
José Brites Neto

ESPERANÇA CABOCLA
Jupará galhofeiro menino,
Aqui nesta mata está seu destino.
Curumi arteiro mergulhando no igapó,
Como um bicho-carpinteiro que em todos dá nó.
Cunhantã de rebeldia tão preguiçosa,
Só aqui neste lugar tem morena tão formosa.
Bebem no leito amazônico, o caldo do tacacá,
Pois saídos desta margem, não acharão em nenhum lugar.
Comendo do açaí com farinha do ariní,
Um precioso tesouro que só conhecerão aqui.
Cunhã-poranga despertando sua sensual magia,
Só com carapanaúba para dar conta deste dia.
Olha a lenda do boto menina!
Embriagados pelo vinho do delicioso buriti,
Mordiscando sorridentes maris e bacuris.
Aqui não tem beberragem, só caldo de caridade,
Cura tão enfermeira para qualquer tipo de maldade.
Na seiva amargosa da lenha do amapá,
Está a lei da sobrevivência que nunca faltará.
Mangarataia limpando a voz do que quer gritar,
Curupira tentando ao menos despistar,
Mas só Deus Pai poderá nesta hora evitar,
Que a minha Amazônia possa um dia se acabar!
Copyright by José Brites Neto
LENDAS SEM ESCOLA
Uirapuru cantou na mata ardente,
Parece querer anunciar que está mais quente.
Manati bubuiou prá respirar,
Conversa miúda com o boto cor de rosa,
Tempo bom quando era possível tal prosa,
Em que não havia homem a escutar.
Pirarucu não salta mais nos remansos de agora,
Que saudade da lança cabocla de outrora,
Hoje tem rede no igapó a toda hora.
Cadê a pintada a esturrar noite afora,
Será que estou surdo ou ela foi-se embora?
Mapinguari, curupira são lendas sem escola,
Videogame, internet são ledices de agora.
Cobra grande ficou encruada na memória,
O que será deste povo sem as suas tantas histórias?
Lamento triste ressecado por uma jiquitirambóia.
Nem guariba, nem cuatá murmuram mais neste lugar,
O jacaré saltou de banda e levou o mata-matá.
Nem piranha habita mais neste lago de fome,
Ouço alguém perguntar: "Como era mesmo o seu nome"?
Anavilhanas, pantanais, redutos que jazem solenes,
Nos resta saber até quando suas almas ficaram perenes,
Resistirão até quando a esta raça tão indene?
São perguntas mal respondidas na memória reticente,
De florestas derrubadas pela ambição de um mal inconseqüente.
Copyright by José Brites Neto
CLAMOR DA FLORESTA
Como grumos de um ritual cataléptico,
Que anuncia uma premeditada sina.
De uma ambição capital e espoliante,
Que urge como uma ameaça à natureza exuberante.
Cujas trilhas e caminhos descansam encobertos,
Preservando a riqueza de um lastro néscio.
Aqui não tem lugar para teus pastos e emplastros,
Homem sequioso e formador de desertos!
Não deflores a virgem mata neófita,
Ó filho das trevas e de incesto objetivo.
Pois tua mãe reclama a autoridade,
De porvir em teu coração, menor maldade.
Fazer nascer em ti, mais maturidade,
Para que possas entender este manancial de vida.
Que renegas como um filho desta pátria parido,
Pois deste útero, não fostes cuspido.
Peço que ouças o esturro desta floresta ao teu ouvido,
Com a solidez com que a pintada anuncia.
Acho que o peixe-boi também se aproxima,
Vem reclamar da tua tirania.
Tantos sonetos neste cenário que agoniza,
Enquanto tua alma pelo poder se privatiza.
Sintas o cheiro de cio presente em tuas narinas,
De vidas que querem permanecer em liberdade vívida.
Permitas o cintilar desta aquarela pulsante,
Entremeada nesta predominância verdejante.
Por onde passeia brincante uma macacada infante,
No estribilho do gorjear de uma passarada festejante.
Como podes, homem, ser tão obtuso e renitente,
Insensível indiferença a uma paisagem tão envolvente.
Não te vendas à cobiça de um povo estrangeiro,
Pois não há valia neste vil dinheiro.
Sejas menos compassivo e hospitaleiro,
Com quem quer te tornar num ardiloso espinheiro.
Não firas a tua própria dignidade,
E sejas nesta hora um brasileiro de verdade,
Pois só assim poderás viver a minha eternidade.
E quão bom que eu fosse tão eterna,
Que não lograsse nunca, que ficasse tão deserta.
Como um triste Saara, sem vida e sem qualquer fim,
Que meu Deus nunca permita que tu, homem, me faças assim!
Copyright by José Brites Neto
MATER AMAZÔNIA
Verde quinhão deste planeta estância,
Esperança fértil de nossa sobrevivência,
Teus mutiladores de vida jorram em abundância,
Maltratando tua foz por uma maldita ganância.
Complacente, aguardas uma definição,
Resistindo à violência de tua penetração,
Na virgindade de teu seio de equilíbrio e mansidão,
Perdoas a ignorância de nossa falta de razão.
Quantos genomas perpetuam a tua dignidade?
Quantas vidas resistem a nossa perversidade?
Como um tesouro aparente de divina eternidade,
És o celeiro que demarca a nossa longevidade.
Mãe Natureza, de nosso Pai Eterno e Criador,
Cuida de teus filhos que só aprendem pela dor,
Herança rebelde que não respeita, nem tem amor,
Que agoniza em nossos dias, pelo seu próprio terror.
Copyright by José Brites Neto
PALMAS DE MINHA TERRA
Buriti doce palmeira,
De amargo fruto e doce sabor,
O teu vinho me embriaga,
Como a morena fazendo amor.
Açaí doce escarlate,
És mais puro que a erva-mate,
Tão forte como um rubro estandarte,
Da pobreza és o vigor.
Patauá de altiva magia,
Frágil semente sem frescor,
O teu bálsamo é alegria,
O teu tempero é resplendor.
Palmas de encanto da minha pátria,
Verde e solene magia, que não tem fim,
Do solo infértil, cresceis espraiada,
Na Amazônia sois bosques, sois jardins.
Copyright by José Brites Neto
VITÓRIA RÉGIA
Flutuando no espelho de águas límpidas e cristalinas,
Com a leveza de uma pluma perdida em alta floresta,
Exuberante como o poder sensual de morenas meninas,
Exalando um perfume que só seu calor manifesta.
Num emaranhado de cores de predominância verde,
Emergente como uma rainha altiva em berço esplêndido,
Com sua flor escarlate tão frondosa e atraente,
Hipnotizando minha alma como um alvo lânguido.
Um esconderijo sombrio de predadores em cena,
Na espreita sutil de uma inocência perdida,
Com uma beleza latente cujo sorriso acena,
O golpe fatal culminante de uma letal investida.
No harmonioso domínio do reino da floresta amazônica,
Uma simplicidade majestosa de resistência férrea,
O amor condizente e fugaz de uma paixão platônica,
Como a marca registrada de uma vitória régia.
Copyright by José Brites Neto
ONÇA PINTADA
Seguindo um instinto primitivo nesta floresta exuberante,
Senti um olhar a me espreitar num ímpeto de predação,
Como que estudado por um desejo ávido e distante,
Me senti perturbado e movido por uma estranha atração.
No adensar verdejante da escuridão à luz do dia,
Um cheiro forte atraiu e distraiu minha atenção,
Como que num impulso percebi a armadilha,
De uma emboscada sutil de amor e paixão.
No tremular da folhagem como um vulto que passa,
Pressenti a proximidade de um sinal de extermínio,
Atordoado e indefeso como a próxima caça,
A saciar tua vontade de pleno poder e domínio.
De um vôo repentino apareces majestosa,
Com um brilho no olhar que me imobiliza,
Ouço o esturro de prazer de uma fêmea formosa,
Como o prelúdio de amor que teu golpe eterniza.
Copyright by José Brites Neto
Vivemos tempos difíceis, onde a irresponsabilidade de desmandos de governos tecnocratas ameaçam o único patrimônio de valor incomensurável para o Brasil.
José Brites Neto
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