Lustosa por ele mesmo

 

Minha mãe era literata do interior, tendo fundado, em 1934 em Cajazeiras da Paraíba, a revista Flor de Liz. Meu pai era responsável pela edição do boletim O Reino de Cristo, da Congregação Mariana de Moços em Sobral. Quando dei por mim estava escrevendo para a revista do Seminário dos Franciscanos em Campina Grande onde estudei. Ou tomando de conta da redação do Correio da Semana, em Sobral quando da morte de Getúlio Vargas e posse de Café Filho na Presidência da República, em agosto de 1954. Uma das boas coisas de minha vida foi quando, ao sair do Seminário, meu pai me adquiriu, a Coleção Documentos Brasileiros da José Olympio. Foi quando travei conhecimento com Gilberto Freyre. Depois foi haver encontrado, na Livraria Gurgel, Cadernos do nosso Tempo, do instituto que antecedeu ao ISEB e que foram muito importantes para meu conhecimento da realidade brasileira. Quando menino, pensava que ia ser alguma coisa na vida, tanto assim que pedi ,de presente, pelos meus 15 anos Serões Gramaticais, de Carneiro Ribeiro. Li, em voz alta, parte de Os Sertões. Deu nisso.

Cola

Uma vez, durante prova escrita no Seminário em Campina Grande, deliciava-me com a leitura do romance Quo vadis?. O professor veio, sorrateiro, por detrás, para me flagrar pescando, colando. Era nada. Não conseguia despregar-me do livro.

Missão

Sou muito pequeno para ter uma missão. No jornal, não vender mercadoria deteriorada, não falsear a verdade, tentar tornar o mundo melhor.

Na crônica, tornar o mundo mais alegre, melhor humorado. Na vida, fazer e manter amigos. Pouca cousa me propus e nem isso realizei.

No Seminário Francisco onde estudei, trazia escondido, sob capa com título piedoso, A Cidade e as Serras de Eça de Queiroz, livro então proibido pela censura dos frades. Hoje prefiro Os Maias. Não há um ano de minha vida em que não releia Memórias Póstumas de Braz Cubas ou D. Casmurro, de Machado. Estou sempre às voltas com a poesia de Jorge Luís Borges e de Gerardo Mello Mourão. O teatro de Oscar Wilde.

Não sou, exatamente, um romancista pela deformação profissional do jornalismo, muito apegado ao fato. Ao que já se chamou parasitismo documental. Sempre sonhei escrever um ou dois romances versando temas sobralenses. Publiquei Vida, paixão e morte de Etelvino Soares do qual minha mãe gostou. E também Alice Raillard, da Gallimard, em Paris.

Claro, às vezes, você se depara com o clássico tema: a falta de assunto. Tem de enviar a crônica para o Diário do Nordeste GENTE e não sabe sobre que escrever. Escrever sob encomenda não deslustra. Taí a Capela Sistina que assim foi produzida. O ruim é a sensação que, às vezes, nos assalta, de não haver produzir boa mercadoria.

Falta de assunto

Tenho muito apreço pelo meu espaço no jornal. Mortifica-me quando não o aproveitei bem. De que não servi bons confeitos ao freguês. Nós, cronistas do cotidiano, queremos servir a refeição ainda quente, e sempre saborosa, ao freguês. E entristecemos quando não conseguimos dar conta do recado.

Lembro-me de, no Rio, começar a escrever sobre meu pai (modesto funcionário e chefe de tribo de catorze filhos) poema iniciado assim: "Marechal de soldo raso, catorze farnéis a suprir". Não fui mais longe.

Fazer literatura é lutar contra o olvido, contra a morte. É tentar, desesperadamente, deixar na mente ou na boca de alguém, uma frase, uma passagem .

Tradição

Sou um saudosista.

O que fazer pela literatura?

Estimular o hábito de ler, perdido pelas novas gerações.

Vale a pena ler sempre Antônio Torres que ataca, agora, de novo, de maneira felicíssima o velho tema do retorno em O cachorro e o lobo. Cristovão Tezza, um catarinense, residente em Curitiba. Francisco José Dantas, de Sergipe. Assis Brasil e Moacir Scliar, no Rio Grande. No Ceará, chamo a atenção para a poesia de Soares Feitosa e para os contos de Pedro Salgueiro, para referir os que publicaram recentemente seus livros.

Vida

Termos de aproveitar a vida, de acordo com suas estações, para, depois, não ficar com medo da morte. Ela deve nos encontrar lavrado o campo, a casa limpa, a mesa a posta,como queria Bandeira ou como dizia Borges: "Mon siège est fait".

Lembrança

Quando chovia no Sobral de minha infância, meu pai e eu tomávamos banho de chuva, a água despencando-se lá de cima dos sobrados, das bicas em forma de jacaré, correndo apressada pelas coxias, ávida pelo leito do rio Acaraú.

Computador

Computador é fera não de todo apaziguada. Ainda preciso avançar muito para extrair tudo quanto ele pode me dar. Sou apedeuta total de tecnologia avançada ou rudimentar.

Prazer

Não há prazer maior que o do livro. E de preço mais em conta, mais módico do que a bebida e o sexo.

Boemia

Sou falso boêmio. Não varo a noite, muito menos, as madrugadas. Só raramente isto acontece.

Medo

Temo a solidão. Há quem a ache boa porque é oportunidade de se olhar, cara a cara, olho no olho. Prefiro dividir tal sensação.

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