O HOMEM QUE ENTERROU JESUS

Sobre a Arqueologia

Em arqueologia, escavação e trabalho de campo, quase sempre deixam o arqueólogo embaraçado porque, paradoxalmente, eles envolvem a destruição parcial do sítio arqueológico, objeto da pesquisa, sem que ele possa jamais recapturar o todo da informação que o sítio contêm. Ao longo da escavação, o arqueólogo destroi a estratigrafia* e as estruturas construídas pelo homem, ao remover enormes quantidades de terra, para ser capaz de interpretar o que permaneceu. "Ver o que está embaixo" é essencial para a interpretação, mas nunca provê uma resposta completa. Porque, no curso da escavação, para se chegar "lá embaixo", muito da estratigrafia e das estruturas são, como já mencionamos, inevitavelmente destruídas. E este é, exatamente, o grande drama da arqueologia: apanhar da terra cavada apenas um mínimo de informação inteligível, enquanto muitos dados e coisas importantes ficarão perdidos para sempre.

Não obstante, a arqueologia tem provido valiosos subsídios para reconstituir a história de humanidade. Também nos dá uma idéia aproximada de como as cavernas eram e, mais tarde, como eram as aldeias e cidades que os humanos habitaram, em lugares diferentes e em tempos diferentes. Revela, ainda, através de vários artesanatos, escritos, pinturas, desenhos e esculturas, como os grupos sociais viveram em suas próprias épocas e espaços.

Alguns achados se tornaram autênticas "chaves" que destrancaram as portas para a descoberta de informações preciosas sobre o passado de muitas civilizações. Como no caso da famosa pedra do Roseta que permitiu aChampolion, decodificando hieroglifos até então indecifráveis, construir um universo de conhecimentos relativos ao antigo Egito. Outras descobertas, originando de núcleos culturalmente mais desenvolvidos, constituem revelações de naturezas específicas, apresentadas como mapas, documentos religiosos, legislações ou testemunhos, registrados em papiros ou pergaminhos.

Como, só para exemplificar, os manuscritos do Mar Morto e, publicado sob o disfarce de um romance, o testemunho de José de Arimateia...

* - Estratigrafia - é o estudo seqüencial da composição atual das diferentes camadas da crosta terrestre, como também de suas configurações em eras geológicas passadas.

Introdução

O papel desempenhado pelo misterioso José de Arimateia nos eventos que se seguiram à morte de Jesus, parece ser muito mais relevante do que se pode deduzir do Evangelho de João. O novelista e historiador Hugh Schonfield, no livro " A Conspiração da Páscoa" e Oliver Marti, na tese "Em Busca da Verdade ", desenvolveram a hipótese que o nobre fariseu tomou parte em um complô visando salvar a vida do Nazareno. Rumores que vêm de longa data, dão conta que Arimateia escreveu uma espécie de testemunho, sobre fatos não contados na Bíblia, mas que teriam acontecido depois do enterro de Jesus. E que os pergaminhos que contêm a narrativa do fariseu foram encontrados, muitos anos depois, pelo Imperador Constantino, que os escondeu em Jerusalém, debaixo da basílica do Santo Sepulcro. Se tal documento realmente existe, talvez venha a ser eventualmente descoberto por algum arqueólogo, no presente ou no futuro.

E é este, precisamente, o tema ao redor do qual giram os acontecimentos descritos neste livro. Que é, naturalmente, apenas um trabalho de ficção. Porém, devemos ter em mente que a história de humanidade está repleta de ocorrências mais incríveis que muitas das histórias criadas pela fantasia de um novelista. Assim, embora improvável, não é impossível que certos fatos, narrados nesta ficção, pudessem ter acontecido. Não necessariamente como são apresentados aqui, mas, talvez, de um modo não muito diferente... Como já foi dito e o próprio título do livro sugere, o " pivô " desta narrativa é um testemunho que nossa imaginação atribuiu a José de Arimateia, e no qual, pelo menos ficticiamente, um dos maiores mitos do cristianismo é desnudado.

Porém, a narrativa nos conduz também a outros temas fascinantes. Como exploração arqueológica, terrorismo no Oriente Médio, fanatismo religioso, a rede de espionagem da Igreja e complôs criminosos tramados pelo Vaticano, as atividades das agências de inteligência de Israel e a astúcia empregada por um grupo de arqueólogos para preservar a informação obtida de preciosos pergaminhos.

Prólogo

Jerusalém, sexta-feira, 03:25 da tarde, 07 de abril, 36 DC

Pôncio Pilatos fez um gesto vago com a mão e disse ao homem velho que estava diante dele:

- Muito bem, eu concedo o que me pede. Ordenarei que o corpo seja removido imediatamente da cruz. Em seguida, você pode leva-lo para ser enterrado. Um centurião o acompanhará e, em caso de necessidade, soldados o ajudarão em sua tarefa.

José de Arimateia fez uma ligeira reverência e disse:

- Eu lhe sou profundamente grato, Procurador.

Em seguida, o fariseu deu meia volta e deixou rapidamente a fortaleza Antonia.

Capítulo 01

Jerusalém, janeiro de 200_

Ao amanhecer do primeiro dia do novo ano, terroristas palestinos, em seu ataque mais audacioso e violento contra Israel, usando mais de uma tonelada de sentex, explodiram a área da basílica do Santo Sepulcro e adjacências, matando ou ferindo mais de trezentas pessoas, entre religiosos, peregrinos, turistas e cidadãos árabee e israelenses, dentro do santuário sagrado dos cristãos e nas ruas, lojas e edifícios próximos. Esta tentativa só foi superada, em audácia e número de vítimas, pelo ataque contra o "Word Trade Center" e o Pentágono, também levado a cabo por extremistas árabes, em 11 de setembro de 2001.

Seis horas depois do ataque, o Knesset entrou em sessão e o primeiro-ministro David Berger recebeu carta branca para executar a mais severa retaliação possível contra os Palestinos.

Em seguida, Berger convocou uma reunião de emergência como o diretor do Mossad, o ministro de defesa e o comandante das forças especiais anti-terroristas.

- Desta vez eles foram longe demais. - declarou o Chefe de Estado - Se nós não lhes impusermos um castigo exemplar, amanhã eles destruirão o Knesset, o aeroporto Ben Gurion, nossas usinaas nucleares, ou qualquer outro objetivo vital do país. Mas não bastará apenas ferir o corpo da serpente. A cabeça deve ser decapitada.

E virando-se para o diretor do Mossad:

- Ariel, onde estão agora os líderes do Hezbolá, do PLF e do Hamas?

- Espalhados, mas o agente que infiltramos junto a Abu El Kazin, o atual chefe do Hamas, nos informou que - ele consultou o relógio - dentro de mais ou menos três horas, a cúpula do terrorismo palestino estará se encontrando em um local altamente secreto - assim eles acreditam -, uma fortaleza concreta, um "bunker" encravado nas colinas de Jebel Esh Shargi, no lado libanês, próximo à fronteira síria. Eles pretendem avaliar os resultados do ataque e discutir sobre o que fazer para se livrarem da responsabilidade pelo atentado. Mas El Kazin e seus asseclas ignoram que um dos terroristas que penetraram no Santo Sepulcro, disfarçado de peregrino, amarelou: o bastardo pôs uma carga explosiva atrás de uma cripta na basílica e saiu correndo. O que chamou a atenção de uma de nossas patrulhas. Os soldados sairam em perseguição e o capturaram em uma ruela, imediatamente antes da explosão. Ele confessou tudo, debaixo de uma certa pressão, naturalmente. No momento ele está preso. Poderemos expo-lo na televisão para que ele repita a confissão, publicamente. Isto justificará, se necessário, nossa retaliação.

Ele fez uma pausa e logo continuou:

- Bem, nós acreditamos que depois da reunião na fortaleza, os líderes terrositas vão desaparecer por algum tempo, esperando que a poeira venha a baixar. Se vamos pega-los, tem de ser agora. O "bunker " deve estar guardado por uns 100 soldados, não mais. Já demos as coordenadas para o ministro da defesa. Também identificamos quatro campos de treinamento de guerrilha no Líbano e dezoito alojamentos de terroristas em Gaza e em áreas perto de Hebron e Jericó. Todos os detalhes foram passados ao general Isaac Cohen.

Ariel terminou de falar. David Berger virou-se para o general:

- Isaac, podemos destruir os campos e alojamentos e montar um ataque devastador contra essa fortaleza, dentro do curto prazo de que dispomos?

- Sim. Nós já temos um plano definido e os homens que participarão da operação estão concentrados, esperando a ordem para atacar.

- Você poderia nos fazer resumo de como o ataque será realizado? E lembre-se disso: ninguém, absolutamente ninguém, deve escapar. Nenhum prisioneiro, está claro?

- Perfeitamente. Os campos e alojamentos serão esmagados por projeteis lançados de helicópteros e jatos F-16. Faremos tantas incursões quanto necessárias para transformar tudo em pó. Em relação à fortaleza no Líbano, nós atacaremos primeiro com projeteis e bombas. Em seguida, tropas da brigada especial anti-terrorismo descerão dos helicópteros, explodirão o que restar do "bunker" e eliminarão quem tenha sobrevivido ao bombardeio. Como você determinou, não faremos prisioneiros. Durante o tempo inteiro da operação, que eu calculo durará aproximadamente quarenta minutos, manteremos uma forte cobertura aérea, para impedir uma eventual intervenção de aviões sírios, embora não acredite que eles ousarão tentar qualquer reação. Isso é tudo.

- Soa perfeito. Quando pretende começar a operação?

Cohen olhou para o relógio.

- Dentro de três horas e vinte minutos os aviões e helicópteros começarão a decolar de suas bases. O ataque começará dentro de quatro horas.

* * *

E tudo aconteceu exatamente como o ministro da defesa tinha previsto. Não houve sobreviventes, nem foram feitos prisioneiros. E o PLF, o Hezbolá e o Hamas, agora destituídos de suas lideranças, praticamente deixaram de existir. Os israelenses reocuparam todas as áreas que tinham sido cedidas à Autoridade Palestina. E milhares de muçulmanos reiniciaram um novo êxodo para os países árabes vizinhos. O Oriente Médio voltou a uma situação de total instabilidade social, política e econômica, debaixo da rígida vigilância das forças armadas de Israel. O sonho de uma paz duradoura na região tinha desaparecido com o Santo Sepulcro .

* * * * *

Capítulo 02

Jerusalém, 27 de junho de 200_

Meu nome é Antonini Olivieri e eu chefio um grupo de arqueólogos do Internacional Archeologic Institute, uma entidade subsidiada por fundações européias e americanas. O destino me designou para descrever uma aventura fantástica, na qual se desnuda um dos maiores mistérios de história humana. A aventura - ou não seria mais correto chamar de saga? - começou quando, depois da remoção dos escombros da basílica do Santo Sepulcro e adjacências, ficou uma imensa cratera, com aproximadamente trinta metros de diâmetro por dez de profundidade. Seis meses depois da tragédia, quando o acesso ao lugar foi permitido pelo governo israelense, fomos enviados para Jerusalém a fim de explorar o fundo da cratera, uma vez que seu solo calcário apresentava falhas de terra macia, o que indicava a possibilidade de haver "lá em baixo" um sítio arqueológico. Interrompemos uma escavação que estávamos executando perto de Aman e viemos para cá.

A escavação está entrando, agora, em sua segunda semana. Nosso time é formado por cinco arqueólogos e vinte e dois trabalhadores especializados nesse tipo de tarefa. Temos, a nossa disposição, as mais modernas parafernálias usadas em arqueologia: andaimes, contenções de encostas, escadas de ferro, um míni elevador movido a diesel, máquinas escavadoras para remover a terra acumulada, equipamento fotográfico, filmadoras, potentes lanternas para uso individual, refletores poderosos alimentados por geradores localizados na superfície ao redor da cratera, ferrulas, martelos, escovas e espátulas, de todos os tipos e tamanhos, e tudo mais necessário para permitir um trabalho eficiente em um sítio arqueológico.

Nós, os cinco arqueólogos, temos trabalhado junto durante aproximadamente sete anos, realizando escavações em vários países no Oriente Médio, particularmente em Israel, Jordânia e Egito.

A basílica primitiva tinha sido concluída em 336 DC por Constantino o Grande, e depois, destruida e reconstruida várias vezes, até adquirir sua última estrutura em 1868, quando a cúpula da rotunda foi recomposta, graças à contribuições da França, Rússia e Turquia.

Até agora, tínhamos alcançado uma profundidade de cerca de vinte metros e achado innúmeros artesanatos, moedas e fragmentos de pergaminhos escritos em grego antigo ou em latim. Tudo fabricado - assim indicou o teste do C14 - entre os séculos XII e XIX.

As descobertas são fotografadas e filmadas e, quando nós subirmos a superfície, os achados são entregues a inspetores do Departamento de Descobertas Arqueológicas de Israel. Conservamos para nós os filmes e mantemos uma espécie de diário do que acontece enquanto estamos cavando. Quando voltarmos à superfície, nós somos, delicada, mas rigorosamente, revistados. O mesmo acontece com os trabalhadores, e aqueles de origem árabe passam também pelo processo amtes de descerem ao sítio. Ninguém quer correr o risco de uma nova explosão! Essas medidos são parte das regras previamente estabelecidas entre nossa instituição e as autoridades israelenses.

Como disse antes, nós tínhamos cavado, até então, cerca de vinte metros, no sentido vertical. Porém, uma grande extensão de terra permanecia macia, indicando que nós ainda estávamos longe de alcançar a profundidade máxima do local. Portanto, vamos continuar cavando e afundando cada vez mais.

Nosso time é formado por profissionais competentes, cientificamente homogêneos, mas com características individuais bastante diferentes:

Daniele, uma bonita e alegre americana, nascida em Cleveland. Loira, 34 anos, dona de um par de olhos verdes que se estreitam quando ela sorri. Ela é Metodista não praticante.

Charles Douglas, um londrino típico, 45 anos e ateu convicto. Alto e magro, com um queixo prolongado, fazendo lembrar o de Sherlock Holmes, ele tem olhos azuis claros, contrastando com a cor vermelha do cabelo.

Irma Kleist, alemã, originária de uma família tradicional da Pomerânia. Católica por batismo, tem um cabelo preto macio, com algumas mexas brancas começando a aparecer. Ela é uma arqueóloga veterana, com expressivos olhos azul-acinzentados que iluminam seus bem preservados 44 anos.

Yuri Watzman, israelense, um sabra alto, escuro e magro, com olhos e cabelos pretos. Sempre sorrindo, o mais jovem do grupo, com apenas 26 anos, ele é um judeu praticante que vai regularmente à sinagoga e, de vez em quando, troca seu papel de arqueólogo pelo de artilheiro de carros de combate, nas areias do Negev ou pelas colinas escarpadas de Golan.

E eu, Antonini Olivieri, nascido em Roma, de estatura e complexão medianas, olhos e cabelos castanhos. Em boa forma para meus intensamente vividos 50 anos, sou um católico que raramente assiste a missa mas mantém um grande respeito por Deus, por Jesus e pelo papa.

Eu pensei ser justificável mostrar as tendências religiosas do grupo, uma vez que a nossa atual tarefa pode levar à descobertas relacionadas com o começo de cristianismo. Descobertas que podem afetar, de algum modo, a espiritualidade das pessoas envolvidas. Somos todos solteiros, já que as atividades de um arqueólogo, por sua própria natureza, não costumam possibilitar aquele mínimo de estabilidade necessária para o sucesso de matrimônio. A menos que você se case com outro arqueólogo e ambos trabalhem juntos. Ainda assim... Fora das horas de trabalho, nós ficamos acomodados em um apartamento localizado na parte nova da cidade; cada um de nós, os estrangeiros, ocupando um pequeno quaro . Yuri reside na casa dos pais, em um subúrbio perto, ou no apartamento de Leila, a namorada dele, uma sabra voluptuoso com olhos de mel, enfermeira no Hospital Hadassah.

Com exceção de Yuri que, aparentemente, leva uma vida sexual normal, os outros, eu incluído, não temos muito tempo ou oportunidade para sexualidade. Suspeito que Charles e Irma estão tendo uma espécie de "affair". Ambos procuram ser discretos, mas, quando não estão trabalhando, costumam passar a maior parte do tempo juntos. Ocasionalmente, eles ficam horas jogando xadrez e, de vez em quando, os dedos se tocam delicadamente por cima do tabuleiro e eles permanessem se olhando, ignorando o jogo. Mas, como disse, é só uma suspeita; talvez nada exista além de um simples namoro. Até pouco tempo atrás, eu ia, vez por outra, a Tel-Aviv, satisfazer minhas necessidades sexuais com as meninas da boate do Hotel Hilton. Um sexo vazio, sem qualquer elo emocional.

Falando de sentimento: ultimamente, eu vinha pensando muito na Daniele. Agradava-me - e ainda me agrada, é claro - contemplar o modo sensual com que ela sopra uma mecha de cabelo que insiste em ficar caindo por cima da testa. Ontem, quando nós tentávamos passar, ao mesmo tempo, por um espaço estreito entre dois postes de contenção, meu braço esbarrou de encontro o seio dela e o mamilo se tornou imediata e visivelmente rígido. Eu sorri. Daniele ruborizou ligeiramente e olhando meus olhos bem no fundo, perguntou:

- Foi não intencional ou de propósito, Toni? - (é assim que ela me chama).

Eu sustentei o olhar e respondi:

- Foi não intencional, mas, se houver outra chance, será de propósito, Dani. - (é assim que eu a chamo).

Mantendo os olhos fixos nos meus, ela perguntou:

- Por que?

 

Eu respirei fundo, enchi-me de coragem e respondi:

- Porque você me excita tremendamente.

Ela continuou me encarando. Parecia um olhar de desafio. Eu colei meu corpo ao dela. Daniele não se moveu. Lentamente, nossos lábios se aproximaram. Foi um beijo ávido, molhado, quente e profundo. Nós estávamos suados e cobertos de poeira, mas foi o beijo mais delicioso que aconteceu na minha vida.

Naquela mesma noite eu voltei ao Hilton em Tel-Aviv, mas não fui buscar nenhuma das meninas da boate. Daniele estava comigo. Foi a noite mais maravilhosa da minha vida. Nós fizemos amor até a exaustão. Não houve nada diferente das experiências anteriores que eu tinha tido. Mas o que tornou tudo uma magia incomparável foi a entrada em cena de um ingrediente novo: paixão. Daniele e eu estávamos loucamente apaixonados.

* * * * *

Capítulo 03

Jerusalém, 07 de julho de 200_

À medida que progredíamos, sempre cavando verticalmente, mais estacas tiveram que ser colocadas, para reforçar as paredes internas da cratera a fim de evitar eventuais desmoronamentos. Ontem, quando tinhamos alcançado vinte e oito metros de profundidade, fizemos uma descoberta altamente significativa: uma espécie de prato comemorativo, feito de pedra, na qual estavam escritas, em bronze, palavras em antigo grego. Um idioma do qual eu possuía um conhecimento razoável. Traduzido, elas diziam: "Constantino o Grande, para glorificar Nosso Senhor Jesus Christo, ordenou a construção, neste lugar, da Igreja do Santo Sepulcro". Nós tínhamos alcançado o quarto século, quando a basílica primitiva ficava situada fora das paredes de cidade. E, de acordo com historiadores, a área da igreja compreendia o Gólgota e a sepultura de Jesus.

Nosso entusiasmo cresceu. Mas também cresceu o interesse de outras partes. Dois dias depois da descoberta do prato de Constantino, quando a tarde ia acabando, Jacob Landau, chefe dos inspetores do Departamento de Descobertas Arqueológicas, informou-me que o governo israelense tinha aceito um requerimento do Vaticano para que um padre jesuíta e um frade dominicano acompanhassem as escavações. A notícia da descoberta havia chegado, rapidamente, por meios desconhecidos, à Roma. E a Santa Sé agiu com igual rapidez. Nenhum arqueólogo gosta da presença de estranhos no local da escavação, mas eu não tinha como recusar. Porém, impus condições: os recém chegados podiam observar, mas sem o direito de tocar, fotografar ou filmar qualquer coisa que fosse eventualmente encontrado, sem minha expressa autorização. Porque, conforme o contrato estabelecido, o registro de qualquer descoberta era exclusividade nossa. Jacob concordou e disse que informaria os religiosos sobre as regras a serem seguidas.

Alguns minutos depois eles chegaram pelo mini elevador.

* * * * *

Capítulo 04

Em algum lugar ao redor de Jerusalém, 04 de março de 325 DC

Jerusalém é um cidade cercada por colinas. Na base de uma delas, situada ao norte, um velho beduino buscava uma sombra para se abrigar do sol escaldante do meio-dia. Ele pulou por cima de algumas pedras e deparou com uma pequena caverna. O árabe entrou nela e sentou no chão úmido onde a luz mal penetrava. Correu a mão ao derredor e seus dedos tocaram algo duro e frio. O beduino apanhou o objeto e vericou tratar-se de um vaso feito de barro, com a tampa fixada por duas tiras de cera, dispostas em forma de cruz. Ele rasgou a cera, afastou a tampa e deixou o conteúdo do vaso cair no chão. Eram pergaminhos, relativamente bem preservados, embora muito velhos, como indicava a cor amarelada . Ele deslizou para a frente, de modo que o sol lhe permitisse ver melhor. Nos pergaminhos estavam escritos caracteres em cor preta. Sendo totalmente analfabeto, ele não pôde sequer imaginar o significado deles. Porém, o beduino era inteligente. Pergaminhos velhos, pensou, sempre têm algum valor. Talvez alguém lhe desse alguns shekels por eles. Por que não tentar?

Um comerciante árabe, dono de uma loja perto das ruínas do velho templo, examinou os pergaminhos e pagou seis shekels por eles. Ele reconheceu que os caracteres não estavam escritos em grego clássico. Eram diferentes; talvez algum dialeto Hebraico; não dava para saber. Porém, sua intuição alertou-o para o fato de que velhos pergaminhos podem interessar um estudante ou uma pessoa religiosa. E se lembrou que, não muito longe da loja dele, havia um alojamento para missionários de uma seita de infiéis chamados cristãos. O comerciante foi ao local. Lá, falou com um homem, vestido todo de preto, que parecia ser um padre, falava árabe razoavelmente e, depois de examinar os pergaminhos, mostrou interesse em adquiri-los. Foi uma transação rápida: os pergaminhos foram trocados por vinte shekels.

O comprador era um padre italiano chamado Pietro Romiti. Ele levou os pergaminhos para o seu quarto no alojamento e começou a ler, cuidadosamente, receioso de danificar os frágeis documentos. Ele não era um perito em teologia, mas tinha um bom conhecimento de idiomas antigos e reconheceu os caracteres como sendo Coine, uma espécie de grego coloquial e popular, escrito e falado, alguns séculos antes, nas províncias orientais do império romano. Porém, o pouco que foi capaz de entender lhe disse que esses documentos, se autênticos, poderiam revolucionar toda a doutrina cristã. O que fazer? O que tinha em sua posse era algo muito grande e muito pesado para os ombros frágeis de um simples padre-missionário . Foi quando a imagem do bispo Osio, um ex-professor, com quem ele mantinha ainda contatos ocasionais e laços de amizade, veio-lhe à mente. Sim, essa seria a solução correta: levar os pergaminhos para o bispo. Além de ser um grande teólogo, Osio era conselheiro do imperador Constantino. Ele estava agora em Nicea, preparando o conselho que aconteceria em breve naquela cidade. Osio saberia o que fazer com os pergaminhos. Pietro foi ao superior da missão a que estava agregado e contou-lhe que necessitava partir, para dar uma informação importante ao bispo de Córdoba. A menção do nome de Osio foi suficieente: o superior consentiu de imediato.

Cedo, na manhã seguinte, Pietro cobriu os pergaminhos com panos linho e os pôs dentro do seu saco de viagem. Em seguida, montou num cavalo e começou a longa viagem para Nicea.

* * * * *

Capítulo 05

Nicea, Palácio Imperial, 28 de maio de 325 DC

Dentro de alguns dias o concílio começaria. Fora convocado por Constantino, a fim de resolver as divergências teológicas entre as diferentes facções cristãs e definir um credo para A Igreja de Jesus Cristo, agora uma religião permitida no império romano. Esperava-se que aproximadamente 250 bispos e dúzias de presbíteros e teólogos compareceriam. Constantino tinha se convertido recentemente ao cristianismo, embora recusasse ser batizado (isso aconteceria só muitos anos depois, no leito de morte do imperador). Constantin não tinha, ainda, se libertado de sua fé em outros deuses, aqueles que cultivara desde a infância: os deuses herdados da mitologia grega. No estrabismo teológico do imperador, Jesus Christo e Júpiter ocupavam idênticas posições no plano superior e infinito de eternidade. Não obstante, pondo os interesses do império acima de tudo e consciente da capacidade expansiva do cristianismo e de sua popularidade crescente, Constantino pretendia usar a religião emergente como um instrumento de consolidação do poder imperial, nos vastos territórios conquistados pelas legiões romanas. O imperador tinha, como seu principal conselheiro teológico, o espanhol Osio, bispo de Córdoba, um inteligente, bem informado e hábil negociador.

Um pouco antes das 03:00 horas, naquela mesma tarde, recebeu Constantino, em seu escritório privado, uma visita inesperada de Osio. Depois das saudações convencionais, o imperador se reclinou em uma cadeira repleta de almofadas, enquanto o espanhol se fez confortável em um macio sofá,

- O que o traz aqui, meu caro bispo, algum problema de última hora nas preparações para o concílio?

Osio sacudiu a cabeça.

- Não, Augusto Cesar, o que me traz aqui é algo muito mais sério.

Constantine ergueu as sobrancelhas e perguntou:

- De que se trata?

Osio removeu de dentro da túnica um involucro de linho que cobria as vinte e quatro folhas de pergaminhos. Ele as desenrolou devagar e depositou-as sobre uma mesa junto à cadeira do imperador. Constantino apoiou-se em um dos braços para adquirir uma melhor visão.

- Velhos pergaminhos. - comentou - Quando chegaram as suas mãos?

- Quatro dias atrás. Eles foram trazidos por Pietro Romidi, um jovem missionário, ex- discípulo meu, com quem mantenho laços de amizade.

- O que contêm eles?

- Parece ser um testemunho escrito por José de Arimateia.

- O que enterrou o Jesus?

- O próprio.

- O que diz ele?

- Várias coisas. De extrema relevância. Que podem pôr em cheque o destino do cristianismo. Se o imperador permitir, eu narrarei tudo, desde o início.

Constantino adotou uma postura mais confortável na cadeira e disse, suavemente:

- Muito bem. Nós temos bastante tempo. Você pode começar.

E Osio leu... durante quase duas horas.

* * * * *

Capítulo 06

Nicea, Palácio imperial, 05:25 da tarde, 28 de maio de 325 DC

Osio terminou a leitura. Por um longo tempo o silêncio reinou no aposento. Finalmente, Constantino, que durante toda a exposição mantivera os olhos fechados, os abriu, encarou o conselheiro e perguntou:

- Osio, o que lhe parece? É este documento autêntico ou é uma falsificação escrita por algum louco bastardo?

O bispo encarou o imperador e respondeu:

- Augusto Cesar, eu meditei sobre isso durante os últimos quatro dias. Li mais de cem vezes. Está escrito em caracteres do idioma Coine, uma lingua semelhante ao grego e com a qual estou bastante familiarizado. Eu não acredito que alguem pudesse imaginar uma tal história. Já tinha ouvido rumores da existência de um testemunho escrito por Arimateia e estou convencido que estes pergaminhos são autênticos.

Constantino contemplou o bispo por um momento e disse:

- Então, ninguém, absolutamente ninguém, além de nós dois, pode saber a respeito deste documento. Autêntico ou não, pelo simples fato de levar o nome de Arimateia, é explosivo. Se cair no domínio público ou debaixo dos olhos de certas pessoas, como Ário, por exemplo, a Igreja correrá o risco de se desmoronar e arrastar com ela, para o abismo, a coalizão e a unidade do Império. Eu não posso permitir que isso venha a acontecer.

Ele fez uma pausa e prosseguiu:

- O seu ex-discípulo, o jovem que trouxe os pergaminhos, ele é um religioso, não é ?

- Sim, Pietro é um missionário italiano.

- Ele poderia ter lido o que está escrito, não poderia?

Osio pensou durante algum tempo e disse:

- Eu penso que sim, mas não acredito que tenha entendido todo o seu significado, já que, como me afirmou, ele não entende bem o Coine.

Constantino tirou, do cinto da túnica, um pequeno punhal, apontou-o na direção do bispo e falou:

- Osio, o que está em jogo é muito mais importante do que a vida de um homem. Nós não podemos correr qualquer risco, não importa quão improvável ele possa ser.

- Comprendo, Augusto Cesar.

- Não me agrada ter que dar esta ordem, mas o jovem Pietro deve ser silenciado... e logo. Onde está ele agora?

- Isolado em um alojamento para missionários. Não muito longe daqui. Eu ordenei que ele ficasse lá até o meu retorno. E, por precaução, coloquei dois legionários vigiando a saída.

- Você fez bem, como sempre, meu caro bispo.

- Obrigado, Augusto Cesar.

Constantino devolveu o punhal ao cinto e disse:

- Bem, logo cuidaremos dele.

Osio olhou para os pergaminhos e perguntou:

- E isso quanto a estes documentos, vamos destrui-los?

Constantine manteve-se pensativo por um longo tempo e então falou, com determinação:

- Não. A verdade sobre o que aconteceu a Jesus não deve ser ignorada para sempre. No momento, não é conveniente que seja revelada. Mas um dia, no futuro, sim.

- Então, para o que vai fazer com eles, Augusto Cesar?

- Eu manterei os pergaminhos aqui no palácio, em um lugar seguro, durante algum tempo. Assim que a basílica que eu estou construindo em Jerusalém estiver terminada, eu os enterrarei debaixo dela. Se Deus assim o desejar, um dia alguém os encontrará e a verdade será conhecida por todo mundo.

O imperador se ergueu. Osio fez o mesmo. Enquanto caminhavam para a saída do aposento, Constantino colocou a mão suavemente no ombro do bispo e disse:

- É assim que deve ser. Não temos o direito de destruir o que Arimateia legou para a posteridade. Agora vá, Osio, e certifique-se que o padre seja eliminado. Mas isso deve ser feito de um modo rápido e sem sofrimento. E que não fique nenhum vestígio dele. Lavinius, o comandante de meus centuriõess o ajudará nessa tarefa injusta mas inevitável.

E removendo a mão do ombro do bispo, Constantino disse:

- Nunca se esqueça que este segredo é para permanecer somente entre nós dois, até morrermos.

O imperador pausou durante um minuto e concluiu:

- E, Osio, para todos os efeitos, o encontro desta tarde nunca aconteceu...

* * * * *

Capítulo 07

Jerusalém, 07 de julho de 200_

Os dois representantes da igreja católica postaram-se diante de nós, bem no centro da cratera, o lugar que nós considerávamos como o "quartel-general" do sítio arqueológico. O frade dominicano cujo nome - Dimitrov - sugere uma origem búlgara, era um homem em torno dos quarenta, alto e atarracado, um autêntico gigante, dono de um imenso tórax. Os braços musculosos eram tão longos, que, no todo, o homem lembrava um chimpanzé. Ele usava um túnica branca, com uma corda grossa amarrada à cintura. A cabeça, sem um único fio de cabelo, era plana e lisa, como uma bola de bilhar. Na face redonda, os olhos pequenos, o nariz extremamente curto e os lábios finos, compunham um aspecto de frieza e crueldade. Ele respondeu a nossa saudação com um leve aceno da cabeça. Vestido todo de preto, com o tradicional colarinho branco, Chiesa, o padre jesuita parecia estar ao redor dos trinta cinco anos. Ele era alto e magro, cabelos castanhos e uma face acentuadamente longa. Olhos esverdeados, semi escondidos pelas lentes grossas dos óculos, Chiesa parecia ser astuto e inteligente. Impressionou-me como um homem capaz de qualquer coisa para alcançar seus objetivos.

Talvez eu estivesse fazendo um julgamento tendencioso e precipitado, devido ao fato de ter sentido uma instantânea e profunda antipatia pelos dois. Enquanto Dimitrov manteve-se quieto, olhando tudo ao derredor, como que captando "a atmosfera" do lugar, Chiesa dirigiu-se a mim, justificando, em um tom de voz baixo, macio e quase sibilante, o propósito da missão deles:

- Nós somos observadores designados pelo Vaticano. O Sr. Landau já nos informou das regras a serem seguidas. Assim, nos limitaremos a acompanhar o seu trabalho sem qualquer interferência.

Eu decidi "jogar duro ", logo de saida:

- Muito bem, padre. Mas há alguns detalhes que eu gostaria de enfatizar, para evitar embaraços futuros. Vocês podem olhar o que desejarem, mas não lhes será permitido tocar em nada, fotografar nada ou registrar qualquer coisa. Se, eventualmente, quiserem qualquer informação sobre o que nós viermos a achar, dirijam-se ao pessoal do Departamento de Descobertas Arqueológicas, já que a eles cabe decidir sobre a divulgação de qualquer assunto relacionado com o nosso trabalho. E como micro máquinas fotográficas e filmadoras existem, eu solicitarei ao Sr. Landau que ambos sejam revistados, não somente após a subida - como acontece com todos nós - mas também antes da descida. E vocês só poderão descer aqui quando nós estivermos presentes.

Fiz uma pausa e concluí, suavisando ligeiramente:

- Isto não é pessoal. É uma medida de precaução que eu sempre adoto.

Enquanto o monge murmurou, provavelmente em búlgaro, algo possivelmente obsceno, a expressão facial de Chiesa não se alterou, mas eu tive a impressão de que os olhos dele se estreitaram atrás das lentes grossas, quando falou:

- Prof. Olivieri, eu considero exageradas e desnecessárias essas medidas que você nos impõe. Porém, como nós precisamos realizar a missão para a qual fomos designados, sou forçado a aceitar as suas condições.

Por um breve momento, senti que ele tinha razão: eu tinha exagerado em minhas exigências. Porém, quase imediatamente, o sentimento de culpa foi superado pela intuição de que esses dois não eram simples observadores religiosos, mas homens extremamente perigosos e que, de algum modo que eu ainda não sabia, mas intuia, eles iriam nos trazer sérias dificuldades. Em um esforço mental, afastei tais pensamentos e voltei à realidade do momento:

- Então estamos entendidos, padre. E como nosso trabalho hoje está praticamente acabado, sugiro que vocês saiam agora. Nós ainda ficaremos algum tempo, para guardar nossos instrumentos. Iremos cavar amanhã novamente, começando ao redor das oito horas. Tenha uma boa noite.

Sem dizer uma única palavra ou esboçar qualquer gesto despedida, Dimitrov e Chiesa tomaram o mini elevador e se foram.

Depois que os trabalhadores também tinham partido, Yuri comentou:

- Por Deus, Toni, você foi duro demais com ele.

- Eu sei e vocês sabem que este não é meu modo de agir. Mas acontece que há algo nesses dois que que está fora de foco e isso me preocupa. Entende o que eu quero dizer?

Antes que Yuri pudesse responder, Daniele interveio:

- Eu penso que eu sei o que você está sentindo. Eles me dão calafrios. O frade lembra uma ilustração de filme de terror e Chiesa parece uma cobra à espera do momento certo para dar o bote.

- Eu odiaria me encontrar com o Dimitrov numa ruela escura - comentou a Irma - é dificil entender porque o Vaticano envia tais pessoas como observadores.

Tentei dar uma explicação:

- Eles não são escolhidos pela aparência física, nem por serem ou não agradáveis. Esses dois foram selecionados cuidadosamente, para descobrir tudo que nós encontrarmos e que seja de interesse para o Vaticano. Lembre-se que foi Constantino quem construiu a Igreja do Santo Sepulcro. E também foi ele quem organizou e, praticamente, controlou o Concílio de Nicea em 325. O imperador conhecia bem os truques que os bispos empregaram para manipular o encontro, e moldar o novo testamento de acordo com suas visões teológicas e interesses pessoais, e também de acordo com os desejos e interesses de Constantino .

- E por que o Vaticano deveria se preocupar tanto com isso? Que conexão pode haver entre o que aconteceu naquele concílio, há quase mil e setecentos anos atrás, e nosso sítio arqueológico? - perguntou Yuri

- Eu não tenho certeza, mas talvez a cúria romana imagine que Constantino possa ter escondido, em algum lugar na basílica, algum documento que denuncie o que realmente aconteceu em Nicea. Talvez o papa e os cardeais se preocupems que, se tal documento existir, possa ser descoberto por nós e, eventualmente, cair no domínio público. Talvez o que Constantino tenha a dizer não se ajuste com a atual doutrina cristã. Quem sabe? E, em uma escavação como a que estamos fazendo aqui, qualquer descoberta relacionada ao passado pode ser uma surpresa desagradável.

- Toni - exclamou Dani - eu não sabia que você entendia tanto de fatos históricos relacionados com a Igreja.

Eu sorri e disse:

- Vou revelar a vocês um pequeno segredo que poucos conhecem. Antes de estudar arqueologia eu passei três anos em um seminário jesuíta em Roma.

- Por que você deixou? - Dani interveio, com um leve toque de malícia na voz - Nenhuma vocação ou falta de fé?

Aceitei a provocação:

- Nem uma coisa nem outra, querida. Deixei o seminário porque sabia que, um dia, eu lhe conheceria, e então iria, inevitavelmente, quebrar meus votos de castidade.

Dani se ruborizou e, durante alguns minutos, teve de aceitar as piadas dos outros. De repente, Charles fez um gesto com a mão, como que pedindo silêncio. A brincadeira acabou. O inglês adotou uma expressão de seriedade e disse:

-Companheiros, eu acho que deveríamos encarar nossos visitantes mais seriamente. Toni disse que eles vieram espiar. Eu concordo, mas acredito que eles pretendem mais que isso. Em minha opinião, esses homens têm o firme propósito de se apossarem ou destruirem qualquer descoberta que, no julgamento deles, seja do interesse da Igreja. Esta é a missão deles: se é importante, roubem; se compromete, destruam!

Durante algum tempo ninguém falou . Então Irma rompeu o silêncio:

- Eu penso que o Charles tem razão. Trabalhei no passado com fundamentalistas e sei muito bem que religiosos ortodoxos são capazes de qualquer coisa. Sejam eles evangélicos, islâmicos, judeus, católicos ou protestantes tradicionais... não importa. Não é o tipo de crença a que a pessoa pertence, mas o fanatismo envolvido. Roubar ou destruir objetos achados em um sítio arqueológico é algo insignificante para pessoas capazes de explodir a basílica do Santo Sepulcro ou o "World Trade Center". E não tenho nenhuma dúvida que esses dois se enquadram nessa categoria. Eles são fanáticos, ou, se você preferirem, terroristas. Chiesa é o " cérebro ", o articulator. É ele que decide sobre o que deverá ser feito. Dimitrov é o " executor ", pronto para usar a força e até mesmo matar para realizar o que o padre determinar.

- Nossa! - exclamou Daniele - Nós mal acabamos de conhecer esses homens e já os estamos considerando monstros. Eu concordo que ambos parecem sinistros, mas talvez eles sejam apenas o que dizem ser: dois religiosos que realizam uma missão de observação para o Vaticano.

A noite começava a cair e eu decidi acabar com as especulações:

- OK, companheiros, talvez a Dani tenha razão. Mas, por precaução, ficaremos atentos e os manteremos sob vigilância. E, agora, acho ser hora de irmos tomar um bom banho para esfriar nossas cabeças e, depois, aquecer nossos estômagos no restaurante do Said. Sorrisos e aplausos. O bom humor estava de volta. Como um grupo de adolescentes, corremos para o elevador e aindames, ansiosos por respirar o ar puro da noite da velha Jerusalém .

* * *

Subi para o meu quarto ao redor da meia-noite para tentar um boa noite de sono. Às cinco, despertei , encharcado de suor, por causa de um pesadelo: Dimitrov, rindo como um maníaco, estava me enforcando com a corda grossa ele carrega na cintura da sua túnica...

* * * * *

Capítulo 08

Jerusalém, sítio arqueológico, 10 de julho de 200_

Nosso sítio arqueológico, agora localizado a trinta cinco metros de profundidade, estendia-se por uma área de cem e vinte metros, de leste para oeste, e sessenta metros, de norte para sul. Nós continuamos cavando, muito cuidadosamente. Hoje, nas primeiras horas da tarde, notamos que numa área mais para o leste da cratera, a terra tinha ficado mais consistente, dando a impressão que havíamos alcançado o solo - ou chão - do que poderia ter sido um aposento. Eu disse ao grupo para cavar mais cuidadosamente, uma vez que algum objeto frágil poderia estar enterrado logo abaixo. Aos poucos, a terra começou a se fragmentar. Redobramos o cuidado e nos pusemos a cavar lentamente, usando pequenas ferrulas e espátulas. De repente, minha ferrula bateu de encontro a alguma coisa mais dura do que os fragmentos que estavam se soltando ao derredor. Eu comecei a remover a terra com as mãos e logo meus dedos tocaram um objeto redondo. Continuei removendo os pedaços de terra e, pouco a pouco, os contornos de um pote foram aparecendo. Debaixo da visão de todo o mundo que me cercava, de uma distância conveniente, eu, finalmente, extraí um vaso feito de barro . Era cilíndrico, de cor marrom e abaulado no centro; media, aproximadamente, 50 centímetros de altura por 20 de largura, em seu perímetro mais largo e pesava ao redor de seis quilos. A tampa, também de barro, estava presa ao corpo do vaso por uma larga tira de cera endurecida. Em um ponto, a cera era mais grossa, formando uma saliência oval, na qual um sinal ortográfico fora gravado. Era uma letra do antigo grego, simbolizando a letra "K": provavelmente o selo de Constantino. Na parede exterior do vaso, havia uma inscrição em letras pretas; estava ligeiramente descorada, mas nitidamente reconhecível. Com cuidado, sacudi o vaso e algo se moveu em seu interior. Nós sabíamos, por experiência, que potes de barro eram usados para guardar pergaminhos ou papiros. Senti-me tentado a quebrar a cera, remover a tampa e ver o que havia dentro. Mas me controlei. As regras do método arqueológico deveriam ser respeitadas. Assim, limpei o exterior do vaso com uma pequena vassoura e, cuidadosamente, depositei-o sobre uma toalha que a Irma tinha estendido no solo. A um sinal meu, Charles se aproximou, ajoelhou-se perto do pote e começou a fotografar com a laica. Depois ele ajeitou os refletores e filmou o vaso e o lugar de onde tinha sido extraído, enquanto eu registrava, em meu míni gravador, um relatório resumido da nossa descoberta. Em seguida, agachei-me para examinar a inscrição. Estava escrita em grego antigo e, o que eu li, me fez sentir um caroço na garganta.

Naquele exato momento percebi que alguem estava tentando olhar a a inscrição, por cima do meu ombro. Era Chiesa, que tinha se aproximado, sorrateiramente, sem ser notado. Com um movimento brusco do corpo, eu cobri a visão dele e, ao mesmo tempo, o afastei, forçando meu cotovelo de encntro ao tórax do jesuita. O padre deixou escapar uma exclamação de dor e se afastou. A alguns metros de distância, Dimitrov deu um passo para a frente. Imediatamente, percebendo a iminência de uma confrontação física, Yuri, Charles e dois trabalhadores moveram-se para o meu lado. Chiesa fez um gesto para o frade que, com raiva impressa na face, continuava vindo na nossa direção. Dimitrov parou. O padre chegou junto dele e sussurrou-lhe algumas palavras. Então, os homens do Vaticanos se viraram, caminharam até um do aindames e subiram para a superfície.

Yuri exalou um " uf " e disse:

- Pensei que ia haver uma briga e, embora houvesse cinco de nós contra dois deles, não ia ser fácil. Aquele frade parece ter a força combinada de dez homens.

Daniele se acercou de mim, notou a palidez em minha face e disse:

- Toni, você parece tão pálido... está se sentindo mal?

Eu forcei um sorriso e respondi:

- Estou bem e a minha palidez nada tem a ver com o quase confronto, mas com a inscrição no pote.

Abaixei a voz e continuei:

- A propósito, por favor, pegue um invólucro impermeável e cubra o vaso. Eu não quero que os trabalhadores vejam o que está escrito.

Ela disse, também em baixa voz:

- Foi por isso que você colidiu contra o Chiesa, não foi? Ele estava tentando espiar por cima do seu ombro.

- Exatamente, mas não estou certo de ter agido com a rapidez necessária. Receio que ele tenha tido tempo suficiente para ler a inscrição.

- Esta inscrição parece ter-lhe abalado bastante, Toni. É ela tão importante assim?

- Pode ser, mas só saberemos ao certo depois de ver o que está dentro do vaso.

- Você vai nos deixar ver a inscrição?

- Claro, assim que os trabalhadores partirem. Agora, meu bem. vá cobrir a pote como lhe pedi.

Daniele se afstou para ir atender ao meu pedido.

* * * * *

Capítulo 09

Jerusalém, sítio arqueológico, 13 de julho de 200_

Assim que os trabalhadores partiram, eu juntei o pessoal ao meu redor, removi o invólucro e mostrei a inscrição. Fora escrita em grego antigo. Uma vez mais, eu traduzi: Testemunho de José de Arimateia. Manuscrito sob a guarda de Constantino, o Grande. Olhei para o Charles e disse:

- Tire fotos da inscrição, com a laica e a polaroid.

Ele bateu várias vezes e perguntou, apontou para a inscrição:

- Qual o significado dela?

Antes que eu pudesse responder, Daniele disse:

- De acordo com a bíblia, Arimateia era um fariseu nobre que cuidou do enterro de Jesus, assim que ele foi retirado da cruz.

- E manuscrito é um documento escrito à mão. - disse a Irma - Mas, sem dúvida, Arimateia não escreveu para Constantino, pela simples razão que ele morreu trezentos anos antes do imperador nascer.

- Há uma outra hipótese mais provável. - disse eu - creio que dentro do pote estão pergaminhos contendo um testemunho que Arimateia escreveu no primeiro século. Por alguma razão desconhecida, trezentos anos depois, ele foi parar nas mãos de Constantino, que o enterrou aqui na basílica que ele inauguro em 336 DC.

Fiz uma pausa e continuei:

- De qualquer modo, nós só estaremos seguros disso quando abrirmos o vaso e lermos os pergaminhos. Mas, se foram realmente escritos por Arimateia, ele pode ter usado hebraico antigo, o qual, talvez, nem mesmo Yuri possa decifrar.

- Não há como- confirmou o israelense - o hebraico daquele tempo era bastante diferente do que nós hoje falamos e escrevemos em Israel .

- Talvez ele tenha escrito em grego antigo - sugeriu a Irma.

- É possível. - disse eu - De qualquer maneira, temos de pedir a ajuda ao pessoal do Departamento de Descobertas Arqueológicas. Afinal de contas, são eles que, no final, ficarão com os pergaminhos. Irei amanhã de manhã para Tel Aviv a fim de ver Hezi Mendler. Mas não podemos esquecer que se o Chiesa conseguiu ler a inscrição, ele concluirá certamente que Arimateia escreveu sobre fatos relativo a Jesus. Nesse caso, o Vaticano tentará o possível e o impossível para descobrir o que está escrito no manuscrito e tentar se apossar ou até destruir o documento. E, de preferência, antes que seja visto e traduzido. Logo, nós temos de tomar todas as medidas possíveis para proteger os pergaminhos. Vou cuidar disso agora mesmo. Não demorarei, mas, na minha ausência, mantenham os olhos bem abertos.

Em seguida, subi a superfície, para conversar com Jacob Landau. Falei bastante e ele escutou com interesse crescente. Depois, apanhou o celular, discou um número e falou, em hebraico, durante algum tempo. Quando terminou, Landau virou-se para mim e disse:

- O diretor está de acordo com a sua solicitação. As medidas necessárias já estão sendo providenciadas.

Eu agradeci, entrei no mini elevador e voltei ao sítio arqueológico. Contei ao pessoal sobre minha conversa com o inspetor e, em seguida, nos sentamos perto do pote e ficamos à espera.

Aproximadamente vinte minutos depois, quando já era escuro e os refletores tinham sido acesos, seis soldados do exército israelense desceram pelas escadas de ferro. Eles traziam suas inseparáveis uzis, cantinas, mochilas e sacos de dormir. Um deles, com os emblemas de tenente nos ombros, adiantou-se e perguntou:

- Quem é o professor Olivieri?

Eu me levantei e respondi:

- Sou eu.

Ele parou na minha frente, bateu continência e se apresentou:

- Eu sou o tenenteTabor. Recebi ordens para vigiar este local e impedir que qualquer um, excluidos o senhor e seus colegas, cheguem perto deste lugar. Tenho quatro homens lá em cima e cinco aqui.

Apertei a mão do tenente e agradeci. Então levei-o ao interior da cabana que nos servia de "quartel-general" e disse, apontando para o pote coberto pelo involucro:

- É possível que ai esteja uma descoberta arqueológica de importância considerável, tenente. Amanhã de manhã irei a Tel Aviv para decidir sobre os próximos passos a serem dados na presente situação. Assim, deixo tudo aos seus cuidados.

- Não preocupe, professor. Ninguem, absolutamente ninguem, chegará perto deste vaso até a sua volta.

Agradeci novamente e sinalizei ao meu pessoal para irmos embora. Pouco depois, entusiasmados e cansados, mas tranqüilizados pela certeza de que o pote estava bem protegido, regressamos à superfície. Fomos jantar no Saad e, em seguida, regressamos ao hotel.

Como eu tinha acertado com o Landau, o trabalho no sítio ficaria suspenso por algum tempo. A justificativa oficial era que o time, desgastado, iria sair de Jerusalem por uns dias para descansar. De fato, eu precisava de tempo para acertar muitas coisas com o Hezi, e, particularmente, garantir nosso direito de fotografar os pergaminhos, qualquer que fosse o seu conteúdo.

* * * * *

Capítulo 10

Jerusalém, anoitecer de 13 de julho de 200_

Assim que chegaram ao quarto no Hotel dos Reis, Dimitrov e Chiesa começaram a dialogar:

- Você conseguiu ver as declarações naquela inscrição? - perguntou Dimitrov

- Por uma fração de um segundo, antes daquele arqueólogo arrogante obstruír minha visão. Mas consegui ler a frase de cima. Estava em grego antigo e dizia: " Testemunho de José de Arimateia ".

Os olhos pequenos do frade se arregalaram.

- Arimateia? O que enterrou o corpo de Cristo?

- Quem mais? E certamente aquele pote contém pergaminhos onde o testemunho está escrito. Talvez seja apenas um simples relato da participação de Arimateia nos eventos relacionados com a crucificação e o enterro de Jesus, como descrito no Evangelho de João. Ou podem ser fatos, desconhecidos até agora, mas que, pela sua natureza, comprometam a doutrina da nossa Igreja.

- Se forem autênticos.

- Exatamente. Mas hoje há vários métodos para determinar a autenticidade de um documento antigo.

- Chiesa, nós devemos nos apossar dos pergaminhos, o mais breve possível.

O frade fez uma pausa, inchou o tórax e falou, em tom de repreensão:

- Na verdade, nós já os teríamos, se você não me tivesse impedido de tomar o vaso pela força.

Chiesa respondeu em tom de desdém:

- Havia cinco homens e duas mulheres contra nós.

- Eu os teria neutralizado...

A frase do frade foi interrompida pelo padre:

- Apesar da sua força e domínio das artes marciais, não seria tão fácil quanto você imagina. Além disso, o barulho da briga atrairia reforços para os apoiar. E nós estaríamos agora ou na prisão ou expulsos de Israel, a caminho de Roma.

Dimitrov clareou a garganta mas não falou nada. O outro prosseguiu:

- Nós tomaremos posse desses documentos, sim. Mas com sutileza, de acordo com um plano que permitirá sucesso e segurança. E saiba: nós só teremos uma única chance. Eles não nos permitirão uma segunda oportunidade. Logo, não podemos falhar na primeira tentativa. Assim, seja paciente. Porém, é muito possível que, quando o momento chegar, o uso da força poderá ser necessário.

Chiesa fez uma pausa, fitou o frade e continuou:

- Se a chance chegar, você pode ter que matar, Dimitrov,... matar...

O frade encarou o padre. Os olhos pequenos pareciam emitir faíscas de fanatismo.

- Você sabe que eu farei qualquer coisa para preservar a Igreja, Chiesa. Ou já esqueceu o que aconteceu em Atenas e em Beirut?

O padre concordou com um gesto afirmativo da cabeça. Depois, pegou o celular e conversou, por um longo tempo, com o cardeal Angelo Moroni, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. E as instruções que dele recebeu foram muito claras: " Ache um jeito de ver o que os pergaminhos contêm. Se for algo que possa ameaçar a doutrina católica ou, de algum modo, comprometer a Igreja, aposse-se deles ou destrua-os

*****

Capítulo 11

Tel Aviv, 09:10 a. m., 14 de julho de 200_

O Departamento de Descobertas Arqueológicas fica situado na Universidade de Tel Aviv. Depois de se identificar e passar pela inevitável e rígida revista, recebi um crachá e subi para o gabinete do diretor, no segundo andar do edifício. O professor Hezi Mendler e eu éramos amigos de longa data. Muitos anos atrás, tínhamos sido colegas em um curso de Mestrado em Arqueologia do Oriente Médio, na Universidade de Cambridge. Desde então, conservamos um mútuo sentimento de respeito e admiração. Mendler é um homem se aproximando da meia-idade, musculoso e de média estatura; está ficando calvo e seus olhos azuis contrastam com a face vermelha de quem fica muitas horas ao ar livre. Quando de férias e durante períodos de paz, ele pratica alpinismo e, quando Israel se mobiliza, Hezi, no uniforme de capitão da força aérea, pilota jatos F-16 e F-18.

Quando eu entrei, ele já estava a minha espera. Trocamos um abraço e um jovial Shalom. Então ele sentou-se em uma cadeira giratória, atrás da sua mesa de trabalho e eu me fiz confortável em um sofá de couro, bem na frente dele. Mendler ajeitou-se na cadeira e disse:

- Com que então você achou um vaso enterrado por Constantino, contendo um testemunho escrito por José de Arimateia.

Soou mais como uma afirmação de que uma pergunta.

- Sim, Hezi, assim parece.

- Se for autêntico, meu amigo, será a descoberta arqueológica mais importante dos últimos duzentos ou trezentos anos, você sabe isso, não sabe?

- Sim, sei - respondi - mas também sei que a descoberta pode se tornar uma bomba muito mais ruidosa que aquela que destruiu o Santo Sepulcro.

- É verdade. Aliás, sua vinda aqui foi providencial. Eu ia lhe chamar ainda hoje.

Ele pegou um papel de fax sobre a mesa e continuou:

- Recebi isso alguns minutos atrás. Veio do ministro da cultura. Leia.

Ele estendeu o papel. Eu peguei e li:

"Meu prezado Hezi: O primeiro-ministro me informou ontem à noite que recebeu um fax do Vaticano. Estou enviando uma cópia para sua atenção.

Cidade de Vaticano, 13 de julho de 2004.

Do secretário de Estado da Santa Sé ao Primeiro-Ministro do Estado de Israel.

Exmo Senhor: Sua Santidade determinou que lhe transmitisse a seguinte mensagem : Chegou ao nosso conhecimento que foram achados certos documentos no sítio arqueológico onde previamente existia o Santo Sepulcro. Solicitamos ao Governo Israelense que seja concedida à Igreja Católica Romana o direito de tomar conhecimento do conteúdo desses documentos, através de nosso representante, padre Paolo Chiesa. Nós também solicitamos que o achado seja mantido em segredo, até que se conclua um acordo entre Israel e o Vaticano, com relação ao destino a ser dado a tal documentação - seja ela falsa ou autêntica, devido à possibilidade dela conter informação - verdadeira ou não, capaz de criar embaraços teológicos à doutrina cristã.

Respeitosamente,

Giovanni Cardial Vecelio, Secretário de Estado.

Shalon. Samuel Gefen"

Eu me levantei, recoloquei o fax na mesa do diretor, voltei a me sentar e disse:

- Como você sabe, o Chiesa já chegou. Trouxe com ele um frade dominicano chamado Dimitrov. O problema, Hezi, é que minha intuição diz que eles querem por as mãos nos documentos. Por isso é que eu pedi apoio militar para proteger o pote. A propósito, obrigado por ter atendido tão depressa.

Mendler adotou uma expressão séria.

- Toni, eu lhe conheço há muito tempo e estou seguro que você não agiria como fez, a menos que tivesse razões fortes para isso.

- Por enquanto, são só suspeitas, motivadas pela atitude dos dois religiosos e por minha própria intuição.

- Sua intuição está correta, meu amigo.

- O que quer dizer com isso?

- Quando aqueles dois chegaram em Jerusalém, os agentes do Mossad decidiram dar uma olhada neles. E descobriram algumas coisas. Ontem eu recebi uma cópia do dossier deles. Você está certo em se preocupar com esses cavalheiros.

- Elabore, por favor.

Hezi o fez:

- Em 1995, um arqueólogo grego tinha estado escavando em uma certa ruína perto de Beirut. Um dia, depois de ter tomado algumas cervejas, ele começou a se vangloriar, em um bar, para um grupo de amigos, dizendo que, se ele não tivesse de entregar o papiro que tinha achado, para o Museu do Líbano, como era determina a lei, ele venderia o documento para o Vaticano. E que estava seguro de ganhar muito dinheirocom a transação. Na manhã seguinte, o arqueólogo foi achado morto em uma ruela na periferia da cidade. E o papiro nunca foi encontrado.Por coincidência, nossos amigos Chiesa e Dimitrov encontravam-se na ocasião em Beirut, sob a alegação de estarem à procura do líder da milícia cristã libanesa, para lhe transmitir o apoio do Vaticano na briga dele contra a facção muçulmana.

- Uma coincidência interessante - eu comentei.

Hezi pegou um pacote e um isqueiro na mesa, acendeu um cigarro e inalou.

- Hábito maldito. Difícil da gente se livrar dele - ele falou com um ar de tristeza.

Então suspirou e continuou:

- Na realidade, Toni, uma coincidência interessante. Mas isso não é tudo. Há mais duas coisas curiosas.

- Que tal contar a próxima? - Eu perguntei.

- Dois anos depois, em 97, apareceu na Internet um "site" acusando o Vaticano de ter colaborado com a fuga de líderes nazistas para a América Latina, ao término da segunda guerra mundial. O autor era filho de um padre ortodoxo grego. Vinte dias depois, o jovem foi achado morto em uma ruela deserta na Plaka. Mais precisamente, em uma subida que dá acesso à colina da Acrópole.

- E, por coincidência, Chiesa e Dimitrov estavam também em Atenas na ocasião - disse eu . - Correto. Eles estavam representando o Vaticano em uma conferência com gregos ortodoxos, a respeito da guarda do Santo Sepulcro.

- Parece que eles sentem uma grande atração por esse lugar.

- É verdade.

- E o qual é a terceira coincidência?

Hezi esmagou o cigarro contra o fundo do cinzeiro, antes de responder:

- Ambos, o libanês e o grego, morreram de asfixia.

- E dai?

- A autópsia mostrou a presença de fibras microscópicas no pescoço dos dois homens assassinados.

- Deixe-me adivinhar.

- À vontade.

- Fibras de uma corda grossa.

- Exatamente. Do tipo que os frades dominicanos usam na cintura de suas túnicas.

* * * * *

Capítulo 12

Tel Aviv, 10:30 da manhã, 14 de julho de 200_

- Hezi, por que o Mossad não passou essas informações para a Interpol? A associação do mesmo tipo de fibra em ambos os assassinatos, com Dimitrov presente em ambas as cidades quando os crimes aconteceram, poderia justificar uma investigação que o envolvesse como suspeito.

- Como provar isto, Toni? Havia só evidências circunstanciais. Nenhuma testemunha nos assassinatos e as fibras poderiam ter vindo das cordas de qualquer frade ou monge. E centenas deles estavam vivendo ou visitando a Grécia e o Líbano quando os crimes aconteceram. Nenhum juiz ou júri os condenariam.

Eu gesticulei com a mão, concordando:

- Você tem razão, mas...

Fiz uma pausa e continuei:

- Eu estudei durante três anos em um seminário jesuita. Sei como eles pensam. E também estou a par de muitas coisas sobre os dominicanos. Os jesuítas são os estrategistas, capazes de elaborar planos meticulosos, para o bem ou para mal. Os dominicanos, como o nome indica: 'os cães de Deus', ajem como "executores". Alguns são tão fanáticos que são capazes de fazer qualquer coisa para defender a Igreja... inclusive matar. Esses dois com quem estamos lidando, fazem um par perfeito: Chiesa planeja e Dimitrov executa.

Naquele momento, tocou o telefone. Mendler respondeu. Ele escutou durante alguns minutos e disse, para quem estava ao outro fim da linha:

- Tente engana-los. Dê qualquer desculpa para justificar a presença dos soldados. Diga que recebemos uma chamada anônima informando que terroristas palestinos estão planejando um ataque contra o sítio arqueológico. Diga qualquer coisa que lhe venha à cabeça, mas nem uma única palavra sobre o pote, certo?

Ele escutou um pouco mais e então disse:

- Eu falarei com o ministro par ver como nós devemos proceder. O professor Olivieri está aqui comigo. Eu vou discutir a situação com ele. Obrigado. Shalon.

Hezi depositou o telefone no gancho. Eu lhe dei uma olhada interrogativa. Ele falou:

- Era o Landau. Um grupo de jornalistas e pessoal da TV, tendo ouvido falar da presença de soldados na cratera, ficaram excitados, querendo saber o que está se passando. Você ouviu a sugestão que eu dei. Mas ela não aguentará por muito tempo. Vamos ter de remover os soldados, o mais cedo possível. Você sabe como o pessoal da mídia é insistente e persistente. Eles acabam subornando alguns dos trabalhadores e ficarão sabendo sobre o tal do pote. E é ainda é muito cedo para tornar pública a descoberta. Há muito por descobrir: o conteúdo dos pergaminhos, a autenticidade deles e, principalmente, a decisão que o governo adotará sobre o assunto.

Eu esbocei um gesto de protesto, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Hezi se antecipou:

- Eu sei, Toni, pelo acordo entre nós e seu instituto, você tem o direito de receber cópias de tudo que for achado, independentemente da sua natureza. Mas também há aquela outra cláusula: se o que é descoberto pode ter qualquer repercussão nos interesses políticos ou na segurança do Estado de Israel, você será forçado a assinar um compromisso para manter segredo absoluto sobre tudo que venha a saber.

- Eu sabei. Nós apenas queremos ver o que achamos. Se for possível publicar, ótimo, já que a arqueologia, como você bem sabe, tem um dever para com a verdade e a história. Mas se não puder ser publicado, lamentaremos mas teremos de aceitar. No caso presente, dependendo do que Arimateia escreveu, talvez seu governo decida manter segredo, para salvaguardar os interesses do Vaticano. Mas, certamente, o que quer que os pergaminhos contenham, aconteceu há 2000 anos atrás, e, de nenhuma maneira, pode representar um risco para a segurança da nação israelense.

Hezi suspirou profundamente.

- Toni, como arqueólogo, eu concordo com você, cem por cento. Mas, como um servidor público do Estado, devo colocar, em primeiro lugar, a obrigação de realizar meu dever para com o governo. Acredite, a minha situação não é nada agradável.

Mendler acendeu outro cigarro e continuou:

- A melhor coisa que nós podemos fazer agora é remover os soldados da cratera e substitui-los por agentes da Shin Bet, disfarçados de trabalhadores. O que acha?

- Parece OK - eu disse, mas uma opção começou a adquirir forma dentro da minha mente.

Eu removi um envelope do bolso do casaco, abri e esparramei seu conteúdo na mesa do Hezi.

- Estas são fotos do pote, tiradas de vários ângulos com uma polaroid. A que está em zoom mostra perfeitamente a inscrição.

Mendler as examinou meticulosamente.

- Estão excelentes - comentou.

- Sim, estão.

Eu fiz uma pausa e perguntei:

- Hezi, você não tem aqui alguém capaz de fazer uma cópia perfeita desse vaso? É feito de barro, mede 50 cm de altura por 20 cm de largura em seu maior diâmetro, bem no centro. A tampa, também de barro é presa ao corpo do vaso por uma tira de cera endurecida, com uma saliência oval onde está riscada, em grego antigo, a letra "K"

- O selo de Constantino - ele sugeriu.

Eu concordei com um gesto da cabeça. Hezi continuou estudando as fotos, agora mais atentamente. Então ele respondeu a minha pergunta:

- Eu penso que sim. Sim, nós temos um técnico capaz de fazer uma cópia. Ele é um artista excelente e pode reproduzir um vaso exatamente como o dessas fotos. Muito bem, o que você tem em mente?

- Substituir os potes. Se você conseguir uma cópia exata, eu a levarei para Jerusalém e, na calada da noite, troco os vasos. Escondo o verdadeiro dentro de uma caixa de ferramentas e ponho a cópia em seu lugar. Eu estou seguro de poder fazer isso em absoluto segredo. Assim, se alguém, seja Chiesa ou qualquer outra pessoa, conseguir romper nossa vigilância e pegar o vaso, vai ter uma grande surpreza. O que acha?

- Que pode dar certo. Chamarei o técnico e você fala com ele. Assim que Moses - este é o nome dele - captar a idéia, poderá começar a trabalhar imediatamente.

Mendler pegou o telefone e chamou o técnico. Depois, fez outra ligação, agora para o ministro, a fim de discutir a troca dos soldados por agentes da Shin Bet. Enquanto esperávamos a chegada do técnico-artista, Hezi perguntou:

- Onde você pretende esconder o vaso original?

--Eu ainda não sei, mas acabarei achando um lugar apropriado e seguro.

- Por que você não nos entrega logo ele?

-Nós já discutimos isso antes, Hezi. Eu quero manter o pote perto de mim, a fim de me assegurar de poder fotografar tudo, principalmente os pergaminhos. Então eu o enviarei para Tel Aviv.

- Você está certo. Trato é trato. Mas há a segurança para ser considerada. Não será fácil você achar, com rapidez, no meio da noite, um lugar totalmente seguro em Jerusalém para esconder o vaso. Concorda?

- Sim - eu fui forçado a admitir.

- Então por que não considera uma sugestão que há pouco me veio à mente?

- Qual ?

- Leve o pote verdadeiro para o Museu de Israel, onde ele estará absolutamente seguro. Você conhece o lugar. É lá mesmo, em Jerusalém. E você tem a minha palavra que ninguém tocará no vaso, até tudo ficar resolvido.Então você vai lá, assiste a abertura do pote, examina os pergaminhos e fotografa tudo. Com a vantagem de que, no museu, eles são capazes de verificar a autenticidade dos documentos mais depressa. Aceita a minha sugestão?

Eu pensei durante algum tempo. Hezi era uma pessoa em quem eu podia confiar. E ele tinha razão: não seria fácil achar, em tão pouco tempo, um lugar seguro para esconder o vaso. A memória do pesadelo que eu tivera, dias antes, no qual Dimitrov me enforcava com a corda da túnica e o conhecimento de que ele já tinha assassinado duas pessoas desse modo, contribuiram para a decisão. Encarei o Mendler e disse:

- OK, eu confio em sua palavra.

Ele sustentou meu olhar e falou:

- Não tenha dúvida a esse respeito.

Em seguida, ele ligou para o Museu de Israel e falou, durante longo tempo, em hebraico, com alguém que, eu presumi, deveria ser o diretor. Quando a conversa terminou, ele virou-se para mim e disse:

- OK, Toni, está tudo acertado. Nathan Geyer, o diretor do museu, estará esperando por você. Ele entendeu a importância do assunto, e ficará lá até você chegar. Eu falei que. provavelmente, você chegará em Jerusalém bem depois da meia-noite. E ele me garantiu que o pote não será aberto sem sua presença. Satisfeito?

- Sim. Nossa, vocês pensam em tudo, nos mínimos detalhes.

- Se não tivéssemos essa mentalidade, meu amigo, há muito tempo o Estado de Israel teria deixado de existir.

* * * * *

Capítulo 13

Tel Aviv, 11:55, 14 de julho de 200_

Moses, o artista plástico, era um cavalheiro alto e magro, com cabelos cinza-esbranquiçados, parecendo inteligente e bastante perceptivo. Ele examinou as fotos, com uma lente poderosa, lenta e meticulosamente. Depois de vários minutos, Moses finalmente falou:

- Sim, estou certo de poder fazer uma cópia exata. Mas levará algum tempo. Eu calculo terminar entra as nove e dez horas... da noite, é claro.

Então nós discutimos a respeito dos pergaminhos.

- O que gostariam de ter escrito neles? Preferivelmente, algo já disponível em um livro, disse Moses. E acrescentou:

- Assim, escaninhamos o texto e imprimimos diretamente nos pergaminhos, com uma tinta que imite, razoavelmente, as usadas no primeiro século.

Eu olhei para o Hezi e perguntei:

- Alguma sugestão?

Ele balançou a cabeça.

- Não, Toni, a escolha é sua .

Eu meditei por alguns momentos. Algo fácil ser achado ...sim, por que não um texto do Torah?

- Que tal alguns textos do Gênese?

- Ótimo - respondeu Moses - eu começarei a trabalhar imediatamente.

Ele apanhou as fotos, disse um rápido "shalom" e se foi. Quando Mendler finalmente terminou a série de telefonemas necessários para acertar todos os arranjos, ele perguntou:

- Já que você terá que ficar o dia todo, por que não vamos agora até o restaurante para uma sólida refeição?

A sugestão foi imediatamente aceita.

* * *

Quando voltamos ao gabinete, havia um longo fax à espera de Mendler. Ele leu lentamente e então comentou:

- É do Samuel. Ele concorda com nossa solução sobre o destino imediato do pote e achou excelente a idéia de trocar os vasos. Também sugere que definamos, o mais cedo possível, quem cuidará da tradução do manuscrito.

Hezi parou por quase meio minuto e então continuou:

- Nós temos muitas pessoas aqui que entendem bem hebraico antigo, grego clássico e aramaico. - ele pausou durante mais uns segundos e continuou

- Designarei o prof. Eli Sharon. Ele é o mais introvertido e discreto de todos.

Enquanto Hezi falava, um pensamento ia se formando no meu cérebro. Quando ele terminou, eu comecei a rir. Mendler me encarou com um ar interrogativo.

- Por que está rindo, Toni?

- Algo que me ocorreu. Você pode imaginar a cara do Chiesa se, por qualquer chance eles obtiverem os pergaminhos e encontrarem apenas textos do torah e nada mais? Do risco que correram para ler frases que podem ser achadas em qualquer bíblia? Possivelmente imaginará que tudo não passou de uma piada do Constantino ou de quem quer que tenha enterrado o pote no subsolo da basílica... - Ou então concluirão que os vasos foram trocados e eles fizeram papel de bobos. Assim, quem sabe? Talvez fiquem tão frustrados e e deprimidoa ao ponto de cometerem suicídio.

- Não, Toni. - disse Hezi, adotando uma expressão mais séria - Essa espécie de fanático não age deste modo. Se achaerem que foram enganados, Chiesa e Dimitrov serão, de fato, acometidos por uma raiva terrível. Mas, em vez de se matarem, dobrarão os esforços para pôr as mãos no vaso verdadeiro. E assassinarão quem tentar dete-los. Você já sabe do que esses dois são capazes.O falso pote servirá para enganar algum aventureiro que resolva roubar o original. Porém, se, eventualmente, for o Chiesa quem se aposse dele, nós teremos que dobrar nossas precauções.

Fiz um gesto afirmativo com a cabeça, enquanto minha face se ruborizava pela infantilidade do pensamento que havia tido.

- Você está certo. - disse eu. Foi uma ideia estúpida.

* * * * *

Capítulo 14

Jerusalém, noite, 14 de julho de 200_

Dimitrov chegou ao hotel trazendo notícias:

- Eles fecharam a entrada para a cratera. Landau alegou que os trabalhos estavam suspensos porque os arqueólogos estão exaustos e deixaram a cidade para descançar. Andei investigando e verifiquei que ele mentiu: quatro estão em seus quartos no Hotel Hilton e Olivieri partiu esta manhã para Tel Aviv. E soldados do exército estão vigiando o sítio arqueológico.

Chiesa ficou pensativo por um momento. Então disse:

- Eles estão planejando alguma coisa e tentam nos enganar. Nós temos que descobrir as intenções deles e, para isso, vamos precisar de algumas coisas.

Ele deu uma lista do que desejava e Dimitrov partiu imediatamente para tentar obte-las . O frade voltou uma hora depois.

- Conseguiu tudo que eu pedi? - perguntou o padre.

- Sim. Comprei duas vestimentas tipicamente árabes, dois pares de binóculos poderosos e aluguei um carro. Está estacionado em uma rua perto daqui.

- Muito bem. Como não é conveniente sermos vistos e reconhecidos, particularmente disfarçados de árabes, teremos de esperar pela escuridão para irmos manter a cratera sob vigilância. Minha intuição diz que alguma coisa vai acontecer hoje à noite e nós temos que descobrir o que é. Procuraremos um lugar discreto, perto da entrada da cratera e ficaremos de vigília, a noite toda, se necessário. Talvez surja uma oportunidade para pegar o pote. Foi isso que o Vaticano ordenou e nós temos de conseguir, a qualquer preço. Se houver confrontação, pelo menos um de nós tem de fugir com os pergaminhos, e leva-los para fora do país ou destrui-los.

Dimitrov limitou-se a responder:

- Como sempre, Chiesa, estarei pronto para qualquer coisa.

* * *

Ao redor daas oito da noite, os espiões do Vaticano, em roupas árabes, postaram-se atrás das ruínas de uma loja velha e começaram a observar, com potentes binóculos, pela rachadura de uma parede parcialmente destruída, a entrada para a cratera, a qual estava vigiada por quatro soldados. Chiesa sabia que a espera poderia ser longa, mas confiava que alguma coisa aconteceria naquela noite e que, em algum momento, apareceria uma oportunidade para se apossarem do pote.

* * * * *

Capítulo 15

Tel Aviv, noite de 14 de julho de 200_

Passava um pouco das 21:00 horas. Hezi e eu estávamos fazendo um ligeiro lanche, quando Moses entrou no gabinete trazendo um vaso e vários pergaminhos. O vaso era uma cópia perfeita da pote original. Nos pergaminhos, escritos em hebraico antigo, textos do Gênese. Mendler perguntou:

- Bem, Toni, está satisfeito?

- Você pode apostar nisso. Parece perfeito. Parabéns, Sr. Moses.

O artista sorriu, agradeceu e, dizendo adeus com o tradicional shalom, deixou o aposento. Foi quando o telefone tocou e Hezi atendeu. Ele escutou por um momento, tapou o bocal com a mão e sussurrou:

- É o Samuel de novo. Porém, à medida que escutava, sua face ia se ruborizando. Em um determinado momento, Hezi comentou :

- Mas isso é um absurdo. Contradiz totalmente nosso acordo com o Instituto Internacional de Archeologia.

Apurei os ouvidos. Mendler continuou escutando. Então ele falou:

- Eu entendo. Afinal de contas, ordens são ordens e o primeiro-ministro é o chefe. Que fazer senão obedecer?

Prosseguiu ouvindo. Então:

- Claro que eu sei que não é culpa sua... Sim, naturalmente; não preocupe, eu não lhe contarei nada. Shalom, Samuel.

E desligou. Cheio de ansiedade, por entender que, por alguma razão, iam me sonegar o direito de ver os pergaminhos, olhei para o Hezi, querendo obter alguma explicação dele. Mas ele estava de cabeça baixa e com os olhos fechados. Mendler estava em profunda concentração. Permaneci calado. Eu tinha decidido esperar. Levou algum tempo. Finalmente, Hezi elevou a cabeça, abriu os olhos, virou-se para mim e disse:

- O Samuel me informou que o primeiro-ministro determinou que os documentos contidos no pote sejam examinados por um tal de professor Lieberman, linguísta da Universidade de Haifa, antes deles poderem ser vistos por qualquer outra pessoa. E notificou o diretor do Museu de Israel que tratava-se de uma ordem a ser obedecida sem discussões...

- Mas isso contradiz nosso acordo - eu interrompi, com indignação na voz.

- Eu sei - respondeu para Mendler - como também creio que, de fato, o primeiro-ministro não permitirá o acesso de qualquer pessoa aos documentos, no caso deles conterem qualquer revelação que embarasse a doutrina cristã. Suponho que ele pretende manter tudo em segredo, para usar, opportunamente, o testemunho de Arimateia, como uma carta- trunfo para forçar o Vaticano a apoiar qualquer pretensão israelense naa mesaa de negociações internacionais. Como, por exemplo, num eventual acordo de paz com os palestinos, nas limitação de fronteiras com a Jordânia e, principalmente, no controle total de Israel sobre Jerusalém, já que, em várias ocasiões, o papa falou a favor de uma cidade dividida, como era antes de 1967.

- OK, eu entendi o essencial. Mas por que você está tão convicto é que o primeiro-ministro me negará o direito de estar presente quando os pergaminhos forem examinados, desconsiderando o nosso acordo?

- Porque o Samuel me ordenou que eu não lhe contasse nada sobre o assunto. Assim, não sabendo o que está se passando, você levará a cabo o que tínhamos planejado: trocar os potes e levar o original para o Museu de Israel, onde o diretor o manterá inacessível para você, até que o Lieberman informe o primeiro-ministro sobre o que está escrito nos pergaminhos. Por um curto momento, fui tomado por uma imensa raiva, mas logo a razão prevaleceu.Tranquilizei-me e perguntei:

- Hezi, se você recebeu essa ordem, por que está me contando? Afinal de contas você disse que os interesses do Estado estavam acima do dever arqueológico de revelar os fatos.

- Sim, eu disse isso. Mas eu também disse que você tem o direito de tomar conhecimento de sua descoberta e manter uma cópia do que foi achado, embora assumindo a obrigação de silenciar, até que o governo lhe permita ir a público. E eu disse também que você podia confiar em mim. Além do mais, eu sou um arqueólogo e sinto que toda descoberta archeológica deve ser liberada, pelo menos para a comunidade científica. Isso é uma regra que nunca deveria ser quebrada. Na realidade, é sempre inconveniente quando a política interferire com a ciência.

O respeito que eu sempre tive por Mendler redobrou. Ele estava arriscando o pescoço, desobedecendo as ordens do primeiro-ministro. Foi quando eu tive outra das minhas ‘idéias luminosas':

- Hezi, porque se eu não levo o falso vaso para o Museu de Israel e escondo o verdadeiro em algum lugar seguro onde possa copiar o testemunho?

Mendler balançou a cabeça.

- Tony, você está tão preocupado que sua mente ficou confusa. Não levaria muito tempo para o Lieberman descobrir que tinha sido enganado. Ou você realmente pensa que ele acreditaria que Constantino enterraria um vaso contendo apenas textos do torah? Ele informará o primeiro-ministro. A Shin Bet investigará. Eles persistirão até chegarem ao Moses, que acabará admitindo que falsificou vaso a nosso pedido. Além do que, o Samuel está sabendo da situação. Nós seremos acusados de falsificação e apropriação indébita. Eu serei despedido e preso. Você será preso e, depois de cumprir seu tempo na prisão, será expulso do país e proibido de voltar à Israel.

O que ele disse não podia ser contestado. Senti o gosto da estupidez e da derrota.

- Você tem razão, eu tenho pensado como um idiota. O desespero afetou meu raciocínio. Parece que não há mesmo uma saida, Hezi. Reconheço que o único jeito é levar o pote verdadeiro para o Museu de Israel e esquecer tudo mais. Mas é duro saber que você fez o que talvez seja a maior descoberta arqueológica dos últimos cinco ou dez séculos, e não tem sequer o direito de ficar sabendo o que achou.

Mendler deixou a cadeira, veio até onde eu estava sentado e colocou a mão em meu ombro, num gesto paternal.

- Talvez haja um jeito, meu amigo. Eu me senti confuso e Hezi continuou:

- Enquanto você estava falando, eu vislumbrei uma possível solução. Será um pouco arriscado. Dependerá muito da velocidade com que você seja capaz de agir e da sua habilidade para recompor a cera ao redor da junção entre a tampa e o corpo do pote.

Meu coração se encheu de esperança. No estado de espírito em que me encontrava, um risco a mais não faria nenhuma diferença. Fitei o meu amigo e eventual salvador e perguntei, com determinação:

- O que tem em mente, Hezi?

Durante aproximadamente quinze minutos ele me revelou seu plano. Quando terminou, eu disse, com admiração:

- Você é brilhante, meu amigo.

Hezi abriu uma das gavetas da mesa e retirou uma máquina fotográfica, tão pequena que poderia caber na palma da minha mão, e disse:

- Esta míni câmera fotografa com o máximo possível de definição. Está carregada e pode tirar 30 fotos. É feita aqui, em Israel, para uso dos serviços de inteligência. Eu a usei várias vezes, para fotografar pergaminhos e papiros velhos. Alguns eram tão antigos ou estavam em uma tal condição, que as palavras ou caracteres eram quase indistinguiveis. E, apesar disso, eu obtive sempre revelações bastante claras. Estou certo que o Charles saberá usa-la com precisão.

Eu peguei a máquina e guardei-a no bolso interno da minha jaqueta. Mendler falou novamente:

- E não se esqueça: depois de tirar as fotos, ache um meio de remover o filme de Israel tão rápido quanto possível.

Fiz um gesto afirmativo com a cabeça e disse: - Eu já tenho uma idéia de como fazer isso com um mínimo de risco.

Então, peguei meu celular e liguei para o Charles no Hilton de Jerusalém.

* * * * *

Capítulo 16

Tel Aviv, 10:50 da tarde, 14 de julho de 200_

Mendler finalmente desligou o telefone. Havia passado a última meia hora fazendo vários contatos, para assegurar o sucesso do nosso plano. Uma caixa de madeira com a denominação: ferramentas arqueológicas, repousava sobre a mesa dele. Dentro dela, corretamente embrulhado, estava o falso vaso, contendo os pergaminhos falsificados.

- Bem,acho que está tudo pronto, Toni, - disse Hezi, cuja face já estava mostrando as linhas de fadiga e apreensão.

Tinha sido um dia muito tenso e difícil. Minha própria fisionomia não deveria estar muito diferente da dele. Hezi falou:

- Um carro está lá fora a sua espera. Dois de meus auxiliares de confiança lhe acompanharão até Jerusalém.

Ele consultou o relógio dele e continuou:

- Os soldados devem estar deixando a cratera agora. Dois oficiais da polícia da cidade os substituirão imediatamente. Landau estará com eles, esperando por você. Eu já o informei sobre a troca dos vasos e que Charles irá lhe ajudar; nada mais.Amanhã de manhã, quatro agentes da Shin Bet estarão no sítio, disfarçados de trabalhadores. Você estará chegando em Jerusalém ao redor de meia-noite. Eu disse ao Nathan que você apareceria no museu perto das duas horas. Assim você terá de sessenta a setenta minutos para remover a tampa do vaso, fotografar os pergaminhos e recompor a cera. Cuidado para não deixar nenhum vestígio de que o vaso foi violado. Essa é a parte mais difícil, mas sei que você conseguirá. Boa sorte.

- Eu vou conseguir - respondi, mais para tranqüilizar meu amigo do que por convicção.

Em seguida, trocamos um forte aperto de mão, dissemos "shalom" e eu parti.

* * * * *

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