|
Brognoli esclarece, muito
instrutivamente, até que extremo pode chegar a força de formação
de eus-diabos, pode se dizer já ideoplástica, ou seja, a representação
sexual, excitada pelo órgão sexual.
Havendo-me detido
em 1664, em Veneza, veio ver-me o Vigário Geral de um Bispado do continente,
para me pedir conselho sobre o seguinte caso:
Num convento de monjas
havia uma, muito dada aos jejuns e abstinências voluntários. A parte
deles era seu agrado e prazer a leitura de livros profanos que tratavam de transformações
como as efetuadas por Circe e outras encantadoras, ou bem pelas antigas divindades
que convertiam os seres em animais, aves, serpentes e espíritos.
Certa noite, apareceu-lhe
a figura de um moço extraordinariamente belo e, enquanto o contemplava
assombrada, lhe disse: Não temas, minha querida irmã!
Não és
tu aquela monja que gosta dos jejuns sobre toda medida? E não te entregastes
a eles de todo coração?
Pois hás de
saber que sou o Anjo chamado Jejum e venho a ti para agradecer-te e corresponder
com igual amor ao teu.
Antes fui filho de
um rei; porém, como em meus anos juvenis, nos que também tu te encontras,
amei e me entreguei, também, por inteiro ao jejum; meu pai se enojou muito,
renegando-me.
Mas eu, não
fazendo caso nenhum de suas admoestações, segui fazendo minha vontade
até que ele, cheio de cólera, me expulsou do palácio. Porém,
os deuses aos quais venerava, reprovaram tal repúdio e, acolhendo-me, transformaram-me
em anjo e dando-me o nome de Jejum, outorgaram-me também a faculdade de
adotar a forma de um jovem, na que me vês, e o dom de não envelhecer
nunca.
Estou, ademais, dotado
de tal mobilidade que, em tempo indizivelmente breve, posso transladar-me de uma
a outra parte do mundo, indo e vindo invisível, porém, mostrando-me
àqueles que me amam.
E, assim, havendo-me
manifestado os deuses que me destinaste todo teu amor, venho a ti expressar meu
agradecimento e para permanecer contigo e sertir-te em tudo, segundo teu gosto.
Por esta causa realizei
hoje a grande viagem; deixa-me, pois, dormir, esta noite, em teu leito, se te
apraz. Não temas a minha companhia, pois sou amigo da castidade e do pudor.
A monja, suavemente
comovida e seduzida por este discurso, admitiu o anjo em seu leito. A primeira
noite foi tudo bem; ele não se moveu. Porém, na segunda começou
a abraça-la e a beijá-la, em mostra de agradecimento e amor, não
se separando dela, nem de dia nem de noite, admoestando-a para que não
contasse o segredo jamais a seu confessor, nem a ninguém.
Servia-a com o maior
zelo e diligência e a seguia por toda parte. Por fim, no ano de 1664, ao
chegar a data do Jubileu, a monja foi assaltada pelo arrependimento e revelou
tudo a seu confessor; este lhe aconselhou que expusesse o assunto, em confissão,
também, ao Vigário Geral do Bispado, para que este provesse o adequado,
a fim de liberá-la do maligno. Assim, pois, aquele acudiu a mim em busca
de conselho.
Resulta palmário
que o espírito lascivo Jejum era um eu projetado tão vividamente
pela monja que parecia, certamente, ser uma pessoa diferente.
Tal eu é ostensível
que teve de gestar-se no baixo ventre da religiosa antes da inusitada projeção.
O olho mágico
do ventre, carregado de substância sexual, é um intermediário
plástico formidável.
Ali tomam forma todas as
ânsias sexuais reprimidas, todos os desejos insatisfeitos.
|