da Revista de la Sociedad Uruguaya de Egiptolog�a.
por Marcio Luiz Ramos D'Albuquerque
Resumo
O presente artigo resume uma das discuss�es presentes na
Disserta��o de Mestrado apresentada pelo autor � Universidade Federal Fluminense
(UFF), para a obten��o do grau de Mestre em Hist�ria (M.S.). A Disserta��o � um
trabalho de historiografia sobre obras do autor ingl�s Cyril Aldred (1914 -
1991) que utiliza em seus textos as express�es "heresia"e "monote�smo" para
classificar atos ocorridos durante o per�odo de reinado do fara� Amenhetep IV -
Akhenaton, ao fim da XVIII dinastia eg�pcia. Foram utilizadas como fontes v�rios
trabalhos daquele autor mas, principalmente, dois que servem como refer�ncia a
todos os autores da Egiptologia quando se remetem ao reinado daquele fara�:
Akhenaten, Pharaoh of Egypt (1968) e Akhenaten, King of Egypt (1988). Procuramos
mostrar que Cyril Aldred incorre em anacronismo quando utiliza termos cunhados
no seio da cultura judaico-crist� sobre uma outra, oriental, que, � �poca dos
fara�s, desconhecia o sentido dos mesmos.
Abstract
This paper summarizes one of the discussions ocurred at the
thesis presented by the author to the Universidade Federal Fluminense (UFF) to
obtain the Master's Degree in History (M.S.). The thesis is a work of
historiography upon the writings of the Englishman Cyril Aldred (1914 - 1991)
who used in his texts the expressions "heresy" and "monotheism" to classify acts
that occurred during the reign period of the pharaoh Amenhetep IV - Akhenaton,
at the end of the XVIIIth Egyptian dynasty. Like sources I used some works from
that author but, mainly, two that serve as reference for all the authors of
Egyptology when they refer in their texts to the reign of that pharaoh:
Akhenaten, Pharaoh of Egypt (1968) and Akhenaten, King of Egypt (1988). We
intend to show that Cyril Aldred incurred in an anachronism when he used terms
molded into the Jewish-Christian culture upon another, Oriental, which, at the
time of the Pharaohs, did not have such meanings.
O fara� Akhenaton (Amenhetep IV) sempre � mencionado nas obras
nossas contempor�neas como tendo sido um fara� "herege" por sua tentativa de
estabelecer um culto de cunho "monote�sta" no Egito.
Em nossa Disserta��o de Mestrado em Hist�ria, defendida em
outubro de 1998 junto � Universidade Federal Fluminense, discutimos os conceitos
de "heresia" e "monote�smo" aplicados � Akhenaton, levando em conta a carga de
"ocidentalidade" presentes nessas categorias. Naquela Disserta��o tamb�m
apontamos como Cyril Aldred (1914 - 1991) tornou-se respons�vel pela
"cristaliza��o" desses conceitos na historiografia do Antigo Egito, a partir do
momento em que foi firmado como refer�ncia obrigat�ria para o estudo do per�odo
Amarniano com a escrita de Akhenaten, Pharaoh of Egypt (1968) e Akhenaten, King
of Egypt (1988).
Neste artigo nos preocuparemos com a propriedade da utiliza��o
do termo "heresia" para as quest�es amarnianas, mostrando o quanto os
pressupostos de uma cultura interferem na escrita sobre uma outra, podendo
aproxim�-las mas causando, no entanto, alguns problemas de n�vel te�rico para os
leitores e estudiosos.
Assim, este trabalho inicia uma discuss�o sobre o car�ter
"her�tico" de Akhenaton, "heresia" essa que tem como causa o estabelecimento de
um culto "monote�sta" durante o per�odo de reinado daquele fara�. A hip�tese
central da nossa Disserta��o de Mestrado, portanto, esteve presa ao anacronismo
apresentado pela categoria "heresia", deslocada de um tempo mais "moderno" e
vinculado � cultura ocidental, para o Egito da antiguidade. H� uma hip�tese
secund�ria: a da aceita��o da "heresia" na historiografia sobre o Egito Antigo,
de forma acr�tica, em que pese o fato de termos notado que Aldred n�o introduz
esse discurso, mas o reproduz, refor�ando o emprego daquele conceito quando ele
pr�prio (Aldred) assume o status de "refer�ncia obrigat�ria" para o estudo do
chamado per�odo Amarniano, o tempo de reinado do fara� Akhenaton.
Discuss�o da categoria "heresia" vinculada �s ocorr�ncias em
Amarna.
Necessitamos explicitar, inicialmente, o que entendemos como
"heresia". Para tanto recorremos a algumas fontes, passando por dicion�rios
gerais da l�ngua portuguesa e por obras que, especificamente, nos apresentassem
uma categoriza��o mais descritiva. Pela defini��o dicionar�stica da palavra
"heresia" temos:
HERESIA, s.f. Doutrina contr�ria aos dogmas da Igreja; ato ou
palavra ofensiva � religi�o; blasf�mia; (fam.) contra-senso; absurdo; disparate.
(Do lat. haerese.) (FERNANDES et al., 1993, p.403.) Outra defini��o de "heresia"
que cabe neste espa�o: heresia (lat. haeresis, do gr. hairesis: a��o de tomar,
escolha, seita) Doutrina contr�ria aos ensinamentos oficiais de uma Igreja e a
seus dogmas religiosos: a heresia jansenista. Por extens�o, toda doutrina
contr�ria �s concep��es estabelecidas ou oficialmente reconhecidas como
verdadeiras: a id�ia de movimento perp�tuo real � uma heresia cient�fica.
(JAPIASSU & MARCONDES, 1991, p. 118.)
Ainda com rela��o a defini��es do que � "heresia", nos fala
Ribeiro J�nior: "Heresia (do grego ha�resis, hairen) significa escolher. Na
�poca helen�stica tinha o sentido de doutrina ou escolha. Com o advento do
cristianismo, a palavra recebeu uma conota��o pejorativa de 'doutrina que est�
fora da Igreja', ou seja, contr�ria aos princ�pios da f� crist�. No fundo
heresia nada mais � do que diverg�ncia de opini�o. Em face da doutrina crist�, a
heresia pode apresentar-se sob dois aspectos: um, negativo ou filos�fico, que
nasce do conflito ou do contraste entre a verdade revelada e os diversos
sistemas filos�ficos e teol�gicos sobre os quais recai essa revela��o; outro,
positivo no sentido de que nem tudo est� errado na heresia - h� uma inten��o
verdadeira mas que n�o est� de acordo com a opini�o da Igreja.
As heresias, portanto, foram obras de pensadores, crist�os ou
n�o, que n�o satisfeitos com a revela��o crist� tentaram conciliar entre si
doutrinas diversas e opostas, criando uma confronta��o inevit�vel.
As heresias, assim, representaram (e ainda representam),
relativamente ao corpo doutrin�rio da Igreja, movimentos dissidentes que
deterioraram o que se considerava o conte�do espec�fico e original da f� crist�.
As fronteiras ideol�gicas do cristianismo tornaram-se fr�geis e dilu�ram-se em
tend�ncias heterog�neas. Contudo as heresias tamb�m s�o consideradas como
ocasi�o de progresso na compreens�o da f� no seio da Igreja." (RIBEIRO J�NIOR,
1989, pp. 19-20.)
Das defini��es retro pode-se perceber que, apesar da origem
grega da palavra "heresia" com o sentido de "escolha", h� uma forte manifesta��o
do sentido religioso para o seu significado, particularmente com a sua
vincula��o a quest�es da cultura crist�, cuja origem da linha de pensamento est�
situada em Arist�teles (ocidental, portanto), mais as suas sucessivas
releituras, sendo a de S�o Tom�s de Aquino a principal.
Tendo isso em mente, e aceitando o fato de que os autores da
Egiptologia, ao menos em seu in�cio, eram europeus, provenientes, portanto, de
ber�os ocidentais, cristianizados e herdeiros de toda uma carga cultural
cl�ssica (de fundamenta��o grega), podemos nos remeter � considera��o de que
Akhenaton teria tido uma import�ncia maior de an�lise para o que diz respeito ao
aspecto religioso de sua reforma, em detrimento dos aspectos (e efeitos)
pol�ticos dessa mesma reforma. � com esse mesmo tom, a �nfase religiosa, que
verificamos a utiliza��o do termo por parte de Aldred e de quem escreve sobre
Akhenaton. Dessa forma pensamos que, relacionado aos escritos sobre aquele rei,
os pesquisadores da ocidentalidade cristianizada realizaram uma apropria��o do
termo "heresia" e, assumindo uma postura de extrapola��o, categorizaram as
atitudes do fara� (bem como os efeitos resultantes dessas atitudes) sem que se
procurasse perceber quais as vincula��es estruturais das categorias com o
universo cultural eg�pcio da XVIII dinastia.
Partimos, dessa forma, para a busca de uma discuss�o do
conceito da categoria "heresia", sem a limita��o imposta por uma defini��o
eminentemente dicionar�stica que pouco auxilia nos prop�sitos deste trabalho.
Encontramos em Leszek Kochakowicz essa discuss�o, mesmo que em um artigo
sucinto, veiculado em obra de car�ter de refer�ncia, apesar da profundidade que
tenta imprimir �s discuss�es que realiza. Cabe, portanto, aqui, a remiss�o ao
texto daquele autor que prop�e, inclusive metodologicamente, a leitura da
categoria "heresia".
Kochakowicz define "heresia" a partir da sua acep��o original,
grega, e segundo a tradi��o Neo-Testament�ria, embora nas suas considera��es
circunscreva a "a��o her�tica" ao universo do cristianismo. Quando n�o o faz �
por causa das remiss�es l�xico-etimol�gicas, mas ainda num contexto
ocidentalizado.
"A palavra grega air�u significa 'levar'; o m�dio air�oamai
quer dizer 'tomar para si pr�prio' ou 'escolher'. Assim, air�sis significa uma
escolha, entendida como o acto ou o objecto da pr�pria escolha. O Novo
Testamento fala, em v�rias ocasi�es, de 'heresia', referindo-se a uma seita ou a
uma fac��o; s�o deste modo mencionadas as 'heresias' dos Saduceus, dos Fariseus
e dos Nazarenos [Actos dos Ap�stolos, 5, 17; 26, 5; 24, 5]. Que a palavra j�
ent�o n�o era neutra e tinha um sentido bastante pejorativo, podemos inferir do
facto de S�o Paulo, na sua apologia perante as autoridades, falar da sua vida, a
que 'eles chamam' heresia [ibid. 24, 14; cf. ainda 28, 22] e de na Ep�stola I
aos Cor�ntios, 11, 19 mencionar 'heresias' - referindo-se a seitas ou fac��es -
entre os seus seguidores [cf. Ep�stola aos G�latas, 5, 20]. Todavia, a palavra
refere-se mais a um determinado grupo religioso do que a uma doutrina err�nea,
muito embora S�o Pedro fale dos falsos profetas e de falsos mestres que trazem
heresias ao povo [Ep�stola segundo S�o Pedro, 2, 1]; isto tanto pode referir-se
a 'divis�es' como, mais perto da acep��o moderna do termo, a erros doutrinais."
(KOCHAKOWICZ, 1984, p. 301. Grifos nossos.)
Nesta primeira abordagem Kochakowicz amarra o termo �s suas
origens, apontando para uma forte conota��o cristianizada do mesmo. Mostra a
vincula��o do termo a um senso para o qual heresia era a forma��o de uma seita
ou fac��o, ou a uma doutrina falsa ou errada. Seria, possivelmente, esse o
caminho trilhado por Aldred para categorizar as a��es em Amarna como
her�ticas.
Num segundo momento, com rela��o ainda � retro-mencionada
circunscri��o ao universo crist�o ocidental, Kochakowicz aponta a defini��o que
a Igreja Romana estabelece para o termo.
"Mesmo na linguagem quotidiana falamos muitas vezes de
'heresia', n�o querendo com isso significar necessariamente a doutrina
conden�vel em si, mas um movimento sect�rio que professe essa doutrina. Quanto
ao significado etimol�gico de 'escolha', est� longe de ser irrelevante para a
utiliza��o da palavra na teologia crist�. Usar exclusivamente a nossa pr�pria
vontade - fazendo assim uma escolha pr�pria, sem se ser guiado por Deus e pela
Igreja - equivale a escolher o mal, tanto em assuntos morais como doutrinais. Se
fa�o uma escolha, reclamo a superioridade do meu ju�zo pessoal, escolho a minha
vontade contra a vontade de Deus; mas considerando que a vontade do homem �
corrupta, uma escolha puramente humana em mat�ria de f� equivale a optar pelo
erro e n�o a um acto de sele��o que poderia ser certo ou errado, dependendo das
circunst�ncias. Deste ponto de vista, parece teologicamente v�lido que de um
acto de escolha humana no campo da f� deriva, inevitavelmente, numa heresia e
que a heresia � uma doutrina escolhida ou afirmada pela vontade humana (humano
sensu electa). (...) A acep��o etimol�gica sobrevive no uso moderno da palavra."
(Idem, pp.301-2.)
Adiante em seu texto, Kochakowicz explana sobre o que chama de
"defini��o oficial" a qual, acreditamos, est� mais fortemente afinada com a
utiliza��o da categoria "heresia" para as quest�es de Amarna por parte dos
pesquisadores ocidentais, e no nosso caso, particularmente, Cyril Aldred. Vemos,
no entanto, elementos de impropriedade que passamos a discutir. Ele baseia-se no
Codex iuris canonici apontando que a defini��o naquele instrumento � a de
herege, e n�o a de afirma��o her�tica. O diploma legal estabelece que h�
implica��o em "nega��o ou d�vida sobre qualquer verdade da f� divina, desde que
1) a pessoa que nega ou duvida seja baptizada;" observamos que na religi�o
eg�pcia n�o existe algo que seja compar�vel ao batismo, um sacramento da Igreja
que, simbolicamente, determina a rela��o de pertin�ncia entre o indiv�duo e a
institui��o; Ŗ) que ele (ou ela) declare ser crist�o;" n�o existe, para a
religi�o eg�pcia, uma rela��o qualquer que implique a declara��o de pertin�ncia
ou n�o a um determinado credo; ŗ) que ele (ou ela) se obstine no erro" por n�o
existirem elementos que simbolicamente indiquem a rela��o de pertin�ncia, a
obstina��o em um "erro" � dificultada pela pr�pria estrutura da religi�o
eg�pcia. Dessa forma, uma vez que n�o se caracteriza uma "verdade" estabelecida
por "f� divina", n�o h� heresia. Por fim, Kochakowicz aponta que, ainda segundo
o c�digo can�nico:
"(...) 'Aquele que, depois de ter recebido o baptismo, e
conservando o nome de crist�o, nega pertinazmente alguma das verdades em que se
deve crer por f� divina e cat�lica, ou dela duvida, � herege; se abandona
totalmente a f� crist�, � ap�stata; enfim, se recusou ser submetido � autoridade
do Sumo Pont�fice ou se recusou a comunh�o com os membros da Igreja a ela
submetidos, � cism�tico' [can. 135, par. 2])." (Idem, p.302.)
Acreditamos, aqui, que a apostasia n�o se aplica � religi�o
eg�pcia pois esta n�o trata de f� crist�, supondo-se que o termo est�
circunscrito, tamb�m, ao universo do cristianismo. No caso de Akhenaton, ser
considerado cism�tico implicaria a n�o submiss�o do rei � autoridade de um Sumo
Pont�fice que, para a religi�o eg�pcia, tem o fara� nessa posi��o. Poderia,
assim, Akhenaton discordar de si pr�prio? Ainda nessa linha de racioc�nio temos
que o rei � o primeiro e �nico sacerdote no Egito. Os cleros existem por
delega��o do pr�prio fara�. (CARDOSO, 1980, pp. 40-4. Ver tamb�m: SAUNERON,
1980, pp. 31-5; SHORTER, 1984, p.29.)
O modelo que Kochakowicz aponta para o entendimento de heresia
pode ser aplicado a Akhenaton e a Amarna? No nosso entendimento seria necess�ria
uma grande relativiza��o de elementos estruturais da sociedade e da religi�o do
Egito para que se possa promover um encaixe, e esse, no nosso ponto de vista,
n�o � perfeito. � necess�rio que sejam aparadas muitas arestas, for�ando-se a
modelagem, se levarmos em considera��o que o termo nasce, com a sua acep��o
ligada a quest�es religiosas, no seio da igreja Romana, e a ela �
especificamente dirigido. O que est� fora da al�ada dessa Igreja � paganismo n�o
sendo pass�vel, portanto, de enquadramento nos conceitos a ela (Igreja) afetos,
tendo-se em conta que, nos termos de Kochakowicz, as heresias nascem no interior
da Igreja e n�o se desvinculam dela.
A religi�o eg�pcia existe para a manuten��o do equil�brio no
universo, representado por Maat que, antes mesmo de ser uma deusa, � tida como
um princ�pio m�gico (notar que essa religi�o � dual, e n�o dicotomizada; seus
princ�pios s�o complementares, n�o s�o antag�nicos pelo simples fato de o serem:
contrap�em-se para o surgimento do equil�brio, numa compara��o superficial, mas
v�lida, entre o Yin e o Yang que, juntos e equilibrados, formam o Chi das
culturas extremo-orientais). Os cleros existem e os cultos s�o realizados para
que esse equil�brio seja permanente. O objetivo principal dos cultos aos deuses
� n�o permitir que o Universo retorne ao caos primordial, de onde saiu a partir
do movimento de R�. N�o h� a constitui��o de "rebanhos de fi�is" e as pr�ticas
religiosas est�o circunscritas aos templos e aos meios sacerdotais, sendo vedado
ao povo, em geral, a imiscui��o naquelas pr�ticas, a n�o ser quando acompanham
as grandes prociss�es, nos festivais dos deuses, quando as imagens saem dos
templos por alguns momentos mas retornam �s capelas internas ap�s as festas.
Somente nessas ocasi�es o povo tem contato com essas imagens. (SAUNERON, p.16;
SHORTER, pp. 35-7.)
Kochakowicz articula um campo de compreens�o para significados
argumentando sobre o estabelecimento de uma distin��o entre "heresia" e "cisma".
Para ele o segundo termo indica "uma separa��o deliberada do organismo da
verdadeira Igreja". Indica, tamb�m, que um her�tico n�o necessariamente pretende
criar um cisma, sendo seu objetivo, grande parte das vezes, "melhorar ou
reformar o corpo existente, restaurando-o � sua pureza primordial".(KOCHAKOWICZ,
p. 303.) Aqui o estudioso leva em conta a met�fora da Igreja que representa a si
mesma como um "corpo", do qual os seus fi�is s�o "membros", id�ia que, por
caracter�sticas j� mencionadas retro, n�o est� inclu�da no universo do Egito
fara�nico.
Mutatis mutandi, talvez em Akhenaton possa ser vista a tomada
para si pr�prio da responsabilidade em vivificar as id�ias de afastamento do
clero tebano, latentes nos per�odos de reinado de seu av� (Tutm�s IV) e de seu
pai (Amenhetep III). Podemos considerar, tamb�m, que o culto a Aton surge como
uma roupagem nova para o culto de R� e que aqueles reis teriam sofrido grande
influ�ncia de um dos mais tradicionais cleros do Egito: o de Heli�polis (Aunnu).
Apesar da certeza dessa influ�ncia, qualquer conclus�o estaria apoiada
exclusivamente no campo das suposi��es.
Kochakowicz pretende que uma separa��o do corpo da Igreja n�o
implique apartamento do que chama de "doutrina ortodoxa", posto que pode estar
baseada em desacordos sobre quest�es que n�o dizem respeito aos dogmas." (Idem,
ibidem.)
Aqui vale comentar que Aldred v� no clero de Amon uma frente
"ortodoxa" no que diz respeito � religi�o no Egito, encarando-o como um elemento
"tradicional" na cultura eg�pcia. Em pelo menos dois momentos ele � expl�cito
com rela��o � utiliza��o do termo: em 1961 em um artigo para o JEA, e no seu
livro de 1988. Cabe ent�o questionar se Aldred pensa nessa "ortodoxia"
utilizando o conceito de "tradi��o" que Hannah Arendt categoriza como sendo de
concep��o ocidental (grega).(ARENDT, 1992, pp. 43-68)
Kochakowicz nos coloca, agora, frente a quest�es que dizem
respeito � figura representativa da Igreja, falando sobre atitudes her�ticas.
Parte da premissa de que � her�tico quem desafia a autoridade do papa (posto que
esta autoridade foi estabelecida como parte da doutrina oficial), tendo ainda
como premissa a met�fora da Igreja-corpo, apontando que: "... quem for rotulado
de her�tico pelas autoridades eclesi�sticas � separado da unidade do corpo; e
tendo como pressuposto que esta separa��o resultou da sua m� vontade (e n�o do
veredicto da Igreja), o acto de aceitar e defender uma heresia transformou-se
per se num acto de cisma (a palavra 'apostasia' significa a rejei��o aberta dos
ensinamentos crist�os, e o termo � utilizado principalmente para referir actos
individuais de deser��o da Igreja, enquanto 'cisma' denota sobretudo uma
separa��o colectiva)." (KOCHAKOWICZ, p. 303.)
J� mencionamos que a autoridade m�xima tanto do clero como do
governo, no Egito, � o rei. Seria um contra-senso que ele rotulasse a si mesmo
como contr�rio a interesses que eram em grande medida os seus pr�prios. Por
outro lado, insistimos na vis�o que Serge Sauneron nos apontou, e que j�
mencionamos retro, n�o enxergando distin��es entre "Igreja" e "Estado" no Egito
fara�nico. Mais ainda, Sauneron defende um tipo de olhar que em muito se
aproxima da pr�tica metodol�gica de uma hist�ria das mentalidades, ou das
id�ias, quando adverte que:
"Para entender o antigo Egito, n�s temos que abandonar a id�ia
de encontrar nele nossa pr�pria cultura e nossas pr�prias tend�ncias: n�s temos
que aceitar esta exclus�o, e n�o iludir a n�s mesmos com as aparentes
similaridades." (SAUNERON, p. 6)
Isso, cotejando o entendimento que Aldred aparenta ter sobre o
que � heresia com o que � explicitado por Kochakowicz, pode j� nos fornecer
alguma medida de qu�o impr�prio o termo est� sendo utilizado, sen�o por uma
aproxima��o que, continuamos acreditando, � por demais for�ada, lendo-se uma
cultura oriental da antiguidade com olhos ocidentais de uma sociedade
cristianizada.
Kochakowicz abre outra discuss�o, esta de evidente cunho
metodol�gico, onde procura delimitar mais ainda o campo sem�ntico para a
compreens�o do termo "heresia", campo, neste caso, diretamente relacionado com o
trabalho do historiador. Esclarece o que � a pr�tica da "heresia", mesmo que
circunscreva-a ao meio da Igreja Romana (e � sempre em rela��o ao pensamento
dessa Igreja que a sua argumenta��o vai ser constru�da) e a uma tradi��o
Neo-Testament�ria.
"Um historiador, enquanto tal, n�o pode aceitar a defini��o de
heresia admitida pela Igreja Romana (ou por qualquer outra), sob pena de se
colocar no interior de um determinado corpo, no sentido em que o ensinamento
deste corpo seria decisivo para identificar os factos hist�ricos. Este �, ao que
parece, o ponto fulcral da resposta � quest�o sobre a influ�ncia das cren�as
individuais no of�cio de historiador. Se se estiver disposto a admitir, por
exemplo, que as cinco afirma��es atribu�das a Jans�nio, e condenadas como
her�ticas por Inoc�ncio X em 1653 na bula Cum occasione, s�o de facto her�ticas,
na medida em que contradizem a Sagrada Escritura, estar-se-� a usar a
interpreta��o cat�lica e ter-se-� de a admitir como v�lida na identifica��o e
classifica��o dos acontecimentos hist�ricos. Pelo contr�rio, se se deixar de
lado, na investiga��o hist�rica, as cren�as ou descren�as pessoais, a defini��o
de heresia ser� a seguinte: heresia (ou herege) � aquilo (ou quem) foi definido
como tal pelas autoridades eclesi�sticas. Esta � a �nica defini��o operat�ria,
ficando subentendido que o historiador aceita como vinculativas todas as
decis�es de todos os corpos eclesi�sticos; pressup�e que a heresia n�o tem
origem num desvio ao ensinamento ortodoxo, antes � estabelecida pelo facto de
ter sido condenada. Para um historiador a heresia � um facto institucional, n�o
apenas doutrinal. A mesma considera��o � ainda mais v�lida na defini��o de quem
� her�tico. (KOCHAKOWICZ, p. 304. Grifos nossos.)
Podemos aceitar essa argumenta��o para a cultura ocidental
crist�, mas dirigi-la para o Egito fara�nico implica termos Akhenaton declarado
herege por uma ortodoxia institucionalizada, se (e somente se) reconhecermos o
clero de Amon como tal. Uma vez que n�o encontramos qualquer termo eg�pcio (ao
menos em M�dio e Antigo Eg�pcio) que indicasse a condi��o de "herege", de
"her�tico", ou mesmo o substantivo "heresia", n�o acreditamos que o senso deva
ter existido. (GARDINER, 1982; MERCER, 1926.) E mais, esse direcionamento tamb�m
implica aceitar o clero de Amon como normatizador dos padr�es de religi�o, em se
considerando a religi�o como fator isolado, per se, auto-suficiente,
desvinculado do Estado, o que, como j� discutido retro, n�o � o caso. � tamb�m
aceitar a institucionaliza��o do apartamento de Akhenaton por parte do clero,
afirmativa irreal porquanto essa institucionaliza��o, em tendo havido, tinha
como v�rtice emissor o pr�prio fara� (pelo que a hist�ria pol�tica do per�odo
nos d� a conhecer, com a reaproxima��o de Semenkhar� do clero tebano, com a
recondu��o do culto e do clero de Amon aos seus antigos privil�gios sob
Tutankhamon e com o in�cio do apagamento do nome de Akhenaton da mem�ria do
Egito sob Horemheb).
Kochakowicz envereda por outra discuss�o, a nosso ver, e para
os objetivos deste trabalho, extremamente pertinente: sobre ortodoxia
contraposta a heresia. Inicia a sua argumenta��o acentuando uma diferen�a de
pontos de vista entre o historiador e o crente, mencionando que, para ambos, "a
heresia � fun��o da ortodoxia e tem de ser definida em rela��o a ela", mas
aponta que h� validade, para o historiador, na rela��o inversa. "A ortodoxia -
e, logo, a verdade - estabelece-se e articula-se contra o pano de fundo da
heresia; na maior parte das vezes os dogmas cristalizam-se, paradoxalmente, na
luta contra a sua rejei��o. Mas a simetria n�o � perfeita. Uma vez o dogma
claramente definido, desafi�-lo abertamente equivale, como � evidente, a
incorrer no estigma da heresia (...)." (KOCHAKOWICZ, p. 305.) Declara ainda que,
na hist�ria da Igreja, "alguns grandes her�ticos foram, na verdade, reformadores
que falharam, do mesmo modo que alguns grandes santos estiveram bastante perto
de se tornarem hereges (...)" (Idem, p. 306.)
Situa a Igreja Romana como um caso privilegiado para o estudo
das heresias. � aqui, neste ponto, que Kochakowicz abre a categoria para
aplica��o em outros loci que n�o a Igreja Romana. Mas em contraposi��o, quase o
fecha ao mesmo tempo que limita as apropria��es da categoria ao protestantismo e
ao juda�smo, circunscrevendo a sua aplica��o a um universo de cultura
judaico-crist�, mesmo quando considera as seitas, quer vinculadas � Igreja
Romana, quer vinculadas ao protestantismo. Limita-se a comentar sobre a
relut�ncia dos historiadores em identificar por conta pr�pria certas pessoas ou
id�ias como her�ticas, "dentro de um corpo protestante". Entendemos, a�, que o
autor manifesta o ponto de vista de que o historiador aguarda a manifesta��o
institucional da Igreja para o emprego da categoria que discutimos.
Kochakowicz comenta, agora, sobre as pr�ticas de esmagamento ou
domestica��o de uma heresia: "N�o existe um modo �nico de enfrentar uma heresia.
Tudo depende do perigo que ela representa para a unidade da Igreja, da sua for�a
real ou potencial, das capacidades estrat�gicas das autoridades. Nem sequer se
podem apontar regras gerais quanto ao m�todo mais eficaz para destruir uma
heresia. Uma resposta directa e intransigente pode, por vezes, ter �xito, mas
nem sempre � assim." (Idem, p. 308.)
Tornamos a lembrar que ap�s o restabelecimento tanto do culto a
Amon quanto dos privil�gios para os membros do clero desse deus, existiram a��es
para o apagamento da mem�ria do Egito do nome de Akhenaton, dos nomes dos
membros de sua fam�lia, bem como do culto a Aton, tanto atrav�s da raspagem dos
nomes reais dos monumentos quanto com a demoli��o de muitas edifica��es erguidas
no reinado daquele fara�. Muitas dessas atitudes foram consideradas como uma
persegui��o aos adoradores de Aton, na tentativa do ressurgimento do antigo
culto do Imp�rio. No entanto, como no considerado per�odo iconoclasta de
Akhenaton, quando os nomes dos deuses foram tirados dos documentos oficiais e
substitu�dos pelo de Aton, o ato, para o Egito, tinha um car�ter m�gico que
sobrepuja a simples retalia��o. E nesse contexto nunca � demais refor�ar que
Kochakowicz escreve tendo em seu horizonte te�rico um objeto bem espec�fico que
� a Igreja Romana e o cristianismo.
Retornamos aos argumentos de Kochakowicz e nos deparamos com
uma abordagem cr�tica sobre o significado social e religioso da categoria
"heresia". O autor comenta sobre a insistente procura, entre os estudiosos, de
elementos reivindicat�rios, bem como de indicadores de descontentamentos
sociais, nos movimentos e nas id�ias her�ticas, principalmente entre os
pesquisadores marxistas. (Idem, p. 311.)
"� portanto verdadeiro que determinados interesses de classe
utilizavam estes s�mbolos e apareciam ami�de como movimentos her�ticos. Isto n�o
implica necessariamente que a afirma��o inversa seja verdadeira, ou seja, que
todas as heresias tenham de ser interpretadas em termos de classe ou que todas
as id�ias her�ticas n�o sejam sen�o sintomas, ou uma express�o 'distorcida', de
problemas de classe; tal pressuposto baseia-se n�o tanto em material hist�rico
como numa certa filosofia da hist�ria que sugere que todos os 'verdadeiros'
interesses humanos podem ser descritos em termos de classe e que as pessoas
sempre erraram (ou se enganaram, ou se 'mistificaram') quando acreditavam que
lutavam por outros valores - religiosos, nacionais, pol�ticos, - e os
consideravam valores em si mesmos. Este pressuposto parece ser arbitr�rio e, de
qualquer das formas, n�o menos arbitr�rio que o anterior, segundo o qual todos
os valores 'verdadeiros' s�o, em �ltima an�lise, de car�ter religioso e todos os
outros apenas lhe conferem uma express�o distorcida."
"Para os estudiosos, as heresias diferem umas das outras tanto
na medida em que a sua popularidade pode ser interpretada em termos de
reivindica��es sociais espec�ficas, como no grau de correspond�ncia que se pode
encontrar entre esses interesses e o conte�do especificamente religioso." (Idem,
p. 312.)
O mais interessante, aqui, seria podermos identificar as
motiva��es que Akhenaton teria para infulcrar-se num movimento her�tico. Se h�
"luta de classes" no caso de Amarna, esta se d� entre o Rei e o clero, mais
especificamente o de Amon, formado em sua grande parte por indiv�duos que det�m
posi��es na hierarquia do estado eg�pcio, ligadas � condi��o civil de cada um.
Que fun��o social, ent�o, os acontecimentos de Amarna teriam tomado? Novamente,
no nosso entendimento, a heresia categorizada no contexto da Igreja Romana toma
dist�ncia das molas dos acontecimentos em Amarna.
Kochakowicz, ent�o, parte novamente em busca de um campo de
significado para heresia, de acordo com a fun��o social desta.
"Podemos dividir as heresias em v�rias categorias, segundo o
seu significado social.
Primeiro, as heresias que t�m por origem um cisma, provindas
'do cimo'; nestas as considera��es pol�ticas s�o patentemente predominantes e as
diferen�as dogm�ticas s�o inexistentes, de somenos import�ncia ou apenas
aparecem mais tarde como resultado da ruptura com a unidade eclesi�stica."
"Em segundo lugar, as heresias de car�ter claramente 'erudito':
id�ias teol�gicas ou filos�ficas desenvolvidas por um pensador e que ou
permaneceram como opini�es pessoais ou apenas ganharam pequenos c�rculos de
seguidores, sem se tornarem um verdadeiro movimento her�tico. Estas heresias s�o
normalmente de tipo racionalista, e em muitos casos patenteiam tend�ncias
m�sticas; estas �ltimas aparecem por vezes na forma de pequenos convent�culos de
devotos." "Por vezes uma heresia torna-se um verdadeiro movimento dentro da
Igreja (ou de uma seita), por�m a sua influ�ncia fica limitada �s pessoas
cultas."
"Em terceiro lugar, as heresias genuinamente populares, quer se
desenvolvam ou n�o a partir de id�ias teol�gicas avan�adas por um pensador
proeminente (...), tem dois aspectos em comum: afectam largas camadas da
popula��o inculta, camponesa ou urbana, existindo um elo claramente
identific�vel entre os seus dogmas e o seu significado social." (Idem, pp.
315-6.)
Talvez as duas primeiras formula��es sejam pass�veis de
aplica��o a Akhenaton, da forma como Aldred escreveu. Na primeira, temos que o
rei promove a instala��o do novo culto e o apartamento da influ�ncia tebana, o
que caracterizaria a cis�o "provinda do cimo", como quer Kochakovicz, fato que
d� a entender da mesma forma um apartamento pol�tico do clero de Amon nas
atividades do Estado. Na segunda formula��o temos que a figura do rei poderia
ser apresentada como a do patrocinador e formulador das novas id�ias, sendo que
a sua �rea efetiva de atua��o fica circunscrita � regi�o de Amarna que se torna,
al�m de capital, o novo grande centro de culto no Egito. Com rela��o a esta
segunda formula��o, somos pela compreens�o de que nas express�es "erudito" e
"culto" est� impl�cita a id�ia de "elite social".
Acreditamos que se h� algum aspecto her�tico nos acontecimentos
de Amarna, estes est�o muito mais presos aos aspectos pol�ticos que � estrutura
da religi�o no Egito, quer seja representada pelo culto do deus do Imp�rio
(Amon), quer seja representada pelo culto de qualquer outro deus. E somente
nessa situa��o nos socorremos em Kochakowicz, justificando a forma de
entendimento de Aldred para a quest�o da heresia Amarniana.
"O conceito de heresia � bastante usado fora do contexto
propriamente crist�o ou religioso para denotar fen�menos semelhantes em corpos
ideol�gicos de car�cter pol�tico. Com efeito, as analogias s�o surpreendentes.
Movimentos pol�ticos com uma forte necessidade incorporada de permanecerem fi�is
a um credo herdado e detendo uma estrutura hier�rquica (em particular movimentos
ligados � ideologia marxista) produzem inevitavelmente os mesmos fen�menos que
observamos na hist�ria da Igreja. Isto � �bvio nos movimentos que t�m uma
autoridade identific�vel que pronuncia veredictos sobre a verdade e que condena
os dissidentes, e ainda em todas as vers�es do comunismo, cada qual lan�ando
an�temas sobre as outras. O nome mais comum, e que � exactamente an�logo a
'heresia', � 'revisionismo'; corresponde ao que a heresia deveria ser no
cristianismo: uma fuga ao c�none estabelecido, tal como � definido e
interpretado pelas autoridades do momento. Contudo � verdade que o comunismo
nunca alcan�ou, nem sequer de longe, a precis�o, caracter�stica da Igreja
Romana, em definir os seus dogmas e as suas escrituras can�nicas; apesar disso,
comparecem na sua hist�ria todos os fen�menos anal�gicos (Sagrada Escritura,
pais perfeitamente ortodoxos, pais menos perfeitamente ortodoxos, hereges, papas
e antipapas, conc�lios e anticonc�lios, cismas, apostasias, sucess�o apost�lica,
j� para n�o falar de Inquisi��o). Tamb�m existem analogias na estrutura - e n�o
apenas no conte�do - da ideologia, o que, aos olhos dos cat�licos ortodoxos,
confirma o tradicional ditado crist�o segundo o diabo macaqueia Deus.
� prov�vel que todos os movimentos e corpos que se baseiam, ou
se sup�e basearem-se, numa ideologia ou numa mundivid�ncia que tudo abarque, t�m
for�osamente de gerar heresia e todos os fen�menos que lhe est�o ligados; este
facto parece ser consequ�ncia de uma contradi��o cultural quase permanente: tais
corpos necessitam de ver a sua ideologia como a verdade num sentido n�o
hist�rico da palavra, enquanto nas quest�es filos�ficas e religiosas a verdade
tem de ser redefinida de acordo com as vicissitudes da civiliza��o humana."
(Idem, pp. 316-25. Grifos nossos.)
Fundamentados numa compara��o (ainda que a achemos grosseira e
inadequada) entre a Igreja Romana e o culto de Amon de Tebas, e entre as
heresias presentes na hist�ria do cristianismo e a Reforma Amarniana, colocamos
Tebas numa posi��o representativa da ortodoxia religiosa no Egito,
contrapondo-se a algo que, apesar do aparente contra-senso, � mais antigo mas
que, no entanto, se apresenta com uma nova roupagem: o culto a Aton. Parece-nos
que Aldred prende-se a esse tipo de vis�o em seus escritos.
Apresentamos mais uma quest�o, considerando, tamb�m, todas as
relativiza��es que podem ser feitas para Akhenaton e Amarna, sobre a exist�ncia
(ou n�o) de uma heresia no final da XVIII dinastia eg�pcia.
"H� heresia quando existe uma igreja que pretende possuir uma
verdade (...) fora do tempo. � precisamente esta pretens�o que, em determinadas
mudan�as tornadas necess�rias pelas transforma��es da sociedade, da economia, da
cultura (...), faz corresponder tens�es e rupturas, dado que alguns se
pronunciam por uma actualiza��o (...), outros pela manuten��o das tradi��es:
atitudes estas que podem ser consideradas inaceit�veis pelas autoridades
eclesi�sticas (...). Uma outra fonte de heresias � a rela��o din�mica entre o
mundo de 'aqui em baixo' e o 'al�m', pr�prio de cada religi�o, e em particular
do cristianismo; os conceitos-imagens que desempenham o papel de media��o (...)
s�o os mais frequentemente contestados. Em particular, na origem das heresias
est�o as tentativas de estabelecer o reino de Deus sobre a Terra (...), os
convites para fugir da vida terrena, ou para p�r em quest�o o poder (...)
temporal e as iniciativas mundanas da Igreja (neste �ltimo caso o limiar entre
heresia e santidade � mais esbatido)." (Idem, p. 325.)
Partindo das id�ias supra expostas, fala-se de "heresia" frente
a uma "igreja"que assume uma car�ter "tradicional". Dessa forma, poderia-se
pensar que no Egito da XVIII Dinastia o clero de Amon representava essa
"igreja"? Note-se que, aqui, estamos tomando a palavra "igreja"com o sentido de
"institui��o", organiza��o religiosa composta de uma estrutura mental de cren�as
que s�o veiculadas e/ou mantidas por uma classe espec�fica formada pelos
sacerdotes. Observando-se por esse prisma, as atitudes de Akhenaton quando da
instala��o de um "novo"culto, em que se observa a determina��o na recupera��o de
um culto ancestral (o de R�), mais tradicional portanto (em que pese a nova
roupagem que lhe � destinada), pode, por tenta��o, ser relacionadas a uma
"heresia". Repetimos que esse ponto de vista baseia-se numa compara��o das
estruturas do clero eg�pcio com a da Igreja Cat�lica Romana.
No caso da "media��o" apontada por Kochakowicz, a contesta��o
das imagens e refer�ncias a outros deuses, durante a chamada "fase iconoclasta
de Akhenaton", e a sua tentativa de plena substitui��o pelas representa��es
exclusivas de Aton, podem tender a que se vislumbre uma outra atitude
"her�tica", observados os mesmos par�metros que mencionamos retro. Ora,
acreditamos que estamos � frente de problemas com naturezas diferentes: quando a
Igreja Romana imp�e as suas imagens, h� uma n�tida tentativa de substitui��o do
que essa igreja considera "pag�o" pela "verdade" que traz em seu bojo com uma
postura de "conquista" para o pensamento eg�pcio, "apagar" um nome, um rosto,
uma imagem, era fazer com se ca�sse no esquecimento a ess�ncia da personagem,
sendo que essa atitude tem um car�ter m�gico, simb�lico, de for�a que est�
aliado � concep��o do que � o "nome" para o eg�pcio. � uma atitude que pode ser
observada tanto no passado eg�pcio, com rela��o � Akhenaton, quanto aos tempos
posteriores ao do seu reinado.
Com rela��o ao estabelecimento de um reino de Deus sobre a
terra, acreditamos que o terreno para esta discuss�o � perigoso e incerto
porquanto poder�amos nos sentir tentados a abordar a quest�o do tipo de
influ�ncia que a cultura religiosa do Egito exerceu sobre a constitui��o de um
pensamento judaico nos seus prim�rdios. Quer como aponta Sigmund Freud, quer se
raciocinarmos que tanto Akhenaton quanto os judeus do �xodo estavam sob
influ�ncia de um pensamento que � oriundo da mesma regi�o eg�pcia: M�nfis. Mas
como esse pensamento pode ter influenciado Akhenaton no estabelecimento do culto
ao deus Aton � assunto para um pr�ximo artigo.
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