Espiritismo 
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Era eu ainda um rapaz de doze primaveras quando, solícito com alguém que ansioso investigava os mistérios do mais além, me propus também a inquirir, indagar, investigar no terreno inquietamente do espiritismo.
 
Então, com a constância de clérigo na cela, estudei inumeráveis obras metafísicas.  Não é demais citar autores como Luis Zea Uribe, Camille Flammarion, Kardek, Léon Denis, César Lombroso, etc.
 
O primeiro de uma série de Kardek certamente me pareceu muito interessante, mas tive que relê-lo três vezes, com ânimo indiscutível de compreendê-lo integralmente.
 
Depois, convertido realmente um verdadeiro rato de biblioteca, confesso, com franqueza, sem rodeios, que me apaixonei pelo Livro dos Espíritos, antes de seguir com muitíssimos outros volumes de enxundioso conteúdo.
 
Com mente impenetrável para qualquer outra coisa que não fosse o estudo, encerrava-se muito longas horas dentro de minha casa ou na biblioteca pública, com o anelo evidente de buscar o caminho secreto.
 
Agora, sem me presumir de sábio, sem vanglória alguma, só desejo, neste capítulo, dar a conhecer o resultado de minhas investigações no terreno espiritista.
 

MÉDIUNS

Sujeitos passivos, receptivos, que cedem sua matéria, seu corpo, aos fantasmas metafísicos da ultratumba.
 
É inquestionável que o carma da mediunidade é a epilepsia.  Obviamente, os epilépticos foram médiuns em suas vidas anteriores.
 

EXPERIMENTOS

1- Certa dama, cujo nome não menciono, via constantemente o fantasma de uma mulher falecida.  Este último lhe dizia ao ouvido muitas coisas.
 
Em solene sessão espírita, caiu a drama em transe.  O fantasma obsessor indicou á citada médium escavasse em determinado lugar da casa, pois ali – foi-lhe dito – encontraria um grande tesouro.
 
Seguiram-se as indicações do fantasma.  Desafortunadamente, o tesouro não foi encontrado.
 
É inquestionável que essa fortuna era somente uma simples projeção mental da psique subjetiva dos assistentes.  Obviamente, essas pessoas resultavam, no fundo, muito cobiçosas.
 
2- Além do tempo e da distância, muito longe desta minha querida terra mexicana, tive que me internar no estado de Zulia, Venezuela, América do Sul.
 
Hóspede do meu anfitrião, em sua campestre morada, devo asseverar que, por aqueles dias, fui testemunha presencial de um acontecimento metafísico insólito.
 
Convém ratificar, para o bem dos meus leitores, que meu citado anfitrião era, for a de toda dúvida e dito sem rodeios, um personagem demasiado humilde, da raça de cor.
 
É inquestionável que aquele bom senhor, por certo muito generoso para com os necessitados, gastava com o saleiro de sua propriedade em ricas comilanças.
 
Residir no hotel entre gente culta ou ressentir-se contra alguém por algum motivo era, para esse bom homem, algo impossível.  Certamente, preferia resignar-se à tarefa, com sua sorte, nos duros infortúnios do trabalho.
 
Folgo ao dizer, com eloquência, que aquele cavalheiro de outrora parecia ter dom da ubiqüidade, pois era visto por toda parte, aqui, lá e acolá.
 
Qualquer noite dessas tantas, esse distinto cavalheiro, com muito segredo, convidou-se para uma sessão de espiritismo.  Eu de modo algum quis declinar convite.
 
Três pessoas, reunidas sob o campesino teto de sua fazenda, sentamo-nos ao redor de uma mesa de três pés.
 
Meu anfitrião, cheio de imensa veneração, abriu uma pequena caixa que jamais abandonava em suas viagens e dela extraiu uma caveira indígena.

Posteriormente, recitou algumas famosas preces e clamou com grande voz, chamando o fantasma do misterioso crânio.
 
Era meia-noite.  O céu estava encoberto por negras nuvenzonas que, sinistras, perfilavam no espaço tropical.  Chovia, e trovões e relâmpagos faziam estremecer comarca.
 
Estranhos golpes foram sentidos no interior do móvel e logo, definitivamente violando a lei da gravidade, como que zombando dos velhos textos de física, a mesa levantou-se do piso.
 
Depois, veio o mais sensacional.  O fantasma invocado apareceu no recinto e passou junto a mim.
 
Por último, a mesa se inclinou para o meu lado e a caveira que sobre este móvel se encontrava veio pousar em meus braços.
 
“ Já basta! Exclamou meu anfitrião.  A tempestade está muito forte e, nessas condições, tais invocações resultam muito perigosas.” Nesses instantes um trovão espantoso fez empalidecer o rosto do invocador.
 
3- Perambulando, certo dia, por uma dessas velhas ruelas da cidade do México, D.F., movido por uma estranha curiosidade, tive que penetrar, com outras pessoas, num antigo casarão, onde, para o bem ou para o mal, funcionava um centro espírita ou espiritualista.
 
Delicioso salão extra-superior com muitas campainhas e com bastante gente emotiva, delicada e de marca maior. 
 
Sem pretender de modo algum, expor-se a um risco, muito respeitosamente tomei assento frente ao estrado.
 
Empapar-me nas doutrinas dos médiuns espíritas, discutir ou começar a arrojar maldade em termos amistosos e com fingidas mansidões e poses pietistas, certamente não foi meu propósito ao entrar em tal recinto.
 
Só queria tomar nota de todos os detalhes com flexível entendimento e singular prudência.
 
Ensaiar-se a orar no falar para recitar em público, preparar-se com antecedência, certamente é algo que está em todo tempo excluído da mentalidade espiritista.
 
Paciente, a sacra confraria do mistério aguardava, com anelo místico, vozes e palavras surgidas da ultratumba.
 
Independente dos demais em seus diagnósticos, idôneo para algo bem nefasto, um cavalheiro de certa idade cai em transe.  Convulsivo, estremece como qualquer epiléptico, sobe à tarina, ocupa a tribuna da eloquência e toma a palavra.
 
“ Aqui, entre vós, Jesus de Nazaré, o Cristo!”.  Exclama, com grande voz, aquele infeliz possesso.
 
Nesses instantes aterrorizadores, vibra, horripilante, a tarina engalanada com círios e flores – o altar dos Baais – e todos os devotos caem por terra, prosternados.
 
Eu, sem querer perturbar no desempenho a ninguém, serenamente me dediquei a estudar o médium com meu sexto sentido.
 
Traspassado de angústia, pude verificar, certamente, a crua realidade daquele insólito caso metafísico.  Obviamente, tratava-se de um impostor sinistro e esquerdo, que explorava a credulidade alheia, fazendo-se passar por Jesus Cristo.
 
Com  meu sentido clarividente observei um magro negro, ataviado com vermelha túnica cor de sangue.
 
O técnico fantasma, metido no corpo físico do médium, aconselhando os consulantes, procurava falar com tom jesuscristiano, a fim de que os fanáticos aqueles não o descobrissem.
 
Concluída aquela horripilante sessão, retirei-me do recinto com ardente desejo de não regressar jamais ali.
 
4- Viver prazeirosamente, com sua família, de favor, em paz para trabalhar, por obra da magia, sobre a terra, é certamente algo muito romântico.
 
Entretanto, lançar-se a riscos costuma, ás vezes, ser indispensável quando se trata de procurar para os demais todo o bem possível.
 
Flanqueado de muralhas intelectivas, quis florescer em sabedoria e, sem desfalecer de forças, viajei, muito jovem, por diversos lugares do mundo.
 
Além do tempo e da distância, na remota longitude de uma comarca sul-americana, conhecida popularmente com o típico nome de Quindío, muito flexível ao entendimento, tive de me relacionar com um médium espírita que trabalhava com ferreiro.
 
Sem se misturar jamais em discussão alguma, aquele operário trabalhava tranqüilo na sua avermelhada forja.
 
Estranho ferrador espírita, místico senhor de bronzeada figura, atlética personalidade cenobita.
Valha-me Deus e Santa Maria! Eu o vi em sinistro e esquerdo transe mediúnico, possuído por Belzebu, príncipe dos demônios.
 
Ainda recordo aquelas palavras tenebrosas com as quais o poder das trevas fechara a sessão: “ bel tengo mental la petra y que a él le andube sedra, vao genizar le des.” Logo firmava Belzebu.
 
Ferreiro, paradoxal anacoreta.  Arrependido o encontrei no dia seguinte do esquerdo conciliábulo espírita.  Então jurou solenemente, em nome do eterno Deus vivente, não voltar a emprestar seu corpo físico ao horror das trevas.
 
Algumas vezes o surpreendia em sua frágua, consultando muito sinceramente o devocionário espírita de Kardek.
 
Posteriormente, este cavalheiro de outrora convidou-me, cheio de místico entusiasmo, para outras tantas exaustivas sessões mediúnicas, onde, com ânsia infinita, evocara João Furtado, o Maior.
 
Sem exagero algum, para o bem dos meus amados leitores, devo agora asseverar, oportunamente, que o citado fantasma, falando com a língua do médium em transe, vangloriava-se de se poder manifestar através de cento e cinqüenta médiuns de forma simultânea.
 
Concluir com um discurso ( a alguém), rápido, em consonância, é certamente muito normal.  Porém, pluralizar-se em cento e cinqüenta discursos simultâneos diferentes, pareceu-me, naquela época, algo assombroso.
 
É inquestionável que por aquela época da minha vida, ainda não havia analisado o tema esse da pluralidade do eu, do mim mesmo.
 

O EGO

Sem querer estender-me, inusitadamente, em digressões de nenhuma espécie, enfatizo, muito sinceramente, aquilo que de forma direta tenho experimentado plenamente.
 
O citado ego obviamente carece de todo aspecto divinal, autoenaltecedor e dignificante.
 
Permita-se nos a liberdade de dissentir daquelas pessoas que pressupõem a existência de dois eus: Um de tipo superior, outro de classe inferior.
 
Certamente e em nome de verdade, certificamos, sem incongruência alguma, o tremendo realismo bem informado de que somente existe, em cada sujeito, um eu pluralizado e terrivelmente perverso.
 
Esta convicção profunda se afiança na experiência vivida pelo autor do presente tratado esotérico.
 
De modo algum necessitamos exteriorizar idéias imaturas.  Jamais cometeríamos o desatino de asseverar utopias descabeladas.
 
Nossa asserção tem muito abundante documentação em todos os livros sagrados dos antigos tempos.
 
Como exemplo vivo de nossa assertiva, não é demais recordar as cruentas batalhas de Arjuna contra seus amados parentes (os eus) no Bagavad- Gita ( O Canto do Senhor).
 
Ostensivelmente, tais agregados psíquicos subjetivos personificam, evidentemente, todo esse conjunto de defeitos psicológicos que levamos dentro de cada um de nós.
 
Em rigorosa psicologia experimental, resulta patente o engarrafamento da Consciência dentro de tais eus subjetivos.
 
Isso que continua além do sepulcro é, pois, o ego, um montão de eus-diabos, os agregados psíquicos.
 
Resulta palmária e manifesta a identificação de tais agregados psíquicos nos centros espíritas ou espiritualistas.
 
É notório e evidente que esses eus-diabos, devido à sua multiplicidade, podem entrar em muitos corpos mediúnicos – como no caso de João Furtado, o Maior – para sua manisfestação.
 
Qualquer mestre do Shamadi poderá evidenciar claramente, em estado de êxtase, o seguinte: Aqueles que através dos médiuns espíritas se manifestam certamente não são as almas nem os espíritos dos mortos, senão os eus-diabo destes últimos, os agregados psíquicos que continuam além da fossa sepulcral.
 
Foi-nos dito, com muita ênfase, que, durante os estados “postmortem”, continuam os médiuns convertidos em possessos do demônio ou dos demônios.  É inesquecível que, depois de certo tempo, concluem se divorciando do seu próprio Ser Divinal; então ingressam na involução submersa dos mundos infernos. 
 
 

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As Três Montanhas

Samael Aun Weor

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