Entrevista: Ana Lúcia Soares (por Tatiana Wittmann)
A professora e fonoaudióloga brasiliense Ana Lúcia da Silveira Soares é uma educadora mais do que especial. Diferentemente da maioria dos alunos de magistério, Ana Lúcia demonstrou, desde cedo, o desejo de trabalhar com educação especial. Seu primeiro emprego como professora foi no Centro Educacional de Audição e Linguagem Ludovico Paroni (Ceal), escola pública de Brasília especializada no ensino para deficientes auditivos. E foi no Ceal que a professora começou a ensinar música para os alunos surdos. A experiência deu tão certo que se transformou em um projeto que Ana Lúcia coordena desde 1995. No Surdodum jovens surdos fazem iniciação musical, aprendem a cantar e a tocar percussão. Nesta entrevista, exclusiva ao Cidadania-e, Ana Lúcia Soares conta um pouco da sua experiência, fala das atividades do Surdodum e das dificuldades enfrentadas pelos portadores de deficiências auditiva no Brasil.
Ana Lúcia Soares - Eu estudei com uma menina surda, da segunda até a sexta série do ensino fundamental, e acho que isso teve uma certa influência, pois sempre quis trabalhar com educação especial. Eu era menina e ficava chateada com algumas coisas que aconteciam em sala de aula. Você acredita que a professora dava ditado mesmo tendo uma surda na turma? Acho que foi uma vontade de mudar esta realidade que me levou para o magistério. Queria alfabetizar crianças portadoras de deficiência de uma forma digna e justa.
Quando me formei consegui o meu primeiro emprego como professora em uma escola pública de Brasília especializada no ensino para deficientes auditivos, o Centro Educacional de Audição e Linguagem Ludovico Paroni (Ceal). Lá aprendi a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e conheci melhor o mundo dos surdos.
Cidadania-e - Como você se envolveu com o ensino de música para deficientes auditivos?
Ana Lúcia Soares - O pessoal do Ceal descobriu que eu cantava em uma banda de percussão e me fez um convite no mínimo inusitado: ensaiar alunos surdos para um musical de percussão que seria apresentado em uma festa da escola. Reuni alguns meninos e, na primeira aula, comecei a fazer analogias com o ritmo do coração. Se queria uma batida mais rápida, pedia que eles corressem pela sala e depois sentissem e reproduzissem nos tambores a própria pulsação. Os dois primeiros ensaios foram difíceis, cada um tocava uma coisa, mas os estímulos visuais e concretos facilitaram o aprendizado. A apresentação foi um sucesso e, assim, surgia o Surdodum.
Pouco tempo depois passei em um concurso da Fundação Educacional do Distrito Federal e apresentei para eles um projeto para continuar usando a banda como um meio de convivência de adolescentes surdos e a música como forma de aprimorar a oralidade, a sociabilidade e a auto-estima desses alunos. Assim, desde 1995 o Surdodum é desenvolvido no Centro Integrado de Ensino Especial (Ciee), da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal.
Cidadania-e - Quais são as atividades e os objetivos do Surdodum?
Ana Lúcia Soares - Nós atuamos em três áreas: percussão, vocal e musicalização, esta através do ensino de violão. As atividades têm como objetivo trabalhar, principalmente, fala, dramatização, a língua dos sinais e auto-estima do surdo.
Os alunos iniciantes freqüentam os ensaios da banda Surdodum, aprendem noções teóricas de ritmos variados, assistem a palestras e treinam a batucada no timbal e no tarol (tipos de tambor) e no surdo. Já os mais experientes participam de apresentações em público, tocando instrumentos, dançando, cantando e interpretando as letras das músicas em linguagem de sinais. A banda Surdodum gravou um CD de demonstração e já fez mais de 300 apresentações em escolas, eventos e programas de televisão.
E eu não faço este trabalho sozinha não. Conto com quatro músicos voluntários: o mestre de percussão Reinaldo Braz, o contrabaixista Alexandre "Macarrão", o tecladista Augusto Souza e o guitarrista Arnaldo Barros, que é deficiente físico e também atua como compositor da banda Surdodum. Eles dão a maior força para manter o projeto e só ganham o meu sorriso.
Cidadania-e - Quais são os critérios para a seleção dos participantes do Surdodum?
Ana Lúcia Soares - A exigência principal é que o aluno tenha deficiência auditiva, independente do seu nível de surdez, que pode ser leve, moderada, severa ou profunda. Como a participação no Surdodum é considerada atividade complementar à escola, também é exigido que os integrantes estejam estudando e que obtenham boas notas.
No começo fui de escola em escola falando do projeto, mas hoje os alunos já nos procuram. Atualmente, o projeto atende 18 alunos, que possuem entre 15 e 25 anos. São jovens muito perseverantes, pois não é um trabalho fácil. Os alunos da percussão ainda têm como saber se estão fazendo certo ou errado através do movimento vibratório do instrumento de percussão, mas as meninas do vocal, por exemplo, não têm como ter este retorno. É um trabalho de dedicação.
A participação no projeto é gratuita e nós sobrevivemos de doações e patrocínios. O Banco do Brasil, por exemplo, foi uma das instituições que já nos ajudou muito. Foi através deles que a nossa banda fez uma apresentação com o grupo Cidade Negra, que foi uma grande alegria.
Cidadania-e - De que forma a música muda a vida destes jovens?
Ana Lúcia Soares - É visível o quanto os alunos do Surdodum têm a sua auto-estima elevada e, com isso, melhoram o aprendizado e a socialização. Nenhum dos nossos alunos repetiu de série no colégio, muitos se formam com idade abaixo da média dos alunos com deficiência auditiva, e três deles já estão cursando faculdade. Também é muito bonito ver a união destes jovens. Mas o mais importante é que o Surdodum dá a eles a oportunidade de mostrar o quanto o portador de necessidades especiais é capaz. Se um surdo mostra que é capaz de tocar e cantar, ele pode muito mais. Isso ajuda também a conscientizar a sociedade e a diminuir o preconceito.
Cidadania-e - Quais são as maiores dificuldades enfrentadas pelos portadores de deficiências auditiva no Brasil e o que pode ser feito para mudar esta realidade?
Ana Lúcia Soares - Acredito que a maior dificuldade seja a concepção educacional. Desde o início do estudo acadêmico, o portador de deficiência auditiva sofre com a falta de respeito e preparo dos professores.
As leis também são muito generalistas quando tratam dos deficientes, não percebem que eles possuem necessidades diferentes. E é preciso se conhecer e se respeitar mais a língua dos sinais, pois os surdos dependem dela para se comunicar. A partir do momento que essa linguagem (Libra) for conhecida por boa parte da sociedade, o dia-a-dia dos surdos vai ser muito mais fácil.
Tatiana Wittmann
Repórter (Fundação Banco do Brasil)
Tempestade Comunicação
(21) 2265-9094
[email protected]
{Repórter Social
Entrevista

Principal |
Surdodum |
Apresentações |
Reportagens |
CD |
Fotos |
A Banda |
Premio
Claudia |
Premio
BB |
Contatos |
E-mail |
Links |
Premio
BB |