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    I


    “O espírito é um viajante errante que nos leva a lugares distantes e fascinantes. É ele que nos conduz pelas verdades que cada imagem dos sonhos nos traz. Traduzi-las é entender um pouco de nossas vidas.”

    Beatriz se lembrava desse pequeno texto. Ele não saía de sua cabeça desde que sonhara com Anselmo, que o escrevera há tempos atrás. E nos últimos dias, os sonhos com ele estavam cada vez mais freqüentes, o que já começava a perturbá-la muito.

    — Bom dia querida! — Disse Cristiano, marido de Beatriz, ao chegar à mesa para o café.

    — Bom dia! — Respondeu Beatriz, sem dar muita atenção.

    — O que houve, Bia? Você está com uma cara de quem não dormiu bem.

    — É. Tive um sonho esquisito e confuso.

    — O mesmo das outras noites? Esses sonhos estão deixando você agitada. Conte para mim. Não sou nenhum estudioso em sonhos, como você, mas talvez possa ajudá-la a interpretá-lo.

    — Foi um sonho bobo, nem me lembro direito. É por isso que estou tão chateada. Detesto não lembrar dos meus sonhos. Mas vamos deixar isso pra lá.
    Beatriz disfarçou com um sorriso para não despertar o interesse do marido. Ela não queria falar sobre o sonho e a preocupação que ele lhe trazia.

    — Não fique triste, amor. Todas as vezes que você não consegue se lembrar dos seus sonhos você fica intrigada o dia todo. Isso é que dá ser tão esotérica. Você sempre acaba se lembrando. É só ter paciência. Deixa eu ir embora que já estou atrasado.
    Cristiano dá um beijo nos lábios de Beatriz e sai correndo para o trabalho. Beatriz observava o marido ir embora e se sentia mal por não ter dito o que realmente estava acontecendo e sentindo. Pensava que, talvez, ele não entendesse suas preocupações, ou a razão daqueles sonhos se repetirem do mesmo jeito nos últimos dois dias.
    Beatriz estava confusa e precisava falar com alguém. Resolveu ligar para sua amiga Helena e marcar um encontro. Helena ouviria tudo e juntas, talvez, pudessem descobrir uma solução para a angústia que estava sentindo.

    — Alô ! Helena?

    — Sim. Quem fala?

    — Sou eu, Beatriz.

    — Oi, Bia ! Como vai? Estava com saudades. Faz tempo que a gente não conversa.

    — Não ando bem. Estou com um problema sério e preciso de sua ajuda, amiga. — A voz de Beatriz entonava toda a sua preocupação e isso logo foi percebido por Helena.

    — Você parece preocupada. Sua voz está triste. Me conte o que aconteceu.

    — Não por telefone. Vamos almoçar juntas e então eu lhe conto o que está me afligindo tanto. É uma conversa muito longa.

    — Tá bom. A gente se encontra no “Rob’s Boulevard”, no Shopping, às 12:30. Tá?

    — No Rob’s, não. Tem muita gente na hora do almoço e além do mais, vão muitas pessoas conhecidas minhas e do Cristiano. Encontre-me naquele restaurante chinês da ala sul. É um lugar tranqüilo e dá pra gente conversar bem à vontade. Pode ser lá?

    — Por mim tudo bem. Te espero lá. Beijos.

    — Beijos. Tchau.

    II

    Beatriz chegou cedo ao restaurante e estava ansiosa pela chegada da amiga. Se não conversasse com alguém iria explodir. Helena era sua confidente há bastante tempo e compreenderia sua angústia. No horário combinado ela chegou.

    — Oi, Bia ! O que houve? — perguntou Helena preocupada.

    — É o Anselmo.

    — O que aconteceu com ele?

    — Anda me perturbando muito.

    — Como? Tem ligado para você?

    — Não.

    — Tem escrito?

    — Não.

    — Não estou entendendo. Como ele está lhe perturbando então?

    — Ele vem invadindo os meus sonhos nas últimas duas noites.

    — Isto é um problema sério. Quando começamos a sonhar com amores passados, temos tempestade à vista.

    — Eu sei. Eu e Anselmo tivemos realmente uma relação muito forte. Aprendemos juntos a buscar o verdadeiro amor. Fomos amigos e amantes. Compartilhamos nossas alegrias e tristezas. Enfim, nos amamos intensamente... Estou ficando confusa.

    — Pensei que você já tivesse superado a relação com ele. Você está casada com o Cristiano há mais de três anos, e vivem tão bem. Seu marido lhe adora, é fiel, coisa rara hoje em dia e, além do mais, lhe ama muito. Você tem tudo o que uma mulher pode esperar de um homem.

    — Eu sei disso. É por isso que me sinto tão incomodada. Parece que, de certa forma, estou traindo o Cristiano ao ficar perturbada com a lembrança de Anselmo.

    — O que eu não consigo entender é como alguns sonhos podem lhe perturbar tanto.

    — É porque os sonhos são o espelho de nossa alma. Com eles podemos aprender a viver realmente. Lembra quando eu lhe falava sobre as viagens que o nosso espírito faz?

    — Sim. Você comentou o assunto há algum tempo. Aliás, foi antes de terminar o seu namoro com Anselmo. Não dei muita importância, pois não sou chegada a essas coisas esotéricas. Este tipo de assunto me causa até um certo arrepio.

    — Pois é. O nosso espírito é um andarilho que viaja muito, por lugares que já conhecemos ou que iremos conhecer um dia. Por isso, muitas vezes temos a impressão de termos estado em determinados ambientes que nunca vimos antes, mas que depois, em um certo tempo de nossas vidas, nos parecem ser familiares. Cenas que temos a certeza de já ter vivido.

    — Isso acontece comigo de vez em quando.
    Helena lembrava do lugar em que conhecera Beatriz. Foi numa praia no Rio Grande do Norte, em cima de um morro chamado Careca. Ela subia naquela elevação, que era muito íngreme e exigia um grande esforço de quem se arriscasse em sua subida. Ao chegar ao alto dele, ofegante, cansada e com muito calor, viu Beatriz pela primeira vez que, de imediato, ofereceu-lhe água de coco, aquela água benta que matou a sua sede. Daquele momento em diante, uma grande amizade nasceu entre elas.

    — Quando nos conhecemos, tive a impressão de já ter vivido aquela situação antes. E você falando agora, começa a vir em minha mente, outras lembranças parecidas, que se tornaram reais, depois de algum tempo. — Comentou Helena.

    — Viu como as situações vão surgindo? Através das imagens dos sonhos, podemos descobrir muitas verdades.

    — Que verdades?

    — Os sonhos refletem tudo que aconteceu, acontece ou poderá acontecer conosco. Eles falam das nossas atitudes, das nossas dúvidas, dos nossos medos; e de tudo que está dentro de nós. Se pararmos, pensarmos um pouco e tentarmos entender o que eles querem nos dizer, poderemos encontrar a solução para muitos dos nossos problemas.

    — Você consegue entender todos os seus sonhos?

    — Boa parte deles.

    — O que significa a presença de Anselmo nos seus sonhos?
    Beatriz refletiu por um instante e lembrou-se de uma conversa que tivera com Anselmo há alguns anos, em que ele dizia:

    “Nós sempre estaremos juntos Bia, mesmo que estejamos distantes fisicamente um do outro. Basta querermos. Porque nossos espíritos têm a capacidade de nos levar a qualquer lugar, principalmente para perto daqueles a quem amamos. Podemos até participar de seus sonhos e levar mensagens que poderão ajudá-los a resolver seus problemas. Mas tome cuidado, porque existem pessoas que usam essas viagens para atormentar seus semelhantes. São almas pobres, sem luz, que aprenderam a voar pelos caminhos dos sonhos e que não conseguem ver as verdades que se escondem dentro delas mesmas.”— Ela lhe perguntou como poderia fazer estas viagens e ele respondeu:
    “Você tem que abrir a sua mente para a realidade dos sonhos. Observar o que eles querem lhe dizer e a sua relação com o seu dia-a-dia. Deve mentalizar coisas positivas, desejando sempre o bem de todas as pessoas e esquecendo o mal. Assim encontrará as respostas para qualquer problema e quando encontrá-las, aplique-as em sua vida.”— Seus pensamentos foram interrompidos por Helena.

    — Bia. O que houve? De repente você foi para tão longe.

    — Estava me lembrando de algumas coisas que Anselmo sempre me dizia.

    — Você ainda não me respondeu. O que significa a presença dele em seus sonhos?

    — É aí que está o problema. Ainda não consegui compreender o que ele quer.

    — O que ele lhe diz nos sonhos?

    — O sonho é sempre o mesmo.

    — Me conte.

    — Eu estou no meio de uma paisagem agreste e selvagem, em um lugar que eu e Anselmo íamos muito em nossos sonhos.

    — Vocês viajavam nos sonhos um do outro? Isso é possível?

    — Sim. É uma história longa. Um dia lhe conto como aprendemos tanto sobre os sonhos e nossos espíritos.

    — Continue! Esta história está ficando interessante.

    — Você não tinha um certo medo sobre esse assunto?

    — Tinha. Quero dizer, tenho. Mas a curiosidade no momento é maior que o medo.

    — Nesta paisagem, também existem lugares incríveis, como as cataratas de Daimon, que derramam suas águas cristalinas num pequeno vale entre grandes montanhas. Em volta existem inúmeras árvores de vários tamanhos. O verde delas se difere em diversas tonalidades; o ambiente é um santuário de muita paz e harmonia.

    — O que significa Daimon?

    — Significa poder divino.

    — E por que tem este nome?

    — Dizem que é porque só um verdadeiro e sincero deus, destituído de todas as vaidades humanas, poderia criar um lugar tão lindo e cheio de paz como aquelas cataratas. Então o povo da região resolveu identificar aquele lugar como o símbolo de um poder divino. Daí surgiu o nome, originado da Grécia.

    — Interessante. O que Anselmo faz neste lugar?

    — Perto da queda d’água, existe uma pedra em que ele fica sentado, parado me olhando seriamente. Não fala nada e eu fico a observá-lo, esperando que me diga o que quer. Quando vou ao encontro dele para perguntar o que deseja de mim, ele me olha triste, se levanta e sai. Tento ir atrás dele e o sonho sempre acaba aí. Esse mesmo sonho tem se repetido durante as últimas duas noites. Ele parece querer me dizer alguma coisa, mas não consegue. Tem alguma coisa errada e não sei o que é. Isso é um péssimo sinal.

    — É amiga. Se alguns sonhos estão lhe deixando desse jeito, confusa e aflita, imagine se ele aparecer em carne e osso. Você precisa reavaliar seus sentimentos.

    — Sabe de uma coisa Lena?

    — O quê?

    — Tenho medo do que possa descobrir.

    — Ou, quem sabe, de redescobrir algo que está adormecido há algum tempo. — Comentou Helena. — Você tem que pensar que sua vida, hoje, é muito boa com Cristiano. Ele lhe ama muito e não merece sofrer, mas não se esqueça jamais amiga, que para se fazer outra pessoa feliz de verdade, é preciso que se esteja feliz consigo mesmo.
    Beatriz ficou em silêncio por alguns segundos. Suspirou e depois disse:

    — Eu sei disso, amiga, eu sei.

    — Gostaria de poder lhe ajudar, mas não sei como.

    — Não esquenta. Esse é um problema que terei que resolver sozinha. Mas só o fato de você ter me ouvido, já me ajudou bastante. Me sinto bem mais aliviada.

    — Por que não se abre com Cristiano, Bia? Ele é um homem tão compreensivo.

    — Lena, mesmo Cristiano sendo tão compreensivo e me amando tanto, não sei como ele receberia a notícia de eu estar sonhando com um outro homem que marcou tanto a minha vida. Ele jamais quis falar sobre Anselmo e, por isso, não sei qual seria sua reação.

    — Você tem razão Bia. Os homens são muito inseguros quando se trata de amores passados. Saber que só o sonho com Anselmo estaria mexendo tanto com você, poderia criar um clima desagradável; uma sombra no seu casamento.

    — Com certeza existe essa possibilidade, amiga. E eu não quero arriscar.

    — Aliás, eu também ficaria cismada, se meu namorado viesse falar de algum amor passado. O que você vai fazer agora?

    — Francamente, eu não sei. Mas tenho que descobrir logo. Não posso ficar assim confusa toda vez que eu vir a imagem de Anselmo.

    — Bia, tenho que voltar para o escritório. Estou em cima da hora.

    — Nossa! Nem percebi que o tempo passou tão rápido. Também tenho que ir para o consultório. Obrigada por ter vindo.

    — De nada. Os amigos são para essas horas. Se precisar de mim, é só ligar. Posso não entender nada de sonhos, mas sou uma ótima ouvinte.

    — Falou! Obrigada.

    As duas se beijaram e cada uma seguiu seu rumo.


    III

    — Oi amor! Como foi o seu dia? Já conseguiu decifrar aqueles sonhos que lhe perturbaram tanto na noite passada? — Perguntou Cristiano, que chegou em casa todo animado.

    Beatriz notou a felicidade que seu marido irradiava no rosto, aproximou-se dele e o beijou com vontade. Um beijo ardente, dado com a intenção de ser a confirmação de seu amor por aquele homem, pois todas as vezes que eles se tocavam intimamente, uma sensação de bem-estar invadia o ambiente em que estivessem. Era uma coisa que ela percebia nitidamente, mais do que qualquer pessoa, ou do que o próprio marido. Havia amor naquele homem e ela sabia disso.

    — UAU! Que beijo gostoso, Bia. — Comentou Cristiano quase sem fôlego — Fazia tempo que você não me dava um beijo desses. O que aconteceu?

    — Nada. Me deu vontade de fazer e eu fiz. Além do mais, você é o meu homem e eu te amo.

    Beatriz tentava ter convicção em suas palavras. Não que não estivesse falando a verdade, mas havia outras emoções e ela precisava entendê-las bem. Queria sentir o calor do corpo de seu marido, para ter a certeza de que nada abalaria seu relacionamento com ele. Porém, a imagem de Anselmo fazia-se presente em seu pensamento, mesmo depois daquele beijo tão apaixonado. Virou-se para pegar um livro que estava sobre a mesinha de centro, quando Cristiano a segurou pelas costas. Prendeu-a num terno abraço, virando-a lentamente até que o seu olhar se encontrasse com o dela. Os olhos de Cristiano brilhavam intensamente, refletindo como ele estava feliz e Beatriz percebeu ainda mais quando ele, com a mais pura sinceridade, lhe disse:

    — Bia! Você foi a melhor coisa que surgiu em minha vida. O meu coração já não me pertence mais, ele agora é só seu. Antes de lhe conhecer eu estava perdido, sem saber que rumo tomar. Então, você surgiu como um anjo bom e sua luz iluminou o meu caminho; e hoje eu vivo os momentos mais felizes da minha vida. Te amo muito. Obrigado.

    Beatriz ficou sem saber o que fazer ou o que dizer. Aquele homem estava muito feliz e seus olhos mostravam isso. Ele estava declarando, mais uma vez, o amor que sentia por ela. Já o havia feito tantas vezes, mas nunca daquela maneira. Sua sinceridade era visível. Naquele instante seu coração ficou apertado. Não era justo, para com Cristiano, ela ter dúvidas sobre seus sentimentos. Não queria estar com aquelas lembranças de Anselmo em sua cabeça; porém, ele não saía de seus pensamentos. Seus olhos se encheram de água e ela começou a chorar. Um choro que revelava dúvidas, saudades, remorso, e, ao mesmo tempo, felicidade e a certeza de ter encontrado um outro amor verdadeiro em sua vida.

    — O que aconteceu, Bia? Por que você está chorando? — Perguntou Cristiano espantado.

    — Nada amor. É que me emocionei com suas palavras. Foram tão bonitas e sinceras.

    — É por isso que eu te amo. — Disse Cristiano, emocionado, enxugando as lágrimas de Beatriz, suavemente, com a ponta dos dedos. — Você tem a capacidade de sentir o bem que as pequenas coisas transmitem, de uma maneira só sua. Isso faz de você uma mulher muito especial. Uma mulher que não tem medo de mostrar sua feminilidade, sua sensibilidade. Por esse motivo, respeito-a cada vez mais.
    A cada palavra dita por Cristiano, Beatriz se sentia mal e queria fugir dali para algum lugar bem longe. Tinha medo de mostrar o que realmente estava sentindo.

    — Tenho uma boa idéia. Vamos jantar fora? — Perguntou Cristiano eufórico.
    Beatriz não queria sair naquela noite. Também não queria acabar com a alegria que tomava conta de Cristiano. Mas como era uma mulher de raciocínio rápido, logo arrumou uma saída.

    — Você ficaria chateado se deixássemos para outro dia? É que, desde o almoço, não estou me sentindo bem. Acho que comi alguma coisa que me fez mal. Gostaria de ficar em casa esta noite. Você não vai ficar desapontado comigo, vai? — Beatriz fez aquela cara de dengo, de uma pessoa que precisa de muito carinho e atenção, aquela carinha que só as mulheres sabem fazer e que deixam os homens com cara de bobos e sem ação para imporem a sua vontade.

    — Claro que não, amor. — Disse ele sem jeito. — Se você não está legal, ficamos em casa, eu cuido desse mal-estar e logo ele vai embora.

    — Obrigada, amor! Eu sei que vou melhorar com você cuidando de mim.


    IV


    Beatriz demorou para pegar no sono e, assim que adormeceu, o sonho das noites anteriores se repetiu novamente. Porém, daquela vez, Beatriz resolveu acabar com aquela aflição que tomava conta dela e antes que o sonho terminasse, foi ao encontro de Anselmo e disse com uma expressão séria no rosto:

    — Anselmo, o que você quer? Responda e não tente fugir de mim.

    — Preciso de sua ajuda. — Diz Anselmo com uma expressão sisuda no rosto.

    — Precisa de mim para quê? Sabia que, desde o dia em que você resolveu invadir os meus sonhos, estou confusa e não sei o porquê?

    — Sabe sim. Você ainda me ama e minha presença reacendeu uma chama que estava adormecida em seu coração. É por este motivo que você está confusa.

    — Isso não é verdade. Estou casada, feliz e, acima de tudo, amo meu marido.

    — Eu sei que você o ama e o respeita muito. Porém, isso não impede que continue me amando. Porque o verdadeiro amor é eterno e se manifesta de várias maneiras, transformando-se com o passar do tempo. Apesar de você ter tentado me esquecer durante esses três anos.

    — Como você pode saber disto? Nós não nos vemos há tanto tempo!

    — Eu nunca estive longe de você, Bia, por mais distante que estivéssemos fisicamente um do outro. Meu espírito esteve muitas vezes ao seu lado. Você se esqueceu do que aprendemos?

    — Claro que não. Como podia esquecer que podemos nos infiltrar nos sonhos de outras pessoas. Mas isso é uma invasão de privacidade, sabia ?

    — Desculpe. Eu não queria deixá-la nervosa, não era minha intenção.

    — Então, por que você tem aparecido e sumido de repente? Por que não se aproxima de mim e diz o que quer?

    — Porque eu tinha dúvidas se deveria falar com você.

    — Dúvidas! Como você acha que estou me sentindo? Você surge noites seguidas em meus sonhos. Entra novamente em minha vida sem pedir licença; me deixa confusa e por fim, quando me aproximo para falar, você se levanta e vai embora. Eu quero saber o que você realmente deseja de mim.
    Beatriz falava rápido e num tom ofensivo. Anselmo ouvia tudo calado. Depois que ela terminou de falar ele disse:

    — Estou morrendo Bia.

    — O quê? Morrendo? — Beatriz ficou espantada com a notícia. Aquela expressão séria e nervosa, foi substituída por uma de espanto e perplexidade.

    — Meu corpo físico está morrendo. Estou numa cama de hospital há mais de dois meses e há três dias entrei em coma profundo.

    — Em coma?

    — Sim. Estou com uma doença desconhecida. Ela atacou o meu cérebro, causando em todo o meu corpo inúmeras disfunções. Estou sobrevivendo por meio de aparelhos e posso morrer a qualquer momento.

    — Meu Deus! Quem está cuidando de você? — Perguntou Beatriz aflita. Por um momento esquecera Cristiano, da sua vida, de tudo. Pensava somente em Anselmo, pois sabia que ele estava falando a verdade.

    — Minha mulher.

    Ao ouvir aquela resposta, Beatriz sentiu algo estranho. Por um instante teve a sensação de perda.

    — Você se casou?

    — Não, mas vivemos juntos há mais de um ano e meio.

    — Como ela se chama?

    — Francine.

    — Você a ama?

    — Estou aprendendo a amá-la.

    — E ela te ama?

    — Ninguém ama outra pessoa de uma hora para outra. A gente vai aprendendo a amar dia-a-dia, descobrindo coisas novas a todo momento. Foi assim conosco. Lembra?

    — Lembro. É que estou confusa com sua presença e a notícia de sua enfermidade.

    — Desculpe. Não queria causar problemas em sua vida, mas preciso muito de sua ajuda.

    — Não entendo como posso lhe ajudar.

    — Vou explicar. Logo que entrei em coma, tive um sonho. Nele aparecia uma mulher que me dizia que eu tinha pouco tempo de vida, mas que poderia encontrar a cura para minha moléstia em um dos mundos dos sonhos.

    — Como era essa mulher?

    — Comum. Não havia nada de especial nela. Nada que me chamasse a atenção.

    — Ainda não entendi onde eu me encaixo nessa história. — Questionou Beatriz intrigada.

    — Vou lhe contar a conversa que tive com ela. Talvez assim, você possa compreender porque preciso tanto de sua ajuda.

    V

    — No decorrer de nossa conversa, a mulher foi me dizendo que meu espírito estava ficando fraco e que em três dias, eu não teria mais forças para viajar entre os planos físico e espiritual. Decorrido esse prazo, eu morreria. Disse-me que a energia necessária para salvar minha vida encontrava-se dentro de uma bola de cristal, chamada Shamonthi. Esse cristal contém uma grande força.

    — O que significa Shamonthi, Anselmo?

    — Ela me disse que significa Luz da Vida. Ele está guardado em um lugar muito especial que devemos encontrar, durante o sono, através dos nossos sonhos.

    — E eu torno a lhe perguntar, onde eu entro nessa história?

    — Muito simples, Bia. Vou lhe contar o restante do sonho e você vai começar a entender melhor.

    — Espero. A cada minuto fico mais curiosa e confusa.

    — A mulher do sonho falou que eu precisava da ajuda de um outro espírito nessa caminhada. De uma alma especial. Alguém com quem eu tivesse descoberto, aprendido, vivido e compartilhado o verdadeiro amor entre um homem e uma mulher. Uma pessoa que tivesse marcado positivamente a minha vida. Somente esta pessoa poderia me ajudar a enfrentar os perigos que me aguardam nesta jornada ao desconhecido. E que só o meu coração saberia identificar esta pessoa. E a única mulher que amei realmente até hoje, de verdade, foi você Bia.

    Beatriz sentiu-se envaidecida com aquelas palavras. Ficou feliz por saber que Anselmo jamais a esquecera e, naquele instante, um turbilhão de emoções tomou conta do seu coração.

    — E Francine, Anselmo? Como ela fica nessa história. Será que ela não poderia lhe ajudar nesta viagem?

    — Não. Como lhe disse inicialmente, eu e ela ainda estamos descobrindo o nosso amor. A mulher do sonho foi bem clara, teria que ser uma mulher especial, que tivesse marcado muito a minha vida.

    Beatriz não sabia realmente o que fazer. Sentia tantas coisas ao mesmo tempo que, se alguém pedisse a ela para descrever o que estava sentindo, não conseguiria. Pensava em Cristiano e no que ele representava em sua vida, hoje. Pensava em Anselmo e no que ele representou para ela, no passado. Ver, sentir e conversar outra vez com Anselmo, depois de tanto tempo, fez com que Beatriz lembrasse de todos os bons momentos que viveram juntos, dos obstáculos que tiveram que vencer para alcançar a verdadeira felicidade. Descobriram juntos que existia dentro deles um universo em expansão, que mudava freqüentemente. Lembrava-se de Cristiano e tinha medo de suas emoções naquele momento.

    — Não sei, Anselmo. Tenho que pensar um pouco. Me dá um tempo?

    — Vejo muita preocupação em seu rosto e compreendo a sua situação. Eu não tenho o direito de entrar de novo em sua vida dessa maneira. Porém, infelizmente, eu não tenho muito tempo. Ao final do meu ciclo de sono desta noite, morrerei.

    — Como você pode ter tanta certeza de uma coisa dessas?

    — A mulher do sonho me disse. Preciso de uma resposta agora.
    Anselmo falou de uma maneira calma, pois sabia que não tinha o direito de exigir ou fazer qualquer imposição a Beatriz. Além do mais, ela era o tipo de mulher que aprendera, com a vida, jamais aceitar de qualquer pessoa que fosse, imposições que a levassem a fazer algo que não quisesse. Beatriz fitou os olhos de Anselmo com uma expressão firme, e disse:

    — E se eu não for com você, o que irá fazer?

    — Vou entender e respeitar sua decisão. E irei sozinho à procura do Shamonthi.

    — Você iria sozinho numa aventura dessas?

    — Sim. É a minha vida que está em jogo.

    As palavras que saíam da boca de Anselmo eram firmes e verdadeiras. Beatriz sabia disso. Podia ver no rosto dele uma grande determinação nascendo e tinha a certeza de que ele lutaria por sua vida a qualquer custo, mesmo que as chances fossem de noventa e nove contra uma. Foi tomada de compaixão e pela lembrança das palavras de um velho senhor que aparecera certa vez em um dos seus sonhos: “Cada ser humano que existe na face da terra é responsável por toda e qualquer vida que exista no planeta. Todos os seres vivos que compõem a natureza estão ligados através de uma grande e invisível corrente de energia. Se essa corrente for se quebrando, muitos males cairão sobre os mundos visíveis e invisíveis. Por isso, cabe a nós zelar sempre pela manutenção dessa corrente e a melhor maneira de se fazer isso, minha filha, é dando o verdadeiro amor às pessoas. Você é responsável pela manutenção da vida de todos aqueles a quem amou, ama ou amará algum dia. Seus gestos e ações serão suas armas; eles mostrarão a intensidade de seu amor.” Ao lembrar dessas palavras, Beatriz sentiu-se responsável pela vida dele e, então, decidiu:

    — Tudo bem, Anselmo. Eu vou com você. Se existe uma possibilidade de salvar sua vida, nós a encontraremos juntos.

    De repente, no rosto sério e preocupado de Anselmo, surgiu um largo sorriso que brilhou tão intensamente quanto o sol que iluminava aquele lugar.

    — Bia, você não sabe o quanto me fez feliz!

    — Sei sim. Posso ver e sentir sua alegria. Além do mais, estar aqui nesse lugar outra vez, só me traz boas recordações e é bom poder lhe ajudar. Afinal de contas devo muito a você.

    — Você não me deve nada.

    — Devo sim. Se hoje sou uma mulher melhor, foi porque aprendi com você muitas coisas boas.

    — Bia, continuo a dizer que você não me deve nada. Como disse um amigo meu certa vez: “A vida é uma caixinha de surpresas e nela duas pessoas nunca se encontram por mero acaso. Cada um de nós é colocado no caminho do outro, para que possamos juntos descobrir novas emoções ou, quem sabe, redescobrir outras há muito esquecidas. O criador do amor que conduz a bondade do Universo sempre estará tramando alguma coisa para que possamos despertar em outro alguém os sentimentos de amizade, respeito e amor.” Por isso, não se subestime, porque você também me ensinou muito. Despertou em mim sentimentos que eu tinha esquecido ou desconhecia. Houve pois, uma troca e se hoje somos pessoas melhores foi graças aos bons momentos vividos um com o outro. Devemos continuar tendo a sensibilidade para podermos ajudar outras pessoas que cruzem o nosso caminho e com elas aprendermos coisas novas para que, assim, o nosso espírito se eleve cada vez mais.
    Beatriz deu um largo sorriso que significava a sua concordância sobre tudo que Anselmo falara.

    — E agora Anselmo? Por onde começaremos a nossa jornada?

    — Eu ainda não tenho idéia. A mulher do sonho só disse que meu coração encontraria a pessoa certa para a jornada e mais nada.

    — Quer dizer que seu sonho com ela terminou aí? E agora?

    — Não faço a mínima idéia. Acho que a primeira coisa a ser feita é interligarmos nossos sonhos em definitivo. Está pronta?

    — Sim. — Respondeu firmemente Beatriz.

    — Então, vamos começar!

    Os dois dão as mãos e fecham os olhos, simultaneamente, buscando a interação de suas almas e começam a sentir a força de seus espíritos fluírem reciprocamente para seus corpos, tendo como cabo condutor desta corrente seus próprios braços.
    Após a ligação de seus sonhos, Anselmo e Beatriz ficaram em silêncio, olhando um para o outro. Enquanto isso, um vulto observava a cena sem que eles percebessem. Estava ali, há bastante tempo, analisando as dúvidas e certezas que acompanhavam aquele homem e aquela mulher. Foi se aproximando lentamente por trás de Beatriz e, quando já estava perto dela, Anselmo gritou, quebrando o silêncio: — Bia! É ela! É ela...

    — Quem Anselmo?

    — ...a mulher do sonho.

    Beatriz vira-se e quando vê aquela figura, a um palmo do seu rosto, saída sabe-se lá de onde, assustou-se e caiu no chão. A mulher, serenamente, estendeu a mão para ajudá-la a levantar-se. Anselmo deu um salto para frente, enquanto Beatriz permanecia atordoada com a situação, pois a mulher a olhava fixamente.

    — Você está bem, Beatriz? — Perguntou Anselmo assustado.

    — O que houve, Anselmo? Por que essa cara de espanto? — perguntou a mulher calmamente.

    — O que você faz aqui?

    — Tenho que conversar com vocês dois. Alertá-los de certos perigos que podem surgir durante a viagem.

    — Que perigos podem surgir? — Perguntou Beatriz, refeita do susto.

    — Pode ser que nenhum de vocês volte dessa jornada.
    Anselmo e Beatriz ficaram surpresos, pois não sabiam que havia esta possibilidade.

    — Como assim, não voltar? Você não me disse nada sobre a possibilidade de Beatriz não voltar mais. Bia, eu juro que não sabia disso. — falou Anselmo apreensivo.

    — Tudo bem Anselmo. Eu acredito em você. — Respondeu Beatriz.

    — Existirão perigos reais durante as viagens que vocês farão caso queiram, realmente, encontrar a cura para a moléstia de Anselmo. — Continuava a mulher — Quando vocês interligaram os seus sonhos, se uniram, formando um só ser, tornaram a realidade de vocês uma só. Os planos físico, mental e espiritual de Beatriz se ligaram aos mesmos planos que os seus, Anselmo. Se você morrer, Beatriz também morrerá.
    Aquelas palavras caíram como uma ducha fria na cabeça de Anselmo e Beatriz, pois esta era uma situação que eles não conheciam na realidade dos sonhos; era, portanto, uma nova e perigosa situação a ser vivida e a mulher estava sendo clara e objetiva naquele momento.

    — Você deveria ter me alertado sobre isto. Se eu soubesse que haveria a possibilidade de acontecer qualquer mal a Bia, eu jamais teria vindo pedir sua ajuda. Eu não tinha idéia de que uma coisa dessas pudesse acontecer.

    — Existem muitas coisas que vocês dois ainda não sabem sobre os sonhos. Mistérios que vão muito além da compreensão humana. Saibam que essa interligação não é só feita para se fazer uma viagem entre os planos físico e espiritual. Ela é bem mais complexa. A interligação é um ritual místico que só poder ser realizada se as pessoas que a fizerem tiverem se amado muito e estejam dispostas a dar sua própria vida um pelo outro.
    Anselmo olhou para Beatriz que abaixou a cabeça. Ambos ficaram calados e a mulher prosseguiu:

    — Tenho certeza de que vocês não sabiam disso.

    — Então, fale sobre o que pode acontecer, por favor. — Pediu Beatriz.

    — A partir de agora vocês terão vários ciclos de sonhos, com um determinado tempo. Se não encontrarem Shamonthi antes que eles terminem, a sua morte será certa. Lembrem-se que existe um elo muito forte entre seus espíritos.

    — E como poderemos saber quanto tempo nos resta em cada sonho? — Indagou Anselmo.

    — Vocês logo saberão. É fundamental que se lembrem sempre de usar o conhecimento que adquiriram durante as suas vidas física, mental e espiritual, pois será de fundamental importância para as viagens que vocês farão. Devem observar tudo ao seu redor. As coisas mais simples e evidentes podem, às vezes, se transformar em algo bem complexo quando não usamos o bom senso e a calma para entendê-las. A busca do Shamonthi não será fácil. Só os verdadeiros merecedores poderão encontrar esta dádiva.

    — E quantos já o encontraram? — Perguntou Beatriz. A mulher olha para ela, elevando as sobrancelhas e num tom sério responde:

    — Ninguém até hoje o encontrou.

    Anselmo e Beatriz olharam-se assustados. A cada palavra dita pela mulher, suas preocupações cresciam mais. Estavam descobrindo a cada instante que o pouco que sabiam sobre o mundo dos sonhos era nada, comparado com os novos mistérios que poderiam surgir naquela viagem. Anselmo resolveu questionar ainda mais a mulher.

    — Eu gostaria de saber por que me foi dada uma chance de procurar o Shamonthi.

    — O Universo provém de uma grande fonte de energia — disse a mulher — que se expande, a cada momento, em ciclos infindáveis. Enquanto estamos conversando agora, ela cresce mais e mais. Tudo que existiu, existe e que ainda existirá, tanto no plano físico como no espiritual, tem uma razão de ser, pois essas duas coisas estão intimamente ligadas. Nada acontece por mero acaso do destino. Você, Anselmo, percebeu isso há algum tempo. Ao captar uma coisa tão simples e evidente, porém de extrema importância para a existência de todos os seres humanos, foi-lhe concedido o direito de tentar renovar a sua vida por mais algum tempo na Terra. O Shamonthi é apenas uma pequena fração dessa grande energia. Se você for realmente merecedor de encontrá-lo, ele não só salvará a sua vida como dará início a uma série de novos acontecimentos.

    — Mas, é tão lógico perceber que cada um de nós não está aqui por acaso! Então, muitas pessoas já tiveram a oportunidade de procurar o Shamonthi ?

    — Não foram tantas assim. Nos últimos séculos a maioria das pessoas tem se esquecido de observar e apreciar as coisas mais simples da natureza, tais como o céu, o mar, as flores, os animais e até as próprias pessoas. Neles é que estão as mensagens de sabedoria da vida. As pessoas se encontram num período de trevas e temem tanto o amor que se esquecem que elas próprias são responsáveis pela sua própria felicidade. A busca do Shamonthi só é concedida àqueles que querem encontrar a realidade de seus verdadeiros sentimentos. É uma chance dada para que alguém o encontre e possa levar a sua luz até esta escuridão que existe dentro da maioria das pessoas. Quando alguém conseguir liberar esta energia, estará ajudando toda a humanidade a reencontrar o equilíbrio necessário para que seus espíritos comecem a viver em harmonia em cada um dos planos.

    — E o que eu tenho de especial?

    — Todo ser humano, Anselmo, assim que é concebido, se torna especial. É uma vida que vai brotar e com ela a esperança de uma nova luz para o planeta. Você não é melhor do que qualquer outra pessoa.
    Anselmo abaixou a cabeça com as palavras proferidas pela mulher. Ficou sem graça, embora em nenhum momento tenha passado por sua cabeça a intenção de parecer, ou ser, melhor do que outra pessoa. Mas a mulher sabia disso e falou:

    — Aliás, ninguém no mundo é melhor do que o outro. Mas, ser especial é descobrir as coisas boas que existem dentro de si mesmo e das pessoas que nos cercam. É colocar os próprios dons a serviço daqueles que necessitam deles. É praticar o bem, sem ver a quem. Ao fazermos isto somos especiais, e perceberemos que temos dons específicos que fluem mais naturalmente. Devemos descobrir quais são estes dons, trabalhá-los e aprimorá-los cada vez mais, deixando que eles fluam pelo ar, para que possam se integrar à natureza da vida e, assim, despertar e transformar o espírito de outras pessoas. Poucos são os que usam bem seus dons. Qualquer pessoa que descubra estas pequenas verdades, terá a chance de, em seus últimos instantes de vida física, procurar o Shamonthi.

    — Me responda uma coisa. — Falou Beatriz que se mantivera calada durante a conversa.

    — Quem permitiu a Anselmo que ele procurasse esta fração tão poderosa de energia? Foi Deus?

    A mulher sorriu despretensiosamente e disse:

    — Eu lhe digo, Beatriz, que a resposta para essa pergunta está dentro do coração de cada homem, mulher e criança, que nascem, vivem e morrem no planeta Terra. Se acredita, com todo o seu coração, que existe um Deus por trás dessa situação, ele existirá; se não acreditar, ele não existirá.
    Anselmo e Beatriz estavam confusos, pois a mulher falava enigmaticamente, parecendo fugir das perguntas que eles faziam. Porém ela continuou:

    — É melhor pararem com tantas perguntas desnecessárias, pois o seu tempo é curto. Ouçam o que eu tenho a dizer.

    — Somos todos ouvidos. — Disseram Anselmo e Beatriz num só tom.

    — Para achar a luz da vida será preciso encontrar cinco chaves, muito especiais. Estas chaves unidas formarão uma única chave e ela abrirá o local em que se encontra guardado o Shamonthi.

    — Como iremos encontrar estas chaves? — Interrogou Anselmo.

    — Em seus sonhos. Vocês terão que descobrir a forma e o significado de cada uma delas. Elas não serão chaves comuns, terão formas bem diferentes do que vocês conhecem como chaves. Tenham muita atenção.

    — A cada palavra sua fico mais confuso. São muitos enigmas que teremos que desvendar. Cada vez que você se aprofunda em suas mensagens, menos eu entendo. — Comentou Anselmo cheio de dúvidas.

    — Eu também sinto a mesma coisa Anselmo. — Ratifica Beatriz.

    — Vocês estão se esquecendo de que isso é um sonho e cabe a vocês interpretarem as situações apresentadas. Daqui a pouco eu não poderei dizer mais nada. Serei apenas uma mera observadora, muda para qualquer questionamento que venham a fazer. Estas chaves estão ligadas com os nove dons e ao juntá-los vocês terão o maior de todos os dons. E somente ele pode abrir o local em que se encontra o Shamonthi. De agora em diante, a duração de seus sonhos será marcada por este medidor de tempo. Assim que esta fina areia passar deste vaso superior para o inferior, o sonho terá terminado.
    A mulher segurava em sua mão direita um instrumento pequeno, que era constituído por dois vasos cônicos de vidro e se comunicavam em seus pontos mais elevados por uma abertura estreita, por onde passava a areia, que brilhava intensamente, quando os raios de sol tocavam o objeto.

    — Mais uma coisa, — disse a mulher. — Cuidado com os guardiões dos sonhos! Alguns deles tentarão impedir, de todas as formas, que vocês encontrem o Shamonthi. Boa sorte!

    A mulher virou-se e dirigiu-se para o local de onde viera. Anselmo correu atrás dela e tentou fazer outra pergunta.

    — Espere! Quem são estes guardiões dos sonhos? Por que eles tentarão nos impedir de encontrar o Shamonthi? Precisamos saber mais.

    — Vocês encontrarão todas as respostas que procuram. Basta ter paciência. O meu tempo já se esgotou.

    A mulher continuou a andar e inesperadamente parou. Virou-se ligeiramente na direção de Anselmo que vinha logo atrás dela e disse:

    — Mais uma coisa. Para conseguir liberar a força contida no Shamonthi, é preciso realizar os rituais mais simples do amor.

    De repente a mulher desapareceu, ficando suspenso no ar somente o instrumento de marcação de tempo que estava em sua mão direita. Ele mostrava que aquele sonho estava acabando.

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