Domingo 8/09
Tomei o primeiro porre de
civilização . Chegar a Pamplona é como ir para o bar Lagoa no Rio, sabendo que vais
tomar alguns chopps e ver o mundo mais feliz.
A chegada teve água no
chopp, estava chovendo, mas mesmo assim fui tomando o ar de civilização aos
poucos. Primeiro aquela estrada lisinha, super sinalizada, depois os prédios baixos
com jardineiras floridas. Aí a cidade velha, o centro a plaza de toros , tudo
brilhando.
Pedro o taxista foi me pegar
na porta do Hotel Perla para levar a Saint Jean Pied-du-Port, local da partida. Com a bike e as três malas não coube mais nada no velho Citroen.
Basco sisudo porém
comunicativo, um tipo , fui
logo perguntando sobre o movimento separatista basco. A resposta foi seca.
"Yo no soy
espanhol, soy basco e no quiero ser espanhol". A coisa é mais profunda. Guernica
foi bombardeada impiedosamente por Franco e isto marcou fundo. Mal
comparando seria como se Salvador fosse atacada pelos gaúchos e não sobrasse
pedra sobre pedra. Mal comparando mesmo, claro. Não querem saber de estar de
baixo do mesmo estado. A lingua é diferente e os costumes também. Mas isto
pensam também os catalões, os galegos e por aí vai. Chegamos às 8 horas depois de
muitas curvas nos Pirineus, com uma surpresa visual atrás da outra. Aquelas
cidadezinhas lembram os filmes de guerra quando os nazistas entravam com aqueles
jeeps e tomavam conta de tudo. E o palco de uma dessas histórias foi lá mesmo
. Vi dois desses jeeps antigos num
estacionamento e pintados novinhos. Aquelas moradias de 300 anos , casa
de pedra, em cima os aposentos, embaixo o estábulo com a vaca para tirar o
leite , o carneiro, as galinhas
, o cavalo da familia.
Em Saint Jean entramos por
uma cidadela , fortificação de 1000 anos. A cidade tem 2000 anos . Pelas ruas
estreitas, Pedro parou no numero 15. Pensão caseira (E$ 24) . As portas , piso de
taboas fazendo barulho, as chaves do tamanho da minha mão, com os azulejos iguaiszinhos
aos do Brasil para piso e parede, contrastam entre 100 anos contra dois ou
três. No quarto muito simples, porém de uma limpeza esquizofrênica,
fui brindado assim que cheguei por um badalar de sino ao longe , de não sei
onde na cidadela. Aqueles sinos anunciando mais uma execução no silêncio
profundo (sinistro !). Estou no clima finalmente.
Debrucei minha bagagem e sai
voando para comer alguma coisa. Aqui tudo tem horário, mas deu pra ver as
primeiras figuras , figuraças : caras de bárbaros, asterix . Na Espanha os
homens tem aquele lábio cujo final acaba para baixo de mal humor e na França as caras de masmorra nunca mais. Outros tem cara de Alain Prost, aquele
narizinho, aquele queixinho chinfrim. Esses franceses e francesas maravilhosos
de qualquer jeito.
Na taberna não entendi uma palavra, estava
escrito em basco. Pedi uma bisteka depois de pelejar um pouco com a garçonete
que parecia um menino. Ágil como um executivo da Salomon Brothers, precisa, séria, correndo , pro um lado e outro dando informações aqui e ali, que coisa
! Cada mulher de meter medo, naquele escuro então... Brutas ou delicadas com
cara de menino mal encarado. Um show, se tivesse mais um brasileiro ali
ia me divertir um bocado. Mas naquele momento quem estava se divertindo eram
eles me vendo ali, aquela figura diferente.
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