A NOITE DOS FAVELADOS

OLIVER MARTI

 

A Noite dos Favelados, um romance de ficção social, focaliza o grave problema do desordenado

crescimento demográfico dos grandes centros urbanos.

A partir de uma trama vibrante, onde se mesclam todas as matizes das paixões humanas,

os acontecimentos evoluem, inexoravelmente, para uma climax apocalíptico.

E, diante da conjuntura socio-econômica e da violência de nossos dias, há que se indagar:

até onde a ficção que criamos não será o prenúincio de uma trágica realidade?.

 

Em 1986, este livro, em sua 1a edição, obteve o primeiro lugar dentre 40 romances, num concurso promovido pela Sociedade Brasileira de Médicos Escritores

O autor

PARTE 1

 

Trechos do Editorial Inimigo Feito Amigo, do Jornal do Brasil, de 21.04.1984:

" O Rio de Janeiro tornou-se, ao longo dos s�culos, um centro de grandes tradi��es pol�ticas. Grande centro financeiro e de servi�os sofisticados, n�cleo tur�stico de prest�gio internacional e �rea de grande densidade cultural - eis em s�ntese os elementos mais representativos desta Metr�pole. A posi��o de destaque conquistada na hist�ria do pa�s atraiu para a cidade migrantes desprovidos de qualifica��o profissional que acabaram dando lugar aos aglomerados irregulares, sob todos os �ngulos, que s�o as favelas. Plantadas nas encostas, tornaram-se focos de enxurradas que entopem bueiros e inviabilizam o escoamento das �guas pluviais. Representam perigo para a sobreviv�ncia de seus pr�prios habitantes por absoluta car�ncia de estabilidade.

Afora o not�rio fato de abrigar, em muitos casos, toda sorte de bandidos e criminosos. De sorte que h� muito se estabeleceu o consenso entre as pessoas respons�veis de que incumbe erradic�-las. As favelas e o elemento marginal que ocupam as ruas s�o dois componentes que amea�am o Rio de Janeiro de destrui��o. Al�m dos problemas pr�prios que acarretam no que se refere � deteriora��o da vida urbana, na medida em que s�o estimulados, contribuem para aumentar a migra��o... criando ilus�es em futuros migrantes, aos quais o Rio nada tem de bom a oferecer... Est�o sendo (os migrantes) atra�dos para uma vida miser�vel, sem horizontes, enquanto o pa�s disp�e de uma fronteira agr�cola inesgot�vel e alternativas de fato atraentes em todo o Oeste... O que compete � Prefeitura � dar curso aos planos existentes de erradica��o das favelas; � combater com energia os marginais que infestam as ruas..."

At� onde s�o justas e v�lidas essas afirmativas?

Pensar que com a urbaniza��o da Rocinha e sua transforma��o, por decreto, em "favela-bairro" as coisas tenham mudado em rela��o � d�cada de oitenta, � puro engano. A Rocinha e as demais favelas situadas nas encostas dos morros cariocas continuam sendo um "santu�rio" para traficantes e outros tipos de criminosos, constituindo uma crescente preocupa��o, n�o s� para os moradores desses morros, como os de toda a cidade do Rio de Janeiro, a qual se encontra, cada vez mais, sitiada pela marginalidade.

In�meros acontecimentos atestam isso.Um deles foi descrito em um pequeno artigo, publicado em O Globo, edi��o de 12 de maio de 1998, p. 14, intitulado Tiroteio na Rocinha Interdita Tr�fego no T�nel Zuzu Angel. "Passar pela Rocinha durante a madrugada, n�o est� seguro nem para a pol�cia. Ontem, uma r�dio-patrulha do 23� Batalh�o da Pol�cia Militar foi recebida a tiros por traficantes, quando passava perto da passarela de pedestres sobre a auto-estrada Lagoa-Barra. Os policiais pediram refor�o pelo r�dio do carro e, em poucos minutos, o morro foi cercado pelo lado da Via �pia e da Estrada da G�vea. Sob forte tiro- teio com os traficantes, alguns policiais militares tiveram que se abrigar no T�nel Zuzu Angel (ex-T�nel Dois Irm�os). As pistas foram fechadas e os carros impedidos de sair do t�nel, o que provocou p�ni- co entre os motoristas...".

E as coisas não pararam por ai. Quase todas as favelas do Rio - mas não apenas elas - continuam a ser santuários da marginalidade.

At� onde a continuidade dessas favelas, hoje já ultrapassando, na cidade do Rio de Janeiro, a casa de 600, abrigando uma população acima de um milhão, irá nos levar?

Até quando essa luta de guerrilha entre morro e asfalto, entre o crime organizado e o aparato policial, permanecerá no atual estágio de semi-ensaio, antes de evoluir para um banho de sangue de extensão e consequências imprevisíveis?

Será que, por terem as autoridades ignorado a advertência do artigo publicado pelo Jornal do Brasil, décadas atrás, assim deixando de erradicar, naquela época, as favelas cariocas, não teriam elas, por tal êrro, nos condenado a assistir, em futuro n�o muito distante, a uma... NOITE DOS FAVELADOS?

***

S�O CONRADO, com sua famosa praia do Pepino, �, ou melhor, foi, um dos mais apraz�veis locais do Rio de Janeiro. Pequeno e estreito, apertado entre o mar e as montanhas, com apenas dois km de extens�o, tem cerca de 260.000 habitantes, al�m de abrigar uma popula��o flutuante anual de aproximadamente 300.000 pessoas. O bairro � topograficamente separado das zonas urbanas adjacentes por uma s�rie de pequenas montanhas, mas a elas est� ligado por um complexo de t�neis, estradas e autopistas. A gigantesca invas�o imobili�ria das �ltimas d�cadas fez com que surgissem imensos (e, em alguns casos, grotescos) pr�dios de apart mentos, hot�is, supermercados e shopping-centers que roubaram das antigas e confort�veis resid�ncias a privacidade e o magn�fico visual que seus moradores desfrutavam.

Por outro lado, com o crescimento incontrolado e indiscriminado da chamada "parte plana" da Rocinha, n�o mais se identifica uma linha demarcat�ria entre o aristocr�tico bairro do passado e a maior favela carioca, hoje com cerca de 400.000 habitantes. Em virtude dessas caracter�sticas, S�o Conrado pode ser considerada uma �rea vulner�vel: os seus vizinhos favelados, por exemplo, se devidamente organizados e adestrados para tal fim, poderiam virtualmente "sequestr�-la", num golpe de surpresa, simplesmente bloqueando suas vias de acesso... Uma hip�tese n�o muito prov�vel, admitimos, mas de forma alguma imposs�vel!

 

PRÓLOGO

2020

1

Meu nome � S�rgio Dickens. Tenho 35 anos, sou carioca, nascido e criado no velho bairro do Graja�. Formei-me em Hist�ria e Economia. Na pr�tica, contudo, ap�s algumas tentativas frustradas na �rea do magist�rio, ganho a vida mesmo � escrevendo artigos pol�ticos para jornais. Eis porque sinto-me mais � vontade (e honesto) apresentando-me como jornalista. Ainda que meu sobrenome evoque uma ascend�ncia inglesa, herdei as caracter�sticas f�sicas de meus ib�ricos ancestrais matemos. N�o obstante essa apar�ncia latina, dificilmente exteriorizo minhas emo��es. Apenas umas poucas pessoas, muito poucas mesmo, logram vislumbrar, l� no fundo, a minha emotividade hisp�nica. Talvez por isso e tamb�m pela minha forma��o profissional creio que me ser� poss�vel discorrer, com razo�vel imparcialidade, sobre aquelas coisas que aqui ocorreram no passado e que, receio, possam se repetir no futuro.

Eu era bem jovem quando os fatos aconteceram, mas lembro-me de tudo, como se tivesse sido ontem. Afinal, n�o foi assim h� tanto tempo! Estamos agora no ano 2020. O Rio de Janeiro de hoje, uma megal�pole de 10 milh�es de habitantes, continua sendo a mais bela cidade do mundo. E nem mesmo Cantara, a metr�pole artificial constru�da h� dois anos, na Lua, por um cons�rcio russo-americano, consegue atrair tantos turistas quanto esse para�so espalhado �s margens da ba�a de Guanabara. Isto porque, al�m de sua incompar�vel beleza natural, o Rio de Janeiro tomou-se uma cidade tranquila e hospitaleira, onde a viol�ncia passou a ser raridade e por onde habitantes e visitantes transitam descuidada e despreocupadamente. Qu�o diferente do que costumava ocorrer nos �ltimos dec�nios do s�culo XX e nos primeiros anos do século XXI!

Decerto, n�o fosse a incr�vel trag�dia que, anos atrás, sacudiu a cidade e estarreceu o mundo, este mesmo Rio teria hoje uma popula��o bem maior e seu �ndice de criminalidade seria talvez superior aos de Chicago, Miami e Moscou. Uma dessas estranhas compensa��es da hist�ria: da mais terr�vel desgra�a resulta, �s vezes, algo positivo! Reparem que nessa lista de lugares onde a viol�ncia continua imperando, n�o inclu� S�o Paulo, tamb�m outrora palco de intensas conturba��es urbanas.É que, em decorr�ncia daqueles fatos que se desenrolaram no Rio, certas medidas foram adotadas e a atmosfera social modificou-se substancialmente em quase todas as grandes metr�poles brasileiras. Uma pol�tica firme, diria mesmo inflex�vel, e, para muitos, at� impiedosa, imposta pelo Governo Federal logo ap�s a hecatombe, estabeleceu um fluxo migrat�rio compuls�rio dos maiores centros urbanos para as vilas e os campos, causando uma sens�vel redu��o do �ndice demogr�fico nas grandes cidades. Ao mesmo tempo, ocorria no Rio de Janeiro o despovoamento daqueles estranhos e subumanos conglomerados habitacionais que proliferavam na periferia urbana e nos morros: as famosas favelas cariocas simplesmente deixaram de existir!

Mas esse � assunto sobre o qual, no devido momento, voltaremos a nos deter. O importante agora � passarmos ao relato dos acontecimentos que nos levaram �quele dia terr�vel, �quela noite maldita que mancharia a hist�ria desta cidade e que ficou conhecida como... A NOITE DOS FAVELADOS! Muito j� se disse e se escreveu a respeito, mas foram descri��es gen�ricas e superficiais, distorcidas pela censura oficial, vazias de conte�do humano e desprovidas de detalhes essenciais sobre a vida e a morte dos principais protagonistas envolvidos na trag�dia. Por raz�es que se conhecer�o mais tarde, quis o destino que eu viesse a tomar conhecimento de muitas coisas at� ent�o n�o reveladas. H� tempos tenho pensado em descrev�-las mas vinha sempre protelando. Hoje, por�m, existe um motivo muito especial que me compele a n�o mais adiar tais revela��es: nosso primeiro filho (sabemos que ser� menino gra�as � ultra-sonografia uterina) ir� nascer dentro de tr�s horas. Por isso sinto que devo contar tudo agora.

N�o ser� uma hist�ria agrad�vel: no seu todo ela � bastante cruel. H� nela excessiva viol�ncia, �dio, incompreens�es e profundas intoler�ncias. Mas existem tamb�m momentos de desprendimento, exemplos de sacrif�cio, coragem e muito amor.

Estou sentado, num final de tarde de primavera bem carioca, junto � janela de uma sala reservada, em uma moderna maternidade situada entre o mar e as montanhas, nesse peda�o de para�so visual chamado S�o Conrado. N�o foi minha a escolha deste Hospital Obst�trico. Fomos enviados para c� devido ao convênio de sa�de entre o jornal em que trabalho e a Secretaria de Assist�ncia Matemo-Infantil do Estado. Na verdade, temi at� que, pela sua localiza��o, da� resultasse - e este � tamb�m outro ponto que se esclarecer� mais tarde - algum trauma para minha esposa. Felizmente, ela n�o demonstrou qualquer rea��o negativa. Ou n�o se perturbou realmente ou ent�o fingiu, para poupar-me de preocupa��es. Dif�cil de dizer. Estou falando para um sofisticado microgravador, o qual, embora n�o ultrapasse em tamanho um ma�o de cigarros, tem a capacidade de gravar por oito horas consecutivas. Mas espero registrar tudo em bem menos tempo, para que tenha terminado antes que venham chamar-me para conhecer meu primogênito.

Como j� disse, ele nascer� dentro de tr�s horas. O ato de nascer, neste ano de 2020, constitui um processo suave e vagaroso, um aut�ntico ritual institu�do pela moderna Psico-obstetrologia: minha esposa foi levada h� alguns minutos para a "piscina de parto", onde a temperatura � mantida em tomo de 37 �C. Drogas especiais provocar�o contra��es musculares indolores, por�m cada vez mais intensas e eficazes, as quais, lentamente, ir�o impulsionando o feto para fora, enquanto um sistema eletr�nico reproduz, em amplificadores, os batimentos card�acos maternos, tendo por fundo musical o "Clair de Lune". Assim, dizem os Psico-obstetr�logos, nesse ambiente aqu�tico, morno e sonoro, o rec�m-nascido sentir� menos a transi��o ocasionada pela passagem do seu habitat intra-uterino para este nosso mundo estranho e hostil e entrar� na vida melhor preparado para enfrent�-la. Fa�o votos que tenham raz�o!

Bem, agora, finalmente, a nossa hist�ria. Como come�ou? � sempre dif�cil selecionar um determinado momento no tempo e dizer: pronto! Foi a� o in�cio. No caso em quest�o poder�amos escolher, por exemplo, o fim do s�culo XIX, �poca em que surgiram os primeiros barracos nos morros cariocas. Ou ent�o os idos de 1960, quando intensificou-se o fluxo migrat�rio para o Rio de Janeiro. Mas ambos seriam marcos vagos e imprecisos. Prefiro ser mais espec�fico e tomar como ponto de refer�ncia o nascimento de uma outra crian�a, h� cinquenta anos, numa maternidade bem mais modesta, num outro bairro desta mesma cidade.

Em um dia que se tornaria uma das datas mais significativas para todos os brasileiros: 21 de junho de 1970...

*****

De 1970 à 200_

2

"... Estamos nos aproximando dos trinta e sete minutos da etapa final. O Brasil, vencendo de tr�s a um, est� a oito minutos de se tornar tricampe�o mundial. O time italiano est� totalmente batido. E a sele��o "canarinho" arranca mais uma vez para o ataque. Vem descendo Clodoaldo, finta o primeiro, passa pelo segundo, dribla sensacionalmente o terceiro, evita outro advers�rio e estica para Jairzinho, j� na entrada da �rea da It�lia. Jair livra-se da marca��o de Cera e estende a bola para Pele. O "Rei" domina a pelota com tranquilidade, olha para os lados e rola o passe para a direita, para Carlos Alberto, entrando livre pela �rea. O "capit�o" enche o p�, com viol�ncia, atira... � gol... gooooool!!".

- Aiiiiii!!!

- Calma, Nair, j� terminou - disse o obstetra, por tr�s da m�scara, enquanto sua m�o direita erguia no ar um beb� todo sujo de muco e sangue. O Dr. Carlos Jos� passou o rec�m-nascido para o m�dico assistente e voltou-se para a mulher que agora gemia baixinho:

- E homem, Nair. Um garot�o.

Nesse momento ouviu-se, ao longe, vindo l� de fora, da rua, um intenso especar de foguetes. A enfermeira comentou:

- Deve ter acabado o jogo.

- Ainda n�o - explicou, vibrante, um acad�mico que se mantinha afastado, junto � parede, radinho de pilha colado ao ouvido:

- Foi o quarto gol do Brasil. Carlos Alberto, num passe magistral do Pelé.

- Bem, - disse o Dr. Carlos Jos� com leve toque de ironia - o Carlos Alberto faz o dele l� no Est�dio Azteca e o seu "xar�" aqui marca mais um nesta deslumbrante maternidade.

Virou-se para o m�dico-assistente:

- Cuidem do garoto e verifiquem bem a sa�da da placenta - e olhando de novo para a jovem e bonita mulata que acabara de dar � luz. arrematou sorrindo: - Seu filho deve ser um predestinado. Nasceu na horinha exata em que a sele��o completava a goleada em cima dos "carcamanos".

Em seguida, retirou a m�scara e as luvas e deixou a sala de parto.

Nair, as l�grimas ainda escorrendo, um resto de dor misturado com al�vio e felicidade, voltou-se para a enfermeira e perguntou:

- Ele � perfeito, mo�a?

- Perfeito e muito bem dotado - respondeu maliciosamente a enfermeira, contemplando os �rg�os genitais do rec�m-nascido, no mesmo instante em que este, de cabe�a para baixo, soltava seu primeiro berro em rea��o � palmada que acabava de lhe aplicar o m�dico- assistente.

- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! - exclamou a jovem m�e.

- Terminou o jogo. Somos tricampe�es! - gritou, dando um murro no ar, o estudante que escutava no radinho de pilha.

 

3

N�o � curta a dist�ncia da Rocinha � Maternidade Clara Basbaum no bairro de Botafogo. Deolinda desceu o morro pelo lado da G�vea para pegar o �nibus. A festa nas ruas engarrafava o tr�nsito e a viagem de �nibus levou mais de tr�s horas. Eis por que Deolinda s� chegou � Maternidade muito depois do nascimento do filho de Nair. Com seu jeito descontra�do, ela convenceu uma enfermeira a conduzi-la ao ber��rio para ver o rec�m-nascido e depois � enfermaria onde se encontravam as mulheres em puerp�rio.

Nair estava deitada, parecendo dormir, logo no primeiro leito junto � porta. Deolinda puxou uma cadeira de ferro para perto da cama, sentou-se e pegou na m�o da filha adotiva.

- Ent�o � disse ela - doeu muito?

Nair abriu os olhos e um sorriso.

- E como, madrinha! Mas valeu a pena, � um menino, lindo que faz gosto.

A outra sorriu.

- J� dei uma olhada nele. � bonito sim. Logo que voc� voltar pra casa a gente batiza ele.

Deolinda assumiu um ar compenetrado antes de prosseguir:

- Voc� j� sabe. Eu vou ser a madrinha e S�o Jorge o padrinho. Foi esse o combinado.

Nair deu um sorriso compreensivo. Fora dos terreiros de umbanda, Deolinda sempre dizia "S�o Jorge". S� durante as sess�es de macumba a m�e-de-santo usava a express�o "Ogum".

- Est� bem madrinha, combinado � combinado.

Deolinda suspirou.

- Tentei chegar a tempo. N�o deu. o tr�nsito estava uma loucura. Voc� j� escolheu o nome do garoto?

- Estava pensando nisso esse tempo todo aqui na cama. O doutor disse que meu filho � um predestinado porque nasceu bem na hora que o Brasil fez o �ltimo gol contra a It�lia. E a� veio uma ideia, sabe? �talo. Que tal, n�o � um nome bonito?

Deolinda meditou um pouco e depois assentiu com a cabe�a, sem muito entusiasmo. -É meio diferente, mas soa bem.

Em seguida, p�s a m�o no rosto da mo�a, virou-o de modo que se mirassem bem de frente e disse, s�ria:

- Nair, voc� agora � m�e. A m�e de verdade que eu nunca fui. Sou m�e-de-santo pra todo o mundo no morro e sua m�e de cora��o. Mas m�e de sangue, Deus n�o quis. E uma gra�a que voc� recebeu. Por isso, est� na hora de tomar jeito.

A outra encarou-a com curiosidade.

- Como assim, madrinha?

- J� que o pai verdadeiro n�o vai aparecer mesmo, voc� tem de arrumar um homem pra ajudar a criar o garoto.

A jovem afagou a m�o de Deolinda antes de argumentar.

- Pra qu� homem, madrinha? Minha m�e me criou sozinha at� morrer. Depois voc� tomou conta de mim.

A outra balan�ou a cabe�a.

- Menina pode crescer s� com a m�e, mas menino n�o, Nair. Menino tem de ter um pai por perto pra dar exemplo.

Nair refletiu sobre as palavras:

- �, acho que voc� tem raz�o. Mas n�o � f�cil algu�m se interessar por uma mulher j� carregando crian�a de contrapeso.

Deolinda soltou uma sonora gargalhada.

- Minha filha, voc� � a mo�a mais bonita da Rocinha. Eu sei de muitos homens l� no morro que levariam voc� pra casa deles sem pestanejar.

Nair fez um muxoxo, assumindo um ar de falsa mod�stia.

-Eu, heim...

Deolinda apontou o indicador para a mo�a, ignorando a zombaria.

- Mas tem uma coisa, menina. Esse meu novo afilhado, como � mesmo o nome... �talo, certo? Ele n�o pode ser criado por qualquer um, n�o. Tem de ser uma pessoa respons�vel e... - a m�e-de-santo fez um gesto caracter�stico esfregando o polegar no indicador - ... cheio de dinheiro.

Diante da express�o de espanto que se esbo�ava no rosto de Nair, ela explicou:

- Dinheiro pra dar estudo e ajudar o seu filho a ser algu�m na vida. O doutor n�o disse que ele � um pr�... pre.., como � mesmo a palavra?

- Predestinado - esclareceu a mo�a, reprimindo um riso.

- É isso mesmo. E como � que ele vai ser um predestinado sem estudo?

Dessa vez Nair n�o conseguiu conter o riso. Deolinda, sem se dar conta da raz�o, riu junto. A mo�a olhou para ela com ternura e disse, sem afeta��o:

- Voc� est� certa, madrinha. Devo pensar primeiro no meu filho. Vamos ver se aparece algu�m assim. Depois arrematou sorrindo: - S� espero que esse homem que voc� me arrumar n�o seja nenhum velho feio e "gaga", caindo aos peda�os.

Deolinda abriu um amplo sorriso, dois dentes de ouro reluzindo entre os demais. Os olhos reviraram nas �rbitas. Ela esfregou as m�os e falou num tom decidido:

- Ent�o, est� tudo arranjado.

- Como assim?

- O homem j� est� escolhido. � s� deixar comigo.

- Quem? - indagou Nair, receando que seu sexto sentido estivesse certo.

- Lib�rio! - exclamou a outra com ar vitorioso.

- Oh, n�o! - o sexto sentido n�o tinha falhado.

-Oh,sim!

Nair fechou os olhos, semi-resignada, enquanto Deolinda agradecia antecipadamente aos seus "guias" pela realiza��o do sonho que h� muito vinha entretendo em rela��o � sua filha adotiva.

 

4

Nair nasceu em 1949, na zona norte do Rio de Janeiro, no bairro de Madureira, num quarto pequeno, sujo e malventilado onde a parturiente vivia �s custas do minguado sal�rio de empregada dom�stica. Das Dores (como era conhecida) n�o estava muito certa da paternidade da rec�m-nascida. Tinha d�vida entre aquele comerciante - que se dizia espanhol - e Justino, o marinheiro de pele clara e olhos verdes a quem dava prefer�ncia nos fins de semana, quando o "galego" ficava em casa com a mulher e os filhos.

Das Dores perdeu o emprego (a patroa n�o podia aceitar empre- gada com um nen�m de colo!). Tamb�m, como poderia trabalhar sem ter com quem deixar a f�lhinha? O jeito foi ir morar com a irm�, �nica parente que lhe restava, uma costureira que vivia num barraco de dois c�modos no morro da Rocinha. Deu � filha o nome de Nair (soava bonito) e foram as tr�s se arrumando, como se arrumam os pobres marcados pelo estigma da sobreviv�ncia, na base do "feij�o nosso de cada dia".

Um dia, a irm� foi embora com um novo amante. Das Dores e Nair ficaram com todo o barraco para elas. A m�e ganhava a vida, novamente trabalhando como dom�stica, enquanto a filha, agora com tr�s anos, passava o dia nos barracos vizinhos onde arranjava alguma coisa para iludir o est�mago at� que das Dores chegasse � noite e fizesse alguma esp�cie de jantar. Mas havia uma mulata gorda e risonha, a Deolinda, que quando acontecia de Nair passar pelo barraco dela, sempre dava um pouco mais de aten��o e comida para a menina.

E assim Nair foi crescendo e j� na adolesc�ncia se podia antever a mulher bonita, at� mesmo ex�tica, para o meio: a pele ligeiramente escura, a boca carnuda e os cabelos discretamente encrespados eram a heran�a de Das Dores. Mas o nariz afilado e aqueles olhos verdes faziam a m�e pensar � com um misto de raiva e orgulho - se Justino, o marinheiro que desaparecera t�o logo anunciada a gravidez, n�o teria. afinal de contas, deixado alguma coisa...

Se conhecia a mis�ria desde o nascimento, Nair aos treze anos iniciou-se na dor e no sofrimento, quando Das Dores morreu numa enfermaria de um Hospital Municipal, quatro dias ap�s ter sido acometida de uma febre misteriosa. E foi ent�o que Deolinda, aquela mulata gorda, de 30 anos presum�veis, solteirona, doceira de m�o cheia, m�e-de-santo respeitada e porta-bandeira do bloco do morro, adotou a menina-mo�a. E a vida prosseguiu. Os doces que Deolinda vendia e o que recebia p�los "despachos" garantiam a sobreviv�ncia. � medida que Nair crescia, sua beleza atra�a mais e mais os olhares cobi�osos dos homens da favela, principalmente do "seu" Lib�rio, um portugu�s de boa �ndole, quarent�o, cidad�o acatado pela massa f�sica e, particularmente, por ser dono de um botequim e de uma birosca no Largo do Boiadeiro. Amigo de Deolinda, dela n�o escondia sua paix�o (respeitosa, naturalmente) pela filha adotiva da m�e-de- santo.

Lib�rio apareceu na Rocinha l� p�los idos de 50 - ningu�m saberia dizer a data exata. Tinha na �poca uns 25 a 26 anos. Chegou com dinheiro, entrou logo em acertos com um "comerciante de terre- nos" e adquiriu tr�s lotes. Construiu, em alvenaria, uma casa para morar, o botequim e a vendinha. Boa conversa, bom bebedor de cerveja, foi-se adaptando, assimilou-se e foi assimilado. Comentava-se que era propriet�rio de mais quatro ou cinco casas comerciais espalhadas p�los sub�rbios da cidade. Mas Nair n�o se mostrava interessada nele ou em qualquer outro homem do morro. Tinha crescido, brincado e sofrido com alguns deles desde o tempo que a mem�ria alcan�ava. V�rios continuavam amigos at� agora, como amigas eram ainda muitas mocinhas do local, algu- mas tamb�m companheiras de inf�ncia. Mas eram amizades superfi- ciais. Todo seu afeto se concentrava em Deolinda, a m�e adotiva a quem chamava de madrinha, e na mem�ria de Das Dores. Frequentou uma escola p�blica, completando o curso prim�rio. Quando a m�e mor- reu, parou de estudar. Aos dezoito anos. gra�as � influ�ncia de Lih�no (sempre prestimoso em atender ao que Deolinda solicitasse), Nair conseguiu um emprego de balconista numa drogaria no bairro do Lcblon. Fora do hor�rio de trabalho, a filha de Das Dores passava a maior parte do tempo no barraco, ajudando Deolinda nos afazeres dom�sticos. At� os dezenove anos, mantivera-se arredia aos convites para namoros ou a qualquer tipo de investida amorosa. Dan�ava com alguns rapazes nas festinhas e ficava nisso.

Ao contr�rio do que sucedia com a maioria das mocinhas da favela, Nair nunca sofreu qualquer atentado de viol�ncia sexual, embora sua beleza fosse um desafio e uma provoca��o para os homens do morro, pouco afeitos a se controlarem diante de uma mulher jovem e bonita. E isso certamente se devia ao temor que todos sentiam por Deolinda. Ningu�m queria ter a m�e-de-santo por inimiga. Dizia-se que seus "despachos" tanto podiam proteger quanto destruir uma pessoa. E, certamente, ela mandaria todos os seus "caboclos" contra quem ousasse tentar violar sua querida filha adotiva. Quando muito, jogavam uma piada mais picante ou uma velada insinua��o. A supersti��o falava mais alto que a tenta��o! Mas n�o eram poucos os que "devoravam com os olhos" aquela mulata de olhos verdes e pernas provocantes.

 

5

Pouco depois do seu d�cimo-oitavo anivers�rio, Nair conheceu Ot�vio. Ele tinha ido � drogaria comprar um rem�dio e ela o atendeu. O jovem estudante de odontologia, branco, rico e charmoso e a mo�a balconista, mulata, pobre e bonita apaixonaram-se � primeira vista. E, a partir da�, a vida dela tomou um rumo diferente. Passou a chegar tarde � noite e a ausentar-se nos fins de semana. Ot�vio nunca subiu � Rocinha, mas Nair contou tudo a Deolinda e mostrou-lhe uma fotografia do rapaz. A princ�pio a m�e adotiva n�o fez qualquer coment�rio. Mas, � medida que o tempo passava e o romance persistia, ela se apercebeu de que Nair levava a coisa a s�rio. Pressentiu ainda que a mo�a n�o se dava conta da ilus�o que estava cultivando. Um dia, resolveu aconselhar:

- N�o vai dar certo, Nair. Esse rapaz n�o � da nossa classe.

A jovem ergueu o queixo num gesto de desafio:

- Ele gosta de mim.

A outra assentiu com a cabe�a:

- Acredito. Voc� � bonita, atraente. Voc�s v�o namorar e dormir juntos por algum tempo. Mas um dia - ela fez um gesto vago com a m�o - Ot�vio vai acordar e ver que voc� � pobre e mora numa favela, ou ent�o a fam�lia dele d� o contra, a� ele vai embora e voc� vai sofrer.

Nair entendeu a preocupa��o de Deolinda, por�m n�o quis escutar mais. N�o desejava ouvir nada que empanasse a sensa��o de felicidade que desfrutava. Encaminhou-se para a porta do barraco e, j� no umbral, voltou-se e disse, menos para a m�e adotiva que para si mesma:

- Vai dar certo.

Em seguida saiu. Deolinda balan�ou a cabe�a murmurando com tristeza:

- Igualzinha � m�e. Das Dores tamb�m s� gostava de homem branco e deu no que deu.

Depois a m�e-de-santo foi at� um pequeno altar sobre a mesinha no canto do cômodo, onde havia uma est�tua de "Ogum" adornada com flores, cocadas e outras oferendas. Ela saudou o "santo" e se p�s a pedir, no estranho dialeto da umbanda, que a entidade "mudasse a cabe�a" de Nair. Mas S�o Jorge, na sua variante afro-brasileira, n�o atendeu dessa vez ao pedido de Deolinda. E o que ela pressentira, aconteceu: passados oito meses de namoro, Nair descobriu que estava gr�vida e Ot�vio, que ent�o j� conclu�ra o curso de odontologia, ao saber da situa��o, evaporou-se como por encanto.

Ao receber a not�cia, Deolinda comentou:

- Eu sabia. T� no sangue. Com Das Dores foi a mesma coisa.

Depois, sentindo que a hora clamava por apoio e compreens�o em vez de cr�ticas e admoesta��es, perguntou:

- Voc� est� sofrendo, filha?

Nair encarou a m�e adotiva com serenidade:

- N�o, madrinha, um pouco decepcionada, talvez... Sei que � dif�cil de entender, mas quando descobri que estava gr�vida, todo o meu sentimento por Ot�vio passou para essa coisinha que est� crescendo aqui dentro.

Acariciou o baixo ventre e sorriu:

- Vai ser menino, eu sei.

- Quer dizer que voc� vai deixar nascer?

- Claro - afirmou Nair com convic��o. - O que � que eu tenho na vida, madrinha, al�m de voc�? Quando ele nascer, ser� diferente. Vai ser meu filho, todo meu.

Deolinda fez um gesto de quem ia ainda argumentar, mas desistiu. Em vez disso, caminhou at� a mo�a, abra�ou-a com carinho e disse:

- T� bem, meu anjo. Pode contar comigo. J� ajudei a criar voc�, posso tamb�m ajudar a criar seu filho.

Nair deixou a cabe�a repousar sobre o ombro gordo e forte de Deolinda e as l�grimas come�aram a rolar lentamente pelas faces das duas mulheres.

6

Quando a "barriga" de Nair come�ou a se fazer notar, o assunto tornou-se um "prato cheio" para os coment�rios e sorrisos maliciosos das mulheres e para os olhares ir�nicos (e despeitados) dos homens da favela. Apenas Lib�rio olhava para a mo�a com um misto de compreens�o e tristeza. N�o que ser m�e-solteira fosse novidade na Rocinha. Muito pelo contr�rio, era regra e n�o exce��o. S� que, em se tratando da austera filha de Deolinda... Mas Nair nunca passou recibo a ningu�m. Seu comportamento n�o mudou em nada, como se nada lhe tivesse acontecido. O pensamento das fofoqueiras e dos despeitados pode ser bem exemplificado pelo coment�rio feito, certa noite, por Emestina, uma preta de meia idade, quando bebia cerveja no botequim do Lib�rio:

- Essa Nair sempre fez "doce" pra cima dos homens daqui e acabou "dando" pra algum bacana l� de baixo. Santinha de pau-ôco!

Uns dizem que Lib�rio ouviu e contou para Deolinda. Outros acham que os "guias" da m�e-de-santo passavam (invis�veis, � claro) pelo local na ocasi�o e escutaram. O fato � que Emestina saiu do botequim, l� pela meia-noite, totalmente b�beda, cambaleando, a caminho do seu barraco que ficava num lugar de acesso perigoso. Para chegar at� l�, ela tinha de atravessar uma passagem estreita � beira de uma encosta que dava para o lado de S�o Conrado. No dia seguinte, bem cedinho, ela foi achada morta, no fundo da ribanceira: o cr�nio tinha se partido de encontro a uma pedra! O caso foi considerado pela pol�cia como "queda acidental por estado de embriaguez". Mas um tal de Nono, um nordestino que nunca ia para a cama sem antes consumir pelo menos uma garrafa de cachaça, jurou ter visto o que sucedeu. E n�o se cansava de repetir:

- A Ernestina foi empurrada por dois "exus" que passaram por ela voando baixo e cuspindo fogo pelas ventas. Eu vi com esses olhos que a terra há de comer.

Poucos admitiram acreditar nessa vers�o mas, pelo sim pelo n�o, desde ent�o, nenhum outro coment�rio foi ouvido na favela sobre a gesta��o da filha adotiva da m�e-de-santo...

***

As dores do parto come�aram na noite do dia 20 de junho de 1970. No in�cio da madrugada seguinte, Lib�rio, atendendo (como sem pre) a sua amiga Deolinda, providenciou um t�xi para levar Nair � Maternidade Clara Basbaum, onde a mo�a tinha feito seus exames pr�-natais. Deolinda, embora preocupada, n�o p�de acompanh�-la. Ia passar o resto da noite e parte do outro dia dirigindo um "trabalho de macumba" especialmente encomendado para garantir a vit�ria do Brasil no jogo final contra a It�lia, na disputa da Ta�a Jules Rimet. Afinal, tratava-se do tricampeonato mundial de futebol! Mas iria ter com a filha adotiva assim que a "sess�o" terminasse.

Nair foi atendida pelo obstetra de plant�o l� pelas 02:00 horas do dia 21. Ap�s auscultar o abd�mem e fazer o toque vaginal, ele disse para a enfermeira:

- Essas prim�paras demoram muito. Acho que s� vai nascer l� para o fim da tarde.

- Mas logo na hora da final do Brasil - comentou a enfermeira.

O m�dico deu de ombros.

- N�o � problema nosso - retrucou ele, - nosso plant�o termina �s oito horas. O azar � do Carlos Jos� e da equipe dele. V�o correr o risco de perder o jogo pela televis�o - e dando uma risadinha debochada, concluiu: - � bom que tragam um radinho de pilha por precau��o.

7

Um bando de garotos corria de um lado para outro, atr�s de uma bola, no campo de futebol improvisado na rua esburacada de terra enlameada. Nair chegou at� a janela e gritou:

- Vem j� pra casa, �talo. T� na hora do almo�o.

***

A casa era de alvenaria, com tr�s c�modos, mais cozinha e banheiro e um pequeno quintal, nos fundos, onde ficava o tanque e um estendedor de corda para secar a roupa. A sala era modesta mas razoavelmente mobiliada: um sof� de couro, a mesa redonda com quatro cadeiras ao redor, uma televis�o colorida em cima de uma estante sem livros, dois vasos de plantas num dos cantos do aposento e uma antiga cristaleira onde se guardavam algumas lou�as e garrafas de bebidas. Sobre ela, uma imagem de S�o Jorge, a cavalo, lan�a apontada para o ventre da serpente. A pre- sen�a deste �ltimo adorno era uma esp�cie de homenagem � velha Deolinda. Sempre que a m�e-de-santo vinha visitar (o que ocorria quase diariamente), seu primeiro olhar se dirigia ao Ogum de gesso, seu "guia" predileto.

- Esse menino quando joga bola esquece at� de comer - falou Nair para o companheiro.

Lib�rio, sentado numa das pontas do sof�, ergueu os olhos do jornal e disse, complacente:

- � natural. Quando eu tamb�m tinha meus onze anos, l� pelas bandas do Porto, n�o passava o domingo sem jogar uma partida de futebol. Mesmo com chuva - soltou um suspiro cheio de nostalgia. - Quem resiste a uma "pelada" nessa idade?

Nair lan�ou um olhar de ternura ao homem imensamente grande que j� retornara a aten��o para o jornal. Quanta coisa lhe devia! Enquanto prosseguia arrumando a mesa para o almo�o, ia se recor- dando do dia em que aquele grandalh�o fora procur�-la, t�o logo ela voltara para o barraco de Deolinda, ap�s o nascimento do filho. Ele tinha entrado, espiado com meiguice para o nen�m no ber�o improvisado e, em seguida, timidamente, proposto casamento...

**

E casaram mesmo, de papel passado e tudo. E, afinal de contas, tinha dado certo. Nair nunca mais voltou ao balc�o da drogaria e, aos poucos, at� as fei��es de Ot�vio foram se apagando da lembran�a. O tempo foi passando. Onze anos. Um saldo positivo. Ela tinha ganho um homem que atendia �s necessidades do dia-a- dia, satisfazia-a como mulher e respeitava-a como pessoa.Ítalo encontrara um pai meigo, respons�vel e, acima de tudo, companheiro. Ela gostava de contemplar os dois, descendo a ladeira, lado a lado, quando Lib�rio ia para o botequim e �talo acompanhava-o para "ajudar". O homenzarr�o e o garotinho, rindo e conversando, de m�os dadas, absorvidos um no outro. O portugu�s, agora cinq�ent�o, ganhara o carinho e o respeito da mulher e a adora��o do menino. E, acompanhando a evolu��o daquele n�cleo familiar, produto de suas ben�ficas maquina��es, havia ainda a zelosa Deolinda, vez por outra relembrando que ela, Nair, tivera um destino bem melhor que Maria das Dores, a m�e verdadeira t�o precocemente desaparecida.

**

Os pensamentos dela foram abruptamente interrompidos. A porta da sala se abriu estrepitosamente e entrou um garoto forte, sujo de lama da cabe�a aos p�s, um sorriso largo no rosto moreno:

- Oi, gente - disse ele, atravessando o aposento como um furac�o.

- V� se lavar, safado - exclamou Nair, procurando dar � voz um toque de rigor - e depressa, sen�o a comida esfria.

O "furac�o" desapareceu a caminho do banheiro. Nair balan�ou a cabe�a e dirigiu-se � cozinha. Lib�rio limitou-se a sorrir e continuou a ler.

8

E assim foi Ítalo, na inf�ncia, adolesc�ncia, at� tomar-se adulto: um "furac�o" risonho. De m�dia estatura e robusto, nariz grosso mas bem feito, profundos olhos negros e cabelos de um ondulado curto, quase crespo. Aprendeu cedo as regras do cotidiano das favelas de ent�o: a ast�cia dos pivetes, as artimanhas dos traficantes, a trucul�ncia dos fortes frente aos fracos e a espolia��o dos ing�nuos p�los mais espertos. Viu gente matar e morrer por causa de uma palavra errada, por ci�me, �dio, vingan�a, cobi�a e at� mesmo por... nada. Ficou logo sabendo que a vida humana vale �s vezes muito pouco. O instinto de sobreviv�ncia ensinou-lhe, tamb�m cedo, a distinguir as situa��es que mereciam ser enfrentadas das que deviam ser evitadas; a diferenciar a hora de apanhar e de bater da hora de transigir e de correr. E desenvolveu, atrav�s dos anos, aquela atitude de disfar�ada desconfian�a que os favelados soem ter em rela��o � gente de fora do seu mundo.

Mas, ao contr�rio da maioria dos meninos e rapazes da Rocinha, o filho de Nair n�o conheceu a pen�ria na pr�pria carne. A mis�ria, presente nos barracos de zinco, nos becos malcheirosos e nos olhos famintos de milhares de pessoas, n�o existia dentro da sua casa. Lib�rio, o pai adotivo, era um homem de certos recursos, dir-se-ia mesmo, no contexto da comunidade, um privilegiado. E �talo usufru�a naturalmente desse privil�gio, mas sem se tomar insens�vel � realidade ao seu redor. Se muitas vezes andava descal�o ou sem camisa era porque gostava do contato da terra e do barro sob os p�s, e da sensa��o dos raios de sol queimando ainda mais a epiderme j� um tanto escura por nascimento. E tamb�m para n�o parecer diferente dos companheiros de rua que viviam descal�os e descamisados por falta de op��o.

Mas o moleque das ruelas era igualmente um menino aplicado nos estudos. Cursou at� o 2" grau e depois, dando vaz�o ao seu pendor pela matem�tica, come�ou a se embrenhar nos caminhos da inform�tica: era tamb�m um ambicioso!

�talo evoluiu cercado por tr�s influ�ncias afetivas bem distintas: a amizade paternal de Lib�rio, o amor doce mas en�rgico de Nair e a prote��o m�stica de Deolinda. O pai adotivo era o companheiro mais velho que lhe ensinava o lado pr�tico da vida, aconselhava-o e estimulava-o nos estudos e projetos para o futuro. E �talo o adorava. A m�e era a fonte de ternura, o ref�gio em cujo rega�o ia tantas vezes derramar l�grimas ap�s certos contratempos que, aos olhos dos adultos, n�o passam de tolices, mas costumam calar fundo na alma das crian�as. Por�m ela representava tamb�m o freio e a disciplina, punindo-o p�los erros e contendo-o em seus excessos. E �talo a amava. Quanto a Deolinda, esta exercia sobre ele um estranho fasc�nio com seus pais-de-santo, crendices e feiti�arias. Foi dela que �talo extraiu o sentimento m�stico que o acompanharia pela vida, dando-lhe uma for�a interior adicional gerada pela convic��o de ser, de certa forma, um predestinado e, em sendo afilhado de Ogum - ou S. Jorge, o santo guerreiro -, gozar de uma prote��o especial concedida por aquela misteriosa enti- dade. Deolinda fez dele um supersticioso. E �talo a venerava. E todos esses fatores formaram a personalidade do filho de Nair: vibrante, alegre, combativo, afetivo e, at� certo ponto, m�stico.

Al�m disso, era �talo ainda dotado das caracter�sticas do l�der nato: coragem consciente, f�rrea for�a de vontade, capacidade de persuas�o e carisma. Possu�a "presen�a f�sica" e o dom da palavra f�cil. J� na adolesc�ncia era capaz de expressar o mais sutil dos seus pensamentos no linguajar rude e peculiar dos favelados. E, por isso, desde cedo, liderou as brincadeiras de rua, as brigas entre as "gangs" de garotos e logo tomou-se o capit�o do time de futebol do bairro. E seria dessa equipe de "peladeiros" que emergeriam tr�s dos grandes amigos que o acompanhariam pela vida afora: Ant�nio Maria, Ol�mpio e Zuza.

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Antônio Maria era alto, magro e claro. �rf�o, sem lembran�a dos pais, ele e uma irm�, dois anos mais mo�a, foram criados por uma tia que sobrevivia no tanque de roupa e na m�quina de costura. Tendo de trabalhar cedo para ajudar no p�o-nosso-de-cada-dia da fam�lia, n�o foi al�m da 4a s�rie. E se entregava a qualquer ocupa��o que rendesse alguma coisa. Tonho, como era chamado na intimidade, era introver- tido e carente. Mas tamb�m era frio, calculista e minucioso, atributos que o transformariam, mais tarde, num eficiente organizador. Aos 18 anos feriu seriamente um rapaz que violentara sua irm�. O violentador, de fam�lia da "alta roda" da Zona Sul, perdeu um olho, quatro dentes e teve v�rios ossos fraturados. Tonho ganhou dois anos e meio de cadeia numa penitenci�ria estadual. Ao sair da pris�o, tor- nou-se ainda mais frio e introvertido, por�m mais maduro, determinado e dono agora de um bom know-how te�rico sobre t�cnicas de assalto a bancos, (�ticas de guerrilha urbana e organiza��o p�ra-militar, conheci- mentos estes aprendidos com companheiros de cadeia enquadrados na ent�o existente Lei de Seguran�a Nacional. Tonho iria se tomar o mais �ntimo dos amigos de �talo e seu lugar-tenente nos futuros aconteci- mentos que o destino lhe havia reservado.

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Contam que, não fosse uma cesariana de urg�ncia, Ol�mpio jamais nasceria ou ent�o teria rompido todas as estruturas p�lvicas da m�e, tivessem os obstetras insistido no parto natural. Tal afirma��o n�o cau- saria esp�cie a quem visse aquele "gigante de �bano", de rosto grande, olhos mi�dos, sem pesco�o, o tronco imenso assentado em membros espessos e musculosos. Aos quinze anos j� tinha 1,90 m de altura e pesava bem mais de 100 quilos. Gostava de uma briga mas raramente encontrava advers�rios: via de regra fugiam � simples vis�o do mas- todonte. Nas "peladas" era aquele zagueiro que, ao chutar, levava tudo de rold�o... A cabe�a raspada, a face redonda e o olhar apertado de pseudo- m�ope davam-lhe impress�o geral de um idiota, coisa que ele absoluta- mente n�o era. Filho �nico de m�e solteira, alfabetizou-se com esfor- �o, mas, seguindo a regra dos menores pobres, ainda cedo foi � luta pelo sustento, j� que a genitora, embora relativamente jovem, pade- cia de uma artrite que a impedia de trabalhar muito. Bem-humorado, embora calad�o, provaria sempre a sua lealdade a �talo e aos demais companheiros.

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Nunca se soube quem foram seus pais. Ele foi encontrado, com poucos dias de nascido, dentro de uma cesta de palha de padaria, envolto numa manta velha, numa ruela do Campo do Esperan�a. Era de madrugada. Ben�, um tenente reformado do Ex�rcito, sa�a para uns biscates, ouviu o choro, achou o mulatinho, teve pena dele, levou-o para casa e o adotou. Tamb�m ningu�m o chamava pelo nome de batismo: Zen�bio (coisas do Ben�!); foi sempre Zuza para todo o mundo. Zuza n�o quis nada com os estudos e permaneceu semi-analfabeto. Por�m era astuto qual uma raposa e n�o havia na Rocinha moleque mais moleque do que ele. Mas era tamb�m amigo dos amigos, sempre pronto a prestar qualquer favor, uma esp�cie de "faz-tudo". E assim foi cativando amizades e sobrevivendo sob as asas do Ben� e dos companheiros.

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Como �talo, Ant�nio Maria, Ol�mpio e Zuza haviam sido criados na Rocinha. Mais tarde, quando j� eram adolescentes, a eles viriam se juntar dois rapazes rec�m-chegados � favela.

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Severino era um jovem caboclo, seco mas dotado daquela mus- culatura que se desenvolve pelo uso constante da enxada. A m�e, uma bonita descendente de �ndio, resolveu abandonar os sert�es �ridos da Para�ba quando o marido morreu de tuberculose sem deixar sequer o dinheiro para o enterro. Vendeu os poucos pertences que restaram e se mandou com o filho. Vieram bater c� no Rio. Percorreram a cidade em busca de um cantinho e acabaram se instalando num barraco l� para dentro do bairro da Roupa Suja, por cima do T�nel Dois Irm�os. Severino estranhou bastante no princ�pio, mas depois se acostumou a carregar lata d'�gua na cabe�a. Nas horas vagas, jogava bola e soltava pipa. Em poucos meses tinha virado um aut�ntico moleque favelado.

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Quando a mis�ria apertou l� nos confins do Acre, Ismael e D. J�lia pegaram o filho mais velho, Z� Augusto, a menina do meio e o ca�ula, ainda de colo, e vieram todos, empoleirados em um caminh�o de candangos at� o Rio de Janeiro. E foram morar num barrac�o bem ao lado do barraco de Severino. Quem olhasse para Z� Augusto, diria logo que ele nascera no lugar errado. Pele clara, cabelos quase louros, olhos esverdeados, tinha um porte de lorde ingl�s perdido dentro dos trapos surrados. Alto, queixo erguido, retra�do e af�vel, ele custou muito a se ajustar aos guetos apertados da Rocinha, habituado que era aos amplos espa�os vazios da sua terra natal. Dotado de inusitada aptid�o manual, aos poucos foi-se arrumando como ajudante de carpinteiro e, no vaiv�m da vizi- nhan�a, acabou amigo de Severino. Tinham algo em comum: a alegria de correr atr�s da bola nas horas vagas, nos campos de "pelada", da favela.

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Foi num jogo de futebol na Vila Uni�o que o paraibano e o acreano conheceram �talo e seus companheiros e a eles juntaram suas fidelidades e seus destinos.

9

E os quatro passaram a ser seis. E porque estavam sempre juntos, em toda parte: nos bares, nas ruas, nos campos de futebol, nas reuni�es comunit�rias e ficaram conhecidos em toda a favela como o "grupo dos seis". E eram respeitados, n�o porque fossem arruaceiros, mas porque eram valentes, fortes e unidos. O ano de 1996 encontrou-os j� homens feitos, cada qual entregue �s suas atividades, por�m mantendo o v�nculo de amizade que só fez crescer com o passar do tempo. �talo, o mais bem dotado intelectual e financeiramente, ap�s cumprir o Servi�o Militar tomou-se t�cnico em computadores da NETBR�S e sonhava vir a constituir, um dia, sua pr�pria firma de inform�tica. Rodava pela cidade na motocicleta que Lib�rio lhe havia presenteado, vivendo um romance aqui, outro ali, sem maiores envolvimentos emocionais. E sempre que arranjava uma pequena e aparecia com ela na Rocinha, Deolinda invariavelmente comentava:

- N�o � essa a mulher da sua vida. � da nossa classe, logo � coisa passageira. Tu n�o escapas � praga da fam�lia.

Ela apontava para a alto.

- Est� escrito l� em cima. Tua m�e e tua av� foram buscar o amor com gente branca e do asfalto, de outro sangue, e vai lhe acontecer a mesma coisa.

�talo escutava. �s vezes ria, zombando da m�e-de-santo. Outras vezes, dominado por sua intr�nseca supersti��o, meditava se realmente o que ela profetizava n�o seria mesmo parte do seu destino. E seguia em suas aventuras amorosas inconsequentes.

Antônio Maria, tamb�m inteligente mas, acima de tudo, ardiloso, arrumou um emprego numa firma de equipamentos eletr�nicos, onde reparava televis�es e videocassetes. Juntando dinheiro, aqui e ali, conseguiu comprar uma moto. Mas tinha ainda outras aspira��es, entre elas a de se tornar radioamador e manipular um bom receptor-transmissor - o que s� viria a acontecer anos mais tarde, quando, por motivos especiais, o grupo dos seis viria a adquirir um potente modelo "Cobra". Um outro sonho, que nem a Italo revelava, era vir a comandar o narcotrádfico na Rocinha, atividade atualmente controlada por um meliante chamado Wilibaldo se Sousa - o Vivinho. E, embora soubesse que o fato desgradava Ítalo, fazia uso frequente de maconha

Tonho, de natureza por demais introvertida, encontrava dificuldade em se relacionar com as mocinhas da favela, mas comentava-se que ele mantinha "um caso" com uma vi�va que morava no bairro de Botafogo.

Ol�mpio, depois de um ano no Ex�rcito, passou a trabalhar como guarda de seguran�a de um supermercado em Copacabana. Solteiro por voca��o, cuidava da m�e doente e namorava uma mulata grandona, sobrinha do diretor de um bloco carnavalesco de Laranjeiras.

Zuza, sempre avesso a qualquer coisa que "puxasse pela cabe�a", acabou mec�nico numa redistribuidora de ve�culos da Volkswagen. Mulherengo, "dava logo em cima" de qualquer mulher que lhe desse aten��o e diga-se, a bem da verdade, era bem sucedido na maioria das tentativas. As vezes, cheirava uma pouco de cocaína, sem nunca chegar ao ponto de se tornar um verdadeiro viciado. Mas fazia uso de álcool de forma menos moderada e, em inúmeras ocasiões, sob o efeito da bebida, causava dustúrbios nos barese nas ruas, obrigando a que seus amigosa intervissem para eviyar que cometesse alguma loucura maior do que a troca de socos e pontapés com seus comparsas de bebedeira.

Z� Augusto dedicou-se � constru��o de pequenas casas e ganhou algum dinheiro. O suficiente para construir sua pr�pria moradia e casar-se com uma bonita morena, secret�ria do Centro Comunit�rio do bairro Barcelos.

Severino, com a ajuda de Lib�rio (que por ele nutria uma simpatia especial) adquiriu um t�xi e come�ou a ganhar a vida na pra�a. Juntou dinheiro, mandou vir da Para�ba uma prima por quem era apaixonado desde a inf�ncia, casou com ela e tomou-se um exemplar chefe de fam�lia. Mas também "puxava"um cigarrinho de maconha, de quando em vez.

**

At� ent�o os seis amigos, conquanto vivendo, como todos, os problemas da comunidade, tinham-se mantido alheios �s atividades - l�citas e il�citas - das fac��es que detinham o poder na Rocinha e �s lutas pol�ticas que se travavam pelo controle das Associa��es. At� ent�o, porque, em breve, um tr�gico acontecimento iria mudar a atitude e o destino de �talo e de seus companheiros.

10

A Rocinha sempre foi uma favela muito peculiar. Com uma popula��o de origem predominantemente nordestina, sofreu um intenso incremento demogr�fico a partir da d�cada de 60, quando foi constitu�da a primeira Associa��o de Moradores, destinada a debater com as autoridades estaduais os interesses da comunidade. � medida que crescia, a Rocinha se subdividia em bairros, alguns deles - Cachopa, Vila Uni�o, Laboriaux - situados fora do per�metro oficialmente reconhecido como a favela, ou seja, entre a Estrada da G�vea e a Auto-Estrada Lagoa-Barra. A expans�o populacional, o desenvolvimento dos bairros, a participa��o de grupos religiosos, a atividade de aproveitadores de toda a esp�cie e a atua��o de pol�ticos que vinham cabalar votos em troca de promessas raramente cumpridas, originaram o surgimento de v�rias entidades rivais representando segmentos diversos da popula��o favelada, fac��es ideol�gicas e interesses meramente pessoais. A luta pelo controle dessas entidades foi muitas vezes pautada pela viol�ncia. No início do terceiro milênio tr�s poderosas fac��es mantinham a Rocinha dividida em zonas de influ�ncia distintas, aut�nticos feudos de seus chefes, cada um entregue a atividades reconhecidamente ilegais.

Vivinho assumiu a dire��o da Associa��o dos Moradores do Laboriaux ap�s a morte do seu antecessor, o qual, ao contr�rio dele, tinha sido um homem de bem, querido e respeitado. Da sua mans�o, conhecida como a "fortaleza", o "rei do t�xico" controlava o tr�fico de narc�ticos na Rocinha e em muitas outras zonas da cidade.

Teobaldo, comerciante ilegal de terrenos e moradias foi al�ado � presid�ncia da Uni�o dos Moradores da Rocinha (UMR), atrav�s de uma elei��o em que predominaram a fraude e a coa��o. O cargo tornou ainda mais f�cil a explora��o daqueles que, rec�m-chegados � favela, necessitavam de um cantinho para viver. E "alugando" e "vendendo" barracos e terrenos, Teobaldo prosperava.

Zequinha era dono de quase todos os pontos de jogo do bicho, da Barra da Tijuca ao Leblon, explorava tamb�m o lenoc�nio e mantinha, ainda, algumas "bocas de fumo", controladas pelo pesssoal do Vivimho. Sua sede era no bairro Barcelos, cuja Associa��o de Moradores controlava pelo suborno e pelo terror inspirado por seus capangas.

A quase totalidade dos marginais da Rocinha se congregavam em torno de um desses tr�s homens, conhecidos como os "chef�es". Os tr�s "chef�es" n�o eram amigos, mas toleravam-se mutua- mente e procuravam respeitar as respectivas �reas de atua��o j� que, na realidade, seus neg�cios n�o se conflitavam. Mas, l� no fundo, cada um aspirava ampliar sua esfera de a��o e seus lucros, apossando-se dos empreendimentos dos outros. Por�m, n�o se dispunham a uma luta aberta que pudesse enfraquec�-los. Sabiam ser odiados pela maioria dos moradores honestos e trabalhadores da favela, mas enquanto esse �dio fosse superado pelo medo que impunham, continuariam a reinar tranquilamente. O que instintivamente temiam era o aparecimento, algum dia, de uma lideran�a que, unindo os favelados, viesse a constituir uma nova for�a capaz de desaloj�-los do poder. Por isso procuravam manter a Rocinha politicamente dividida e estimulavam as est�reis rivalidades entre os bairros da favela.

11

Lib�rio sempre mantivera uma posi��o bem definida quanto ao uso de t�xicos no seu boteco no Largo do Boiadeiro. Se por um lado fazia "vista grossa" quando alguns fregueses "puxavam um cigarrinho", por outro n�o permitia que seu estabelecimento se transformasse num "ponto de venda" do tráfico. Assim tinha sido at� ent�o e assim continuaria a ser, a despeito das press�es que vinha sofrendo ultimamente por parte de Dami�o, um dos distribuidores de Vivinho.

Apesar da idade - tinha acabado de fazer 69 anos - Lib�rio teimava em continuar tomando conta da caixa do botequim nas noites de sexta-feira e s�bado, quando era mais intenso o movimento. �s suge t�es de Nair e �talo para que deixasse essa tarefa a cargo de um dos empregados, o portugu�s invariavelmente retrucava, sorrindo por tr�s dos longos bigodes, agora inteiramente brancos:

- O olho do dono � que engorda o boi - e conclu�a suspirando: - Fa�o isso h� mais de trinta anos. S� paro quando morrer.

Lib�rio nunca padeceu de doen�a grave. Era daqueles que se mant�m sadios e bem dispostos at� o instante em que a morte os surpreende, sem pr�dromos ou aviso pr�vio. E, pelo menos na apar�ncia, continuava rijo e vigoroso. Sua vida se enquadrava numa rotina de muitos anos: dirigir o boteco, controlar as contas do armaz�m de secos-e- molhados gerenciado por um "patr�cio", desfrutar da companhia da mulher e do filho adotivo, torcer pelo Vasco e, de vez em quando, reunir velhos companheiros para uma cervejinha e uma partida de damas ou de sueca. E sentia-se feliz.

Lib�rio amava a Rocinha e, embora nunca se manifestasse publicamente, costumava confidenciar a �talo suas idéias a respeito da favela:

- O maior erro aqui - ponderava ele - é que as pessoas de bem se acomodam e os maus tomam a frente e controlam tudo. É preciso que, algum dia, algu�m acabe de vez com essa briga entre facções e crie uma Associa��o �nica. Coesos, os moradores poderão lutar pelas coisas que importam para a coletividade, afastando esses "chefões", que s� cuidam de seus interesses pessoais.

E confessava:

- Quando era mais mo�o pensei, muitas vezes, em me tornar um elemento participante. Mas a� lembrava que era estrangeiro e recuava. Na hora que eu come�asse a incomodar, não ia faltar quem dissesse que portugu�s n�o deve meter o bedelho em assuntos de brasileiros.

�talo escutava com aten��o, mas as palavras de Libório logo passavam ao rec�ndito do subconsciente. O filho de Nair preferia se manter alheio �s quest�es pol�ticas da Rocinha, Desde que sua vida e a dos que lhe eram caros n�o fossem perturbadas ou ameaçadas, pouco se lhe dava o que fizessem os tais chef�es e seus asseclas.

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Dami�o era um mulato franzino, j� perto dos trinta, que se tornara conhecido, quando ainda pivete, como assaltante de turistas nas praias de S�o Conrado. Passou tr�s anos recolhido à FEBEM, onde aprimorou seus conhecimentos em marginalidade, ingressando, a fundo, no mundo dos t�xicos. Solto, iniciou-se na carreira de traficante, vendendo maconha para estudantes nas portas dos colégios, at� se incorporar � quadrilha de Vivinho. A partir de então, especializou-se no com�rcio de coca�na e LSD, instalando pontos de distribui��o em diversos locais da Rocinha, onde receptadores apanhavam as drogas para revender aos grã-finos viciados da Zona Sul.

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Pela sua localiza��o e pelo movimento que gerava, o boteco do Lib�rio era visto por Dami�o como um excelente ponto para suas atividades. Tentou us�-lo mas, descoberto, foi severamente advertido pelo propriet�rio. Insistiu, foi novamente reprimido. Fez propostas, foram recusadas. Sumiu por uns tempos, depois voltou � carga. As novas proposições foram de novo recha�adas, agora com ainda mais energia.

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Numa manha de ter�a-feira - a primeira do m�s de setembro de 2003 - Dami�o estava esperando por Lib�rio quando este chegou, l� pelas 8 horas, para abrir o botequim, como fazia habitualmente. O assunto da distribui��o de t�xicos veio � baila. Discutiram. Confiando na diferen�a de idade ou, quem sabe, na fama de homem mau que desfrutava, o traficante insultou o velho portugu�s. A resposta veio sob a forma de um violento soco que jogou o mulato ao solo, o sangue jorrando do nariz quebrado. Ainda ca�do, Dami�o sacou do 38 e disparou dois tiros. Uma das balas perfurou o cora��o de Lib�rio. Ele tombou sobre a cal�ada enquanto sua vida se extinguia. Dami�o saiu correndo, enveredou por uma das travessas do bairro Barcelos e desapareceu.

 

12

12 Quando levaram a not�cia da morte de Lib�rio, �talo j� tinha ido para o trabalho. Nair saiu porta afora desesperada. Um vizinho colocou-a num carro e seguiram para o Largo do Botic�rio. A not�cia se espalhou rapidamente. Algu�m contou para Severino. Ele pegou o t�xi e partiu � procura de �talo. Z� Augusto t�o logo soube do ocorrido comunicou-se com Ant�nio Maria e Zuza. Este avisou Ol�mpio. A pol�cia apareceu e interditou o local. Somente a Nair foi permitido chegar at� junto ao corpo. Severino s� localizou �talo l� pelo meio-dia, num centro de computadores da NETBRAS na zona norte.

Quando o filho adotivo da v�tima chegou � Rocinha, o cad�ver j� havia sido removido para o necrot�rio. Ant�nio Maria, usando sua conhecida habilidade, conseguiu obter de uma testemunha - a qual negara � pol�cia ter reconhecido o assassino - a informa��o de que o criminoso era o traficante Dami�o. Ao cair da noite o corpo do velho portugu�s foi conduzido ao cemit�rio do Caju. Durante o vel�rio, �talo permaneceu o tempo todo ao lado de Nair, aparentando calma e conformismo. Mas seu cora��o sangrava de dor e em seu c�rebro fervilhava um s� pensamento: vingan�a. O enterro foi cedo na manh� seguinte. Muita gente da Rocinha des- ceu para dizer adeus ao bom Lib�rio. Depois, Nair foi levada para a casa de Deolinda.

O grupo dos seis reuniu-se pr�ximo � antiga escola Paula Brito. Foi quando Ant�nio Maria revelou quem tinha sido o assassino. �talo disse apenas:

- Eu vou matar ele.

- N�s vamos procurar o cara pra voc� - falou Z� Augusto expressando o pensamento de todos.

E come�ou a ca�ada. Levaram tr�s dias para conseguir uma pista. Finalmente, um pivete informou a Zuza ter visto Dami�o saindo de um pr�dio na Pra�a do J�quei, em que morava um tal de "Careca", outro narcotraficante.

- Ele t� se escondendo l� - revelou o moleque.

Zuza entregou-lhe um pacotinho de maconha como recompensa pela informa��o e ordenou:

- Vamos. Quero ver onde fica esse lugar.

Os seis amigos esperaram do anoitecer at� a madrugada. Espalhados pela Pra�a, mantinham-se atentos, vigiando o pequeno edif�cio de apartamentos apontado pelo pivete como a resid�ncia do "Careca". Finalmente, pouco antes do amanhecer, viram Dami�o descer de um �nibus numa esquina pr�xima, �talo correu do lugar em que se achava e o alcan�ou, puxando-o com viol�ncia pelo ombro antes que ele chegasse � portaria do pr�dio. O mulato virou-se sobressaltado, a m�o baixando reflexamente � procura da arma na cintura. Mas n�o completou o gesto: os olhos dos dois homens se encontraram e o �dio que ele viu nos de �talo deixou-o momentaneamente sem a��o. Foi quando o traficante sentiu um objeto espetando-o perto do est�mago. Tentou livrar-se, por�m o filho adotivo de Lib�rio, bem mais forte, mantinha-o imprensado contra a parede. Dami�o quis gritar por socorro mas a faca que penetrou at� o cabo, um pouco acima do umbigo e depois foi rasgando para cima abrindo o peito at� o pesco�o, transformou o grito num gemido abafado, que se perdeu entre os barulhos do fim da madrugada.

- Isto � por conta do meu pai... miser�vel, filho da puta!

A exclama��o de �talo sufocou os ru�dos estertorosos que escapavam da garganta do traficante. O vingador puxou a faca ensanguenada e correu para o t�xi de Severino, estacionado a alguns metros de dist�ncia. O carro zarpou, escoltado por duas motos e desapareceu na curva da Rua Marqu�s de S�o Vicente, rumando para a Estrada da G�vea.

Na cal�ada, Dami�o estrebuchou e morreu. O porteiro do pr�dio, que tinha presenciado o crime atrav�s da porta de vidro da entrada, foi at� o interfone, ligou para o "Careca" e, gaguejando, relatou o ocorrido. Ap�s um momento de reflex�o o traficante falou, num tom amea�ador:

- Escute aqui, Manoel, eu n�o conhe�o nenhum Dami�o nem voc� viu nada. Bico calado ou acaba arrumando um jeito de ir também desta para a melhor. Entendeu?!

O porteiro, um homem de meia-idade, j� medroso por natureza, sentiu um n� na garganta mas conseguiu balbuciar:

- Sim... senhor.

E, assustado, voltou � entrada do pr�dio e ficou olhando para o grupo de pessoas que come�ava a se formar em volta do corpo esfaqueado do assassino de Lib�rio.

***

O delegado Gama, da 15a D. P., j� estava cansado da profiss�o. Faltando menos de um m�s para a aposentadoria, a �ltima coisa que desejava era casos complicados para serem desvendados na sua jurisdi��o. Ele deixou cair o corpo pesado na cadeira, olhou por cima dos �culos para o detetive Tavares e perguntou, de m� vontade:

- Alguma pista sobre quem matou aquele sacana do Dami�o?

O detetive balan�ou a cabe�a.

- Nada. A �nica poss�vel testemunha era o porteiro do pr�dio em cuja cal�ada o cara foi esfaqueado. Mas ele jura n�o ter visto coisa alguma.

Gama amassou o toco do cigarro no cinzeiro.

- Deve ter visto sim, mas quis ficar de fora. Ali�s, n�o o culpo. Afinal, o que iria lucrar abrindo o bico?

Soltou um bocejo e prosseguiu:

- Voc� tem algum palpite sobre esse caso?

Tavares passou a m�o na barba por fazer.

- Bem, o Dami�o era distribuidor de t�xico na Rocinha e h� cinco dias mataram aquele comerciante de l�, um tal de Lib�rio... outro crime sem pistas.

O delegado ergueu as sobrancelhas.

- Voc� acha que h� rela��o entre os dois assassinatos?

- � poss�vel. Vai ver alguma pessoa chegada ao comerciante suspeitou do Dami�o e foi � forra.

- É uma possibilidade - admitiu Gama. - Contudo, tamb�m pode ter sido algu�m de fora da favela. Esse Dami�o deve ter pisado no calo de muita gente pela cidade toda.

- � verdade - concordou Tavares sem muita convic��o. - Mas o que � que o senhor resolve, chefe? Continuamos investigando ou damos o caso por encerrado?

O delegado sacudiu os ombros e reclinou a cadeira para traz.

- Faz mais umas perguntas por a� para deixar a imprensa satisfeita. Depois - fez um gesto displicente com a m�o - "finito". Mandamos um relat�rio para o Departamento de Homic�dios. E garanto que eles tamb�m v�o fazer "corpo mole". Afinal de contas, � aquele velho ditado: "Um bandido a mais no inferno � um criminoso a menos na terra".

 

13

Ap�s ter liquidado Dami�o, �talo passou v�rios dias afastado de todos, calado e arredio. Sa�a apenas para ir � NETBRAS, mas logo que regressava voltava ao seu isolamento. A vingan�a havia arrefecido o �dio, mas a dor n�o tinha ainda esmorecido. Nair continuava sob os cuidados e consolo de Deolinda, o que lhe possibilitava ficar sozinho em casa, meditando horas a fio, �s vezes entrando pela madrugada.

Tr�s semanas depois da morte de Lib�rio, �talo decidiu ter uma s�ria e longa conversa com a m�e. Em seguida, como que despertando da apatia e dando fim � volunt�ria clausura, comunicou-se com seus cinco companheiros, marcando um encontro para aquela mesma noite. Vieram todos. Era a primeira vez que os seis se reencontravam ap�s o epis�dio da Pra�a do J�quei. Acomodaram-se pela sala e serviram-se de cerveja. Ent�o �talo come�ou a falar. Decidira, com a aquiesc�ncia da genitora, vender algumas das propriedades deixadas por Lib�rio, o que inclu�a o botequim e o armaz�m de secos-e-molhados. E parte do dinheiro resultante da venda seria empregado para financiar um plano que pretendia levar a cabo.

Correu os olhos p�los rostos dos amigos. Apontou para o pr�prio peito e disse, com a voz ligeiramente tr�mula:

- Tem um tro�o me machucando muito aqui dentro desde que meu pai morreu.

E falou sobre as ideias de Lib�rio a respeito da Rocinha:

- Ele sempre quis mudar as coisas por aqui, mas se segurava porque n�o era brasileiro - o olhar de �talo parecia muito longe, num ponto indefinido. - Voc�s sabem que eu nunca gostei de me meter nessa guerra pol�tica da favela, mas agora meu pensamento mudou. Vou � luta pra fazer o que o velho gostaria de ter feito: acabar com essas malditas fac��es e unir a Rocinha numa s� Associa��o.

A voz dele adquiriu um tom de determina��o ao concluir:

- Devo isso a meu pai e n�o vou ter paz enquanto n�o conseguir.

- Os "chef�es" n�o v�o gostar - ponderou Z� Augusto.

Um lampejo de �dio cintilou nos olhos do filho de Nair.

- Porra, Z�, que se fodam esses malditos chef�es. Foi o capanga de um deles quem matou Lib�rio. Topo enfrentar esses putos e mandar todos prô inferno.

Seguiu-se um longo sil�ncio. Nunca antes os amigos tinham visto �talo se manifestar com tanta veem�ncia e rancor. O filho de Nair tomou um gole de cerveja. Depois de algum tempo, mais controlado, perguntou:

- Ent�o?

Os homens se entreolharam e nesse entreolhar se entenderam. Ant�nio Maria se ergueu e disse, pausadamente:

- Estamos contigo pra qualquer coisa, irm�o.

Depois foi at� �talo e abra�ou-o. Em seguida, um por um, todos repetiram o gesto de carinho e solidariedade. Os olhos de �talo umedeceram. O grupo dos seis selava um pacto com o destino.

**

Voltaram a se encontrar na noite seguinte e ent�o o plano de �talo foi minuciosamente discutido. A ideia b�sica consistia em aproveitar as elei��es que se realizariam dentro de quarenta dias para definir a nova diretoria da Uni�o dos Moradores da Rocinha e era certo que Teobaldo n�o deixaria de tentar a reelei��o. Italo propunha que o grupo dos seis desenvolvesse uma campanha por toda a favela no sentido de que, na ocasi�o, fosse tamb�m efetuado um plebiscito pelo qual a popula��o decidisse se desejaria ou n�o unificar as atuais Associa��es em uma �nica entidade. Paralela- mente, lan�ariam um candidato pr�prio � presid�ncia Italo informou j� ter sondado Natalino, o fundador da Escola de Samba Unidos da Rocinha, uma figura querida, honesta e respeitada.

- Ele topou - disse Italo, - com a condi��o da gente tamb�m fazer parte da diretoria. Concordamos que eu fico com a vice-presid�ncia e o Tonho com a secretaria-geral.

- O velho merece a distin��o - comentou Zuza. ass�duo frequentador da referida Escola e admirador de Natalino.

- Voc�s v�o � matar o velho de emo��o - profetizou Ol�mpio em uma de suas raras interven��es.

- Ele morre feliz - filosofou Severino.

�talo virou-se para Ant�nio Maria:

- O que acha, Tonho?

- Tudo bem - respondeu ele, - s� que de agora em diante a gente vai catucar on�a com vara curta. Acho que vamos ter de andar armados.

�talo fez um gesto de assentimento.

- E tamb�m seria bom que todos n�s tiv�ssemos motos. Vai facilitar o deslocamento na campanha das elei��es, impressiona a turma daqui e imp�e respeito. Como eu e o Tonho j� temos as nossas Hondas, s� vamos precisar de quatro.

- E o dinheiro? - indagou Z� Augusto.

- J� acertei a venda do botequim e do armaz�m com o Fonseca - replicou Ítalo. - Assinamos os pap�is e vou receber a grana na semana que vem. Me encarrego de comprar as motos.

- E eu cuido de conseguir algumas armas - disse Tonho. - Com uns 8.000 reais arrumo um pequeno arsenal l� com a turma da Baixada.

- Certo, voc� � o especialista no assunto. E o Z� cuida da impress�o dos panfletos de propaganda pra distribuir pela favela. Acho que devemos come�ar a agir dentro de umas duas semanas.

�talo passeou os olhos pelo ambiente.

- Algu�m quer falar alguma coisa?

- S� tem um tro�o complicado nessa hist�ria toda - resmungou Severino. - Eu nunca consegui aprender a andar de moto.

- Mas dessa vez tu aprendes, cabe�a chata - exclamou Zuza, debochado como sempre e aplicando um ressonante tapa nas costas do paraibano.

E. pela primeira vez. desde a morte de Lib�rio, um sorriso iluminou o rosto moreno de �talo.

14

Em menos de tr�s semanas o grupo dos seis iniciou a campanha na Rocinha. Aos pares, percorreram de moto todos os becos e ruelas da favela, distribuindo panfletos e incitando a popula��o a votar no plebiscito em favor de uma Associa��o �nica e no Natalino para presidi-la. À noite, Ítalo ia de rua em rua, improvisando com�cios, captando, com seu carisma e poder de persuas�o, a ades�o dos favelados para a ideia. Em pouco tempo, j� se sentia no ar o cheiro de vit�ria.

A dez dias do pleito, os tr�s "chef�es" se reuniram e, deixando de lado conhecidas rivalidades, decidiram se unir contra o inimigo comum: �talo e seus companheiros. O encontro teve lugar na mans�o de Vivinho. Foi r�pido e decisivo.

- Se essa gente consegue uma Associa��o unificada n�s estamos fodidos - vaticinou o "rei do t�xico". - E da maneira que as coisas v�o � o que vai acontecer.

Apontou para Teobaldo:

- E voc� vai perder prô idiota do Natalino.

O "comerciante" concordou.

- E quem vai dar as cartas � o �talo. Sai de vice, o Natalino t� caindo aos peda�os, bate logo as botas e ele pega a presid�ncia.

- O Dami�o devia ter liquidado o filho em vez do pai - interveio Zequinha.

Vivinho n�o conteve um gesto de irrita��o:

- Pois foi aquela besteira do Dami�o que criou toda essa confus�o. O tal doÍtalo nunca foi l� de pol�tica. A morte do Lib�rio parece que mexeu com a cuca desse bastardo. No fundo, tudo isso � parte da vingan�a dele. Quer subir pra acabar com a nossa ra�a.

- E o que a gente vai fazer? - indagou Teobaldo - Cruzar os bra�os e esperar levar o ferro?

Vivinho alisou o bigodinho bem aparado e sorriu.

- Nada disso. Dessa vez a gente vai em cima do homem certo. Ítalo � o cabe�a. Com ele eliminado a turma se desfaz.

- Mas tem de ser antes das elei��es � argumentou Teobaldo.

- Claro - concordou o traficante, ajeitando os cabelos recendendo a �gua de col�nia. - E j� tenho o cara perfeito pra fazer o servi�o.

- Quem? - perguntou Zequinha.

- O Minhoc�o - respondeu Vivinho, - ele � bom no tiro. S� tem uma coisa, n�s vamos rachar o pre�o do "contrato".

Os outros dois assentiram.

- Ent�o, tudo bem - arrematou o "rei do t�xico", colocando um cigarro na piteira de ouro.

- Cada um faz agora um cheque de 500 reais. Por mil e quinhentos o Minhoc�o liquida at� a pr�pria m�e.

 

15

As favelas cariocas t�m seus barulhos caracter�sticos, os quais n�o diferem muito dos que se ouvem nos casb�s das comunidades �rabes ou nos guetos pobres das cidades do Extremo-Oriente: musicas em profus�o, mulheres falando alto, sons de buzinas, casais se achincalhando, b�bados soltando palavr�es, o choro das crian�as pequenas e a algazarra indefinida dos moleques vagando pelas ruas.

Mas naquela �rea da Rocinha, já no inicio de uma nova madrugada, a noite estava relativamente quieta. Num dos quartos da casa, Nair e Deolinda conversavam baixinho. �talo, Ant�nio Maria e Zuza bebiam e jogavam p�quer na mesa da cozinha. Ant�nio Maria pegou uma garrafa e comentou: - Acabou a cerveja.

�talo ergueu-se e caminhou em dire��o � sala.

- Vou pegar uma garrafa de pinga na cristaleira.

As l�mpadas do c�modo estavam apagadas e o recinto permanecia iluminado apenas pela claridade discreta que filtrava da rua atrav�s da janela e pela luz t�nue e bruxuleante da vela diante da imagem de Ogum, em cima do velho m�vel. De costas para a janela. �talo abriu a porta da cristaleira e abaixou- se para apanhar a garrafa na prateleira inferior. E este gesto, decerto inesperado para quem o observava do lado de fora, salvou-lhe a vida. Ele ouviu um zumbido sobre a cabe�a, ao mesmo tempo em que a parte superior do m�vel fazia-se em peda�os e uma explos�o ensurdecedora enchia o ambiente. Num ato reflexo, atirou-se ao ch�o, sacando o rev�lver que trazia � cintura. Pelo canto do olho discerniu um vulto se afastando, c�lere, da janela tamb�m estilha�ada.

Aos gritos, Nair entrou na sala seguida pelas passadas pesadas de Deolinda, enquanto Zuza e Ant�nio Maria, armas em punho, penetravam pela porta que dava para a cozinha.

- Estou bem, n�o me atingiram - exclamou �talo visando tranquilizar os outros.

Nair correu para abra�ar o filho que se levantava. Ant�nio Maria e Zuza abriram a porta da sala e espiaram a rua. N�o se via viva alma. Seguiu-se um longo momento de sil�ncio. Depois vozes come�aram a ser ouvidas das casas vizinhas e algumas cabe�as apareceram, timidamente, nas portas e janelas. Os dois homens voltaram para dentro. �talo acendeu a luz da sala e comentou:

- Vi de relance um vulto se afastando logo depois do tiro. J� se mandou.

Deram ent�o um balan�o nos estragos: a cristaleira fora parcialmente destru�da e cacos de vidro e de lou�as espalhavam-se pelo assoalho. Na parede oposta � janela estilha�ada, um buraco marcava o ponto de entrada do proj�til. Deolinda fitava, desconsolada, a imagem do seu querido Ogum, reduzida agora a peda�os de gesso dispersos no ch�o de madeira.

- Foi tiro de escopeta - afirmou Ant�nio Maria.

- Eu sei - confirmou �talo. - A minha sorte foi que me abaixei na hora em que o cara disparou.

- Ele devia estar de tocaia, esperando que voc� aparecesse na sala - comentou Zuza, olhando na dire��o da janela.

- Vamos l� fora - sugeriu �talo, - talvez algu�m tenha visto alguma coisa.

Sa�ram para a rua. Agora que o perigo havia aparentemente deixado de existir, a vizinhan�a acercava-se, curiosa. Logo os tr�s se viram envolvidos por uma d�zia de pessoas, todas fazendo perguntas ao mesmo tempo. �talo ergueu a m�o pedindo sil�ncio e indagou:

- Algu�m viu quem atirou na minha janela?

Apenas murm�rios indecifr�veis, meneios de cabe�as e olhares cautelosos e enviesados responderam � pergunta. Era sempre assim em situa��es como aquela: ningu�m tinha visto nada ou calavam-se pelo temor de repres�lias. �talo correu o olhar ao redor, sondando as fisionomias, e percebeu que uma mulher preta, gorda e baixinha, um tanto idosa, cujo nome ignorava, mas que costumava viver de papo com Deolinda, fez um sinal quase impercept�vel com a m�o. Ele entendeu e falou, erguendo a voz com autoridade:

- Ent�o tudo bem, pessoal. � melhor irem para suas casas. O cara pode voltar e a� vai comer chumbo grosso.

N�o foi preciso uma segunda advert�ncia. Em segundos, a pequena multid�o se dispersou. Alguns ficaram espiando de longe, por tr�s das portas entreabertas e pelas frestas das janelas, na expectativa de novos acontecimentos. Apenas a mulher que sinalizara permaneceu. �talo e seus companheiros voltaram para o interior da casa e ela os seguiu, um tanto hesitante. L� dentro a velha abra�ou-se com Deolinda.

- Veja que maldade, Joana - disse a m�e-de-santo, consternada - al�m de tentar matar meu neto-af�lhado esse miser�vel destruiu o meu Ogum.

Nair tinha apanhado uma vassoura e pusera-se a varrer os cacos. Os homens rodearam a amiga de Deolinda.

- A senhora viu quem foi, n�o viu? - perguntou �talo.

Ela olhou de banda para a m�e-de-santo, como a pedir ajuda.

- Se viu, conta - aconselhou Deolinda. - A gente tem de saber pra tomar cuidado. Ele pode voltar, - e apontando para os restos da imagem do santo, concluiu: - E o peste vai ter de pagar por isso.

A outra ainda parecia hesitar. Ant�nio Maria animou-a:

- N�o tenha medo, minha velha. Ningu�m vai ficar sabendo que foi a senhora que contou.

- E a pol�cia? - indagou Joana, com voz indecisa.

- Quem � que vai meter pol�cia nessa hist�ria? - interveio Zuza. - Vai, vovozinha, conta logo. Assim a gente pega o sacana e ele n�o faz mais mal a ningu�m.

Joana decidiu-se:

- T� bem, vi sim. Tava na janela quando ele passou correndo depois do barulho, carregando um trabuco na m�o. Conhe�o o satan�s. O miser�vel j� andou fazendo muita coisa ruim por a�. Um dia, agarrou minha sobrinha, a Cremilda, arrastou ela pr� mato e rompeu a pobrezinha toda - a velha baixou o olhar por vergonha ou consterna��o e concluiu - na frente e atr�s.

- Como � o nome dele? - perguntou Antônio Maria.

- Chamam ele de Minhoc�o. � um mulato sarar� que vive l� prô lado da Rua Dois.

Ap�s o desabafo, Joana abra�ou-se com Deolinda, � cata de consolo. Os tr�s homens se entreolharam.

- M�e - disse �talo, dirigindo-se a Nair - feche tudo e passe as trancas nas portas. N�s vamos sair para resolver isso.

Ela p�s a m�o no bra�o dele, o olhar suplicante:

- Cuidado, meu filho, pelo amor de Deus!

- Sei o que fa�o, m�e, n�o se preocupe.

Os olhos de Deolinda faiscaram.

- Deixe ele ir, Nair - disse ela resoluta. - Quem sai pra vingar Ogum vai de corpo fechado.

Os tr�s homens deixaram a casa pela sa�da dos fundos, rumando para o pequeno quintal onde estavam guardadas as motos de �talo e de Ant�nio Maria.

- Esse Minhoc�o � da quadrilha do Vivinho - disse Ant�nio Maria. - Ele quer acabar com voc� por causa do plebiscito. E aposto que o Zequinha e o Teobaldo tamb�m est�o nisso.

- Hum, hum - concordou �talo. - Vamos tentar agarrar o Minhoc�o. E se ele confessar que os tr�s est�o envolvidos, a gente resolve essa parada com os "chef�es" logo de uma vez. Depois desse atentado, somos n�s ou eles. N�o h� sa�da.

- Agora? - indagou Zuza.

- Claro. Se agirmos ainda esta madrugad,a pegamos todos de surpresa. Duvido que esperem uma desforra assim t�o depressa.

- Isto � verdade - admitiu Ant�nio Maria. - Escuta, �talo, ser� que o Minhoc�o acredita ter acertado voc�?

- Pelo menos deve estar na d�vida. Eu me joguei no ch�o na hora do disparo.

- Ent�o se foi mesmo "contrato", acho que ele vai esperar as not�cias circularem pra ter certeza antes de ir se entender com os mandantes.

- E � a� que est� nossa vantagem - ponderou �talo. - Se pegamos o Minhoc�o antes dele falar, podemos apanhar os tr�s "chef�es" na cama, desprevenidos. E, com sorte, liquidamos tudo antes do amanhecer. De acordo?

Zuza assentiu com a cabe�a. Ant�nio Maria sorriu um sorriso frio.

- A hora do ajuste de contas tinha mesmo de vir, cedo ou tarde. Fizeram a tentativa deles e falharam. Logo, � a nossa vez. E por que n�o hoje? Voc� tem raz�o: se esperarmos, ou eles tentam de novo ou se fecham e ent�o vai ficar mais dif�cil elimin�-los.

- Vamos precisar de ajuda - argumentou �talo. - Que tal pegarmos o Ol�mpio, o Z� Augusto e o Severino? N�s seis damos conta do servi�o.

- Bem, sabemos onde encontrar os "chef�es" - disse Ant�nio Maria. - O problema vai ser achar o Minhoc�o.

- Talvez n�o - interveio Zuza - garanto que Ol�mpio sabe.

- Quem te deu essa ideia?

- Tou sabendo, Tonho. O Minhoc�o andou dando em cima da garota dele. O Ol�mpio descobriu onde o sarar� mora e foi l� tomar satisfa��es. O sacana safou-se com mil desculpas, mas quase levou uma tremenda co�a.

Subiram nas motos. Zuza na garupa com Ant�nio Maria, �talo ergueu o polegar e disse, com determina��o:

- Ent�o vamos arrancar o Ol�mpio da cama. Depois planejamos a melhor maneira de acabar com a ra�a desses filhos da puta.

E as motos partiram, quebrando o sil�ncio da madrugada que apenas come�ava.

16

Ol�mpio saiu do barraco esfregando os olhos e pondo a camisa para dentro das cal�as.

- Custou a acordar - justificou Ant�nio Maria, que tinha ido busc�-lo e vinha vindo mais atr�s.

O grandalh�o p�s a m�o no ombro de �talo.

- O Tonho me contou o que aconteceu. Voc� deu sorte. Mas tem forra. Sei aonde a gente encontra o puto do Minhoc�o. Ou est� no bar do Joca enchendo a cara ou na cama curtindo o porre. O barrac�o dele fica perto do bar.

- �timo. Mas antes vamos apanhar o Severino e o Z� Augusto - disse �talo, subindo na moto e fazendo sinal para o Ol�mpio montar na garupa.

**

O t�xi de Severino ia chegando quando as duas motos pararam na porta do casebre. Em poucas palavras, �talo p�s o nordestino a par da situa��o. Ele foi at� a casa guardar a "f�ria" do dia e dar uma palavra com a mulher. Voltou em menos de cinco minutos e partiram.

�talo e Ant�nio Maria nas motos e Ol�mpio e Zuza no t�xi, com Severino. A casa de Z� Augusto ficava perto. O acreano ainda estava acordado quando o chamaram e n�o demorou em vir ao encontro dos companheiros. Rapidamente contaram-lhe o que estava acontecendo. Em seguida, �talo encostou-se no muro, reuniu os amigos num semi- c�rculo e disse com a fisionomia carregada:

- Vim pensando muito pelo caminho e armei um plano que deve funcionar. Pode haver algum perigo, mas a surpresa nos favorece. S� depende da gente encontrar logo o Minhoc�o.

E, durante uns dez minutos, o l�der favelado exp�s aos seus camaradas, que o escutaram atentos e silenciosos, o plano que elaborara.

Quando terminou, Ant�nio Maria fez um coment�rio com ar de profecia:

- Com sorte d� certo, Ítalo. E, se der, depois dessa noite, ninguém mais vai ter coragem de enfrentar a gente nesta favela. A partir de amanh�, a Rocinha ser� inteiramente nossa.Tomaremos conta dos dos negócíos deles. As transações imobiliárias do Teobaldo, o jogo do bicho do Zezinho e o tráfico de drogas do Vivinho ficarão sob nosso controle.

Ítalo olhou sério para o amigo e disse:

:- Não havia pensado nisso. Mas agora quew você tocou no assunto, é verdade, alguém tem de levar os negócios deles adiante, senão muita gente na favela vai ficar desempregada.

Ítalo parou, ficou algum tempo pensativo e voltou a falar:

- Em principio, concordo que a gente assuma o jogo e o mercado de imóveis, mas tenho dúvidas quantoa ao fato de se devemos ou não entrar nessa história de narcotráfico. Meu pai era contra esse negócio de drogas e eu também nunca tive vontade de participar disso...

Tonho pigarreou e indagou:

- Posso fazer uma ponderação, Italo?

- Claro.

Antônio Maria fitou o amigo bem dentro dos olhos e falou com seu jeito tranquilo:

- Ítalo, todas as favelas da cidade, por suas características geográficas e localização estratégica, são redutos do narcotráfico. E a Rocinha, tanto em área quanto em população, é a maior delas. Se não assumirmos o controle da distribuição de drogas em nossa favela, a cobiça fará com que chefões de quadrilhas poderosas de outros morros tentem se infiltrar na Rocinha para instalar aqui seus pontos de armazenamento e distribuição de narcóticos.Ou a gente assume o comando ou estranhos virão assumir por nós. No mínimo, teremos pela frente muita guerra dentro de nossa comunidade. Guerra que pode ser evitada se tomarmos conta do que é nosso. Não existe vazio de poder nesse tipo de negócio, meu irmão.

Zuza, sempre irreverente, metendo o bedelho sem ser chamdo, exclamou:

- Nossa, o Tonho até que falou bonito!

Ítalo lançou-lhe um olhar de repreensão e, depois, dirigiu-se a Antônio Maria:

- Você me convnceu, Tonho. Quando chegar a hora, você assume o negócio das drogas.

O lider do grupo dos seis fez uma pausa e disse:

- Bem, é melhor a gente tratar agora do que é mais imediato: como vamos agir para acabar com a raça dessa corja, certo?

Todos acenaram concordando. O filho de D. Nair continuou:

- Quero todo mundo usando luvas. N�o podemos deixar impress�es digitais. E, agora, vamos.

**

A casa de Ant�nio Maria era o arsenal do grupo. Por isso foram primeiro at� l� pegar muni��o e um rev�lver para o Z� Augusto. Os demais j� estavam armados. Tonho trouxe tamb�m uma pistola, pela qual nutria um carinho todo especial: uma Smith-Wess de 9mm com silenciador. Apanharam ainda luvas de couro e algumas cordas.

A caravana formada pelo corcel-t�xi de Severino e as duas motos subiu pela estrada da G�vea. Entraram pela rua Tr�s e estacionaram a uns cinquenta metros do bar do Joca. Zuza foi at� l� procurar o Minhoc�o. N�o demorou. Dois minutos depois voltava anunciando que o sarar� tinha passado rapidamente pelo bar, entornado duas doses de pinga e, segundo dissera ao pr�prio Joca, rumado para o barraco a fim de dormir.

- O sacana nem desconfia que foi reconhecido - comentou Z� Augusto, - do contr�rio tinha dado no p�.

- Vai ver foi o que ele fez - sugeriu Severino. - Disse que ia pr� barraco para despistar.

- S� h� um jeito de saber - falou Tonho, com certa irrita��o, - ir at� l� e conferir.

O Minhoc�o morava numa meia-�gua no beco 2/32, uma das ruelas secund�rias da Rua Dois. O taxi e as motos pararam bem em frente e os seis homens dirigiram-se ao barraco, agora sem qualquer preocupa��o de evitar chamar a aten��o. Ru�dos estranhos, �quela hora, naquele local, n�o costumavam animar ningu�m a vir espiar o que estaria acontecendo. Quase sempre, tais barulhos eram ind�cios precursores de viol�ncias e balas que �s vezes encontravam alvos aleat�rios.

Nenhum ru�do parecia vir do barrac�o. Z� Augusto encostou o ouvido na madeira e disse, baixinho:

- Tem gente roncando.

- OK - falou �talo olhando para Ol�mpio - vamos arrombar.

- Deve ter uma tranca por dentro - avisou Zuza.

- E voc� acha que isso me segura? - indagou Ol�mpio, enchendo o peito.

O gigante tomou dist�ncia e arremeteu com o ombro direito. A fechadura cedeu, a tranca foi arrancada da madeira e a porta abriu-se estrepitosamente. Numa fra��o de segundo os seis homens entraram no barraco. Minhoc�o mal teve tempo de sentar-se no catre, assustado com aquele abrupto despertar, ainda entorpecido pelo sono e pelo �lcool, quando o bra�o de Ol�mpio envolveu-o numa gravata, impedindo-o de emitir um �nico som. Em menos de um minuto tinha sido arrancado do tosco leito, arrastado para fora do barraco e atirado no assento traseiro do t�xi.

De novo a caravana partiu, ganhou a Rua Dois e acelerou de volta � Estrada da G�vea. Agora Zuza e Ant�nio Maria conduziam as motos, enquanto, no Corcel, Z� Augusto sentava-se ao lado de Severino, que guiava, e Minhoc�o ia no banco de tr�s, espremido entre �talo e Ol�mpio. At� ent�o, at�nito, o sarar� n�o se dera bem conta do que se passava. Mas ao reconhecer o filho de Nair, seus olhos se arregalaram e, tr�mulo, come�ou a perceber o apuro em que se achava.

- Quem mandou voc� me matar? - perguntou �talo, sorrindo friamente ao pressentir o terror estampado na fisionomia do outro.

- Eu... eu juro...

- N�o minta, seu filho da puta - interrompeu Ol�mpio, aplicando um murro na boca do est�mago de Minhoc�o.

Este soltou um gemido de dor e abriu desmesuradamente os l�bios, procurando respirar. O frio do cano do rev�lver que �talo acabara de encostar debaixo do seu queixo apressou a recupera��o.

- Eu n�o ia matar voc�... era... era s� pra assustar.

�talo aumentou a press�o da arma, indiferente ao que o outro balbuciava.

- Quem mandou, Minhoc�o? Fala ou mando voc� prô inferno agora mesmo.

- Ent�o jura que n�o me mata. Jura, �talo, que eu conto tudo - suplicou o sarar�.

- Est� bem. D� o servi�o.

- Foi um "contrato". Feito pelo Vivinho.

- S� ele? - duvidou �talo.

O outro pareceu hesitar. Ol�mpio deu-lhe uma bofetada no meio da cara. O sangue come�ou a jorrar por uma das narinas.

- Conta logo tudo, filho da puta - amea�ou o grandalh�o.

O Minhoc�o entregou os pontos:

- N�o - confessou. - O Zequinha e o Teobaldo tamb�m entraram no contrato. Me deram l .500 reais pra fazer o servi�o - os olhos suplicantes voltaram-se para �talo. - Mas juro que n�o quis matar voc�. Atirei s� pra assustar.

Ítalo ignorou a explica��o e dirigiu-se a Severino:

- Pare o carro.

As motos frearam do lado do Corcel. �talo falou para Ant�nio Maria:

- Voc� estava certo. Os tr�s "chef�es" foram os mandantes. Vamos prosseguir conforme o plano.

- E voc� acha que esse canalha cumpre a parte? - perguntou Tonho, apontando para o sarar� no banco traseiro.

- Com o caga�o que est� sentindo, topa at� matar a pr�pria m�e pra sair dessa enrascada. No caminho eu digo a ele o que terá de fazer. Vamos, Severino. toca pra casa do Vivinho.

**

A resid�ncia de Vivinho ficava bem no interior do Laboraux. no limiar da floresta, um local ermo abrangendo uma visla deslumbrante, Era um amplo sobrado de estilo moderno, no centro de um terrcno de uns 800 metros quadrados, todo cercado por um muro de tr�s metros de altura. Havia apenas duas entradas para a propriedade: a da garagem, um bloco de a�o de 7 cm de espessura, que levantava e abaixava por controle remoto, e a social, um port�o de grades de ferro com dupla fechadura.

Ao mesmo tempo mans�o e forlaleza, a casa representava uma ostentação, dir-se-ia até um acinte, cm rela��o à maioria das moradias da favela, rudimentares casebres de alvenaria ou s�mples barracos de madeira. Mas, para os favelados, o fato n�o causava esp�cie, inveja talvez, uma vez que n�o se poderia esperar menos daquele homem poderoso e arrogante que controlava um dos maiores pontos de distribui��o de t�xicos da cidade e que, quando desfilava - o que era raro - pelos bairros da Rocinha, estava sempre cercado de capangas bem armados.

Vivinho era tido como intoc�vel, a quem nem mesmo a Lei, por falta de provas concretas ou corrup��o, tinha ainda conseguido alcan�ar. Na verdade, ele em nada ficava a dever aos outros chefes de quadrilhas que, da Zona Sul � Baixada, detinham o controle dos jogos de azar, lenoc�nio, mercado negro de armas e tr�fico de entorpecentes.

**

Por determina��o de �talo, Severino guiava devagar. Precisavam de tempo para uma conversa com o Minhoc�o. Este, agora convencido que a �nica chance de salvar a pr�pria pele consistia em colaborar totalmente, j� estava contando tudo o que sabia sobre a mans�o e seu sistema de seguran�a:

- Tem sempre um cara armado de vigia numa pequena guarita que fica � direita, do lado de dentro do port�o. Hoje � quarta-feira, logo, deve ser o Nen� que est� de guarda. E ele s� abre o port�o por ordem do Vivinho.

- E como � que o cara se comunica com o chef�o? - indagou Ol�mpio, aproveitando para bater com a m�o pesada na perna do sarar�.

- Ele fala por um interfone que vai da guarita � mesinha de cabeceira do lado da cama do Vivinho - respondeu o outro, evitando olhar para o grandalh�o.

- Quem � que deve estar na casa a esta hora? - indagou �talo.

- Neuzinha, a nova amante do Vivinho deve estar dormindo com ele. E tem uma preta, ainda nova, que faz o servi�o da casa. Dorme num quarto, no andar de baixo, logo depois da cozinha.

- A que horas essa Neuzinha costuma chegar? - perguntou Z� Augusto, virando-se para tr�s.

- Em torno das onze da noite. O patr�o gosta de deitar cedo...

- E o tal do Nen�? Nunca ouvi falar dele. D� a ficha - ordenou �talo.

- N�o � daqui da Rocinha. Veio da Baixada e, pelo que dizem, fugiu h� tempos de uma penitenci�ria. Pegou pena por t�xico e homic�dio.

- Gente fina - comentou Severino, dando uma risadinha.

Ítalo puxou o sarar� pela camisa, for�ando-o a encar�-lo.

- Muito bem, Minhoc�o. Agora presta aten��o. Voc� vai fazer direitinho o que eu vou mandar. E lembre disso, seu puto, n�s vamos ficar com as armas o tempo todo apontadas para voc�. Um gesto em falso, um errinho s� e a gente acaba com a sua ra�a de uma vez. T� entendido?

Gotas de suor surgiram na testa do sarar�. Ele engoliu em seco e respondeu:

- Pode deixar, �talo. Eu sei que tou numa fria danada. Fa�o o que voc� mandar.

- Ent�o escute...

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