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Dia 18/9 Villafranca - Sarria Ai vem o temido Cebreiro, uma subida de 15 km, motivo de lamento para todos. Para minha surpresa não foi nada disso. A cada km olhava pra cima e me perguntava será nessa curva a hora de empurrar a bike ? Onde estará a rampa devoradora de ciclistas ? Nenhum ciclista em sã consciência quer descer de sua bike. É como uma prova interior de incapacidade. É uma das nossas beiradas, do limite. Estamos sempre testando esses limites.E como são boas essas vitórias contra ninguém, senão nós mesmos. Vou tentanto manter o máximo de sobriedade nesse assunto, para respeitar , com folga o meu limite. Se tiver que descer , vou fazê-lo e empurrar na boa. Mas os fatos foram diferentes, pior para os fatos, como diria tio Nelson (Rodrigues). Estava razoavelmente me sentindo bem treinado e nem precisei dar tudo o que podia. Nesse particular quem mora no Rio de Janeiro tem boa vantagem. Além da beleza bucólica tem muita rampa de respeito no coração da floresta e no meio da cidade. Um aspecto não combina. De bike continuo encontrando os felizes brasileiros sem poder parar para um diálogo. Sem uma conversa chula, sem nada. Só no fim do dia , nos albergues. Mas é pouco, porque sou dos últimos a chegar e não dá tempo prá mais nada, tomar banho , comer, dormir. As cenas agora se repetem, Caminho, área rural, vacas saindo dos estábulos , empurradas pelo pastor . Eles conversam com as bichinhas e parecem entender aquele código indecifrável. Xingam também, porque "puta" é puta em qualquer lugar e isso deu para ouvir bem. Pueblos , vilas fantasmas, não consigo imaginar a amargura nos meses de inverno. Depois de mais down-hill pelo Caminho , já sem chuva continua e de terra boa, surgem novamente os caminhos empedrados. Ai não tem jeito, vamos levar a bike para passear . Chego finalmente a Galícia. Galegos povoam o Brasil como donos de padaria , hotéis e restaurantes e poucos aqui sabem disso. Passo pelo alto do Cebreiro direto, procurando ainda, meio cretino , a tal subida assassina. Não existia, assim como a maioria de nossos temores diários. Agora chove pelo menos 10 vezes durante o dia. Nem Noé permaneceria crédulo com tanta indecisão dos céus. Ou chove ou não chove...
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