Sailor Moon VI
6
anos depois
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Uma semana se passara e Finna, após ter
ensinado diversas magias de proteção, resolvera começar a ensinar os ataques,
que, afinal, eram muito importantes. Tudo estava tão calmo... Tão tranqüilo...
Finna começava a pensar que não era natural gente tão jovem e elétrica estar
tão “sem problemas”.
“Bem,” começou Finna, “acho que está na hora
de vocês aprenderem ataques. Como dizem, às vezes a melhor defesa é o ataque.
Como tenho sido muito mandona e exigente nos últimos dias, vou deixar vocês
escolherem. Querem magias de fogo, água, ar ou terra?”
Houve um burburinho. Cada uma das quatro
Inner Senshi queria uma coisa, e Serena e Darien olhavam perplexos a discussão
das garotas. Artemis e Lua dormiam no sofá, esquentando-se ao fogo da lareira,
que agora ardia ininterruptamente.
“Ai, meu santo!” gritou Finna, “A gente
tenta ser boazinha, e o olha o que dá! Nem vocês se entendem!”
As quatro ficaram quietas, envergonhadas.
Darien e Serena também não concordavam, ele era água e ela fogo. Finna então
interrompeu, dissolvendo o impasse.
“Vamos lá pra fora,” e saiu andando, sendo
seguida por todos.
Estava um dia lindo. Havia algumas nuvens
brancas em contraste com o azul profundo do céu. Uma brisa suave soprava e o
sol aquecia tudo, deixando o ar levemente morno. A grama verdejante do jardim
de Finna parecia agradecer por esse dia.
“Como vocês não chegaram a um acordo,” disse
ela, parando de andar, “resolvi aproveitar esse dia lindo para mostrar os
poderes do ar.”
Todos ficaram quietos, esperando os movimentos
de Finna. Estavam curiosos para saber quais poderes ela lhes ensinaria.
Finna respirou profundamente e fechou os
olhos, dizendo, “O primeiro e principal passo da magia com o ar é senti-lo.
Vocês têm que sentir as rajadas em sua pele, o movimento de seus cabelos. Temos
que entrar em sintonia com a natureza, sentir que somos todos um corpo só.”
Agora Finna respirava em um ritmo contínuo, como que seguindo o compasso de uma
música. O vento soprava apenas quando Finna expirava.
“Agora as palavras. Elas só devem ser ditas
quando sentirem que estão em perfeita harmonia com cada átomo presente no ar.
Vou ensinar-lhes a frase que deve ser dita, mas prestem atenção que isso não é
uma regra. Quero dizer que não há necessidade de ser exatamente essas mesmas palavras,
só que no começo vocês não conseguirão ouvir a mensagem que o vento sopra,
então tenho que lhes dizer. Sim, pois quando avançarem na magia, ouvirão a
brisa sussurrando em seus ouvidos.”
Finna ergueu os braços, abaixando-os
lentamente em seguida. Repetiu o movimento por três vezes, mas ninguém notou
que isso fazia com que as nuvens se mexessem ao comando de Finna.
“Perturbare, obsequium quisnam dux ducium
ele. Nunc res regina immo ele.” (Ar, obedeça quem te comanda. Agora sou rainha
sobre ti.)
Finna agora parecia estar em transe, e mexia
os braços como uma dançarina de balé, com suavidade e destreza, certa do que
estava fazendo. O vento foi soprando com mais e mais intensidade, mudando de
direção a cada minuto, até que um pequeno tornado se formou entre Finna e eles.
Finna então abriu os olhos e, com um movimento brusco, direcionou o tornado
para uma moita de margaridas, que, em instantes, foi despedaçada.
“Uau!” gritou Serena, animada.
“Finna,” começou Ami, sempre analisando tudo
em seu cérebro hiperativo, “mas se demorarmos assim numa batalha, o inimigo
certamente nos pegará antes.”
“Há!” riu Finna com orgulho da perspicácia
de Ami, Mas essa foi só uma demonstração. Posso fazer isso em cinco segundos, o
tempo de pronunciar a frase.”
“E conseguiremos tal velocidade também?”
perguntou Lita.
“É claro,” disse Finna, olhando de soslaio,
“Por isso que começamos cedo. Vocês treinarão essa magia até sair perfeita e
cronometrada.”
“O quê?!” desesperou-se Mina, “O dia TODO?!”
“Isso mesmo. Começando já,” sentenciou
Finna.
O dia foi profundamente cansativo para
todos. No começo não foi nada fácil conseguir realizar a magia, mas Finna ia de
um em um, corrigindo e ensinando pacientemente. Ficaram espalhados pelo jardim,
cada um tentando se concentrar, sentir o vento. Serena foi a primeira a
conseguir dominar tal força da natureza.
“Finna! Consegui! Sinto o vento em minha
pele!” gritou ela.
Todos pararam o que estavam fazendo e olharam
atentamente para Serena. Finna chegou perto da loira, “Agora se concentre e
diga as palavras. Os movimentos devem surgir naturalmente.”
Serena assim o fez, perfeitamente. Só que
nem tudo são flores.
“Ah!!!!!!” gritava Rey, enquanto o tornado a
perseguia pelo jardim, “Eu vou te pegar, Serena! Eu vou te pegar!”
“Calma, Rey, foi sem querer...”
desculpava-se Serena.
Finna mandou Serena dizer meia dúzia de
palavras que ensinara às pressas e agiam como um contra-feitiço. Tudo então se
acalmou, mas Rey foi voando para o pescoço de Serena, sendo barrada por Darien,
que pedia calma. A morena logo desistiu de atacar Serena, aceitando suas
desculpas.
Assim foram se passando as horas, e as
meninas e Darien foram conseguindo realizar a magia, dominando seus poderes
cada vez mais. Depois do almoço, todos já tinham conseguido realizar o ataque,
de modo que pouco restava do jardim de Finna. Eles competiam agora para ver
quem marcava o menos tempo. Mina tinha empacado na marca dos dez segundo,
seguida por Rey com oito, Lita com sete, Darien e Serena com seis. Ami ainda
não tinha cronometrado o seu tempo.
“Pode marcar, Finna,” falou ela, de repente.
Para a surpresa de todos, Ami, a que até
aquele momento se mostrara a menos hábil para a coisa, marcou o tempo
surpreendente de quatro segundos. Mesmo Finna ficou estupefata. Todos decidiram
se recolher, já que a lua já estava alta no céu. Dentro de casa, Finna anunciou
a programação da noite.
“Bem, agora nós estudaremos latim. Como já
disse, para um bom bruxo o latim é crucial, e uma palavra errada pode trazer
efeitos indesejados.”
“Não acredito que depois de tanto cansaço
com aquela magia do tornado ainda vamos ter que estudar como nos tempos de
colégio!” exclamou Lita.
“Calma, pessoal,” disse Finna, “Não são
todos que vão ter que estudar...”
“Não?” estranhou Darien.
“Não,” confirmou Finna, “Como Ami marcou o
menor tempo, ela terá a noite livre.”
Um murmúrio de desânimo coletivo foi ouvido
na sala. Ami levantou-se da cadeira animada.
“Posso sair então?” perguntou ela.
“Pode... Mas tome cuidado.” falou Finna.
Ami pegou rapidamente sua bolsa e foi até a
porta, parando antes de girar a maçaneta. “Ummm...” disse baixinho ao olhar
para suas roupas e em seguida para o relógio.
“Pulchritudo, velius turpis, deludo visum!
(Beleza, esconda o feio, engane a vista!) disse Ami, agora usando um belo
vestido preto. Básico, mas adequado. E saiu pela porta.
“Ela aprende rápido, não?” espantou-se
Finna, ao ver que Ami lembrava da magia que ela tinha utilizado há uma semana.
Ela foi em direção ao porão, esperando ser seguida para a aula.
“Estranho...” murmurou Rey. “A Ami não
costuma gostar de sair assim...”
As meninas tinham ganhado uma “mesada” de
Finna para seus gastos pessoais, e Ami agora pegava uma nota para pagar o táxi.
Quando finalmente desceu do veículo viu para que prédio luxuoso ele tinha a
levado. Deveria ter mais de vinte andares, e a portaria era magnificente. Ami
entrou no hall e foi até o porteiro, colocando um cartão sobre o balcão.
“Sr. O’Donkel... Sim é aqui,” disse ele,
“Qual o seu nome, por favor?”
“Mizuno. Ami Mizuno.” Respondeu.
“Ah! Srta. Mizuno!” exclamou, mudando sua
expressão para uma menos desconfiada, “O Sr. O’Donkel deixou ordens para deixá-la
subir diretamente se aparecesse por aqui.”
“Hã.. Certo..” falou Ami, um pouco
desconcertada. Que atitude era aquela? Deixar entrada livre para um quase
desconhecida? Mas agora ia subir. Já tinha ido até lá mesmo...
Ami subiu até o décimo quinto andar, onde
ficava o apartamento de Yan. Tudo era muito luxuoso e brilhante, bem decorado.
Apertou a campainha e esperou. Um barulho contínuo vinha de lá de dentro, e
cessou com a campainha. Em um minuto Yan abriu a porta. Estava tomando banho,
de modo que tinha seu cabelo molhado e um toalha amarrada na cintura.
“Ami..!” disse ele, surpreso e feliz, não
acreditando que ela estava lá.
“Olá..” respondeu Ami meio envergonhada.
“Não acredito que você veio! Já estava até
perdendo as esperanças.”
“Eu disse que dava notícia, não?”
“Entre, Ami,” falou, dando licença para Ami
entrar.
O apartamento de Yan era lindo; claro, com
móveis de design arrojado, mas que não chocavam a vista. Tinha poucos enfeites,
um ou outro daqueles bichinhos de cristal, belos quadros na parede.
“Yan,” perguntou Ami, pasma, olhando para um
quadro que mostrava um campo de flores, “Isso é um... é um...”
“É um Monet,” completou, “Comprei num leilão
na Inglaterra.”
“Deve ter custado uma nota. Esse apartamento
também. Acho que estou falando com o herdeiro de uma grande fortuna, acertei?”
“Nã-não,” disse com um sorriso, “Meu pai tem
posses, mas não tanto quanto pensa. E tudo isso foi comprado com o meu próprio
suor.”
“E em que você trabalha?”
“Bem,” Yan ficou pensativo, escolhendo as
palavras cautelosamente, “Podemos dizer que trabalho para uma firma muito
grande...”
“Fazendo..?”
“Fazendo...” ele pensou mais um pouco,
“Eu... eu... encontro pessoas que estão sendo procuradas.”
“Nossa, nunca imaginei que isso dava dinheiro...”
“São muitos casos, a firma é grande,” disse
com informalidade, “Mas e você? O que faz?”
“Bem, eu estudo medicina,” falou Ami,
pensando que pelo menos é o que ela fazia há um tempo atrás, porque
agora as coisas tinham mudado um bocado.
A essa altura Ami já estava sentada, mas Yan
continuava de pé, observando o Monet. Ele olhou para si próprio e riu.
“Veja o meu estado! Isso é jeito de receber
uma dama? Molhado e com uma toalha na cintura?! Vou me trocar e já volto,
certo?”
Ami meneou afirmativamente, rindo do bom
humor de Yan. Enquanto ele se afastava para o quarto ela seguia seus
movimentos, deslumbrada.
“Não tinha percebido como ele é lindo...”
pensou Ami, entrando em seu mundo de devaneios, encostada no sofá,
“Encantador...”
“Ai ai...”
“Não é justo...”
“Nunca vou aprender isso...”
Era esse tipo de resmungo que se ouvia no
porão de Finna. Ela, como um cachorro bravo, ficava em cima das meninas senão
elas não estudavam. Finna tinha mandado elas pegarem os dicionários de latim e
fazerem listas das palavras chaves para magia, como ar, poder, divino... E
quaisquer outras que quisessem. Teriam que aprender o maior número de palavras,
para então não precisarem ficar decorando frases feitas para cada magia.
“Humf,” começou Lita, “Enquanto a gente está
aqui a Ami fica se divertindo por aí!”
“Só porque ela é o gênio ela sai e nós
ficamos presas aqui aprendendo língua morta!” completou Mina.
“Isso definitivamente não está certo!”
emendou Rey.
Serena e Darien estudavam juntos, num canto,
calados. Estavam mais empenhados que qualquer um, pois, afinal, era a vida da
filha deles que estava em jogo. De repente, Serena tirou a cara do livro e
disse.
“Acho que não é com isso que devemos nos
preocupar...” falou calmamente, “Todos sabemos que Ami não é muito de sair, e
hoje vocês viram o comportamento dela. Eu achei muito estranho e isso me
intriga. Talvez esteja acontecendo algo importante e nós não sabemos.”
Todos se espantaram com o comentário sensato
de Serena. Teria ela realmente amadurecido depois de todo esse tempo? Talvez
não conhecessem tanto assim umas às outras...
“É, a Serena tem razão,” concordou Rey,
“Acho que devemos conversar com a Ami quando ela voltar.”
“Talvez ela não queira dizer,” supôs Darien.
“Sim,” falou Lita, “Mas acho que é
importante que ela saiba que nos preocupamos.”
“Não podemos deixar essa atitude tão díspar
passar em branco,” concluiu Mina.
Todos então voltaram aos estudos; um pouco
por terem decidido o que fazer, e um pouco por acharem que a cara de Finna para
o momento de distração deles não estava nada – mas nada – boa.
“Demorei?” perguntou Yan, entrando na sala
já arrumado e tirando Ami de seu mundo de sonhos.
“Não,” disse ela, olhando para ele. “Conseguiu
ficar mais bonito ainda...” pensou.
“O que você acha, vamos pedir algo para
comer? Tem um restaurante que entrega uma barca (NOTA: barca de diversas
comidas japonesas como sushis, sashimi, etc.) deliciosa. Podemos pedir saquê
também.”
“É uma boa. Espero apenas que não esteja
tentando me embebedar...” brincou Ami.
“Eu? Não...” Yan disse com malícia,
“Imagine...”
“Muito engraçado. Lembre que eu tenho que
voltar pra casa, e não posso chegar bêbada.”
“Tem?” perguntou ele.
“Tem o quê?” retrucou Ami, não entendendo.
“Que voltar. Tem certeza que tem que
voltar.”
“Ah...” falou séria, “Com certeza vou
voltar.”
“É uma pena, “disse Yan sentando-se ao lado
de Ami. Ele olhou profundamente nos olhos dela, pensando. “Acho que seu coração
não quer isso...”
“Como pode saber?” perguntou ela, indo um
pouco para trás.
“Esqueceu que eu vejo auras? A sua está num
tom de ouro velho, rajada de azul. Isso acontece quando há um conflito entre os
desejos do coração e a racionalidade do cérebro.”
“Esqueci do seu dom de invasão de
privacidade,” falou Ami, furiosa.
“Calma, não quis irritar,” ele tentou
consertar.
“É que eu realmente acho o fim alguém ter
esse dom,” resmungou, “Às vezes nem eu sei meus sentimentos e você vem e
diz...”
Yan interrompeu-a com um beijo rápido nos
lábios. Ami levantou-se, mais nervosa ainda.
“Como você se atreve?! Não te dei permissão
para me beijar!” e saiu andando em direção a porta. Colocou a mão na maçaneta,
mas não abriu. Yan olhava chocado a reação explosiva de Ami.
“Desculpe,” falou ela virando-se, “Acho que
me irritei por nada... Na verdade... Eu é que estou tão... tão nervosa, essa
situação... não sei como lidar com situações como estas. Fico perdida, não sei
como agir...” desabafou, olhando para o chão.
“Não se preocupe, eu entendo como você se
sente. Eu também fico nervoso ao olhar para você. Não entendo como tanta beleza
e inteligência podem estar reunidas em um só ser.”
“Yan...” riu Ami, “Você é um galanteador.”
“Vou pedir nossa comida.”
Foi um jantar adorável. Ami e Yan tinham uma
ótima sintonia, e a comida estava deliciosa. O tempo perdera a razão, e o
espaço estava distorcido para os dois. Ami se sentia num quadro expressionista,
ao invés do Monet um Van Gogh, um misto de emoções vividas até a última gota,
as cores fortes banhavam sua vida cinzenta. Ela nunca se sentira assim. Era
algo mais inebriante que as drogas que experimentara, e sem os efeitos
colaterais. Pelo menos não o mesmo tipo de efeitos colaterais. Enquanto os
outros a levavam à morte, esses a levavam à vida. Do inferno ao paraíso. Da
depressão à paixão.
“Não falei que esse restaurante era
delicioso?” disse Yan.
“É, tenho que reconhecer seu bom gosto para
a comida,” concordou Ami, ambos “alegres” por causa da bebida.
“Vou ter direito à sobremesa?”
“Yan!” ri Ami, fazendo cara de brava, “tenho
que ir para casa...” e olhou no relógio, assustando-se.
“O que foi?” ele perguntou vendo a cara de
Ami.
“São duas e meia da madrugada! Tenho que ir
embora!”
“Ah, Cinderela, já passou a meia-noite e
você não virou abóbora... Fica mais...”
“Tenho que ir...”
“Por quê? Tem alguém te esperando? Algum
homem?”
“É claro que não tem nenhum homem! Bem,”
repensou Ami, “até tem, mas ele é casado.”
“O que não significa nada hoje em dia...”
“Como não? Fique sabendo que a mulher dele
também está lá em casa.”
“Nossa? Quanta gente tem lá?”
“Contando comigo... Sete. E mais dois
gatos.”
“O que é isso? Um albergue?”
“Muito engraçado. Somos apenas amigos...”
“Hã...” disse Yan, não dando muita atenção a
essa estranha amizade que reúne sete pessoas numa casa só. O saquê os deixara
mais despreocupados.
“Agora estou indo,” sentenciou Ami.
“Jura que não quer ficar? Podemos
conversar...”
“Conversar? Sei...” brincou, “Tenho realmente
que ir. Devem estar preocupados.”
“Vou ver você de novo?”
“Pode apostar que sim.”
“Meine fürstin... Minha princesa…”
“Vejo que meu poliglota predileto também
conhece alemão...”
“Não sou poliglota. Apenas arranho algumas
palavras em alguns idiomas. Impressiona as garotas.”
Os dois riram.
“Mein geliebt... Meu amado...” disse Ami, sorrindo,
“Impressiona os rapazes...”
E saiu pela porta, antes que ele pudesse
dizer qualquer coisa.
“Essa garota...” pensou Yan, “Foi embora de novo
sem me dar um beijo de verdade...”
Ami voltou de táxi para a casa de Finna, e
entrou na ponta dos pés, deixando o feitiço ilusório fenecer. As luzes estavam
todas apagadas, e Ami imaginou que suas amigas já estariam dormindo há tempos.
Ia se sentando na poltrona quando sentiu que um “corpo” já ocupava o lugar.
“Muito bonito, dona Ami!” exclamou Mina,
levantando-se da poltrona enquanto Lita acendia a luz. “Chega tarde da noite e
vai entrando de fininho!”
“Er.. é...” Ami estava surpresa e encabulada,
“É que eu não queria acordar vocês...”
“E você acha que suas amigas iam conseguir
dormir com você por aí, num mundo louco, sem ao menos saber aonde você foi?”
indagou Rey, surgindo pelo corredor. Atrás dela, Serena lançava um olhar
curioso, esperando as explicações de Ami, que estava paralisada.
“Vamos, querida,” disse Lita, fazendo Ami
sentar no sofá, “Conte-nos tudo. Onde foi? O que fez?”
Ami se viu sem escapatória.
“Bem, lembram do rapaz que eu conheci na
boate? Fui visitá-lo, só isso.”
“Só isso?!” exclamou Serena, “Você vai na
casa de um rapaz quase desconhecido, volta às três da madrugada e só nos conta
isso?! Queremos detalhes....” e riu, marota.
“Vocês são o cúmulo da curiosidade,”
censurou Rey, “Se você não quiser falar, tudo bem, Ami.”
“Não, Rey, não se preocupe,” Ami
tranqüilizou-a, “Não há nada de mais. Eu fui lá, nós conversamos, comemos, nos
conhecemos melhor e eu voltei. É que nem vi a hora, e acabei demorando mais do
que esperava. Só isso, não adianta pensarem bobagens.”
“Então, Ami,” começou Lita, “Você pretende
voltar lá?”
“Quando puder, sim.”
“Bem,” continuou Mina, “sinto que Ami está
apaixonada!”
Ami ficou vermelha como um pimentão enquanto
todas riam.
“Parem com isso!” disse ela, tentando voltar
ao normal.
“Ah, fale a verdade, Ami,” falou Mina, “Eu
posso ver em você todos os sintomas. Seus olhos brilham como estrelas, sua pele
está linda, seu humor anda ótimo... Ponho minha mão no fogo por você estar
apaixonada. Me queimei?”
“Não...” murmurou Ami.
Todas sorriram, felizes pela amiga. Tirando
Serena, nenhuma tinha sido propriamente feliz no amor e, portanto, ficavam
felizes por sua amiga estar amando tão calorosamente. Não sentiam inveja, pois
o elo que as unia era feito apenas de bons sentimentos.
“Bem,” falou Rey, “acho que agora devemos
dormir, não esqueçam que Finna nos quer de pé às 7 da manhã.”
As meninas assentiram, e cada uma foi para
seu canto, pois sabiam que Finna não toleraria atrasos para as aulas. Na sala,
Lita e ami já estavam meio adormecidas quando Mina decidiu ir ao banheiro. Ela
foi andando com suas pantufas macias pelo corredor, pensando em Ami. Como era
bom vê-la feliz! Contudo, após sair do banheiro, Mina olhou para a janela. A
rua estava silenciosa e, do outro lado, a casa misteriosa repousava nas
sombras. A imagem de seu homem encapuzado voltou à mente, e Mina se viu
novamente descontrolada. Precisava tanto vê-lo, descobrir quem era! Seu coração
pulsava fora do compasso habitual. Quando voltou a controlar suas ações, já
tinha pulado a janela e atravessava a rua.
“O que diabos estou fazendo aqui?” pensou
Mina quando colocava o rosto no vidro da casa. Todos eles tinham uma grossa
cortina preta, de modo que não viu nada. Tentou abrir a porta, mas, obviamente,
estava trancada.
“Estou ficando louca...” murmurou, sentada
na calçada, desnorteada. “Não devia nem estar aqui... Se Finna descobrir
isso...”
Ia falando muitas frases, ora de
curiosidade, ora de arrependimento. Entretanto, gelou quando uma mão tocou em
seu ombro nu, devido ao baby-doll de alças que usava. Não era pele que sentira
encostar-se a seu ombro, mas sim uma espécie de tecido, provavelmente couro,
pois era um pouco frio. Sim, eram luvas de couro. Quem anda pela noite usando
luvas de couro. Mina pensou duas vezes antes de se virar, mas viu que não tinha
escolha.
“Preocupada com algo, Michiru?” perguntou
Haruka, levantando-se da cama e indo até a janela, de onde Michiru estava
olhando a paisagem, pensativa. A penumbra do quarto deixava no ambiente um ar misterioso.
As sobras dos móveis se projetavam lânguidas do chão.
“Sim e não...”
“Como assim?”
“Bem, eu não levantei porque estava
preocupada, mas sim porque meu braço estava formigando,” disse, olhando com
tédio o braço engessado, “Mas depois que levantei fiquei pensando em Serena
& Cia.”
“Não deve se preocupar com a cabeça de
bombom, Michiru. Ela sabe se cuidar. E não está só.”
“Sim, mas todos estão com poderes fracos e
você viu, Titã, o inimigo, é muito forte. Nem nossos poderes puderam feri-lo.”
“Você não está pensando em ir atrás delas,
está?” perguntou Haruka, embora conhecesse tanto Michiru que já soubesse qual
seria a resposta.
“Gostaria. Mas antes precisamos descobrir
para onde elas foram. Andei monitorando as pesquisas de Sailor Plutão e vi que
ela também quer encontrá-las. O problema é que ainda não achou nenhuma pista.”
“Então é só esperar que ela descubra e
segui-la...”
“Sim,” concordou Michiru, “Mas antes temos
que dar um jeito nos problemas daqui. Ou seja, temos que matar Hotaru.”
“Mas nada podemos fazer com você nesse
estado, Michiru. Conforme-se.”
“Eu sei. Esse ferimento veio na hora errada.
Tenho medo que o pior aconteça antes que eu volte ao normal.”
“Acalme-se. O médico disse que o osso só
trincou, de modo que você ficará bem em breve. E não se esqueça que Sailor
Plutão está retardando o despertar com aqueles feitiços malucos dela.”
Michiru assentiu, encostando a maça do rosto
no vidro. Uma chuva fina começou a cair, deixando a cidade com um ar
melancólico. Haruka abraçou-a pelas costas, murmurando em seu ouvido.
“Não se preocupe. Tudo vai dar certo. Vamos
proteger a Terra como sempre fizemos. Afinal, renascemos para fazer isso.”
Mina foi se virando lentamente, receosa.
Quando completou os 180 graus, arregalou os olhos, assustada. Não conseguiu
gritar nem falar nada, só olhava para o vulto coberto com uma pesada capa
preta. O capuz caía um pouco sobre o rosto, de modo que ela não via como eram
as feições de quem quer que estivesse lá, só via sombras, se misturando num
complexo jogo de luz.
“Se importaria de dar licença?” disse uma
voz forte, mas veludosa, “”Você está parada na porta da minha casa e eu não
posso entrar.”
Mina piscou, ainda não acreditando no que
estava acontecendo. Sua voz parecia tão gentil, não encontrara nada de mau
nela, nem de misterioso. Mina se levantou calmamente.
“É você que mora aqui então...” murmurou
ela.
“Sim. Por quê?” respondeu ele tendo ouvido o
que ela falara.
“Nada... É que eu mudei pra cá há pouco
tempo e na sua casa não tem muito movimento e eu vi você saindo tarde da noite
e com essa roupa estranha e eu... eu fiquei curiosa...” disparou ela, falando
sem parar, tremendo de nervosismo.
“Então é por isso... ela é nova por aqui...
não sabe de nada...” murmurou ele, e Mina não ouviu.
O vulto repentinamente jogou o grosso capuz
para trás, revelando seu rosto. Era um tanto pálido, bem delineado, traços
perfeitos. Tinha olhos bem pretos, como o seu cabelo, que era liso e curto,
porém maior que o de Darien. Mas Mina não percebeu nenhum desses detalhes, pois
tudo o que conseguira pensar foi como ele era lindo e sedutor. Ela olhava para
ele atônita, como que enfeitiçada.
“Você está bem?” perguntou ele, preocupado
pois Mina não se mexia.
“Si-si-sim...” gaguejou ela, “Estou bem...
muito bem...”
“Qual seu nome?”
“Aino... Mina Aino...”
“Eu sou Takeru Shimei. Fico feliz em
conhecê-la.”
“Igualmente...” disse Mina, que ainda estava
chocada com os acontecimentos.
“Você estava aqui no meio da noite só pra
saber quem eu era?”
“Sim... desculpe pelo incômodo...”
“Não é incômodo, só estranho. Você está bem
mesmo? Quer um copo d’água?”
“Obrigada, não é necessário,” falou Mina, já
se recuperando.
Ele assentiu e girou a chave na porta,
começando a entrar em sua casa, mas Mina interrompeu-o.
“Podemos nos encontrar de novo?”
Ele olhou para ela, não entendendo tanto
interesse. “Sim. Mas durante o dia, bem... Eu tenho alguns compromissos...”
“Pode ser a noite!” exclamou Mina, “Eu até
prefiro.”
“Bem, se você quer tanto, podemos nos
encontrar amanhã a noite, na biblioteca central. É 24 horas e eu estou sempre
por lá. Às 11:00 está bom?”
Mina pensou um pouco. Teria que fazer tudo
escondido e provavelmente à essa hora estariam indo dormir, portanto seria
melhor mais tarde.
“Não
pode ser à meia-noite?”
“Claro. Te vejo amanhã,” disse ele com um
aceno, e entrou em casa, pensando no que dera naquela garota para querer
encontrá-lo de qualquer jeito. Bem, ele não se importava, até era bom uma nova
companhia.
Mina estava mais calma, mas ainda não
acreditava no que estava acontecendo. Tinha encontrado o homem misterioso e
nada de mal tinha acontecido. Finna tinha falado tantas bobagens para
assustá-la! Agora ela poderia conhecê-lo melhor... Ele era tão lindo...
Perfeito... Mas agora teria que voltar. Ela pulou a janela, fechando-a
cuidadosamente à suas costas, e indo silenciosamente até a sala, onde dormiu
rapidamente, sonhando, é claro, com seu amor.
Mais um dia raiou, e as meninas pegaram
firme nas aulas de magia. Finna decidiu ensinar uma magia de ataque mais
poderosa e muito usada: a do fogo. Atear fogo a uma almofada que Finna tinha
dado a cada um era o objetivo do dia e esta missão estava sendo diversas vezes
mais difícil que conjurar um pequeno tornado. Nem Ami estava conseguindo
realizar a magia, no máximo conseguia que aparecesse uma fumacinha pouco
promissora. Aquele dia parecia que seria longo.
No centro de uma sala escura, um tubo ia do
chão ao teto. Esse tubo estava preenchido com um líquido opaco, acinzentado, e,
dentro dele, flutuava uma garota que aparentava 5 anos de idade. Fios ligavam o
tubo a uma outra sala, repleta de computadores que eram monitorados 24 horas
por dia por uma equipe altamente qualificada. Contudo, nenhum membro da equipe
tinha permissão de entrar nas sala, chamada de Átrium.
A porta do Átrium se abriu num estrondo, e
por ela passou Titã, caminhando pesadamente até o meio. Suas botas estalavam
contra o chão de uma espécie de mármore negro, com veios cor de sangue. Sua
capa esvoaçava, pois andava com certa velocidade.
“Querida rainha das trevas, Hikari,” disse
ele, parando ante o tubo. “Vejo que seu crescimento está indo de vento em
popa,” Titã deu uma risada breve e continuou, “Pensou que iria me esquecer da
minha oração? Na-não, apenas me atrasei um pouco.”
Ele então suspirou e foi em direção a
parede. Chegando lá, percorreu todo o perímetro interno do Átrium, acendendo as
velas negras e vermelhas que ficavam em belos candelabros dourados a cada
metro. O ambiente tornou-se mais claro, mas as sombras causadas pelas velas
deixavam o lugar com um quê de fantasmagórico. Titã voltou para frente do tubo
e ajoelhou-se perante ele, fechando os olhos.
“Potentia unde umbra...” ia dizendo quando
foi interrompido pelo som de algo rastejando. Virou-se bruscamente e viu uma
poça de gosma azul esverdeada se aproximando.
“МОЙ
ПРИНЦ! МОЙ
ПРИНЦ!” exclamou a gosma, remexendo-se toda.
“Їѕн’цоц, quero que fale a língua
desse país! Já não é esse o primeiro aviso!” esbravejou Titã.
“Ssssim, meu príncipe,” a gosma contorceu-se
em resposta.
“E em segundo lugar, eu não sou o tipo de
homem que gosta de ficar falando com uma poça no chão, portanto erga-se!”
A coisa gelatinosa estremeceu toda,
chacoalhou-se, inflou, murchou, mas no final foi subindo, tomando a forma de um
humano esquálido, mas sem mudar sua constituição. Titã olhou para aquele homem
azul feito de gosma e suspirou.
“O que queres aqui, ó infame criatura? O que
de tão importante te trouxe aqui neste momento, para atrapalhar minha magia?” rosnou
o cruel príncipe.
“Mestre, meu príncipe,” começou
Їѕн’цоц com um forte sotaque, “Analisando
os dados da central da cidade descobrimos algo esssstranhíssssimo!”
“O quê? Fale!”
“Meu príncipe, notamos uma movimentação
mágica anormal na casa de Saffina Grevstav! Sssssim, meu príncipe, na casa de
Finna, a trrrraidora!”
“Investigaram a causa de tal fato?”
perguntou Titã impaciente.
“Sssssim, meu príncipe, e descobrimos algo
terrível! Na casa de Finna, a trrrraidora, se encontram mais seis pessoas, e as
informações vitais delas coincidem com as colhidas em sua última batalha!”
“Então elas chegaram aqui...” murmurou Titã,
após um breve grunhido, “Sailor Senshi malditas... E Finna está acobertando-as!
Imagino que devem estar sendo instruídas para aprenderem magias... bem a cara
de Finna... Mas elas têm pouco tempo,” disse, olhando de soslaio para o tubo,
que continha a pequena Hikari (embora agora não estivesse mais tãããão pequena
assim...), “E eu não vou deixar elas visitarem Eros sem recordações, digamos,
emocionantes...”
Titã caminhou pela sala, pensativo, durante
alguns minutos. O barulho de suas botas contra o chão faziam
Їѕн’цоц tremer. Por fim, parou sob um
candelabro, estranhas sombras cobriam-lhe o rosto, dançando junto com as chamas
das velas.
“Vá, fiel Їѕн’цоц, vá pois
elas receberão minhas boas vindas. Tratarei disso logo após terminar minha
oração. E quando você sair, cuide para que ninguém me interrompa mais.”
“Certo, meu príncipe.”
Após a porta ser fechada, Titã voltou para frente do tubo,
acariciando-o com sua mão. Um olhar doce brotava em sua face. Doce e vingativo.
“Minha rainha da escuridão, rainha do asteróide Titã, rainha da
Terra, rainha da Lua... Viste como és poderosa? Em breve reinaremos juntos. Tua
mãe está aqui neste mundo, ouviste? Queres que eu mande um “oizinho” para ela?
Teu desejo é uma ordem...”
Titã ajoelhou-se novamente, concentrando-se na sua oração.
“Potentia unde umbra, pergo tui negotium! Redigo alesco pravus,
poena et moeror! Ita rogo, ae ille charitum mei cruor.” (Poder das sombras,
continuais tua tarefa! Faz crescer o mal, dor e mágoa! Assim peço, a isso
ofereço meu sangue.)
Ele então cortou seu pulso, deixando cair sangue em uma pequena
vasilha. Quando achou que já fôra o suficiente, curou seu corte e colocou o
sangue em um compartimento do tubo. Desse compartimento saía um cano que levava
o sangue para o interior. Logo, a água opaca tornou-se vermelha.
“Bem, querida, por hoje é só!” disse rindo, e saiu da sala,
fechando a porta às suas costas.
“Aqui! Aqui! Vejam! Vejam!” gritava Rey à medida que a fumacinha
que saía de sua almofada ia aumentando. Todos se aproximaram, tentando ao
máximo não tirar a concentração de Rey. Até Finna torcia ansiosa, pois até o
momento esse era o feitiço que tinha atingido o maior êxito. Serena estava
fazendo figas quando o princípio de fogo se extinguiu no ar.
“Não acredito!” esbravejou Rey, “Eu estava quase... tão perto!”
virou-se para Finna, “Por que não consigo?”
“Acalme-se, querida, no começo é assim mesmo...” respondeu ela,
passando a mão nos sedosos cabelos de Rey e dizendo para todos voltarem ao
trabalho.
“Nada bom... não é nada bom essa demora para realizar a magia de
combustão... Será que elas conseguirão se tornar oponentes à altura de Titã em
três meses apenas?” Finna indagou para si mesma.
Titã foi andando majestosamente pelos sombrios corredores de seu
castelo. Cada vez que passava por um de seus súditos, esse lhe fazia uma
reverência, à qual ele não dava muita atenção. Após passar por dois salões,
entrou em uma sala, com um grande computador central ligado a um telão e com
vários outros computadores e medidores, sendo operados por muitos homens e
mulheres, todos vestidos com túnicas pretas amarradas na cintura com um cordão,
que variava de cor. Vermelho significava que a pessoa era um estagiário na
seção; verde era uma espécie de “office-boy” que levava papéis e dados de uma
pessoa para outra, inclusive para outras salas do castelo; preta era a cor dos
profissionais que analisavam cada dado que chegava em seus computadores, e
estes eram a maioria; por fim, a branca era exclusiva ao chefe da seção, que
supervisionava todos que ali trabalhavam.
Titã entrou na sala e todos param o que faziam e curvaram-se à
sua presença. Titã, dispensou-os da reverência e se dirigiu ao portador do
único cordão branco. Era uma bela mulher, ruiva, olhos de ébano e com a tez
singularmente pálida. Ela sorriu, revelando seus dentes perfeitos e sua
essência malévola.
“Їѕн’цоц disse-me que
descobriram coisas novas por aqui, Dra. Schrübel.”
“Sim, meu príncipe. Mas sabe que meu nome é Verdammt, portanto me
chame apenas de Verda,” respondeu com um ar malicioso.
“Claro, Verda,” respondeu ele, rindo baixo.
“Você fala de um jeito tão formal,” começou ela pegando Titã pelo
braço e guiando-o até a porta lateral que levava à sua sala pessoal, “que nem
parece que nos conhecemos há tanto tempo.”
Os dois entraram na sala, que era ampla e iluminada por uma luz pálida
semelhante à do luar. Havia duas estantes abarrotadas de livros, uma
escrivaninha no centro e uma espécie de divã de veludo verde musgo sobre um
tapete peludo creme. Verda sentou-se de um lado da escrivaninha, em sua
poltrona de couro com rolamentos e indicou uma das outras duas cadeiras que
ficavam do lado oposto para Titã. Ele escolheu a direita.
“Como Їѕн’цоц deve ter dito,
as informações vitais conferem com as das Sailor Senshi e do Tuxedo Mask. E
todas concentradas na casa da nossa ilustre traidora, Finna.”
“Sim, ele me contou. Essa bruxa está ensinando magia a eles,
não?”
“Sinto ter que dar uma resposta positiva a essa pergunta.”
“Não se preocupe, eu já imaginava,” disse ele, fechando os olhos
por alguns minutos. “Temos um conjurador disponível?”
“Posso arranjar um...” respondeu surpresa, “Mas pensei que
gostaria você mesmo de enviar alguns presentinhos a eles...”
“Claro que gostaria, você me conhece bem,” falou Titã, sorrindo
um pouco, “Mas acabei que utilizar muita magia, não posso conjurar agora.”
“Prefere que eu chame Khaled ou Yasumi?”
“Humm...” raciocinou Titã, “Acho que prefiro um conjurador
Unda... alguém especializado em água... Chame Yasumi.”
“Certo. Tomarei imediatamente as providências,” disse Verda
enquanto saía.
Titã acompanhou-a com o olhar até que ela saísse da sala,
fechando a porta silenciosamente atrás de si. Depois olhou novamente para a
mesa, pegando um porta-retrato que estava sobre a mesma. Nele estava a foto de
Verda, mais jovem, mas não menos bela.
“Isso é deprimente,” sentenciou Mina,
deixando seu corpo cair sentado no chão. Lita vez o mesmo, concordando com a
amiga.
“É muito triste não conseguir atear fogo a
uma simples almofada...” falou Ami, olhando para o chão.
Serena, Darien e Rey continuavam tentando
quando a morena sentiu um vento frio. Serena comentou que já estava escurecendo
e que o dia provavelmente estaria chegando ao fim.
“Imagine, querida!” exclamou Darien, “Olhe
no meu relógio, ainda são duas horas da tarde!”
Serena conferia a hora, que estava correta,
quando recebeu um cutucão no ombro.
“Já vai, Rey! Um minuto só!”
O cutucão veio de novo, dessa vez mais
forte.
“O que foi?” esbravejou a loira enquanto se
virava. Seus olhos se arregalaram quando viu uma enorme arraia voando sobre
suas cabeças.
“O que é isso?!” perguntou uma assustada
Lita.
“É um monstro, meninas!” disse Lua, saindo
de um arbusto, onde dormia.
“É um monstro enviado por Titã!” exclamou
Finna, estupefata, “Tenho certeza! Já vi vários conjuradores Unda fazerem
monstros como esse no castelo de Titã! Ele já descobriu vocês!”
Todos agora estavam juntos, no centro do
jardim. Não sabiam direito o que fazer quando Artemis comandou,
“TRANSFORMAÇÃO!”
Em menos de um minuto todos já estavam
prontos pra briga, e a arraia continuava sobrevoando o jardim, majestosa. Finna
estava preocupada com o fato de terem sido descobertos.
“Júpiter, Marte,” comandou Sailor Vênus,
“fiquem mais a frente e ataquem! Mercúrio, comece a analisar o que quer que
isso seja!”
“Certo,” afirmou Mercúrio, acionando seu
visor. Júpiter e Marte trocaram um olhar confiante.
“Fire Soul!” exclamou Sailor Marte e um jato
de fogo atingiu a arraia, fazendo-a se contorcer em chamas. Contudo, ela logo
se restabeleceu, devolvendo o ataque com um turbilhão de água que ergueu Marte
no ar e a jogou longe. Ela estava vendo o poste de luz se aproximar quando
Tuxedo Mask apareceu do nada e pegou-a no ar, pousando calmamente no chão.
“Está bem?” perguntou ele, recebendo um murmúrio
confirmatório em resposta. Os olhos da morena brilhavam.
A arraia ficara nervosa com o ataque, e
começara a atacar todas as Senshi com turbilhões de água. Elas desviavam o
máximo que podiam, mas vez ou outra eram atingidas. Vênus ficou pensando como
seria útil sua Corrente do Amor de Vênus para imobilizar aquele bicho maldito.
“Supreme Thunder!” disse Júpiter, atacando o
monstro. Contudo a arraia, prevenida, criou uma barreira d’água, que repeliu o
golpe de energia, fazendo-o retornar para Júpiter, que caiu eletrocutada.
Sailor Moon se aproximou da amiga rapidamente, pegando-a nos braços.
“Agüente firme, Júpiter!” falou a loira.
“Logo estarei... bem...” respondeu
fracamente, “Me dê... *cof*
cobertura... enquanto isso, certo?”
“OK.”
“Descobriu algo, Mercúrio?” perguntou Sailor
Vênus.
“Um minuto...” murmurou ela, “Sim! O ponto
fraco do inimigo é o flanco direito, mas ele pode criar uma barreira d’água em
0.1 segundo após perceber que será atacado. Entretanto, analisando os dados de
ataque vejo que esse reflexo é diminuído após um ataque com sucesso. Ela passa
para 2 segundos, o que indica que algum de nossos golpes deva estar a no mínimo
1 metro dele para conseguir atingi-lo,” Mercúrio parou de falar, arfante.
“Entendido,” disse Sailor Vênus, vendo que
Lita já estava bem. “Pessoal, o esquema é o seguinte,” começou ela, não se
esquecendo de desviar dos ataques incessantes da arraia, “Eu vou ser a isca.
Vou contar até dez e deixar que um dos turbilhões de água me atinja, para então
retardar sua defesa. Quando eu estiver no cinco, Sailor Moon, que deve estar no
lado oposto ao meu, lançará a Tiara Lunar no lado direito da arraia. Marte,
Júpiter e Mercúrio darão cobertura a Sailor Moon, não deixando que nenhum
turbilhão a pegue de surpresa.”
Todos começaram a tomar seus postos quando
Vênus olhou para Tuxedo Mask e disse, “E, é claro, eu também quero ser salva
pelo galã do pedaço depois que eu for atingida.”
“Não vou deixar nada estragar seu rostinho
lindo, baby,” brincou ele, recebendo um olhar rancoroso de Sailor Moon.
Finna e os gatos olhavam de trás de um pé de
azaléias, onde estavam escondidos. Finna estava embevecida com a agilidade e
raciocínio daquele grupo. Eram unidos e funcionavam como diversos corpos
comandados por uma única mente. Estava orgulhosa de Sailor Vênus, também. Ela
era tão segura e compenetrada que Finna se sentiu mal por ter sido tão dura com
ela naquela noite. Mina nunca se meteria em confusões, era tão madura...
“Oito!” gritou a voz da guerreira do amor,
desviando-se de um jato d’água.
“Sete!”
Mercúrio usou suas bolhas para mudar o curso
de um turbilhão que iria atingir Sailor Moon.
“Seis!”
Júpiter e Marte foram uma para cada lado,
para proteger Moon durante a preparação de seu golpe.
“Cinco!”
Sailor Moon tirou sua tiara, fazendo-a se
tornar um disco luminoso, que flutuava em sua mão. “Moon Tiara Action!” disse
em voz baixa, para não atrair a atenção da arraia. O caminho brilhante da tiara
foi sendo traçado no ar, indo diretamente para o lado direito. O monstro ia se
virar na direção de Sailor Moon quando Vênus deixou-se ser atingida pelo
turbilhão à contagem de dez. A arraia esboçou um sorriso em sua cara
animalesca, para então soltar um guincho de dor, tendo seu lado direito
perfurado pela tiara de Sailor Moon. Seu corpo mole foi ficando avermelhado e
depois azulado, rachando em pedaços que desapareceram como pó. A última cena
que os olhos cinzentos da arraia viram foi a de um vulto negro pegando a mulher
loira que seu golpe atingira.
“Bravo!” exclamou Finna, extasiada. “Em toda
a minha longa vida ouvi diversas pessoas relatando a eficiência e maestria das
Sailor Senshi, mas nada se compara a vê-las ao vivo. Agora entendo porque os
trovadores do meu querido satélite Titã não se conformavam em não poder exaltar
as Senshi em suas músicas palacianas. Eles diziam que estávamos perdendo muito
com isso. Também compreendo porque os vilões do universo temem as Senshi do
sistema solar. Bravíssimo!”
As meninas ficaram encabuladas com tantos
elogios, sem saber o que dizer. A cerimônia foi quebrada quando Sailor Moon viu
que Vênus ainda estava nos braços de Tuxedo Mask.
“Já acabou, Vênus! Pode descer daí agora,
tá!” esbravejou ela, “E você, Tuxedo-sama, já pode ir tirando essas mãos grandes
das coxas da loirinha!”
Ele colocou Vênus no chão, envergonhado. As
outras Sailor riam da braveza de Sailor Moon e da situação de Tuxedo Mask.
Finna interrompeu a palhaçada.
“Bom, mas o que importa é que vocês viram
que fomos descobertos por Titã. E o próximo inimigo pode não ser tão frágil
como esse, pode estar preparado para os seus poderes. Vocês têm que se dedicar
mais à magia. Têm que aprender rápido! E isso se inclui ao feitiço do fogo que
estávamos praticando. Na minha opinião, vocês não estavam dando o máximo de si,
estavam levando na brincadeira. Portanto, de volta ao serviço! E eu quero ver
essas almofadas em chamas em meia hora!” brigou ela, tentando fazer as meninas
se esforçarem mais. Eles voltaram às suas identidades civis e continuaram sua
aula de magia.
Verda entrou silenciosamente em sua sala.
Titã ainda estava lá, sentado na mesma cadeira, olhando o mesmo retrato.
“Príncipe...” ela murmurou.
“Sim, Verda,” respondeu ele, colocando o
retrato sobre a mesa, “já havia percebido sua presença.”
Ela foi andando até a mesa, sua mão direita
retorcia a ponta do cordão que amarrava sua túnica. Aproximou-se da mesa, seus
olhos desviavam-se dos de Titã.
“Meu príncipe...” ela hesitava.
“Querida,” disse Titã, levantado-se e indo
para trás de Verda. Ele pousou suas mãos fortes no ombro da chefe da seção de
análises. “Eu sei que perdemos.”
Os olhos de Verda se arregalaram e voltaram
ao normal no espaço de tempo de um segundo. Ela relaxou um pouco, pois Titã
fazia uma massagem nos seus ombros tensos.
“Sabia que não ganharíamos das lendárias
Sailor Senshi com um simples fantoche. Sei que o pior erro que alguém pode
cometer é menosprezar o adversário. Na verdade,” Titã aproximou sua boca do
ouvido de Verda, “eu só queria mostrar a elas que já conheço seu paradeiro, que
sei o que estão tramando.”
“Desculpe,” falou Verda, olhando fixamente
para o chão, “acho que eu que menosprezei sua inteligência.”
Titã mudou de posição, encostando sua boca à
outra orelha de Verda. Ele não parou a massagem.
“Não tem do que se desculpar. Somos
amigos...”
“Mas além disso eu tenho um cargo aqui.
Tenho que zelar por ele e me desculpar por meus erros.”
Titã apertou os ombros de Verda com mais
força. Ele então passou a mão pelo pescoço da ruiva, percorreu-o em sua
extensão e colocou suas mãos pela gola da túnica negra que ela usava, sentindo
sua pele macia. Ele beijou levemente o lóbulo de sua orelha, Verda gemeu
baixinho, fechou os olhos lentamente. Titã tirou sua mão direita do ombro dela
e desceu por sua silhueta, alcançando a cintura.
O cordão branco caiu no chão, aninhando-se
aos pés de Verda.
Verda mordeu levemente seus lábios, enquanto
a mão esquerda de Titã abria o zíper que havia nas costas de sua túnica. Ela
virou de frente para ele, seus olhos se encontraram. As pupilas negras de Verda
dilatavam-se a medida que Titã chegava perto de seu rosto. Beijaram-se. Ele
passou sua boca pelo rosto dela, acariciou sua cintura, puxou-a para perto de
seu corpo. Suas mãos habilmente tiraram os braços lânguidos e pálidos de dentro
das longas mangas negras. Era a prática.
A túnica negra caiu no chão, juntando-se ao
cordão.
Ela era linda. Seu corpo lívido era bem
delineado; as curvas sempre escondidas sob as vestes pesadas agora se revelavam
com a nudez de Verda. Titã olhou-a vorazmente com seus olhos maliciosos. Verda
retribuiu o olhar, jogando sua cabeça para trás, convidando-o a explorar seu
colo. Ele aceitou prontamente o convite.
Como Finna percebera, o que estava faltando
para aquela turma realizar as magias era a motivação. Com suas palavras de
entusiasmo e a ameaça de Titã, todos se emprenharam muito mais e as almofadas
viraram cinzas rapidamente, para a satisfação da feiticeira. Finna liberou-os
para tomarem banho, comerem e terem a noite livre. É claro que ela recomendou
que estudassem como na noite anterior, mas não tinha idéia de quantos deles
seguiriam seu conselho.
Entraram todos, felizes com seu progresso e
agora seguros de seu dom para a magia. Estavam achando fácil realizar os feitiços
agora, sentiam-se confiantes, sentiam a natureza à sua volta, o ar, a terra sob
seus pés. Após realizarem a magia do fogo perceberam entrar num novo mundo,
onde tudo ganhou nova vida e sentido. Era algo que não entendiam, mas isso não
era importante, pois o pensar nos desvia do verdadeiro significado das coisas.
Rey foi para frente de seu fogo sagrado,
rezar e pedir inspiração, pois já estava preparando sua oração para seu deus
protetor. Esmerava-se muito na construção dos versos e escolhia cautelosamente
as palavras. Ami decidiu ler algum livro sobre magia dos muitos que havia na
biblioteca particular de Finna. Lita foi para a cozinha fazer um bolo, pois já
estava com síndrome de abstinência por não cozinhar a tanto tempo. Mina foi a
que teve o comportamento mais estranho: alegou que estava cansada e foi dormir;
na verdade queria estar bem descansada para aquela tão promissora noite em que
seria seu segundo encontro com o misterioso Takeru.
“O que está fazendo?” perguntou Darien, saíndo
do banho.
Serena levantou seu rosto, estava sentada na
cama, embaixo dos lençóis, um caderno sobre o colo. Procurou Darien com seu
olhar celeste. Ele sorriu.
“Escrevendo,” respondeu.
“Que bom que voltou a escrever poesias,”
disse, sentando na cama ainda com uma toalha amarrada na cintura e outra caída
sobre os ombros. Seu cabelo pingava água de quando em quando no travesseiro,
“Posso ler?”
“Não sei,” falou Serena, abraçando
protetoramente o caderno, “Não estou conseguindo escrever como antes. Só uma
pequena estrofe... Triste... Dolorida...” Seus olhos marejaram de lágrimas.
“Serena...” murmurou Darien. Ele a abraçou,
ela chorou em se peito, deixando o caderno cair, revelando os versos.
“Cripta pétrea
Pálida brilha ao luar
As flores murcham sobre ti
E também sob ti”
“Eu sei o quanto está sofrendo,” disse ele,
após ler a estrofe, “Igualmente sofro. Ás vezes eu acordo à noite, você
dormindo, e tudo me vem a cabeça, tudo o que aconteceu... Tudo é dor, tudo
sempre acaba em lágrimas.”
“Darien...” murmurou Serena, “desculpe...
Desculpe por não te dar a força que você precisa. Você não tem ninguém pra te
consolar. Eu sou tão egoísta... Só eu choro, só eu não sou forte para te
ajudar...”
“Não fale assim,” emendou ele, “Você é forte
o dia inteiro. Você agüenta firme para não preocupar as meninas. Está certa em
se abrir comigo. Chore, Serena, alivie a dor que está em seu peito. A dor que
eu também sinto.”
E os dois choraram juntos, abraçados, como
um só ser.
Titã agora estava deitado no divã verde
musgo, Verda sobre seu corpo, encaixada em seus braços fortes; ele olhava
fixamente para ela com seus claríssimos olhos azuis.
“O que foi? Por que me olha assim?” indagou
ela.
“Não é nada...” respondeu ele, “Só estou
admirando sua beleza infindável,”
“Sempre a mesma coisa...” murmurou Verda.
“O que disse?” interessou-se Titã.
“É sempre a mesma coisa,” ela começou,
levantando-se à procura de sua túnica, “Sempre que fazemos sexo você acaba
ficando com esse olhar, tão próximo e ao mesmo tempo tão distante. E quando
pergunto o que acontece, recebo sempre a mesma resposta,” terminou ela, já
vestida e sentada em sua escrivaninha.
“Mas é verdade!” disse Titã, também se
vestindo, “Ou não acredita que sua beleza me extasia?”
“Sei que sou bela,” falou Verda, soberba,
“Mas não sou burra e igualmente sei que havia outras preocupações em sua
mente.” Ela desviou o olhar e tirou um bloco de memorandos e documentos de uma
gaveta, começando a analisá-los pacientemente. Os fios de eletricidade no
cabelo de Titã começaram a faiscar de ódio por tanta empáfia. Quem ela pensava
que era? Era só uma perdida. Uma mulher com o nome manchado. Uma mulher que
fora digna apenas da pena de seu falecido pai, Titan. Mas dessa vez relevaria
os ataques de fatuidade de Verdammt. Afinal, ela tinha sido tão maravilhosa há
instantes...
“Passe bem, Dra. Schrübel,” sentenciou,
saindo da sala.
Verda passou os dedos pelo cabelo,
preocupada e revoltada. Jogou todos os papéis de sua mesa no chão, num ato
desesperado. Depois se sentou pesadamente em sua cadeira, espumando de raiva.
Serena dormitava no peito de Darien quando
ele tentou se levantar.
“Aonde você vai?” perguntou ela, acordando.
“Vou trocar de roupa...” respondeu ele, voltando
a se movimentar. Ela agarrou seu braço.
“Não me deixe... Fique comigo...” implorou
Serena, fragilizada.
Darien deitou-se na cama, sob os lençóis, ao
lado de sua mulher, abraçando-a. Ele deixou as incômodas toalhas ao lado da
cama.
“Prometa que não vai me deixar, Darien,”
murmurou a loira, “Prometa que estará ao meu lado mesmo se perdermos Hikari.”
“Isso não vai acontecer, meu amor,” disse,
beijando seus cabelos. Suas mãos começaram a desfazer os odangos de Serena. Em
instantes, o longo e sedoso cabelo se espalhava pela cama, e Darien beijava a
nuca de sua linda esposa.
“Pare com isso, Darien,” pediu ela, sendo
ignorada.
“Eu não quero que me beije assim,” disse com
firmeza, virando-se para ele, “Acho que você não entendeu o que eu disse da
última vez, mas vou tentar ser mais clara: não posso me permitir momentos
felizes sabendo que minha filha pode estar sofrendo, sendo ferida, sabe-se lá o
quê, nas mãos daquele carrasco. E ainda mais sabendo que foi minha culpa!”
“Não foi sua culpa, Serena!” ralhou Darien,
nervoso com a mania de Serena de se culpar por tudo.
“É claro que foi! Se eu tivesse aceitado ser
mulher de Titã, nada disso estaria acontecendo!”
“Mas mesmo assim seus filhos estariam nas
mãos dele! E não poderia lutar contra isso.”
“Sim, você está certo,” disse ela
lentamente. Porém, ao ver Darien se aproximar para beijá-la, continuou, “Mas
mesmo assim não posso esquecer o que está acontecendo com Hikari e, sendo
assim, não posso me deixar ser feliz enquanto minha filha sofre.”
Ela então levantou-se, pegando uma coberta
da cama e indo em direção à porta.
“Aonde você vai?” perguntou Darien, surpreso
com as reações de Serena.
“Boa noite, querido. Vou dormir com alguma
das meninas.”
“Não vá, fique!” pediu ele.
“Será melhor assim,” respondeu Serena,
secamente.
Darien ficou olhando a porta se fechar para,
após isso, se deitar de bruços, enterrando a cabeça no travesseiro e a mente em
seus problemas.
“Rey...” murmurou Serena, descendo as
escadas porão.
A morena levantou lentamente seu olhar dos
livros e das suas anotações até encontrar Serena, com uma coberta debaixo do
braço. Ela ficou intrigada, querendo saber o que acontecera e pediu que Serena
se aproximasse. A loira deixou a coberta numa poltrona e sentou-se no chão ao
lado de Rey.
“O que foi, Serena?”
“Bem...” ela hesitou, “Posso dormir aqui com
você?”
“Sim, mas...” Rey estava cada vez mais
atônita, “O que houve? Você e o Darien brigaram?”
“Não exatamente...”
“Então o que aconteceu? Por que você quer
ficar aqui?”
Serena se levantou e foi até a lareira, que
agora ária incessantemente. Ela se abaixou e as chamas fizeram seu rosto
brilhar em várias nuances de vermelho. De repente, ela virou-se e abraçou Rey.
“Me ajude, Rey! Eu sei que não devia agir
assim, mas é mais forte que eu!”
A morena não entendeu nada, mas abraçou a
amiga, confortando-a.
“Me explique o que está havendo e eu te
ajudarei se me for possível,” disse ela, afagando os cabelos soltos de Serena.
“Eu não sei, mas algo me bloqueia... Eu não
consigo mais... Não fico à vontade...” falou, soluçando, em prantos.
“Eu ainda não estou entendendo...”
Serena ergueu a cabeça, enxugando as
lágrimas que banhavam seu rosto. Ela encostou sua cabeça na parede e olhou para
Rey. Com certeza, apesar de tudo, ela era sua melhor amiga. Não querendo
menosprezar as outras, é claro. Todas eram muito caras e adoráveis com ela, e
Serena amava todas, mas... Rey era a que mais compreendia seus sentimentos.
Mesmo com todas as brigas e desavenças, era por Rey que Serena mais se
arriscaria, faria qualquer coisa para vê-la feliz. Era sua alma gêmea.
“Rey, o problema é que eu não consigo me
permitir ter qualquer tipo de prazer sabendo que Hikari está presa, sofrendo. E
eu sei que essa minha aparente frieza machuca o Darien. Sei que ele tenta
entender, mas fica muito difícil para ele com eu toda noite ao seu lado, na
mesma cama... Por isso que, para poupá-lo eu decidi dormir aqui com você.”
“E não há a menor chance de você tentar
superar esse bloqueio?”
“Não,” sentenciou Serena, consciente de sua
decisão, “E não é porque eu não quero, é porque eu não posso... Seria muito
injusto com minha filha.”
“Serena,” começou Rey, olhando-a com
ternura, “Acho que você sabe que eu não concordo com essa sua atitude, mas
tenho convicção que nada do que eu fale vai mudar sua opinião. Portanto, fique
a vontade, minha amiga.”
Serena agradeceu com um sorriso e um olhar
de cumplicidade e afeição. Então tornou os olhos para os escritos de Rey.
“É a sua oração?” perguntou ela.
“Sim,” afirmou Rey, “Mas são só palavras
soltas... Não consigo criar nada que demonstre meu agradecimento e louvor...
Acho que perdi o dom com as palavras...”
“Ah, não fale assim, Rey!” exclamou Serena,
“Pensa que eu não lembro das suas belas canções? Lembro muito bem do trato que
você tem com as palavras.”
“Mas ultimamente tudo isso se foi...” um
olhar triste tomou conta da face de Rey, “Minha mente está vazia, não há mais
inspiração em meu coração. Você está bem melhor do que eu com a escrita. Li os
seus livros, sabia? Sempre acompanhei sua carreira como escritora...”
“Rey...” murmurou Serena, preocupada com o
tom de voz sombrio da amiga, “Diga-me o que está acontecendo...”
Rey pensou em confessar a Serena que ainda
era apaixonada por Darien, que não podia tirá-lo de sua mente, que a rejeição
dele a matava a cada dia... Mas não podia. Não podia fazer isso com a amiga,
ainda mais nesse momento delicado de suas vidas.
“Não é nada, sua boba!” Rey tentou descontrair
o ambiente, “Não quer tentar fazer sua oração?”
“Posso até tentar, mas estou tão deprimida
que acho que não vou conseguir escrever nada que contenha gratidão...”
Mas mesmo assim as duas se debruçaram sobre
os livros e começaram a pensar em suas orações. Eram grandes amigas.
A essa altura, Ami, Lita, Lua e Artemis já
estavam com o bolo de chocolate pela metade. Estavam felizes, conversando sobre
o dia e sobre o fato de Mina ter ido dormir tão cedo. Isso definitivamente não
era normal.
“O que será que aconteceu com a serelepe da
Mina?” perguntou Artemis.
“Eu não tenho idéia, vai ver ela não está se
sentindo bem,” respondeu Lita.
“Não acordou nem com o delicioso cheiro do
chocolate!” brincou Ami.
“Meninas,” disse Lua, séria, “Vocês não
estão preocupadas com o fato de Titã ter descoberto o nosso esconderijo?”
“Bem,” começou Ami, “Estamos, mas isso iria
acontecer mais dia menos dia, não?”
“E temos nossos poderes para nos
defendermos,” continuou Lita.
Lua ficou pensativa. Aqueles com certeza
seriam os três meses mais compridos das suas vidas. Com tantas novidades e
descobertas, aquela semana parecera uma eternidade.
“E você, Ami,” falou Lita,brincando, “Não
vai na casa do seu namoradinho hoje?”
“Não,” disse ela, vermelha, “E não fale assim,
tá! Vou deixar ele esperando um pouco.”
“Nada como um bom jogo duro, Ami!” exclamou
Lua.
“A voz da experiência fala...” ironizou
Artemis, começando uma boa briga entre ele e sua gatinha predileta. Ami e Lita
continuaram a conversar sobre Yan por um tempo, até que todos foram dormir. A
casa escureceu e silenciou com todos no mundo dos sonhos.
Foi quando Mina se levantou.
Ela foi sorrateiramente até a janela dos
fundos, tomando cuidado para não notarem sua saída. Andava com a leveza de um
gato e só parou quando passou por um espelho. Sua roupa estava toda amarrotada,
dando a ela um ar descuidado. Mina pensou no que poderia fazer, já que trocar
de roupa àquela altura do campeonato seria uma péssima idéia. Mas logo soube o
que fazer.
“Pulchritudo, velius turpis, deludo visum!”
disse calmamente, os olhos fechados. Em instantes ganhara uma belo vestido de
crepe vermelho, um pouco abaixo do joelho. “Perfeito!” pensou.
As ruas de Eros à noite eram calmas e
frescas, só as grandes avenidas que não paravam um segundo, pulsando ao som das
discotecas e bares. O caminho até a biblioteca central era relativamente curto,
e em pouco tempo Mina a vislumbrava. Era um prédio de dois andares, com muitos
vidros e estrutura laminada. Futurista seria a palavra mais correta para
descrevê-lo.
A parte interna era muito agradável, e
contava com muitos jardins de inverno, com bancos e luminárias para que os
usuários pudessem ler e descansar em meio a natureza. Mina começou a procurar
Takeru assim que chegou, mas, devido ao tamanho do local só o encontrou no
segundo andar, entre duas estantes de livros que pareciam chegar ao teto.
“Oi...” murmurou timidamente,
aproximando-se.
“Ah, você veio mesmo!” surpreendeu-se ele,
virando para Mina, com um livro entre as mãos.
“Por quê? Estava duvidando?”
“É que foi tudo tão estranho... Você parada
na porta da minha casa...”
Mina enrubesceu, sem saber explicar seu
comportamento a ele.
“Bom,” disse Takeru, fechando o livro,
“vamos sentar?”
Ela assentiu meneando a cabeça e os dois
foram até um dos jardins, onde encontraram lindas tulipas e rosas vermelhas
como o sangue. Tomaram lugar num banco de ferro negro, ergométricamente
perfeito.
“Conte-me,” começou ele, “porque quis me
conhecer?”
“Bem,” Mina fez uma pausa, pensando numa
desculpa plausível, “Como me mudei para cá há pouco tempo, comecei a observar a
vizinhança, com a intenção de fazer novos amigos e me adaptar a esse novo
lugar. Então, uma noite, quando fui dormir, vi um vulto saindo da casa vizinha
usando uma longa capa preta de capuz e fiquei curiosa para conhecê-lo.”
“E então foi até minha casa,” completou ele.
“Exato. Mas, me diga, por que só sai de casa
com aquela coisa?”
“Oh, não chame minha bela capa de coisa!”
brincou ele, “É apenas um hábito, e ela me protege contra chuvas e frentes
frias que chegam sem avisar. Hoje mesmo estou com ela, mas deixei-a num dos
armários da entrada. Afinal, aqui nada vai acontecer.”
“Entendo. E então, o que você faz?”
perguntou uma bisbilhoteira Mina, falando logo antes que seu coração saltasse
pela boca. Estava em êxtase, definitivamente apaixonada; suas mãos transpiravam
de um nervosismo que nunca sentira antes. Ela própria não imaginava ser tão
piegas, tão suscetível à esses sintomas de paixão.
“Eu? Eu, como vou explicar,” disse, pensando
por um momento, “Eu sou uma pesquisador.”
“Nossa, que legal! Agora entendo suas vindas
à biblioteca. E pesquisa o quê?”
“O ser humano.”
Mina ficou levemente chocada com a resposta
dele. Não pelo conteúdo em si, mas pela aspereza com que ele disse aquelas três
palavras. Sentiu seu coração parar por alguns segundos.
“E você? O que faz, Mina?”
“Eu era cantora. Mas agora... Agora não
canto mais.”
“Não fique com esse semblante triste,” falou
Takeru com ternura, levantando o rosto de Mina delicadamente. Eles se olharam
profundamente, “Seus lindos olhos só combinam com sorrisos...”
Ela sorriu, desconcertada, contando os
segundos para desmaiar de vez.
“E ademais, uma cantora nunca para de cantar.
Ela pode não ter mais um grande público, mas sempre alguém quer ouvir uma bela
melodia.”
“Você sabe animar uma mulher, sabia?”
respondeu ela, sorrindo, deixando transparecer toda a alegria que esse momento
estava colocando em seu coração.
“É que mulheres felizes são muito mais
bonitas,” disse, fazendo um olhar de conquistador. Os dois riram.
Mina olhou no relógio, espantando-se com a
hora, que tinha passado sem que percebessem. Ela sentenciou que tinha de ir
embora.
“Mas podemos nos ver amanhã?” perguntou
Takeru, surpreendendo-a.
“Você o quer?”
“Sim,” disse ele, sereno, “Quero encontrá-la
de novo.”
“Posso vir aqui amanhã, na mesma hora, que
tal?”
“Perfeito.”
“Você não vai pra casa agora?” indagou Mina.
“Não. Vou estudar até mais tarde,”
respondeu, olhando-a nos olhos. Mina beijou-o no rosto e levantou-se, indo
embora. Takeru ficou observando-a ir, embebido no balanço dos seus longos
cabelos loiros. Esperou alguns minutos e também se levantou, dirigindo-se à
saída.
“Agora,” disse para si mesmo, vestindo sua
capa negra, “Ao trabalho!”
E saiu, misturando-se com a escuridão da
noite.
Mina chegou sem problemas em casa, desfez a
magia e deitou-se. Ficou pensando na maravilhosa noite que tivera, lembrando o
aroma do perfume que ele usava, sentindo a pele macia de Takeru ainda sob seus
lábios. A vida finalmente ganhara um sentido. Agora tudo se justificava, tudo
era flores. E memorando seu encontro secreto, adormeceu, dormindo o sono das
Julietas.
Uma semana completa se passou, e as coisas
só pareciam ter ficado mais conturbadas. As aulas de Finna tinham se
intensificado, mas agora não havia mais a dificuldade inicial, só a carga de
magias por aula que aumentara. Porém, mesmo isso tinha ficado mais calmo, pois
as meninas já tinham um bom nível de latim e dominavam sua magia com destreza,
tanta que, por vezes, Finna nem precisava ensinar-lhes as palavras, elas
surgiam naturalmente nas suas mentes. E, além disso, treino não faltava, já que
Titã agora atacava-as sempre, o nível de seus monstros subindo gradativamente,
e com várias especializações: fogo, terra, eletricidade, e mais dezenas de
outros tipos.
A vida pessoal das garotas não estava
perdendo nada para essa agitação toda. Mina continuava a sair escondido todas
as noites para se encontrar com Takeru. Eles conversavam muito, brincavam um
com o outro, mas ele nunca dissera nada a Mina sobre seus verdadeiros
sentimentos. Ela achava que ele também estava gostando dela, mas não tinha
coragem de perguntar. Na verdade nem ela tinha dito a ele que se apaixonara,
mas isso não fora falta de coragem e sim orgulho em demasia, daqueles que não
suportariam uma rejeição. Por tudo isso, eles continuavam naquele famoso
“chove-e-não-molha”, e Mina aproveitava ao máximo cada momento que passavam juntos.
Ami se encontrou com Yan novamente, dessa
vez num restaurante fino de comida italiana. Foi uma noite agradável, e os dois
falaram muito sobre obras de arte e música clássica. Obviamente, foi Ami que
puxou esses assuntos, pois falar sobre sentimentos a deixava extremamente
nervosa. Após o jantar foram passear no parque, mas, quando Ami finalmente ia
beijá-lo, fato que só ocorreu devido ao excelente vinho tinto que tomara, um
temporal desabou sobre suas cabeças. Yan sugeriu que fossem para sua casa se secar,
mas Ami achou mais sensato voltar logo para a casa de Finna. Chegando lá, ainda
teve que fazer um breve relatório de seu encontro para as meninas, que
esperavam ansiosamente por ela, e teve também que ouvir todo o tipo de
piadinhas por ter chegado ensopada em casa.
Contudo, o alvo das maiores especulações da
semana foi Lita, que passava todo o seu tempo livre no Game Center Crown. Todas
juravam que ela estava tendo algo com o rapaz que tomava conta de lá, Kayama,
mas a morena desmentia os boatos de pés juntos. Mas suas negativas não estavam
sendo muito convincentes.
Não obstante, tudo isso só era diversão. De
certa forma, um dos motivos para as meninas procuravam essas farras fora de
casa era o fato de o clima do lado de dentro estar pesadíssimo. Serena
continuava a dormir com Rey, e nada demovia suas absurdas idéias de
autocomiseração e renúncia. Estava extremamente deprimida e as únicas coisas
que fazia eram estudar e praticar sua magia. Darien, com isso, também estava
triste, largado pelos cantos, sem entender o que causara essa crise que os
atingira.
O que ninguém percebia era que a única que
estava feliz com essa situação era Rey. Ela sofria por Serena, pois amava a
amiga, mas exultava de felicidade ao ver Darien cada dia mais afastado de sua mulher.
Então, ela aproveitava todas as oportunidades para consolá-lo e fazer-se de
amiga. Ele estava tão desligado de tudo por causa de sua crise conjugal que nem
percebia as segundas intenções de Rey, que também era esperta e não dava
bandeira. Só Finna sentia alguma coisa errada nessa relação de Rey com o casal,
mas, como não sabia dos antecedentes incriminantes da sacerdotisa, não
conseguia descobrir o que realmente estava errado.
“Aumente o nível de solução DF para 4,5!”
gritou um dos operadores da sala.
“Agora prepare o fluido para a descarga
elétrica!” outro rapaz sentado perante um computador falou.
“Chame Titã!” ordenou um homem de
aproximadamente 35 anos para uma mocinha, que saiu correndo da sala.
Esse era o rebuliço que se encontrava na sala
de operações ao lado da câmara onde Hikari, com quase 7 anos, estava sendo
mantida. Muitas ordens eram dadas a partir das toneladas de dados que chegavam
aos computadores pelos cabos que os ligavam ao tubo de crescimento. Um ruído
metálico foi crescendo, e todos pararam ao ver Titã adentrar a sala.
“Mestre Titã!” reverenciaram em conjunto.
“O que diabos está acontecendo aqui, seus
incompetentes?” esbravejou ele.
O responsável pela sala, que era o rapaz de 35
anos que o chamara, adiantou-se em sua direção.
“Sinto dizer-lhe, mestre, mas acho que o
poder do Cristal de Prata e do Cristal Dourado está despertando dentro da
pequena Hikari, que está para alcançar a idade de 7 anos. Temo que a magia que
o senhor está dispensando a ela não esteja sendo o suficiente,” disse ele, um
pouco amedrontado.
“Entendo,” murmurou Titã, “as poderosas
forças dentro dela estão querendo anular minha magia negra. O fato é que já
aumentei a quantidade de sangue que dou a ela durante o ritual diário. Se eu
aumentar ainda mais essa quantidade, ficarei debilitado por algum tempo e isso
pode se transformar em um indesejado ponto fraco.”
“Estávamos pensando em... Bem, ao invés de
fazer um ritual diário, fazer dois, um pela manhã e um pela noite. Assim o
senhor teria tempo de recuperar as forças e não ficaria tão debilitado.”
“Certo...” disse Titã, pensativo, “Se acham
uma boa idéia...”
“Com certeza é, mestre. Agora mesmo estamos
muito agitados porque a menina quase despertou dentro da incubadora. Seria um
desastre, o senhor sabe.”
“Sim, seria a pior coisa que poderia
acontecer. Está decidido. Hoje mesmo começarei a fazer dois rituais. Mas, diga,
a situação já foi controlada?”
O rapaz olhou em volta, falou com alguns
operadores e deu uma resposta afirmativa para Titã.
“Ótimo. Mantenham tudo na mais perfeita
ordem,” sentenciou Titã antes de sair.
Titã foi andando pesadamente pelos
corredores, pensando que a fase difícil do crescimento de Hikari estava
começando agora. Quanto mais crescesse e se desenvolvesse, mais fortes ficariam
seus poderes e mais mágica ele teria que usar para dominá-la. Isso não seria um
trabalho tão fácil como de princípio ele imaginara, mas valeria a pena no
final. No final o universo pertenceria a ele. Titã estava perdido em seus
pensamentos quando esbarrou em uma mulher no corredor. Ela deixou um bloco de
papéis caírem.
“Sua desastrada!” Titã esbravejou, mas,
quando olhou melhor para a moça, seus olhos ficaram um pouco arrependidos, “Oh,
é você Verda!”
A ruiva catou logo seus papéis e ia seguindo
seu caminho quando Titã a pegou pelo braço, não a deixando ir. Ela tentou se
libertar inutilmente e se resignou ao domínio de Titã.
“Venha comigo até minha sala,” ele ordenou.
Os dois foram andando, Verda logo atrás de
Titã, até entrarem na esplendorosa sala de Titã, decorada em tons metálicos. Um
quadro a óleo de Titan estava em uma das paredes. Os dois se sentaram na mesa.
“O que queres comigo, ó fabuloso mestre?”
perguntou Verda.
“Quero saber por que está diferente comigo
desde aquele dia,” respondeu Titã.
“Que dia? Não lembro de nenhum dia em
especial e não estou diferente, senhor.”
“Não se faça de sonsa, mon chéri, sabe que
estou me referindo ao dia que ficou furiosa comigo.”
“Não fiquei furiosa,” disse ela secamente.
“Fale! Agora é uma ordem!” gritou Titã,
levantando-se da cadeira, desembainhando a espada e apontando-a para o pescoço
de Verda.
“Quanta delicadeza...” murmurou Verda, e
Titã encostou a ponta da espada em sua pele. “Bem, vejo que não tenho escolha.
Temo apenas que não adiante em nada as minhas palavras.
“Fale,” ordenou Titã, guardando a espada e
sentando-se novamente.
“Não há nada extremamente importante a se
dizer. O fato é que eu estou cansada de ser seu bibelô, sua bonequinha de luxo.
É isso. Só isso.”
“Pois saiba que muitas garotas deste castelo
gostariam de ser minhas ‘bonequinhas de luxo’, querida,” disse Titã,
encarando-a.
“Fique com elas então...” falou calmamente
Verda, levantando-se da cadeira. Titã a segurou pelo braço.
“Não pense que vai me deixar falando
sozinho, sua insolente,” esbravejou ele, conduzindo a ruiva de volta para a
cadeira. “Você bem sabe que eu detesto ataques de ciúme como estes, Verda,”
“Que ataques de ciúme? Ninguém aqui está tendo
ciúmes, só você está tendo ataques de orgulho ferido, pois não agüenta receber
um não. Sempre a mesma criança mimada,” disse com empáfia.
“Verda,” começou Titã, faiscando de ódio,
“eu sempre a considerei, sempre fui gentil e benevolente com tudo o que se
refere a você. Como pode falar nesse tom de voz comigo? Sou seu mestre, seu
rei, seu amante...”
“Errado. Você era meu amante. E
quanto ao resto... que se dane!” gritou, saindo do seu habitual autocontrole.
“Dra. Schrübel... Acho que prefere esse
tratamento, não?” iniciou Titã, espumando de raiva, “Acho que não está bem
lembrada de quem você é. Contudo, farei um favor refrescando sua memória
e dizendo o que você seria sem mim...”
“Não!” gritou Verda, “Não! Não me humilhe a
esse ponto! E alguém pode ouvir! Não, seria horrível!”
“Acho que agora estamos começando a nos
entender...” ironizou Titã.
“Sim,” respondeu Verda, limpando as lágrimas
que escorriam sobre seu pálido semblante, “Eu faço o que você quiser, mas não
conte a ninguém... por favor...”
“Claro, minha querida, porque achou que eu
faria isso com você? Nunca falarei nada,” falou Titã, aproximando-se de Verda,
“Só seja boazinha, certo?”
“Sim... Eu faço qualquer coisa,” disse em
tom de lamento, com a voz ainda embargada. Beijou-o então, selando o
compromisso de ser sempre calma e devota.
“Não, ela não está aqui,” disse Ikuko.
“E sabe para onde foi?” perguntou o rapaz.
“Bem...” Ikuko pensou por alguns instantes,
“Ela viajou para algum lugar... Não lembro o nome... Minha memória está péssima
atualmente.”
“Está certo,” falou o rapaz, despedindo-se e
indo embora. Ela tinha desaparecido. Não a encontrava em nenhum lugar. Não
sentia seu brilho cálido em nenhuma direção... Algo grave deveria estar
acontecendo.
“Talvez este...” murmurou Hotaru, esticando
seu braço o mais que podia. Não alcançou o livro.
Estava na biblioteca do seu castelo em
Saturno, investigando o paradeiro das Inner Senshi quando mudou sua pesquisa,
querendo saber que entidade malígna poderia estar querendo se apossar de seu
corpo. Setsuna provavelmente já teria procurado ali, mas Hotaru estava tão
desesperada que resolvera dar mais uma olhada. Seus ataques agora eram
freqüentes, quase diários. Felizmente eles ainda não tinham acontecido em
público, pois isso seria um desastre. Sentou-se um uma grande mesa de cristal e
olhou o livro, que se chamava “As Piores Entidades Possuidoras”. Abriu-o mais
ou menos na metade, pois não sabia nem por onde começar.
“Jaria... Jeoá... Jessídeto... Jezebel,”
começou a enumerar os nomes que estavam na página, até parar no último lido,
“Jezebel, entidade demoníaca milenar. Pode ser invocada por possuidores da
habilidade magia negra em nível avançado. O ritual demora três dias e não pode
ser interrompido, o que nos leva a concluir que o invocador tenha uma energia
mental e poder de concentração altíssimos. Uma vez incrustada em sua vítima,
Jezebel só pode ser destruída com poções de alta complexidade e que usam
ingredientes extremamente difíceis de serem encontrados, algumas ervas inclusive
estão em extinção. Os efeitos colaterais das poções são, contudo, tão fortes
que, das duas vezes em que se tem registro de seu uso, uma causou a morte do
paciente...” e assim continuava o longo artigo sobre Jezebel, que Hotaru, pelos
sintomas, acreditava que não era essa a entidade que estava em seu corpo.
Levantou-se e começou a vagar pelo castelo, entrando no quarto que um dia fora
de sua mãe Cibele. Aquele quarto estava fechado a muitos anos, talvez séculos,
e tudo se encontrava num estado deprimente. A janela aberta fazia o vento
vibrar as cortinas rotas e amareladas. Não havia colchão na cama, só a
estrutura de ferro oxidado e o dossel rasgado em diversas partes. Manchas no
chão em formato retangular denunciavam que algum dia houvera ali tapetes.
Hotaru pensou que em algum dia no passado aquele lugar resplandescia a
magnificência do Reino de Saturno, onde as pessoas eram felizes e as músicas
sempre ecoavam pelos corredores. Agora, abrindo a porta do armário, que rangia
as dores de tudo de ruim que se passara ali, pensava se algum dia aquele
palácio voltaria aos seus dias de glória. Dentro do armário havia gavetas que
estavam totalmente vazias, mas uma não se abria, pois estava trancada à chave.
“Estranho,” pensou Hotaru ao testar todas as
chaves do molho e perceber que nenhuma servia. O armário era feito de uma pedra
branca resistente, diferente de todas que havia na Terra, de modo que Hotaru
não conseguiu abri-la à força. Procurou então a chave por todos os cantos
daquele quarto tão desgastado pelo tempo, mas não obteve sucesso. Tentou
procurar pelo castelo, mas este era grande demais para que sozinha encontrasse
objeto tão pequeno. Achou ferramentas, tais como furadeiras, martelos,
marretas, picaretas, e afins, levando-os para o quarto e tentando abrir a
qualquer custo aquela gaveta. Porém, nada funcionou como deveria, visto que o
material parecia ser tão resistente como o diamante. Mesmo após muitas
pancadas, nenhum arranhão tinha aparecido, o que aguçou ainda mais a
curiosidade de Hotaru. Ela então saiu correndo pelo corredor, até chegar na
biblioteca, onde pegou seu relógio comunicador.
“Plutão? Você está aí?” perguntou ansiosa.
“Sim, Saturno, o que foi? Está com
problemas?” preocupou-se Setsuna.
“Mais ou menos. Pode vir aqui no castelo de
Saturno o mais rápido possível?”
“Certo. Eu não estou fazendo nada mesmo...”
disse Setsuna com muxoxo.
Algum tempo depois, Setsuna já estava no
antigo quarto de Cibele.
“O que você quer me mostrar aqui?”
questionou ela.
“Eu estava olhando as coisas por aqui quando
encontrei essa gaveta trancada com uma chave que não está no molho das chaves
do palácio. Então tentei arrombar, mas nada consegue quebrar essa pedra
maldita,” desembuchou de uma só vez.
“Ao que me consta, o material de que foram
feitos os armários daqui é o Kryptze. Ele é nativo do planeta Saturno, um
minério que foi tirado da própria superfície do planeta. Ah, e é 20000 mais
resistente que o diamante. Me admira você não ter quebrado suas ferramentas,”
falou Setsuna.
“Mas sabe,” começou Hotaru, “Tenho a
intuição que algo muito importante está guardado nessa gaveta. Algo que pode
resolver algumas dúvidas... Eu esperava que você me ajudasse a encontrar a
chave...”
“Hotaru, não me faça de tola,” falou Setsuna,
“Você sabe que nunca encontraremos uma chave nesse palácio enorme. Pode ser que
ela nem exista mais. Fale a verdade, por favor.”
“Bem, acho que não posso te enganar, certo?”
disse meio encabulada, “É que eu queria te pedir uma coisa muito difícil e
especial, e não vou ficar triste se você recusar, mas eu queria muito descobrir
o que tem nessa gaveta...”
“Fale logo, sem rodeios,” sentenciou
Setsuna.
“Queria voltar ao passado e ver o que tem
ali,” disse de uma vez só. Os olhos de Setsuna se arregalaram.
Setsuna ficou estupefata por alguns segundos
e Hotaru olhava para ela com uma expressão de pura ansiedade. O silêncio
profundo pairava no ar.
“Você enlouqueceu?” perguntou Setsuna, “Não
posso usar meus poderes de Sailor para satisfazer sua curiosidade!”
“Mas não é só curiosidade! Eu tenho uma
forte intuição que há algo muito importante nessa gaveta!”
“Hotaru, não podemos usar a porta do tempo
para isso. E essa é minha última palavra,” afirmou Setsuna, com a fronte
franzida.
A jovem abaixou os olhos, num misto de
conformidade e revolta. Por um pequeno momento tinha acreditado que aquela
seria a solução dos seus problemas.
“Mas...” murmurou Setsuna, vendo os olhos de
Hotaru se despregarem do chão e se voltarem para ela com esperança. “Mas
podemos usar magia convencional e fazer um feitiço para que regresse no tempo,”
concluiu.
“E você sabe como fazer isso?” perguntou
Hotaru extasiada.
“É só irmos para o meu castelo e checarmos
nos meus livros de magia e poções,” disse Setsuna, puxando Hotaru pela mão.
As duas saíram correndo pelos caminhos
intrincados do palácio até chegarem numa espécie de elevador que, no lugar dos
números de andares, tinha os símbolos das Senshi. Funcionava como uma espécie
de teletransportador entre os castelos e, segundos após apertarem o símbolo de
plutão na parede, estavam na biblioteca particular de Setsuna. Hotaru sentou-se
numa mesa de pedra negra e logo a amiga juntou-se a ela, trazendo consigo um
livro antigo de capa de camurça verde musgo. Sobre a camurça, na capa, havia um
pentagrama de metal incrustado.
“Aqui estão feitiços sobre o tempo,”
explicou Setsuna, “Logo acharemos o exato para você,”
“Sailor Moon, cuidado, à sua direita!”
gritou Mercúrio, a tempo de Sailor Moon se desviar do monstro que as atacava.
Ele chegara de surpresa, pela manhã, no meio
da aula de magia. Não passava de uma gosma verde, mas era extremamente veloz e
lançava bolas de gosma que grudavam no rosto dos oponentes impedindo-os de
respirar. Marte tinha desmaiado por causa disso e Tuxedo Mask cuidava dela num
canto do jardim.
Júpiter saltou repentinamente e deu um chute
no monstro, mas sua perna simplesmente penetrou na gosma e ficou presa. Ele
jogou-a com violência contra o muro, e ela caiu inconsciente no chão.
“Seu bicho maldito!” urrou Vênus, “Conheça
agora meu poder! Raio de Vênus, fulmine!” terminou ela e um raio de luz
brilhante atingiu em cheio a gosma, que se partiu ao meio. Vênus pulou de
alegria quando foi interrompida por Mercúrio,.
“Sailor Vênus, ainda não acabou! Ele está se
juntando!” ela avisou.
As três Senshi remanescentes se juntaram no
meio gramado, olhando atentamente para o mostro que se unira novamente.
Mercúrio começou suas análises no computador enquanto Vênus e Moon davam
cobertura.
“Sailor Moon,” disse Vênus com liderança,
“ao meu sinal vamos nos separar. Eu vou para a esquerda e você para a direita;
ele vai ter que escolher qual seguir,”
A outra confirmou com um aceno e as duas
começaram a correr. A gosma ficou indecisa por alguns segundos, mas foi para o
lado de Vênus. Sailor Moon parou perto de uma touceira de rosas, e, vendo a
amiga ser perseguida respirou fundo.
“Tenho que fazer alguma coisa rápida!”
pensou. Ela então fechou os olhos, mentalizando seu plano passo a passo. “Vai
ter que ser isso,” decidiu.
“Lacertosus coacto, invocato cunctus
auxilium! Niger numbus mei manus emersum, quod oppugno unde coma si consummus!
(Forças poderosas, ajudem quem as invoca! Nuvens negras surjam nas minhas mãos,
que a tempestade de raios se faça!)” disse Sailor Moon, erguendo suas mão para
o monstro.
Sailor Vênus estava correndo quando sentiu a
gosma se aproximar de seu corpo. Ela parou, olhando para trás, e o inimigo
estava sobre sua cabeça. Ele grunhiu alguma coisa ininteligível, e duas
saliências, como pseudópodes, emergiram de sua massa oval. Eles começaram a se
dirigir para Vênus, que ia andando lentamente para trás, meio sem saber como
agir. Isso não era uma atitude comum para ela, mas estava com medo, pois Tuxedo
Mask ainda não tinha conseguido acordar Marte depois do ataque e Júpiter ainda
estava desacordada com o choque. De repente, um barulho muito forte ressoou
pelo ar e Vênus e o monstro olharam para a direita, de onde vinha o som.
Certamente o mostro não viu mais nada a
partir desse momento, mas Vênus ficou simplesmente estupefata. Das mãos de
Sailor Moon raios gigantescos vieram em direção ao mostro, eletrocutando-o.
Eram como linhas de eletricidade, que saiam compridas e se retorcendo das mãos
da loira e acertavam o mostro. Ele começou a enegrecer até se tornar cinzas que
se acumularam aos pés de Vênus. Sailor Moon fechou suas mãos e os raios pararam
de surgir.
Sailor Marte e Júpiter acordaram com o
barulho dos trovões e todos, inclusive Finna, atônita, olhavam para Sailor Moon,
que tinha em seu semblante uma expressão decidida e séria.
Com uma brisa forte, as cinzas do finado
inimigo se dispersaram no ar.
“Pronto,” disse Setsuna, colocando a poção
que preparara num vidro pequeno e transparente.
“Parece suco de laranja,” falou Hotaru ao
pegar o vidro, “Já coloquei as velas e as pedras sagradas em círculo, do jeito
que me ensinou.”
Setsuna conferiu o serviço de Hotaru e ficou
contente com o que viu. A jovem era uma boa aprendiz.
“Só quero te lembrar como vai ser tudo,”
começou Setsuna, “Após beber a poção, sua alma voltará ao passado, na época em
que você quiser ir. Ninguém poderá ver ou ouvir você, mas também não poderá
pegar ou tocar em nada, pois sua matéria ficará aqui, bem ante aos meus pés. Um
fio invisível une sua alma ao seu corpo, portanto, quando algo
involuntariamente te puxar para o presente, não resista, pois senão morrerá.”
Hotaru olhou para ela, assumindo novamente
os riscos dessa viagem ao passado. Ela entrou no círculo mágico,
posicionando-se no centro e, com decisão, tomou a poção.
Cada uma das sete pedras lançou um feixe de
luz colorida (as sete cores do arco-íris) em Hotaru, que foi envolvida por uma
luz branca extremamente brilhante. Quando as luzes desapareceram, um baque
anunciou que o feitiço fora um sucesso, pois o corpo de Hotaru se estendia no
chão.
“Espero que tudo dê certo,” murmurou
Setsuna.
Hotaru fechou os olhos com força ao ser
envolvida pelas luzes e logo se sentiu leve, sendo levada por um vento forte
como o de um furacão. A velocidade foi diminuindo até parar e Hotaru abriu os
olhos com um misto de ansiedade e temor.
Estava no mesmo saguão onde fizera a poção
com Setsuna, mas agora tudo era diferente. O chão e as paredes brilhavam e tudo
estava iluminado. Pessoas passavam nervosas e apressadas para todos os lados,
algumas inclusive passando por Hotaru, que era atravessada como se não
estivesse ali, confirmando o que Setsuna dissera. Ela começou andar pelo castelo, indo para o quarto de
Cibele, ainda deslumbrada com o esplendor da corte imperial de Saturno. Parecia
um conto de fadas, a única diferença era o semblante preocupado das pessoas.
Hotaru suspirou e entrou no quarto de sua mãe.
Ela estava lá, deitada na cama sobre a
colcha, com seus longos cabelos negros e brilhantes soltos em sua volta. Usava
uma camisola de cetim azul, que parecia o céu da Terra aos olhos de Hotaru. Com
a mão direita Cibele acariciava sua barriga de uns oito meses, e com a outra
escrevia em seu diário. Hotaru aproximou-se para conseguir ler.
“...com cada dia que passa, meus súditos e
amigos ficam mais preocupados. Falta apenas um mês para o nascimento de minha
querida filha, mas todos fazem a contagem regressiva para a minha morte. Eu
simplesmente não me importo, pois essa é minha missão neste mundo: dar à luz a
Sailor Saturno, que deverá proteger nosso sistema solar. Contudo, não entendem
que esse destino já estava escrito nas estrelas antes mesmo de eu ou de Titan
existirmos. Há uma movimentação intensa no palácio e todos os dias sou
submetida a poções e encantamentos novos que sei que não funcionarão. Uma
maldição é uma maldição, e só pode ser desfeita por quem a lançou. Fiódor é o
mais compenetrado nessa busca insana e infrutífera por uma solução para esse
meu problema. Ele não se conforma em me perder e ter que criar nossa filha
sozinho. Obviamente ele sabe de tudo desde o começo, mas agora percebo que ele
sempre manteve a esperança de escrever outro destino para mim. Eu o amo muito,
mas sei que o deixarei em breve...”
Ela ia escrevendo quando um vento forte
abriu a janela com um estrondo. Titan apareceu ante Cibele.
“Como estás aqui, ó ente das trevas?”
perguntou ela, surpresa.
“Sei que não esperavas por minha chegada,
mas consegui força o suficiente nesses últimos 4 anos para fazer uma projeção
astral de meu pobre satélite errante até aqui, minha querida,” disse ele,
prepotente.
“Mas não vais ficar por muito tempo,
imagino?” falou Cibele, irônica, pois sabia que fazer uma projeção astral a
anos-luz de um lugar gastava muita energia. “Mas, digas, a que veio?”
“Vim para dar-te uma última chance, meu
amor. Desfaço a maldição e vens morar comigo em meu planeta.”
“Estás louco,” riu Cibele, “nunca farei
isso. Prefiro a morte.”
“Ris da minha proposta, insolente?! Pois
saibas que minha maldição se concretizará e encontrarás o que procuras. Digo
mais, essa tua filha será fadada a servir minha família quando precisarmos.”
“O que estás a dizer? Quanta insanidade!”
disse ela, nervosa.
“Não é uma brincadeira. A minha maldição não
é só sobre tu, mas também se estende a tua filha,” começou ele, “O destino dela
será servir minha família quando precisarmos, e isso se concretizará. Mas agora
tenho que ir,” terminou ele, desaparecendo com uma risada.
Cibele baixou os olhos, olhando para o
diário. Lágrimas mancharam a página, borrando a tinta.
“...Titan acaba de aparecer aqui. Ele disse
que minha filha serviria a família dele quando assim quisessem! Infelizmente
acredito que não foi um blefe, não é o seu estilo. Pobre sina a de minha filha
ainda nem nascida! Quantos infortúnios a esperam! Mas é melhor que esse novo
fato fique em segredo pois não agüentaria aumentar o desgosto de todos com essa
notícia.”
Cibele fechou o diário e se levantou,
cabisbaixa. Foi até a gaveta com chave e depositou o diário lá dentro, numa
almofada de veludo que ficava sempre na gaveta. Colocou a mão sobre a barriga,
com seu cenho franzido.
“Sim,” disse baixinho, “tudo o que esperei
vai acontecer...”
Trancou a gaveta ligeiramente com a pequena
chave de prata e deitou-se na cama, sobre o belo lençol púrpura. Ajeitou um
travesseiro sob sua cabeça e deu um longo suspiro.
“Ninguém saberá de tua sina, minha filha,”
murmurou, “Viverás em paz até que o momento chegue...”
Cibele então destruiu a chave com um pequeno
raio de energia violeta que saiu de seu dedo indicador. Apertou em seguida uma
campainha que ficava ao lado da cama, indicando a todos que estava entrando em
trabalho de parto.
Logo se ouviu uma movimentação no corredor,
e Hotaru, triste por saber que aquela era a hora da morte de sua mãe,
alegrou-se ao pensar que conheceria seu pai do passado, Fiódor. Contudo, sentiu
uma leve pressão em suas costas, um puxão, e percebeu que estava na hora de
voltar. Tentou bloquear a força que a puxava para trás por um tempo com a
intenção de ver seu pai, mas lembrou-se do quão era perigoso sustentar mais
aquele momento. Deixou-se levar pela força, e tudo a sua volta virou um borrão
até encontrar-se novamente ao lado de Setsuna.
Hotaru arfava, seu peito explodia de dor e
lágrimas vertiam de seus olhos. Setsuna correu até ela.
“Hotaru, como você foi imprudente!”
esbravejou, “Quando vi seu corpo se contorcer aqui ante meus olhos pensei que
você não voltaria!”
“É que eu queria conhecer meu pai,” falou
Hotaru com esforço, “Mas não pude retardar mais minha volta.”
Setsuna abraçou-a, confortando a jovem num
abraço quase maternal. Hotaru, ainda com os braços moles e a cabeça rodopiando,
retribuiu o abraço.
“Não me assuste mais assim, menina!”
exclamou Setsuna com uma lágrima no canto do olho.
Hotaru esperou um tempo e afastou-a, olhando
seriamente. Suas forças tinham voltado e sua face já estava corada novamente.
“Acho que descobri o que há comigo,”
sentenciou, deixando Setsuna surpresa.
“O que foi isso?!” assustou-se Lua, saindo
de dentro de uma moita. “Sailor Moon, responda!”
Sailor Moon fechou os olhos, que estavam
fixos no horizonte, sem expressão alguma. Deixou sua transformação desaparecer,
voltando a sua forma civil. Todos a observavam sem saber o que falar.
“Serena,” começou Finna, “onde você aprendeu
essa magia?”
“Não aprendi,” disse Serena, sentada no chão
com seu vestido rosa chá. “Acho que... Não sei ao certo... Precisava fazer algo
e... As palavras... Simplesmente usei as palavras que aprendi em todos esses
dias de estudo e inspirada por alguma força criei um feitiço. Ele ter
funcionado é um espanto para mim também.”
Mina e Ami, já em sua identidade normal,
como todos, aproximaram-se de Serena. Darien e Rey estavam ajudando Lita a
andar até onde as três garotas estavam. Finna chegou perto com Artemis nos
braços.
“Eu fiquei extremamente feliz com isso, mas
também muito atônita,” começou ela, “Você, com apenas duas semanas de estudo
criou sozinha um feitiço de energia classe B. Isso é realmente fantástico,”
“E isso quer dizer o quê?” perguntou Rey.
“Bom, duas coisas,” falou Finna, “a primeira
é que Serena é uma aluna muito aplicada e dedicada,”
Risadinhas foram dadas por todos que estavam
ali, deixando Finna surpresa.
“Qual é a graça?” perguntou ela.
“Bom,” começou Lita, “é que você é a
primeira pessoa que nós conhecemos que acha a Serena uma aluna aplicada e
dedicada...”
Finna ainda assim não entendeu bem a graça,
mas Rey logo ficou séria, lembrando-se dos últimos dias e falando a todos que
Serena realmente estava se esforçando. Ia dizer que era a única coisa que
fazia, pois assim não lembrava de Darien, mas resolveu ficar quieta.
“Enfim,” continuou Finna, “a segunda coisa é
que Serena deve ter um dom realmente muito grande para magia que estava
adormecido, pois senão nunca conseguiria criar por si só um feitiço de tão alto
nível com tão pouco tempo de estudo!”
“Finna,” disse Ami, “o fato de Mina estar em
perigo não pode ter desencadeado essa reação em Serena e ela ter despertado um
nível maior de magia?”
“Sim, Ami, era exatamente o que eu estava
pensando. De qualquer forma, lembrem que todos vocês têm potencial para criar
suas próprias magias, não precisam ficar se prendendo aos meus ensinamentos. Se
sentirem a sua intuição falar mais alto, vão em frente! Todos aqui tem
capacidade.”
Eles se animaram e Serena se levantou,
perguntando para Finna se eles iam continuar a aula que estavam tendo ou não.
Logo Finna já estava ensinando novos encantamentos para eles.
“O quê?!” exaltou-se Titã.
Verda olhou para ele com seriedade e
depositou um bloco de folhas recém-impressas sobre a mesa do poderoso chefe.
“Está aí. São os relatórios que eu acabei de
pegar na Guilda dos Conjuradores Reais,” disse ela com firmeza, sustentando o
olhar nervoso que Titã lhe lançava “a princesa, ou melhor, Sailor Moon,
derrotou nosso monstro com um feitiço de energia classe B.”
“É impossível. É surpreendente. Como Finna
já pode estar ensinando feitiços classe B para aqueles guerreiros? E como eles
podem estar executando-os com tanta precisão?”
“Infelizmente não temos respostas para essas
perguntas,” falou com um sarcasmo disfarçado.
“Vá. Vá embora e me deixe só. Não quero ser
incomodado pelo resto do dia a menos que se trate de algo a ver com minha
futura rainha, Hikari.”
“Sim,” disse secamente, com ódio e inveja
remoendo seu coração. Saiu deixando Titã para trás, que ficou remoendo como
Finna tinha conseguido tal progresso em tão pouco tempo.
O dia foi passando lentamente, como uma
lesma, deixando seu muco gosmento sobre o tempo. Nuvens de chuva cobriram o céu
e trovões serpenteavam de quando em quando, iluminando a escuridão. No início
da noite todos já tinham se recolhido e cada um fazia algo diferente na casa de
Finna.
Serena como nos últimos dias estudava ao pé
da lareira e Rey limpava seu velho baralho de tarô. As duas pararam o que
estavam fazendo ao ver Finna descer as escadas.
“Olá, meninas, tudo bem por aqui?” perguntou
ela sem demonstrar o que queria.
“Sim...” respondeu Rey, curiosa.
“Sabe, Rey,” disse Finna, “Eu gostaria muito
de falar com a Serena a sós. Será que você poderia...”
Rey meneou a cabeça afirmativamente e foi
com seu baralho para outro lugar. Serena franziu o cenho, revelando sua
preocupação.
“Oh, não fique nervosa, minha linda,”
tranqüilizou Finna, “Só quero ter uma conversa com você.”
“Sobre?”
“Bem, sobre hoje cedo.”
“Ah...” murmurou Serena, pensando se aquilo
já não tinha sido resolvido.
“Na verdade que não fiquei satisfeita com a
explicação de que o fato de Mina estar em perigo pode libertar uma magia que
estava dentro de você. Para uma jovem iniciante, mesmo que esforçada, seria
humanamente impossível um feitiço de energia nível B em tão pouco tempo,” falou
ela, sentando-se ao lado de Serena.
“E como pode explicar o que aconteceu?”
indagou a loira, “Eu simplesmente senti uma força que me guiou na escolha das
palavras.”
“Bem, isso é normal. Não me surpreendo por
já estar sentindo as vozes da natureza que nos impelem na criação de magias. O
que me deixa intrigada é a execução. Você poderia ter criado o feitiço, mas não
poderia tê-lo com tamanha perfeição. O natural seria um explosão, os raios se
voltarem contra você, qualquer reação, menos ter dado certo.”
“E o que podemos fazer? Nada, é a resposta,”
disse tranqüilamente.
“Pelo contrário. Vendo o seu nível de magia,
inexplicavelmente alto, resolvi antecipar o seu primeiro teste para magia
negra.”
“O quê?!” espantou-se Serena.
“E ele será agora,” sentenciou Finna,
levantando-se.
Mesmo com a tempestade armada, Lita resolveu
dar uma volta pelos arredores. Estava se sentindo claustrofóbica, pois não saía
de casa há dois dias. Extraordinariamente, ela parecia ficar mais bonita nos
dias de chuva com trovoadas. Seus olhos castanhos adquiriam matizes mais
claras, aproximando-se do verde e sua pele parecia resplandecer com o brilho
dos relâmpagos. Tudo isso dentro de um vestido verde no estilo chinês a
tornavam praticamente um belo presente magnificamente embrulhado.
Andando, entrou no Game Center ao passar
pela frente. Kayama estava limpando uma das máquinas de fliperama.
“Estou atrapalhando?” perguntou Lita ao
chegar.
“De maneira alguma,” respondeu Kayama com um
grande sorriso, “Faz uns dois que você não vem aqui, aconteceu algo?”
“Estou só um pouco atribulada,” disse Lita.
“O que faz na rua com uma tempestade dessas
se preparando pra cair, Lita? Pirou?” indagou ele, indo guardar o pano
engordurado num balde d’água. Ela foi atrás e os dois se sentaram nas banquetas
que ficavam atrás do balcão. Lita tinha pegado o hábito de vir conversar com
Kayama sempre que podia e eles costumavam sentar-se ali.
“Nem eu sei. Acho que fiquei com saudade de
conversar com você,” falou ela, deixando-o com as maçãs do rosto ainda mais
rosadas.
“Gosta tanto assim das nossas conversas?”
ele perguntou encabulado.
Na verdade, um redemoinho de pensamentos
remexia-se na cabeça de Lita. Esse tempo de convivência com ele somado a sua carência
afetiva estavam fazendo com que ela se aproximasse dele mais rápido do que
desejava. Uma onda de calor percorria seu corpo e fazia suarem suas mãos.
“É que você me entende tão bem...”murmurou
Lita, “Ambos gostamos de games, jardinagem; temos os mesmos sonhos de
constituir família, amar e sermos amados...”
“Acho que este é um sonho que todos têm.
Amar... Ser amado... Sem isso a vida não vale a pena.”
“Você tem namorada?” perguntou Lita
inesperadamente, olhando no fundo dos olhos de Kayama.
“Er... não...” respondeu ele, sem graça.
“Nem uma paquera?” tornou ela a perguntar
aproximando-se cada vez mais dele.
“No momento... bem... não...” gaguejou ele
ao ver o rosto de Lita tão perto do seu.
Ela mesmo não sabia o que estava fazendo.
Sua mente dizia para se afastar daquele rapaz que tanto a cativou, mas seu
corpo simplesmente não obedecia às suas ordens. Seus lábios se encostaram
levemente, tão suave como uma mão relando na pétala de uma rosa recém
desabrochada, coberta do orvalho matinal.
“Acho que tenho que ir embora,” disse Lita
levantando-se rapidamente e tomando o caminho da rua. Antes de chegar na porta,
contudo, um trovão ribombou no céu e uma tempestade de vento começou a cair.
Lita diminuiu a passada e olhou para o seu pequeno guarda-chuva, que de nada
serviria contra aquela chuvarada.
“Pois eu acho que não pode e nem deve ir
embora agora,” disse Kayama com um sorriso no canto da boca.
“Pobre Lita...” disse Selene do alto do
Olimpo, observando a cena num painel que mostrava aos deuses o que eles
desejassem ver.
“Não acha que Zeus poderia intervir?”
perguntou Titéia, “Sei que nenhum deus deve fazer isso, mas até eu me sinto
triste com a sina errante dessa jovem”
“Ele não fará nada,” respondeu Selene, “Acho
que ele quer ‘dar o exemplo’ e não mudar as atitudes ou pensamentos dos
mortais. Já passou a época que eles eram nossos joguetes.”
“Mas ele pode ser sutil,” continuou Titéia,
“Era só fazer parar a tempestade. Não seria uma intervenção direta e estaria
ajudando mesmo assim.”
“Ah, ele acha que qualquer intervenção é
prejudicial,” sentenciou Selene.
“Claro, mas quando é a deusinha queridinha
dele quem pede tudo é válido, não?” falou Titéia com despeito.
“Fala de Afrodite? Ela sabe como convencer
os homens. Deuses ou mortais, heróis ou covardes, todos são iguais. Todos não
resistem a ela.”
“É uma biscate. Uma sedutora barata! Isso é
o que ela é!” gritou Titéia, demonstrando seu ódio e inveja.
“Nossa quanta raiva acumulada,” disse Selene
sarcasticamente, “Mas até você tem que admitir que desde que Afrodite voltou da
Terra ela não é mais a mesma. Seu brilho não é mais fervoroso e inconstante,
típico dos consumidos por grande amor e ódio, agora ela resplandece estável e
calidamente, o que a deixa até, se é que isso é possível, mais bonita,”
“Acho que nunca via alguém defender aquela
peça com tanto ardor. Você simplesmente me surpreende Selene,” falou a ciumenta
Titéia.
“Voltando a falar de Lita,” mudou de assunto
Selene, “Zeus nunca intervirá na vida dessa garota porque ela é, de certa
forma, muito parecida com ele.”
“Como assim parecida?” indagou Titéia.
“Veja só Zeus: é um conquistador inveterado,
divinamente volúvel. Teve diversas mulheres, deusas ou não, fez com que todas, voluntariamente
ou forçadas, sucumbissem ao seu desejo. Nunca se satisfaz, nunca consegue amar
por mais de um momento. Cansa-se de suas ‘adoradas’ logo após ter a posse
completa dobre elas. Todas cedem, todas são abandonadas.”
“O que nos leva a dizer que a pobre garota
ainda sofrerá muito até encontrar, e se encontrar, seu verdadeiro amor...”
murmurou Titéia, voltando novamente seus olhos para o painel.
“Chuva maldita!” amaldiçoou Lita, olhando
desoladamente para o rio que já se formava próximo ao meio fio.”
“Pois eu não acho,” falou Kayama, “Acho que
veio até em boa hora, pois assim não vai me deixar aqui sem nenhuma explicação,
cheio de dúvidas e desejos,”
Lita virou-se e olhou ternamente para ele,
indo em sua direção com passos calmos.
“Mas eu faço tudo para o seu bem...”
murmurou ela.
“Como sabe o que é o meu bem, Lita? Deixe
que eu decido o que é o meu bem,” respondeu ele.
“É que... Não quero te magoar...” ia dizendo
ela quando Kayama a interrompeu.
“Deixe que eu falo agora certo,” sentenciou
ele com grande convicção, “Lita, eu posso ser inexperiente, tímido,
atrapalhado, jovem demais e até feio demais para você, mas não sou imaturo.
Para chegar aqui eu já passei por muitos infortúnios e sofri, de modo que eu
sei o que esperar da vida e das pessoas. Aprendi que devemos viver cada dia em
sua plenitude, pois o hoje é a única coisa real que temos. O ontem só serve
para arrependimentos e o amanhã para divagações abstratas sobre um futuro que
não está em nossas mãos, não está no nosso domínio. Viva suas emoções, Lita. E,
se desejar, viva-as comigo.”
“Eu...” começou Lita, ainda atônita com as
palavras de Kayama, “eu já destruí uma amizade com meus atos impensados. Não
quero que isso aconteça conosco.”
“Lita...” disse ele, “eu não sei o que aconteceu
e não sei se um dia você vai querer me contar, mas acredito que o que quer que
você tenha feito deixou um legado dentro de você. Aprendemos com cada um dos
nossos atos e acho que você tirou uma lição do que aconteceu. E sei que você
não repetirá o mesmo erro.”
“Kayama...” falou baixinho enquanto se
aproximava dele. Chegou perto, olhou em seus olhos, suspirou. Para a surpresa
do rapaz, Lita agarrou o colarinho de sua camisa e o encostou na parede,
dando-lhe um beijo passional que durou uma eternidade para ambos. Ela soltou-o
no fim, colocando as mãos nos ombros dele.
“Eu precisava muito disso,” rumorejou ela no
ouvido de Kayama, beijando o seu lóbulo da orelha e descendo pelo pescoço. Uma
série de outros beijos se concluiu e a chuva voltou a cair suavemente, fina e
persistente. Abraçados, Lita repousou a cabeça no ombro de Kayama e sentiu o
calor que saía de seus corpos, pulsando ao ritmo das batidas do coração.
“Tenho que ir, até mais,” disse ela se
afastando rapidamente e saindo pela porta, não esperando por qualquer resposta
de Kayama. Na verdade ele não disse nada, só ficou pensando no que tinha
acabado de acontecer e naquela mulher ardente e sofrida que povoava sua mente.
“Será rápido,” disse Finna, pegando no
armário um tubo de ensaio e uma agulha, “o primeiro teste é um exame de
sangue.”
“Mas se é assim porque você não fez isso
logo que chegamos para saber quem tem predisposição para a magia negra?”
perguntou Serena.
“Bom, é que, tal como a outra magia, ela não
está sempre desperta. Para a magia negra se despertar é preciso duas coisas: a
primeira é uma predisposição genética e a segunda é que a pessoa tenha um nível
elevado de magia branca, para garantir que o poder negro não vá destruir a
pessoa.”
“Como assim?”
“Bem,” explicou Finna, “a magia negra é
extremamente poderosa e muito poder num corpo mal preparado pode simplesmente
destruir uma pessoa. Por isso acho que ela possa estar despertando em você, se
tiver predisposição, claro, pois demonstrou hoje ser possuidora de uma grande
poder. Dê-me o dedo.”
Serena olhou desconfiada para a agulha e
para o tubo de ensaio. Não entendia o que Finna pretendia com aquilo.
“Como vai encher um tubo fazendo um furinho
de agulha no meu dedo?” indagou ela.
“Ah, não se assuste!” riu-se Finna, “Só vou
colher uma gota e depois usarei uma magia para que ela se multiplique e encha o
tubo.”
Serena respirou aliviada com a declaração de
Finna e estendeu sua mão. Finna foi ágil e delicada e num instante a gota já
estava no fundo do tubinho. Serena usou a magia da cura para reparar seu dedo
que formigava um pouco.
“Ouça e aprenda, Serena, pois essa magia
serve para multiplicar qualquer coisa viva ou proveniente de um ser vivo,”
falou Finna.
“Que os laboratórios de clonagem não a
ouçam!” brincou Serena.
“Ah, não se preocupe! Nós temos leis muito
rígidas sobre esse assunto,”
“Mas creio que no meu mundo não haja nenhuma
norma tratando sobre ‘clonagem mágica’”
“De qualquer forma,” começou Finna com um muxoxo,
“Essa magia tem um efeito colateral. Ela não multiplica as coisas por um e sim
por mil...”
“Por mil?!” espantou-se Serena, “Mas então
qual a serventia?”
“Coisas como essa: sangue, regeneração da pele, implantes
capilares...” disse Finna para o divertimento das duas. Após o momento de
diversão, concentrou-se na magia, “Anima, coactum quod complexo panton, potem
unde perturbare, unda, solum et ignem iunctum, id fragmen quod ele praesto
multiplicatum!”(Vida, força que envolve tudo, una os poderes do ar, água, terra
e fogo, multiplique este fragmento que lhe dou!).
Serena, após ficar admirando aquele sangue
que realmente se multiplicara, perguntou a Finna qual seria o próximo passo. A
bruxa respondeu-lhe balançando um pequeno frasco negro em sua frente.
“Aqui, aqui está o Revelador. É um líquido
reagente a base de óleo de farina, uma erva típica dos pântanos. Não vou nem
dizer o quanto isso é raro.”
“E qual a reação esperada?” perguntou
Serena.
“Bem, se a magia negra já tiver despertado,
o sangue adquira um tom arroxeado brilhante. Se o nível de magia branca já
tiver atingido o nível mínimo necessário para o despertar da magia negra mas se
não houver indícios dela no sangue, o que indica que você não tem
predisposição, o sangue se manterá na cor natural. Agora, se a magia branca não
estiver ainda no nível mínimo para o aparecimento da magia negra, o sangue
ficará verde limão opaco. Então costuma-se repetir o teste depois de algumas
semanas.”
As duas trocaram olhares e Finna abriu o
frasco negro, deixando cair três gotas no sangue de Serena.
Rey falava para as garotas como Finna
chegara séria no porão, pedindo para falar com Serena. As curiosas logo
começaram a pensar o que elas estariam fazendo e idéias mirabolantes logo
começaram a aparecer. Quando Ami já ia falar para Mina calar a boca e não falar
tanta besteira, Lita entrou, voltando da rua.
“Onde você foi?” perguntou Lua, levantando
do sofá, “Estava preocupada com você lá fora com essa chuva.”
“Ah, estava andando...” respondeu baixinho.
“Pois eu aposto,” intrometeu-se Mina, “que
ela estava com o Kayama no Crown!”
Rey e Ami lançaram um olhar inquisitorial,
esperando uma confirmação encabulada ou uma negação agressiva. Qualquer que
fosse a reação, ambas tinham certeza que ela realmente tinha estado com Kayama.
“De onde você tirou uma idéia tola dessas,
Mina?” gritou Lita.
“Não minta...” ciciou Ami dando um sorriso
maroto.
“Não estou mentindo!” defendeu-se Lita
prontamente e colocando o guarda-chuva encostado na parede.
“Então o que aconteceu com seu batom?”
indagou Ami, “Pois eu tenho certeza que você saiu de casa com um batom bem
vermelho e agora eu mal vejo um borrão rosa...”
Lita ficou extremamente sem jeito. Estava
pensando no que dizer quando uma explosão foi ouvida no porão; Rey logo chamou
por Serena e saiu correndo. Todas as garotas a seguiram, preocupadas.
Foi inesperado. Quando a terceira gota do
Revelador caiu no tubo de ensaio uma luz branca começou a emanar do frasco,
cegando Serena e Finna. Após isso, o tubo explodiu violentamente, lançando as
duas contra paredes opostas. Seguiu-se a isso o barulho fino e repetitivo dos
diversos caquinhos de vidro caindo no chão e o estrondo de 8 pés descendo a
escada com rapidez.
“O que aconteceu?” perguntou Mina ao olhar a
situação em que se encontrava o organizado e sempre limpo porão da casa de
Finna. Contudo, nenhuma das duas estava consciente para responder. Ami e Rey
foram até Serena e Lita e Mina aproximaram-se de Finna.
“Serena, acorde!” gritava Rey enquanto tava
leves tapinhas no rosto da amiga. Ami segurava firmemente a mão de Serena. Do
outro lado, as outras faziam o mesmo com Finna. Repentinamente, Darien desceu
as escadas e correu para o lado de Serena. Ami deu espaço para o rapaz que
acariciou os cabelos de Serena, chamando docemente seu nome. Darien chegou seu
rosto ao dela, beijando-lhe a face pálida e a boca mole. Rey levantou-se
discretamente e virou-se para o outro lado. Mesmo com essa situação, sentia que
uma ferida reabria em seu coração ao ver aquela cena.
Finna abriu lentamente os olhos, que
demoraram alguns segundos para recuperar o foco. No meio da sala localizou uma
pequena poça que emanava uma luz clara, agora não mais ofuscante. Direcionou
sua visão para as duas garotas que tinham-na acordado e que agora perguntavam
se ela estava bem.
“Sim, sim,” respondeu Finna com certa
impaciência, “digam-me onde ela está! Serena está bem?”
As duas olharam para trás e contaram a Finna
que ela parecia ainda estar desmaiada. A bruxa pediu ajuda para levantar-se,
ainda estava tonta, mas logo alcançou o corpo de Serena, estendido no chão.
Olhou com um misto de tristeza, espanto e angústia, sem saber que atitude
tomar. Entretanto, Serena abriu os olhos após os seguidos beijos de Darien.
Ao conseguir fixar a visão, tudo o que ela
conseguiu ver foi o rosto de Darien tão perto do seu. Sentia a respiração
quente dele em sua pele e via o rastro que as lágrimas deixaram no rosto do
amado, saindo do canto dos olhos e escorrendo até o queixo. Fazia dias que não
se aproximava tanto assim de Darien, dias que não sentia o aroma de sua pele,
que não tocava sua pele com seus dedos suaves, não provava o sabor dos seus
lábios... Instintivamente, beijou-o com ardor, abraçando seu pescoço com seus
braços ainda sem muita firmeza.
Finna
e as meninas afastaram-se para dar espaço ao casal, que com certeza desejaria
um momento para conversar com mais intimidade. Foram sentar-se nos sofás do
outro lado do porão, onde já estava Rey, que logo se retirara de perto dos dois
enamorados. Aquela cena fora para ela como um punhal entrando em seu peito que
doía, doía muito.
Sentando-se, Artemis aconchegou-se no colo
de Mina, que, em nome de todas, pediu que Finna contasse o que houvera, embora
ela mesma ainda não entendesse o que raios tinha acontecido ali.
Os lábios finalmente se separaram, deixando
no ar apenas a doce lembrança daquele momento. Serena logo sentiu-se culpada
por aquele ato impensado. Ele ajudou-a a se sentar, encostando na parede. Ela pareceu
preocupada aos olhos de Darien, mas ele resolveu esperar pelo que ela diria, o
que não demorou muito.
“Darien,” começou ela docemente, “desculpe
este beijo. Não queria reanimar suas expectativas, mas acho que, sem querer, eu
o fiz. Agora só quero deixar claro que não pretendo voltar com você tão cedo.”
“Mas, meu amor, nós podemos tentar
novamente, sem pressões...” disse ele.
“Não. Eu não quero isso. Não quero isso
agora,” concluiu ela com calma. Os olhos de Darien foram perdendo a luz que
estavam emanando nos últimos minutos, a luz proveniente do amor. Ela sentiu-se
mais culpada ainda, por causa tanta decepção. Mas era melhor assim.
“Ajude-me a ir até Finna,” pediu a Darien,
estendendo a mão, “precisamos descobrir o que aconteceu.”
Finna estava contando como a luz ocupou
todos os espaços repentinamente e houve aquela tremenda explosão quando Darien
e Serena chegaram. Lua pulou no colo de sua dona e lambeu-lhe os dedos.
“Aquilo não devia ter acontecido. Não
entendo o que houve!” terminou Finna.
“Mas não há nenhum relato sobre este
comportamento do Revelador? Isso nunca aconteceu antes nesse mundo?” perguntou
Ami.
“Não. E ainda tem mais, pois eu não entendo
como uma substância como o Revelador, originário de uma erva utilizada somente
na magia negra, possa ter emitido luz tão brilhante. É magicamente impossível!”
indignou-se Finna.
“Bom, então só podemos concluir...” ia
dizendo Ami quando Serena a interrompeu.
“Sim,” disse a princesa, “a luz só pode ter
vindo do meu próprio sangue.”
Ami
espantou-se com o fato de Serena e ela terem chegado a mesma conclusão ao mesmo
tempo. A princesa parecia estar mudando realmente. A cada dia se mostrava mais
austera, compenetrada nos estudos, mais madura... O que estaria ocasionando
essa transformação? Seria isso bom ou mau? As dúvidas assaltavam a mente
perspicaz e observadora de Ami.
“Mas como essa luz pode ter saído do sangue
de Serena?” perguntou Lita sem entender como tal coisa podia ter acontecido.
Serena levantou-se repentinamente, atraindo
a atenção de todos para si. Ela passou o olhar vagarosamente por todos,
encarando uma a um antes de falar.
“Como tal luz pode ter saído de mim?”
começou Serena, “Certamente essa é uma pergunta que também me intrigava. Minha
mente estava turva, mas como uma brisa afasta as nuvens, algo dentro de mim
limpou meus pensamentos, e agora eu vejo claramente o que aconteceu.”
“O quê? Fale-nos, por favor,” pediu Mina,
inquieta.
“Calma, já falarei,” continuou a princesa,
“Quando retomamos nossos poderes, recebemo-los no estágio inicial, tanto que eu
agora uso novamente o Prism Brooch para me transformar. Contudo, ainda temos a
habilidade de desenvolvê-los, até que voltem à fase avançada. Isso significa
que posso recuperar o Cristal de Prata e portanto, ele só pode estar latente
dentro de mim,”
Ami sorriu ao entender o que havia
acontecido. Serena descobrira tudo antes dela, o que provava novamente que a
princesa estava realmente mudada.
“Este magnífico poder do Cristal de Prata,
que dorme dentro de mim, reagiu quando entrou em contato com o líquido
Revelador, de natureza puramente malígna. Esse choque de forças, bem e mal,
ocasionou a explosão que vimos. Contudo, deixarei que Ami acabe o que tenho a
dizer pois ela já deve estar morta de ciúme por eu ter roubado dela o posto de
‘descobridora de mistérios nº1’ do nosso grupo,” acabou Serena com humor.
Ami levantou-se encabulada, mas levou tudo
na brincadeira. Suspirou, preparando-se para acabar o que Serena dizia.
“Primeiramente, gostaria de dizer que não estou
com ciúme, mas sim com muito orgulho da nossa princesa,” iniciou Ami, “Agora
posso continuar. O fato é que o poder do Cristal de Prata nunca causaria uma
explosão daquelas porque ele nunca arriscaria machucar um inocente, muito menos
a princesa. Então podemos deduzir que o que causou o estouro foi o Revelador,
que reagiu com o poder benigno do Cristal de Prata. A luz foi um efeito do
Cristal, que tentava neutralizar o poder maléfico do Revelador.”
Ami sentou-se ao lado de Serena e as duas
trocaram olhares de cumplicidade, esperando por alguma pergunta que não tardou
a vir.
“Mas então, com o poder do Cristal, a Serena
nunca poderá desenvolver a magia negra, mesmo que tenha o dom para isso, não?”
indagou Artemis.
“Errado,” disse Serena, “Se eu tiver o dom
para a magia negra, e eu rezo para isso, poderei desenvolvê-lo assim que eu
evoluir meus poderes de Senshi, expelindo o Cristal de Prata de dentro do meu
corpo. Assim ele ficará a salvo e longe de poderes malignos, dentro do Crystal
Compact.”
“Mas para isso,” continuou Ami, “teremos que
lutar muito. E a nossa fonte de inimigos é Titã.”
“O que significa que dependemos de Titã para
que Serena possa tentar desenvolver sua magia. Ele terá que nos atacar muito
para isso e, pela primeira vez, gostaremos de ser atacados,” concluiu Darien.
Todos ficaram em silêncio, pensando no que
estaria por vir.
A noite, quando todos já dormiam, exaustos
com os acontecimentos do dia, Mina foi encontrar-se com Takeru, como fazia
todas as noites, sob frio ou calor, chuva ou vento. Agora eles podiam
intitular-se namorados, pois seus encontros tornavam-se cada ver mais ardentes,
e ela esperava passar cada momento do dia para poder vê-lo novamente.
Obviamente havia uma barreira de segredos entre eles, que Mina acreditava não
existir só do lado dela. Mina escondia o seu namoro de todos da casa,
principalmente de Finna, e ainda não podia falar com ele dos problemas que
estava vivendo no dia-a-dia. Contudo, ela sentia que ele também escondia algo,
pois nunca a convidava para sua casa, nunca a levava lá, sempre tinham que
ficar namorando no jardim da biblioteca. Qual era seu segredo? Dúvidas não
saiam da cabeça de Mina.
“Oi..” disse ela sentando-se ao lado de
Takeru, “O que está estudando hoje?”
“Nada,” respondeu ele fechando o livro,
“Estou só lendo uma história comum,”
Mina interessou-se e quis saber qual era e
ele passou-lhe o livro, nem muito grande, nem muito pequeno. Ela abriu com
entusiasmo mas logo seus olhos se arregalaram.
“Irch! É poesia!” exclamou Mina.
“Não
é só poesia,” explicou Takeru, “É um belo e clássico poema épico escrito por um
inglês, John Milton, no século 17. Paraíso Perdido é um ótimo livro.”
Mina encabulou-se, devolvendo o livro para
Takeru. O seu gosto por leitura não era tão extenso, parava nos romances e
aventuras; nem de suspense e terror ela gostava muito.
“Não se acanhe, Mina,” falou ele, percebendo
que ela não entendia muito de literatura, “Agora que você chegou eu não preciso
mais de livro nenhum,”
Takeru beijou-a longamente, envolvendo-a com
seus braços fortes. Mina sentiu a mão dele, forte, acariciar seus cabelos, e,
notou que quando ele a beijava ela sempre se rendia, entregava-se, esquecia
tudo o que estava pensando há um momento atrás. Ele finalmente afastou-se, não
muito, mas o suficiente para os lábios se separarem.
“Eu preciso te dizer uma coisa,” murmurou
Mina.
“Então fale,” pediu Takeru.
“Sabe,” começou ela, “Nosso namoro tem sido
informal, livre de pressões, sem um real compromisso. E eu gosto disso, gosto
de não me sentir presa a uma pessoa. Mas tenho que falar uma coisa a você,
tenho que mostrar meus reais sentimentos,”
“Mina, nada do que você falar vai mudar meus
sentimentos,” falava ele quando foi interrompido.
“Eu te amo. Estou completamente apaixonada
por você,” disse Mina de uma vez só.
Takeru espantou-se. Mina nunca tinha deixado
transparecer que o que sentia por ele era tão forte, tão importante. Na sua
cabeça ele achava que estavam apenas curtindo bons momentos um com o outro, mas
via que na dela era tudo diferente.
“Mina,” disse ele com calma, escolhendo
cuidadosamente as palavras, “Eu fico muito feliz por saber que você me ama
assim tão... explosivamente, mas...”
“Mas você não me ama, não é?” completou
Mina.
“Bem, não é assim também. O fato é que eu
não estou certo dos meus sentimentos. Eu tenho um carinho muito grande por
você, adoro estar ao seu lado mas ainda não sei se eu realmente amo você.”
“Eu sabia, isso não me surpreende,” falou
Mina se levantando, “Sabia que isso iria acontecer, mas não podia mais esconder
o que estava sentindo. De qualquer forma, foi bom estar com você...”
Mina disparou para a saída com lágrimas
incessantes nos olhos. Quando já havia se distanciado da biblioteca seus
pensamentos voltaram ao normal. Mais uma vez se apaixonara e mais uma vez
estava sofrendo. Definitivamente, o amor não era para ela.
Takeru ficou parado por um instante, vendo
Mina ir embora. Como podia tê-la magoado daquela maneira? Não devia ter falado
aquilo para ela, podia ter esperado, dado um tempo para ver como as coisas se
encaminhariam. Mas agora o leite já entornara e nada mais poderia ser feito.
Levantou-se e pegou sua capa, que vestiu, ganhando as ruas em seguida.
Quando faltavam apenas dois quarteirões para
chegar em casa, Mina notou que tinha deixado sua bolsa na biblioteca. Em outras
ocasiões buscaria nos achados e perdidos no dia seguinte, mas dentro dela
estava sua adaga, pois Finna deixou claro que não deveriam se separar dela em
hipótese alguma. Ia ser desgastante voltar lá, mas não tinha escolha.
Darien surgiu de repente enquanto Serena
tomava um copo d’água na cozinha. Em silêncio abraçou-a por trás, apoiando o
queixo no ombro dela.
“O que faz aqui?” perguntou Serena.
“Estava acordado quando ouvi você passar e
vir até aqui,” respondeu.
“Darien,” disse ela, tentando inutilmente se
desvencilhar dos braços dele, “Me solte, que quero dormir.”
“Comigo?” perguntou ele, beijando o pescoço
de Serena com paixão.
Serena suspirou, tentando conter seus sentimentos,
que palpitavam em seu peito. Seu coração já estava disparado e as palmas das
mãos molhadas com suor. Respirava ofegante quando Darien virou-a e beijou
longamente seus lábios.
“Pare...” murmurou Serena, afastando-se o
máximo que podia de Darien, que ainda a prendia pela cintura, “Deixe-me ir...”
“Só se for para o nosso quarto,” falou ele,
apertando seu corpo contra o dela e roubando-lhe outro beijo.
Serena lutava contra os seus instintos mais
primitivos, que mandavam que ela esquecesse tudo mais e vivesse plenamente o
momento. Entretanto, sua razão bloqueava sua mente e fazia com que ela evitasse
o quanto conseguisse os toques e carinhos de Darien.
“Meu amor,” falou ele ao seu ouvido, “Não
resista... Eu sinto que você quer que tudo volte a ser como era...”
“Não... pare, por favor...” dizia ela com a
voz mole, “não faça isso... eu não consigo mais resistir...”
Darien, ainda abraçado a ela, guiou-a para o
seu quarto e fechou a porta com um estrondo.
Com esse estrondo, Serena acordou assustada
e nervosa, percebendo que tudo não passara de um sonho. Sentia-se suada e ardia
com um calor indiano. Olhou em volta e viu que Rey estava rezando ante o fogo,
compenetrada.
“Acordou, Serena?” perguntou a morena sem se
virar.
“Sim,” respondeu ofegante.
“Teve um pesadelo? Está tão nervosa...”
estranhou Rey, levantando-se e indo até Serena.
“Não... não foi um pesadelo...” murmurou.
“Sonhou com Darien?” deduziu Rey,
sentando-se ao lado de Serena e pegando sua mão trêmula, “Acho que só ele te deixaria
nesse estado.”
Serena baixou os olhos, encabulada,
respirando fundo para se acalmar. Sua camisola estava colada ao corpo e
revelava sua respiração rápida.
“Eu disfarço tão mal assim?” perguntou
Serena.
“Bem,” começou Rey, “Você não é a melhor
atriz que eu conheço, mas acho que eu que te conheço bem demais. E também sei
como você se sente com essa situação.
As duas trocaram um olhar de confiança e
resolveram dormir logo de uma vez, pois um dia longo estava por vir.
Com passos rápidos, Mina aproximava-se
velozmente da biblioteca. Retardou um pouco o andar ao chegar lá, pois estava
ofegante e tinha que ganhar forças para a volta. A sua bolsa estava no mesmo
lugar que deixara, sobre o banco do jardim. Pegou-a e rumou para casa.
Andava por uma rua mal iluminada que, como
as outras, estava deserta. Ela nunca tinha prestado atenção nos lugares que
passava, pois sempre voltava envolta em seus sonhos românticos. Contudo, agora
ela prestava atenção a cada ruído, cada sopro do vento que fazia farfalhar as
copas das árvores. Tinha maus pressentimentos sobre aquela rua, sentia que ia
acontecer algo.
E aconteceu.
Mina ouviu gritos desesperados que vinham de
um beco, um pouco adiante. Quanto mais se aproximava, mais alto ouvia os berros
femininos, clamando por ajuda. Mina pensou em fugir, mas seu espírito de
justiça não permitiu. E se a mulher estivesse sendo violentada? Não poderia
deixar isso acontecer e desviar do caminho.
Quando chegou no beco, os gritos diminuíram,
transformando-se em lamúrias desconexas. Mina deu mais um passo e olhou para
dentro do beco escuro. Dentre muitas latas de lixo, viu um vulto debruçando-se
sobre uma mulher, apertando-a contra seu corpo. Tinha que tomar uma atitude
rápida. Tirando a adaga de topázios da bolsa Mina deu mais dois passos para
frente.
“Solte ela seu maldito!” berrou Mina.
O vulto amoleceu os braços, deixando a
mulher cair no chão, parecendo estar desfalecida. Por sorte, alguns sacos de
lixo amorteceram a queda. O vulto virou-se e saiu do fundo do beco,
aproximando-se da fraca luz que vinha da rua.
Os olhos de Mina arregalaram-se tentando ver
as formas daquele imundo. Ela quase caiu de costas quando percebeu que sob uma
grossa capa preta estava Takeru. Ele baixou o capuz e finalmente viu com clareza
o rosto de Mina, assustada. Seu segredo começava a emergir.
“O que raios você estava fazendo com
ela?Takeru, o que você estava fazendo?” perguntou Mina com um misto de susto,
raiva e nojo. Conforme ele se aproximava dela, Mina ia dando passos para trás,
tentando ganhar a rua iluminada.
“Calma, eu vou te explicar, Mina, não pense
mal de mim,” pedia Takeru, sempre avançando.
“Como posso ter calma?! O homem com quem eu
me encontro, aquele que eu confio, que eu amo... Este homem estava estuprando uma
mulher na calada da noite! E ainda me pede calma!” gritou Mina, finalmente
saindo do beco e sendo iluminada pela pouca, mas útil, luz da rua. Takeru foi
saindo do beco e ela parou por um momento, erguendo a adaga na altura de seu
peito. Mas quando ele saiu totalmente da escuridão, Mina levou mais um choque.
“O que é isso?” perguntou ela, insegura, ao
olhar para ele.
Takeru tinha sangue em toda metade inferior
do rosto, o líquido vermelho cobria-lhe a boca, queixo e parte do nariz. Ele,
ao notar o pavor no semblante de Mina, limpou a face com a manga da capa,
deixando apenas resquícios ínfimos que relutavam em sair.
“O que é isso?” berrou Mina novamente por
não ter obtido nenhuma resposta, “Você matou aquela mulher? Por quê? O que
diabos você fez com ela?”
“Mina, eu não a matei, acalme-se. Também não
a estuprei. Eu não sou um monstro, quer dizer, eu não sou um criminoso...”
disse ele de cabeça baixa.
“Como não?” relutou Mina, “Primeiro eu ouço
gritos desesperados, depois vejo você debruçado sobre uma mulher que cai
desacordada e agora tenho que acreditar nessa desculpinha barata mesmo
assistindo à cena de você limpando sangue do próprio corpo? Tenha dó!”
“Mina,” falou Takeru, e ergueu lentamente a
cabeça. Os olhos de Mina se esbugalharam até quase cair das órbitas, e ela
segurou com mais firmeza sua adaga. Mostrando-lhe os olhos brilhantes cor de
fogo e as duas presas afiadas que saiam de sua boca, ele completou, “Eu sou um
vampiro.”
No começo ela pensou que fosse desmaiar, mas
o medo não permitiu que ela perdesse a lucidez a menos de 10 metros de um
vampiro. Juntou toda a coragem que lhe restava e, num movimento preciso, jogou
sua adaga no peito de Takeru, a qual, como um dardo, perfurou a carne do rapaz,
que gritou desesperado. Ele tentou tirar a adaga, mas, quando a tocou, ela
transformou-se em brilhantes raios de sol, voltando para as mãos de Mina.
Takeru olhou sua mão, que fora um pouco queimada pela luz solar, com sorte
pouca e sem muita força, que lhe atingira.
“Mina, por que fez isso?” indagou Takeru,
“Não pode me matar com isso, mas eu sinto toda a dor de ter uma adaga cravada
no peito. Principalmente após o sangue.”
“Você merece a dor. Você tomou o sangue de
uma mulher que agora está morta por sua causa,” disse ela com indignação e ódio.
“Não, eu não a matei,” retrucou Takeru,
“para que ela não tivesse o sofrimento de viver como uma vampira para sempre,
eu fiz com que ela caísse num sono profundo, do qual nunca mais despertará.”
“O que, de certa forma, é a morte,” falou
Mina, preparando-se para jogar a adaga novamente em Takeru.
“Não faça isso!” gritou ele, recolhendo as
presas e voltando à aparência normal, “Eu não vou atacar você!”
“Quantos já padeceram em suas mãos?”
perguntou Mina, “É por todos eles que eu desejo sua morte!”
“Mas não pode me matar com isso! E veja,”
disse ele, passando a mão no peito, “ o ferimento que fez há pouco já
cicatrizou.”
A raiva, o desespero e até a mágoa por ter
se enganado tanto com um homem fizeram Mina disparar contra Takeru e jogar-se
sobre ele, apunhalando-o seguidamente com sua adaga. Ele tentou desvencilhar-se
dela com jeito, mas, não conseguindo, segurou o braço de Mina com força, muito
mais força que qualquer humano sonharia em possuir. Ele forçou o braço até que
Mina deixasse a adaga cair e então a virou, ficando ele por cima dela e
dominando-a totalmente com sua força sobrenatural.
“O que vai fazer comigo?” indagou Mina com
voz trêmula.
“Nada, já falei,” respondeu ele, sem
soltá-la “Só quero que entenda que eu não sou o que sou por minha vontade e nem
gosto do que faço. Cada uma das minhas vítimas é um peso que carrego nas
costas, um pecado que está além do julgamento humano e que só receberá sentença
no dia do juízo final. Até lá viverei com esse fardo, e ninguém, por mais que eu
ame essa pessoa, tem o direito de me condenar,” terminou ele, soltando Mina e
virando-se de costas para ela.
“Ele disse que me ama,” pensou Mina, “Acho
que ele nem percebeu direito o que estava fazendo, mas ele disse que me ama...”
“Por isso,” continuou Takeru, “Espero que
você compreenda que isso é um segredo do qual depende minha vida e não o revele
para ninguém. Não está em suas mãos decidir como e quando eu expiarei meus
pecados,”
“Não contarei a ninguém,” falou Mina, “mas
não quero te ver nunca mais!”
Ela saiu correndo, em direção a sua casa e
lágrimas romperam a casca destemida de Mina, mostrando todo o seu pavor e
sofrimento. Takeru virou-se ao perceber que Mina estava indo embora e uma
angústia e dor invadiram seu coração que há anos estava vazio e gelado. Uma
lágrima teimosa escorreu do canto do seu olho esquerdo.
Enquanto corria, flashbacks de seus momentos
com Takeru passavam por sua mente e Mina não entendia como podia ter se
enganado tanto com alguém. Com Alan também se enganara, achando que ele a amava
enquanto o que o rapaz sentia era só um carinho enorme por uma irmã mais nova.
"Pelo menos ele não era um vampiro,"pensou Mina, com sarcasmo. Ainda
as palavras de Takeru estavam em sua mente e ela não parava de pensar em como
Takeru disse que a amava. Num impulso, sem pensar, mas disse. O que isso
importava agora é que ela não sabia, pois conhecia seu segredo macabro e
nenhuma jura de amor faria ela esquecer esse "detalhe". Contudo, ao
chegar em casa, o coração de Mina, contra a vontade da dona, ainda pulsava
acelerado de felicidade.
Takeru também tomou o rumo de sua casa, mas
andando calmamente. Agora, depois que a tempestade havia passado é que ele
notava o que estava acontecendo dentro de seu peito. Percebia como ele tinha dito
instintivamente a Mina que a amava. Seu coração se apertava ao lembrar da
promessa que ela fizera em nunca mais vê-lo. Há horas atrás ele não tinha
certeza do que sentia, mas tudo tinha ficado claro para ele e neste momento
sabia que estava apaixonado. Seu coração frio estava aquecido, e não era pelo
sangue quente que tomara, mas sim pelo amor que descobrira dentro de si. Ainda
podia amar; mesmo sendo dessa natureza monstruosa ainda podia amar. Contudo,
era tarde demais para descobrir seus verdadeiros sentimentos, pois Mina agora o
odiava, tinha nojo de sua existência vil. Mesmo assim, mesmo tendo sido pungido
por ela, a amava.
A noite não foi boa para Mina e ela não
conseguiu dormir nenhuma das poucas horas que lhe restavam. O resultado foi que
teve de levantar com o corpo cansado e dolorido, a mente girando com tudo que
descobrira e o coração despedaçado por seu amor impossível. Contudo, seu
consolo era que ninguém estava realmente bem, excetuando-se Ami e Lita, que
sonhavam acordadas com seus novos amores. Serena estava com uma cara péssima,
parecia que a noite tinha sido das piores, e Rey acordou emburrada, como estava
desde o dia anterior, depois da explosão. Darien continuava com aquela cara de
desanimo por causa do descaso de Serena, que continuava a rejeitá-lo. Mesmo Lua
e Artemis estavam irritados, pois tiveram uma discussão por causa de uma
espinha de peixe na noite anterior. O clima realmente estava tempestuoso.
Todos da Guilda dos Conjuradores Reais
estavam chegando, após o café da manhã. Logo foram assumindo seus postos e
começando suas pesquisas e tarefas diárias. Um estalido metálico que se
aproximava fez com que tremessem e se levantassem, pois o ruído denunciava que
Titã se aproximava.
“Que bom que já estão aqui,” disse Titã,
entrando na sala, “Podem sentar-se.”
Obedeceram prontamente às ordens e o chefe
daquela seção veio ter com o príncipe das trevas.
“Que bom que está aqui, alteza,” falou o
rapaz, que devia ter uns 27 anos e era
bonito o suficiente para arrancar elogios de todas as mulheres do
palácio.
“Hiroi, poupe-me de bajulações e palavras
sem sentido, eu e o palácio inteiro sabemos que você me odeia,” sentenciou
Titã, sentando-se na confortável cadeira que pertencia a Hiroi.
“Saiba que irei embora quando vossa alteza quiser...”
disse ele, com falsa modéstia.
“Hiroi, sabe muito bem que eu não misturo
assuntos de trabalho e assuntos pessoais. E você é o melhor conjurador de toda
a Via Láctea,” começou Titã, “Acho também que está a par dos últimos
acontecimentos que o seu grupo mesmo colocou no último relatório.”
“Sobre o feitiço de energia nível B que
aquela tal de Serena Tsukino executou? Sim, eu mesmo acompanhei o ‘incidente’.”
“Bom, bom,” falou Titã, “Quero então que
vocês parem com esses monstros primários que estão enviando para combatê-los.
Já que estão tão poderosos, quero que conjure um à altura deles. E não quero um
serviço amador, desejo que estudem seu movimentos nas últimas batalhas com
cautela e enviem algo que dê realmente trabalho. Um inimigo potencialmente
letal.”
“Mas foi o senhor mesmo que disse que não
deveríamos colocar a vida deles em risco, já que vossa alteza queria ter o
prazer de destruí-los com as próprias mãos.”
“Sim, eu sei. Mas agora não faço mais
questão. Tem permissão para matá-las.”
“Certo,” disse Hiroi com um sorriso
malévolo.
Titã levantou-se, indo em direção a saída.
Ao chegar na porta, estacou.
“Ah, tem mais uma coisa,” falou ele, “quero
que esse trabalho seja supervisionado em todos os momentos por uma pessoa de
minha total confiança.”
“É só indicar quem,” concordou Hiroi.
“Dra. Verdammt Schrübel,” disse Titã e saiu
da sala, deixando Hiroi extremamente irritado com a nomeação.
Minutos depois, Verda chegou a Guilda, já
sabendo da nomeação.
“Que coisa, não Hiroi,” disse ela, “Acho que
teremos que trabalhar juntos...”
Ele olhou profundamente para ela e a levou
para uma sala onde não havia ninguém, puxando-a pelo braço. Sua boca espumava
de raiva por ter que conviver com Verda.
“Pronto, agora estamos a sós,” começou ele,
trancando a porta, “Eu te trouxe aqui para deixar bem claro que não me agrada
em nada trabalhar com você, mas, como não tenho escolha, gostaria que me
deixasse em paz e se resumisse a assuntos de trabalho,”
“Oh, belo discurso!” falou Verda com sarcasmo,
“Pena que não faz o menor efeito em mim, pois minha maior diversão neste
serviço é ver sua cara de derrotado.”
“Eu não sou um derrotado,” retrucou Hiroi.
“Ah, é sim,” disse ela, “Olha que
interessante: o gostosão do palácio, aquele que se acha o máximo, que tem todas
as mulheres aos seus pés, é o perdedor mor da corte, porque não pode ter a
única mulher que lhe interessa. É muito engraçado.”
“Verdammt, você é desprezível.”
“E você gosta. Pena que nunca vai me ter ao seu
lado, não importa que esforços faça. Eu odeio toda essa raça metida de
conjuradores. Odeio vocês, homens, cheios de empáfia e falsa moral.”
Hiroi olhava para baixo engolindo todos os
desaforos que ela dizia. Era demais para qualquer mortal.
“Sim,” começou Hiroi, “a corte inteira sabe
desse seu desprezo em relação aos homens, embora não se saiba o motivo. Mas há
um ao qual você sempre se submete, como uma cadelinha no cio.”
“Você não tem o direito de falar do que você
não sabe,” falou Verda, indgnada.
“Eu falo o que eu quero!” respondeu Hiroi,
“Você dispensa a todos, mas Titã é, como diria, um amante VIP. Sabemos que vocês vivem às turras, mas é só
ele estalar os dedos que você esquece tudo e se entrega a ele sem rodeios, não
é mesmo?”
“Cale a boca seu nojento,”
“O que é isso?” continuou Hiroi, “É poder
que você quer? O que ele te dá em troca? Poder? Carta branca para mandar e
desmandar? É esse o seu preço?”
“Fale mais uma palavra sobre isso e eu não
respondo por mim,” falou ela com os olhos vermelhos de raiva.
“Vai fazer o quê? Chorar no colo de Titã? Eu
sei que a verdade dói, minha querida. O meu poder era muito pouco para você, eu
sei. Você queria mais, ainda quer mais, quer a coroa, não? Isso não vai ter,
Verda, ele não lhe quer ao seu lado, só deseja seu corpo...”
Hiroi falava isso e mais ofensas quando
Verda saltou sobre ele, tirando um punhal que ficava preso em sua canela. Os
dois rolaram no chão, mas Hiroi, muito mais forte, conseguiu dominá-la e tirar
a arma de sua mão.
“Nossa, vai querer me matar? Acho que vossa
alteza não vai gostar disso, querida, ele precisa dos meus serviços. Seu poder
com ele ainda não está tão alto...”
“Me solte seu idiota!” gritou Verda,
debatendo-se.
Hiroi, aproveitando seu momento de
dominação, beijou Verda, que resistiu, dando-lhe uma cusparada no rosto. Ele
largou-a, surpreso, limpando a face com a manga da túnica. Verda saiu batendo a
porta e ele foi atrás.
“Isso não vai ficar assim, sua maldita!”
berrou com a metade do corpo para fora da porta, “E esteja aqui em meia hora
para começarmos o trabalho!” terminou, encerrando-se novamente na sala. Toda a
equipe de conjuradores silenciou, observando atônitos aquela cena.
Verda foi andando rapidamente pelos
corredores, limpando a boca incessantemente, como se tentasse arrancar a
lembrança daquele beijo fatídico. Entrou em sua sala batendo a porta e foi
tomar um copo d’água para se acalmar.
“Odeio! Odeio todos os homens!” gritou Verda
descontrolada e jogou o copo de cristal contra a parede, que estilhaçou em mil
pedaços brilhantes. Verda subiu o olhar e viu, no alto da mesma parede, um
quadro com Titã sentado no trono.
“Você também!” exclamou baixinho, com
moderação, “Odeio você! No início achei que era diferente dos outros homens,
mas agora eu já sei que não. Todos são iguais”.
Verda enxugou as lágrimas de ódio que saiam
de seus olhos e serviu mais um copo d’água, pois previa que ainda teria que
aturar Hiroi por muito tempo.
“Ei, Mina, o que pensa que está fazendo?!”
gritou Finna, irritada, “Desde que começamos você não conseguiu se concentrar
nem por um minuto!”
Mina baixou os olhos, sem saber o que dizer.
Ela bem que estava tentando, mas sua cabeça não parava de pensar na noite
anterior. Todos olhavam para a cara zangada de Finna.
“E vocês,” continuou Finna, falando aos
outros, “Não pensem que estão muito melhores que ela. Hoje, ninguém, tirando
Ami, está fazendo nada direito! O que há com vocês?”
Nenhum deles ousou responder, até que Ami
intercedeu pelos amigos.
“Finna,” disse ela, “acho que estamos todos
exaustos e preocupados, além de estarmos treinando dias a fio. O stress
desconcentra a qualquer um...”
“Bem, bem...” murmurou Finna, “Estão
querendo uma folga?”
Ninguém respondeu, mas o olhar brilhante de todos deu a Finna a resposta que ela precisava.
Após serem dispensados, começaram a
conversar sobre o que fazer.A maioria não queria sair, então decidiram jogar
cartas. Ami e Mina foram as duas que não quiseram ficar, pois a primeira ia encontrar
Yan e a outra queria dar uma volta e respirar ar fresco. Saíram juntas e Ami
logo demonstrou preocupação.
“Mina,” começou ela, “eu sugeri essa folga
para Finna em nome de todos, mas realmente você era a que estava mais estranha.
Está com algum problema?”
“Nã-não...” gaguejou Mina, espantada com a
sensibilidade aguçada de Ami, que percebera seu estado.
“Entendo,” disse Ami, “você não quer ou não
pode falar... Mas saiba que eu gostaria de te ajudar no que fosse preciso.”
“Sim, eu sei...” murmurou em resposta.
“Às vezes não desejamos compartilhar nossas
aflições com os outros,” continuou Ami, “mas, por experiência própria, sei como
é difícil suportar todos os problemas sem ter com quem falar,”
“Ami, eu fico muito feliz com sua
preocupação comigo,” falou Mina.
“Sou sua amiga, Mina, e posso aconselhar
você em situações difíceis se assim desejar. Não precisa entrar em detalhes,”
persuadiu Ami, interessada no que estava deixando a expressão de Mina tão
fechada.
“Eu...” começou Mina, indecisa, “eu conheci
um rapaz, e saí com ele em segredo algumas vezes. Só que descobri uma coisa
terrível sobre ele, abominável mesmo...”
“Hum...” murmurou Ami, pedindo para Mina
continuar.
“E agora não sei o que fazer. Tenho certeza
que estou apaixonada por ele e que esse sentimento é recíproco, mas não sei se
posso levar adiante um relacionamento como esse, tão... tão estranho e
secreto.”
“Mas o que você descobriu é algo tão grave
assim?” perguntou Ami.
“É. Você não faz idéia do quanto.”
“Acho que se for algo ilegal...” dizia Ami,
quando Mina a interrompeu.
“Não sei se é algo propriamente ilegal. O
fato é que isso faz parte da vida dele e não pode ser mudado, mas também causa
danos a outras pessoas.”
“Mas se envolve negativamente outras pessoas
não pode ser uma coisa boa,” falou Ami com dureza.
“Por isso que estou em dúvida,” continuou
Mina, “Ao mesmo tempo que é uma coisa ruim, não deixa de ser de certa forma
‘natural’. Posso comparar aos ciclos de vida, em que há o predador, que mata, e
a caça, que é morta, mas mesmo assim não podemos dividi-los em vilões e
mocinhos, entende?” Mina tentou explicar.
“Mais ou menos,” respondeu Ami, intrigada
com as confusões de Mina. Como ela conseguia arranjar tanto problema sem
ninguém perceber? “Acho que se é assim, você tem que tomar essa decisão ouvindo
seu coração e sua mente, descobrindo qual dos dois fala mais alto,”
“Ami, eu estou apaixonada! É claro que meu
coração fala mais alto!” disse Mina sem entender aonde Ami queria chegar com
isso.
“Disso eu sei,” sentenciou Ami, “Mas o que
tem que perguntar a si mesma é se depois, se as coisas não derem certo, você
vai agüentar o peso da decepção e do arrependimento,”
“Mas que conselho mias pessimista...”
resmungou Mina.
“Não é não,” contrariou Ami, “é um conselho
realista. Pelo pouco que você me disse, esse romance misterioso tem tudo pra ir
por água abaixo, deixando só tristeza e mágoa para trás. Agora, se você acha
que vai agüentar toda a dor do final, viva os momentos felizes com intensidade,
realize suas fantasias, aproveite cada segundo como se fosse o último, faça
loucuras, ame sem restrições.”
Mina parou de andar ao ouvir as palavras
finais de Ami. Ficou olhando fixamente para ela, que também parou ao seu lado.
Não disse nada, simplesmente abraçou-a com firmeza e emoção.
“Sabe, Ami,” sussurrou Mina ao pé do ouvido
da amiga, “seus conselhos foram de grande valia para mim. Inicialmente, achei
que não pudesse me aconselhar em assuntos de amor, ainda mais com os
pouquíssimos detalhes que eu podia dar, mas fiz um julgamento errado. Sim,
errei pois mesmo tendo convivido tanto tempo com você, desconhecia essa Ami
passional que existe dentro dessa casca dura e certinha. Você é uma pessoa
muito completa, talvez a mais completa dentre todas nós.”
“Não fale assim,” disse Ami, encabulada,
enquanto se desentrançavam, “Eu sou cheia de falhas, como todos. Mas agora
vamos mudar de assunto, certo? Marquei com Yan numa sorveteria aqui perto, quer
ir conosco?”
“E segurar a maior vela da paróquia? Nem
pensar!” exclamou Mina, rindo.
“Não tem vela nenhuma, Mina, vamos só tomar
um sorvete!” falou Ami.
“Sei, sei... Só se for o sorvete sabor
‘beijos apaixonados’, não?” continuou Mina, observando a cômica expressão
encabulada de Ami.
“Eu já disse que não tem vela nenhuma, mas
se você não quer ir...” murmurou Ami, “O que pretende fazer agora?”
“Vou dar uma volta e tomar uma decisão muito
importante,” sentenciou Mina.
“Então acho que nos separamos aqui. Boa
sorte!” incentivou Ami.
“Obrigada,” agradeceu a loira, enquanto
tomavam direções opostas.
Em alguns minutos Ami sentava-se na
sorveteria marcada, aguardando seu acompanhante, que estava atrasado. Logo
ficou impaciente, tamborilando os dedos no tampo da mesa, quando Yan veio sorrateiramente
e beijou-lhe os lábios com paixão.
“Finalmente ganhei um beijo da minha
amada...” sussurrou ele ao ouvido de Ami, sentando-se ao seu lado.
“Acho que a palavra ‘ganhei’ não é a mais
adequada, não?” falou ela com ironia, “Isso está mais par roubar,”
“Mas dessa vez você não resistiu, me beijou
também, então posso dizer que ganhei um beijo seu. E foi um beijo apaixonado,”
disse Yan, sorrindo.
“Me traga um sorvete de menta e ganhará
mais...” pediu Ami.
“Certo. Mas eu vou cobrar, hein?” brincou
Yan, se afastando.
Enquanto olhava ele ir comprar sorvete, Ami
levou a mão aos lábios, fechando os olhos e deliciando-se com a lembrança
daquele beijo. Se Yan olhasse para trás naquele exato momento, veria que dentre
as auras das muitas pessoas que estavam ali, a de Ami era única que flamejava
em um vermelho ardente.
Logo ele voltou, trazendo também um sorvete
de coco para si. Antes de se sentar, foi cobrar o beijo que Ami lhe devia. Os
lábios, que se aproximavam, foram interrompidos por um barulho estridente.
“Alô,” falou Yan, atendendo seu celular,
“Sim, está tudo bem,”
Ami olhou para Yan, que tinha o cenho
franzido. Achando graça, sentiu-se trocada pela tecnologia.
“Claro,” dizia Yan ao telefone, “Está o
acompanhando? Não o perca de vista, certo? Estou indo!” terminou, desligando o
celular e virando-s para Ami, “Vou ter que ir. É um assunto de trabalho e não
posso demorar. Desculpe... Passe na minha casa às 18 horas, OK?”
Assim, com essas palavras, Yan se despediu e
saiu correndo, sem tempo para qualquer palavra de Ami, que ficou espantada e
intrigada com tanta pressa. Olhou para a mesa e viu os dois sorvetes, intactos,
esperando para serem comidos. Ami teria um longo e delicioso trabalho pela
frente.
Mina finalmente chegara à casa lacrada de
Takeru. Olhou-a com calma e decisão e bateu diversas vezes na porta, sem obter
nenhuma resposta. Estava ficando impaciente quando teve uma brilhante idéia.
“Vamos ver se eu sou boa nisso ou não,”
disse Mina para si mesma, “Copiae unde aether et abyssus, audius! Quisnam
gubernatium hic ianua nutium transactum!(Poderes do céu e da terra, ouvi! Quem
vos comanda deseja passar por esta porta!)”
Animada com o sucesso do seu feitiço, Mina
entrou pela porta que abrira magicamente e que se fechou assim que ela entrou
completamente na casa. Tudo estava embebido na mais profunda escuridão e, mesmo
após alguns minutos, quando os olhos de Mina já tinham se acostumado com a
falta de luz, ela não conseguia enxergar quase nada. Usando o tato, Mina foi se
movimentando, explorando a casa, que, a princípio, parecia o mais comum
possível, com estofados, eletrodomésticos, mesas, tudo normal. Chegou a uma
escada, que levava para o segundo piso do sobrado, e subiu-a, ansiando pelo que
estaria por vir.
No outro andar, encontrou um corredor com
várias portas, e descobriu que a primeira levava a um banheiro, com sua louça
impecavelmente limpa e reluzente, embora a luminosidade da casa não favorecesse
essa última característica. Pensou em entrar em todas as portas, mas algo a
impelia para a que estava no fim do corredor. Era uma porta de madeira e, pelo
que ela podia distinguir, muito trabalhada, com sulcos e talhos que formavam
uma figura, embora ela não soubesse qual. Abriu delicadamente a porta, cuidando
para que na rangesse e entrou no que parecia ser um quarto.
Tudo parecia dezenas de vezes mais escuro,
mas, no meio do quarto pode ver com certa clareza uma grande cama de casal. Os
lençóis, caídos no chão provavelmente por causa de um sono agitado, pareciam
ser de seda, e dormindo descoberto estava Takeru, usando apenas um calção.
“Uau,” pensou Mina, “esse homem é muito
gostoso!”
Contudo, seus pensamentos foram
interrompidos. Takeru acordou e levantou-se numa velocidade tão grande que Mina
mal viu uma borrão se movimentando.
“Quem ousa invadir meu quarto?” gritou ele.
Mina, assustada, não conseguiu formular uma
resposta inteligível, mas, por sorte, antes de fazer qualquer coisa contra o
intruso, Takeru notou que se tratava de Mina.
“Mina?” espantou-se ele, “O que faz aqui?”
“E-e-eu,” gaguejou ela, “eu não queria te
assustar... é que eu... eu... bati e... e... e...”
“Acalme-se, eu não estou bravo,”
tranqüilizou-a Takeru.
“Desculpe pela invasão...” murmurou Mina.
“Estará desculpada se me disser o que está fazendo
aqui,” disse ele, “Mas olhe só para mim... Isso não é jeito de ficar na sua
frente, certo? Eu vou no banheiro lavar o rosto e me trocar enquanto você senta
aqui e se acalma, certo?”
“Está bem...” falou ela, sentando-se numa
poltrona escura de couro, “Pode acender a luz? Essa escuridão me deixa
nervosa.”
Takeru assentiu, apertando o interruptor e
fazendo o quarto se iluminar completamente. Era muito bem decorado, com uma
cama de metal com lençóis de seda preta e duas poltronas de couro. A parede era
pintada de branco e o piso era de cerâmica. Mina ficou lá, observando sentada
os bibelôs de uma pequena estante que se constituíam na maioria de cristais com
forma de animais e flores, ao lado de livros grossos e envelhecidos. Queria
muito folheá-los, mas antes que sua curiosidade a dominasse, Takeru voltou,
vestindo uma calça jeans e uma camiseta branca.
“Diga-me a que veio, Mina,” pediu ele,
sentando-se na poltrona ao lado.
“Eu não sei por onde começar...” disse ela
com insegurança, “Acho que nunca fiquei tão sem graça em toda minha vida...
Quero dizer, eu nunca invadi a casa de ninguém e... bem...”
“Eu não me importo com isso, apesar de não
entender como você conseguiu entrar aqui sem fazer barulho,” falou ele, “Só
quero saber por que você veio aqui depois... depois... depois de ontem,”
“Eu pensei muito e recebi conselhos valiosos
sobre minha situação, e não se preocupe pois eu não falei nada sobre seu
segredo, e decidi que apesar de tudo eu...”
“Você...” adiantou-se Takeru.
“Eu acho que não adianta eu me enganar. Nada
mudou dentro de mim, sinto que nada pode atingir o amor que eu sinto por
você... Como ontem me disse, não posso julgá-lo, e não posso desistir sem antes
tentar,” falou ela com um suspiro, “Não posso abandonar um barco que ainda nem
começou a afundar. Só vou te deixar se você não me quiser ao seu lado.
Takeru ficou alguns instantes sem falar
nada, aquilo era tão inesperado e surpreendente para ele que não conseguiu
reagir com rapidez. Enquanto processava as novas informações que chegavam em
sua mente, seu coração já se aquecia novamente, mostrando-lhe todas as
respostas, mostrando-lhe que ainda podia amar – e ser amado. Ele segurou a mão
de Mina entre as suas e olhou em seus profundos olhos azuis.
“Como eu posso não querer estar ao lado da
mulher que me fez descobrir que ainda sou capaz de amar?” perguntou ele com um
sorriso, “Como eu posso deixar de sentir esse calor que agora percorre o meu
corpo? Desde ontem, quando achei que ia te perder para sempre, percebi o quanto
eu te amo e como eu gostaria de passar a eternidade ao seu lado.”
Takeru beijou a mão de Mina, com um carinho
e devoção que ela nunca tinha recebido. Seu corpo pulsava ao ritmo das batidas
de seu coração e ela sentia o sangue ferver em suas veias. Ele foi se aproximando
dela, chegando cada vez mais perto de seu rosto, sentindo sua respiração em sua
pele. Ia beijá-la, mas Mina se afastou.
“Espere antes temos que ter uma conversa,”
disse ela.
“Certo. O que quer falar?” perguntou Takeru.
“Na verdade quem vai falar é você,” começou
Mina, “Quero que me conte algumas coisas...”
Enquanto isso, na casa, quem tinha ficado
jogava baralho e tudo ia bem. Ou melhor, tudo ia mais ou menos, pois ver Serena
e Darien sentados na mesma mesa sem mal conversarem era uma situação pelo menos
incômoda. Lita teve que jogar com Serena que não queria fazer dupla com Darien,
e só observava o clima que rondava o lugar. O casal separado estavam com uma
expressão triste, que só piorava a cada instante, e não prestavam atenção em nada
além do jogo. Darien e Rey ganhavam e a última estava exultante. Nada estranho
para alguém que vencia um jogo, mas Lita, a única que prestava realmente
atenção nos detalhes do comportamento de Rey, via que tinha alguma coisa
esquisita naquela empolgação toda.
Eles não ficaram jogando por muito tempo,
algumas horas apenas, e depois disso Serena resolveu fazer um bolo. Por
incrível que pareça, o matrimônio tornou-a uma excelente cozinheira,
principalmente quando se tratava de doces. Darien foi para o quarto continuar a
ler um livro de ficção que tinha comprado, e Lita foi atrás de Rey, que já
havia se refugiado no porão.
Ao chegar lá, ela encontrou Rey esparramada
numa poltrona, olhando que nem boba para o teto. Rey nem percebeu quando Lita
se aproximou e sentou-se ao seu lado.
“Rey, podemos conversar um minuto?”
perguntou Lita.
“Hã?” disse Rey, saindo do transe, “Você
está aí, Lita? O que quer?”
“Não me leve a mal, Rey, mas vou direto ao
assunto, pois detesto rodeios,” falou Lita.
“Claro,” concordou ela e aprumou-se na
poltrona, “Sou toda ouvidos,”
“Bem,” começou Lita, “estava te observando
durante o jogo e notei uma certa estranheza no seu comportamento. Você estava
tão contente, tão animada por causa de tão pouco...”
“Não importa o tamanho da vitória,”
respondeu Rey, “O que interessa é que eu ganhei e então fiquei feliz,”
“Não seria mais correto dizer que ficou
feliz porque ganhou... junto com o Darien?” indagou Lita.
“O quê?” espantou-se Rey, “Onde você está
querendo chegar com isso?”
“Quero dizer que você ainda está apaixonada
pelo Darien,” sentenciou Lita.
Rey arregalou os olhos com a firmeza na voz
de Lita. Passou por um rápido momento de indecisão, mas levantou-se
abruptamente.
“Não admito que tire conclusões inoportunas sobre
mim!” exclamou com veemência.
“Tenho observado suas atitudes desde que
viemos para cá, principalmente após a separação de Darien e Serena, e notei que
você ainda suspira quando o vê, fica com cara de boba quando ele ri, todas
essas pequenas coisas que as pessoas apaixonadas fazem,”
“Não importa,” defendeu-se Rey, “mesmo que
eu ainda o amasse, o que poderia fazer? Ele já deixou claro que não me quer.”
“Ah, mas eu te conheço muito bem,” continuou
Lita, “e quando você ama, e estou certa que ainda ama o Darien, você não fica
curtindo o seu platonismo. Rey, você é intensa, impulsiva, não agüenta certas
situações quieta. Por isso acho que você ainda está apaixonada pelo Darien e
portanto fará de tudo para conquistá-lo.”
“Você está delirando,” disse Rey e virou as
costas para Lita.
“Suas atitudes te denunciam,” falou Lita,
dando a volta e parando de frente para Rey, gesticulando muito, “Por que não
olha nos meus olhos? Encare-me de frente e diga que não o ama mais!”
Rey suspirou, cerrou os punhos, nervosa.
Tinha que controlar essa situação ou tudo estaria perdido. Mordeu o lábio
inferior, olhando diretamente para Lita, enquanto tomava fôlego para seu
próximo ato.
“Eu não amo mais o Darien,” disse ela, séria
e demonstrando profunda tranqüilidade, com seus olhos fixados nos de Lita, que
faiscavam.
“Veremos, Rey,” riu Lita com ironia,
“veremos o quanto você anda encenando nos últimos tempos, serpente actrice
(literalmente, do latim: atriz serpente).
Lita subiu as escadas, fazendo cada degrau
ranger com seu ódio. No porão, Rey a olhava ir embora, decidida e pouco
convencida das suas boas intenções.
“Lita, eu te adoro,” disse Rey para si
mesma, “mas, se não quiser sair ferida, não entre no meu caminho!”
Mina, já mais calma e decidida, resolvera saber
um pouco mais sobre a vida secreta e conturbada de seu novo amor.
“Vou fazer uma pergunta, mas não ria de mim,
certo?” pediu ela, recebendo o consentimento de Takeru.
“Quando entrei no seu quanto,” continuou
Mina, “estava crente que ia encontrar um caixão. Onde ele está?”
Takeru segurou o riso para não chateá-la.
“Mina,” respondeu ele, “Não acredite em
todas essas lendas sobre vampiros, certo? Não preciso de caixão nenhum. Isso
vem de muitos séculos atrás, quando os vampiros, em busca de um lugar para se
proteger do sol, se abrigavam dentro dos caixões dos mortos, durante o dia. Eu
uso outros métodos para esse fim, lacrando todas as janelas e portas que dão
para o lado de fora da casa.”
“Desculpe minha ignorância... Mas me conte
mais sobre vampiros,” insistiu ela.
“Bem,” começou Takeru, “Somos sensíveis ao
alho e a luz solar, mas não temos nada contra crucifixos ou igrejas. Sobre os
primeiros, posso dizer até que apreciamos muito, e pode comprovar isso vendo
que na minha porta está entalhada a imagem de um crucifixo. Não gostamos dele
por causa da simbologia, claro, apenas pela arte, principalmente os da época
gótica. Quanto as igrejas, o fato não é que as tememos, mas sim sabemos que não
somos bem vindos lá e respeitamos o famoso ‘cada macaco no seu galho’.
Existimos desde tempos remotos, quando os homens ainda eram seres indefesos e
se encerravam em suas casas assim que nos viam. E podemos sim ter filhos, mas
isso é um tanto raro, pois só temos direito a essa graça a cada século de união
fiel entre um casal.”
“Muito boa a explicação,” elogiou Mina, “Mas
não me contou sobre uma coisa...”
“O quê?” indagou ele.
“Sobre o sangue...”
“Ah, o sangue,” suspirou Takeru, “A força
que nos move e que nos torna aberrações em potencial. Pode te chocar um pouco,
mas nós, vampiros, fomos seres humanos um dia. O fato é que somos mortos,”
disse ele, olhando a cara de espanto de Mina, “Como tal, estamos em estado de
decomposição, sendo vorazmente e dolorosamente sendo comidos pelas bactérias,
embora conscientes. Nunca desapareceríamos, contudo, pois a nossa decomposição
é desacelerada pelo fato de sermos vampiros, tendendo ao infinito. Ou seja, uma
dor profunda e sofrimento eterno seriam nosso destino. Para combater isso, há o
sangue, que, quando entra em nossos corpos, nos torna menos mortos e mais
humanos, e por isso meu corpo tem calor e não é gélido, meu cheiro não é de
algo podre, meu rosto e corpo são perfeitos e, modéstia a parte, bonitos.
Tomando diariamente o sangue de um humano, não sentimos a dor da decomposição,
pois ela é paralisada com a entrada de sangue em nossos corpos, e nos mantemos
apresentáveis, sendo que o mais importante, para mim, é o fim da dor que, Mina,
é simplesmente insuportável,”
“Sinto muito por você,” disse ela,
compadecida com o sofrimento de Takeru, “Sinto também pelas outras pessoas que
sãs sacrificadas, mas... ainda não sei como conciliar as duas coisas com
naturalidade. Enfim, mas conte-me, como tornou-se vampiro?”
“Sim, o dia fatídico,” continuou Takeru,
“Sabe, nem todos os vampiros são conscientes e bondosos. Na verdade, a maioria
é má, cruel e não respeita os seres humanos. Esses vampiros tomam o sangue mais
de uma vez por dia, simplesmente por diversão, não para parar a dor. Eles
também não fazem a pessoa perder a consciência para sempre e viver num mundo de
sonhos, mas a transformam também em vampiros. Foi assim, sendo mordido por uma
vampira chamada Lionel que entrei para este mundo escuro.”
“Mas, diga-me,” interessou-se Mina, “Se você
tomar sangue de bancos de sangue, por exemplo, não estará poupando vidas?”
“Muitos de nós já tentaram isso, eu
inclusive, mas descobrimos que tomar sangue sem ser diretamente de uma pessoa
não faz nenhum efeito. E isso me intriga tanto que é o que eu tenho pesquisado
nos últimos anos, tentando descobrir porque mordendo temos um efeito que não é
alcançado de nenhuma outra forma. Tenho até um laboratório em casa, no sótão,
onde faço minhas experiências,”
“Então é isso que você pesquisa...” murmurou
Mina com uma expressão preocupada, “Saiba que pode contar comigo para qualquer
coisa. Se eu puder ajudar...”
Takeru aproximou-se de Mina, acariciando
seus cabelos macios e brilhantes.
“Me ame e já estará dando a melhor ajuda que
pode imaginar. Sabe, Mina, o amor traz algo para dentro de mim que me faz
lembrar de como era ser um humano normal, o que me dá ânimo para continuar.”
Os olhos de Mina brilharam, e ela segurou as
lágrimas que teimavam em pular de seus olhos. Passou suas mãos pelo rosto de
Takeru, sentindo sua pele sedosa sob suas mãos. Chegou seu rosto ao dele, até
que seus lábios se tocaram, dando início a um beijo ardente.
Darien estava mergulhado em sua leitura,
deitado na cama, quando ouviu alguém bater na porta.
“Entre,” pediu ele.
Abrindo a porta delicadamente, Lita entrou
no quarto com passos leves e fechou a porta atrás de si. Darien a olhava com
surpresa pois, embora já se conhecerem há muitos anos, ele e Lita nunca foram
muito próximos, não tinham o hábito de conversarem a sós.
“Posso te incomodar alguns minutos?”
perguntou ela, sentando-se na beirada da cama.
“Claro,” respondeu ele, ajeitando-se melhor,
“Mas não é nenhum incômodo, Lita.”
“Sei que não temos muita intimidade, mas
gostaria de falar com você a sós por um momento,” falou ela, ainda sem jeito e
meio indecisa.
“Lita,” disse Darien, “não se acanhe, pode
continuar,”
“Bem, se é assim vou logo ao assunto,”
começou ela, “É que sinto que não vai ser uma conversa muito agradável,”
“Está me assustando,” interrompeu Darien.
“Não é nada contra você,” continuou Lita,
“Mas acho que devia tomar mais cuidado com Rey. Sei que nunca deu esperanças a
ela, mas tenho motivos para acreditar que ela ainda te ama,”
Darien piscou surpreendido pelo motivo da
conversa, sem entender porque Lita tinha desenterrado esse assunto.
“Bem,” falou ele, “Eu não dou aberturas a
Rey, e, mesmo se ela ainda sentir algo por mim, nunca vou deixar nada acontecer
entre nós,”
“Sim, eu confio em você,” sentenciou Lita,
“Mas eu não confio nela. Darien, a Rey é uma cobra, é falsa, e é,
principalmente, apaixonada. Tenho certeza que vai armar algum truque para
conquistar você.”
“Lita,” disse Darien, “entendo sua
preocupação, mas Rey nunca vai me conquistar. Eu amarei Serena pelo resto da
eternidade,”
“Mas isso não significa nada para ela!”
exclamou Lita, “Mesmo sabendo que nunca vai ter seu amor, Rey continuará
tentando tê-lo ao seu lado. Ainda que seja só por um dia, ainda que seja só por
uma noite...”
“Falando essas coisas você me ofende,”
reclamou Darien, “Eu nunca – NUNCA – dormiria com Rey, entende? Não faria isso
por nada,”
“Ah, claro!” riu Lita, “Eu te admiro muito,
Darien, mas conheço os homens. Todos são iguais. Rey é bonita, sensual... ela
tem todas as armas para seduzir um homem em um momento de fraqueza.”
“Não a mim,” protestou ele, “Ela nunca via
conseguir usar esses truques em mim. E saiba, Lita, que nem todos os homens são
iguais. Sei que você se feriu muito com seus relacionamentos, mas aceite meu
conselho e tente baixar a guarda. Talvez o amor esteja tentando entrar no seu
coração, mas encontra todas as portas fechadas.”
“Certo, obrigada pelo conselho,” falou Lita,
pensativa, “Mas, voltando ao assunto, mesmo que você não queira, Rey pode usar
algumas jogada suja, como te dopar, sei lá,”
“Ela não faria isso,” disse Darien com
convicção. Ele e Lita ficaram se olhando por alguns segundos e ele começou a
duvidar de suas próprias palavras.
“Entendi,” concluiu ele, “Vou tomar cuidado
com ela, fique calma,”
“Eu sabia que nos entenderíamos,” sorriu
Lita, levantando-se, “Agora vou te deixam em paz,” terminou, indo em direção a
porta.”
Darien ficou olhando-a se afastar, pensando
em na conversa que acabaram de ter.
“Lita,” chamou Darien, fazendo-a se virar,
“obrigada pelo conselho,”
A garota assentiu meneando a cabeça, indo
embora em seguida e deixando Darien envolto em seus próprios pensamentos.
Darien tentou em vão continuar sua leitura, mas
sua mente estava centrada só na sua última conversa com Lita. Será que Rey
seria realmente capaz de fazer qualquer coisa para conquistá-lo? Achava que
não, mas dúvidas sobre isso agora assaltavam sua cabeça. Por outro lado, aquele
assunto fizera com que ele mais uma vez lembrasse de Serena, coisa que estava
tentando não fazer com muita freqüência. Lembrar de sua doce amada fazia seu
coração arder em chamas e sangrar de dor, pois não conseguia se conformar com a
decisão dela em se separarem. Pensou também em Hikari e em todas as situações
terríveis a que devia estar sendo submetida e isso despertou uma angústia ainda
maior, porque embora ele sempre tentasse dissimular sua raiva pelo que estava
acontecendo com sua adorada filha com a intenção de amenizar a sua dor e a de
todos, a cada dia seu ódio e revolta aumentavam. Sentia-se impotente, e queria
salvar sua filha das garras de Titã, mas ficava sempre em dúvida se isso algum
dia aconteceria. Uma lágrima se formava no canto de seu olho quando ouviu um
grito estridente vindo da cozinha.
“Serena! Lita!” pensou ele enquanto saia
correndo do quarto.
Ao chegar lá, viu uma cena deplorável:
Serena jazia no chão da cozinha, recém atingida por alguma força, e Lita
punha-se entre a amiga e uma outra mulher, que flutuava a uns quarenta
centímetros do chão, usando um vestido vermelho com uma longa fenda que
revelava grande parte de sua perna esquerda.
“Não ouse machucá-la, sua maldita!” gritou
Lita, furiosa. A mulher lançou seus longos cabelos negros para trás, mostrando
o decote profundo que adornava seu colo. Os olhos faiscaram num tom esverdeado.
“Ah, quanta falta de classe!” exclamou
ironicamente, “Você não pode nada contra mim!”
Pegando-a de surpresa, Darien jogou uma
pequena estátua de bronze na cabeça da mulher, que foi arremessada contra a
janela já estilhaçada pela qual entrara.
“Lita, o que houve?” ele perguntou, correndo
até Serena.
“Já estou bem,” respondeu a loira secamente,
erguendo o tronco e sentando, “Ela chegou de repente e me atingiu com uma
espécie de rajada de vento e eu batia a cabeça no chão,”
Um barulho de passos rápidos foi ouvido e
logo Rey entrava no recinto, arfando e querendo saber o que acontecera. Lita ia
abrir a boca quando a mulher entrou novamente na casa, parecendo recuperada.
“Quem é você?” perguntou Rey, surpresa.
“Finalmente alguém que tem um pouco de
educação,” disse ela, “Meu nome é Sypares e minha missão é acabar com todos
vocês!” terminou, lançando uma outra rajada de vento que jogou todos ao chão
com um estrondo.
Sypares falava como disseram a ela que devia
tomar cuidado com a força dos oponentes e como ela agora via que não passavam
de uns frangotes quando diversas luzes invadiram o lugar. Quando o brilho se
dissipou, estavam todos transformados. Júpiter a atacou com o Supreme Thunder,
mas a inimiga desviou-se habilmente de seu golpe, que ricocheteou na parede e
acabou “torrando” uma das poltronas da sala.
“Tsc, tsc,” murmurou Sypares, “Muito
fraco... e previsível. Já haviam me alertado sobre suas formas de ataque.
Agora, por exemplo, Sailor Marte deve estar começando a preparar seu golpe Fire
Soul...”
Sypares virou-se e uma chama já crescia nos
dedos de Marte, que, vendo que seu golpe já era previsto, fez com que o fogo
desaparecesse. Sailor Moon pensava em como Mercúrio seria útil ali, armando uma
estratégia para derrotarem aquela doida, que parecia conhecer todos os seus
movimentos.
“Não sei o que Titã viu em vocês para
chamar-lhes de poderosos inimigos...” dizia ela enquanto desviava de olhos
fechados da rajada de rosas de Tuxedo Mask. Quando abriu os olhos, viu Sailor
Moon sair correndo pela porta dos fundos e começou a persegui-la. Quando chegou
no jardim, a loira parou encarando a vilã.
“Fugindo?” perguntou sarcasticamente
Sypares, “Na sua ficha não estava escrito ‘covarde’, sabia?”
Ela teria continuado a tecer comentários
maldosos sobre Sailor Moon se Marte não tivesse atacado-a pelas costas com seu
Fire Soul. A mulher deu um guincho de dor e as costas de seu vestido ficaram
chamuscadas. Júpiter e Tuxedo Mask já estavam ao lado de Sailor Marte e
trocavam olhares confiantes com Sailor Moon que, propositalmente, atraíra
Sypares para esta armadilha.
Contudo, a malvada não se deu por vencida e,
erguendo as mãos, fez com que um raio caísse fulminante entre Júpiter e Marte,
jogando-as uma para cada lado com os braços feridos. Sailor Moon correu até a
Senshi do fogo e Tuxedo Mask foi até Júpiter, ajudando-a a se levantar. Sailor
Moon sussurrou rapidamente algo no ouvido de Marte enquanto usava o feitiço de
cura em seu braço.
Tuxedo Mask jogou mais uma rajada de rosas
em Sypares, que bloqueou o ataque com uma parede de vento. Sailor Moon passou
rapidamente por trás dela e com um sinal, mandou Júpiter atacá-la novamente.
“Já disse que esse golpe ridículo não me
atinge!” riu Sypares, desviando do trovão que Sailor Júpiter invocara. Atrás
dela, Sailor Moon iniciava o Moon Tiara Action.
Sypares se virou, dando uma gargalhada,
“Acha mesmo que vai me atingir com um enfeite barato como essa tiara?”
perguntou. Quando Sailor Moon lançou a Tiara, Marte usou o Fire Soul no objeto,
deixando a tiara uma tocha voadora.
Contudo, a tiara passou longe de Sypares, a
praticamente um metro dela. A vilã riu, menosprezando e ridicularizando as
guerreiras, mas, quando menos esperava, a tiara fez a volta como um bumerangue,
voltando para a mão de Sailor Moon e deixando desenhado no ar um círculo de
fogo com Sypares no meio. Enquanto Sailor Moon recolocava a tiara, o círculo se
fechou em volta da inimiga, envolvendo-a numa bola de fogo. Quando as chamas
acabaram, Sypares caiu queimada no chão, ainda viva, mas desapareceu antes que
a atacassem novamente, deixando para trás somente um vento fétido.
“Raios!” gritou Verda observando na tela do
computador as últimas informações colhidas pelos sensores e medidores
instalados em Sypares, “Ela foi gravemente ferida!”
“Não precisa mais olhar na tela,” disse
Hiroi, “Sypares está aqui,”
Verda virou-se e viu que a criatura tinha
acabado de aparecer ali, no meio da sala, toda ferida, com bolhas por todo o
corpo. Seu sangue, de um tom avermelhado, cobria sua pele e já fazia uma poça
no chão.
“Cure-me! Alguém! Ajude-me!” gritava ela com
dor.
“Leve-a para o Centro de Regeneração!” mandou
Hiroi, contrariado, “Embora não mereça,” disse para Sypares quando ela era
levada dali.
“Acho que está perdendo o dom, Hiroi,” falou
Verda ao observar a situação, agora mais calma.
“Você supervisionou tudo, Verda,” respondeu
ele, “Aceitou cada detalhe da criação de Sypares,”
“Sim, mas os poderes são seus,” sentenciou
ela, querendo empurrar toda a culpa para ele.
Hiroi foi até ela com a cabeça abaixada,
pensando no que dera errado.
“Não entendo,” disse ele, baixando as armas,
“Há algo naquelas pessoas... Algo que não podemos prever. Analisamos os seus
poderes, seus movimentos, seu tipo de luta... E mesmo assim elas nos
surpreenderam,”
“Também acho isso,” concordou Verda, “As
Senshi e aquele galã engomadinho tem alguma coisa poderosa e imprevisível em
seu interior. Uma força que não consigo compreender, algo que os fazem superar
todos os obstáculos,”
“E são criativos,” adicionou Hiroi,
“Conseguem inventar novas maneiras de atingir os mesmos objetivos, enquanto
nossas criaturas, mesmo as mais poderosas, não têm um ‘que’ humano; são vazias
de sentimento e isso as torna fracas.”
Verda suspirou, centrada nas suas próprias
impressões sobre o acontecido. Ela cegou perto de Hiroi, encostando a boca em
seu ouvido.
“É bom que ninguém saiba disso, mas acho que
não temos força o suficiente para derrotá-las agora,” sussurrou ela, “mesmo
faltando duas Sailor, conseguiram nos vencer. Minha opinião é que esperemos o
momento certo para atacar de verdade, com todas as nossas forças. Vamos
melhorar Sypares e, quando sentirmos que eles estão vulneráveis, damos o tiro
de misericórdia,”
Hiroi assentiu com a cabeça e foi para sua
sala, pois a proximidade de seu corpo com o de Verda o enlouquecia. Ela estava
certa, como sempre. Deveriam esperar pelo momento certo.
Darien curava Lita enquanto Serena e Rey
utilizavam magias para consertar os danos da casa de Finna. Todos ficaram
surpresos por Serena ter conseguido armar uma estratégia sozinha para derrotar
o monstro, mas ela garantiu que não deviam ficar espantados porque ela não era
mais uma garota bobinha há tempos.
“Ademais,” disse ela, “Nós não conseguimos
derrotá-la, ela fugiu antes disso.”
“O que significa que ela vai voltar,”
continuou Darien, “E talvez mais forte,”
Ficaram em silêncio, pensando no que estaria
por vir quando sentiram um cheiro forte de queimado.
“O bolo!” gritou Serena, indo correndo para
a cozinha enquanto os outros riam da situação, principalmente depois que ela
tirou uma massa negra e esturricada de dentro do forno. Vendo o fiasco de seu
bolo, do qual esquecera completamente por causa do ataque, Serena também caiu
na risada.
Mina abraçou Takeru, deitando a cabeça em
seu ombro. Ficou pensativa por algum tempo, analisando se deveria fazer ou não
uma pergunta um tanto constrangedora. Decidiu-se.
“Takeru,” perguntou ela com cuidado, “Como
se pode matar um vampiro? Assim, só por curiosidade, claro.”
“Bem,” respondeu ele, ligeiramente espantado
com a pergunta, “Estacas não fazem o menor efeito, é só uma lenda. Podemos ser
mortos incinerados, tanto pelo sol como pelo fogo comum, o diferencial é que o
sol queima todo o nosso corpo, incluindo os ossos, em segundos e o fogo é
demorado. Importante é sermos 100% queimados, não pode restar ossos, nem pele,
nem absolutamente nada, pois senão nosso infindável poder regenerativo nos
reviveria. O outro método,” continuou ele, observando a expressão atenta de
Mina, “é a decapitação, só que para não ressuscitarmos é necessário que nossa
cabeça e corpo sejam enterrados a 10km de distância um do outro. Qualquer outra
coisa não funciona,”
Mina levantou-se, dando uma volta no quarto
e olhando as coisas em volta. As janelas lacradas a deprimiam um pouco, mas
isso era superável. Na verdade uma parte de si não se conformava em amar um ser
daquela natureza, mas um lado maior de sua personalidade queria apenas se jogar
de cabeça nessa paixão e viver cada momento a sua vez.
“Existem muitos vampiros?” indagou Mina,
virando-se para Takeru.
“Sabe, Mina,” respondeu ele, “antigamente
existiam milhares, mas a inquisição fez realmente um bom trabalho conosco,
restando apenas sete exemplares. Esses sete, antes confinados na Europa,
seguiram diferentes rumos, espalhando-se pelo planeta. Hoje em dia, há uma
pequena comunidade de uns 200 a 400 vampiros em cada continente, mas sabemos
pouco sobre isso, pois não somos uma comunidade que se possa considerar unida.
Até hoje, só encontrei cara a cara dois vampiros: Lionel, que me mordeu numa
viagem à França, e Houji Ki, um chinês que também pesquisa o sangue humano e
por que temos que tomá-lo diretamente da pessoa. Encontrei ele uma vez, mas
sempre trocamos mensagens e falamos sobre nossas descobertas científicas. Houji
conhece mais vampiros que eu e me conta as ‘novidades’ sobre os outros
integrantes da nossa espécie. Ele também está sempre alerta sobre a atuação de
caça-vampiros, que são poucos hoje em dia, uns 100, mas existem e quase todos
são extremamente eficientes.”
“Não tem medo de ser atacado por um deles?”
interessou-se Mina, sentando no colo de Takeru.
“Bem, eu levo uma vida discreta e quase
ninguém sabe da minha verdadeira natureza,” explicou ele, “isso me esconde dos
caça-vampiros, que são atraídos por aqueles que não tem preocupação em se
esconder e saem matando e aterrorizando as pessoas. Além disso, Houji sempre me
avisa se descobre algum caça-vampiro por perto, mas, como já falei, eles são
poucos e estão diminuindo devido ao ceticismo do mundo.”
Mina beijou Takeru e disse que devia ir
embora, já que ele precisava dormir. Takeru concordou com esse fato, mas
relutava em se separar do calor de Mina, que o fazia sentir-se muito bem.
“É sério, tenho que ir,” falou Mina, “e acho
que não nos encontraremos essa noite, só amanhã. Eu preciso ainda pensar,
digerir todos esses fatos e acontecimentos. Mas amanhã eu vou te encontrar na
biblioteca, certo?”
Ele resmungou alguma coisa, mas concordou
com ela. Despediram-se com mais um beijo e cada um tomou seu caminho, pensando
no presente e no futuro.
Mina e Finna chegaram em casa juntas, já que
a segunda tinha saído de manhã para “resolver uns problemas”, como ela mesma
disse. Assim que entraram em casa e viram os rostos nervosos de todos, logo
perceberam que algo estava errado.
“O que aconteceu?” perguntou Finna,
sentando-se ao lado de Serena no sofá.
Lita e Darien trocaram olhares ansiosos,
pensando em como explicariam isso para as duas sem causar uma crise de pânico.
“Bem,” começou Rey, “fomos atacados por um
daqueles monstros de Titã,”
“Ah,” disse Mina, um pouco mais aliviada,
“Mas deu tudo certo, não? Vocês destruíram ele, né?”
“Não,” respondeu Darien, “Ela fugiu.”
“Como assim ela?” indagou Finna, com olhos
preocupados.
“É que o monstro que nos atacou não era como
os outros. Era uma mulher. Ou pelo menos tinha a forma de uma mulher,” falou
Serena.
“Ele está atacando com monstros
humanóides?!” espantou-se Finna, “Oh, não, oh, não! Vocês não entendem? Ele
está colocando oponentes muito poderosos para combatê-las. Dessa vez
conseguiram fazer a
coisa fugir, mas
ela voltará, e agora sabendo mais detalhes sobre vocês, seus golpes, sua forma
de lutar. Um monstro humanóide, a categoria mais elevada de monstros, pode até
matá-las!” terminou Finna, arfando.
“Mas por que vocês não me chamaram para
ajudar? Por que não chamaram Ami?”
“Porque vocês deixaram seus comunicadores em
cima da mesinha,” respondeu Rey ironicamente, “Mas também não houve muita
necessidade, conseguimos afastá-la por enquanto,”
“E demorará um pouco para conseguirem
recuperá-la, já que não se pode usar o feitiço de cura em monstros conjurados,
eles têm que ser recuperados com outros feitiços mais simplistas e de resultado
mais lento, não é, Finna?” disse Serena, pedindo a confirmação da mestra, que
assentiu com a cabeça.
“Certo, mas ela voltará,” sentenciou Mina,
“agora contem o que aconteceu,”
Serena começou a relatar os fatos a pouco
ocorridos e Rey, Darien e Lita acrescentavam o que achavam relevante. Finna e
Mina ouviam atentas, sendo que a primeira estava realmente preocupada com essa
nova estratégia de Titã, extremamente agressiva.
Ami estava olhando umas lojas no shopping
quando seu relógio deu um pequeno apito, anunciando que eram seis horas. Tinha
comprado uma linda blusa vermelha com decote em V e pequenas estampas de rosas
na barra. Saiu de onde estava e tomou um táxi para o luxuoso apartamento de
Yan. Estava ansiosa para vê-lo e curiosa para saber o que exatamente ele fez a
tarde, embora não tivesse muita esperança de que Yan contasse, já que era tão
misterioso em relação ao seu trabalho.
Já no edifício, Ami surpreendeu-se ao ser
informada que Yan ainda não tinha chegado, mas ordenou que entregassem a ela
uma chave extra de seu apartamento, para que ela pudesse ir subindo.
“Ele disse que se atrasaria um pouco, mas
pediu que esperasse por ele,” comunicou o porteiro.
Ami subiu e acomodou-se no sofá da sala.
Começou a ler uma revista sobre cinema que estava na mesa de centro, mas a sua
curiosidade não a deixava se concentrar. Após menos de cinco minutos, resolveu
dar uma olhadinha no resto do apartamento, já que só conhecia as salas e a
cozinha. Foi andando por um corredor e a primeira porta a direita dava para um
escritório. Havia uma bela escrivaninha de mogno e estantes abarrotadas de
livros, além de pinturas, provavelmente valiosas, na parede. Seguiu em frente
no corredor, e à esquerda havia um quarto com duas camas de solteiro, fazendo
com que Ami deduzisse que aquele era um quarto de hóspedes. A seguinte porta a
esquerda era um banheiro, todo em tons de verde. Seguindo em frente, Ami
encontrou a última porta e logo imaginou que seria o quarto de Yan, o que a fez
hesitar um pouco antes de entrar. Contudo, a curiosidade venceu mais uma vez, e
Ami invadiu o ambiente, dando de cara com uma cama de casal em madeira, um
armário embutido, uma mesinha e duas poltronas. Num suporte no teto, de frente
para a cama, estava uma televisão, vídeo cassete e DVD. Ami foi andando até a
cama e sentiu o colchão macio sob seus dedos, que acariciavam a colcha.
Sentia-se excitada com essa situação, e sua mão tremia de nervosismo. O forte
aroma da colônia que Yan usava impregnava o local e um dos travesseiros estava
ainda mais perfumado. “Deve ser sobre esse que ele dorme,” pensou Ami,
abaixando-se até conseguir encostar a pele de seu rosto no travesseiro e sentir
o perfume dele entrar em suas narinas, fazendo-a sentir uma sensação de êxtase.
“Ami?” perguntou Yan da porta do quarto,
“Você está bem?”
Ela saiu repentinamente do transe,
sentando-se na cama para não cair no chão, já que suas pernas amoleceram. O que
ele pensaria agora? Confiou numa pessoa e ela invade sua casa, seu quarto?
“Fale comigo, você está pálida,” disse Yan,
sentando-se ao lado de Ami e segurando suas mãos trêmulas e frias.
“De-de-desculpe...” murmurava Ami,
encabulada, “Eu não queria invadir sua casa, desculpe, foi mais forte que
eu...”
“Acalme-se,” pediu ele, abraçando Ami e
acariciando seus cabelos, “Eu não estou bravo com você. Se eu deixei que
entrasse, é porque toda a minha casa está de portas abertas para a pessoa que
eu amo,”
Ami ainda não tinha percebido que entrara de
livre e espontânea vontade na toca do lobo.
“Mesmo assim,” continuou ela, “eu não devia
ter vindo até aqui, devia ter esperado na sala,”
“Não seja tola, Ami,” respondeu ele, “Você pode
ir aonde quiser na minha casa, relaxe,”
Ela olhou para Yan, ainda pedindo desculpas
com os olhos, e ele deu sua resposta beijando-a longamente. Ami sentia as mãos
de Yan em suas costas, dando-lhe apoio e conforto. Aos poucos foi retornando ao
seu estado normal e sentindo-se segura novamente.
“Curiosa como uma gata,” Yan disse baixinho
no ouvido de Ami, beijando-a incessantemente. Ela estava excitada novamente,
mas agora não era por curiosidade. Sua respiração estava irregular, suas mãos
molhadas de suor e sentiu que perdia o controle da situação quando Yan deitou-a
em sua cama macia. Ami afastou-o delicadamente com a mão, esquivando-se de seu
beijo.
“O que foi, Ami?” perguntou ele.
“Acho melhor voltarmos para a sala, não?”
sugeriu com uma falsa inocência na voz.
“Ami,” sussurrou Yan, “você é quem sabe...
Mas eu ainda acho que seria bem mais romântico aqui,”
Ami ruborizou com as segundas intenções que
leu nas entrelinhas da fala de Yan. Seu coração batia tão acelerado que achou
que ia ter um infarto.
“Você está me entendendo, Yan, não se faça
de bobo,” falou Ami.
“Você também está me entendendo, Ami,”
retrucou ele, “Você sabe o quanto eu te quero. O quanto eu te amo. Não consigo
mais segurar esse sentimento,”
“Eu não quero acelerar as coisas,” murmurou
ela.
“Não estamos acelerando nada, apenas deixe
acontecer naturalmente,” falou Yan ao mesmo tempo que beijava Ami e acariciava
sua bela perna.
“Eu não estou pronta para você ainda,” disse
com nervosismo.
“Claro que está, Ami,” começou Yan, “Eu vejo
que está. Vejo sua aura num azul escuro brilhante, com raios púrpura em volta.
Isso significa que você também me quer, embora tenha um pouco de medo. Mas
mesmo assim que ser minha, agora, neste instante, dessa maneira. Não pode
esconder seus sentimentos de mim,”
“Eu sei,” continuou Ami, “eu sei que não
posso te enganar por causa desse seu dom que tanto me irrita. Mas há coisas
sobre mim que você não sabe, não quero desapontá-lo,”
“Então me diga, mas fale logo,” pediu ele,
tirando a camisa e revelando seu tórax bem delineado a Ami, que suspirou
profundamente.
“Eu sou virgem,” murmurou Ami num tom de voz
extremamente baixo, querendo que um buraco se abrisse sob seus pés nesse
momento. Yan olhou fixamente para Ami e viu os raios púrpura de sua aura
engrossarem, indicando que estava cada vez mais apreensiva. Ele beijou-a
longamente.
“Isso não é problema, meu amor,” disse Yan
com ternura, “É natural que esteja com medo, mas não é necessário. Esses
detalhes não mudam em nada o que eu sinto por você,” concluiu ele, desabotoando
delicadamente a blusa de Ami e tirando seu sutiã.
A partir daí, futuramente Ami só se
lembraria de um emaranhado de acontecimentos e sentimentos, um borrão, como uma
figura manchada pela água. Sentiu-se amada pela primeira vez em toda sua vida,
um amor intenso, diferente do amor de seus pais e amigos. Era uma conexão entre
suas almas que se firmava naquele momento, um elo inquebrável que se
estabelecia entre suas mentes, o instante em que eles se tornaram um só ser, uma
única essência que emanava a energia dos apaixonados. Ami deixou de duvidar dos
sentimentos de Yan, pois sentiu que eram todos verdadeiros no segundo em que
ele lhe deu o abraço mais profundo e tocante de sua existência. Foi quando eles
finalmente sincronizaram seus relógios, pulsando em um mesmo compasso,
caminhando na mesma melodia. Dormiram abraçados, sentindo na pele um do outro o
calor de seus corpos nus.
Quando acordou, Ami já não estava mais nos
braços de Yan, rolara para o lado direito da cama durante o sono. Olhou para
ele, que ainda descansava nos braços de Morfeu e depois para o relógio, que
marcava 4 horas e 27 minutos. Sentiu-se leve, calma, livre e levantou com
cuidado, para não acordá-lo. Vendo sua nudez, vestiu a camisa de Yan, que
serviu como um vestido e ao mesmo tempo dava a sensação de estar sendo abraçada
por ele. O quarto dele era uma suíte e Ami entrou no banheiro, para olhar-se no
espelho. Momentaneamente não se reconheceu, pois um brilho de felicidade
parecia ter modificado totalmente suas feições. Aos poucos foi se acostumando
com essa nova Ami, completa e segura. Ao lado da pia havia um móvel com
gavetas, que começou a vasculhar em busca de alguma revista interessante. Na
primeira gaveta encontrou só catálogos de pinturas e obras de arte, mas na
segunda achou algo bem mais interessante.
Não entendeu o que era a princípio,mas pegou
aquela folha de fax com letras engraçadas. Logo percebeu que eram do alfabeto
romano, mas não pareciam tr sentido algum, não conseguia reconhecer que língua
era aquela. Foi com a folha até a sala e tirou de dentro de sua bolsa o seu
computador portátil. Escaneou a folha, e, após inserir algumas informações e
códigos, uma ampulheta apareceu na tela, indicando que os dados estavam sendo
processados.
>>> Língua não reconhecida
<<<
A mensagem na tela intrigou Ami por alguns instante, mas logo ela
inseriu novos dados e acionou novos comandos, fazendo a ampulheta aparecer
novamente.
>>> Padrão reconhecido
<<<
>>> Cifra #8769 <<<
>>> Código em processo de decodificação<<<
>>> Carregando o
Texto...<<<
Ami ansiava pelo que apareceria em seguida na tela. Que raios de
papel tão secreto seria aquele?
>>> Texto completo <<<
>>> Traduzindo para língua
local<<<
DE: Loyal Group Agency (LGA)
PARA:
Agente especial em missão Yan O’Donkel
ASSUNTO: Missão #187
Prezado agente,
Acaba de ser designada sua nova missão. O
alvo é Hiroko Narugaki, presidente da Associação Mundial de Magos da Terra. Ele
reside no bairro de Jikoku, perto da Rádio TKE, amplamente conhecida no local.
Ele trabalha nessa rádio, como coordenador geral de programação. Ele, como o
Sr. Deve estar ciente, era membro permanente da Comissão de Planejamento da
LGA, mas seu nome foi exposto ao governo local. Ele foi perseguido durante dois
meses e permaneceu escondido. Foi enviado o agente #23, Harry Jimmer, para
eliminar todos os que estavam cientes da ligação de Hiroko com a LGA, mas ele
deixou que Fukuda Narako escapasse. Ele se refugiou no interior e em anexo está
o mapa com a indicação da região onde provavelmente a cabana dele se encontra.
Contudo, ao saber da falha imperdoável de Harry, descobriu-se que Hiroko irá se
encontrar com Fukuda e, em troda do predão, ele indicará todos os integrantes
da LGA. Você tem que eliminar Hiroko e Fukuda juntos, na cabana no interior,
antes que eles contem qualquer coisa para mais alguém. O espião #52, Rouji
Tsukihara, entrará em contato com você para dar-lhe informações do paradeiro
exato da cabana. Seu pai conta com você e espera que não cometa nenhum erro.
Sem
mais para o momento,
Jean
Douneu,
Diretor
de estratégia da LGA
PS:
O agente #23 já foi eliminado por sua falha, portanto ele não dirá nada a
ninguém.
Ao terminar de ler a carta, Ami fechou o
computador, gelada como um iceberg. Suas mãos tremiam e lágrimas escorriam de
seus olhos. Afinal, quem era realmente Yan O’Donkel?
Cambaleante e com a folha em sua mão, Ami
foi lentamente para o quarto. Sua cabeça girava como um pião, e ela se sentia
enganada, usada, burra... O que estava acontecendo? O que significava tudo
aquilo? Só uma pessoa podia dizer. Entrou no quarto e Yan continuava dormindo,
o lençol quase caindo da cama, revelando a maior parte de seu corpo. Ami pegou
um copo com água que ficava no criado-mudo e jogou-o contra a parede num estrondo.
“O que está acontecendo?!” gritou Yan,
acordando assustado. Mais apavorado ele ficou quando viu a face de Ami, que
vertia dos olhos um ódio peçonhento.
“Yan,” começou ela, praticamente esfregando
o papel na cara dele, “o que diabos é isso?”
A princípio ele não entendeu do que ela
estava falando, mas, quando pegou a folha em mãos e a olhou sentiu que por
alguns segundos o sangue fugiu de suas faces.
“Calma, eu posso explicar...” murmurou ele.
“É só o que eu quero,” respondeu Ami, “uma
explicação. E boa.”
Yan sentou na cama, enrolando-se no lençol e
controlando seu nervosismo. Tentou fazer com que Ami se sentasse ao seu lado,
mas ela se esquivou de suas mãos.
“Ami, não se preocupe, eu sou só um agente
secreto e...” iniciou ele.
“Ah! Essa é boa,” interrompeu ela, “Yan, eu
estou pouco me lixando pro que você é ou deixa de ser! O que me fez ficar nesse
estado é apenas uma palavra. ‘Eliminar’ é a palavra. E, para mim, isso só quer
dizer uma coisa...”
Yan tremeu, sem saber o que dizer perante a
raiva incontida que jorrava de Ami. Mentir? Não ela não acreditaria em uma
história qualquer. Falar a verdade? Seria... desastroso. Uma dúvida martelava
em sua cabeça, deixando-o indeciso.
“Yan não me enrole! Fale a verdade!” gritou
Ami, “Se tudo o que você me disse ontem era sincero, fale a verdade por pior
que ela seja!”
Lita estava novamente com Kayama, pois desde
aquele beijo se viam com freqüência. Estavam gostando um do outro, curtindo
cada momento que passavam juntos, mas Lita sentia que Kayama realmente a amava
– e muito – enquanto ela sentia somente uma afeição. Havia algo dentro de si
que a bloqueava para esse novo sentimento, algo que já preenchia seu coração.
Não sabia o que era, nem desde quando tinha essa sensação, mas entendia que não
estava livre para essa relação.
De certa forma isso a incomodava muito, pois
parecia que estava apenas usando Kayama, se divertindo com seus beijos quentes
e apaixonados. Ele não era exatamente o que podia chamar de bonito, porém sua
simpatia compensava esse mero detalhe. Ademais, ela gostava de como as mãos
suaves de Kayama tocavam seu corpo, acariciavam seu rosto, como seus lábios
pareciam conhecer o caminho que a levava ao delírio. Ainda não tinha
ultrapassado os limites que previamente estabelecera para si mesma, ou seja,
não havia feito amor com Kayama. Embora fosse um martírio se controlar quando
estavam juntos, Lita não queria ferir os sentimentos tão nobres dele e muito
menos desejava se entregar novamente a um homem sem amor.
Não havia muito movimento no Game Center à
noite, o que lhes dava um bocado de liberdade. Lita procurava desabafar suas
preocupações com Kayama, obviamente sem contar nada que comprometesse sua
identidade secreta ou o motivo de sua estada em Eros. Fazia isso como uma maneira
de compensar o fato de Kayama não conseguir ler sua mente, o que o deixava um
tanto chateado.
“Não é justo eu me apaixonar por uma mulher
e não poder ler os pensamentos dela,” reclamava ele.
“Talvez seja porque não pode ler meus
pensamentos que está apaixonado por mim,” respondeu Lita.
“Como assim,” indagou Kayama, abraçando Lita
e sussurrando em seu ouvido. Ela se desvencilhou de seu abraço e se afastou um
pouco dele.
“Se soubesse a metade do que já fiz na minha
vida, com certeza não me veria com tão bons olhos,” disse ela com pesar em sua
voz.
“Pouco me importa o que já fez,” falou ele,
beijando-a e a segurando em seus braços, “o que interessa é que agora você está
aqui comigo...”
Beijaram-se novamente, com voracidade
devoraram-se em carícias. Estavam encostados no balcão e Lita virada para a
entrada. Ela olhou para ele com carinho.
“Você é muito bom pra mim,” murmurou ela,
deixando-o um pouco intrigado com essa declaração o com o que ela significaria.
Fecharam os olhos e beijaram-se novamente.
“Olá,” disse uma voz masculina que entrava
no Game Center, “você pode me informar onde é a rua nº10?”
Lita e Kayama viraram-se rapidamente,
assustados como adolescentes sendo pegos enquanto faziam algo errado. Por um
instante o rapaz que pedia informação foi visto apenas como um borrão por causa
da adrenalina que corria no sangue de Lita, mas a imagem foi se fixando cada
vez mais em sua mente até que sentiu suas pernas amolecerem e seu coração
acelerar mais ainda.
“Ken-chan...” disse tão baixo que só ela
própria ouviu sua voz.
Rapidamente as imagens de Kenkure e ela na
Dragon Magic logo que chegaram em Eros vieram em sua mente e começaram a girar
como em um carrossel. Lembrou de como eles se viram e como se amaram sem ao
menos trocar uma palavra. Lembrou também de como ela estragara tudo se
oferecendo para ele em seu carro e como decidira não pensar mais nele desde
aquela noite. De repente percebeu que o sentimento que ocupava seu coração era
aquele amor que ela tinha resolvido abafar para não sofrer mais.
“Lita...” surpreendeu-se Kenkure ao vê-la e
seu coração disparou ao reencontrar a mulher com que sonhara todas as noites
desde aquele encontro na Dragon Magic.
Kayama pareceu confuso no inicio, mas logo
leu na mente de Kenkure que ele já conhecia Lita e que estava apaixonado por
ela desde a primeira vez que a viu. Logo descobriria mais detalhes se não
tivesse que segurar Lita, já que esta estava quase desmaiando.
“Lita! Acorde!” gritou Kayama com a morena
em seus braços, agora desfalecida. Kenkure permanecia estático do outro lado do
balcão. Lita abriu os olhos, sua pele ainda lívida.
“Não pode ser... Então era isso... Por que
de novo...?” dizia ela em frases desconexas até recuperar totalmente a
consciência e levantar-se. “Ken-chan...” falou ela, agora alto o suficiente
para que todos ouvissem.
“Lita,” respondeu ele com alegria, mas sua
feições foram se transformando-se até alcançarem a amargura do fel, “Acho que
estão ocupados, podem continuar,” terminou Kenkure e foi-se embora.
“Espere!” gritou Lita e começou a correr
atrás dele, mas parou e olhou para Kayama, que ficara para trás. Uma lágrima
escorreu em sua face quando ela virou-se e foi atrás de Ken-chan.
“Certo, eu vou te contar tudo, mas tem que
me prometer segredo,” pediu Yan.
“Você não está em condições de me pedir
porcaria nenhuma,” esbravejou Ami.
“Entenda, Ami,” pediu Yan, “é para o seu
próprio bem. Eles podem voltar-se contra você,”
Ami sentou-se na cama com a cara fechada,
pensativa. Logo decidiu-se.
“Conte-me o que é primeiro e lhe direi o que
vou fazer depois,” sentenciou.
Yan suspirou, pensando como contaria a
verdade a Ami se nem ele mesmo gostava de pensar nesse assunto. Contudo não
tinha escolha, pois via nos olhos dela que só a verdade a satisfaria.
“Bem,” começou ele, “A LGA, ou Loyal Group
Agency, é uma organização criada por Benjamin O’Donkel, meu pai. Trata-se de
uma organização constituída pelos mais poderosos de todo o mundo, homens e
mulheres agraciados com poderes letais como raios elétricos, bolas de fogo,
entre outros. O objetivo da LGA é ter o controle de todos os países e reinos
que existem em Eros pois acreditam que os fracos tem que ser dominados pelos
fortes. Você pode se perguntar o que faz alguém pensar assim, e eu digo que
eles acham que por todos esses anos onde só pessoas com poderes inofensivos
comandaram as diversas nações do globo, muito de ruim aconteceu. Criaturas
mágicas como Glastigs, Pucks e Witctleins entre muitos outros invadiram nosso
pacato mundo. Isso sem contar os vampiros que as pesquisas apontam já estarem
vivendo aqui. Para acabar com isso eles acham que os mais poderosos devem subir
ao poder mundial.”
Yan tomou fôlego para continuar, observando
a expressão atônita de Ami.
“É claro que para isso não são usados métodos
muito cordiais,” falou ele, “na verdade são os piores possíveis. A comunidade
participante da LGA é muito fechada e casamentos só são permitidos entre os
membros. Todos os herdeiros desses matrimônios entram para a LGA e associar-se
já adulto é muito difícil devido aos testes de aprovação e iniciação na ordem.
São feitos testes em cada um dos membros para decidir em que seção da LGA ele
pertencerão. Pode-se ser de uma cúpula de manipulação, onde as pessoas com o
dom da boa oratória e das palavras inebriantes são encaminhadas com o intuito
de tomar o poder pela palavra, enganando e manipulando os líderes. Os mais
inteligentes e de pensamento astuto vão para a cúpula de estratégia,
responsável pelo planejamento de todas as ações da agência. E os outros tornam-se
agentes, geralmente os com poderes mais letais.”
“E você é um dos agentes,” disse Ami com
raiva, “um daqueles que espionam, seqüestram, matam...”
“Sim,” concordou Yan, “Mas não foi por minha
escolha. Todas as cúpulas são subordinadas ao Órgão Diretor, que é formado
pelos mais velhos e experientes da agência, e estes obedecem a todas as ordens
do presidente-fundador, meu pai. Veja, Ami, eu já nasci no meio dessa sujeira
toda, e ainda meu pai era o dono, o comandante de tudo aquilo. Eu não tive escolha.”
“Como não?” indignou-se Ami, “Ficou com medo
do papai? Ninguém é obrigado a fazer o que não quer!”
“Você não conhece a LGA,” falou ele com um
suspiro, “As crianças são envolvidas no plano desde o momento que nascem. Sabe,
os casamentos são permitidos apenas entre membros porque o dom dos poderes de
ataque são hereditários, e essa é uma forma de manter a linhagem pura e,
conseqüentemente, o mais poderosa possível. Contudo, o poder não desperta
sozinho, é preciso incitá-lo, por isso, aos 3-4 anos de idade, todas as
crianças são submetidas ao programa ‘Despertar’, que consta em colocar meninos
e meninas que mal sabem entender o que está acontecendo em uma sala blindada
junto com tigres famintos. Ou seja, ou você desperta seus poderes e se defende,
ou morre,”
Yan olhou a cara de pavor e espanto de Ami
ao ouvir esse fato e decidiu continuar, sem poupá-la de nenhum dos detalhes.
“Como pode imaginar,” continuou ele, “a taxa
de mortalidade nesse teste é um tanto grande, cerca de 45%. Isso sem contar
mutilados e feridos em geral que sobrevivem por milagre. Os que conseguem
despertar seus poderes e sair ilesos são imediatamente enviados para o
treinamento de agentes. Lá aprende-se técnicas de tortura, modos de assassinar
pessoas usando seus poderes ou armas convencionais, técnicas de espionagem e
sobrevivência, entre outras coisas. Aos 16 anos os agentes são enviados para
sua primeira missão, geralmente em lugares inóspitos e isolados, como desertos,
geleiras e florestas; se cumprem a missão recebem sua primeira insígnia, a
Flor-de-Lis, e são inscritos na LGA como agentes iniciantes. Após mais um ano
de treinamento, incluindo o terrível programa que ensina a suportar a dor,
visando que aqueles que sejam pegos não deixem vazar nenhuma informação, nem sob
tortura, são enviados para a segunda missão, geralmente em uma cidade de porte
médio na Europa e, se concluírem a tarefa ganham a segunda insígnia, a
Cruz-de-Ferro, sendo promovidos para agentes gerais, capazes de serem enviados
para quase todo tipo de missão. Após completarem 18 anos e terem concluído ao
menos 5 trabalhos no último ano, são enviados para uma tarefa especial, que
consta em matar algum líder político que está ‘incomodando’ a LGA. Essa missão
é optativa, visto que os que não conseguem cumpri-la são eliminados. Contudo,
se alguém consegue executá-la com perfeição, recebe a terceira insígnia, a
Espada-de-Ouro, e é condecorado a agente de elite, sendo enviado apenas para as
missões mais especiais e arriscadas.”
“Isso é horrível, desumano...” murmurou Ami,
“mas mesmo assim... nada justifica uma pessoa viver assim, matando,
enganando... Você poderia ter fugido...”
“Sim, poderia, mas deixe-me contar a minha
história,” tomou a palavra Yan, “Embora a LGA só permita casamentos e filhos
entre membros, meu pai fugiu às suas próprias regras. Minha mãe era uma mulher
muito bonita, uma japonesa que vivia nos Estados Unidos. Ela e meu pai se
conheceram num dia de chuva e então não conseguiram mais se separar. Acho que
ela foi a única pessoa que meu pai amou... Mamãe aceitou o envolvimento dele
com a LGA, embora não concordasse com isso, mas o amava demais para que este
‘detalhe’ se tornasse um obstáculo. Meu pai escondia seu relacionamento de
todos, pois não se descumprisse sua própria ordem perderia a moral dentro da
organização. Infelizmente, mamãe morreu durante o parto e, para piorar, eu
herdei o dom dela, o de ver auras, e não o poder de fogo de meu pai. Foi um
choque duplo para meu pai, perder a mulher amada e ter um filho com um dom tão
inofensivo. Ele conseguiu enganar a organização, dizendo que tinha me adotado,
mas que me transformaria no maior agente de elite que eles já tinham visto.”
“E pelo jeito ele conseguiu,” disse Ami com
sarcasmo.
“Acho que sim. Mas foi a muito custo, para
mim é claro. Meu pai montou um programa especial de treinamento para mim, pois
descobrira que eu tinha características muito boas quando em conjunto:
meticulosidade, paciência e astúcia. Além de todo o programa para agentes da
LGA eu tinha outras atividades paralelas. Já que não tinha poder de fogo, meu
pai me treinou com armas mágicas, que em vez de balas disparam bolas de fogo ou
raios elétricos. Manuseá-las é uma tarefa um tanto difícil, pois exige muita
concentração e força mental. Aprendi também a não deixar pistas, e esse é o
grande diferencial que me faz ser o mais conceituado agente de elite da LGA,
pois consigo apagar todos os rastros que uma missão possa deixar, além de
apagar os vestígios de outros agentes que poderiam nos expor. Agora entenda,
Ami, esse era o único meio que eu tinha de obter um pouco de afeição de meu
pai. Só sendo o grande agente que ele esperava que eu fosse, só cumprindo cada
missão com maestria eu ganhava um gesto de carinho. Transformando-me no que sou
hoje que eu consegui sobreviver à amargura da morte de minha mãe e à rejeição
de meu pai.”
Ami levantou-se da cama, olhando fixamente
para Yan.
“Entendo como deve ter sido difícil ser
tratado como filho adotivo enquanto era legítimo e como esse era o único meio
que tinha de receber um pouco de carinho, mas e agora? Por que não larga essa
vida?” perguntou Ami, ainda indignada.
“Já estou muito envolvido para sair dessa
teia de mentiras e crimes,” respondeu Yan, “teria que viver fugindo para não
ser eliminado por traição. Ademais, acho que me acostumei a essa falta de
escrúpulos e a essa vida de luxo, não creio que haja um recomeço para mim. A
serpente do Éden já me seduziu.”
“É o que eu imaginava,” murmurou Ami, “Mas
também não creio que nessas condições haja um futuro em que possamos estar
juntos. Em memória dos bons momentos que passamos juntos, não contarei nada a
ninguém, mas acho que não nos veremos mais.”
“Se é assim que deseja...” falou Yan com
tristeza, “Mas mesmo assim tome cuidado, pois agora sabe mais do que devia. As
paredes às vezes tem ouvidos,”
“Certo, tomarei cuidado,” concordou Ami e
foi pegar suas coisas na sala. Quando saía pela porta, olhou para trás, mas Yan
não tinha vindo atrás dela. Uma grande sombra negra pairava sobre seus olhos e
apertava seu coração, porém sabia que estava fazendo a coisa certa.
Alguém que luta pela vida nunca poderia
estar ao lado de alguém que vive às custas da morte.
Lita conseguiu alcançar Kenkure antes que
ele chegasse na avenida principal. Ela agarrou seu braço e o virou para que pudesse
ver sua face. Ken-chan olhou-a com amargura no olhar, mas não tentou fugir
daquela que parecia ser uma árdua conversa.
“Ken-chan, preciso explicar o que
aconteceu!” exclamou Lita.
“Você realmente acha que me deve alguma
explicação?” disse com sarcasmo, “Acho que já vi tudo, Lita, você não tem que
se desculpar, não tem nada comigo.”
Lita hesitou, seu coração parecia explodir
em seu peito, sua respiração estava completamente alterada. Pensou em seus
momentos com Kayama, em como ele era tão bom confidente. Depois, olhando para
Kenkure, sentiu as memórias daquele encontro se materializando em seu corpo,
fazendo as suas mãos suarem.
“Eu sei que nosso primeiro encontro foi um
desastre, Ken-chan,” começou ela, “mas eu estava muito sensível naquela época.
Agora estou superando os meus traumas,”
“Eu vi como você está os superando,
querida. Está os afogando nos beijos daquele rapaz. Você não perde tempo,
sua...” falou Ken-chan, hesitando em dizer a última palavra.
Lita estava estática, pois tudo indicava que
sua sina estava se repetindo mais uma vez. Sempre que começava a ser feliz no
amor, algo acabava com tudo.
“Ken-chan,” pediu ela, “ouça-me, por favor.
Sei que eu o magoei muito, mas gostaria de falar só mais um pouquinho. Quando
nos encontramos pela primeira vez, eu me apaixonei por você, mas depois
estraguei tudo por causa do meu passado, que me assombrava e até hoje me
assusta. Depois disso, eu segui minha vida, fingindo para mim mesmo que tinha
te esquecido para não sofrer mais ainda. Aí então que Kayama apareceu em minha
vida, e, após muito pensar, achei que se abrisse meu coração para um novo amor,
seria mais fácil te esquecer. Acho que pode ver que isso não aconteceu, pois
senão não estaria aqui,”
Kenkure olhou-a de cima a baixo e, com o ódio
nascido do ciúme, virou-se e foi embora, lançando para Lita um último olhar de
desprezo.
Lita, ao ver Ken-chan indo embora, sentiu
como se alguém estivesse tirando uma a uma as pétalas da flor do amor que
estava plantada em seu coração. Sua vida perdia a razão de ser a cada segundo,
como a areia que vai se acabando em uma ampulheta. Caiu no chão, chorando.
Kenkure esbarrou num vulto que vinha andando
em passos rápidos na direção contrária. Era um vulto cabisbaixo, que se
aproximou de Lita, sentada na calçada.
“Lita?” perguntou Ami, erguendo o rosto
inchado e molhado pelas lágrimas que não cessavam de cair. Lita olhou para
cima, e seus olhos, não em melhor estado que os de Ami, arregalaram-se ao ver o
sofrimento estampado no rosto da amiga.
Ami sentou-se ao lado de Lita na calçada e,
sem mais perguntas, abraçaram-se. Ficaram assim por muito tempo, e as lágrimas
de uma molhavam o ombro da outra. Compartilharam seu sofrimento em silêncio,
sem indagações dolorosas para as quais não havia resposta. Nesse momento, uma
brisa suave balançou seus cabelos e as nuvens se rearranjaram no céu.
A lua, que até então resplandescia,
escondeu-se, fazendo o véu negro da noite cair sobre todos.
Quando voltaram para dentro de casa,
todos já estavam dormindo em seus quartos. Ami e Lita tentaram se arrumar pra
dormir em silêncio, mas Mina acordou rapidamente.
“O que aconteceu?” perguntou ela, “Onde
vocês estavam?”
“Não se preocupe, Mina,” disse Ami
calmamente, “volte a dormir, certo?”
“Como assim? Já é muito tarde, meninas, onde
vocês estavam até essa hora?” insistiu Mina.
“Podemos conversar amanhã, Mina? Estou muito
cansada...” pediu Lita.
Mina refletiu um pouco e resolveu deixar o
pequeno interrogatório que preparara para o dia seguinte. Mas se elas pensam
que vão escapar, estão redondamente enganadas, disse a loira para si mesma.
Logo a casa inteira silenciou.
O homem que estava vagando há dias por
Tóquio atrás de Serena sentou no meio-fio de uma rua pouco movimentada. Não
entendia como uma pessoa podia sumir desta forma, sem deixar rastros. Isso era
muito estranho, muito. Algo lhe dizia que coisas terríveis estavam acontecendo,
pois apenas isso explicaria esse sumiço repentino. Todas haviam evaporado:
Serena, Ami, Rey, Lita, Mina... Quanto às outras... Bem, ele não as procuraria
a não ser em último caso.
Serena acordou assustada, suando. O relógio
ainda marcava 3 e meia da madrugada e Rey parecia estar finalmente dormindo, e
não rezando, como estava fazendo nas últimas noites. Sonhara com Darien
novamente e agora se sentia extremamente só, abandonada no mundo. Tudo estava
tão silencioso que achou que estava sozinha numa casa vazia, mas, de repente,
ouviu um ruído estranho, um arrastar suspeito.
Rapidamente, ela pegou sua adaga e subiu pé
ante pé as escadas, não queria acordar Rey nem fazer alarde falso. O barulho
parou de repente, mas outros ruídos que ela não conseguiu identificar
começaram. Escondida atrás de uma parede, preparou-se para atacar. Quando achou
que era o momento, saiu do esconderijo com a adaga em punho.
“Quem está aí?!” gritou ela, mas seus olhos
piscaram em surpresa ao verem o que estava acontecendo. “Darien?” completou
ela, com um misto de espanto e vergonha por seu ato.
Ele, que estava tomando um copo de água gelada,
deu uma risada leve.
“Desculpe,” falou Serena, “ouvi um barulho
estranho e achei que era algum inimigo... mas agora já sei o que foi. É que eu
esqueci de sua mania de andar arrastando os chinelos...”
“Não precisa se desculpar,” disse Darien, “acho
que você nem pensou que poderia ser um de nós, simplesmente a idéia de um
inimigo na casa se apossou totalmente de seus pensamentos,”
“Acho que estou ficando paranóica,”
acrescentou ela, ainda ruborizada.
“Eu não te culpo por isso,” sentenciou ele,
“não só você, mas todos nós, temos motivos o suficiente para ficarmos
paranóicos. Mas, diga, o que estava fazendo acordada a essa hora?”
Serena ficou em silêncio, pensando no sonho
que tivera, em que ela e Darien eram novamente um casal feliz. Não queria que
ele soubesse que ela estava tendo esse tipo de sonho.
“É o que eu pergunto!” respondeu ela com
nervosismo, tentando mudar de assunto, “por que você está acordado a essa hora
da madrugada?”
“Acordei de um sonho e tive sede...”
murmurou Darien, “sabe, eu sonhava com nossa família unida novamente. Eu, você,
Hikari...” ele agora parecia falar mais para si mesmo que para Serena,
“estávamos fazendo um piquenique. O sol estava a pino, resplandecente, o seu
quase não tinha nuvens, era um mar azul, profundo, calmo. A brisa suave
balançava os nossos cabelos e para onde quer que olhássemos, só víamos um
infinito verdejante. Só havia uma árvore e estávamos sobre ela enquanto Hikari
e Lua corriam juntas sem direção definida. Você tinha pegado algumas flores do campo
e feito uma coroa para o seu cabelo, que estava solto que nem agora, sem os
odangos. Sua cabeça estava encostada em meu peito, e o aroma das flores parecia
emanar dos seus poros... O gosto das uvas... O toque da sua pele...”
Darien acordou de suas divagações com os
soluços de Serena, que chorava. Ele abraçou-a com firmeza, e assim ficaram até
que suas lágrimas cessaram e ela conseguiu erguer o rosto.
“Por que tudo isso está acontecendo,
Darien?” perguntou ela.
“Eu não sei, meu amor,” respondeu ele, com
uma ternura indescritível na voz, “mas por que você quer sofrer sozinha? Por
que não quer mais dividir suas dores comigo?”
“Você sabe, Darien,” disse ela, se
desvencilhando de seus braços, “só o fato de estar com você me deixa
extremamente feliz, e eu não posso me permitir ser feliz novamente até
encontrar Hikari. Até tê-la sã e salva em meus braços,”
Sem pensar, Darien segurou-a e a beijou
longamente. Serena não ofereceu resistência quando Darien a guiou para seu
quarto. Ao entrar, ela deixou sua adaga na mesinha perto do interruptor. Serena
sentia-se segura nos braços de Darien e seus beijos remetiam-na aos tempos de
felicidade. Contudo, quando deitaram na cama, ela acordou desse pequeno e
delicioso transe.
“Desculpe, Darien,” falou ela, “mas eu não
posso... eu não conseguiria...”
Saiu correndo do quarto, em direção ao
porão. Lá, novamente, toda sua angústia transformou-se em lágrimas.
Na manhã seguinte, Titã estava voltando de
seu ritual com Hikari, que cada vez mais o deixava fraco, pois ela estava
resistindo às trevas, encontrou Verda em sua sala.
“Olá!” falou ele, com um falso sorriso, “ o
que a traz aqui a essa hora? Veio me contar do fracasso daquele monstrinho que
vocês enviaram?”
“Na verdade, achei que você já saberia
disso, e acertei. Queria pedir permissão para alterar a tática que estamos
usando contra aquelas malditas senshi,” disse ela, “em vez de atacarmos
inutilmente com esses monstros patéticos, que não causam real ameaça a elas,
gostaria de um tempo para aperfeiçoar um monstro e assim termos apenas um
ataque, que será letal, claro.”
Titã sentou-se em sua cadeira e pensou por
um tempo.
“Certo, mas que isso não demore muito,”
concordou ele, “Dispensada, doutora.”
Verda então deixou-o, contente por poder
usar sua própria estratégia, uma tão boa que conseguiria acabar com aquelas
guerreiras inoportunas.
O toque incessante do celular fez com que
Yan se levantasse para ir atendê-lo, pois o deixara na mesa da sala. Aquela
tinha sido uma noite terrível para ele, e não conseguia tirar a imagem de Ami
de sua cabeça. Ela saíra dali com uma expressão tão triste... Por alguns
instantes pensou se haveria um jeito de se desvencilhar das teias da LGA, mas
logo sua mente calculista afastou essa possibilidade. Ninguém sai da LGA. A
menos que seja dentro de um caixão.
“Alô...” atendeu ao telefone sem muito
ânimo, “Rouji? Estava mesmo esperando sua ligação! Conseguiu descobrir como
chegar naquela maldita cabana? Hoje é o dia cara! Descobri ontem que eles se
encontrarão lá às 23 horas.”
“Sim, sim, descobri,” respondeu Rouji do
outro lado da linha, “Eu estou aqui no térreo do seu prédio, pode vir aqui?”
“Mas por quê, cara? Pode subir!” falou Yan
sem entender porque o espião e amigo Rouji estava lá embaixo em vez de ter
vindo pessoalmente ao seu encontro.
“Prefiro que você venha aqui, não quero
falar por telefone,” explicou Rouji.
Em alguns minutos, Yan lavou o rosto e
vestiu-se, indo encontrar o amigo no térreo. Ainda não entendia por que ele não
quisera subir, mas... enfim, deveria ser coisa de espião, pois eles são todos
cheios de suspeitas. Assim que saiu do elevador, o viu logo à direita, num
canto meio escuro. Rouji era baixinho e magro, com o cabelo tão preto que às
vezes parecia azul. Tinha uma agilidade absurda e sabia como ninguém passar
desapercebido.
“O que foi cara, por que não subiu?”
perguntou Yan ao chegar.
“Precisava conversar em particular com
você,” explicou o espião, “sabe, há coisas que não se deve falar em qualquer
lugar,”
Yan olhou-o intrigado, não entendia aonde
Rouji queria chegar, mas pediu que continuasse.
“Yan, você pirou?” indagou ele, com a voz um
pouco mais baixa que um sussurro, “você não devia ter contado nada para ela,”
“O quê?” estranhou Yan, “do que você está
falando? Quem é ‘ela’?”
“Não se faça de bobo, meu. Você não devia
ter falado da LGA para aquela garota, a tal de Ami...”
Yan arregalou os olhos em espanto e sentiu
que sua boca estava até meio aberta com aquelas palavras de Rouji.
“Como você sabe disso? Como sabe o que falei
para Ami? Como sabe dela, afinal? Eu não lembro de ter te contado nada!”
indignou-se Yan.
“Yan...” continuou Rouji, “Eu não devia
estar te falando isso, mas enfim... As paredes têm ouvidos, cara. A LGA sabe de
tudo, sempre. Agora você está numa fria, e a garota também,”
“Você quer dizer que nós somos vigiados?
Como eu posso não saber disso? Como podem saber o que acontece no meu
apartamento?”
“Todos os agentes da LGA são vigiados, Yan,”
explicou Rouji, “A LGA é onipotente, onisciente e onipresente, meu amigo. Os
agente não sabem disso justamente para serem pegos sempre que cometem alguma
traição. E foi isso que você fez. Você contou para ela.”
“Mas a Ami vai guardar segredo, Rouji! Ela
não vai abrir a boca sobre isso!” exaltou-se Yan.
“Fale baixo!” repreendeu Rouji, “Eu sei
disso, mas a LGA não está nem aí para esses detalhes. Quando fiquei sabendo que
você tinha quebrado o sigilo eu grampeei algumas conversas do alto escalão,
Yan. Sabe, seu pai vai livrar sua pele, afinal ele quem manda, mas vai custar
caro...”
“Como assim vai custar caro?” perguntou Yan,
com as piores idéias na cabeça.
“Eles vão enviar um agente para te informar
de tudo o que está acontecendo, mas eu quis te avisar antes para amainar sua
reação,” disse Rouji, “A ordem é que para você ser poupado, deve provar sua
lealdade.”
“Provar minha lealdade...?”
“Sim,” continuou o espião, “e para isso você
terá que consertar seu erro e eliminar a mulher.”
Por um momento o mundo entrou em câmera
lenta para Yan e ele ouviu as últimas palavras de Rouji como um eco em sua
cabeça, que se repetia incessantemente. Não, isso não podia estar acontecendo.
Não com Ami.
“Eu nunca farei isso,” sentenciou Yan.
“Se você não fizer, alguém fará. E você será
morto também, com requintes de crueldade especialmente guardados para os
traidores.”
“Mas eu não vou conseguir, Rouji!” exclamou
Yan, um pouco trêmulo, o que deixou Rouji atônito. Desde que conhecera o amigo,
nunca o vira tão desnorteado, tão sem controle de suas emoções.
“Você a ama, não é?” falou ele, “Você a ama
realmente, cara, nunca te vi desse jeito,”
“Sim,” confirmou Yan, “mas nunca poderemos
ficar juntos, já que ela nunca vai aceitar meu trabalho. Às vezes não entendo
como eu aceito esse trabalho, é tão... horrível,”
“Bom, agora você já sabe o que te espera.
Quando o agente da LGA aparecer na sua casa pra te informar de sua punição,
finja o melhor que puder, Yan, não deixe ele perceber que você já sabia, e
muito menos que você gosta de verdade dessa mulher,”
“De qualquer forma, obrigado,” agradeceu
Yan, “agora me dê o mapa da cabana onde será o encontro de Fukuda e Hiroko,”
Rouji então assumiu seu posto de espião e
passou as informações da missão para Yan, que tentou concentrar-se o máximo
possível, pois um segundo erro não seria perdoado. Contudo, no fundo de sua
mente, a imagem de Ami agora estava coberta de sangue.
“Podem contar tudo já!” insistia Mina aos
gritos, “O que aconteceu ontem?”
“Nada, Mina, já falamos que estávamos dando
uma volta...” tentou enganar Lita.
“Vocês não podem me enganar,” disse a loira,
“Pensam que eu não percebi que vocês tinham chorado? Pensam que eu não vi os
seus rostos inchados?”
Lita e Ami se entreolharam, certas de que não
conseguiriam dissuadir Mina, teimosa e curiosa como era.
“Bem,” começou Lita, “eu encontrei o
Kenkure... Na verdade ele me encontrou... beijando o Kayama...”
“O Kenkure da Dragon Magic?” perguntou Mina,
em êxtase, “Aquele que você falou outro dia que não conseguia esquecer? E o que
aconteceu?”
“Bem, eu fui atrás dele e levei um fora...”
murmurou Lita.
“E o Kayama?” interessou-se Mina.
“Você acha de depois de largar o cara e
correr atrás de outro eu ainda ia ter coragem de voltar lá?!” falou Lita
indignada, “Não sei se vou ter coragem de olhar nos olhos dele de novo... Ele é
tão bonzinho comigo...”
Mina olhou para a amiga, que ameaçava chorar
de novo e abraçou-a com ternura.
“Lita,” começou ela, “se você acha que o
Kayama, que está apaixonado por você, é bonzinho, então é melhor que
você não continue com ele, pois só estará aumentando o sofrimento do rapaz,”
“Sábias palavras,” disse Ami para si mesma.
“E você, mocinha?” indagou Mina, despertada
pelo comentário de Ami, “o que andou fazendo?”
“Eu estive com Yan e terminei o namoro com
ele,” respondeu ela.
“O quê?!! Por quê?!!” gritaram em coro Mina
e Lita.
“Prefiro não entrar em detalhes, só posso
dizer que não tem volta,” reafirmou Ami.
“Mas...” ia insistindo Mina quando foi
interrompida por Ami.
“Mina, pare com isso!” exaltou-se ela, “Que
tal se você nos dissesse para onde vai todas as noites em vez de nos
interrogar?”
Mina ficou chocada com o que ouviu, pois
jurava que ninguém sabia de suas escapulidas. Um silêncio constrangedor ficou
pairando no ar até que Finna entrou, chamando-as para a aula.
Todos foram para o jardim atrás da casa e se
prepararam para continuar aquela aula que tinham deixado pela metade. Fina
olhou seriamente para cada um deles, antes de começar seu discurso.
“Bem, vamos começar tudo de novo, do
começo,” falou ela, “Na última aula vocês estavam com a cabeça na lua, e então
eu dei aquela folguinha, mas hoje quero ver todos voando!”
A magia que Finna ia ensinar era um avançado
feitiço de controle do vento, extremamente útil, pois faria uma pessoa voar,
coisa que pode definir uma batalha.
“Respirem e entrem em sincronia com os
ventos, por mais sutis que eles sejam,” ordenou Finna, “São esses ventos que se
unirão ordenadamente ao seus comandos e os erguerão no céu. Quando se sentirem
prontos digam: ‘Lacertosus ventus, dominus tui volo obsequium. Hominis somnium
verusum, corpus mei pars tui convertus et caelum victum! (Ventos poderosos,
obedeçam o pedido de seu mestre. Que o sonho da humanidade se realize, que o
meu corpo se torne parte tua e ganhe os céus!)’
Todos iam repetindo os ensinamentos de
Finna, mas infelizmente não saiam do lugar. Ami, que no dia anterior já estava
quase conseguindo, começou a flutuar a uns 10 centímetros do chão, mas logo
caiu, cansada por causa da energia que o feitiço drenava.
“Muito bom, Ami,” disse Finna, com orgulho,
“Continue tentando que você está quase lá.”
A bruxa começou a passar de um em um,
ajudando, dando dicas, fazendo exercícios de respiração, ensinando a interagir
com o vento, pois só assim se tornariam tão leves quanto ele, possibilitando o
vôo.
“Darien, faça como digo,” pediu ela com
delicadeza, “Feche os olhos, limpe sua mente. Tente não pensar em nada, só em
respirar e sentir a força do ar a sua volta. Não precisa ter pressa, a hora de
dizer as palavras é aquela quando você se sente leve como uma pluma.”
Ele então seguiu com destreza todos os
conselhos de Finna, acalmando-se progressivamente. De olhos fechados, sentiu
seus cabelos balançando com brisa, o ar
tocando sua pele com suavidade. Sentiu-se envolto e protegido pelo vento,
dizendo as palavras. Conseguiu um resultado muito bom, erguendo-se à altura de
um metro e depois descendo voluntariamente. Abriu os olhos com as palmas de
todos, e não sentiu cansaço algum. Finna explicou que isso acontecera porque a
força do vento não tinha o erguido no ar, mas ele tinha se tornado parte do
vento e incorporado sua força.
Aquele pequeno sucesso de Darien injetou um
novo ânimo no grupo, que se empenhou com todas as suas forças. Logo todos
estavam flutuando, uns mais e outros menos. Num momento de distração, Mina foi
jogada para trás por um vento descontrolado.
“Isso que dá você se distrair no meio de um
feitiço!” ralhou Finna, “Os ventos podiam até ter virado um furacão, sabia?”
O dia foi passando e, após o breve almoço o
treino puxado de Finna recomeçou, agora com todos mais acostumados e dominando
mais o feitiço. Finna os ensinara que quando se sentissem seguros no ar, sem terem
que ficar fazendo força para se concentrar, deveriam começar a voar de verdade.
Como se transformavam em parte do vento, só deveriam pensar para que lado ir e
a qual velocidade.
A primeira a ganhar os céus com plenitude
foi Lita, que antes do entardecer já ia de um lado pro outro, fazia cambalhotas
no ar, ria de felicidade. Logo os outros se juntaram a ela e mesmo após o sol
se pôr eles continuavam a brincar com esse novo poder, fechando a aula com uma
alegria inacreditável.
“Olá... alguém em casa?” gritou Hotaru na
porta da casa de Setsuna, que logo veio abrir a porta. Sorrindo, ela fez a
amiga entrar e subir para o seu quarto no segundo andar.
“E aí, alguma novidade nas suas poções?”
perguntou Hotaru com um ar tristonho, “Estou tendo aqueles acessos umas três
vezes ao dia... O bom é que sei mais ou menos quando vai acontecer, e daí dá
tempo de eu me esconder das pessoas,”
Setsuna respondeu negativamente, pois ainda
não tinha descoberto nada mais eficiente do que ela já vinha ministrando.
“E ainda não descobri nada sobre o paradeiro
daquelas malucas...” acrescentou, referindo-se às senshi.
“Você sabia que Haruka e Michiru estão
rastreando e monitorando suas pesquisas? Elas também estão atrás de Serena e
cia,” falou Hotaru.
“Eu já sabia...” murmurou Setsuna, “você é
que não sabe da maior,”
Ela então levantou e guiou animadamente
Hotaru até a janela.
“Olhe lá,” disse apontando para um pequeno
prédio a alguns metros de distância, “está vendo uma janela mais ou menos na
altura de onde estamos? Pois é, aquelas duas alugaram aquele apartamento só
para nos vigiar mais de perto. Acho que elas fazem isso só para mostrar que
mesmo com Michiru fora de combate, ainda continuam no nosso pé.”
“São umas loucas!” exclamou Hotaru com
desprezo, “mas Michiru ficará boa logo e então teremos problemas... Quer dizer,
mais problemas, como se não bastasse Titã tentar me dominar,”
“Tentar, não,” continuou Setsuna, “ele já
está te dominando, é uma questão de tempo. E nesse ínterim temos que achar
Serena e as outras, pois certamente ele usará você para atacá-las,”
“Por que essas coisas só acontecem comigo?”
perguntou Hotaru, gozando de sua própria situação.
O jantar feito por Lita foi muito animado, o
mais alegre desde que chegaram em Eros. Todos conversavam, brincavam, estavam
cheios de uma força nova, que revitalizava suas mentes e corpos, que afastava
toda a treva que tinha coberto a vida de cada uma daquelas pessoas, tão
especiais e tão feridas pela vida.
Rey ficara ajudando Ami a tirar a mesa e
lavar os pratos, enquanto os outros já tinham ido dormir, pois apesar de tudo a
aula fôra muito cansativa.
“O dia de hoje me deu uma nova esperança...”
disse Ami, “acho que temos mesmo chance de derrotar Titã e salvar Hikari,”
“Espero que sim,” falou Rey com uma voz
soturna, estranha, “Vai ser uma alegria para Serena... e então ela esquecerá de
todos os outros problemas...”
Acabando o trabalho, as duas foram cada uma
para seu quarto, mas Ami não percebeu que o olhar brilhante de Rey agora estava
encoberto por um manto negro.
Darien estava dormindo um sono conturbado.
Tinha aberto um pouco os olhos ao despertar de um sonho quando viu um vulto
parado à porta. Aquele pedaço de sombra foi se aproximando, mas a escuridão não
lhe deixava ver quem era.
Quando estava na beirada da cama, Darien
pode ver que no topo daquele ser misterioso estavam duas bolinhas, uma de cada
lado da cabeça.
"Serena?" perguntou ele com a voz
baixa.
Ao ouvir esse nome, o vulto lentamente
deitou-se sobre Darien, calando-o com um beijo. Ele acariciou os cabelos
daquela forma feminina e reconheceu os odangos de Serena. Tentou falar de novo,
mas a mulher continuou o beijando, insistindo para que ele não quebrasse a
magia daquele momento com palavras inúteis.
"Pobre Serena," pensou Darien,
"acho que ela não quer pensar muito no que esta fazendo, pois senão
desistirá de tudo..."
Concluindo essa idéia em sua cabeça, Darien
abraçou o corpo macio que estava sobre o seu e beijou sua nuca ardorosamente,
uma coisa que sempre deixava Serena em êxtase. Um murmúrio foi ouvido em seu
ouvido, e Darien então desceu pelas linhas de seu pescoço, até chegar a um
tecido fino que foi habilmente retirado. Continuou o caminho partindo do seu
colo e finalmente beijou seus seios com carinho. Sentiu unhas se cravando em
suas costas, a respiração acontecendo em pequenos e rápidos espasmos.
Os lábios se tocaram novamente, e as ágeis e
delgadas mãos femininas logo jogaram no chão o pijama de Darien, que deitou-se
sobre aquele corpo quente que o abraçava com ardor, sentindo que suas formas se
encaixavam perfeitamente, como feitos um para o outro. Dedicou-se a acariciar
com a boca a barriga de sua amante, e pensou que ela emagrecera um pouco nos
últimos dias. Contudo, esse pensamento foi interrompido quando sentiu que as
mãos que afagavam seu cabelo faziam uma leve pressão para baixo...
Serena acordou com um ranger na escada, mas
tentou dormir novamente, pensando no que Darien dissera sobre ela estar um pouco
paranóica. Rolou de um lado para o outro durante algum tempo, mas aquele ruído
parecia se repetir como um eco dentro de sua cabeça.
"Se eu não for me certificar que aquilo
foi só imaginação, não vou mais conseguir dormir," pensou Serena,
abaixando a mão e tateando o chão em busca de sua adaga, que deixava ao seu
lado ante de ir dormir.
"Droga," disse baixinho,
"deixei ontem no quarto de Darien!" Quis buscá-la num impulso, mas o
fato de entrar no quarto de Darien à noite não a agradava nem um pouco, pois
temia que, se o fizesse, não conseguiria sair tão cedo. Ao mesmo tempo, queria
ver o que era aquele barulho e queria ter sua adaga em mãos como forma de
prevenção. Estava num impasse, que se decidiu quando ela se levantou e subiu as
escadas, com cuidado para não acordar Rey.
Já no andar superior, pensou em desistir,
mas seu inconsciente, ansioso para ver Darien, fez com que prosseguisse. Pé
ante pé, chegou até a porta dele e, para sua surpresa, ouviu um barulho
estranho.
"Será que o inimigo está com
Darien?" pensou apavorada, "Bem, minha adaga está na mesinha aqui do
lado esquerdo da porta, devo entrar sem fazer barulho e pegá-la, antes que
alguém note minha presença,"
A mão direita de Serena foi até a maçaneta,
abrindo um pouco a porta, possibilitando que a mão esquerda entrasse pela
fresta e alcançasse a adaga. Com ela em punho, Serena foi entrando
silenciosamente no quarto de Darien, preparada para surpreender o inimigo.
Quando entrou totalmente do lado de dentro, tudo que via era um breu profundo e
ruídos esquisitos, mas, lentamente, sua visão foi se acostumando.
Um vulto de foi tomando forma ante seus
olhos, e ela não conseguiu distinguir o que era aquele ser no primeiro momento.
Contudo, passando o tempo, cada segundo como se fossem minutos, viu uma forma
de mulher, meio ajoelhada ou sentada, não conseguia discernir. Sob ela estava
um corpo deitado, e ambos se movimentavam com uma sincronia incrível, como numa
dança frenética e ritmada. Serena viu que os braços da sombra deitada estavam erguidos
para cima, não, em diagonal para frente, corrigiu-se ela mentalmente, e nas
extremidades duas mãos seguravam e massageavam... não, não podia ser, falavam
os pensamentos de Serena, tentando impedir que suas suspeitas aflorassem
definitivamente. Aquelas mãos não podiam estar acariciando os seios fartos de
uma mulher... não, não era verdade, repetia ela para si própria, não...
Decidida a provar a si mesma que estava errada, o dedo indicador de Serena
apertou o interruptor.
Verda acordou com um grito. Provavelmente
estivera sonhando com algo desagradável, mas não se lembrava exatamente do que
se tratava. Levantou-se calmamente, indo até a janela de seu quarto, que ficava
numa região privilegiada do palácio, no terceiro e último andar da torre norte.
Só era permitido o acesso a esse a andar quem gozasse da inteira confiança de
Titã, o que era um pouco raro. Na verdade, só havia três quartos nesse local,
dois de tamanho médio e um enorme, onde dormia Titã. Em um dos quartos médios
estava Verda e o outro estava desocupado. Olhando pela janela, ela viu a lua
resplandecente no céu, com seus raios de luz que pareciam acariciar sua pele.
Abraçou a si mesma, como se estivesse sentindo frio, como se quisesse ser
protegida por alguém mais um vez. Abriu a vidraça e uma brisa moderada fez a
cortina esvoaçar, remexendo-se tal qual as ondas do mar.
"Por que estou me sentindo assim tão
só?" perguntou Verda em voz baixa, "Tenho um bom cargo, uma posição
privilegiada na corte... Tenho até mesmo os carinhos de Titã..."
Verda caminhou pelo quarto e sua camisola de
seda vermelha refletia a pálida luz que vinha de fora. Pensou em quantas
mulheres gostariam de estar em seu lugar, de ter o poder que ela tinha. No
entanto, Verda agora não estava mais tão feliz com sua vida, já que no início
tudo eram flores, seus sonhos pareciam se concretizar a cada momento. Quando as
coisas tinham mudado para ela? Quando ela tinha percebido como sua existência
era vazia? Quando ela notara que ninguém a queria de verdade, ninguém sentiria
sua falta se ela se fosse?
"Isso não é verdade..." disse para
si mesma, "Hiroi me ama... ou amava... não sei..."
Confusa como nunca, foi até o quarto vazio,
que ficava de frente ao seu. Todo o requinte do seu quarto era contrabalançado
pelo abandono do outro. Estava abandonado e empoeirado, com vidros quebrados e
móveis estragados. A cortina balançava como a sua, mas estava rota e amarelada.
Um tapete carcomido estendia-se no chão e Verda, vagarosamente, deitou-se sobre
ele numa posição fetal. Lágrimas não tardaram a escorrer pela sua face, mas,
para amenizar a dor que se instalava em seu peito, dormiu.
No primeiro instante, a luz ofuscou a vista
e a mente de todos os presentes. Quando o choque inicial passou, a situação
começou a se delinear e Darien olhou para a porta com um olhar raivoso.
"Quem diabos está aí? Como entra assim
sem bater?" berrou ele impulsivamente. Assim que o ódio permitiu que ele
estudasse a situação, viu Serena na entrada. "Serena?" perguntou ele
confuso, "Mas, quem então...?" continuou ele, virando a cabeça para
cima.
Foi um choque. Com o penteado de Serena, Rey
estava estática de vergonha e medo do que aconteceria, pois não era de seu
feitio pensar antes nas conseqüências de seus atos. Sentou-se um pouco para
trás, na beirada da cama.
"O que diabos você está fazendo aqui?
Por que você está com o penteado de Serena?" esbravejou Darien, embora já
soubesse a resposta para suas perguntas. Olhou de novo para Serena, que tinha
um olhar paralisado e vazio. Darien murmurou algumas palavras que seriam uma
explicação para o que estava acontecendo, mas logo viu que de nada elas
adiantariam.
"Vagabunda..." disse Serena com
uma voz grave, "Como uma mulher consegue ser tão baixa, tão vadia?"
Rey olhou sem expressão, pois não sabia o
que dizer. Não havia o que dizer. Virou-se lentamente de costas para
Serena, como se tentasse esconder não só seu corpo nu, mas também seu
constrangimento diante dessa situação. Darien observava as duas e levou outro
choque com o que aconteceu. Enquanto Rey se virava, Serena ergueu seu punho e
jogou a adaga no meio das costas da morena. Como em câmera lenta, Rey deu um
grito abafado e tombou para fora da cama, caindo de boca no chão.
"Não!!!!!!!!!!!" gritou Darien,
enrolando-se no lençol e despertando daquele transe que se iniciara quando
Serena acendera a luz. Foi até Serena, que tinha em seus olhos o brilho do mais
puro ódio.
"Não chegue perto de mim!" berrou
ela, "Você está com o cheiro daquela cadela maldita!"
Ele parou, sem saber o que fazer, e virou-se
para Rey, que tinha se virado de lado. Um filete de sangue escorria de sua
boca. Darien foi até ela, abaixando-se.
"Siliciate!" disse Serena, e ao
mesmo tempo a sua adaga perdeu o brilho e tornou-se toda de pedra. Darien
tentou puxá-la, mas não conseguiu movê-la nem um milímetro. Neste momento,
Mina, Lita e Ami entraram no quarto e se depararam com aquela cena.
"O que houve aqui?" perguntou Mina
estupefata.
"Não sei, mas Rey está muito
ferida!" gritou Ami, já ao lado da morena.
Lita passou por Serena, observando cada
detalhe daquele teatro dos horrores. As peças foram se encaixando em sua
cabeça, e logo ela teve uma idéia do que acontecera. Já ao lado de Rey, lançou
um olhar para Darien, como se perguntasse a ele: "lembra-se do que eu te
disse?"
"Serena lançou um feitiço na adaga, ela
não se move," comunicou Darien, preocupado.
"Se continuar assim ela vai
morrer," disse Ami, vendo que os sinais vitais de Rey estavam diminuindo
progressivamente, "Serena, desfaça isso ou eu o farei!"
"Nunca salvarei essa traidora. Magus
seges, orior! Mei imperium obsequium! (Campo mágico, apareça! Obedece ao meu
comando!)" disse Serena com a voz fria como o aço.
"O que você está fazendo? Pare de usar
mágica contra Rey!" desesperou-se Ami.
"Essa maldita não merece a vida. Agora
que criei uma barreira mágica em volta dela, nenhuma de vocês poderá
salvá-la!" falou ela com uma expressão literalmente assustadora. Nesse
momento Finna apareceu com seu robe de flanela e assustada com a gritaria que
ouvira de seu quarto. Vendo a cena, perguntou o que estava acontecendo.
"Bem," respondeu Ami, "Serena
tentou matar Rey, por motivos que podem ser explicados depois, e lançou um
feitiço nela, uma barreira contra magia, de modo que não podemos ajudar em
nada."
"O quê?!" espantou-se Finna,
chegando perto de Rey "Serena... ela... ela não pode criar um campo contra
magia! Esse é um dos encantos que mais exige energia e experiência... É
impossível!"
Ela tentou então lançar algumas magias em
Rey para ver se conseguia quebrar o encanto de Serena, mas nada aconteceu,
deixando Finna estupefata. Enquanto isso Ami gritava com Serena para que ela
poupasse Rey.
"Nunca, Ami," sentenciou Serena
com uma entonação cortante, "Essa vadia tem que morrer, ela não merece
ficar nesse mundo nem por mais um instante,"
"Serena..." murmurou Rey, reunindo
suas forças e chamando a atenção de todos para si, "desculpe... não é
nada... pessoal..." Um acesso de tosse interrompeu sua fala e ela cuspiu
uma boa quantidade de sangue. Ami queria que ela parasse de falar, mas a
teimosa não escutou.
"Eu... eu tinha... que fazer
isso..." continuou a morena, "foi mais forte do que eu... eu... não
agüentava... mais..."
Rey se contorceu no chão, e seus olhos
perdiam o brilho lentamente. Deitada numa poça de sangue, seus seios estavam
manchados daquele líquido rubro e espesso.
"Não se desculpe, a culpa é
minha," falou Serena, "Eu que quis me enganar, quis me convencer que
você não era uma vagabunda..."
"Pare, Serena!" gritou Ami,
"Você não pode matar Rey!"
"Pode sim!" disse Mina, indo para
o lado de Serena, "Ela merece isso. Eu tentei avisar vocês, tentei mostrar
que ela não era confiável, mas não quiseram me ouvir. Agora ela apunhalou
Serena novamente e de uma forma muito pior. Serena está certa em acabar com
essa piranha maldita,"
Ami ia responder algo para Mina, mas foi
interrompida por uma nova crise de tosse de Rey, que estava quase coberta de
sangue. Finna cobriu Rey com um lençol da cama, afagando os cabelos negros que
agora pareciam um emplastro de sangue.
"Serena, não a mate," pediu Finna.
"Seu pedido é em vão! MORRA!!!!!"
berrou Serena, num surto de ódio e mágoa, chocando a todos.
Nesse momento, uma luz branca explodiu e
tomou todo o quarto. Ninguém via ou ouvia coisa alguma, só aquele resplendor
ofuscante. Lentamente a luz foi se dissipando e, no meio do quarto, flutuando,
brilhava magnificente o Cristal de Prata. Ante um silêncio profundo, o Cristal
emitiu uma luz na direção de Rey, e a adaga de Serena sumiu e reapareceu aos pés
de sua dona, ao mesmo tempo em que o ferimento se cicatrizava. Com um ruído
surdo, o Cristal parou de emanar sua luz cálida e caiu no chão.
"O Cristal..." começou Mina.
"Ele salvou Rey..." continuou Ami.
"O Cristal de Prata apareceu e não
deixou que Serena matasse uma senshi," concluiu Lita.
Nesse momento, todos olharam para Serena,
que estava caída ao lado da porta, com o símbolo da lua brilhando calorosamente
em sua testa.
"O que eu estava fazendo..."
murmurou Serena para si mesma, "Como pude..."
Mina levou Serena para o porão, pois a amiga
estava muito confusa e perturbada, chorando copiosamente. Em seguida, Ami e
Finna levaram Rey para o banheiro, para tomar um banho e tirar toda aquela
meleca de sangue, deixando Lita e Darien a sós no quarto.
"Você não ouviu os meus conselhos,
não?" perguntou Lita com um ar decepcionado.
"Lita, ela me enganou... Aquele
penteado, a escuridão..." ele tentou se explicar.
"Eu sei disso, mas você deveria ter
sido mais cauteloso," continuou ela, "entendo que nessas horas não se
pensa em nada, mas... Você viu, isso quase acabou em tragédia, e a ferida no
coração de Serena nunca se fechará por completo,"
"O que eu posso fazer agora?"
perguntou Darien, aturdido com a situação em que se metera.
"Acho que nada," falou Lita,
"Sabe, Serena não é tonta, ela sabe que foi uma armação de Rey, mas... É
difícil para uma mulher superar algo como isso. Ela já estava cheia de
complexos e confusa por causa de Hikari, e agora situação só piorou. Temos que
dar tempo ao tempo e ver como ela reage."
"Mas você acha que ela não vai voltar
para mim por causa disso?"
"Bem," disse ela, "eu não
sei. Vai ser muito duro para ela de agora em diante, mais do que tem sido até agora.
É certo que ela te ama, e o que houve não muda isso em nada, mas... toda vez
que ela te beijar, toda vez que ela te tocar... ela vai lembrar do que Rey fez.
Ela viu efetivamente alguma coisa?"
"Lita, eu não sei ao certo,"
murmurou Darien meio constrangido, "mas acho que ela viu tudo... ou pelo
menos o pior..."
Lita fez uma careta, imaginando a cena e por
fim suspirando. "Então acho que vai ser pior do que esperava. Você sabe,
há imagens que nunca se esquece, e cada vez que ela olhar para você vai se
lembrar do que viu e do que sentiu naquele momento,"
"Então não há nada mesmo que eu possa
fazer?" insistiu Darien.
"Tem," afirmou Lita, passando por
ele, "vista-se," concluiu, jogando o pijama na cara de Darien e indo
embora daquele malfadado palco.
Rey entrou na banheira que Ami tinha
preparado para ela e ainda se sentia muito fraca. Relaxou o corpo ao sentir o
perfume de rosas que emanava da espuma e o calor que envolvia todo seu corpo.
"Por que você fez isso, Rey?"
perguntou Ami, parada em frente a pia, olhando para o espelho com uma expressão
de desânimo.
"Eu precisava..." sussurrou Rey,
como se falar sobre o que acontecera a ferisse profundamente, "Eu o amo
tanto..."
"Mas se você o ama de verdade, não
devia ter feito isso com ele, enganado o Darien dessa forma tão suja,"
ponderou Ami.
"Ele nunca me amou de verdade, nem vai
amar," falou Rey com pesar, "Mas eu, Ami, eu precisava ser amada por
ele pelo menos uma vez, ou então minha vida nunca teria sentido,"
"Rey, mas ele não te amou em nenhum
momento, ele achava que você era Serena..." retrucou Ami, olhando para a
morena.
"Não importa o que ele pensou,"
insistiu ela, "A verdade é que foi eu quem ele beijou, foi o meu corpo que
foi acariciado pelas suas mãos... A explosão de sensações que ele causou foi em
mim...!"
Ami andou até a beirada da banheira e
agachou-se ao lado dela.
"Como você pôde fazer isso com a
Serena?" perguntou com um olhar firme.
"Não era para ela ter visto o que
viu..." respondeu Rey com arrependimento, "Sabia que mais dia menos
dia ela ia descobrir, mas não queria que ela visse nós dois juntos, no ápice do
prazer... Admito que foi horrível. Toda vez que eu pensava na reação de Serena
quando descobrisse, ficava tentada a desistir do meu plano, mas uma vozinha me
dizia: 'Não, Rey, aproveite o momento, viva seu amor uma única vez que seja,'
Então eu fui até o fim."
Ami baixou os olhos, e Rey sentiu que ela se
corroia de ódio por dentro e que na verdade queria matar Rey com suas próprias
mãos. Entretanto, Ami não faria isso, já que sua racionalidade nunca permitiria
um ato tão bárbaro.
"Ami, não me odeie tanto assim,"
pediu Rey, "Eu sei que perdi todas vocês para sempre e que fiz uma coisa
vil e desprezível, mas tive meus motivos. Nunca conseguiria ser feliz sem poder
me lembrar de um momento de paixão com meu amado Darien. Você é virgem, não
entende o que eu senti, o que eu precisava sentir... Meu corpo e minha mente
precisavam disso para sobreviver."
"Muito você se engana," falou Ami
erguendo novamente o olhar, "eu não sou mais virgem, e, acredite, sei
exatamente do que você está falando. Mas nunca sacrificaria nenhuma amizade por
isso. E no caso, acho que você abriu mão de muito mais do que uma simples
amizade."
Rey olhou estupefata para Ami após suas
palavras. Antes que pudesse falar qualquer coisa Finna apareceu na porta.
"Aqui está o roupão que Ami pediu que
eu buscasse," disse ela, deixando-o no cabideiro, "qualquer coisa me
chamem."
"Bem," concluiu Ami, "agora o
mal já foi feito. Acabe seu banho e vista-se,"
Então ela saiu do banheiro, deixando Rey no
meio de seus sorrisos e lágrimas, que insistiam em aparecer ao mesmo tempo.
Mina estava sentada de frente para a lareira
do porão, e Serena deitada com a cabeça em seu colo ainda soluçava enquanto a
amiga acariciava seus cabelos.
"Não chore, Serena," pediu Mina,
"ela não vale nenhuma lágrima sua,"
"É inacreditável..." murmurou
Serena, "como Rey teve coragem...? E como eu tive coragem de tentar
matá-la? Acho que estava possuída..."
"Não estava não," negou Mina,
balançando a cabeça, "Ela merecia a morte. Se você quiser, eu posso fazer
o serviço pra você,"
"De jeito nenhum, Mina," gritou
Serena, "Eu tentei matá-la num momento de stress, mas não desejo a morte
para Rey..."
"Você é que sabe," falou Mina,
"mas se eu tivesse visto o que vi, matava os dois..."
"Só não me mate antes de eu falar com
Serena," disse Darien, descendo as escadas. As duas se viraram para trás
ao mesmo instante, surpreendidas pela sua chegada.
"Vá embora!" gritou Serena,
"Não quero falar com você!"
Mina levantou-se e tentou guiar Darien de
volta para cima, mas ele suplicou com o olhar um minutinho para conversar com
Serena, e Mina deixou os dois a sós.
"Você esqueceu isso," disse
Darien, abaixando na frente de Serena e estendendo-lhe o Cristal de Prata, que
ela pegou rapidamente, como se quisesse matar as saudades.
"Desculpe, Serena," continuou ele,
"Eu sei que foi uma armação da Rey, mas mesmo assim sinto que tenho alguma
culpa. Fui negligente, talvez, não sei. Contudo sem mim nada daquilo teria
acontecido, de modo que tenho que assumir minha parte no que houve,"
"Não precisa se desculpar," falou
Serena, "estávamos separados..."
"É claro que não!" retrucou
Darien, "Estávamos momentaneamente longe um do outro, mas continuamos
casados e continuamos nos amando. Mesmo não querendo, eu traí você,"
"Isso não importa," murmurou com
voz doce, "Não o culpo pelo que aconteceu, mas não sei se algum dia
conseguirei esquecer o que vi ou superar o que houve. Ainda te amo muito, mas
nada mudou em nossa situação. Continuaremos separados até salvarmos Hikari, e
então farei minha escolha, se ficarei ou não com você. Até lá, não tente nada,
não insista,"
Darien se levantou e foi embora em silêncio,
mostrando que acatara a palavra final de Serena.
No resto daquela noite fatídica choveu
torrencialmente, como se o céu estivesse chorando pelo que acontecera.
Amanheceu sem sol, as nuvens cinzentas que restaram da chuva cobriram quase
toda a luz que vinha do céu; o dia estava de luto.
Serena, Ami, Mina e Lita fizeram uma pequena
reunião junto com Finna, e, apesar dos protestos da última, decidiram que Rey
teria que ir embora definitivamente, teria que ser enviada de volta para a
Terra.
“Mas vocês ficarão enfraquecidos sem uma guerreira
poderosa como Rey!” argumentava Finna.
“Não importa,” retrucava Mina, “saberemos
como superar a falta de Rey no grupo.”
Chamaram então Rey e comunicaram-lhe a
decisão, que ela acatou sem discutir. Já sabia que isso aconteceria, que elas
não gostariam de vê-la nem pintada, nunca mais. Rapidamente arrumou suas coisas
e apagou o fogo sagrado que ela acendera, após algumas breves orações. Voltou
para sala, onde Finna estava iniciando o feitiço de abertura do portal. Darien
estava no quarto, pois não queria olhar na cara daquela mulher outra vez, já
que via em suas feições o sofrimento de Serena.
“Adeus,” disse Rey, indo em direção ao
portal, “sei que feri muito a todas vocês, principalmente Serena, mas digo que
apesar de tudo eu as amo, são e serão minhas irmãs para sempre, mesmo que me
odeiem,”
Serena limpou uma lágrima de dor e ódio.
Mesmo depois do que Rey tinha feito, seria difícil se separar dela novamente.
Mais uma lágrima caiu quando o portal se fechou atrás de Rey.
Tóquio estava tão cinzenta quanto o céu na
casa de Finna. Uma chuvinha fina caía incessantemente, molhando os cabelos de
Rey. Aquele tempo que vivera em Eros agora parecia uma lembrança distante, como
num sonho ou pesadelo, a única coisa que estava viva e real em seus sentimentos
era a noite que passara com Darien. Caminhando lentamente, chegou ao Templo
Hikawa.
Após subir as longas escadarias e se
aproximar da porta, Rey viu dois vultos conversando dentro da sala. Um era o
seu avô, mas e o outro? Seria Nicholas? Não parecia... Para tirar a prova, ela
entrou abruptamente.
“Você...?” espantou-se ela com quem viu.
“Rey,” falou o rapaz, “que bom que
finalmente encontrei alguém! Já faz um tempo que procuro vocês. Onde estavam? O
que aconteceu?”
Contudo, Rey não conseguiu responder,
atônita com a pessoa que estava parada em sua frente. Era simplesmente
inacreditável.
A campainha do apartamento de Yan estava
tocando há alguns minutos. Vencido pelo cansaço, ele levantou de sua cama e
colocou um roupão para ir atender a chamada tão insistente. Quando abriu a
porta, deparou-se com uma mulher que nunca vira antes, era morena, com cabelos
castanhos um pouco ondulados e um corpo fenomenal.
“Já nos conhecemos?” perguntou Yan,
desconfiado.
Ela não respondeu nada, apenas levantou a
mão direita mostrando no dedo um anel de prata com algumas inscrições. Yan
rapidamente percebeu que era um anel igual ao que ele usava, indicando que a
mulher pertencia a LGA. Ele abriu passagem para ela entrar e fechou a porta em
seguida.
“Muito prazer,” começou ela, estendendo a
mão para cumprimentá-lo, “Meu nome é Dolores Martinez, agente da LGA como pôde
perceber. Podemos conversar?”
Yan e Dolores sentaram-se no sofá da sala e
ele ofereceu-lhe água ou outra coisa, mas ela recusou, indo direto ao assunto.
“Bem, Sr. O’Donkel,” disse ela com firmeza
na voz, “gostaria de dar os parabéns em nome da LGA pelo seu brilhante e
impecável serviço na missão #187, eliminando Hiroko e Fukuda. Contudo, o que me
traz aqui não é esse assunto,”
“E qual seria?” indagou Yan, pressentindo o
pior.
“Bem,” continuou ela, “infelizmente, apesar
de seus ótimos serviços prestados ao longo desses anos, o senhor traiu a LGA.
Acho que pensou que nunca descobriríamos, mas fique sabendo que nada pode ser
ocultado dos olhos da LGA. O fato é que estamos cientes que você passou
informações secretas para uma garota, a Srta. Mizuno,”
“Como vocês podem saber disso?” falou Yan,
tentando parecer surpreso e indignado.
“Sr. O’Donkel, não importa como. O mal já
foi feito e tem que ser reparado.”
“E o que acontecerá comigo?” disse com a voz
falsamente trêmula.
“Graças ao poder de seu pai na LGA, será
poupado do tratamento comum dado aos traidores,” disse ela com calma, “porém,
terá que mostrar lealdade a LGA eliminando a garota,”
Yan suspirou, fechando os olhos. Agora teria
que ser realmente um ator.
“Mas ela não vai dizer nada a ninguém, eu
asseguro! Por que uma inocente tem que pagar por um erro meu?”
“Sr. O’Donkel, não venha com desculpas,” riu
Dolores, “A LGA já está sendo condescendente demais com você, não queira mais
bondade para um traidor. Acho que sabe o que aconteceria com você se não fosse
filho de quem é,”
“Não há escolhas?” indagou ele com pesar.
“Não,” respondeu ela, “E queremos isso feito
em menos de 3 dias,”
Yan assentiu com a cabeça, uma dor imensa no
olhar. Despediram-se e a agente entrou no elevador, deixando Yan livre para
respirar aliviado.
“Acho que consegui disfarçar bem,” pensou.
“Bem, ela se foi,” murmurou Ami enquanto
Mina afagava os cabelos de Serena, que parecia desolada após todos aqueles
acontecimentos.
“Serena,” falou Finna, “podemos conversar?”
“Claro, fale,” respondeu ela.
“A sós, digo,” complementou a bruxa. Serena
assentiu e as duas foram para o porão, deixando as outras garotas curiosas.
“O que será que ela quer,” perguntou Mina.
“Eu não sei, mas acho que estamos livres por
enquanto...” percebeu Lita.
“Vamos dar uma volta?” sugeriu Ami e Mina
logo concordou, toda animada.
“Podem ir vocês,” falou Lita, “Tenho algumas
conversas que não posso adiar mais,”
Já no saguão do prédio de Yan, Dolores fez
uma ligação do seu celular.
“Alô,” disse ela, “Aqui é Dolores Martinez,
me passe para o chefe de seção,”
Após alguns instantes, alguém atendeu do
outro lado da linha.
“Sr. Yamamura? Sim, estive com ele. Foi tudo
como o esperado, ele mente muito bem, mas nunca poderia imaginar que mandariam
uma pessoa com o dom de perceber quando se falta com a verdade,” ficou mais
alguns instantes em silêncio, ouvindo o que o homem lhe dizia, “Claro. Já estou
iniciando o plano adicional, aceito a missão.”
Ela desligou o celular e ficou olhando
fixamente para o nada, apenas pensando no que iria fazer. Finalmente, voltou a
andar.
“Me aguarde, Srta, Mizuno...” murmurou para
si mesma.
Rey levou a inacreditável visita para seu
quarto, onde poderiam ter mais privacidade para conversar. Sentaram-se um de
frente para o outro, ela ainda com aquela cara de espanto.
“O que você faz por aqui, Seiya?” perguntou
Rey.
“Bem, após ter voltados para o meu planeta,
começamos a sua longa e difícil reconstrução,” explicou ele, “Contudo, a nossa
querida princesa Kakyuu demonstrou ter um poder de renascimento incrível, e, em
5 anos, tudo voltou a ser como antes. Quer dizer, melhor que antes, pois após
esse trauma as pessoas ficaram mais conscientes de como a guerra pode ser
cruel, e, portanto, tornaram-se mais calmas, pacíficas, o número de crimes
diminuiu quase ao zero, vivemos praticamente no paraíso,”
“Sim, mas você não respondeu minha
pergunta,” falou Rey.
“Continuando,” disse ele, “Tivemos um ano de
paz, sem muitos problemas, então a princesa me deu permissão para voltar a
Terra,”
“Entendo... mas o que quer aqui, neste
planeta tão distante?” inquiriu Rey, embora já imaginasse a resposta.
“Vim conquistar a minha felicidade,”
sentenciou Seiya com firmeza na voz.
“Por acaso sua felicidade é loira e
barulhenta?” brincou Rey com um pouco de ironia.
“Sim,” respondeu ele com seriedade, “Onde
ela está? Estou aqui a dias e não encontro ninguém! Você é a primeira pessoa
conhecida que vejo...”
“Seiya, Seiya,” murmurou Rey, “acredite,
entendo o que você sente... Mas, para o seu próprio bem, desista dela,”
Ele recusou essa possibilidade rapidamente,
trazendo um ar de melancolia para os olhos de Rey.
“Seiya, ela casou com Darien... eles têm uma
filha....” completou a morena.
Essa notícia o deixou chocado, embora fosse
de certa forma previsível. Seiya suspirou profundamente, olhou para o teto,
para o chão, finalmente deixando seus olhos encontrarem novamente os de Rey.
“Não me importarei de criar a filha de
Serena como se fosse minha,” disse ele com segurança.
“Serena nunca vai te amar, Seiya... Mesmo se
ela e Darien brigarem, se separarem, enfim, o que quer que haja, ela não vai
amar mais ninguém. Se ela não ficar para sempre com Darien, é certo que então
ficará sozinha,” Rey tentou convencê-lo, às vezes nem acreditava que estava
mesmo dizendo essas coisas, que em nada combinavam com seus últimos atos.
“Eu confio na minha capacidade, Rey. Vou
conquistá-la! Mas onde ela e as outras estão?” perguntou novamente.
“Longe, Seiya...” sussurrou Rey, a tristeza
encobrindo sua face, “muitas coisas aconteceram depois que você voltou para o
seu planeta. Coisas tristes, alegres, trágicas... Tudo mudou... Infelizmente, a
corda estourou do meu lado...”
Seiya não entendia o que Rey queria dizer, e
ela insistia em continuar com essas frases evasivas.
“Você pode ficar aqui, Seiya, e, em breve,
acho que já estarei forte o suficiente para te contar todos os detalhes do que
ocorreu...” ela sentia seu rosto queimando, segurava as lágrimas dentro de si,
“mas não me peça para tocar nas feridas agora, pois ainda estou em carne-viva,”
Ele entendeu que algo grave tinha acontecido
e percebeu que Rey realmente pretendia falar a verdade assim que pudesse.
Sentiu pena da amiga, pois essa parecia tão ferida, como um pássaro que foi
atingido por uma bala no meio de um vôo. Abraçou Rey, afagando seus cabelos
macios e confortando-a mesmo sem saber por quê. Sim, ele iria ficar com ela até
que seus machucados cicatrizassem. Não só porque ela era sua única fonte de
informação, mas também porque gostava muito de Rey e nunca havia esquecido os
conselhos que ela lhe dera enquanto estivera na Terra pela primeira vez.
Ami e Mina estavam andando e conversando
animadas enquanto tomavam um refrigerante. Mina tinha logo percebido que Ami
estava triste, mas aos poucos conseguira melhorar o ânimo da amiga.
“Ami,” começou Mina, “eu queria pedir
desculpas por ter feito milhares de perguntas a você ontem... Eu não queria te
chatear, só estava preocupada...”
“Tudo bem, Mina, já passou,” respondeu Ami.
“Queria que você soubesse que pode confiar em
mim e, se quiser desabafar, posso ser um ombro amigo,” continuou ela.
“Eu sei que suas intenções foram as
melhores,” disse Ami, “Embora você estivesse morrendo de curiosidade, sabia que
só queria ajudar. Eu é que estava um pouco irritada naquela hora,”
“Acho que você não está irritada agora, mas
sim triste...” murmurou a loira, abraçando a amiga enquanto andavam. Uma
lágrima escorreu pelo rosto Ami, rompendo a muralha de frieza que ela usava
para esconder seus sentimentos.
Alguns metros atrás, andando como quem não
quer nada, Dolores seguia as duas amigas, cuidando para que não a vissem. A
loirinha parecia ser um empecilho em seu trabalho, mas daria um jeito nela
também; o importante era esperar o momento certo. Acompanhou-as até entrarem em
uma rua sem movimento, o vento começava a soprar com mais força, balançando os
seus cabelos. Dolores escondeu-se atrás de um poste e, com o braço estendido,
uma bola de fogo se formou na palma de sua mão.
Mina limpou a lágrima de Ami com as pontas
dos dedos. Foram caminhando juntas em silêncio, até que Ami quebrou o gelo.
“Fico feliz de ter uma amiga como você,
Mina,” murmurou ela, “mas não quero te importunar com meus problemas. Estou
acostumada a lidar com eles sozinha,”
“Sim,” respondeu Mina, “mas estarei sempre
ao seu lado se as coisas saírem do seu controle.” Ela então tirou o braço das
costas de Ami, e, virando-se um pouco para trás, ajeitou os cabelos que estavam
um pouco desarrumados pelo vento. Entretanto, um brilho prateado chamou sua
atenção e isso fez com que ela fixasse o olhar naquele ponto por mais um
segundo, o suficiente para ver uma bola de fogo aparecendo subitamente na mão
de alguém que estava atrás de um poste.
“Cuidado!” gritou Mina e jogou-se sobre a
amiga, as duas caindo no chão a tempo de ver a bola de fogo passar no exato
local em que estava a cabeça de Ami há alguns instantes. A loira olhou
novamente para o poste, mas só conseguiu ver um vulto que fugia por uma viela.
Ami levantou-se confusa, tirando o pó da roupa e olhando desolada para sua
Coca-Cola que estava esparramada no chão.
“O que diabos aconteceu?” perguntou para
Mina, ainda atônita.
“Ami, aquela mulher...” gaguejou Mina,
“Ela... ela jogou uma bola de fogo em você! Ela tentou te matar!”
Ami piscou os olhos com perplexidade. Quem
poderia querer matá-la? Por quê?
“Já sei!” exclamou Mina, “Foi Titã! Ele
estava querendo nos pegar desprevenidas!”
Contudo, Ami descartou essa hipótese logo de
cara. Aquele não era o estilo de Titã, atacar e fugir ao primeiro erro. Se fosse
algum enviado dele teria continuado a luta, além de ter atacado em alguma via
pública, para que não pudessem se transformar sem revelar a todos suas
identidades. Teriam que lutar só com seus principiantes poderes mágicos,
tornando-se mais vulneráveis.
“Mas,
Ami,” insistiu Mina, “quem mais poderia estar tentando matar você?”
Ami olhou para a amiga pensativa, pois ainda
não havia chegado a uma resposta ao menos aceitável. Ao que sabia, ninguém em
Eros desejava sua morte além de Titã, mas ele era uma carta fora do baralho se
tratando desse misterioso atentado. Lentamente, uma nova idéia foi se formando
em sua cabeça....
“Vamos, Mina,” disse ela seguindo em frente,
“Não se preocupe porque eu vou dar um jeito nisso ainda hoje,”
“Você tem algum suspeito?” perguntou Mina.
“Sim e não,” respondeu a outra, “só peço que
fique calma e deixe por minha conta. Já sei exatamente o que fazer, e além
disso não é nada que possa afetar você ou as meninas, portanto não comente nada
com ninguém,”
“Mas pode ser perigoso, Ami, me conte o que
é e eu a ajudarei,”
“Não é necessário. Volte para casa que eu
vou tratar disso,” completou Ami quando entraram na avenida principal.
Acenando, ela entrou em um táxi, deixando Mina perplexa.
Lita estava parada há mais de uma hora do
lado de fora do Game Crown, sem a mínima coragem de entrar. Queria ter uma
conversa séria com Kayama, precisava fazê-lo, mas algo a impedia, não imaginava
como seria olhar nos olhos dele depois de tê-lo abandonado para correr atrás de
Kenkure.
“Por que não entra?” perguntou subitamente
Kayama, de dentro do Crown, “Já está parada aí fora há um tempão...”
Isso pegou Lita de surpresa e rapidamente
sua respiração parou e suas pernas congelaram. Então ele já tinha percebido a
sua presença? O que faria agora? Por que não conseguia se mexer? Um pouco
insegura, entrou lentamente, mantendo o olhar fixo no chão.
“Pode olhar para mim, não fique com
vergonha,” disse Kayama com uma voz ligeiramente cortante.
Lita então ergueu os olhos, aproximando-se
do balcão. Estava se sentindo tão nervosa que seu coração parecia a um passo de
sair pela boca. Um silêncio constrangedor pairou entre os dois, mas ele
continuava a encarar Lita, como se quisesse deixar claro que quem teria que
falar primeiro era ela.
“Kayama,” murmurou Lita, ainda trêmula “eu
vim aqui para... achei que nós... tínhamos que...”
“Conversar,” completou ele.
“Sim,” continuou ela, agora com um pouco
mais de firmeza, “Durante esse nosso tempo de convivência, conversei muito com você,
falei das minhas experiências traumáticas do passado, de como eu sempre
estraguei todos os meus relacionamentos, mesmo as amizades mais promissoras...”
ela então fez uma pausa longa, tentando recuperar a confiança que se perdia a
cada palavra dita, “Bem, acho que não contei o fato que aconteceu bem aqui em
Eros, há pouco tempo atrás. Embora seja o último acontecimento que vou te
falar, entenda que não é por isso o menos importante, pelo contrário...”
Lita então começou a narrar detalhadamente
os fatos que ocorreram naquela noite quando o próprio Kayama indicou-lhes o
caminho para a Dragon Magic, e ele ficou quieto, apenas escutando atentamente.
Após passarem algumas horas conversando
sobre amenidades, novas magias e os últimos acontecimentos, Finna achou que já
estava na hora de ir direto ao assunto com Serena, pois ela agora parecia bem
mais calma e descontraída.
“Minha querida,” disse Finna, prestando
atenção em cada reação que o rosto de Serena esboçava, “agora que o Cristal de
Prata saiu do seu corpo, após aquele fatídico episódio, acho que devemos
novamente fazer o teste com o Revelador,”
“O teste que dirá se eu tenho ou não o dom
para a magia negra...” murmurou Serena.
“Sim,” continuou Finna, “agora que não há
mais nada que possa atrapalhar as reações do Revelador, acho que é a hora ideal
para fazermos o teste,”
Serena levantou-se do sofá e andou até a
estante de livros em silêncio. Finna respeitou esse momento de reflexão da
princesa da lua, que nitidamente estava mudando, tornando-se mais sábia e
sensata. Ela voltou a sentar-se para que continuassem a conversa.
“Não acho,” falou Serena calmamente, “Sabe,
Finna, temo que talvez essa seja a pior hora. Como venho estudado, a magia
negra é extremamente poderosa e portanto exige um força fenomenal de quem a usa
para o bem, pois não é necessário apenas conhecer suas técnicas, mas sim
dominar seu poder. Sem falsas modéstias, acho que meu poder daria conta do
recado, mas esta com certeza não é minha melhor fase,”
“Como assim?” perguntou Finna sem entender
onde Serena queria chegar.
“Explico,” disse ela, “Mestra, você não me
conhece há muito tempo, mas qualquer uma das meninas pode confirmar o que vou
te dizer. Em minha alma sempre reinaram os bons sentimentos, tanto que os meus
piores inimigos só encontraram em mim compaixão e, no máximo, pena. Essa
característica é o que me faz ter força para superar qualquer obstáculo e o que
me ajudou todas as vezes a vencer o mal. É a bondade que faz o Cristal de Prata
resplandecer com seu brilho máximo, capaz de eliminar a escuridão mais
profunda.”
“Serena, eu sei disso, mas não entendo ainda
o que você quer dizer,” reclamou Finna.
“É simples e claro para mim...” falou a
princesa, “É tão difícil lidar com os sentimentos que agora invadem meu coração...
O fato é que depois do que aconteceu entre Rey e eu, algo mudou no meu peito,
Finna. Dela não tenho dó, mas sim ódio, mágoa... Não consigo nem ter ódio de
Titã, que tenta roubar a coisa mais preciosa que tenho no mundo! Hikari, minha
amada filha, corre um risco tremendo por causa daquele maldito, mas o que sinto
por ele não chega nem aos pés do ódio que Rey me desperta. Só ao falar o nome
dela, meu sangue ferve, tenho vontade de matá-la de uma vez por todas. Você
pode enxergar, Finna? Eu desejo assassinar uma pessoa do fundo da minha alma.
Vê como tudo mudou?”
“Acho que sim,” ponderou Finna, “Você acha
que esse ódio, esses sentimentos negativos que estão dentro de você podem
aumentar e corromper o seu lado bom se forem alimentados com o poder da magia negra,”
Serena confirmou, ainda acrescentando que se
isso acontecesse, não haveria mais esperança nem para Hikari, nem para Eros,
nem para a Terra; todos estariam entregues a própria sorte.
“Eu posso esperar mais um tempo, mas não
muito,” disse Finna, “Se demorarmos muito, não haverá tempo de ensinar as artes
da magia negra a tempo, pois são extremamente avançadas. Alem disso, se nenhum
de vocês tiverem o dom para a magia negra, teremos que pensar em algum outro
jeito de barrar Titã, e isso será bem difícil,”
“Eu entendo Finna,” murmurou Serena, “mas só
preciso de alguns dias, algumas poucas semanas... É para o meu próprio bem, me
livrar desse ódio, pois você não imagina o quanto esse sentimento me faz mal,”
Finna aceitou os argumentos de Serena e subiu
as escadas pensando no futuro que estaria reservado a todos eles.
“Mas então, depois de eu ter deixado você
aqui e ido atrás dele...” disse Lita com um suspiro, “Kenkure simplesmente me
deu um passa fora...”
Ao terminar seu relato, Lita olhou finalmente
nos olhos de Kayama, pois enquanto falava só tinha conseguido olhar para o
chão. Seu coração começou a palpitar novamente quando Kayama virou-se de costas
para ela, calado.
“Lita,” começou ele, “você entende que eu
tenho todos os motivos para te desprezar, não?”
Ela abriu a boca para murmurar alguma coisa,
mas parou logo, ao ver que não sabia o que dizer.
“Contudo,” continuou ele, virando-se
novamente de frente para ela, “eu não posso. Não posso ignorar ou desprezar ou
odiar você simplesmente porque eu te amo,”
O queixo de Lita caiu e ela ficou
boquiaberta por alguns instantes. Quando tentou falar alguma coisa novamente,
foi interrompida por Kayama.
“Mas a única pergunta realmente relevante é:
você me ama?” indagou ele.
O ruído da respiração ofegante de Lita era então a única coisa
que se podia ouvir no silêncio sepulcral que se instalou entre os dois.
Yan estava vendo um programa na TV quando
batidas incessantes na sua porta o atrapalharam. Quem estava do outro lado deveria
estar com muita urgência, pois parecia que estava tentando derrubar a porta,
tamanha era a força das batidas.
“Quem está fazendo esse escândalo?”
perguntou Yan, irritado ao abrir a porta.
Para sua surpresa, quem estava lá era Ami,
mas antes que ele pudesse falar qualquer outra coisa, ela voou pra cima dele,
apertando seu pescoço com as duas mãos e derrubando-o no chão.
“Seu maldito!” gritou ela, “Como pude em
algum instante acreditar em você?! Não passa de mais um filhinho-de-papai
mimado e riquinho, alguém que não consegue enfrentar o fato que não pode ter
tudo que quer!”
“Ami!” ele tentava falar com dificuldade,
mal respirava, “Saia de cima de mim! Você vai me matar desse jeito!”
“E não foi o que você tentou fazer comigo,
seu cafajeste!” berrou ela, não afrouxando nem um milímetro suas mãos, que
continuavam a apertar com toda força o pescoço de Yan, “Eu sei que foi você,
covarde!”
Numa manobra de agilidade, Yan jogou o peso
do seu corpo para a direita, fazendo Ami se desequilibrar o suficiente para que
ele pudesse virar o jogo e ficar por cima dela. Pendendo-a no chão com suas
pernas, afastou os braços de Ami com suas mãos fortes.
“Acalme-se!” ordenou ele, olhando para ela
com firmeza, “Vamos conversar, mas não aqui, certo?”
“Eu não vou a lugar nenhum com você,
assassino!” gritou Ami, totalmente histérica e fora de controle. Yan começou a
erguer a mão para dar-lhe um tapa e ver se assim ela ficava quieta, mas logo
teve uma idéia melhor e beijou-a subitamente.
Ami levou um susto quando Yan abaixou-se e
começou a beijá-la, mas mesmo indo contra ao que sua mente dizia, seu corpo
relaxou e deixou que ele a dominasse; Yan abraçou-a com amor e imprimiu mais
paixão aos seus beijos.
“Por que você fez isso?” indagou Ami ao
abrir os olhos. Agora estava mais calma e em sua voz não havia mais ódio, mas
sim desconfiança e confusão.
“Vamos descer no saguão do hotel e então
conversaremos,” sussurrou Yan no ouvido dela, e os dois saíram do apartamento,
indo até o local onde Yan tinha encontrado-se com o espião Rouji. Ele pediu a
ela que falassem baixo.
“O que houve, Ami?” perguntou ele, tentando
mostrar que estava sendo sincero quando dizia não saber de nada.
“Quer dizer que não foi você? Não foi você
que tentou me matar?” dizia ela com temor na voz.
“Oh, não...” lamentou Yan, imaginando o que
poderia estar acontecendo, “então eles descobriram que eu... mas como...”
“Para de falar meias frase e diga o que
foi!” pediu Ami, ainda um pouco alterada por conta do nervosismo das últimas
horas.
Yan então relatou a ela o que Rouji tinha
lhe dito e como fora a conversa com a agente Dolores. De alguma forma que ele
não entendia, ela tinha percebido que ele estava mentindo quando dissera que
iria dar um jeito em Ami e, portanto, ela própria deveria ter sido designada
para a missão. Ami também contou os detalhes de como quase fora assassinada e
Yan só confirmou suas suspeitas, já que vira na aura e Dolores que ela tinha
uma grande intimidade com poderes de fogo.
“Ami, você corre um sério risco,” disse Yan
com preocupação, “Ela pode ter fugido, mas com certeza não irá embora até
completar sua missão. Acho que você deve sair da cidade, ou melhor, do país. E
em completo sigilo, claro,”
“Não vou fugir, Yan,” respondeu Ami, “Sabe,
tenho coisas a fazer por aqui e viajar está fora de cogitação,”
“Mas, Ami...” ele tentou argumentar.
“Não posso de jeito nenhum, Yan,” afirmou
ela, “Tenho assuntos muito sérios a tratar antes que possa ir embora daqui,”
Yan então pediu para Ami esperar alguns
minutos por ele, e em realmente pouco tempo ele voltou com uma maleta e chaves
na mão. Foram para o estacionamento e saíram no carro de Yan, o local onde ele
tinha certeza (ou quase) de que teriam privacidade e segurança. Depois de dar
algumas voltas, parou numa rua pouco movimentada, longe do centro da cidade.
Pegou a maleta no banco de trás e a abriu, revelando em seu interior uma
brilhante pistola automática.
“O que acha que está fazendo com uma coisa
dessas, Yan?” perguntou Ami indignada, “Não precisamos de armas num lugar como
esses, muito menos para lutar contra alguém que tem poderes mágicos,”
“Ami, deixe-me explicar,” pediu Yan com
calma, “Esta não é uma pistola comum, como as que você certamente já deve ter
visto. Esta é a minha arma, ou pelo menos a minha preferida dentre todas as
armas mágicas.”
“E por que você trouxe ela?” indagou Ami sem
entender o que Yan queria com tudo aquilo.
“Porque você está correndo perigo e não quer
sair daqui. Ou seja, deve ter meios de se defender, e eu proponho essa arma, a Hydrárgyros
IO/001,” explicou ele.
“Yan, não se preocupe, eu sei me defender
sozinha,” falou ela.
“Ah, claro. Se você está falando dessas
magias de bruxas que são tão comuns, esqueça,” disse ele, jocoso, “A LGA
conhece cada uma delas e todos os seus agentes sempre utilizam barreiras
mágicas contra feitiços convencionais. A única forma de lutar contra um agente
da LGA é com armas da própria LGA. Lembre-se que você só está viva agora por
causa da sorte daquela sua amiga, pois se não fosse isso...”
“De qualquer forma, você mesmo me disse que
são dificílimas de usar,” lembrou Ami com um muxoxo.
“Mas você tem o melhor professor, minha
querida,” sussurrou ele sedutoramente no ouvido de Ami, “Vejo em sua aura que você
tem uma enorme força de vontade e muito poder escondido, apenas usaremos o seu
talento natural aliado as minhas habilidades e em pouco tempo você estará
pronta,”
Antes que ela pudesse esboçar qualquer
reação, Yan saltou do carro e abriu a porta para Ami. Ela desceu, sem saber
muito bem quais eram os planos, mas logo Yan explicou que não havia tempo a
perder, e que treinariam até ela se tornar apta o suficiente para utilizar os
maravilhosos poderes da Hydrárgyros IO/001.
“Eu quero tanto te amar...” disse Lita com
todo o seu sentimento, “Sabe, Kayama, depois do meu encontro com Kenkure... ele
foi tão frio comigo, tão intolerante... Enquanto isso você simplesmente me
oferece seu amor. Não posso dizer que estou apaixonada por você, mas já tenho
muito carinho e amizade... Me ajude... deixe que eu aprenda a te amar...”
Kayama ficou um pouco surpreso com a
resposta de Lita. Nenhuma garota tinha lhe dito palavras tão doces até aquele
dia, nenhuma tinha o amado nem demonstrado tanto interesse nele. Obviamente já
tinha saído com algumas garotas, mas nunca namorara ou se apaixonara por alguém
de verdade. Ademais, Lita era a mulher mais bonita com quem ele já tinha se
envolvido.
“Lita, até o dia em que você puder dizer que
me ama, o meu amor será grande o suficiente para nós dois,” falou Kayama, dando
a volta no balcão e beijando-a com ardor. Lita correspondeu ao beijo à altura,
demonstrando que daria o melhor de si para amar de verdade esse homem que tanto
lhe fazia bem. Os dois tinham uma química explosiva, quando entravam em contato
se transformavam em seres feitos de nitroglicerina pura, pronta para explodir.
Kayama sentia-se bem menos tímido quando estava com Lita e deixava seus
sentimentos e desejos aflorarem sem medo ou culpa.
O local começou a atrapalhar um pouco, pois
o Crown começou a se encher de gente e os dois tiveram que dar uma pausa. Lita,
contudo, não sentiu a menor vontade de ir embora e começou a ajudar Kayama com
o serviço no Game Center.
Yan tinha colocado uma lata de lixo no meio
da rua, a alguns metros de Ami, e agora voltava para perto dela. Aquele seria
seu alvo para começarem a treinar.
“Yan,” perguntou Ami, um pouco preocupada,
“você não acha que está muito longe, não?”
“Não, Ami,” respondeu ele, “não temos muito
tempo para dividir esse treinamento em ‘estágios’, portanto vamos logo para o
nível difícil,”
Ele então pegou a pistola e ensinou Ami a
engatilhá-la, uma tarefa medíocre para ela, pois era exatamente igual às armas
normais. Yan deu a volta e abraçou Ami pelas costas, sobrepondo seus braços e
mãos aos dela e colocando a pistola nas mãos de Ami, que sentiu o peso da arma,
algo em torno de 700 gramas.
“Uau, ela pesa!” exclamou Ami, obtendo
apenas a resposta que ela se acostumaria com isso.
“Ami, o importante para se dominar a técnica
das armas mágicas é que você não deve vê-la como um objeto, mas como uma
continuação do seu próprio corpo,” começou Yan, “Você tem que manejá-la e
movimentá-la exatamente como mexe sua própria mão, quase instintivamente.
Firmeza na hora de puxar o gatilho também é muito importante, pois senão você
nunca vai atingir o alvo. Respire fundo, sinta o poder contido nesta pistola,
ela carrega não balas, mas puro poder mágico; ela própria foi feita por bruxos
muito experientes.”
Ami estava começando a se sentir nervosa,
mas Yan a envolvia de tal jeito que ela não conseguia nem tremer, era como se
ele passasse um pouco de sua segurança para ela, algo inexplicável. A cabeça
dele estava ao lado da sua, seus lábios tocavam o brinco delicado de Ami. Ele
mexeu o braço lentamente, levando o de Ami junto, para que ela entendesse como
ele estava mirando o alvo. Quando achou que estava no ponto certo parou e
respirou fundo.
“Atire, Ami,” sussurrou ele ao ouvido dela,
“olhe bem e puxe o gatilho,”
Ela ficou um pouco insegura, começava a
duvidar se conseguiria fazer tal coisa.
“Sinta a magia,” murmurou Yan, fazendo com
que um arrepio percorresse a espinha de Ami. Ela então se concentrou na sua
tarefa e, quando achou que chegara o momento, atirou.
Quando puxou o gatilho, Ami sentiu que só
não caíra para trás porque Yan estava a segurando e apoiando pelas costas,
tamanha foi a força que a empurrou para trás. Fora isso, quando Ami disparou,
uma bola transparente foi arremessada contra a lata de lixo, mas desviou
loucamente no caminho, indo atingir o muro do outro lado da rua. Esta “bola”
era algo que Ami nunca tinha visto, parecia mais uma deformidade no ar, tinha
mais ou menos 10cm de raio, mas não era exatamente esférica, assemelhava-se a
uma gosma disforme, extremamente esquisito.
“O que diabos foi aquilo, Yan?” indagou Ami,
ainda com o coração acelerado.
“Este é um dos dois poderes da Hydrárgyros
IO/001, Ami,” respondeu ele, “É uma força de distorção temporal e, quando
atinge algo vivo, faz com que o tempo dele seja diminuído drasticamente. Esse
efeito faz com que todos os movimentos do alvo sejam vistos em câmera lenta,
enquanto, pela visão dele, nós parecemos super rápidos. O efeito é temporário,
mas dura o suficiente para que você gire está chave no cano da arma, mudando
para o modo destroy.”
“E o que acontece então?” especulou Ami.
“Então você atira de novo, mas agora o
disparo será de uma bola de energia explosiva, que penetra no corpo do alvo e
explode, destruindo-o de dentro para fora,” completou ele.
“É o único problema é que eu nunca vou
conseguir usar essa geringonça!” brincou Ami com sua própria desgraça.
“Pelo contrário,” falou Yan, “Você foi
melhor do que eu esperava. Saiba que da primeira vez que eu usei essa
belezinha, a distorção temporal fez um movimento de bumerangue e voltou-se
contra mim, de modo que eu fiquei alguns minutos sobre o terrível efeito de slow
motion.”
Ami riu imaginando a cena, mas logo Yan voltou
à seriedade e começou a corrigir seus erros. Disse para colocar mais firmeza
nas mãos e nos braços, para que não fosse jogada para trás. Sua mira estava até
boa, o problema foi que não estava concentrada o suficiente. Tinha que se
integrar mais à arma, sentir que estavam unidas antes de atirar, sentir a magia
se espalhando pelo seu corpo, fixar a mente no alvo e não apenas o olho.
“É... isso vai demorar...” murmurou Ami.
Mas foi para Mina que a tarde mais demorou a
passar, já que a amiga tinha saído misteriosamente e ela não estava nem um
pouco a fim de voltar para a casa de Finna, pois andava um clima terrível lá. O
que faria agora? Onde ficaria o resto do dia? Respondendo essas perguntas, a
imagem de Takeru surgiu em sua mente e ela se dirigiu para a casa de seu amado
ser das trevas. Devido a todos os acontecimentos causados por Rey na casa de
Finna, ela tinha faltado ao seu encontro com ele na biblioteca, mas hoje faria
uma visitinha longa e pagaria por seu atraso.
Chegando lá, Mina repetiu o feitiço que
abria a porta e entrou sorrateiramente. Pensou em chamar por Takeru, mas talvez
ele estivesse dormindo e então não seria uma boa forma de acordá-lo. Subiu as
escadas, agora já consciente de onde era o quarto de Takeru e abriu lentamente
a porta.
Como o esperado, ele estava gentilmente
dormindo, coberto apenas pelo lençol que deixava à mostra parte de sua coxa
esquerda. Não percebera a chegada de Mina, que agora se esgueirava pela beirada
da cama, deitando-se suavemente na cama, aproximando-se de Takeru com calma.
Alguém que visse tal cena visualizaria uma naja preparando o bote,
arrastando-se silenciosa na direção de sua futura vítima, que, indefesa, não
sabia da proximidade de seu mortal inimigo.
Tocou a pele de seu adormecido amor com a
delicadeza de seus lábios de mel enquanto seu próprio coração palpitava de
desejo. Surpreso e assustado, Takeru arregalou os olhos para descobrir quem era
o intruso em seu leito, mas ao ver Mina, a tensão em seu rosto arrefeceu, derretendo-se
como neve sob o sol.
"Quer me matar do coração?"
perguntou Takeru com um risinho.
"Como se isso fosse possível,"
gracejou Mina, acariciando o rosto de Takeru.
"O que faz aqui a essa hora?"
estranhou ele.
Mina beijou-o impulsivamente, respondendo
sua pergunta nas entrelinhas de seus atos. Suas mãos ágeis logo alcançaram as
costas dele, tensas sob o tecido do lençol. Abraçava-o com firmeza e seus
beijos eram cada vez mais intensos. Takeru habilmente afastou o rosto de Mina
do seu.
"O que há, Mina? Quer me deixar
louco?" indagou ele com um misto de seriedade e surpresa.
O coração da loira batia descompassado e
parecia que ia sair pela sua boca. Ela sentou-se na cama e deu um suspiro
profundo. A alça direita de seu vestido estava caída e seus cabelos
ligeiramente desarrumados. Ergueu os olhos para o teto e depois os baixou para
seu próprio colo.
"Tudo bem, Mina? Está sentindo alguma
coisa?" Takeru perguntava quando Mina se jogou subitamente sobre ele,
abraçando-o e beijando-o generosamente. Seus corpos se entrelaçavam numa dança
sensual, almas sincronizadas e latejantes, quando Takeru novamente afastou
Mina.
"O que foi? Por que está fazendo
isso?" perguntou ele mais sério do que da outra vez.
"Isso o quê?" respondeu ela se
fazendo de desentendida.
"Minako, essa carinha de menina ingênua
não combina nem um pouco com você," sentenciou ele, "Diga logo, por
que você está agindo dessa forma?"
"Não estou querendo me passar por
ingênua, só não sei do que você está falando," disse Mina enquanto
brincava com a ponta do cabelo.
"Sabe sim," insistiu ele,
"por que está me beijando desse jeito? Mesmo os nossos beijos mais
apaixonados nunca foram como estes, você nunca foi tão... vigorosa..."
"Eu te amo," falou Mina
monocórdia, "isso não basta? Isso não responde a toda e qualquer
pergunta?"
"Sim," respondeu ele, "mas
não no nosso caso. Acho melhor sairmos daqui."
Takeru então se levantou, usava apenas uma
cueca samba-canção, e foi em direção ao banheiro. Mina tentou segui-lo, mas ele
fechou a porta na sua cara. Ela voltou para a cama de Takeru arrastando os pés
como uma criança emburrada e jogou-se sobre o lençol que ainda exalava o
perfume de seu dono. "Por quê?" perguntava-se Mina, sem entender o
que estava fazendo de errado. No caminho para a casa de Takeru, Mina tinha
maquinado cada movimento, tinha previsto cada reação, tinha pensado em todos os
detalhes para que essa fosse a tarde perfeita, pela qual ela vinha esperando
ansiosamente. Seu sangue ainda fervia de paixão e desapontamento quando
sucumbiu ao impudico plano B. O que ela tinha a perder, afinal?
No jardim da casa de Finna, Artemis e Lua
aproveitavam a brisa fresca daquele dia. Estirados na grama fofa e bem tratada,
tentavam desviar o pensamento da confusão que acontecia ao seu redor.
"Lua, não acha que estamos um pouco
distantes das garotas nesse momento tão difícil?" perguntou Artemis.
"Bem, sim," respondeu ela,
"mas é o melhor a fazer. Elas devem resolver seus problemas sozinhas
Artemis. Devem se acostumar com isso, é melhor que fiquemos afastados,"
"Afinal, a passagem está
chegando," murmurou ele.
"Sim..." concordou Lua, "só
espero que não seja muito em breve..."
Após tomar uma ducha rápida, Takeru vestiu
seu roupão e voltou para o quarto, mas não viu Mina. Chamou por ela algumas
vezes quando vislumbrou alguns fiapos dourados em sua cama, logo acima de um
volume coberto pelo lençol. Pela sua respiração calma e pausada, deduziu que
tinha pegado no sono enquanto ele tomava banho. Com um olhar terno, ele se
sentou ao lado de Mina, e acariciou o chumaço de cabelo que se estendia em seu
travesseiro.
"Mom pot d'or..." murmurou ele,
sem obter nenhuma reação de Mina.
Com dó de arcordá-la, Takeru virou-se para
poder levantar, mas perdeu o equilíbrio quando uma mão segurou fortemente seu
pulso e o puxou para trás. Ela caiu em cima de Mina, que começou uma nova
investida de beijos (com o intuito principal de "calar a boca" de seu
amado). Com manobras precisas (e a habilidade especial de disfarçar seu próprio
nervosismo) ela afastou o incômodo lençol e inverteu a situação, deixando seu
corpo cair sobre o de Takeru.
Ele já tinha sido pego de surpresa por ela,
mas o que o deixou simplesmente estupefato foi a visão que teve, pois Mina
usava apenas sua rendada roupa de baixo. Parte de seu cabelo caía sobre sua
face ou escondia ângulos de seu vistoso busto, e agora a respiração dantes
calma parecia um furacão. Aliás - pensou ele - aquela garota é que parecia um
furacão, que pode mudar de direção em segundos e devastar lugares que todos
pensavam seguros. Uma gota de suor escorria sedutoramente pelo pescoço alvo de
Mina.
Antes que ele pudesse demonstrar qualquer
reação, Minako beijou seus lábios entreabertos de espanto, enquanto suas mãos
tentavam abrir o roupão felpudo que Takeru usava. Quando começou a beijar seu
peito, ele finalmente conseguiu esboçar uma reação e afastou Mina bruscamente.
"O que você pensa que está fazendo,
Mina?" disse ele quase gritando com ela. Levantou-se rapidamente e ficou
de pé ao lado da cama, arrumando novamente o roupão. "Não entendeu a
mensagem ainda?"
Mina sentou-se na beirada da cama, com a
cabeça virada para cima para poder enxergar o rosto de Takeru. Sua face
queimava tal qual seu corpo, fumegando
de ansiedade e desejo.
"O que você pensa que está
fazendo?" retrucou Mina, sem a menor cerimônia e fazendo cara de brava,
"Por que está agindo assim? O que há de errado comigo? Não sou boa o
suficiente para você? Fale alguma coisa!"
Takeru virou-se de costas para ela, dando um
suspiro pesado. Sabia que seria difícil, mas não contava com esse lado
impetuoso de Mina. Por que ela deixava tudo mais difícil? Lá fora, o crepúsculo
tingia a cidade de um laranja com nuances arroxeadas.
"Não vire as costas para mim!"
gritou Mina, sem conseguir se controlar. Os anos em que fora uma grande estrela
tinham-na deixado um pouco mais impaciente e orgulhosa. "O que há? Diga o
que está acontecendo? Por que você não me deseja?"
Takeru virou-se bruscamente e, agarrando os
braços de Mina com suas mãos, levantou-a da cama e beijou seus lábios com
paixão, segurando-a fortemente contra seu corpo. Deitou seu corpo lânguido na
cama e colocando-se sobre ela, deu-lhe outros beijos que desceram até seu colo,
onde ostentava uma corrente de ouro com um pingente em formato de pena. Olhou
então em seus olhos.
"Não me enlouqueça, Mina," falou
ele com a voz calma como um mar sem ondas, "eu a amo, eu a desejo tanto...
mas não podemos..."
"Por quê? O que eu tenho de
errado?" insistiu ela.
"O problema não é você, minha querida,
sou eu," disse Takeru, "Mina, eu sou um vampiro,"
"Sim, seu sei," falou ela com a
voz trêmula, "é difícil para mim, mas o meu amor por você faz com que eu o
aceite mesmo assim,"
Ele beijou-a novamente, criando forças para
continuar a falar o que devia.
"Mina, você nunca viu como é o amor
entre vampiros... é algo... terrível..." explicou ele.
"Mas eu não sou uma vampira,
Takeru..." murmurou ela.
"Isso é o que torna nossa situação
impossível!" exaltou-se ele, "Mina, vampiros nessas situações perdem
o controle, eles se tornam totalmente instintivos, saem fora da razão! Eu não
sei o que poderia acontecer com você se nós... Acho que... Provavelmente eu...
Eu não teria controle nenhum sobre meus atos, Mina, eu poderia morder você..."
Finalmente Mina ouviu uma frase para a qual
não conseguiu formular nenhuma resposta plausível. Era simplesmente horrível
pensar nessa possibilidade, seu corpo tremia só de pensar em algo terrível como
isso.
"Mas..." sussurrou ela com
dificuldade, "isso certamente aconteceria? Tem certeza que você poderia
fazer algo assim comigo?"
"Bem, foi o que aconteceu comigo,"
falou Takeru, "Lionel me mordeu enquanto nós... você sabe, enquanto nó
fazíamos sexo. Ela ficou totalmente fora de si, parecia um animal, e fez o que
fez,"
"Mas ela não amava você..." disse
Mina tentando parar de tremer.
"Isso é verdade, nós não nos amávamos,
mas o que isso tem de mais?" perguntou ele.
"Takeru..." começou Mina, "o
amor é a força maior em todo o universo... Você não acha que por me amar
conseguiria se controlar o suficiente para não fazer nenhum mal a mim?"
"Eu não sei, talvez... Mas isso pode
não acontecer, entende?" falou ele.
"Veja... por você fazer o que faz com
as pessoas... matar seres humanos..." Mina tentava articular seus
pensamentos confusos, "seria da inha natureza destruí-lo a qualquer
custo... mas não o faço, pelo contrário, simplesmente pelo fato que eu o amo
desesperadamente, Takeru. Consigo controlar esse meu lado com a força do nosso
amor..."
"Mas você faz isso racionalmente,
Mina," retrucou Takeru, "e nós perdemos a razão, viramos
bichos..."
"Eu já disse isso, mas repito: o amor é
mais forte que tudo," insistiu ela.
"Acredito, Mina. Talvez pudesse me
controlar, pois a amo tanto que preferiria morrer a te fazer qualquer mal...
Mas seria arriscado... Seria um teste... Uma experiência..." sentenciou
ele, "e eu não posso fazer nenhum teste com você, não posso tratá-la como
uma cobaia... Nunca colocaria você em risco."
Mina ficou pensativa por alguns minutos em
que o silêncio incitou uma luta de pensamentos dentro das mentes dos dois.
"Takeru, isso é loucura!" exclamou
Mina, olhando diretamente para ele, "eu o amo mais do que a mim mesma,
quero estar ao seu lado para o resto da minha vida! Como poderemos ficar tão
perto e ao mesmo tempo tão longe um do outro?"
"Eu sei," concordou ele, "mas
não há o que fazer! Não posso arriscar! Nunca me perdoarei se lhe ferir!"
"Eu demorei tanto para encontrar o
amor..." murmurou Mina, "já sofri tanto sozinha... já sofri tanto por
causa do amor que achei que nunca me apaixonaria novamente. E agora... quando
finalmente encontro você, meu par imperfeitamente perfeito, não posso tê-lo por
completo. E você me diz que não podemos arriscar? Se há uma chance, se há a
possibilidade do amor interceder por nós, como podemos não acreditar
nele?"
"Acho que você não está entndendo os
riscos," falou Takeru, "Se algo der errado, Mina, você vai se tornar
uma vampira! Entende por que não posso arriscar? Não posso nem imaginar em
dividir esse meu fardo monstruoso com você nem com ninguém..."
A lua resplandecia no céu, mas nenhum deles
podia sentir seu brilho cálido. Mina pegou seu vestido e colocou-o em silêncio,
parecia que nenhum pensamento se dignava a passar pela sua mente, sentia-se
vazia, perdida. Seus olhos embaçados por lágrimas voltaram-se para Takeru, que
tinha sua cabeça abaixada.
"Eu volto amanhã..." disse sem
muita convicção enquanto saía do quarto. Takeru ouviu quando ela desceu as
escadas correndo e bateu a porta da frente causando um tremor na casa e no seu
coração.
Mina saiu cambaleante pela rua, não consegui
enxergar nada a sua frente e quase foi atropelada por um carro. Não conseguia
mais conter as lágrimas que insistiam em escorrer pelo seu rosto como
cataratas. Não conseguia entender por que ela não conseguia ser completamente
feliz no amor. Por que ele aparecera em sua vida se nunca poderia tê-lo? Por
que tudo dava errado em sua vida? Com esses pensamentos, ela andou sem direção por
muitas horas.
“Sim, mas não entendi uma coisa,” Ami disse, mesmo não estando
acostumada a dizer que não entendera alguma coisa, “Essa arma não destrói o
inimigo...”
“E tudo tem um motivo, minha cara,” respondeu Yan com charme, “às vezes,
quando se quer uma informação, pode não ser ideal matar logo o alvo,”
Ami assentiu com a cabeça, desviando seus olhos azuis para a arma
que segurava em suas mãos. Ela não sabia porque, mas aquele pedaço de metal que
outrora parecera tão frio e pesado agora se encaixava perfeitamente entre sua
palma da mão e seus dedos e tocá-la trazia um leve calor para o seu coração.
Yan passou a mão entre o rosto de Ami e a arma, para a qual ela olhava
profundamente.
“Ami, acorde,” falou ele, “ainda não te contei do outro poder desse meu
brinquedinho...”
“Outro poder?” perguntou ela ainda meio atordoada, perdida em seus
devaneios, “Explique.”
“Está vendo essa pequeno botão aqui embaixo,” mostrou ele, apontando
para o botão que de tão discreto quase se confundia com a arma, “Apertando-o
você vai mudar o módulo da Hidrárgiros para –ataque– e então terá o maravilhoso
poder da implosão,”
Yan apertou o botão, tomando a arma delicadamente das mãos de Ami, que
sentiu como se ele tivesse lhe arrancado parte do braço. Mais tarde ela
chegaria a conclusão que o poder real daquela maravilhosa arma mágica só era
controlado por completo quando se estabelecia com ela um elo espiritual,
sobrenatural.
Indo um pouco a frente de onde estavam, Yan empunhou a arma e apontou
para a lata de lixo, puxando o gatilho em seguida.
Ami arregalou os olhos ao ver o que se seguiu. Assim que algo parecido
com uma bola flamejante atingiu o alvo, uma redoma translúcida se ergueu em
torno do mesmo, para que, em seguida a lata explodisse dentro daquele
misterioso globo mágico. Ele incinerou-se em segundos e aquele grande latão
transformou-se em um reduzido punhado de cinzas que voaram com a brisa.
Ami só fechou a boca quando Yan devolveu-lhe a arma para que praticasse.
“Quer ir comigo?” convidou Rey enquanto tirava os brincos.
“Ver a peça do seu antigo grupo de teatro? Não sei...” respondeu Seiya
em dúvida. Rey pegava algumas ervas e sua toalha para entrar no banho.
“Você é quem sabe,” disse Rey sem esboçar o menor desconforto com a
negativa de Seiya. Ele sentiu seu orgulho ser tão ferido com aquele olhar de
indiferença que ela lhe lançou que mudou de idéia e resolveu encarar o
programa.
Sairiam em uma hora, o teatro era perto do templo. Seiya não estava
muito empolgado para passear, mas pensou que se ajudasse Rey a relaxar e se
distrair, talvez ela o levasse até Serena mais rápido. Vestiu-se à moda antiga,
com seu tão conhecido terno vermelho. Rey, para não fazer par, trocou o vestido
vermelho que preparara por um azul petróleo, que combinou muito bem com ela.
Quando a viu, a primeira coisa que Seiya percebeu foi o decote profundo
do vestido levemente evasé de Rey. Aquela visão o deixou sem fala por alguns
poucos – mas infinitamente intermináveis – segundos. Ele recobrou os sentidos
antes que Rey percebesse seu olhar atordoado.
“Vamos?” perguntou ela, delicadamente entrelaçando seu braço no de
Seiya.
“Finalmente sós,” murmurou Lita quando o último cliente remanescente
daquela horda que estivera no Crown durante a tarde se foi. Ela olhou fixamente
para Kayama.
“Lita, você é muito especial, sabia?” disse ele, “Acho que nunca conheci
ninguém como você antes.”
“Acho
que você se atraiu por mim porque não consegue ler meus pensamentos...” falou
ela um pouco envergonhada por causa dos elogios de Kayama.
“Pelo contrário,” falou ele, “acho que você que se aproximou de mim.
Como não leio seus pensamentos, você se sente à vontade comigo, porque a
maioria das outras pessoas fica desconfortável com minha presença. Como ouço
seus pensamentos como se falassem em voz alta, ninguém consegue agir
naturalmente ao meu lado.”
“Não vamos falar no passado,” sussurrou Lita no ouvido de Kayama, “vamos
aproveitar antes que mais alguém chegue,” completou ela, cobrindo-o de beijos.
Verda tirou uma mecha de cabelo que estava grudada em sua face por causa
do suor. Suspirou e virou-se na cama, ficando de costas para Titã. Colocou a mão
delicadamente sobre sua boca, para tirá-la em seguida.
“Se importaria de me deixar só agora?” perguntou ela com a voz baixa.
Titã sentou-se na cama de Verda, para quem olhou com estranheza.
Acariciou os cabelos dela, num raro gesto de carinho, mas ela não se mexeu.
“Algo errado, Verda? Você está estranha...” disse ele com um quê de
inquietação na voz.
Verda fez algum ruído negando qualquer problema. Sentia-se incapaz de se
mexer ou de falar qualquer palavra, queria apenas ficar só.
“Você está tão fria hoje...” falou Titã de uma forma que isso não fosse
interpretado como reclamação, mas sim com preocupação. Em seu íntimo pensava
que deveria tratar Verda com mais cuidado, pois a tinha magoado muito nos
últimos dias. “Abra-se comigo, posso ser um ombro amigo se você quiser, não
esqueça que, antes de tudo, crescemos juntos e sempre fomos companheiros de
certa forma,”
Verda virou-se com essas palavras, olhando Titã de um jeito que o fez
desviar o rosto de seus olhos profundos.
“Por que você está aqui?” perguntou ela.
“Como assim?” retrucou ele, sem entender aonde ela queria chegar.
“Por que você está aqui comigo?” perguntou novamente, refazendo a frase
para que ele a compreendesse melhor. Titã pensou em dar uma resposta
atravessada e começar uma nova discussão, mas algo o impediu de fazer tal
coisa. Verda parecia diferente, distante, frágil... Ela não era assim, algo
deveria estar acontecendo.
“Por que você está me fazendo essa pergunta?” foi a única coisa que Titã
conseguiu dizer.
“Por que você está aqui comigo?” perguntou com insistência e mais alto
que das outras vezes.
“Porque somos parceiros,” falou ele, um pouco sem jeito com aquela
situação, sentia-se desconfortável com o jeito de Verda, mas não sabia o que
fazer. Para si mesmo disse que nunca se sentira assim antes, afinal ele era
Titã, o rei, o conquistador!
“Parceiros...” murmurou Verda, “Parceiros no quê?”
“Verda, pare com isso! O que você tem?” falou ele, desconcertado.
“Parceiros no quê?”
...
silêncio ...
“Parceiros no quê?”
...
silêncio ...
“Par...”
começava Verda de novo quando Titã a interrompeu.
“Mas que inferno, Verda!” gritou Titã, “O que você quer com isso? O que
há? Você não é assim, a Verda que eu conheço é segura e decidida, não liga para
bobagens, vive com entusiasmo cada momento...”
“Fale a verdade,” disse ela fitando-o no fundo dos olhos quase
translúcidos que pareciam faiscar como fios desencapados.
“Estou aqui porque você é linda e confiável,” respondeu Titã,
encarando-a com a mesma decisão que ela o fazia, “Assim sendo, é a mulher ideal
para que eu possa ter prazer sem me criar problemas. Gosto de você, Verda, mas
não a amo e nunca o farei, pois você não é nem de longe a mulher que eu imagino
que um dia será a minha rainha. Até o dia em que achar apropriado, me deitarei
com você e me aproveitarei do seu calor e da sua paixão.”
“Eu já sabia,” disse ela com os olhos parados, tal como estavam antes,
“mas precisava ouvir da sua boca... minha mente já estava consciente, mas meu
coração precisava ouvir da sua própria voz essas palavras,”
“Eu não queria te magoar, Verda, e acho que eu tenho feito isso com
bastante freqüência,” falou Titã, “Contudo, não pense que essa conversa mudará
minhas atitudes ou fará com que eu a deixe livre para partir, pois isso não
acontecerá. Ficará ao meu lado tanto tempo quanto eu achar conveniente. Não
esqueça da extensa longevidade da nossa raça.”
Verda levantou-se da cama, expondo sua nudez à luz fraca que entrava
pela janela. Vestiu sua túnica, que estava pendurada no encosto da cadeira e
saiu silenciosamente pela porta, deixando Titã lá dentro, calado e pensativo.
Mina, após perambular pelo bairro, estava voltando para casa quando
encontrou Darien sentado na soleira da porta. Ele parecia distraído, mas só de
olhar para ele o sangue de Mina já fervia com as recordações do que ele e Rey
fizeram com Serena.
“Tomando a fresca da noite?” perguntou ela fazendo uma voz
propositalmente cínica.
“Tomando decisões,” respondeu ele prontamente. Não estava tão distraído
como aparentava.
“Que decisões? Do tipo: ‘será que eu volto para a Terra para ficar com a
impudica Rey?’” indagou ela sarcasticamente.
“Como pode falar algo assim?” irritou-se Darien, “Você deve saber o
quanto eu me enojo ao lembrar daquilo!”
“Não me venha com essa, Darien!” gritou Mina, “não me diga que você não
conhece o perfume, o jeito, o corpo da sua própria mulher! Seria impossível ela
te enganar!”
“Ela usava o perfume de Serena,” ele tentou se esquivar das acusações de
Mina.
“Não importa!” insistiu a loira, “É impossível ela te enganar a esse
ponto, Darien! Rey é ardilosa, mas você, cego pelo desejo, consumido por todos
esses dias em que Serena mal queria encostar no seu corpo... Deixou-se enganar,
não quis nem ao menos pensar que algo estava estranho, passou por cima de todas
as pistas da farsa de Rey só para poder saciar o seu desejo! No fundo você
sabia que aquilo era surreal demais para ser verdade, mas não quis averiguar,
não quis ter certeza, com medo de que algo desse errado e você não pudesse
fazer amor com alguém que, se não era, ao menos na penumbra se parecia com a
Serena!”
Será que aquelas acusações eram verídicas? Será que Mina não estava
certa? Darien pensava se inconscientemente ele não teria feito exatamente o que
Mina falara. Ou até mesmo conscientemente! Estaria tapando o sol com a peneira?
Não querendo enxergar a monstruosidade que tinha feito? Escondendo-se atrás dos
atos insanos de uma mulher apaixonada? Vendo-o em silêncio, Mina percebeu que
suas palavras o tinham tocado profundamente. Desviando-se dele, entrou em casa
e o deixou refletir sozinho.
Verda foi descendo as escadas, passando por diversas áreas do palácio.
Alguns paravam para olhá-la, pois tinha os cabelos um pouco desarrumados e os
olhos vazios, estáticos. Entretanto, ninguém tinha coragem de dirigir-lhe a
palavra. Pouco a pouco, foi chegando ao seu destino final, o jardim de inverno
do castelo.
Entrou calmamente, olhando para as lindas papoulas que lá eras
cultivadas dentre muitas outras espécies. Dirigindo-se ao banco que ficava
perto da fonte, encontrou Hiroi, que deu uma risada.
“Está me seguindo, Verda?” ironizou ele.
“Na verdade você é a última pessoa que eu gostaria de encontrar agora,”
respondeu ela com seriedade, pegando-o de surpresa, pois Hiroi esperava que ela
fosse bem mais ‘violenta’. Ela sentou-se no banco ao lado dele e continuou
olhando fixamente para o horizonte.
“Está tudo bem com você?” perguntou Hiroi, estranhando o jeito de Verda,
seu cabelo desarrumado, sua túnica se o cordão amarrado na cintura, a falta de
maquiagem eu seu rosto entre muitos outros pequenos detalhes que só os
apaixonados percebem.
“As perguntas não estão nada originais hoje...” murmurou ela, e Hiroi
não entendeu nada.
“Por que você não me dá uma chance?” disse ele, conseguindo tirar Verda
daquele estado calamitoso, fazendo seu olhar brilhar novamente, “Acho que essa
pergunta é bem original, nunca a fiz antes,”
Verda ficou sem palavras. Seu coração palpitava. Os homens sempre se
fazem de desentendidos para depois nos apunhalar pelas costas. Ela os odiava.
“Isso é patético,” ela riu com um sorriso de desprezo, “Você é tão burro
que não percebe que não é nada com você. Eu odeio os homens. Todos eles.”
“Por quê?” inquiriu ele.
“Você nunca vai saber. Ninguém nunca vai saber. Só há duas pessoas além
de mim nesse e em qualquer mundo que sabem da verdade. E elas nunca...” Verda
pensou por um momento, “E elas nunca vão dizer,”
Com um breve aceno ela deixou o lugar e voltou para o seu quarto, que novamente
estava vazio.
Mina descobriu que Serena e Finna já tinham ido dormir há algum tempo e
que Ami e Lita estavam fora. Sozinha em casa, ela desceu para o porão e começou
a estudar e pesquisar nos livros de Finna, alguns deles visivelmente antiqüíssimos
e outros espantosamente novos e modernos.
“‘Bruxaria do século 21’...”, murmurou ela, “que nome para um livro...
Espero que todo esse esforço sirva para alguma coisa.”
Quando finalmente as cortinas de veludo vermelho se fecharam, todos se
levantaram para deixar o teatro, mas Rey tinha outros planos.
“Quero me encontrar com o pessoal nos bastidores, vamos, Seiya,” quase
que ordenou Rey, puxando o rapaz pelo braço. Chegando lá Rey cumprimentou a
todos, que falaram como ela fizera falta no espetáculo. Yoi, uma das garotas
tinha ficado com o papel que seria de Rey, a amante suicida Julieta.
“Você foi muito bem, Yoi, meus parabéns!” felicitou Rey, mas logo a
atenção de todos se desviou para Seiya, que foi reconhecido como o cantor dos
Three Lights e que tinha desaparecido após a separação do grupo. Contudo, para
não gerar polêmica, ele mentiu que eram apenas muito parecidos e que o nome era
uma grande coincidência. Essa desculpa não convenceu ninguém, mas como não dava
pra provar mesmo, o assunto minguou.
Voltaram para o templo em seguida e assim que chegaram Rey tratou de
dizer que estava cansada e foi direto para cama.
“Será que ela está me fazendo de bobo?” pensou Seiya para si mesmo,
“Será que ela não está traumatizada coisa nenhuma e tudo isso é só fingimento
para que eu não vá me encontrar com Serena?”
Vendo que nada traria essas respostas para ele, também foi dormir.
“Você é perfeita, Ami,” disse ele com um certo espanto na voz, “Não
entendo, você tem um grande talento, uma facilidade para lutar, acho que
ninguém consegui dominar tão bem a Hydrárgyros em tão pouco tempo. Ou você tem
uma grande experiência em combates ou então você é um fenômeno,”
Ami olhou sem jeito, não sabia o que dizer, pois não podia contar a ele
de sua vida como senshi. Ao mesmo tempo sentia-se culpada por não contar a
verdade a Yan. Ele segurou em seu braço e a guiou delicadamente para o carro,
entrando em seguida. Já sentados, a Hydrárgyros guardada, ele deu um suspiro
profundo antes de dar a partida.
“Vou te levar para casa,” falou ele, “você precisa descansar, a qualquer
momento a LGA pode tentar algo contra você e é melhor que esteja bem alerta.
Além disso, a partir de hoje deve sempre andar com a Hydrárgyros,”
“Yan,” riu Ami, “Como vou ficar andando com uma arma debaixo do braço
por aí?”
“Ora,” respondeu ele, “Coloque dentro da bolsa!”
Ami riu novamente, pois andar com uma arma dentro da bolsa não era algo
que ela gostaria de fazer. Contudo, lembrando-se do último ataque que sofrera
resolveu que não havia outra escolha. Estava distraída com tais pensamentos
quando sentiu a mão de Yan tocando seu rosto. Virou-se para ele como se tivesse
acabo de receber uma descarga elétrica.
“Ami, desculpe-me...” murmurou ele com a voz trêmula, “eu não queria que
você sofresse por causa dos meus erros, por causa do meu triste destino,”
“Esse não tem que ser o seu destino,” rebateu Ami, áspera, “nossas
escolhas são mais fortes que tudo, podemos sempre mudar o futuro que nos
espera,”
“Vou falar com meu pai, Ami,” disse Yan, mudando um pouco o foco da
conversa, “contarei a ele que não vou te matar, que a amo, e proporei uma
troca: a minha vida pela sua,”
Ami deu uma gargalhada nervosa, desviando os olhos do rosto de Yan, pois
sentia uma perturbação em seu peito quando olhava para ele.
“Não fale besteiras, Yan, não quero um sacrifício seu,” falou ela
enfaticamente, “além disso, sua morte ou sofrimento não ajudaria em nada, pois
me matariam de qualquer forma, é queima de arquivo.”
Eles ficaram em silêncio por um momento e quando Ami abriu a boca para
dizer alguma coisa, Yan beijou-a subitamente. Ela ainda estava confusa com tudo
o que tinha descoberto sobre ele, mas não pode resistir e deixou-se levar pelo
doce mel dos lábios daquele que amava.
“Yan...” murmurou Ami, “Não posso... Não posso ter nada com você...
simplesmente não posso aceitar o que você faz...”
“Ami...” respondeu ele e beijou-a novamente, “Tudo mudou agora... Eles
já sabem que eu a amo que nunca a matarei, sabem que eu não posso pagar esse
preço para ser absolvido pela LGA... Tudo mudou...”
Ele apertou seus lábios contra os dela com mais força e seu corpo
moveu-se procurando uma forma de ficar sobre o corpo quente e pulsante de Ami.
“Ami,” continuou Yan, olhando no fundo de seus olhos, “pensei muito em
nós dois e na conversa que tivemos quando você descobriu que eu era um agente
da LGA... Ami, agora eu percebo... já estou sendo caçado, é uma questão de
tempo... Não posso feri-la e por isso serei acusado de traição e perseguido até
o dia em que encontrarei meu fim... Entende? Essa vida acabou para mim, nunca
mais serei aceito, nem mesmo meu pai poderá interceder por mim pois isso
quebraria aos preceitos básicos que ele mesmo estabeleceu. Além disso, percebi
o quão idiota tenho sido. Ele nunca me amou de verdade, Ami, pois quem ama o
faz incondicionalmente, não exige nada em troca. Ele apenas me usou, usou os
meus talentos para se afirmar cada vez mais dentro daquela maldita agência...”
“Yan, o que você quer dizer com isso?” perguntou Ami, ainda surpresa com
o que estava ouvindo,” Você vai definitivamente largar essa vida?”
“Na verdade não posso me vangloriar disso como uma escolha pessoal
minha, mas é inevitável,” respondeu ele, “Tenho que escolher entre sua vida e a
minha vida, portanto não há escolhas possíveis para mim.”
“Yan... mesmo assim... não sei se posso conviver com isso... você é... é
um assassino...” falou Ami. Seus olhos azuis brilhavam com o reflexo do sol
matinal que insistia em entrar pela janela.
“Sim, eu sou,” afirmou ele, “Mas eu a amo e sei que o sentimento é
recíproco. Não vamos desperdiçar esse amor, Ami, pois ele é único. Eu não quero
me lembrar de você, eu quero sempre estar com você,”
“Mas Yan... há tantas coisas sobre mim que você não sabe...”
“Não importa, vamos viver o presente Ami... Ele pode se acabar a
qualquer instante...”
Com essas palavras, ele beijou-a novamente e dessa vez Ami respondeu com
toda a sua paixão, todo o sentimento que estava escondido nas esquinas escuras
de seu coração.
Mesmo com o sol brilhando fortemente do lado de fora do carro, os vidros
não tardaram a embaçar.
Pé ante pé, Lita entrou em casa pela manhã, temendo acordar Mina, a quem
teria que dar detalhadas explicações de onde estivera. Para sua surpresa, a
loira dormia um sono pesado e não moveu uma pestana com a sua chegada.
“Ufa!” exclamou Lita, “Que bom que todos estão dormindo!”
“Todos não,” disse Serena, entrando na sala, “Onde você passou a noite?”
Lita levou um enorme susto ao ouvir a voz de Serena, a última pessoa que
esperava encontrar. Tentou encontrar alguma rápida falsa explicação, mas não
obteve sucesso.
“Lita, Lita...” falou Serena baixinho, temendo acordar Mina, “Pensa que
não me preocupo com você? Sei dos seus problemas e anseios, minha amiga. Você
não quer conversar?”
Lita olhou ternamente para a amiga que tinha a pele fresca como a de uma
rosa recém colhida. Serena tinha estado tão sombria e depressiva nos últimos
tempos, e agora Lita via nela o vigor e a determinação novamente revigorados.
“Podemos fazer isso enquanto tomamos um café?” perguntou Lita olhando
para a cozinha. Serena assentiu com um sorriso e foram juntas para lá.
“Lita, conte-me o que está havendo em seu coração,” pediu Serena, “vejo
um nuvem de preocupação e dúvida escondendo o brilho do seu olhar.”
“Serena, estou dando uma chance ao Kayama,” respondeu Lita, tentando ir
direto ao ponto. “Amo Kenkure, isso é um fato, mas ele não parece estar muito
aberto a entender os meus problemas e defeitos. Preciso de alguém que aceite o
meu jeito de ser e que me dê espaço para melhorar, mas sem pressão,”
“E você encontrou isso no Kayama?” indagou Serena.
“Sim” afirmou Lita, “Ele é exatamente o que preciso nesse momento, ele
me entende e me ama, o que é o mais importante.”
“E você o ama?” falou Serena, com preocupação na voz.
“Não,” começou Lita, “Ainda. Mas gosto muito dele e isso é um passo para
que possa amá-lo,”
“Você realmente acredita nisso?”
Lita ficou sem palavras por alguns segundos. Ela realmente acreditava
nas palavras que saíam de sua boca ou estava apenas se enganando?
“Acredito, claro!” exclamou com um sorriso falso, “Serena, não há
nenhuma possibilidade de eu não me apaixonar por ele em breve. Ele me ama, me
entende, me aceita... É perfeito...”
“E pelo visto você já passou a noite com ele, certo?” interrompeu
Serena.
“Enganada!” disse Lita, “Sabe, decidi que não vou me entregar a ele
antes de amá-lo completamente. Não quero estragar mais um relacionamento
Serena...”
“Lita,” murmurou Serena com um sorriso apreensivo, “Você realmente acha
isso ou não quer fazer amor com ele para não machucá-lo, já que no fundo sabe
que nunca vi amá-lo como homem?”
Lita teve vontade de gritar, estapear Serena. Como ela ousava destruir
suas pequenas encenações assim? Por que ela era tão cruel?
“Por que você não deixa que eu me engane em paz?!” berrou Lita, “Por que
eu tenho que ver a verdade? Por que não posso mentir para mim mesma se isso me
deixa feliz?!”
Ela então se deixou cair no chão, chorando copiosamente, como se alguém
tivesse tirado o doce da criança. Queria voltar a infância, onde não precisava
se preocupar com tantos problemas. Por que tudo era tão difícil para ela? Nesse
momento desejou que sua mãe estivesse viva, para poder deitar em seu colo e ser
confortada sem perguntas, sem contestações, sem palavras. Pensava nisso quando
sentiu que Serena tinha se sentado no chão ao seu lado e acariciava seus
cabelos.
Lita abriu os olhos, olhando para cima. Através de uma parede de
lágrimas que embaçava sua visão, ela viu o rosto de Serena, que pareceu estar
tão longe e ao mesmo tempo tão perto, e ele estava envolto por um brilho
ofuscante como quando se olha para o sol. Fechou os olhos instintivamente e
repousou sua cabeça sobre o colo da amiga que estava quente e tranqüilo.
“Serena,” murmurou Lita entre um soluço e outro, “deixe que eu me
engane... por favor... deixe-me mentir um pouco, pois só assim consigo sentir o
brilho fraco da felicidade... por favor... a realidade... a minha realidade é
muito triste e cansativa... eu não quero mais sofrer... deixe-me ser feliz...
não me desperte do meu sonho, por favor...”
Serena, ainda acariciando os cabelos da amiga, fechou os olhos, como se
buscasse força ou inspiração em algum lugar, uma fonte invisível, um paraíso
divino.
“Viva o seu sonho se quiser, Lita,” disse Serena, “mas eu a amo demais
para ficar calada. Agora, amanhã ou depois, isso não importa, o fato é que você
vai acordar e aqui, do outro lado, a sua realidade estará esperando por você.
Triste ou alegre, cinzenta ou colorida, é a sua realidade e você não pode
ignorá-la para sempre. A escolha é sua. Você pode começar a mudar a sua
realidade agora ou pode viver seu sonho por mais algum tempo. Só que quando você
acordar, terá de enfrentá-la, e nada do que você fez ou viveu em seu sonho terá
mudado nada.”
“Certo, eu entendo,” disse Lita em um sussurro, “mas me deixe sonhar...
me deixe sonhar... sonhar...”
O carro de Yan estacionou na frente da casa de Finna, e Ami desceu
rapidamente.
“Desculpe-me por não te convidar para entrar, Yan, mas alguém pode estar
dormindo... Não seu se já te disse, mas moram alguns amigos comigo...”
“Não se preocupe,” respondeu ele, “Apenas tome cuidado. Eu vou sair do
hotel hoje e procurar algum lugar seguro para ficar. Me encontre hoje à meia
noite no lugar onde treinamos com a Hydrárgyros que eu te conto as novidades,”
Ami assentiu e com um aceno se despediu de Yan. Entrando silenciosamente
em casa, encontrou Mina num sono profundo e, indo até a cozinha, viu Lita
dormindo no colo de Serena. Ela se abaixou para olhar mais de perto e Serena
riu de sua cara de espanto.
“O que aconteceu?” perguntou Ami ao ver o rosto inchado de Lita.
“Quem faz as perguntas aqui sou eu, mocinha,” falou Serena, “Onde você
passou a noite?”
“Com Yan,” respondeu ela diretamente.
“Mas vocês não tinham brigado?” estranhou Serena.
“Sim, mas já fizemos as pazes,” falou Ami e ao ver a cara de
desconfiança de Serena acrescentou, “Está tudo bem agora, não se preocupe,”
Serena fez que acreditava, pois Ami definitivamente mentia muito mal.
Contou que ela e Lita tinham conversado um pouco e que Lita acabara dormindo,
mas também não entrou em detalhes.
“E Finna? Por que ela ainda não acordou? Ela sempre está de pé tão
cedo...” estranhou Ami.
“Eu estive com Finna logo de manhã e ela está muito mal. Acho que pegou
uma gripe forte, sei lá, o fato é que ela pediu para que estudássemos sozinhos
de manhã. Finna fez uma poção para melhorar, mas ela disse que hoje o dia está
perdido para ela, só amanhã poderá se levantar,”
“E Mina? Cheguei e ela nem acordou...” falou Ami.
“É, isso é estranho, mas ela está nesse sono pesado desde que cheguei
aqui,” respondeu Serena, “E do jeito que é curiosa... Não é do feitio dela
perder o momento em que você chega de manhã em casa, após ter passado a noite
inteira com um homem...”
Ami ficou vermelha como um pimentão e Serena riu animadamente.
“Não fique assim, sua boba,” falou a loira, “Estava só brincando!”
“Mas eu fico sem jeito de você falar essas coisas...” murmurou Ami.
“Não deve,” disse Serena, “Não somos mais crianças, Ami, não tem que se
envergonhar por causa disso, somos amigas, ora!”
Ami deu uma risada de descontração e acabou de fazer o café que
Lita tinha deixado pela metade.
“E então, o que descobriu, Їѕн’цоц?
Seguiu Verda ontem como pedi?” perguntou Titã.
A gosma azul em forma de homem ergueu a cabeça, encarando os olhos
faiscantes de seu mestre.
“Bom, messsstre, segui, masss Verda só se encontrrrrrou sem querrrer com
Hiroi e foi dorrrrmirrr,” respondeu o fiel servo.
“E sobre o que falaram?” indagou Titã.
“Não pude ouvirrrr, messsstre, mas foi rápido, nada imporrrrtante,”
murmurou Їѕн’цоц e Titã dispensou-o, mas
pediu que ele continuasse a vigiar Verda.
“Tenho que descobrir o que há com ela...” falou Titã para si mesmo.
Ao sair do banho, Haruka encontrou Michiru ainda na cama, mas não estava
mais dormindo.
“Você está me saindo uma bela preguiçosa!” brincou Haruka.
“Eu nem acredito que tirei aquele gesso maldito!” suspirou Michiru,
virando-se na cama e cobrindo sua cabeça com o lençol, “Finalmente estou pronta
para outra...”
Haruka abaixou-se ao lado da cama, apenas uma toalha enrolada em seu
corpo. Pequenas gotas de água que permaneceram em sua pele brilhavam com o sol
tímido que entrava pela janela.
“Setsuna ainda não conseguiu encontrar as outras senshi e Hotaru tem
ataques cada vez mais freqüentes... nada está correndo bem nos últimos dias...”
murmurou Hakura.
“Nada podemos fazer quanto ao primeiro problema, mas quanto ao segundo...”
continuou Michiru com uma sombra negra no olhar, “já podemos tomar uma
providência. E será definitiva.”
As duas deram as mãos e reafirmaram sua promessa de acabar com aquela
erva daninha chamada Hotaru Tomoe.
Darien e Mina acordaram quase ao mesmo tempo e ao ir para cozinha,
depararam-se com Lita, Serena e Ami conversando animadamente.
“Vejo que as minhas duas amigas que não dormiram em casa chegaram muito
contentes esta manhã,” ironizou Mina com uma risadinha marota.
“Bom, se você não estivesse num sono tão pesado quando chegamos, não
teria perdido a diversão e as explicações,” respondeu Lita, “agora Inês é
morta, minha querida, vai ficar na curiosidade pelo resto dos seus dias,”
Mina viu nos olhares delas que não adiantaria de nada sua insistência,
elas não contariam nada sobre o que aconteceu. Estava curiosa, sim, mas ter
ficado acordada até 4 horas da manhã valera a pena...
Serena repassou as más notícias sobre a saúde de Finna, e todos
decidiram ir treinar seus recém adquiridos conhecimentos de ataque e defesa.
Como a saída de Rey não possibilitava mais a formação de duplas, formaram
também um trio: Serena/Mina e Lita/Ami/Darien. Essa foi a melhor formação
possível, pois nem Serena nem Mina conseguiam conviver normalmente com Darien
depois do que acontecera.
O dia amanhecera com sol, mas este não estava muito quente, e vez em
quando um vento frio passava por ele uivando. Apesar disso fizeram um bom
treino e lá pela uma da tarde, quando encerraram seus exercícios, chegaram a
conclusão que tinham avançado muito nos últimos dias e que suas habilidades de
combate estavam mais aprimoradas que nunca. Lita fez o almoço com Serena, que
ao levar um prato para Finna trouxe a notícia que poção estava tendo ótimos resultados e que pela manhã do dia seguinte
ela estaria como nova. Num canto da sala, tomando um café após o almoço, Mina
foi conversar com Ami.
“Ami, já descobriu o que foi aquele atentado? Ontem você saiu com tanta
pressa...” perguntou Mina.
“Não,” mentiu Ami, “Achei que tinha sido uma pessoa, mas me enganei. De
qualquer forma, não precisa se preocupar com isso, Mina, eu cuidarei de tudo,”
“Como pode estar tão calma?” disse
Mina sem entender o jeito de Ami.
“Relaxe, eu já cuidei de tudo,” reafirmou Ami, “Vou ao shopping hoje a
tarde, quer ir comigo?”
Mina pensou um pouco, mas com um sorriso declinou a proposta de Ami.
“Desculpe, amiga, mas já tenho planos....”
Saindo do nada, Serena apareceu entre as duas, toda animada, dizendo que
também gostaria de dar uma volta no shopping. Pensaram em convidar Lita, mas
rapidamente ela já tinha dado um jeito na louça e tinha ido para o Game Crown.
“E o Darien, Serena,” perguntou Ami, “ele vai ficar aqui sozinho? Não
acha que estamos isolando ele demais?”
Serena ficou em silêncio, sem saber o que falar. Por um lado concordava
com Ami, mas por outro achava que não tinha o menor clima para ficarem juntos.
“Não há o que fazer,” interrompeu Mina, “Ele escolheu esse caminho,”
“Sabemos que não foi culpa dele, Mina, não seja tão intransigente!”
defendeu Ami.
“Mas não podemos fingir que nada aconteceu,” falou Lita, “É uma pena,
mas algo se quebrou e levará algum tempo para as coisas voltarem ao normal, se
é que algum dia isso vai acontecer,”
Todas então se calaram, cada uma com seus próprios pensamentos sobre
aquilo tudo. Quando enfim olharam para trás, descobriram que Darien não estava
mais nem na sala nem na cozinha. Sem dizerem palavra alguma, Ami e Serena
saíram para o shopping e Lita foi encontrar-se com Kayama no Game Crown,
deixando Mina sozinha em casa.
“Agora é a minha vez...” murmurou para si mesma.
“Olá.... alguém em casa...?” perguntou Setsuna enquanto entrava no
apartamento de Hotaru. Tudo estava extremamente silencioso, o que era estranho,
já que Hotaru já devia ter voltado da aula de pintura.
Andando cuidadosamente, como quem espera encontrar algo diferente no
caminho, Setsuna foi adentrando o lugar. Passou pela cozinha (vazia, a torneira
gotejava), pela sala de estar (vazia, uma revista de arte aberta na metade),
pelo quarto (vazio, a cama estava um pouco desarrumada, alguém tinha deitado
ali há pouco). O único lugar que não olhara foi o banheiro, para onde se
dirigiu.
A porta estava apenas encostada e, ao entrar, encontrou algo que seu
subconsciente já esperava: Hotaru estava caída no chão.
“Hotaru!” gritou Setsuna enquanto se abaixava. Ergueu a cabeça da amiga
para ver que ela não estava desacordada. Hotaru tentou falar alguma coisa, mas
sua voz estava tão baixa que Setsuna não conseguiu entender o que dizia.
“Estou indo...” finalmente Hotaru conseguiu falar em um tom mais alto,
“Algo esta preenchendo cada canto de minha alma, não consigo mais parar...”
Setsuna começou a fazer diversas orações e a lançar feitiços para
bloquear o processo que estava acontecendo em Hotaru. Qual fosse o espírito que
estava em seu corpo, estava possuindo-o quase por completo. Hotaru pediu para
que Setsuna parasse.
“Não há jeito, minha amiga,” murmurou, “É uma maldição, temos que
esperar que ela se complete, nada pode detê-la mais... Meus pensamentos estão
embaralhados, minhas lembranças estão sumindo... Me sinto num turbilhão, tudo
está confuso dentro de mim...”
Após essas palavras, o corpo de Hotaru se contorceu num espasmo e seus
olhos brilharam em um tom vermelho-sangue por alguns segundos antes de se
fecharem. Sua respiração se normalizou, mas agora ela não podia ver nem ouvir
Setsuna, estava desligada do mundo, perdida em algum limbo que havia dentro se
si própria.
“Hotaru....!” falou Setsuna amargurada enquanto segurava o corpo sem
forças da amiga, “Você vai voltar, eu prometo!”
“Mais uma estrela se apagou desse mundo...” sussurrou Michiru no ouvido
de Haruka.
Assim que as meninas saíram, Mina tomou um banho longo e
perfumado, vestindo um decotado vestido laranja que tinha separado. Pegou sua
bolsa, que já tinha deixado pronta desde a hora em que fora dormir, e saiu.
Estava em seus melhores dias, sua pele brilhava com o sentimento de felicidade
que pulsava dentro de seu peito, seus cabelos exibiam um dourado celestial que
paralisaria por alguns segundos qualquer um que a visse. Mas em seus
pensamentos só havia uma única pessoa.
Ao chegar na casa de Takeru, a porta não estava trancada. Do lado de
dentro, colado na porta, um post-it em forma de coração dizia:
“Se você voltou e está lendo isso, saiba que as portas do meu coração
também sempre estarão abertas para você.”
Mina deu um beijinho naquele pedaço de papel que agora estava ungido
pelo amor existente entre eles. Subiu correndo as escadas, mas sem fazer
qualquer barulho que denunciasse sua presença. Abriu lentamente a porta do
quarto e deu uma espiadinha, mas Takeru não estava lá.
Entrou lentamente, apenas para confirmar sua primeira impressão. O
quarto estava vazio. Deu um suspiro de desapontamento, quando Takeru apareceu
do nada e abraçou-a pelas costas, beijando o seu pescoço com paixão.
“Que susto!” reclamou Mina com amor, “Como você ousa me surpreender
desse jeito?”
“Não é o que você sempre faz comigo?” retrucou Takeru.
Os dois entraram no quarto e se sentaram na cama calmamente. Takeru
olhava para Mina embevecido, seus olhos cintilavam com o reflexo brilhante dos
cabelos sedosos dela.
“O que foi?” perguntou ela com um sorriso maroto.
“Nada,” murmurou Takeru, “Você está extremamente linda hoje, como uma
deusa... E eu que achei que depois de ontem você nem iria mais voltar...”
“Não fale bobagens!” exclamou Mina e repousou sua cabeça no colo de seu
amado, olhando para cima para conseguir enxergar seu rosto pálido, “Eu sempre
estarei ao seu lado... Estamos ligados para toda a eternidade... Falando nisso
adorei seu bilhete!”
Takeru deu um sorriso um pouco sem graça, de quem não está acostumado a
fazer declarações de amor.
“Vou fazer um chá para nós dois, o que acha?” sugeriu Mina levantando.
“Mina...” falou Takeru lentamente, “Sabe... eu não... realmente eu não
preciso dessas coisas...”
Mina arregalou os olhos com espanto e preocupação.
“Você não pode comer e beber comida humana?” ela indagou, ansiosa por
uma resposta.
“Não é isso,” respondeu Takeru, “Eu posso comer, é que não preciso, não
é necessário,”
Mina deu um suspiro aliviado.
“Que coisa, Takeru!” exclamou ela, “É só uma xícara de chá para me fazer
companhia... por favor...”
Obtendo um aceno afirmativo da parte dele, Mina desceu correndo as
escadas, como uma criança levada. Takeru ficou olhando para o lugar onde ela
estava, sentindo o seu aroma... Tudo estava tão perfeito...
Chegando na cozinha escura, Mina acendeu todas as luzes possíveis para
iluminar aquele ambiente, precisava se concentrar e enxergar bem. Começou então
a tirar vários pequenos potes de sua bolsa, cada um contendo erva ou raiz
diferentes, além de um bloquinho de anotações.
“Takeru, você finalmente vai se libertar de seus medos...” ela sussurrou
tão baixo que nem se as paredes tivessem ouvidos a teriam escutado.
O plano que Mina tinha cuidadosamente arquitetado na última noite era
bem simples, embora achar o feitiço certo não tivesse sido tão fácil. Ela não
queria dopar Takeru, tirar-lhe a consciência de seus atos, o objetivo daquilo
tudo era apenas retirar o excesso de medo que ele tinha, deixando-o mais
confiante de que nada de mal aconteceria. Mina acreditava no amor plenamente,
sabia que essa grande força nunca deixaria que nada de mal acontecesse. Ela só
precisava que Takeru acreditasse também.
Junto com o chá, ferveu os itens que tinha trazido, cada um em sua
medida exata para que os efeitos fossem estritamente os que ela desejava. Em
outro recipiente, fez um chá deferente para ela, sem nada que pudesse afetar
seu estado normal, apenas um pouco de camomila para amenizar o nervosismo que
sentia. Assim que tudo tinha ficado pronto e ela havia guardado as coisas que
trouxera, apagando os rastros de sua magia, recitou murmurando o feitiço sobre
a xícara de Takeru.
“In melior victum timor quae nos proficio, tui exsistum memorium. Tamen,
id alio quae eximo rogo iuris id unde anima nemus pomum melior saporu, (Medo
que nos ajuda a viver melhor, agradeço sua existência. Contudo, peço que
liberte essa pessoa para que deguste os melhores frutos da árvore da vida)”
Algumas bolhas se formaram na superfície do chá e em seguida
desapareceram.
“Espero que tudo dê certo...” pediu Mina enquanto subia as escadas.
Dentro de seu quarto, lendo um livro sobre magia da água, Darien não
conseguia se concentrar no que estava fazendo, apenas se lembrava da conversa
que tivera com Mina na noite passada. Sem dúvida ele amava Serena, ela era
única mulher em sua vida, mas... Teria ele se deixado enganar por Rey? Mas por
quê?
“Ela é linda e quente...” falou para si
próprio, “Mas isso não é motivo... Se não há amor, por que eu me deixei enganar
por ela?”
Talvez estivesse carente, sentindo-se só, com medo de perder sua filha
para sempre. Talvez esse turbilhão de sentimentos tivesse enfraquecido sua
resistência contra Rey.
“Talvez eu quisesse me sentir amado e desejado,” disse em voz baixa,
“Mas isso é tão... desprezível...”
Pela primeira vez desde aquele incidente, Darien sentiu nojo de si
próprio, entendeu seu comportamento e como agira tal qual um cafajeste barato.
Sentiu pela primeira vez a dor que Serena estava sentindo, só que para ele era
como se estivesse apunhalando o próprio peito.
“Serena...” murmurou ele, “Me desculpe... Não vou mais fazer você
sofrer...”
Dito isso, sentiu que finalmente tinha tomado a sua decisão.
Mina entrou cuidadosamente no quarto e colocou a bandeja sobre a cama,
pegando em seguida sua xícara.
“Do que é?” perguntou Takeru.
“Camomila,” respondeu Mina laconicamente.
Ambos provaram o chá e Takeru disse que estava muito bom, tomando mais
um pouco em seguida.
“Onde você conseguiu camomila, Mina?” perguntou ele, “Eu não tenho essas
coisas em casa,”
“Mas eu trouxe, seu bobo,” falou ela com um sorriso que derreteu o
coração de seu amado, “Imaginei que não encontraria isso por aqui,”
Estavam sentados um de frente para o outro, na cama, separados pela
bandeja de chá. Uma única lâmpada no abajur da cabeceira de Takeru iluminava o
ambiente, dando um ar soturno ao quarto, que já era um tanto abafado pelo fato
de não haverem janelas. Às vezes, Mina achava que conseguia sentir o ar
encostando em sua pele e envolvendo-a, pois ele parecia denso dentro do quarto,
bem mais que o normal. Pensava que isso transformava aquele local num pequeno
antro sedutor, que instigava em sua mente as fantasias mais bizarras. Acabaram
o chá mais ou menos ao mesmo tempo e depositaram as xícaras vazias na diminuta
salva de prata que estava entre os dois.
Um momento de silêncio profundo pairou naquele quarto. Mina podia ouvir
seus próprios pensamentos como vozes gritando em sua cabeça, sua respiração
parecia o barulho de uma locomotiva, ritmado e alto – extremamente alto – como
o apito de um navio que está partindo. Seus olhos encontravam os de seu amado e
ela só conseguia focalizar ele dentre todas as outras coisas possíveis. O mundo
desapareceu e Mina só via os dois flutuando no vácuo, esperando pelo ruído de
copos se quebrando que a despertaria desse sonho. Logo abriria os olhos e se
encontraria em sua cama.
Entretanto, nada a despertou bruscamente. Sentiu a cama de Takeru voltar
a se materializar sob seu corpo e ao tocar os lençóis gelados com seus dedos
delicados, tudo começou. Mina atirou-se bruscamente sobre Takeru, passando por
cima da badeja e quase derrubando tudo no chão. Beijou-o apaixonadamente, de um
jeito que jamais tinha experimentado com outro homem; Takeru respondeu ao beijo
com a mesma intensidade. Mina passou suas mãos pelo cabelo macio de seu amado,
abraçou-lhe a nuca e seus lábios se entrelaçaram, fazendo uma verdadeira
coreografia ao som dos gemidos de amor que afloravam tanto dele como dela.
Por um instante se separaram e, abrindo os olhos, suas almas se
encontraram, se enxergaram completamente, nuas, sozinhas num imenso oceano de
chamas. Mina sentia a respiração de Takeru como se fosse a sua própria,
oscilante e descompassada. Ele ergueu a mão direita lentamente, acariciando a
face dourada daquela que mais amava no mundo.
“Mina...” falou ele, “O que está acontecendo comigo... sinto-me estranho...
estranhamente entregue ao vento, como se qualquer brisa pudesse levar meu corpo
para longe...”
Mina respondeu colocando seu dedo indicador sobre a boca de Takeru, em
sinal de silêncio. Depois levou esse mesmo dedo à sua própria boca, beijando a
ponta com delicadeza. Pegou a mão de Takeru e tocou com seus lábios cada dedo
de sua mão, investindo-os com um sentido totalmente fálico. Conduziu a mão de
Takeru para seu peito, sua mão delicada exatamente sobre a dele, mostrando-lhe
os caminhos secretos de seu corpo.
“Finna,” disse Darien do lado de fora do quarto de Finna, “posso
entrar?”
Ela respondeu afirmativamente e Darien entrou, propondo uma conversa.
Finna estava bem melhor, o que quer que ela estivesse tomando fazia efeito,
pois sua face já exibia uma cor bem saudável.
“Conversa? Sobre o quê?” estranhou Finna.
“Sobre mim,” respondeu Darien misteriosamente, instigando ainda mais a
curiosidade de Finna.
Mina sentia-se totalmente envolvida por Takeru. Com jeitinho, usou sua
outra mão para abrir o zíper do vestido que ficava nas costas. Imediatamente,
as alças afrouxaram, aparentando que iriam cair a qualquer momento. Takeru
tinha olhos vidrados para Mina, atônito com tudo o que estava acontecendo. Ela
elevou os braços dele, que instintivamente desceu o seu vestido até a cintura,
revelando a lingerie rendada que ela comprara especialmente para esse dia. Mina
tinha um corpo bem definido, com muitas curvas e seios fartos, deixando Takeru
ainda mais ofegante do que ele já estava.
Beijaram-se novamente, e dessa vez Takeru deslizava suas mãos fortes
pelas costas de Mina, causando-lhe arrepios apaixonados que percorriam sua
espinha dorsal como faíscas elétricas. Sutilmente, ela se livrou da camisa de
Takeru e começou a percorrer seu peito desnudo com a boca ávida. Quando ela
estava na altura de seu esfínter, Takeru afastou-a ligeiramente.
“O que foi?” perguntou Mina inocentemente.
“Mina, será... não...” dizia ele confuso, “devemos...?”
Ela respondeu às duvidas dele lambendo a parte final de seu abdome, como
uma gata selvagem. Isso finalmente despertou algo em Takeru, que olhou para
Mina com um enorme desejo, algo incontrolável. Agarrou seus braços e virou-se
sobre ela, agora estando por cima, um lobo prestes a saciar sua fome com um
cordeiro desatento. Arrancou o sutiã de Mina, devorando sua carne macia com
voracidade; ela gemia com um sorriso nos lábios, sentia que agora não havia
mais volta.
Logo já haviam se libertado do resto de suas roupas e dedicavam-se
vigorosamente aos beijos e carícias. Takeru mordiscava o corpo de sua amada com
deleite, dando pequenas lambidas de vez em quando. Mina era recíproca em seus
sentimentos e afagos, por vezes cravando as unhas em seu par quando inundada
pelo prazer que ele a proporcionava.
Takeru era um amante único, além de muito experiente. Ele sabia como
estimulá-la nos locais mais delicados de seu corpo jovem que exalava os odores
do auge da primavera. Suas mãos fortes, suaves e hábeis tocavam-na como ninguém
jamais o fizera, excitando-a e em seguida abandonando-a para começar tudo
novamente, como numa roda gigante com seus altos e baixos.
Não demorou muito a se entregarem por completo um ao outro, mesclando
seus corpos e sentimentos. Não se distinguia mais nada naquele quarto turvo,
suas visões estavam totalmente tomadas por uma atmosfera de união, um só corpo
agora abrigava duas almas que eram praticamente congruentes.
Mina havia se deixado levar pelo amor de Takeru, que oscilava entre
carícias deliciosamente brutas e ao mesmo tempo suaves e toques apaixonantes e
cadenciados. Moviam-se como em um espetáculo de balé moderno, vigorosos passos
ungidos com sublime sutileza. Ela não tinha nenhum pensamento em sua mente, só
conseguia fluir ao longo da correnteza.
Takeru também não conseguia pensar em nada, pois sua mente parecia estar
totalmente confusa. Só conseguia sentir seu amor por Mina crescendo cada vez
mais e um desejo incontrolável de fazê-la feliz, de torná-la para sempre a sua
mulher. Ele próprio sentia-se exultante, num momento de encanto e prazer
intensos, nada poderia retirar a poesia intrínseca àquele momento. Nada.
Contudo, o destino sempre conspira às nossas costas, articulando as
maneiras mais cruéis de infligir seus desígnios impiedosos sobre as vidas de
cada ser vivo que esteja sob o seu domínio. Ninguém escapa, nunca se está a
salvo, nunca podemos nos vangloriar da felicidade, pois devemos ter em mente
que ela sempre vem acompanhada de uma boa dose de sofrimento. Será isso justo?
A quem caberia responder tal pergunta? Nem o mais sábio dos homens pode ao
menos arriscar um palpite.
Ele estava beijando o lóbulo da orelha de Mina quando abriu os olhos,
como quem pressente alguma coisa. Seu olhar foi atraído rapidamente para uma
pequena mancha no lençol, que por ser preto dificultava a identificação do que
exatamente se tratava. Takeru, porém, sabia muito bem o que aquilo era, pois
seus instintos começaram a latejar, a gritar dentro de sua cabeça cada vez mais
confusa. Nunca se confundiria, não quando o assunto era aquilo, nunca...
Um outro tipo de desejo incontrolável começou a crescer dentro de seu peito,
não acabando com o desejo sexual, mas sim se acrescentando a ele, como uma
demoníaca e perversa conta de adição. Tentou voltar ao seu antigo estado de
relaxamento, mas sua mente agora estava inflamada com aquele novo sentimento.
Passando as mãos pelo cabelo de Mina, puxou-os para trás com força,
fazendo com que ela abaixasse a cabeça para trás para amenizar a dor.
“Ai, isso dói!” exclamou ela, mas sem perder a doçura da voz, “Solte os
meus cabelos...”
Entretanto, Takeru não ouviu o que Mina dissera, pois seus sentidos
estavam todos voltados para outro assunto. Ela gemeu de dor, reclamando daquele
gesto de Takeru, e por fim conseguiu erguer um pouco a cabeça. Grande foi seu
susto ao ver os olhos de seu amado brilharem num tom sinistro.
“Takeru, o que foi?” perguntou ela com um pouco de preocupação.
“Mina...” murmurou Takeru no seu ouvido. Ele tinha uma voz ainda
mais apavorante que o brilho em seus olhos. “Eu disse... eu preveni... você foi
muito imprudente... e ainda mais sabendo o que você é... o que era, pelo
menos...”
Agora era o medo que estava estampado no rosto de Mina, não mais o
prazer. Ela não entendia o que Takeru dizia, o que ele estava tentando lhe
falar. Ela sentia que algo nele estava estranho, algo estava em conflito;
talvez ele estivesse tentando dizer algo importante, mas Mina não entendia
aonde ele queria chegar.
Takeru lambeu o pescoço de Mina de uma maneira animalesca, bem diferente
do que ele estivera fazendo até aquele momento. Ela tentou desviar, mas Takeru
segurou firmemente os dois braços de Mina, colocando todo o seu peso sobre o
corpo dela, imobilizando-a. Ele ainda estava beijando o seu pescoço quando
finalmente aconteceu. Mina nem ao menos pôde ver quando os caninos de Takeru
cresceram alguns centímetros...
Foi como se ela sentisse cada camada de sua pele se rasgando, as veias
se rompendo para a passagem daqueles dois corpos estranhos. Não sentia dor, e
lembrou-se de algo que aprendera num passado longínquo, que alguns insetos tem
substâncias anestesiantes na saliva. Deveria ser o caso. Mina não conseguiu
esboçar nenhuma reação, apenas lágrimas apavoradas turvaram rapidamente sua
vista.
Assim que o sangue fervente de Mina entrou em sua boca, ele sentiu-se
vivo novamente. Sempre era uma sensação única beber o sangue das pessoas, em
especial das mulheres, mas de certa forma toda vez que fazia isso se sentia
sujo, como que roubando algo que não lhe pertencia. Entretanto, dessa vez era
diferente, pois tudo parecia ter sido preparado especialmente para esse gran
finale. Não estava usurpando, mas sim tomando posse de algo que lhe fora
oferecido de bom grado. O sangue de Mina era adocicado, puro mel recém retirado
de sua intrincada colméia.
Mas aos poucos Mina foi entendendo o que estava acontecendo e a
gravidade disso. Seu mundo começou a se despedaçar em frente aos seus olhos,
uma lesma com um punhado de sal nas costas. Não era verdade, isso tinha de ser
mentira. Contudo, quando Takeru aprofundou sua mordida, ela caiu em si.
“Nãoooooooooooooooooooooooo!” gritou Mina plenos pulmões,
“Páááreeeeeeeeeeeeeeeee!”
Ela agora estava em desespero e se debatia sob Takeru, berrando
incontrolavelmente. Não deixaria aquilo acontecer, não, não deixaria!
Ela ainda não sabia, mas não precisaria se debater por muito mais tempo.
A voz cristalina de Mina soou como um alarme no ouvido de Takeru e, por um
motivo que ele nunca soube explicar, aquilo despertou-o de seu transe
vampírico. Talvez fosse alguma força maior intercedendo pelos dois, o por
coisas que ultrapassam o entendimento humano, mas ele acordou e viu o que
estava fazendo.
Com um salto, ele afastou-se de Mina como quem recebe uma descarga
elétrica. Seus olhares chocados se encontraram no meio daquela escuridão sempre
tão presente no quarto de Takeru. Estavam nus, não só fisicamente, mas
espiritualmente, com seus sentimentos e expectativas amplamente vulneráveis aos
acontecimentos recém ocorridos. Mina tremia incessantemente, tomada por um
horror que lhe desfigurava a bela face. Agarrou com extrema velocidade seu
vestido no chão e passou correndo por Takeru, que ouviu ela descendo as escadas
tropeçando em quase todos os degraus. Ele não teve forças para ir atrás dela,
estava ainda assombrado com o que tinha acabado de fazer.
Mina foi vestindo-se ao mesmo tempo em que corria, tentando sair daquele
local que só a deixava mais apavorada. Em alguns segundos conseguiu chegar até
a saída e foi quando bateu a porta às suas costas que o processo iniciou.
Com a adrenalina baixando, ela pode finalmente ter alguma noção do que
sentia. Suas pernas bambearam, sem força, como se estivesse sem comer há dias e
cada célula de seu corpo parecia estar explodindo, causando uma dor lancinante
e intermitente, que a fez gritar com mais força e amargura do que quando foi
mordida por Takeru. Caiu encostada a porta e não encontrava energia em seu
corpo suficiente para ficar de pé novamente, tamanho era o estado de fraqueza
em que se encontrava. De onde estava podia ver os fundos da casa de Finna e a
janela que pulara por tantas vezes para se encontrar com Takeru; tinha que
chegar até lá, tinha que sair dali.
Arrastando-se pelo chão, Mina juntou todas as suas forças restantes para
atravessar a rua, constantemente gritando de dor, ódio e sofrimento, clamando
por alguma ajuda, pois não sabia se agüentaria chegar até a porta, do outro
lado da casa.
“Socorro... Ajudem-me!” gritava Mina enquanto rastejava pelo jardim.
Darien olhou com preocupação para Finna ao ouvir gritos do lado de fora.
“O que será que está havendo?” perguntou ele.
“Não sei...” respondeu Finna, “mas devemos ir ver. Pressinto que é algo
ruim,”
“Finna, você não deve se levantar ainda,” disse Darien, mas ela apenas
respondeu que já estava quase curada, praticamente exigindo que ele a ajudasse
a se levantar. Juntos, desceram as escadas;
Só quando chegou na porta que conseguiu chamar a atenção com seus
clamores. Saíram de dentro Ami e Serena com expressões preocupadas e confusas,
pois tinham ouvido os gritos de Mina. Assustadas com o estado de sua amiga, que
estava descabelada e com o rosto inchado e vermelho de tanto gritar e chorar, a
carregaram para dentro, e se encontravam na sala Darien e Finna, que tinham
acabado de descer.
“Oh, meu Deus!” exclamou Finna ao ver o estado de Mina e rapidamente se
apressou para chegar perto dela, que tinha sido colocada deitada no sofá.
Artemis e Lua que estavam sentados no braço desse mesmo sofá olhavam com
extrema preocupação. “Mina, minha filha, o que aconteceu?” perguntou a bruxa.
“Finna,” murmurou Mina com lágrimas escorrendo pela face,
“desculpe-me...”
Mina lembrou-se nesse momento da conversa que tivera com Finna há algum
tempo atrás.
“Finna, desculpe...” continuou Mina, a vergonha cobrindo-lhe a face, “eu
desobedeci as suas ordens... a casa... o dono da casa que podemos ver da janela
dos fundos... eu estava me encontrando com ele... e...”
Saffina endureceu a expressão calma que tinha. Já havia entendido tudo,
ela estava se encontrando com Takeru, o vampiro, e provavelmente o pior tinha
acontecido. Todos os ouros que estavam na sala olhavam com cara de que não
entendiam nada do que estava acontecendo.
“Ele mordeu você, não foi?” perguntou Finna, nervosa. Mina só conseguiu
assentir com a cabeça.
“O que aconteceu, Finna, do que vocês estão falando?” indagou Ami,
querendo compreender o que se passava. Ela detestava aquela sensação de ficar
de fora da conversa.
“Mina foi mordida por um vampiro,” sentenciou a bruxa, para a
estupefação de todos. Murmurando algumas palavras incompreensíveis, ela lançou
um raio de luz verde em Mina, que caiu desacordada. Os outros logo indagaram o
que Finna estava fazendo.
“Ela estava sentindo muita dor, portanto fiz com que Mina perdesse os
sentidos,” explicou Finna, “quanto ao resto, o que sei é que Mina, contra
minhas ordens, estava se encontrando com Takeru, um dos nossos vizinhos. Ele é
um vampiro e mordeu-a. Como e por que só saberemos quando ela acordar. Até lá
farei alguns exames para saber se ele tomou todo o sangue dela ou só parte,”
Ninguém conseguiu dizer nada, só ficaram calados, tentando absorver a
avalanche de novas e trágicas informações que acabaram de receber.
As horas se passaram sem que ninguém as contasse, uma sensação de
angústia, ansiedade e desespero pairavam no ar. Ninguém tinha coragem de
manifestar uma opinião, pronunciar uma palavra. Foi Finna quem quebrou aquela
velada lei do silêncio.
“Há ainda cerca de 50% de sangue humano ns veias de Mina,” falou com
pesar.
“E isso é bom ou ruim?” perguntou Artemis.
“Bem, é difícil dizer,” respondeu Finna, “Por uma lado é bom, pois Mina
está viva, com metade de seu sangue original. Por outro, contudo, é péssimo,
pois agora ela é uma meio-vampira.”
Essa notícia chocou a todos. De certa forma já estavam esperando por
algo assim depois do que Finna dissera, que Mina tinha sido mordida por um
vampiro. Mas ouvir com todas as letras era bem pior. Mina abriu lentamente os
olhos ainda avermelhados.
“Mina!” exclamou Serena, indo abraçar a amiga, “Minha querida, o que houve?”
Ela não soube muito o que dizer, mas percebeu que teria que contar toda
a verdade antes que alguém tomasse alguma atitude precipitada.
“Primeiramente gostaria de deixar bem claro que a culpa foi toda
minha...” começou ela.
“Como sua, Mina?! Isso é impossível!” gritou Ami.
“Acalme-se, Ami...” murmurou Mina, “Eu também já me desesperei, mas
tenho consciência que sou a única culpada de tudo isso. E juro que não queria!
Não queria que isso acontecesse! Mas de repente tudo saiu de controle...”
“Conte-nos tudo, Mina,” pediu Serena, “Queremos te ajudar,”
“Bem,” continuou ela com um longo e doloroso suspiro, “Indo direto ao
assunto, Takeru e eu tínhamos começado a namorar e nos amávamos... nos amamos
muito... Como em todo namoro, as coisas rapidamente começaram a esquentar, mas
quando tentei pela primeira vez ir um
pouco mais além com ele, Takeru me falou que não podíamos, pois ele era um
vampiro e coisas horríveis poderiam acontecer, inclusive ele poderia me morder.
Entretanto, eu não consegui aceitar isso, pois achei que o nosso amor era
grande e forte o suficiente para que ele conseguisse se controlar e não causar
nenhum mal a mim. Porém, não consegui convencê-lo a aceitar a minha opinião e,
teimosa, fiz um feitiço para que ele perdesse os seus medos. No começo foi tudo
como o esperado, mas repentinamente o olhar dele mudou e Takeru me mordeu.
Quando gritei, contudo, ele acordou daquele “transe” e eu fugi antes que ele
pudesse tomar todo o meu sangue,”
Mina tinha juntado todas as suas forças para conseguir contar o que
houvera da maneira mais clara e objetiva, mas, ao terminar, desabou em um choro
descontrolado. Serena confortou-a com um abraço e palavras ternas ao ouvido.
Quando Lita chegou, todos já haviam se recolhido. Na sala não encontrou Mina,
o que a fez ir até Ami para saber da amiga.
“Onde a Mina está? Ela saiu?” indagou com curiosidade.
Lentamente, Ami se sentou e narrou os tristes fatos que ocorreram
naquela tarde. Lita estava atônita, não conseguia expressar um pensamento.
“...e por isso,” terminou Ami, “ela foi dormir lá embaixo com a
Serena...”
“Mas, Ami...” falou Lita com um toque de pavor na voz, “E agora? Como
será? O que vai acontecer?”
“Bem, depois que Mina se acalmou, Finna contou-nos um pouco sobre
vampiros e, acredite, não é nada agradável a vidinha desses seres,” começou
ela, “mas Mina é apenas uma meio-vampira, ou seja, ela reúne em si
características humanas ainda. Finna explicou que Mina pode se expor ao sol, só
que sempre de óculos escuros, pois a retina dela se queimaria em instantes se
em contato direto com o sol. Ela também terá super-velocidade e super-força,
muito além das concepções humanas, mas ainda assim bem mais lentas e menos
poderosas que as de um vampiro completo. Sua longevidade aumentou em incontáveis
anos, ela é praticamente imortal aos nossos olhos, mas terrivelmente efêmera
aos olhos de um vampiro comum, e...”
“E o quê, Ami?” perguntou Lita, irritada com a indecisão de Ami. Ela
imaginava qual seria o próximo tópico, mas tentava não pensar nisso.
“E, é claro, terá que se alimentar de sangue humano um dia sim, um dia
não, a partir do momento em que sua transformação estiver completa,” sentenciou
Ami.
“E isso vai ser quando?” quis saber Lita.
Ami desviou o olhar para o chão, com uma expressão de pesar. Reergueu o
rosto para encarar a amiga.
“Amanhã à noite,” disse.
Lita sentiu seu coração se apertar no peito até ficar do tamanho de uma
ameixa.
A noite seguiu irrequieta, com muitos ventos e nuvens no céu, que
bailavam incessantemente. A lua estava com um brilho cinzento, mais opaco que o
normal, e assim permaneceu ate que o sol finalmente chegasse com uma manhã fria
e insossa.
Quando Darien e Finna desceram para o café da manhã, as quatro garotas
já estavam na cozinha, preparando algo para comerem. Todas estavam bem mais
quietas que o normal, mas com certeza Mina era a pior, pois só respondia com
acenos, gestos ou no máximo um monossílabo.
“Que bom que estão todas reunidas,” falou Finna ao chegar, “nós dois
temos algumas coisas para comunicar a vocês,”
Essa frase chamou a atenção, fazendo com que todas parassem seus
afazeres para prestar atenção.
“Bem,” começou Finna, “ontem, antes de tudo aquilo acontecer, eu e
Darien tivemos uma longa conversa e acabamos por tomar uma decisão,”
“Decisão?” estranhou Serena.
“Sim,” interrompeu Darien, “Vou me mudar, sair dessa casa,”
Isso com certeza pegou todas de surpresa, fazendo olhares de estupefação
brotassem em todas as faces como uma florada na primavera.
“Mas como?!” exclamou Lita, “Você não pode nos abandonar em um momento
desses!”
“Acalme-se, Lita,” intercedeu Finna, “Darien não vai abandonar nada nem
ninguém. Apenas acha que o clima ficou muito pesado nessa casa depois do
incidente com Rey e que não há mais espaço para ele. Conversando, resolvemos
que ele vai mudar para a casa do meu amigo Theosenian, um feiticeiro muito
experiente, e continuar lá seu treinamento,”
Ninguém sabia o que dizer, se ficavam felizes ou tristes, pois um
conflito muito grande se instaurava na mente de cada uma. Não queriam que
Darien se fosse, mas por outro lado isso facilitaria muito a vida de Serena e a
de Mina também, pois todos sabiam que ela não engolia o que ele fizera por
nada. Foi Serena que resolveu falar primeiro.
“Bom, como vocês não estão perguntando a nossa opinião, mas nos
comunicando, que assim seja,” falou decidida, “Mas antes devemos fazer uma
coisa,”
Olhares curiosos se voltaram para ela.
“O teste de magia negra,” sentenciou ela com a impetuosidade de
uma rainha.
Finna tinha tubos de ensaio em uma gaveta da cozinha, portanto colheu o
sangue de todos ali mesmo, etiquetando cada frasco. Finna decidiu que levaria
os tubos para o porão, onde estava o Revelador, e lá faria os testes, depois
trazendo o resultado. Era melhor que esperassem na cozinha pois se acidentes
como a explosão que ocorrera quando Finna testara Serena pela primeira vez
acontecessem de novo, eles estariam seguros.
Cada segundo com a ausência de Finna parecera um século, e até Mina
consegui se esquecer momentaneamente de seu próprio caos particular,
preocupando-se apenas com os resultados. Aquela era a hora da verdade pela qual
esperaram desde o primeiro dia em Eros. Podia significar uma nova esperança ou
o fim de tudo e por isso todos caminhavam de um lado para o outro, evitando se
olharem diretamente para disfarçar a tensão que sentiam. Finna voltou com um
cavalete que continha os cinco tubos de ensaio, mas eles estavam cobertos por
um pano de veludo.
Assim que Finna retirou o tecido, todos chegaram mais perto dela e foram
surpreendidos pelo resultado que ali se mostrava ao vivo e a cores. Todos os
frascos mantinham a cor natural do sangue.
Exceto um.
“Vai, Finna, diga-nos quem é o único que possui o dom para a magia
negra,” exasperou-se Ami.
Lentamente a feiticeira levou a mão ao frasco que brilhava num tom
arroxeado e girou-o, mostrando a etiqueta para aqueles olhos ansiosos. Só havia
um kanji desenhado:

Fim
do Capítulo 3!
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