NA BATIDA DO SILÊNCIO -Por Rosana Tonneti - Revista CLÁUDIA

A banda nasceu em Brasília e tem dezessete músicos com idade ente 18 e 25 anos. São muito talentosos. Cantam e dançam com desenvoltura ao som do reggae, do funk, do rock ou da MPB, que extraem de seus instrumentos. As duas vocalistas são afinadas e atacam de Tim Maia - um velho sucesso, Azul da Cor do Mar. Para quem conhece a realidade do grupo, é difícil não se emocionar com o primeiro verso: "Ah, se o munto inteiro me pudesse ouvir". O mundo pode ouvir - mas eles não.

O nome da banda é Surdodum. Todos os músicos sofrem de deficiência auditiva. Alguns ouvem levemente; a maioria não escuta nada - quando muito, sente vibrar os instrumentos de percussão.

É uma jovem professora quem faz com que esse espetáculo surpreendente se realize. Ana Lúcia da Silveira Soares, 25 anos, é a mentora da banda e a responsável por uma nova proposta de vida para os músicos - trabalho que lhe valeu uma indicação ao Prêmio CLÁUDIA deste ano. Ela teve seu primeiro contato com a deficiência auditiva quando era menina: ajudava a melhor amiga, completamente surda, a fazer os deveres de casa e a se comunicar com professores e colegas. Foi por causa dela que Ana Lúcia aprendeu a linguagem de sinais usada pelos surdos. Anos mais tarde, recém-formada, apresentou-se no Centro Integrado de Ensino Especial (Ciee), da rede pública, para dar aula a estudantes com comprometimento auditivo. "Aprendi muito cedo a ter admiração por aqueles que não podem ouvir mais se empenham em superar suas limitações."

Em 1994, credenciada pela experiência anterior, Ana Lúcia foi convidada a desenvolver um projeto musical para os alunos do Centro Educacional de Audição e Linguagem (Ceal), uma escola pública do Distrito Federal especializada em deficientes auditivos. Sua missão era concretizar a idéia de Clésio da Cruz Alves, 21 anos, um dos alunos que não escuta nada, sentiu a vibração do grupo Olodum durante a transmissão de um show do bloco baiano pela TV. Não conseguia tirar da cabeça a pulsação de espetáculo e a vontade de montar uma banda inspirada no Olodum.

REPORTAGEM PUBLICADA NA EDIÇÃO DE JUL/2000

Prêmio

CLÁUDIA


2002

Em seu sétimo ano, o Prêmio CLÁUDIA mais uma vez surpreende com o trabalho de mulheres determinadas e corajosas, que lutam por uma sociedade mais digna e justa em todo o Brasil.Chegaram à redação mais de 200 indicações, e as 15 finalistas foram escolhidas após pesquisa em todo país. Uma comissão julgadora, formada pela redação de CLÁUDIA e por um conselho de pessoas de referência da sociedade brasileira, analisou cada projeto. As cinco vencedoras e a Mulher do Ano serão conhecidas no dia 15 deste mês, em São Paulo, durante a premiação. A cobertura completa da festa estará na próxima edição.

Outubro . 2002 . CALUDIA

ANA LÚCIA SOARES

Como fazer com que deficientes auditivos entendam o que é ritmo? A fonoaudióloga Ana Lúcia Soares, 27 anos, aceitou o desafio quando começou a ensaiar alunos surdos para participar de um musical de percussão no Centro Educacional de Audição e Linguagem Ludovico Paroni (Ceal), em Brasília. "Reuni seis meninos e, na primeira aula, comecei a fazer analogias com o ritmo do coração", explica ela. "Se queria uma batida mais rápida, pedia que eles corressem e depois sentissem e reproduzissem nos tambores a própria pulsação." Da experiência surgiu, há sete anos, o Surdodum, projeto educacional que inclui aulas de percussão e uma banda formada por deficientes auditivos. O grupo reúne 25 participantes, entre 14 e 30 anos, gravou um CD de demonstração e fez mais de 300 apresentações. Sob a coordenação de Ana Lúcia, os jovens tocam, dançam, cantam e interpretam as letras das músicas pela linguagem de sinais.

IMPACTO

Por ser uma atividade extracurricular, uma das exigências para entrar e permanecer no Surdodum é levar os estudos a sério. Três integrantes, que estão na banda desde o início, já cursam o terceiro grau. Há dez anos, era impensável, segundo a fonoaudióloga, ver uma aluno da rede pública de Brasília chegar à faculdade, por falta de estímulo e condições de estudo. Ela também fala com orgulho de outros três, que passaram em concursos públicos. Maurício Martins, 26 anos, é um deles, para satisfação da mãe, Maria de Lourdes Martins. “Depois que ele entrou para o Surdodum, em 1995, seu comportamento mudou muito. Hoje, meu filho consegue se comunicar melhor com a família, está mais solto e é um homem feito, que trabalha e namora como todos os outros da sua idade”, diz Maria de Lourdes.

CAPACIDADE DE MULTIPLICAÇÃO

Segundo Ana Lúcia, todos os integrantes do Surdodum estão aptos a ensinar o que aprenderam sobre música e percussão a outros surdos, Por isso, planeja organizar, como extensão da banda, uma série de workshops itinerantes, a ser ministrados por seus alunos em associações de surdos, escolas especiais ou organizações não-governamentais de Brasília e de outras cidades. “Em cada curso, incentivaríamos os participantes afundar as próprias bandas”, explica. O projeto ainda não saiu do papel por falta de patrocínio. Também está nos planos da fonoaudióloga a criação do Surdoduzinho, o braço mirim da banda. “As crianças surdas que assistem aos ensaios pedem para participar, mas não temos ainda instrumentos adequados para músicos infantis”, justifica.

EFICIÊNCIA E PARCERIAS

O Surdodum sobrevive à dedicação de Ana Lúcia ao Ciee, que abraçou o projeto e cedeu o espaço, e ao trabalho voluntário dos quatro músicos. “Várias vezes tive de recorrer ao chamado “paitrocínio” para reparar um instrumento danificado”, brinca a fonoaudióloga. Somando mais de 300 apresentações, incluindo shows ao lado do Olodum e do Cidade Negra, a banda não costuma receber cachê para tocar em público, bastando o interessado fornecer transporte e alimentação para o grupo.

IMPORTÂNCIA DA CANDIDATA

Com perda progressiva de audição desde os 5 anos, Andréia Ferreira, hoje com 26 anos, se emociona ao falar de sua experiência como integrante e vocalista da banda. “A Ana Lúcia me incentivou a cantar sem ter vergonha de minha voz. Para mim, cantar é uma coisa de alegria, me transmite vibrações boas”, diz a vocalista, que tem surdez profunda, faz leitura labial, fala fluentemente e também se comunica pela linguagem de sinais. A intérprete de libras Alessandra Maisa, que trabalha como voluntária na Associação de Surdos de Brasília, reconhece a importância do Surdodum. “Convivo diariamente com surdos e percebo a diferença entre os que tocam no Surdodum e os outros. Os primeiros são mais articulados, decididos, ativos. Pela música, resgataram a auro-estima”, avalia a intérprete. Para a pedagoga Denise Castello Branco Pena, que ensina crianças surdas no Ciee, as apresentações da banda têm impacto positivo também nos deficientes que estão na platéia. Ela costuma levar seus alunos com deficiência auditiva, de 5 a 12 anos, para assistir aos ensaios e aulas do Surdodum. “É impressionante ver, por exemplo, uma aluna de 6 anos com paralisia cerebral reagir às batidas da percussão. Ela se mexe, tanta falar e bater palmas. A música a estimula a se comunicar”, explica a pedagoga. “Mais que professora de música, Ana Lúcia é a irmã mais velha desses meninos”, diz Lúcia da Cruz Alves, mãe de Clésio, o tocador de timbal que batizou a banda de Surdodum. Segundo ela, a fonoaudióloga faz papel de conselheira, amiga e até briga por eles. Tanto que foi com ela que Clésio e as outras duas universitárias da banda conseguiram intérpretes de sinais para que pudessem acompanhar as aulas da faculdade.

IMPORTÂNCIA DA CANDIDATA

“O Surdodum é, acima de tudo, um projeto educacional complementar à escola, voltado a adolescentes surdos. Pela música, eles melhoraram a fala e recuperam a auto-estima. Os deficientes, de modo geral, ainda são vistos como incapazes e enfrentam preconceitos. Em nossas apresentações, conseguimos provar justamente o contrário”.

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