.
Senti-me constrangido por ter mentido para o meu amigo, já que era parte do meu plano de remover o microfilme do país, revelar tudo a Daniele. Mas, no momento, dadas as circunstâncias, eu não tinha outra alternativa. O elevador parou. Haviamos chegado à superfície. Olhei para o relógio. Os ponteiros mostraram 01:16 a.m.. O começo do amanhecer do 15º dia de julho. Nós tínhamos executado o trabalho em, exatamente, 78 minutos!
* * * * *
Capítulo 19
Jerusalém, amanhecer de 15 de julho de 200_
Landau veio ao nosso encontro.
- Puxa, vocês levaram bastante tempo - comentou ele, com um leve toque de suspeita na voz.
- Já que estávamos lá embaixo, aproveitamos para pôr algumas coisas nos seus devidos lugares. - disse eu, sem muita convicção. E, imediatamente, tratei de mudar de assunto:
- Está tarde. Penso que deveríamos partir agora mesmo.
Nos despedimos dos policiais e caminhamos para carro do Charles. Iríamos primeiro ao Museu de Israel onde Nathan Meyer estava esperando. Depois, Charles deixaria Landau na residência dele e procederia para o Hilton a fim de me aguardar. Cunprida minha missão no museu, eu tomaria um táxi para o hotel.
* * *
Chiesa e Dimitrov acompanharam tudo. E o padre logo notou que Olivieri tinha voltado com a mesma caixa de madeira. A mente do jesuíta trabalhava com extrema velocidade e precisão.
- Não há tempo para maiores explicações, Dimitrov. Eu pegarei o carro e os seguirei. Tenho que saber para onde Olivieri está levando aquela caixa. Agora só há os dois policiais vigiando a entrada. Elimine-os, desça ao sítio e pegue o pote. Ache alguma coisa para embrulha-lo. Depois, tome um táxi e pare dois quateirões antes do hotel. Lá, remova as roupas árabes e cubra o vaso com elas. Em seguida, vá diretamente para o nosso quarto e espere por mim. Não falhe. O destino da Igreja pode estar em suas mãos.
Tudo isso foi dito em segundos, rapidamente. Chiesa correu para o carro alugado, estacionado a alguns metros de distância. Entrou nele, ligou o motor e partiu. O padre virou à direita na primeira curva, a tempo de ver a trazeira iluminada do veículo conduzido pelo Charles. Usando apenas as luzes baixas, ele se fez confortável no assento, tomou fôlego para relaxar e começou a seguir o carro dirigido pelo inglês.
* * *
Dimitrov saiu de detrás da parede onde estivera escondido e começou a andar, protegido pelas sombras, até a cerca de arame farpado que impedia o acesso ao sítio arqueológico. A passos lentos, o frade chegou à entrada da cratera, onde os dois policiais conversavam despreocupadamente, desconhecendo o perigo que se apreoximava. O dominicano deslizou quietamente, como um felino. A sola macia do seu tênis fazia um mínimo de barulho. Quando os policiais se deram conta da presença da imensa figura, emergindo das sombras, era tarde demais. Dimitrov deu um soco violento no queixo do primeiro oficial, atirando-o ao chão, já desacordado. E antes que o segundo policial pudesse fazer uso do revolver, o frade lançou seu corpo gigantesco de encontro ao dele. O homem caiu de costas, bateu com cabeça no solo de cimento e perdeu a consciência. O dominicano retirou um furador de gelo de dentro da vestimenta árabe que estava usando. Então, com uma precisão incrível, ele enfiou o longo estilete em uma reentrância localizada na base do crânio dos dois policiais. O furador penetrou fundo no bulbo cerebral e os oficiais morreram instantaneamente. Dimitrov arrastou os corpos para um local escuro. Em seguida, tomou o mini elevador e desceu ao fundo da cratera.
Meia hora depois, tendo seguido todas as instruções dadas por Chiesa, o dominicano entrou no quarto do hotel e depositou o pote sobre a mesa situada entre as duas camas. Sentou no chão, contra a parede, fechou os olhos e ficou relaxando, à espera do retorno do jesuíta.
* * *
O diretor, acompanhado por quatro seguranças, saudou-me à entrada principal do museu. Natham estava mais calvo do que na última vez em que o vi. Nós tínhamos nos encontrado em várias ocasiões, durante conferências econgressos de arqueologia. Os lábios finos dele se abriram em um sorriso.
- Bem, Toni,ouvi dizer que você fez uma descoberta sensacional. - disse ele, enquanto trocávamos um aperto de mão.
Eu disse algo agradável e logo nós entramos no edifício, dois dos guarda-costas nos acompanhando à distância. Cruzamos um corredor longo, passamos pela ala da mocidade e chegamos à ala de arqueologia. Segui Nathan ao que parecia ser um aposento muito especial já que a porta era de aço maciço. Sem trocarmos uma única palavra, dei a caixa para ele. Nathan a abriu, retirou o envólucro e contemplou o vaso por algum tempo. Então ele falou, em um tom quase filosófico:
- O testemunho de José de Arimateia.... Se este documento não for apócrifo, pode conter revelações capazes de extremcer toda a doutrina cristã.
Ele removeu um enorme quadro pendurado em uma das paredes, abriu a imensa caixa forte que estava escondida atrás da pintura, depositou o pote dentro dela, girou o disco de combinação e virou uma chave na fechadura, trancando a caixa-forte. O pote estava agora totalmente seguro. Nathan fez um gesto para que deixassemos o lugar. Enquanto voltávamos pelo mesmo corredor, ele pôs a mão em meu ombro e disse:
- Assim que o especialista escolhido pelo primeiro-ministro puder vir, eu o informarei, de forma que você testemunhe a abertura do vaso. Você está ao Hilton, não está?
Fingindo acreditar, eu dei a ele o número do meu quarto. Estávamos de volta à entrada do museu. Em uma tentativa para se mostrar amável, Nathan disse, apontando para um furgão estacionado na beira da calçada:
- Imaginei que você precisaria de um táxi, uma coisa difícil para se achar a esta hora. Então providenciei um dos nossos veículos para lhe levar ao hotel.
Eu agradeci, trocamos um aperto de mão e o inevitável "shalom". Então, eu entrei no banco trazeiro do carro, o motorista ligou o motor e partimos.
* * *
De longe, Chiesa viu quando Olivieri, levando a caixa de madeira e acompanhado por Nathan, entrou no museu.O padre estacionou em um lugar escuro, donde podia ver a entrada do museu. Ele não teve que esperar muito. Depois de aproximadamente quinze minutos, Olivieri reapareceu acompanhado por Nathan, entrou num carro e se foi . Chiesa notou que o arqueólogo não mais trazia a caixa de madeira. O que ela continha estava agora sob a guarda do Museu de Israel. Ele removeu as roupas árabes e colocou-as em uma maleta que trouxera para este fim. O jesuíta ligou o carro e partiu para o hotel onde Dimitrov deveria estar esperando por ele. Teria o dominicano consguido se apossar do pote? Logo ficaria sabendo.
* * * * *
Capítulo 20
Jerusalém, Hotel de Reis, amanhecer de 15 de julho de 200_
O jesuíta abriu a porta e entrou. O quarto estava em total escuridão. Ele acendeu a luz. Dimitrov se ergueu e disse, com a alegria estampada na face e apontando para a mesa entre as duas camas:
- Sucesso, Chiesa, sucesso. Eis o pote.
Os olhos do padre brilharam. Ele pegou o vaso e, sem esconder a impaciência , retirou um canivete do bolso e começou a quebrar a cinta de cera. Em menos de um minuto removeu a tampa e introduziu a mão dentro do vaso. Contendo a ansiedade, o padre apanhou, cuidadosamente, uma a uma, as doze folhas de pergaminho. Chiesa pôs os óculos e começou a ler os carateres em hebraico. À medida que lia, sua face ia empalidecendo. De repente, com um gesto abrupto, atirou os pergaminhos no chão. Espumas de saliva começaram a sair dos cantos da boca do jesuíta. A face dele foi do pálido ao vermelho, quando ele clamou, tremendo de raiva e frustração:
- Nós fomos enganados, Dimitrov, os malditos bastardos nos enganaram.
- Como assim? - perguntou o dominicano, espantado com reação inesperada do outro.
- Você sabe o que está escrito nessas amaldiçoadas folhas? Textos do torah. Sim, textos do torah.
- Talvez...
O padre não permitiu que o frade concluisse.
- Nada de "talvez". Você acha que Constantino perderia tempo para enterrar os versos do 'Gênese' na basílica? Não, o que ele escondeu foi algo muito mais sério: o testemunho de Arimateia.
Chiesa foi até o frigo-bar e se serviu de um copo de água gelada. Então sentou-se em uma das camas e perguntou:
- O que aconteceu com os policiais?
- Eu os matei. Foi fácil...
Chiesa fez um gesto com a mão e disse:
- Foi o que imaginei. Agora fique em silêncio pois preciso pensar. Eu tenho que juntar todos os dados para entender o que realmente está acontecendo.
Durante aproximadamente dez minutos, de olhos fechados, o jesuíta pôs para trabalhar os seus privilegiados neurônios. Finalmente, ele abriu os olhos e esmurrou a própria testa.
- Por que eu não vi isso logo? Que estupidez a minha! A caixa de madeira, Dimitrov, a caixa de madeira.
O frade encarou o padre, ignorância e surpresa impressas na face dele.
- O que tem aquela maldita caixa a ver com isso?
- Tudo. Quando Olivieri deixou o museu, ele não trazia mais a caixa.
- E dai?
- E dai, tudo.
Tendo compreendido a trama, Chiesa se tranquilizou.
- Eu reconstituirei a coisa toda para você. Ouça: Olivieri vai para Tel Aviv e passa o dia lá. Provavelmente no Departamento de Descobertas Arqueológicas, onde ele adquire uma cópia exata do pote e coloca esses estúpidos pergaminhos dentro dele. À noite, volta a Jerusalém, trazendo uma caixa contendo o vaso falsificado. Então, ele desce ao sítio com o Charles e trocam o vaso original pelo falso. Olivieri suspeita que alguém, possivelmente nós, planeja roubar o pote que ele descobriu. Daí, a razão para a troca. Ele volta à superfície com a caixa, lembra? Dentro dela, está agora o pote original, que ele leva para o Museu de Israel. Eu o vi entrar e sair. Olivieri não estava levando nenhuma caixa quando partiu. Mas por que o Charles? Trocar os vasos é uma tarefa que pode ser feita por uma só pessoa. Então, por que o Charles? Porque o inglês é o fotógrafo do grupo. E eles ficaram lá em baixo por mais de setenta minutos. O que se pode concluir de tudo isso? Eu lhe digo: eles violaram o vaso, extraíram os pergaminhos e os fotografaram. Depois repuseram as folhas dentro do pote e recompuseram a tira de cera ao redor do vaso. E agora eles têm os negativos dos manuscritos escondidos em algum lugar. Foi tudo muito bem articulado, Dimitrov, e nós fizemos o papel de bobos. Pior, o assassinato dos oficiais desencadeará uma gigantesca caçada para descobrir o responsável. E o desaparecimento do falso vaso nos tornará os suspeitos número um. Até provarem que você fez o trabalho, eles nos vigiarão dia e noite e, assim, nossas atividades ficarão totalmente limitadas. O Mossad certamente têm um dossiê a nosso respeito, incluindo, provavelmente, os achados de necropsia dos assassinatos em Beirut e Atenas, nos quais devem ter sido achados vestígios de fibras de sua corda nos pescoços das vítimas. Naquelas cidades, havia centenas de frades e monges que usam cordas semelhantes. Mas, entre as pessoas envolvidas com as pesquisas no sítio arqueológico, só você usa esse tipo de corda. Então, quando eles acharem...
Dimitrov soltou uma gargalhada.
- Eles não acharão nenhuma fibra, Chiesa. Eu matei os policiais com um furador de gelo que penetrou no bulbo do cérebro deles. Já dei sumiço ao estilete. Além do que, estava usando luvas quando fiz o serviço. Esta é uma pista que eles não terão.
Chiesa deu um suspiro de alívio.
- Felizmente. De qualquer modo, nós temos agora duas missões a realizar, e nenhuma delas será fácil. Primeira: destruir ou roubar os pergaminhos que estão no museu, antes que conseguam traduzir o texto. E segunda: tomar o filme de Olivieri ou da pessoa para quem ele, eventualmente, tenha entregue. Sem dúvida, um dos companheiros dele.
- O que vamos fazer agora, Chiesa?
- Pegue a lista telefônica e ache o número da seção de reservas da Alitalia. Eles costumam cumprir um horário de vinte e quatro horas.
Quinze minutos depois, Chiesa já tinha reservado uma passagem num vôo para Roma que sairia do aeroporto Ben Gurion às 07:30 horas. O padre consultou o relógio: 04:45. Ele começou a preparar uma maleta para a viagem.
* * * * *
Capítulo 21
Jerusalém, manhã de 15 de julho de 200_
Tive um sono agitado e só despertei das oito horas. Depois que eu voltei ao hotel, de madrugada, Charles me deu o filme, já revelado. O carretel continha agora os negativos. Quando desci para o refeitório do hotel, os outros já estavam tomando o desjejum. Beijei Daniele na face, disse um bom dia "geral", sentei-me à mesa e comecei a tomar café. A televisão estava mostrando um programa para crianças. De repente, um homem interrompeu a transmissão normal para anunciar, primeiro em hebraico e depois em inglês, que dois oficiais do departamento de polícia de Jerusalém tinham sido assassinados, na noite anterior, perto da entrada da cratera, no local que antes fora a basílica do Santo Sepulcro. Os corpos tinham sido achados por agentes da Shin Bet. A área inteira estava agora isolada pela divisão de homicídio, a qual procurava pistas que pudessem levar aos perpetradores dos crimes. E depois de prometer novas notícias, o anunciador desapareceu da tela e o programa suspenso recomeçou. Charles e eu trocamos olhares indagativos. Nós não poderíamos negar à polícia nossa presença no local na noite passada. Mas tinhamos de decidir a extensão de nossas declarações. O carretel com o microfilme, agora no bolso interno de minha blusa, parecia pesar como chumbo.
Fui até junto da Daniele e disse, em voz baixa , perto da orelha dela, que eu queria que ela viesse comigo para um passeio. Como os outros, Dani se mostrava chocada com a notícia que tínhamos acabado de ouvir. Ela perguntou:
- Agora?
- Sim, imediatamente.
Ela se levantou. Peguei-a pelo braço e saimos para a rua. Depois de andarmos alguns quarteirões, achamos um praça, com um pequeno jardim e vários bancos. Havia pouca gente circulando; a maioria eram jovens senhoras caminhando com crianças ou levando cachorros pelas coleiras. Nos sentamos e eu peguei na mão da Dani: ela estava tremendo.
- Preste atenção, amor, - eu comecei - não há nenhuma razão para você se alarmar, mas o que eu tenho para lhe falar é muito sério e não deve ser repetido a ninguém, nem mesmo aos nossos colegas. O Charles sabe muita coisa, porque ele me ajudou ontem à noite, mas não sabe tudo. Porém, você terá de saber , porque preciso da sua colaboração.
Ela me encarou.
- Toni, você está me assustando.
- Não há nenhuma razão, já disse. Vou lhe explicar tudo, e eu estou certo que você vai compreender.
Daniele suspirou.
- Está bem, mas antes preciso saber uma coisa.
- O que?
- Você e Charles foram ontem à noite no sítio para trocar os vasos, certo?
- Sim, todos vocês sabem disso. E dai?
- Esses dois policiais assassinados. Os crimes podem ter acontecido quando vocês estavam lá. O criminoso também poderia ter tentado...
Gesticulei com a mão sinalizando que ela parasse e falei:
- Quando nós voltamos à superfície, os policiais estavam vivos, conversando com o Landau. Os assassinatos aconteceram depois que nós tinhamos partido. A troca dos vasos foi permitida pelo Ministro da Cultura. O falso pote foi feito por um artista do Departamento de Descobertas Arqueológicas. Assim, não temos nenhum problema com as autoridades.
A mão de Daniele ainda estava tremendo.
- Mas vocês fizeram mais do que trocar os vasos, não foi?
Eu a beijei no rosto e disse:
- Sim, mas, por favor, fique calma. Eu preciso que você leve a cabo uma tarefa muito importante.
- Que tarefa e por que eu?
- Porque você é a pessoa mais indicada.
Ela removeu a mão dela da minha.
- Então, por favor, pare de rodeios e diga, agora mesmo, do que se trata.
- Você tem razão, Dani, eu vou lhe contar. Escute...
E eu contei tudo o que aconteceu, desde o meu encontro com Hezi em Tel Aviv, nos mínimos detalhes. Quando terminei, a preocupação tinha deixado a face da Dani. Na verdade, ela passou por uma mudança radical: seus olhos estavam brilhando de entusiasmo.
- Isto é maravilhoso, Toni. Você enganou todo mundo: os fanáticos religiosos e o primeiro-ministro israelense.
Eu sorri do entusiasmo dela e disse:
- Agora, temos que remover o microfilme de Israel, tão depressa quanto possível. Antes que alguém suspeite do que nós fizemos.
- Concordo. E você quer minha ajuda para fazer isso, não é?
- Mais que ajuda, Dani. Você é quem retirará o filme do país.
Ela respirou fundo, olhou bem dentro de meus olhos e disse:
- A idéia me assusta um pouco, mas eu o farei. Explique como devo proceder.
- Você é maravilhosa. Eu sabia que podia contar com você. Meu plano pode parecer um pouco complicado. Mas, na realidade, é simples e relativamente seguro.
- OK, fale-me sobre ele.
- A idéia é a seguintee: lembra daquele sítio arqueológico, perto de Aman, aquele em que estivemos trabalhando?
- Claro que sim. Eles ainda estão cavando por lá?
- A resposta é sim. Bem, então a idéia é que, como o trabalho aqui está suspenso por tempo indeterminado, você e o Yuri seguirão para Aman a fim de reforçar a equipe nas escavações.
- Por que o Yuri?
- Porque ele é um "sabra" e os inspetores na fronteira com a Jordânia, se mostrarão menos minuciosos se você estiver na companhia de um israelense.
- Nossa! - ela exclamou com admiração: - Você pensa em tudo.
- Mas não mencione nada a Yuri sobre o filme. Eu sei que ele é um dos nossos. Porém, também é um cidadão de Israel e a lealdade dele pode pender para o lado patriótico. Não esqueça de eu e o Charles violamos o pote, o que é uma ofensa séria aos olhos do governo israelense. Portanto, para todos os efeitos, os dois vão simplesmente reforçar a equipe arqueológica em Aman.
Daniele concordou com um gesto da cabeça e eu continuei:
- Mas a Jordânia também não é um lugar totalmente seguro. Há agentes do Mossad por toda parte. Seu destino final, minha querida, é a América, mais especificamente, Nova Iorque.
- Excelente idéia, mas que desculpa darei ao Yuri para justificar uma súbita partida para os Estados Unidos?
Em vez de responder, fiz outra pergunta:
- Sua familia ainda mora em Cleveland?
- Sim. Meus pais, uma de minhas irmãs e uma tia. Mas o que tem isso a ver com o nosso problema, Toni?
- Tudo, meu amor - eu respondi, suavemente.
Vendo a surpresa estampada nos olhos dela, eu expliquei:
- Dani, chame sua irmã pelo seu celular e peça a ela que lhe envie um telegrama para o hotel em você ficará em Aman, comunicando que sua mãe está doente e que você deve regressar a Cleveland tão rápido quanto possível. Diga que, assim que você chegar nos Estados Unidos, explicará a ela a razão do seu pedido. Acha que sua irmã fará exatamente como você pedir?
- Claro que sim. E creio que posso adivinhar o que segue: assim que receber o telegrama, mostro-o para o Yuri...
- E ele lhe aconselhará que você vá para casa no primeiro vôo disponível. Os "sabras" são muito sensíveis em negócios de familia.
- Toni, você é maravilhosamente diabólico.
- Talvez, Dani, talvez. Mas tudo é válido para garantir sua proteção e a do microfilme. É possível que nós tenhamos feito a descoberta arqueológica do século e não podemos aceitar que escape de nossas mãos, por causa dos interesses políticos de Israel ou dos receios do Vaticano.
- Você está certo. E o que vem depois?
- Você me mantém informado, chamando meu celular, naturalmente. Fique num hotel em Nova Iorque e tenha o filme sempre perto do seu coração. Eu irei ao seu encontro assim que puder. Então, de Nova Iorque, voaremos para Londres. A propósito, você se lembra do Eric van Heusing?
- Claro que lembro. Aquele holandês agradável e sedutor - ela respondeu, com um sorriso malicioso.
- Que é velho bastante para ser seu avô - eu respondi, fingindo ciume.
Ela deu uma risada e disse:
- Não se faca de tolo. Você sabe muito bem que eu sou e sempre serei exclusivamente sua.
- Assim é melhor - eu contradisse com um ar ofendido. Depois falei, agora mum tom de seriedade:
- Van Heusing é o maior perito no idioma Coine. Ele traduzirá o conteúdo do microfilme e então nós saberemos o significado do testemunho de Arimateia.
Dani também assumiu um tom sério:
- Toni, eu estou completamente consciente da minha responsabilidade em relação ao microfilme. Assim, até sua chegada, não sairei um só minuto do hotel . É minha chance de asistir aqueles filmes antigos que passam na televisão e eu nunca tive tempo para ver. Agora, mudando de assunto, como é que você vai conseguir a minha transferência e a do Yuri para Aman?
- Assim que nós voltarmos ao hotel que eu vou ligar para o diretor de nosso instituto em Londres. Paul é um velho amigo, ele me conhece bem e sabe que eu nunca pediria qualquer coisa a menos que tivesse fortes razões para faze-lo. Estou certo que ele concordará sem pedir explicações. Porque ele sabe que eu as darei no devido momento.
Nós nos levantamos e voltamos para o Hilton.
* * * * *
Capítulo 22
Jerusalém, tarde de 15 de julho de 200_
Ao redor 02:00 da tarde, um fax chegou de Londres determinando a transferência temporária de Yuri e Daniele para o sítio arqueológico na Jordânia. Dez minutos depois eu chamei os dois, mostrei o fax e informei que eles deveriam seguir para Aman naquele mesmo dia.
* * *
Às 15:30 p.m, o inspetor Chaim Zeller, da divisão de homicídio da polícia de Jerusalém, veio ao hotel. Um quarto tinha sido reservado pela administração para as interrogações. Charles e eu fomos convidados a testemunhar. O oficial, um senhor de meia idade, se sentou-se diante de nós e foi direto ao assunto:
- Eu interroguei o inspetor Landau. Ele me informou que, ontem à noite, vocês dois desceram ao sítio arqueológico, apesar de todo o trabalho ter sido suspenso. O que têm a dizer sobre isso?
Eu olhei para o Charles antes de responder:
- Como o senhor deve saber, meu nome é Antonini Olivieri, chefe da equipe que está escavando no lugar onde ficava o Santo Sepulcro. Nós achamos um pote aparentemente importante que poderia despertar a ganância de certas pessoas. Então, por medida de segurança e com a concordância do Departamento de Descobertas Arqueológicas, fomos ontem à noite ao sítio e trocamos o vaso original por uma imitação. Quando voltamos à superfície, dois policiais estavam conversando com o inspetor Landau. Quando, alguns minutos depois, deixamos o local para levar o pote verdadeira para o Museu de Israel, eles ainda estavam vivos.
Chaim Zeller escutou em silêncio. Quando eu terminei, ele disse:
- Nós já sabemos disso tudo. Mas há um pequeno e importante detalhe : o vaso que vocês deixaram no sítio desapareceu.
Charles não se conteve:
- Devem ter sido roubados por aqueles... Chaim terminou a frase por ele:
- Dois religiosos que estão acompanhando o seu trabalho, como representantes do Vaticano. Não era isso que você ia dizer?
O inglês respirou fundo. - Sim, era.
- Nós também suspeitamos deles. A propósito, padre Chiesa voou esta manhã para Roma. O outro, Dimitrov, está no Hotel dos Reis, debaixo de vigilância.
O inspetor fez uma pausa e continuou:
- Nós fomos informados pelo Mossad que eles possivelmente já cometeram dois assassinatos, um em Beirut e o outro em Atenas. Em ambos os casos, as vítimas morreram por asfixia e mostraram, nos pescoços, vestígios de fibras de uma corda freqüentemente usada por frades e monges para amarrar as túnicas. Acontece que centenas de monges e frades, com fios idênticos, circulavam nas duas cidades quando os crimes aconteceram...
- Mas, no caso atual, parece que há apenas um frade envolvido. - eu comentei.
- O dominicano, certo?
- Exatamente.
- Bem, nós estamos esperando pelos resultados da autópsia. Se os policiais foram asfixiados e se houver marcas de fibras de corda nos pescoços deles, teremos um forte motivo para prender o frade como suspeito de assassinato e roubo.
- E quanto ao Chiesa? - perguntei.
- Como disse, ele voou para Roma. Nós começaremos a vigia-lo tão logo ele desça no Ben Gurion.
- Mas a mala dele deve ter sido examinada quando ele deixou o país.
- Foi, mas o pessoal da alfândega não achou nada que parecesse com vaso ou pergaminhos.
- Então devem ter sido destruidos. - eu sugeri.
Em seguida, contei o que tinha sido escrito nos pergaminhos que nós colocamos no vaso falsificado. Chaim riu.
- Eu gostaria ter visto a cara do Chiesa quando descobriu ter sido enganado. Ele deve ter espumado de raiva.
- Essa foi uma das minhas intenções, quando troquei os potes: humilhar o arrogante jesuíta.
Fiz uma pausa e perguntei:
- O senhor acha que o Chiesa vai voltar, inspetor?
- Não tenho a menor dúvida. A frustração deve ter sido um forte estimulante para ele continuar tentando se apossar do pote verdadeiro. Ou, no caso de não conseguir isso, destrui-lo.
- Para isso ele teria de explodir o Museu de Israel, o que não deve ser uma tarefa fácil.
- Realmente não é. Principalmente porque nós estaremos atentos. Mas fanáticos religiosos são capazes de qualquer coisa, professo. Veja o que eles fizeram no Santo Sepulcro e no World Trade Center. Se o Chiesa descobrir que o pote está no museu, estou certo ele tentará alguma coisa. Mas nós estaremos preparados para lhe causar uma segunda frustração.
O inspetor se levantou. Nós fizemos o mesmo. A caminho da porta ele disse:
- É apenas uma formalidade, mas devo solicitar a vocês que não deixem o país até a investigação sobre a morte dos policiais tenha terminado.
Então ele disse "shalom" e se foi.
* * *
Em torno das 16:00 horas eu liguei para o Hezi e falei da minha preocupação de que, na noite anterior, os dois fanáticos religiosos estiveram vigiando a entrada da cratera, esperando por uma chance para roubar o pote. Que tinha certeza de que Dimitrov matou os policiais e levou o falso vaso. E que Chiesa, provavelmente, me seguira até o Museu de Israel. E que, se o fez, sem dúvida suspeita onde o verdadeiro pote se encontra agora.
* * *
Às 17:00 horas, ajudei a Dani a esconder, dentro do cinto, uma tira de pano contendo o microfilme.
* * *
Às 19:30, Daniele e Yuri cruzaram, sem qualquer problema, a Allenby Bridge e entraram em território da Jordânia, no caminho para Aman. O primeiro passo para levar o filme para a América tinha sido dado com total sucesso.
* * * * *
Capítulo 23
Cidade do Vaticano, tarde de 15 de julho de 200_
Ao entrar no gabinete do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Chiesa se surpreendeu ao constatar que Moroni não estava só, como sempre acontecia quando eles se encontravam. Além do cardeal gordo e calvo, também estava presente o secretário de estado, alto e magro, cuja aparência fazia lembrar a de Pio XII. Agora, os dois curialistas estavam acomodados em sofás de couro e o padre ocupava uma confortável poltrona, de frente para eles. Chiesa havia terminado de relatar os recentes eventos em Jerusalém, quando Moroni disse:
- Com que então, meu caro Chiesa, um grupo de arqueólogos enganou um dos mais brilhantes membros da Sociedade dos Jesuítas...
As palavras foram ditas em um tom irônico indisfarçavel.
- Foi apenas o primeiro "round", Eminência. - o padre respondeu, ignorando a ironia - Esta batalha ainda está longe de ter acabado.
- E você veio pedir reforço para continuar a luta, certo?
- Sim, eu vim precisamente por isso.
O secretário de Estado, Giovanni Cardial Vecelio, interveio para acabar com o que parecia estar se tornando um diálogo inútil:
- Padre, o senhor está mesmo convencido que existe um documento contendo um testemunho de José de Arimateia?
Chiesa dirigiu o olhar na direção do cardeal.
- Convicção absoluta só teremos quando tivermos os pergaminhos. Mas, no meu modo de pensar, este deve ser um documento de extrema importância, ou eles não teriam porque fazer, às pressas, um falso vaso e levar o original para o Museu de Israel.
- Guardar as descobertas arqueológicas no museu não é um procedimento normal ? - perguntou o secretário.
- Não, Eminência. Normalmente, qualquer descoberta é primeiro examinada por uma comissão, no próprio sítio e então, sim, é levada para o Museu de Israel em Jerusalém ou para o Departamento de Descobertas Arqueológicas em Tel Aviv.
- Outra pergunta, padre. - continuou Vecelio - você acredita que os israelenses ignoram que Olivieri violou o pote e fotografou os pergaminhos, se é isto o que o vaso contém? Os judeus não são fáceis de enganar...
O padre mudou de posição na poltrona para se acomodar melhor. Até então ele tinha imaginado que era Moroni quem determinava as ações que ele, Chiesa, deveria executar. Mas, agora, estava seguro que o secretário de estado controlava tudo: Angelo era só uma marionete para Vecelio. O jesuita contemplou o cardeal durante alguns segundos, antes de responder:
- Sim, Eminência, não é fácil engana-los. Mas acontece que ninguém do Departamento de Descobertas Arqueológicas ou do Museu de Israel teve, atéagora, acesso ao pote. Assim, se Olivieri fez um bom trabalho na recomposição do vaso, dificilmente alguém perceberia ele ter sido violado.
- Obrigado, padre. Concordo com o seu raciocínio. Supondo-se que tais documentos contenham algo que ponha em risco a doutrina cristã, devemos lançar mão de todos os meios para sequestrar ou destruir os pergaminhos que estão no museu, e obter o filme que, como você suspeita, está em poder de um dos arqueólogos. Concorda?
- Sim, Eminência.
O secretário de estado virou-se para o outro cardeal:
- Alguma sugestão, Moroni?
- Não, só uma dúvida.
- Diga.
- Se tais documentos não contiverem nada importante para a Igreja, nós nos estaríamos envolvendo, desnecessariamente, em uma operação difícil e arriscada.
O secretário de estado lançou um olhar de repreensão ao colega e disse:
- E se contiverem, Moroni? De acordo com a bíblia, Arimateia e Nicodemus foram as últimas pessoas a ver corpo de Jesus. O testemunho de qualquer um deles será sempre considerado teológica e historicamente significante. Como nossa doutrina se sustentaria se, por exemplo, os documentos afirmarem, ou, ao menos, insinuarem que Jesus não ressuscitou?
- E não é esta uma dúvida que paira na mente de muitas pessoas? Talvez a ressurreição não tenha mesmo ocorrido - insistiu o outro cardeal.
- Talvez, Moroni, talvez, mas agora não é o momento adequado para esse tipo de especulação. A ressurreição física de Jesus é um dos pilares da nossa doutrina e nós temos afirmado isso durante dois mil anos. Se ele ressuscitou ou não, é irrelevante. O que importa é a preservação do dogma. Sem ele, a estrutura inteira do cristianismo afunda e nós afundamos juntos. Também não importa se foi Arimateia ou qualquer outra pessoa que escreveu os pergaminhos. Se eles existem, é claro. Como é de pouca importância se o autor, seja ele quem for, está dizendo uma verdade ou uma mentira. É relevante porque sempre haverá alguém para afirmar que o testemunho é mesmo de Arimateia e que o fariseu contou a verdade, porque ele estava lá e viu o que aconteceu. E, se ficar provado que os pergaminhos são realmente do primeiro século... já imaginou essa informação nas mãos dos judeus? O Vaticano se tornaria um eterno refém do governo israelense. O que é inaceitável e inadmissível. Então, por menor que seja a chance desses pergaminhos trazerem o nome de Arimateia, nós não podemos ficar sem fazer nada. Logo, esse pote deve ser capturado ou destruído, o mais rapidamente possível.
Dessa vez Moroni não ofereceu nenhuma objeção. Vecelio virou-se para Chiesa:
- Padre, eu suponho que você deve ter algo em mente...
- Sim, Eminência. Eu penso ser fundamental adquirir ou destruir os pergaminhos que estão no museu. Se o filme não pude ser recuperado, e seu conteúdo vier a público, nós sempre poderemos afirmar que se trata de uma falsificação, destinada a prejudicar a fé cristã ou elaborada para chantagear o Vaticano. Se, é claro, os pergaminhos originais deixarem de existir. Sem eles, a autenticidade do filme fica questionável.
- Seu raciocínio está perfeito, padre Chiesa. Então, nós concordamos que os manuscritos têm de ser roubados ou destruídos. Qual lhe parece ser a opção mais difícil ?
- Rouba-los. Penetrar no museu e chegar ao lugar onde estão guardados, parece ser uma tarefa quase impossível. A segurança é rigorosa: haverá muitos policiais e, possivelmente, também soldados, fortemente armados, cobrindo todos os locais estratégicos. Nós teremos uma chance melhor tentando explodir o lugar.
- Concordo. Então, tratemos de agir depressa, antes dos israelenses terem a oportunidade de estudar os documentos.
- Acontece, Eminência que, para executar essa ação, é necessário ter um completo conhecimento do museu e adjacências. Dimitrov e eu estaremos certamente debaixo de vigilância constante e seria imprudente visitarmos o local. Consequentemente, precisamos de uma terceira pessoa para fazer isso. Como também vamos precisar de explosivos e de outros equipamentos indispensáveis para explodir a ala arqueológica do museu onde, provavelmente, os pergaminhoses estão guardados.
Chiesa falou com convicção. O secretário de estado contemplou-o por um longo momento e então disse:
- Eu tenho a pessoa certa para fazer o que você quer. Ele se chama Dante.Também é jesuíta e atua, hoje, por divina coincidência, como vigário da Igreja de Pater Noster, lá mesmo, em Jerusalém. Mas como você certamente será seguido a partir do instante que chegar a Israel, temos de planejar uma reunião entre o Dante e você em outro lugar. Em Chipre, por exemplo.
Vecelio virou-se para Moroni e ordenou: - Arrume uma lista contendo todos os vôos para Chipre, partindo de Roma e de Tel Aviv nas próximas vinte e quatro horas.
O cardeal pegou o interfone sobre a mesa e repetiu a ordem para quem estava do outro lado. Vecelio continuou:
- Farei com que você veja um retrato do Dante antes de partir. Por favor, discuta todos os detalhes da missão com ele.
- Alguma senha de reconhecimento?
O cardeal sorriu:
- Sim, simples mas difícil de ser imaginada. A terceira pessoa do trinidade, tudo invertido. Quer tentar?
Chiesa não levou mais que poucos secundos:
- Otiripse Otnas
- Exatamente. Diga para o Dante.
- E a contra-senha?
- É ainda mais simples: Mema.
- Mema - Chiesa repetiu - o contrário de Amém.
- Correto.
O secretário de estado virou-se para Moroni:
- Tem algo a dizer antes de uma pausa para um lancharmos?
- Não, nada.
* * *
Terminado o lanche, Chiesa virou-se para o cardeal Vecelio e disse:
- Vossa Eminência mencionou que o padre Dante é a pessoa indicada para estudar a área do museu e adjacências...
- Muito mais que isso, padre. Ele pode obter os explosivos e tudo que for necessário para explodir o museu.
- Excelente. Agora confio que, realmente, executaremos a operação.
- Que poderá ser uma missão suicida.
- Exatamente, Eminência. E eu tenho a pessoa para isso.
- Dimitrov?
- Sim, Dimitrov. Ele sempre diz estar pronto para morrer pela Igreja. Talvez seja este o momento para provar isso.
- Você realmente acredita que ele estará disposto à sacrificar a própria vida ? - Moroni perguntou, num tom duvidoso.
- Sim, acredito. Dimitrov fará o que tiver de ser feito, sem hesitação.
- Um fanático - disse o prefeito.
- Um dominicano determinado, Eminência - contradisse Chiesa.
- Muito bem. Então nós o consagraremos como o primeiro mártir da nossa Igreja neste século.
Era difícil dizer se Moroni falou sério ou estava apenas bancando o cínico. Para desfazer a dúvida, Vecelio disse, enfaticamente:
- Você está louco? Realizado o ato, nós rejeitaremos Dimitrov e o acusaremos de ser um fanático, um lunático selvagem que, infelizmente, pertencia a uma das ordens mais dedicadas da Igreja. O Vaticano nunca pode sequer aparentar ter tido qualquer envolvimento com qualquer ação terrorista.
E virando-se para Chiesa:
- Conte ao Dante tudo que você sabe sobre a operação, a qual, por razão óbvia, passará a ser chamda por nós de "Operação José". Você é um estrategista brilhante, Chiesa. Eu estou seguro que o seu conhecimento, somado ao de Dante, mais a coragem cega de Dimitrov, garantirão o nosso sucesso. E, se for este o desejo de Deus, dentro de três dias, no máximo, o testemunho de Arimateia terá se transformado em um punhado de cinzas.
Naquele momento o interfone tocou. Moroni atendeu, escreveu algumas notas em um bloco e, depois de desligar, disse:
- Há um vôo da El Al que deixa Tel Aviv amanhã às 9:00 horas. E um Lufthansa partirá de Roma, também amanhã, às 7:00 horas. Eles chegarão quase ao mesmo tempo em Chipre.
- Excelente - disse o secretário de estado. - Providencie a passagem de Chiesa. Eu ligarei para o Dante, dando-lhe as devidas instruções.
O cardeal se levantou. Chiesa fez o mesmo, foi até ele, se ajoelhou e beijou o anel cardinalício. Sabia, agora, quem de fato dava as cartas no Vaticano. Já perto da porta, Vecelio disse:
- Boa sorte, Chiesa. E que o Espírito Santo esteja com você nessa missão sagrada.
O jesuíta fez uma curvatura, saudou Moroni, girou nos calcanhares e deixou o aposento.
Moroni dirigiu-se a Vecelio:
- Você nunca mencionou esse tal de Dante antes.
- Porque ele é o melhor agente secreto da minha rede de inteligência. E muito mais brilhante que o Chiesa. Ele é geralmente conhecido como Dante mas, de fato, chama-se Andrea Fontana e este é o nome que consta em seu passaporte especial e pelo qual ele está registrado, na qualidade de monsenhor, na Igreja de Pater Noster. Porém, ninguém, absolutamente ninguem, exceto você e eu, sabe, nem deve saber, que Andrea é Dante. Este é um segredo que teremos de manter. Você entende?
O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé concordou com um gesto da cabeça.
* * * * *
Capítulo 24
Nicosia, 16 de julho de 200_
Chiesa chegou à capital da ilha precisamente às 9:00 horas. Ele foi para o bar do aeroporto e logo identificou Dante, pelo retrato que um assistente de Montese tinha lhe mostrado. O jovem jesuíta era alto e magro, cabelos e olhos castanhos e uma expressão inteligente na face bem raspada. Dante, trajando roupa esporte e carregando uma mochila, estava sentado em uma mesa de canto, tomando um refrigerante. Chiesa foi até ele, disse a senha e recebeu a contra-senha. Então Dante disse, em italiano:
- Vamos dar uma volta. Nesta cidade as paredes têm orelhas bastante aguçadas.
Caminharam até um pátio, na extremidade do aeroporto, de onde se podia ver a constante partida e pouso de aviões de todas as bandeiras.
- Nós estamos seguros aqui - disse o padre mais jovem.
Durante quase duas horas trocaram idéias e discutiram planos para a execução da "Operação José". Chiesa percebeu que o outro já tinha quase tudo delineado e começou a imaghinar quem, de fato, comandaria a operação. Dante falou que pretendia visitar o Museu de Israel, ainda naquela mesma tarde, para fazer um reconhecimento da área e, à noite, iria ao Hotel dos Reis para se reunir novamente com Chiesa e conhecer Dimitrov.
- Os agentes israelenses - disse Dante - estarão de ôlho em você, do momento em que desembarcar no Ben Gurion. E, quase certamente, haverá alguns deles vagando pelo hotel e até mesmo postados no seu andar.
Chiesa encolheu os ombros
- Isso não afetará a mim ou a Dimitrov.
- Mas limitará seus movimentos.
- Bem, isso é verdade. Mas vigie seus próprios passos. Quando você bater à porta de nosso quarto, também ficará marcado.
- Não se preocupe quanto a isso - respondeu Dante - eu estarei disfarçado de tal modo que nem me olharão duas vezes.
O jovem padre abriu a mochila, extraiu um pacote e o entregou a Chiesa.
- Leve e guarde no seu quarto - disse ele.
- O que é?
- Um uniforme de garçon... tamanho grande. É parte do plano.
Chiesa encarou Dante e sorriu.
- Penso que eu estou começando a entender.
Às 11:30, Dante tomou um avião para Tel Aviv. Chiesa fez o mesmo, meia hora depois. Seguido por agentes da Shin Bet, desde que deixou o aeroporto, ele pegou um "sherut", chegando ao Hotel dos Reis, em Jerusalém, às 02:45 da tarde
* * * * *
Capítulo 25
Jerusalém, 16 de julho de 200_
Foi um dia de intensa expectativa. Eu falei com Charles sobre a possibilidade de Chiesa e Dimitrov terem acompanhado os nossos movimentos, escondidos perto da entrada da cratera, na noite de 14 de julho. E, se isso aconteceu, certamente foi o frade quem matou os policiais e levou o falso pote. Eles também poderiam ter suspeitado, considerando o tempo que nós permanecemos no local e devido a presença dele, Charles, que nós tínhamos fotografado os manuscritos. E, nesse caso, era possível que estejam planejando nos tomar o filme, ja que não sabiam estar ele, agora, bem longe de Jerusalém.(Já havia contado ao inglês que a Dani levara o filme com ela). Decidimos, então, permanecer a maior parte do tempo, dentro do hotel. E aquela precaução deveria incluir a Irma. Felizmente, Daniele e Yuri estavam fora do alcance da malícia do Chiesa e da corda do Dimitrov.
Finalmente, às 18:00 horas, Dani ligou para o meu celular. Ela tinha chegado em segurança à Nova Iorque e estava agora no Four Stars Hotel. Eu lhe falei que, provavelmente, deixaria o Israel no dia 22.
- Estarei lhe esperando para tomarmos juntos o café da manhã no dia seguinte. - disse ela - E não se preocupe com aquele outro assunto (ela estava se referindo ao negativo). Está tudo sob controle e eu não deixarei o hotel até você chegar.
Trocamos beijos pelo éter e desligamos. Mais relaxado agora, liguei paraTel Aviv. Hezi me contou que Chiesa tinha voltado à Israel. Que ele e Dimitrov estavam no Hotel dos Reis, debaixo de vigilância.
Eu não acreditava que os dois fanáticos teriam qualquer chance de tentar alguma ação drástica, mas estava ansioso para saber se o professor Lieberman já tinha aparecido no museu para examinar o pote e os pergaminhos.
* * *
O prof. Lieberman, um cavalheiro de meio-idade, usando grossos óculos com aro de tartaruga, tinha se apresentado no museu ao redor 13:00 horas e sido levado, imediatamente, para um aposento reservado na ala arqueológica, onde o vaso estava guardado. Do lado de fora da porta, estavam postados dois guarda-costas, carregando armas automáticas. Nathan ajudou Lieberman a remover a cera do vaso e se retirou. As ordens que ele tinha recebido do primeiro-ministro foram muito claras:
- Dê todo apoio ao Lieberman, mas só ele deve examinar os documentos.
Agora, o professor estava só no aposento, com todo tipo de equipamento a sua disposição, mais três telefones. Um deles, o de cor vermelha, comunicava diretamente com o primeiro-ministro. Cuidadosamente, Lieberman extraiu os pergaminhos do pote e os esparramou sobre a mesa. Com uma potente lente, ele os examinou durante aproximadamente quinze minutos. Então, pegou o telefone vermelho e discou. Quando David Berger respondeu, o professor foi direto ao assunto:
-Aconteceu uma coisa que não havíamos previsto. Os pergaminhos não foram escritos em hebraico antigo, grego tradicional ou aramaico, mas em um idioma popular daquele tempo, o Coine. É uma variante do grego antigo, mas a maioria dos carateres são bem diferentes. Eu não estou suficientemente familiarizado com eles para fazer uma tradução apropriada.
- Mas, certamente, deve haver alguém capaz de ler esse maldito idioma. - argumentou David.
- Sim, há. E a melhor pessoa é um holandês chamado Eric van Heusing...
- O judeu?
- Não, ateu.
- Ninguém em Israel?
- Sim. O prof. Dan Ziegler, ortodoxo, ex-coronel do exército e grande amigo do Moshe Dayan, com quem trabalhou em inúmeras escavações arqueológicas. Ele entende Coine o bastante para fazer o trabalho.
- Onde ele vive?
- Em um dos assentamentos judeus em Hebron.
- Eu enviarei alguém para o procurar.
- Eu não faria isso. Ele é muito excêntrico e não gosta de receber ordens de ninguem. Como nós somos amigos de longa data, é melhor eu falar primeiro com ele. Eu darei ao Dan somente alguns pistas. O suficiente para despertar o interesse dele. Estou certo que ele virá espontaneamente.
- Está bem. Resolva a sua maneira. - concordou o primeiro-ministro.
- Agirei, imediatamente. E, enquanto esperamos por ele, vou entregar um fragmento de um dos pergaminhos para o Nathan estabelecer a data exata dos manuscritos.
- Muito bom, professor. Mantenha-me informado e Shalom.
E David desligou.
Em seguida, Lieberman removeu um caderno de um dos bolsos e anotou um número. Depois apanhou outro telefone, o preto, e pediu para a operadora que fizesse a conexão. Deu o número em Hebron e esperou. Após alguns minutos, a telefonista informou que a conexão tinha sido completada. Lieberman ouviu o clássico "oi" e percebeu que estava com sorte. A voz era inconfundível. O próprio Ziegler tinha atendido o telefone.
- Shalom, Dan. Aqui é Lieberman.
- Shalom, como está passando?
- Precisando de sua ajuda
- Sobre o que?
Lieberman explicou, até certo ponto. Quando terminou, o outro disse:
- Coine, que interessante...
- Vai nos ajudar?
- Claro que vou, você despertou minha curiosidade. Mas eu só posso deixar Hebron no dia 20. Estou até o pescoço com as preparações para o matrimônio de meu filho mais velho, no dia 19.
- Então mandaremos um carro lhe apanhar dia 20 pela manhã, Está bem assim?
- Sim.
- Dê-me seu endereço.
Ziegler deu. Lieberman desejou felicidades aos noivos. Disseram shalom e desligaram. Lieberman discou novamente, usando agora o telefone vermelho, e informou o primeiro-ministro sobre o que havia combinado com Ziegler.
- Alguem ouviu a conversa? - perguntou David
- Não. Eu estava só quando falei com o Ziegler.
O professor estava errado. A operadora tinha escutado tudo.
* * * * *
Capítulo 26
Jerusalém, tarde de 16 de julho de 200_
Ao redor das 15:00 horas, Dante se juntou a um grupo de turistas que estavam visitando o Museu de Israel. Ele observou tudo cuidadosamente, especialmente quando passaram pela ala arqueológica. Notou que uma certa área estava proibida à visitação e homens armados montavam guarda diante de uma das portas. Depois, caminhando em volta do edifício, Dante localizou o local fora do museu que correspondia à posição da área interditada. Satisfeito, voltou à Igreja de Pater Noster e, em um mapa adquirido durante a visita, marcou, com um "X", o local aproximado do seu futuro alvo.
* * *
Um pouco depois das 18:00 horas, Dante entrou no Hotel dos Reis pela porta de serviço. Com o cabelo pintado de vermelho, usando lentes de contato azuis e as bochechas aumentadas por adesivos de silicone aglutinados dentro da boca, o jesuíta exibia um disfarce excelente, que fazia com que sua atual face se mostrasse bem diferente da real. Ele entrou na cozinha e, levando um pequeno pacote na mão, caminhou até um garçom de origem árabe, com quem havia contatado anteriormente. Meia hora depois, o árabe deixou o hotel com os 500 shekels que tinha recebido do jesuíta, o qual, usando agora as roupas do garçon, dirigiu-se ao encarregado do setor de "room service",que também era de origen árabe, embora cidadão israelense. Outros 500 shekels mudaram de mãos e, a um quarto para as sete, levando uma bandeja carregada de sanduíches e refrigerantes, o "garçon" Dante bateu na porta de quarto 1004. Dois agentes da Shin Bet, vigiando o andar, não lhe deram a mínima atenção. Um deles apenas comentou com o companheiro :
- Esses sujeitos no 1004 realmente são dois goys muito esquisitos. Eles seguer vão ao restaurante do hotel para uma refeição decente. Você acha que eles pretendem ficar permanentemente entocados, só se alimentando de sanduíches e refrigerantes?
O outro encolheu os ombros.
- Talvez eles estejam semi - jejuando. Considerando-se que ambos são goys e, ainda por cima, católicos, tudo é possível.
Dimitrov abriu a porta e Dante entrou. Chiesa notou o disfarce facial mas não fez nenhum comentário. Sem desperdiçar tempo, Dante removeu, do bolso do uniforme, um mapa do Museu de Israel e desdobrou-o sobre uma das camas. Chiesa tinha elevado ao máximo o som do rádio. Assim, se o quarto estivesse grampeado, a escuta da conversa ficaria dificultada. O recém-chegado foi direto ao assunto:
- Não será fácil entrar no museu e roubar o pote. - disse Dante, falando em voz baixa - Há agentes por toda parte e a ala de arqueologia está interditada para visitação. E, na sala aonde, creio eu, se encontra o pote, há soldados armados guardando a entrada. Nossa única opção é explodir a área inteira, pelo lado de fora. Usando um veículo, talvez um caminhão, carregado com explosivos e lançando-o contra a parede externa. Eu marquei o local exato aqui neste mapa... venham ver.
Chiesa e Dimitrov se inclinaram e olharam. Em seguida, os dois jesuítas encararam o dominicano. Nem um único músculo se alterou na a face de Dimitrov, quando ele disse, com absoluta tranqüilidade:
- Eu sou capaz de dirigir qualquer veículo. Vocês podem contar comigo.
- Você terá a chance de pular antes do caminhão atingir a parede. - disse Dante -Não obstante, o impacto da explosão...
- Me matará. - o dominicano terminou a frase pelo outro - Eu sei disso, mas o fato não me perturba. A ala arqueológica tem de ser destruída... e será, pela causa da nossa Igreja. E eu o farei, o resto não importa.
As palavras foram ditas com determinação. Dante olhou para Dimitrov com sincera admiração e disse:
- Amanhã eu terei o caminhão e os explosivos. Abdula Kamal, um dos líderes de um grupo que pretende substituir a extinta PLF, está tratando disso para nós. Amanhã, no início da noite, numa oficina de carros na Al Wad, tudo me será entregue, por setenta mil dólares. O cardeal Moroni transferiu o dinheiro do Banco do Vaticano para uma conta em um certo banco em Beirut, como indicado por Abdula. É provável que venhamos a precisar de mais dinheiro. Prevendo tal possibilidade, quando eu estive em Chipre, removi trinta mil dólares de uma conta secreta que o Vaticano tem em um banco em Nicosia, e os trouxe para Israel.
Dante fez uma pausa e então virou-se para Dimitrov.
- Se nada acontecer que nos force a alterar nosso cronograma, explodiremos a ala arqueológica, na madrugada de depois de amanhã. Eu virei lhe buscar em torno das 02:00 horas. Esteja vestido com o uniforme de garçon que o Chiesa trouxe de Chipre.
- E se, antes disso, eles traduzirem os pergaminhos ou os levarem para outro lugar? - perguntou Chiesa.
- Isso não vai acontecer. Eles estão esperando por um homem chamado Ziegler, para fazer a tradução. O professor Lieberman não tem suficiente conhecimento do idioma Coine para executar o trabalho.
- Por Deus - exclamou Chiesa - Como você sabe todas estas coisas?
- Uma das operadoras que controlam o PABX do museu é uma judia marroquino. Uma velha conhecida minha, que não consegue resistir à tentação de notas de cem dólares. Quando soube, por você, que os pergaminhos tinham sido transferidos para o museu, eu disse a ela para ficar atenta. Afortunadamente, ela estava de lantão quando Lieberman ligou para um tal de Ziegler, pedindo a colaboração dele. Ela prestou atenção à conversa entre eles e, depois, me contou tudo. Os pergaminhos não serão traduzidos até o dia 20.
Dante fez uma curta pausa e concluiu:
- Tenho de ir agora. Ficar mais tempo pode suscitar a suspeita dos agentes ai fora. Mas como o inesperado é inesperado, por favor, não deixem este quarto, pois eu posso aparecer a qualquer momento. E não tenho nenhum modo para lhes informar, se o cronograma for alterado. Os telefones, incluindo o celular de Chiesa, devem estar grampeados. Que Deus esteja com vocês.
Dante abriu a porta e saiu. Levando a bandeja, agora vazia, ele passou pelos agentes sem ser molestado. O jesuíta desceu os degraus de serviço, depositou a bandeja sobre uma mesa da cozinha quase deserta e, sem ser importunado, deixou o hotel pela saída de serviço, desaparecendo na noite escura de Jerusalém.
Um dos agentes no décimo andar falou para o colega:
- Não lhe pareceu que o garçon ficou tempo de mais dentro do quarto?
- Talvez. Ele parece ser libanês, possivelmente cristão. Assim, é possivel que estivesse rezando com os padres. - disse o outro agente, em tom de gozação.
* * * * *
Capítulo 27
Jerusalém, H.Q. da Shin Bet, 17 de julho de 200_
Quatro homens estavam sentados ao redor de uma mesa na sede da Shin Bet. Em uma das paredes havia dois mapas: um, da cidade de Jerusalém e o outro, do Museu de Israel e áreas adjacentes. Eles representavam a cúpula da inteligência e segurança de Israel :
Diretor Zwi Rami, chefe da Shin Bet, um homem grande, em torno dos sessenta, gordo, com um nariz curvado e olhos azuis, que eram quase invisíveis pela densidade dos óculos.
Seu deputado, Uri Lebel, canadense de nascimento, alto, magro e calvo, chegando aos quarenta.
Ariel Polanski, diretor do Mossad, cinqüenta-anos, com a postura de um soldado, general reformado do exército e herói da guerra do Yom Kippur.
Chaim Zeller, inspetor-chefe da divisão de homicídio da polícia de Jerusalém. De meia-idade, baixo e robusto.
Zwi começou a reunião:
- Chaim, o que você tem para nos contar?
- Dois policiais assassinados com um furador de gelo enfiado na base do crânio. Eles foram atacados violentamente antes de serem mortos e estavanm inconscientes quando morreram. Um teve o maxilar inferior fraturado e, o outro, várias fissuras nos ossos da cabeça. O crime aconteceu quando eles estavam vigiando a entrada para o sítio arqueológico.
- Ambos eram homens fortes. Quem os atacou deve possuir uma força incomum - interveio Uri Lebel.
Chaim continuou:
- Nós achamos o furador de gelo perto dos corpos; nenhuma impressão digital.
- Suspeitos? - perguntou o diretor da Shin Bet.
- Dois religiosos católicos que estavam acompanhando o trabalho dos arqueólogos.
- Chiesa e Dimitrov - disse o diretor do Mossad - O segundo é um gigante, parecendo um lutador de sumô. Ele não teria a menor dificuldade em por os dois policiais fora de combate. Esse Dimitrov é suspeito de ter assassinado duas pessoas anteriormente, uma em Beirut e a outra em Atenas. Nessas vítimas, ele usou a corda da túnica para matar por asfixia. Agora, se este frade é o culpado, ele mudou de tática.
Chaim reiniciou:
- Nós supomos que depois do crime o assassino desceu ao sítio e se apossou de um pote que tinha sido recentemente descoberto . Porém, o professor Olivieri, chefe da equipe de arqueólogos, tinha trocado, alguns minutos antes do roubo, o vaso verdadeiro por um falsificado. Ele agiu assim por desconfiar dos religiosos. Suspeitou que eles tentariam roubar o original.
- Porque a desconfiança? - perguntou Ariel Polanski.
- Primeiro, porque ele já sabia, pelo professor Hezi, diretor do Departamento de Descobertas Arqueológicas da Universidade de Tel Aviv, que Chiesa e Dimitrov eram suspeitos dos homicídios em Beirut e Atenas e, segundo, porque no pote original havia uma inscrição, escrita em grego antigo que dizia: "Testemunho de José de Arimateia".
- Que poderia conter informações que o Vaticano talvez não desejasse que fossem reveladas - sugeriu Zwi
- Exatamente - concordou Chaim.
- E o vaso verdadeiro está agora no Museu de Israel - disse o diretor do Mossad.
- Exatamente, foi levado para lá por Olivieri, na noite do crime. - confirmou Uri - Está sob vigilância, esperando que um velho arqueólogo e linguísta chamado Ziegler, perito em Coine, vá lá para traduzir os manuscritos.
- Coine? - perguntou Ariel.
- Sim, Coine, um idioma popular no primeiro século. Os pergaminhos foram escritos em Coine. - explicou Uri - O professor Lieberman, o filólogo escolhido pelo primeiro-ministro, examinou os documentos, reconheceu o idioma, mas não sabia o suficiente para traduzir para hebraico.
- E agora, - Zwi interveio - é bastante possível que os dois religiosos, que quase certamente roubaram o falso vaso, já saibam que foram enganados. Chiesa passou dois dias em Roma. Supomos que foi ao Vaticano para receber instruções de como tentar roubar o vaso original.
- Ele sabe onde está o verdadeiro? - perguntou Uri.
- De acordo com Olivieri, sim. - respondeu Chaim - O arqueólogo tem uma hipótese que faz sentido para mim. Ele suspeita fortemente que, na noite do crime, os dois padres ficaram escondidos, em algum lugar nas proximidades da cratera, observando tudo. E, enquanto Dimitrov liquidava os policiais e roubava o vaso falsificado, Chiesa seguiu o carro do Charles e viu quando ele, Olivieri, entrou no Museu de Israel, levando uma caixa contendo o pote original.
- Uma hipótese provável. - disse Ariel - Mas, verdadeira ou não, nós temos que trabalhar com a suposição de que esses dois padres criminosos tentarão entrar no museu para roubar o vaso.
- Eles não terão nenhuma chance - falou Uri - Como eu disse antes, há bastante pessoal armado por lá. Quem tentar entrar no local onde o pote está guardado, será, imediatamente, preso ou baleado. E, para reduzir o risco, a visitação à ala arqueológica está proibida.
- Mas há outra possibilidade - falou o diretor de Mossad - Eles podem tentar explodir a ala arqueológica para destruir os pergaminhos.
- Ainda assim, eles teriam que entrar no museu e seriam detidos antes de chegarem lá - argumentou Uri.
- Isto não é necessário. Eles podem agir pelo lado de fora do prédio - disse Ariel.
- Como...? - perguntou Uri, um tanto hesitante.
O diretor do Mossad pegou um apontador e se dirigiu ao mapa que mostrava o museu e adjacências.
- Atacando o edifício pela parte de trás. Um carro-bomba lançado contra a parede do museu, no lugar onde fica situada a ala arqueológica .
Seguiu-se um longo silêncio. Então Zwi virou-se para o seu deputado e ordenou:
- Ariel está certo. Mande colocar barreiras, imediatamente, em todos os acessos para o museu.
Uri se levantou e saiu do aposento para cunprir a ordem.
* * * * *
Capítulo 28
Jerusalém, 18 de julho de 200_
Enquanto no quarto 1004 do Hotel dos Reis, Dimitrov fazia exercícios musculares intensivos, como se estivesse em uma academia e não às véspereras de uma missão de suicida e Chiesa se remoia de frustração ao se ver praticamente impossibilitado de agir e por ter perdido -disso não mais tinha nenhuma dúvida - o controle da "Operação José", Dante, ao volante de um velho ford, ultrapassava Nevev Granol, dirigindo-se para oeste e depois para o norte. Após ultrapassar a curva para entrar na rua que precedia aquela que passava por trás do Museu de Israel, ele se deparou com uma barricada composta de armações de ferro e sacas de areia, vigiada por seis policiais e um agente da Shin Bet. Todos eles armados de uzis, rifles e granadas. Um dos homens acenou com a mão para Dante parar. Ele obedeceu e parou o carro alguns metros antes da barreira. O agente se aproximou e ordenou que ele partisse, pois a passagem estava bloqueada. O jesuíta concordou com um gesto da cabeça, manobrou o ford e se retirou. - Merda - pensou - se também estiveram bloqueadas as outras vias de acesso ao museu, as coisas ficarão mais difíceis.
Percorreu um longo itinerário,-passando pelo Bill Rose Garden, e notou que também estavam interditadas todas as outras ruas que conduziam ao museu. O bloqueio era total! Dante ainda dirigiu durante algum tempo pelo bairro e, finalmente, tomou o rumo da Igreja de Pater Noster, atrás de qual ficava a pequena casa paroquial que lhe servia de residência. E, enquanto dirigia, pensava em como superar o obstáculo representado pelo bloqueio. Quando estava quase chegando à igreja, sua mente prodigiosa achou o que parecia ser a melhor opção viavel . Ele parou o carro ao lado da estrada, pegou o celular e ligou para o palestino Kamal.
- Abdula falando.
- Sou eu, Dante. Nós precisamos nos encontrar com urgência. Ocorreram fatos novos.
Alguns segundos de silêncio... então:
- OK, nós falaremos, mas não aqui. Acho que a oficina está sendo vigiada.
- Onde então?
- Você conhece as estações da "via dolorosa"?
- Claro que sim!
- Perto da oitava estação, na rua Aqabat al-Kangah , existe uma loja de souvenir. O nome do dono é Yussef Farad . Ele é um dos nossos. Certifique-se de não ser seguido. Eu farei o mesmo. Nos encontraremos na loja às 18:00 horas.
- Eu estarei lá.
* * * * *
Capítulo 29
Jerusalém, HQ da Shin Beth, 18 de julho de 200_
Uri entrou no gabinete do diretor e disse :
-Todas as vias de acesso para o Museu de Israel estão bloqueadas, as visitações estão suspensas e o diretor do Mossad está esperando na linha azul.
Zwi Rami levou o telefone à orelha.
- Shalom, Ariel.
- Shalom, Zwi.
- Alguma novidade?
- Sim, um de nossos agentes infiltrados entre os ativistas palestinos ouviu um comentário sobre a chegada de uma remessa de explosivos, entre cem a duzentos quilos de um super sentex, vindo do Irã, através da Jordânia. Sabemos, há algum tempo, que os palestinos estão tentando criar uma nova organização para substituir o extinto PLF. Ainda é um grupo pequeno. Eles se denominam "Os Guerreiros de Alá " e seu líder, aqui em Jerusalém, é um tal de Abdula Kamal, dono de uma oficina de conserto de carros na Al Wadi.
- Nós também temos um dossier desse árabe. - disse Zwi.
- Bem, - o outro continuou - de acordo com nosso agente, a carga de explosivos foi enviada para ele.
- Você acha que esses explosivos estão relacionados com a hipótese de que aqueles dois católicos furiosos pretendem explodir a ala arqueológica do Museu de Israel?
- É possível. Nosso agente também descobriu que, recentemente, Abdula tem mantido contato com um homem que fala árabe com sotaque italiano. E essa pessoa esteve ontem na oficina. Seria ele, por acaso, o nosso Chiesa?
- Impossível. |Nem ele nem o maldito Dimitri sairam do quarto do hotel desde que o jesuita voltou de Roma. Talvez haja outro agente do Vaticano envolvido.
- Não tenho nenhuma idéia de quem possa ser. A propósito, que tal trazer o Abdula para um interrogatörio?
- Eu não faria isso, Zwi, pelo menos por enquanto. Se ele for preso, os outros vão sumir e nós perderemos a oportunidadede pegar o grupo inteiro. Eu esperaria um pouco mais para ver se conseguimos identificar todos eles. E, certamente, Abdula não guardaria os explosivos na oficina dele. Além do que, se pegarmos esta remessa de sentex, e este misterioso ocidental, com acento supostamente italiano, for um agente do Vaticano, ele deve ter outros contatos entre os árabes e acabará adquirindo uma nova remessa de explosivos. Há bastante sentex por ai. Você nem precisa ir ao Irã para isso. Basta conhecer as pessoas certas entre nossos vizinhos em Gaza ou na CisJordânia. E é ainda bem possivel que este ocidental misterioso não tenha nada a ver com o nosso atual problema. Ele pode estar fazendo algum outro tipo de transação com nosso amigo Abdula. Afinal de contas, este árabe está envolvido com muitos negócios escusos e contrabandeia qualquer coisa.
- É verdade - Zwi interveio - Por outro lado, com Chiesa e Dimitrov praticamente neutralizados, acho muito difícil que os católicos, até mesmo com apoio palestino, atentem contra o Museu de Israel. Mas se tentarem, eles serão eliminados no meio do caminho. O máximo que podem conseguir é explodir um carro-bomba contra uma das barricadas. Em cada uma delas, além das barras de ferro e sacos de areia, temos seis policiais e um agente nosso. E como as barreiras se localizam a mais de duzentos metros do edifício, o museu não será ameaçado. A menos que eles usem toneladas de sentex, como fizeram no Santo Sepulcro . Porém, não acredito que uma organização ainda incipiente, disponha daquela quantidade. Para diminuir o risco de serem descobertos, eles trazem, em cada remessa, no máximo de 50 a 100 quilos. Levariam muitos meses para acumularem as toneladas de que precisariam.
- Bem, Zwi, eu não concordo com você.
- Como assim?
- Imagine o seguinte cenário : para atacar uma das barreiras, os católicos trazem , além do carro-bomba, um grupo de palestinos bem treinados e fortemente armados. Você pensa que seis policiais e um agente secreto são suficientes para os deter? Eu não correria esse risco. Eu pediria para o exército enviar, pelo menos, um carro blindado e uma dúzia de soldados para reforçar cada barricada.
Zwi riu.
- Por Deus, Ariel, vocês do Mossad adoram exagerar as coisas. Para começar, os padres estão praticamente presos no hotel e debaixo de total vigilância. Assim, o ataque contra o museu é uma possibilidade extremamente remota. E, mesmo se eles acharem um jeito de escapar do hotel para tentarem atacar, não contariam com muitos militantes palestinos para os apoiar. Depois que eliminamos a cúpula do PLF do Hezbolá e do Hamas, eles perderam a coragem. No futuro, se esses "Guerreiros de Alá " vierem a constituir uma força efetiva, então talvez possam se tornar uma ameaça; mas não agora. Logo, se Dimitrov e Chiesa atentarem contra o museu, eles contarão, no máximo, com a ajuda de meia dúzia de contrabandistas do Abdula. E, para enfrenta-los, os homens que nós temos nas barreiras são mais que suficientes.
- OK, Zwi, o problema está dentro de Israel. Portanto, cabe à Shin Bet lidar com ele. De qualquer maneira, essa história terminará logo. Assim que os pergaminhos forem traduzidos.
- E o que está retardando a tradução? - perguntou para Zwi
- Um homem por nome de Ziegler, bom conhecedor do tal idioma Coine. Lieberman o está esperando para fazer a tradução. Mas, por razões pessoais, ele só estará disponível no dia 20.
- Se o documento for autêntico - disse Zwi
- Parece ser. Nathan já notificou David Berger que os pergaminhos foram escritos no primeiro século.
- Como soube isso, Ariel?
- Estar bem informado é parte das obrigações do Mossad, meu caro Zwi.
O diretor da Shin Bet sorriu intimamente. Ele também tivera conhevimento da idade dos pergaminhos. Mas não comentou nada.
- Esperemos, então. - disse Zwi - Mas eu não estou preocupado. Com Chiesa e Dimitrov mantidos no hotel e sob vigilância, como poderiam eles tentar explodir o museu?
- Talvez o misterioso ocidental com italiano acento, apoiado pelos "Guerreiros de Alá" façam o serviço por eles - respondeu Ariel, num tom ligeiramente irônico.
Zwi soltou uma gargalhada.
- Que tentem. Shalom, Ariel.
- Shalom, Zwi.
O diretor da Shin Bet não se mostraria tão confiante se soubesse dos planos de Dante...
* * * * *
Capítulo 30
Jerusalém, ‘via dolorosa', noite de 18 de julho de 200_
Yussef abriu a porta para o jesuíta. Abdula já estava no pequeno aposento, esparramado em uma poltrona velha. Perto, havia outra cadeira mais ou menos da mesma idade. Dante sentou-se nela. A um gesto de Kamal, Yussef desapareceu atrás de uma cortina junto de um balcão. Abdula endireitou o corpo e perguntou:
- Muito bem, o que aconteceu, padre?
Dante lhe falou sobre as barricadas que fechavam as estradas e ruas que conduziam ao museu e que, por conseguinte, os planos teriam de ser alterados.
- Como?
- Eu explicarei. Por favor, preste atenção.
Abdula semi-fechou os olhos e disse:
- Eu sou todo ouvidos, você pode começar.
- Os israelenses acreditam que as barras de ferro e os sacos de areia são insuperáveis. Eles poderiam ter razão, não fosse por uma idéia que me ocorreu. Há um meio de superar o bloqueio deles.
Sem abrir totalmente os olhos, o palestino perguntou:
- Qual?
- Usando dois veículos. Um pequeno e um grande.
- Explique melhor, padre.
- No caso de uma tentativa com um carro-bomba, espera-se que um veículo pesado, um caminhão, por exemplo, seja usado, já que, teoricamente, pode levar uma quantidade maior de explosivos, concorda?
- Certamente.
- Bem. Nós atacamos primeiro com um caminhão, levando aproximadamente 50 quilos de sentex, e o lançamos contra a barricada. Os judeus, vendo o caminhão, não abrirão fogo, até o último momento. Porque não faz sentido explodir uma barricada, a menos que... isto seja feito com o propósito de abrir caminho para outro carro. Mas eles ignoram a existência de um segundo veículo. Então, serão tomados de surpresa. A explosão certamente matará ou ferirá seriamente os guardas. Quem sobreviver provavelmente não estará em condição de combater. E, entre o escombros, deverá se formar alguma brecha, não muito grande, mas suficientemente larga para permitir a passagem de um veículo pequeno... como um volkswagen. Então, este carro, levando os 150 quilos de sentex restantes, penetra entre o escombros, na maior velocidade que as circunstâncias permitam. Em seguida, é lançado contra a parede da ala arqueológica, destruindo tudo.
Dante fez uma pausa e continuou:
- A barreira mais próxima do nosso alvo fica na estrada que conduz à extremidade norte da rua atrás do museu. E é exatamente lá que nós golpearemos.
Dante parou de falar e o silêncio reinou no aposento durante um longo minuto. Então Abdula abriu os olhos completamente e disse:
- Padre, eu não sei se você é um gênio, um lunático, ou os dois. Seu plano é muito ousado e, ao mesmo tempo, extremamente simples. Pode dar certo. Estou quse convencido.
Dante retirou um mapa do bolso, desdobrou-o sobre o balcão e fez um gesto, convidando Abdula a se aproximar. O árabe obedeceu. O mapa mostrava o museu e áreas adjacentes. O padre tinha marcado com um "B", em vermelho, os pontos onde as barreiras tinham sido colocadas.
- Veja. - disse ele, apontando para um dos "Bs" "plotados" no mapa - Esta é a barreira que, pela sua localização, deve ser atacada. Fica a uns cinqüenta metros antes da curva que, uma vez ultrapassada, nos leva, como já mencionei, à extremidade norte da rua que passa por trás do museu, onde se situa o nosso alvo, a ala arqueológica. O caminhão ficará estacionado aqui, - Dante apontou para um ‘X' no mapa - nesta estrada, perto da rua onde está a barreira. Assim, quando o ele entrar nela, acelerando, os judeus não terão mais que alguns segundos para reagir, antes da barreira ser atingida. Aproximadamente cinco a seis minutos depois da explosão, nosso volkswagen penetrará por uma brecha que, como eu disse, quase certamente se formará entre o escombros, e arremeterá contra o alvo.
Abdula pôs a mão no ombro do jesuíta e disse:
- Eu confirmo o que havia dito: você é um gênio. Mas não está louco. Acompanhando seu plano no mapa, entendi perfeitamente. Agora sim, estou totalmente convencido.
Dante suspirou aliviado. O palestino tinha comprado a idéia. Pelo menos, a primeira parte dela. No momento certo, tentaria também convencer Abdula da segunda. O padre se pôs de frente para o árabe e disse, suavemente, mas com convicção:
- Vai funcionar, Abdula.
O palestino, recuperado do seu entusiasmo pelo plano, resolveu cuidar dos aspectos mais práticos da tarefa.
- Eu suponho que você já tem a pessoa que dirigirá o volkswagen.
- Sim, Dimitrov se ofereceu.
- E ele está consciente que não terá qualquer chance de sobreviver?
- Sim. Não só os muçulmanos têm a coragem de morrer por sua religião.
Abdula fez um gesto de compressão e perguntou:
- E quem dirigirá o caminhão?
A segunda parte do plano de Dante tinha vindo à baila. Um momento crítico. O jesuíta fitou o árabe serenamente e disse, com a maior naturalidade possível:
- Caberá a você escolher o homem, entre os seus bravos guerreiros.
Abdula deu um pulo da cadeira e esbravejou:
- Agora você ficou totalmente louco. Meus guerreiros nunca concordariam em arriscar a vida por uma causa que não é deles.
Dante replicou calmamente:
- Mas talvez seja.
Abdula já se dispunha a retrucar quando, olhando fundo nos olhos do padre, percebeu que o jesuíta falara com seriedade. Ele soltou um longo suspiro e ordenou:
- Explique-se, padre.
E semi-fechou os olhos para ouvir a loucura que o outro provavelmente diria. Mas Dante estava há muito tempo preparado para aquele momento e tinha todos os argumentos na ponta da língua.
- Muito bem. Escute: o papa sempre se pronunciou a favor de uma paz permanente no Oriente Médio, com a criação de um estado palestino soberano. Naquele museu há certos pergaminhos que, depois que forem traduzidos, poderão se tornar uma arma terrível contra o cristianismo. Nas mãos dos judeus, tais documentos farão do Vaticano um refém permanente do governo israelense. Em conseqüência, a Santo Sé será forçada a adotar uma posição favorável a Israel, sempre que os judeus ameaçarem publicar o conteúfo dos pegaminhos. Mais cedo ou mais tarde, chegará o dia em que as Nações Unidas colocarão em pauta a questão da criação do estado palestino e, quando isso acontecer, vocês precisarão de toda ajuda possível. A Igreja Romana é rica e poderosa, Abdula, e, se não estiver submissa à chantagem judia, pode influenciar fortemente no voto de países católicos como México, Brasil, Argentina, Espanha, Itália e de muitas outras nações. Se vocês nos ajudam a nos livrarmos dessa ameaça, eu garanto que poderão contar com o máximo apoio do Vaticano, em assuntos de interesse para os palestinos.
Dante fez uma pausa e sua voz adotou um tom de responsabilidade e arrogância:
- Eu falo em nome do cardial Giovanni Vecelio, secretário de estado do Vaticano, a segunda pessoa mais importante da Igreja Católica.
Abdula fechou totalmente os olhos. Ele teria de refletir seriamente sobre o que acabara de ouvir. As palavras do padre causaram um impacto profundo na sua mente. O silêncio durou mais de cinco longos minutos. Dante, não conseguindo agora reprimir a ansiedade, esfregava as mãos: aquele era um momento decisivo.
* * * * *
Capítulo 31
Jerusalém, noite de 18 de julho de 200_
Finalmente, Abdula Kamal abriu os olhos, deixou escapar um longo suspiro, bateu nas coxas com a palma das mãos e falou, solenemente:
- O que você disse faz sentido, padre. Eu convocarei os Guerreiros de Alá e exporei a situação a eles. Mas, antes, há um assunto a ser resolvido entre nós dois .
- Certo - respondeu Dante, sabendo que Abdula, um árabe típico, não perderia a oportunidade para negociar algo em favor dele.
- Se um dos guerreiros vier como voluntário para dirigir o caminhão, ele estará arriscando a vida dele. Correto?
- O motorista do caminhão não terá necessariamente de morrer. Ele pode usar um dispositivo especial com um peso, a fim de manter o acelerador abaixado e saltar do veículo antes dele alcançar a barreira.
- Mas isso não é cem por cento garantido, é?
- Não, não é.
- Também é possível que algum israelense sobreviva, concorda?
- Sim.
- E ele poderia alvejar o motorista depois dele saltar, certo?
- Sim, é possível.
- Logo, sempre há um risco, não é verdade?
- Sim...
- Meu caro padre, a maioria dos nossos guerreiros são arrimos de família. Se eles morrerem, deixam pais, esposas e crianças enfrentando sérias dificuldade financeiras, você concorda?
- Sim, eu concordo.
- Então, é justo que o voluntário seja provido com uma espécie de seguro de vida, certo?
- Sim.
- E quanto você pretende pagar por tal seguro?
- Cinco mil dólares.
Abdula balançou a cabeça .
- É muito pouco, padre, dobre a oferta.
Dante sabia não ter nem tempo nem disposição para pechinchar.
- Muito bem - disse ele- eu pagarei os dez mil dólares.
- Antes do trabalho. Afinal de contas, ele, ou até mesmo você, poderia morrer nesta operação audaciosa....
- É verdade - o padre respondeu com firmeza, querendo terminar a discussão - eu pagarei antes de nos movermos, mas lembre-se, Abdula, o tempo corre contra nós. A operação deve ser executada dentro das próximas vinte e quatro horas, no máximo. E desde que os aspectos financeiros estão resolvidos, vá e traga o voluntário... logo. Como você deve estar sabendo, foram depositados, dois dias atrás, setenta mil dólares na conta que você indicou, em pagamento do sentex e do caminhão.
Abdula suspirou, consultou o relógio e disse:
- O banco já me informou do depósito. Muito bem, padre. Esteja aqui às vinte e duas horas. Traga os dez mil dólares e eu trarei o voluntário.
Eles apertaram as mãos e Dante já ia saindo, quando Kamal bateu com a palma da mão de encontro a testa e disse:
- Que estupidez a minha. Já ia esquecendo. Padre, por favor, traga mais três mil dólares,
Dante ergueu a sobrancelha.
- Para que?
- Para pagar pelo volkswagen...
* * * * *
Capítulo 32
Jerusalém, 10:00 p.m., 18 de julho de 200_
O voluntário, aparentando entre 25 a 26 anos, era de média estatura , magro, com olhos e cabelos escuros e um bigode quase imperceptível. Abdula fez as apresentações:
- Omar, este é o nosso amigo, padre Dante.
Ele colocou a mão no ombro do jovem palestino e disse:
- Padre, Omar Nagib é um dos leões mais destemidos entre os Guerreiros de Alá e eu o escolhi pela sua a experiência em dirigir caminhões.
Sem dar muito crédito às palavras elogiosas do árabe, Dante olhou para o voluntário aparentemente tímido e não achou qualquer rastro leonino nele. Não obstante, quando começou a explicar a Omar o papel dele na operação, notou que o jovem era dotado de uma mente rápida e não parecia preocupado com os riscos que iria correr. O jesuíta mostrou-lhe o mesmo mapa que tinha apresentado a Abdula e perguntou a Omar se ele estava familiarizado com a área. O palestino respondeu que sim e enunciou, sem hesitação, o nome de cada uma das estradas e ruas. Ele também entendeu que o caminhão que iria dirigir e o volkswagen que seria trazido por Yussef deveriam chegar ao local escolhido, precisamente na hora estabelecida.
Então, Dante explicou o resto. Ele disse que os veículos não deveriam ficar estacionados por mais de alguns minutos. Que se ficassem muito tempo no mesmo lugar, poderiam chamar a atenção de alguma patrulha israelense que estivesse passando por perto. Que também seria conveniente que o caminhão exibisse legumes e frutas, já que era um fato comum o deslocamento desses alimentos, antes do amanhecer, dos locais de armazenamento para os pontos de distribuição pela cidade. Que o lugar do encontro dos dois veículos ficava situado dois quarteirões ao norte da rua onde a barreira a ser explodida estava situada. Dante também disse que, precisamente às 02:35 da manhã, ele chegaria ao local com Dimitrov, o qual substituiria Yussef no volks. E que, imediatamente, os dois veículos deveriam começar a se mover em direção ao primeiro alvo - a barreira -, tão rápido e silencioso quanto possível, desde que o elemento surpresa era essencial. O caminhão procederia à frente e o carro o seguiria a uma distância de uns 100 metros. Depois da primeira curva, Omar estaria a uns 50 metrosos da barricada a ser explodida pelo caminhão. Então o palestino deveria acelerar o veículo e, com o acelerador mantido abaixado por um dispositivo especial preso a ele, deveria pular do veículo e tentar se afastar para longe da área, tão rápido quanto possível.
E, finalmente, Dante informou que, alguns metros além da barreira, havia uma segunda curva e, depois dela, a rua atrás do museu. Uma vez explodida a barricada, o resto dependeria de dois fatores: que a explosão criasse uma brecha para permitir a passagem do volks e que a perícia e a coragem de Dimitrov conduzissem o carro ate o alvo, destruindo a ala arqueológica. Quando a explicação acabou, Dante estava convencido que Omar realizaria, satisfatoriamente, a parte dele na operação. O jesuita acertou seu relógio com o do palestino e lhe deu os dez mil dólares. Depois, pagou a Abdula os três mil pelo volks, acenou um adeus e se foi. O ford tomou a direção da Igreja dePater Noster. Dante precisava de algumas horas para pensar e descansar. Depois, ele iria para ao Hotel dos Reis, a fim de executar a última parte do plano havia tão brilhantemente concebido .
* * * * *
Capítulo 33
Jerusalém, Hotel dos Reis, noite de 19 de julho de 200_
A Shin Bet tinha instalado, na véspera, no chão do quarto acima daquele ocupado pelos padres, vários modernos equipamentos para escuta e registro, os quais estavam sendo monitorados por dois agentes. A tecnologia da parafernália eletrônica possibilitava distinguir, com razoável clareza, as conversas no quarto 1004, apesar da interferência produzida pelo som do rádio que Chiesa mantinha o mais alto possível, sempre que ele e o frade dialogavam. Estavam convictos que os israelense tinham grampeado os telefones celulares deles, bem como colocado equipamentos de escuta. Por isso, quando o assunto era mais confidencial, eles mudavam do italiano para o latim, um idioma em que ambos eram fluentes, para dificultar a tarefa dos judeus em entender o que eles diziam. Chiesa estava ficando cada bez mais ansioso, profundamente afetado pela inércia forçada. Dimitrov, ao contrário, parecia estar em total estado de paz . Para o jesuíta, era humilhante ter de admitir que o comando da operação estava agora completamente nas mãos de Dante.
Em latim, Chiesa disse para o companheiro:
- Eu entendo que o Dante não pode vir aqui a toda hora para nos informar sobre o que está acontecendo, mas como ele não apareceu na madrugada passada, como planejado, certamente aconteceu algum imprevisto. E é terrível estar neste quarto, virtualmente prisioneiro, ignorando o que está se passando.
Dimitrov, sentindo que a hora final dele se aproximava, permanecia a maior parte do tempo meditando ou rezando, pedindo a Deus que lhe concedesse a mesma coragem e resiganação, que Jesus tinha demonstrado, dois mil anos antes. As palavras de Chiesa interromperam a concentração, mas a mente tinha registrado o que o outro havia dito. Dimitrov abriu os olhos e, ainda de joelhos, disse, também em latim:
- Nós temos que ser pacientes, Chiesa. No momento certo, o Dante virá. Eu sinto que a operação acontecerá na próxima madrugada e assim não me será dado ver um novo dia. Quando o sol aparecer amanhã, meu amigo, eu estarei na eternidade. Porém, não temo a morte. Apenas receio o dia do julgamento final, quando meus pecados serão julgados.
De repente, movido pela devoção exibida pelo dominicano, Chiesa, inconscientemente, voltou a falar em italiano, dizendo:
- Dimitrov, quando seu corpo se transformar em cinzas, também em cinzas terão virado os seus pecados. Todos os crimes que cometemos, foram para proteger nossa Igreja. Logo, você morrerá purificado e o arcanjo Gabriel levará sua alma até Jesus.
A face do dominicano se iluminou. Ele fez o sinal da cruz e clamou:
- Amém!
* * *
No quarto de cima, o agente Eli removeu um dos telefones da orelha e disse ao colega:
- Micha, eles há pouco voltaram a conversar, mas usaram um idioma estranho. Parecia latim.
- O que o faz pensar assim?
- Bem, porque eles aprendem latim no seminário e, antigamente, esse era o idioma que usavam nas missas. Claro que eu não entendi nada. No fim, porém, Chiesa falou novamente em italiano e disse ao Dimitrov que o corpo dele se transformaria em cinza. Você acha que o frade está planejando atear fogo no próprio corpo, como alguns monges fizeram no Vietnã?
- Por que ele faria isso? - Não sei...Por outro lado, você se lembra do que eles disseram no QG, quando nos encarregaram desta missão?
- Que o diretor do Mossad está convencido que esses dois planejam explodir o Museu de Israel, a qualquer preço?
- Isso mesmo. Talvez Dimitrov esteja planejando um ato suicida. E que, ao explodir o museu, o corpo dele se transformaria em cinza.
- Mas como ele vai fazer isso, Eli? Eles estão no 10º andar deste hotel. Dimitrov não tem asas e as paredes do edifício são totalmente lisas. E, ainda que se transformasse numa aranha ou num ninja e conseguisse escapar pela janela, nosso pessoal lá embaixo o capturaria ou acabaria com a vida dele. E então o corpo de Dimitrov não se transformaria em cinza, mas em um barril furado.
- Olha, Micha, esse sujeito é muito perigoso. Lembra dos dois policiais de que ele é suspeito de ter matado?
- Lá Dimitrov contou com o fator surpresa. Agora, seria diferente. A força dele não lhe serviria nada contra as balas de duas ou três Uzis.
- É verdade, Micha, mas há um outro fato que está me intrigando.
- Qual é?
- Eu ouvi duas vezes, bastante claramente, eles mencionarem o que parece ser o nome de uma pessoa.
- Que nome?
- Dante. Mas para ter certeza, vamor ouvir o que ficou registrado.
A fita foi recuada até o início. Os agentes escutaram, cuidadosamente. No fim, Micha disse:
- Você tem razão. Eles mencionaram o nome 'Dante' duas vezes. E, Eli, isto pode ser uma pista importante. Talvez este Dante seja outro padre envolvido na conspiração para explodir o Museu de Israel. Você se importa em continuar escutando e registrando ao mesmo tempo?
- Claro que não, por que?
Micha removeu a fita do gravador, se levantou e disse:
- Vou levar esta fita ao QG, imediatamente. Alguém lá pode saber como traduzir a conversa e descobrir quem é esse Dante.
* * *
Micha chegou ao HQG da Shin Bet às 20:47. Dirigiu-se a Uzi Lebel, informou o deputado sobre a conversa entre Chiesa e Dimitrov e lhe entregou a fita.
* * *
Às 21:30 da tarde, o Departamento de Assuntos Religiosos informou à Shin Bet que, entre os 176 padres católicos que havia em Israel, não tinha nenhum chamado Dante. Nos registros havia um Andréa Fontana. Porém, até aquele momento, esse nome, como todos os outros, não significava nada para as agências de inteligência israelenses.
* * * * *
Capítulo 34
Jerusalém, início da madrugada de 20 de julho de 200_
Mais uma vez 500 shekels mudaram de mãos. E enquanto o homem encarregado do 'room service' do Hotel dos Reis embolsava as notas, Dante, usando o mesmo disfarce facial, com roupas de garçon e levando uma bandeja com sanduíches e bebidas, tomava o elevador de serviço para o 10º andar. Chegando lá, o jesuíta respirou aliviado: os dois agentes que patrulhavam o andar não eram os mesmos da vez anterior. Dante trocou " shalom " com eles e bateu na porta de quarto 1004.
Chiesa abriu e ele entrou. A porta fechou. Um dos agentes disse:
- É exatamente como Alan falou: esses dois sujeitos são loucos por um lanche noturno. Eles devem sofrer de insônia.
Tão logo entrou no quarto, Dante pôs o dedo nos lábios, no gesto característico de "não falem nada". Os outros religiosos entenderam. O "garçon" removeu um papel do bolso e passou-o a Chiesa. Dimitrov se aproximou e, juntos, leram a mensagem de Dante: "Ligue o rádio, mas ainda assim, não digam nada. Há dois agentes lá fora, no corredor. Depois de ler esta mensagem, você, Chiesa, deixa o quarto e vai diretamente para o elevador. Um dos agentes certamente o acompanhará. Deixe o hotel, caminhe ao acaso, ou pegue um táxi, e faça tudo para despistar o agente. Quando tiver certeza de não estar mais sendo seguido, va para a casa paroquial localizada atrás da Igreja de Pater Noster e espere por mim. Esta é a chave que você usará para entrar. Está claro? " Chiesa sinalizou que sim e a leitura ficou suspensa, enquanto Dante entregava a chave. Depois recomeçaram a ler: "Dimitrov, ponha as roupas de garçon que o Chiesa trouxe quando voltou de Roma. Em seguida, deite no chão e espere. Alguns minutos depois que o Chiesa sair, eu irei ao corredor para atrair o outro agente. Acharei um modo do traze-lo aqui. Então nós o eliminaremos e deixaremos o hotel. Usaremos o elevador de serviço, cruzaremos a cozinha e sairemos pelos fundos. Meu carro está estacionado numa rua perto daqui. Quando estivermos a caminho, eu lhe darei as instruções sobre como você deverá proceder. Está claro? " Dimitrov confirmou com um gesto da cabeça.
Dante fez um sinal a Chiesa que acenou para o dominicano e saiu batendo a porta. Ele passou pelos agentes sem olhar para eles e caminhou diretamente para o elevador. Um dos guardas se levantou da cadeira em que estava sentado e o acompanhou. O elevador chegou e o padre entrou nele. O agente fez o mesmo. Na rua, enquanto o jesuíta parecia vagar sem qualquer destino específico, o agente se esforçava para não perder o padre de vista.
Cinco minutos depois que Chiesa tinha partido, a porta do quarto 1004 se abriu. Dante correu para o agente que tinha ficado. O homem da Shin Bet viu o "garçon" e já ia puxar a arma, quando o jesuíta gritou, em hebraico:
- Ajuda, por favor, ajuda. O padre gordo do 1004 caiu ao chão e parece estar tendo um ataque epilético. A reação reflexa prevaleceu sobre o raciocínio. O agente empurrou o "garçon" para o lado e correu na direção do quarto. Ele parou no umbral da porta e viu Dimitrov deitado no chão. Numaa fração de segundo, percebeu que o frade também trajava roupas de garçon. Não entendendo, mas pressentindo que algo estranho estava acontecendo, o agente clamou:
- O que está acontecendo aqui?
Ao mesmo tempo, ele se virou para confrontar Dante, que se achava logo atrás dele. Mas o agente nunca completou a volta. Sentiu um impacto no lado da cabeça e tudo escureceu. Ele já estava morto quando o corpo alcançou o chão. Um projétil 7.65, disparado de uma Beretta, tinha penetrado no lóbulo temporal direito. Dante removeu o silenciador da arma e cobriu-o com um lenço. Depois guardou os dois artefatos no bolso do casaco. Dimitrov o ajudou a levar o corpo para dentro do quarto. Logo, os dois agentes do Vaticano correram na direção do elevador de serviço. Quatro minutos depois, após terem cruzado a cozinha, debaixo dos olhares surpresos das poucas pessoas que ainda lá estavam, eles deixaram o hotel pela saida de serviço. Cinco minutos mais tarde, com Dante na direção e Dimitrov no assento lateral, o ford seguia para o lugar da reunião. O jesuíta olhou para o relógio: 02:03. Eles tinham bastante tempo. Agora, o importante era ajustar a velocidade do veículo para chegar na hora exata. Dimitrov começou a remover as roupas de garçon. O jesuita lhe lançou um olhar e perguntou:
- O que você está fazendo ?
- Removendo este ridículo disfarce. Eu quero morrer usando as vestes da minha ordem.
Dante entendeu e não disse nada durante algum tempo. Então, ele começou a explicaar para Dimitrov, detalhadamente, todo o plano que tinha concebido para destruir a ala archeologica do museu. Quando estavam relativamente perto do destino, o dominicano virou-se para o jesuíta e perguntou:
- De quanto tempo ainda dispomos?
Dante consultou o relógio.
- Dez minutos. Porque a pergunta?
- Seria possível parar durante um breve minuto?
Havia um tom de súplica na voz de Dimitrov. Eles estavam cruzando uma área escura e nenhuma luz era visível de qualquer direção. O jesuíta parou o carro perto da calçada e virou-se para o dominicano:
- Só dois minutos, Dimitrov. Seria imprudente parar aqui por mais tempo. O que você quer?
O frade fechou os olhos, uniu as mãos em posição de oração e disse:
- Dante, eu não quero morrer sem receber a extrema unção . Dê-me o sacramento, em nome de Jesus.
O jesuíta hesitou, mas não mais que por dois ou três segundos.
- Claro que sim, Dimitrov.
Com o dedo polegar direito, Dante riscou a testa e o dorso das mãos do dominicano e disse, lentamente:
- "Que o Senhor Deus lhe conceda a graça do Espírito Santo, de forma que você fique livre de seus pecados. E que, pela bondade Dele, você venha a reviver".
Dimitrov abriu os olhos e separou as mãos. A face rude se iluminou.
- Obrigado, Dante. Agora eu estou em paz e pronto para fazer o que Deus e a Igreja exigem de mim.
E ele se fez confortável no assento. Dante virou a chave do carro, acendeu as luzes e o ford se pôs a caminho. Sete minutos depois, precisamente às 02:34 horas, parou bem atrás do volks. Rapidamente, Yussef e Dimitrov trocaram de carro. A um sinal do jesuíta, Omar virou o motor e o caminhão, que estava alguns metros à frente, começou a se mover. Dante, tendo agora Yussef no assento lateral, manobrou o guidon e o ford partiu, tomando a direção oposta daquela que tinha vindo. Dimitrov esperou por alguns segundos. Então, ele virou a chave e o volswagen, mantendo uma certa distância, seguiu o caminhão.
* * *
Depois de uma série de deslocamentos evasivos, algumas vezes a pé, outras de táxi, Chiesa finalmente se convenceu de ter enganado o agente. Ele estava agora parado, protegido pela escuridão, a alguns metros do muro das lamentações. O padre permaneceu lá durante mais cinco minutos. Não notando ninguem em sua perseguição, começou a caminhar, até alcançar uma rua bem iluminada. Dentro de alguns minutos, ele viu um táxi se aproximando. Sinalizou. O carro parou. O jesuíta entrou e deu para o motorista um endereço próximo da Igreja de Pater Noster.
* * * * *
Clique Aqui para continuar