O Céu de Marte
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O Quinto Trabalho de Hércules, o herói solar, foi a caça e destruição das aves antropófagas que, tenebrosas, habitavam as lagoas de Estinfálide e matavam os homens com suas bronzeadas plumas que, à maneira de flechas mortíferas, laçavam contra suas indefesas vítimas. 

Ostensivelmente, este labor se acha intimamente relacionado com a constelação de Peixes, casa de Netuno, o senhor da magia prática. 

Inquestionavelmente, essas aves antropófagas são as cruéis harpias citadas por Virgílio, o poeta de Mântua... 

Para o bem da Grande Causa, pela qual todos nós, os irmãos do Movimento Gnóstico, estamos lutando, vou transcrever, agora, alguns parágrafos de A Eneida... 

“Aproximamo-nos das ilhas Estrófades que se encontravam no mar Jônio e nas quais habitam as imundas harpias (bruxas horripilantes, jinas negros), monstros com cabeça e pescoço de mulher, que eram antes formosas donzelas, porém, agora estão transformadas em Fúrias e seu contato corrompe quanto toca. Capitanei-as a execrável Celeno; e, providas de longas garras, têm sempre no rosto a palidez da fome. 

Sem pensar nelas, aportamos naquela terra, e, apenas desembarcados, encontramos um rebanho de vacas formosas e reluzentes que estavam pastando sem que ninguém as cuidasse. 

Famintos como estávamos, não tardamos em sacrificá-las para saciar o nosso apetite com sua carne fresca. Porém, quando estávamos no melhor do banquete, baixaram dos montes as harpias (bruxas), grasnando como corvos e batendo as asas, e aproximaram de nossa comida suas bocas imundas. 

A carne arruinou-se e o fedor infestava o ar. Então acreditamos que nos seria impossível fugir delas e mudamos de lugar, refugiando-nos perto de umas cavernas afastadas da praia. Porém, pela segunda vez, quando nos dispúnhamos a comer, depois de sacrificar novas reses, voltaram aqueles monstros (aquelas aves antropófagas) e nos estragaram de novo o alimento. 

Cheios de coragem, meus homens se dispuseram ao ataque e armaram arcos e azagaias para exterminar tão horríveis seres. Porém, sua pele não se deixava atravessar pelo bronze e seus flancos eram invulneráveis. Então, a horrenda Celeno disse, gritando, enquanto revoluteava sobre nossas cabeças: 

“Por que nos fazeis a guerra, insensatos? Os deuses nos fizeram imortais. Não vos ofendemos sem justiça, porque vós sacrificantes muitas vacas de nosso rebanho. Em castigo, vou dar-vos uma maldição: Enéias e sua estirpe andarão errantes pelo mar, antes de encontrar a terra que buscam, e passarão fome. Não poderão alçar as muralhas de sua nova cidade até que, de tão famintos, se vejam obrigados a devorar suas próprias mesas.” 

Estas estranhas palavras nos encheram de consternação. Imprecando aos deuses para que apartassem de nós tais ameaças, abandonamos aquela triste terra e embarcamos de novo.” 

Até aqui este insólito relato oculista e esoterista. Continuemos, agora, com as explicações. 

Muitas destas harpias abismais, surpreendidas em flagrante, foram capturadas com certos procedimentos.
 

Algumas tradições antigas dizem: “Se pomos, no solo, umas tesouras de aço abertas em forma de cruz e se regamos mostarda negra ao redor deste metálico instrumento, qualquer bruxa pode ser apanhada.” 

Causa assombro que alguns oculistas ilustres ignorem que estas bruxas podem iludir a lei da gravidade universal! : 

Ainda que pareça inusitada a notícia, nós asseveramos, muito solenemente, que isto é possível, metendo o corpo de carne e osso dentro da quarta dimensão. : 

Não é de modo algum estranho que estas bruxas com seus zangões, metidas com seu corpo físico dentro da quarta vertical (o hiperespaço), possam levitar e viajar, em poucos segundos, a qualquer lugar do mundo. : 

E ostensível que elas têm fórmulas secretas para escapar fisicamente deste mundo tridimensional de Euclides. : 

Em termos estritamente oculistas, bem podemos qualificar estas harpias esquerdas e tenebrosas com o título de jinas negros, para diferencia-las radicalmente dos jinas brancos. : 

O organismo humano colocado dentro da quarta dimensão, a despeito de tudo o que diga a ciência oficial, pode assumir qualquer figura, trocar de forma... : 

Recordai, amados leitores, a execrável Celeno e suas imundas harpias, horrendos pássaros das ilhas Estrófades, no mar Jônio... : 

Uma tarde qualquer, não importa a data, nem o dia, nem a hora, sentado ao pé dos grandes, dentro de um vetusto calabouço, estudava uma obra esotérica... : 

O sol se ocultava entre os vermelhos incêndios do ocaso e a luz vespertina se desvanecia lentamente... : 

De repente, algo insólito sucede. Escuto, junto a mim, uma gargalhada estrondosa, sarcástica, burlesca, marcadamente feminina... : 

Trata-se de uma dessas aves antropófagas que habitam as lagoas de Estinfálide, uma feiticeira, uma bruxa de mas agouro, uma mulher de esquerdos conciliábulos... : 

A perversa foge e se esconde nas pavorosas trevas dos mundos infernos... : 

Assim se inicia meu intrépido descendo às estranhas vivas do reino mineral submerso marciano. : 

Antes de subir é indispensável baixar. Essa é a lei. A cada exaltação antecede uma espantosa e terrível humilhação. : 

Aniquilar dentro de mim mesmo esses elementos inumanos, bruxescos, essas aves de maus agouro, foi certamente, minha tarefa no tenebroso Tártaro. : 

Ainda que pareça incrível, pelo inusitado da notícia, é urgente saber que todos os seres humanos, sem exceção alguma, levam s em seus transfundos inconscientes variados elementos feiticeiros. : 

Isto significa que no mundo existem muitas pessoas que, sem sabê-lo, praticam inconscientemente a magia negra. : 

Inquestionavelmente, até os próprios santos santos de todas as religiões sofrem o indizível, quando se autodescobrem. Então podem verificar, por eles mesmos, o cru realismo desses elementos inumanos que ostensivelmente são obrigados a eliminar de sua psique. : 

Qualquer adepto, ou místico, ou santo, enquanto não tenha morrido radicalmente em todos e em cada um dos quarenta e nove departamentos do subconsciente, é mais ou menos negro. : 

Eis aqui um dos grandes motivos pelos quais não nos é dado condenar ninguém. “Quem se sinta limpo de pecado que arroje a primeira pedra.” : 

Naquela época da minha vida fui atacado incessantemente e de forma desapiedada pelas sinistras aves que habitam as lagoas de Estinfálide. : 

Nas mandingas, salões de tenebrosos conciliábulos dentro dos infernos marcianos, assombrado, descobri muitos irmãos da rochosa senda... : 

Tratava-se de agregados bruxescos, ostensivelmente ignorados por suas humanas personalidades. : 

Concluídos meus trabalhos nos abismos  minerais de Marte, ascendi, vitorioso, ao quinto céu, o mundo de Atman, a morada radiante da virtudes. : 

Assim foi como voltei ao céu de Marte. Então reconquistei meu lugar entre esses sublimes seres, posição divinal que outrora havia perdido. : 

O objetivo de meus trabalhos nos infernos marcianos, havia sido alcançado.Eliminados de minha psique os elementos inumanos, minha consciência ficava livre. : 

As grilhetas intelectuais tinham sido  aniquiladas. E minha Consciência liberada, fora já do horripilante calabouço da mente, onde por tanto tempo morava prisioneira, havia conseguido fusionar-se, mesclar-se com Atman, o Inefável, meu Real Ser. : 

Ah! Se as pessoas compreendessem o que é o calabouço do intelecto!... Se entendessem que vivem prisioneiras no cárcere da mente!... : 

Em completa bem-aventurança, como homem-espírito no céu marciano, longe do corpo, dos afetos e da mente, andava conscientemente qual uma ave de luz resplandecente, antítese radical dessas outras aves sinistras das lagoas de Estinfálide... : 

Em tais momentos de deliciosa bem aventurança, tive que passar junto a muitas obras simbólicas estruturadas em ferro puro. : 

É a região de Atman, o Inefável, o mundo do mais cru realismo, a dimensão das matemáticas. : 

No mundo tridimensional de Euclides, jamais percebemos um sólido de forma íntegra, unitotal. Aqui só vemos, de forma subjetiva, ângulos, superfícies, etc. : 
 

Entretanto, na brilhante região de Atman, não somente percebemos sólidos de forma íntegra com, ainda, hipersólidos, incluindo a quantidade exata de átomos que, em seu conjunto, constituem a totalidade de qualquer corpo. : 

Inquestionavelmente, no céu de Marte gozamos realmente de percepção objetiva mais completa. : 

Quão feliz me sentia nessa região das ditas infinitas! Entretanto, nem tudo na vida são festas; também existem sofrimentos. Tu o sabes... : 

A sede do Juízo Celestial, onde se administra a justiça objetiva, sempre intervém. : 

Um dia qualquer, feliz no mundo de Atman, veio a mim um juiz da lei de Katancia (o carma superior). : 

Ele se sentou ante uma mesa e eu, com muito respeito e veneração, tive então que responder de encargos. : 

 O senhor criticou a muitos em seus livros – disse Jerarca. : 

 Sou combativo por natureza – responde em forma enfática. : 

- Condenado a sete dias de prisão. (Tal foi a sentença). : 

Hei de confessar francamente, e sem rodeios, que, ao escutar a sentença, estive um pouco cínico. : 

Pareceu-me a questão esta um caso de polícia, como quando um rapaz briga com outro da mesma idade e o metem umas quantas horas no cárcere. : 

Entretanto, já em pleno cumprimento da sentença, senti que este castigo era terrivelmente doloroso. : 

Sete dias no horrível calabouço da mente  e depois de me haver emancipado... : 

 Sete simbólicos dias de amargura dentro do cárcere pavoroso do intelecto... : 

Ai!Ai!Ai!...

 

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Samael Aun Weor

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