Sailor Moon VI

6 anos depois

 

Capítulo 4 – Solving

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  “Me larga! Tire suas mãos de mim!!!" Rey berrava totalmente descontrolada enquanto Seiya agarrava seus braços e a chacoalhava de um lado pro outro.

  “Deixe de frescura, Rey!" falou ele, "No começo bem que eu acreditei em você, achei que você estava frágil, que algo ruim tinha acontecido... Mas era tudo fingimento! Ou por quanto tempo você achou que ia me enganar com essa sua carinha de coitada?"

  Com um movimento brusco, Rey conseguiu se soltar de Seiya, que fumegava de raiva, certo de que Rey só não estava lhe falando onde Serena se encontrava para atrasar o encontro dos dois. Porque ela fazia isso, era um mistério, mas essa enrolação tinha de acabar.

  “Eu não estou me fazendo de coitada!" retrucou Rey, "Realmente coisas horríveis aconteceram e isso me deixou abalada..."

  “Está certo, pode até ser, mas por que não me conta o que houve? Por que não fala logo onde Serena está?" perguntou Seiya ainda muito nervoso.

  Rey virou-se de costas, irritada com esse bombardeio de perguntas e cobranças. No fundo ela só estava com medo de ficar sozinha de novo. E pior, pois dessa vez não teria nem Nicholas a seu lado.

  “Elas estão em outro mundo, Seiya,” começou Rey, “e eu também estava lá, mas tive que ir embora, em decorrência de meus próprios atos.”

  Ele olhou para Rey com um olhar perdido, não entendia direito o que ela estava dizendo. E que outro mundo seria esse?

  “O fato é que você nem sabe de nada,” continuou ela, “mas eu sempre fui apaixonada pelo Darien, nós chegamos até a namorar há muitos anos atrás, mas assim que a verdade sobre ele e Serena veio à tona eu saí de cena, sem alternativa. Contudo, nunca pude me desvencilhar desse amor insano, que corrói a minha alma e queima meu coração.”

   “Aonde você está querendo chegar?” perguntou ele, ainda um pouco perdido.

  “Fique quieto e me deixe terminar,” pediu ela delicadamente, pois agora sentia como se estivesse tirando um grande fardo de suas costas, “Estávamos nesse outro mundo, Eros, que é povoado por todos aqueles que têm dons mágicos, especiais, porque a filha de Serena, Hikari, foi seqüestrada por um poderoso homem que guarda ressentimentos desde o Milênio de Prata. Aprendíamos magia para poder lutar com ele de igual para igual, enquanto recuperávamos nossas forças originais,”

  “Forças originais?” estranhou Seiya.

  “Sim,” respondeu Rey, “algum tempo após a batalha com Galáxia, nós abdicamos de nossos poderes como senshi,”

  “O quê?!” indignou-se Seiya, pois ele não conseguia conceber uma atitude como aquela. As Sailor Senshi nunca, em hipótese alguma, poderiam cometer tal pecado.

  “Não se espante com isso, pois já é passado,” interrompeu Rey, não deixando Seiya começar uma discussão sobre aquilo, “Enfim, quando conseguimos recuperar nossos poderes para combater Titã, que seqüestrou a filha de Serena e Darien, eles voltaram como no início de nossas vidas como senshi, o que significa que para enfrentarmos um inimigo tão forte teríamos que fazê-los evoluir em pouco tempo. Fomos morar na casa de nossa instrutora de magia, a feiticeira Saffina e creio que foi essa proximidade tão grande e constante com meu grande amor que me fez perder a razão de vez...”

  “Rey, o que aconteceu?” perguntou Seiya, mas agora ele não tinha um pingo de raiva na voz, pelo contrário, pois sentia que Rey estava com grandes problemas e sofria para contá-los para ele.

  “Seiya, eu não pude evitar... está no meu sangue... eu sou assim, impulsiva e inconseqüente, o que é um defeito, mas não posso, não consigo mudar meu jeito de ser,” falou Rey, e a segurança que havia em sua voz há pouco agora tinha desaparecido por completo. “Eu o desejava toda vez que eu o via, só que Darien simplesmente só consegue enxergar a Serena em sua frente! Nada do que eu fizesse poderia mudar isso e então a única chance que eu tinha era... era...”

  Rey não conseguia conter suas lágrimas. Por um lado ela não se arrependia do que tinha feito, mas por outro sentia toda a desgraça e vergonha que seus atos traziam para sua vida. Nunca mais poderia contar com suas amigas e magoara muito Serena, coisa que a deixava extremamente triste. Cada sofrimento Serena sentia era como se fosse seu e agora desta vez ela própria parecia apunhalar a si mesma. Mesmo assim, algo dentro de seu peito, nas camadas mais profundas de seu ser, não a deixava se arrepender do que fizera, essa sua paixão sem limites funcionava como um bálsamo em seus ferimentos.

  “Minha única chance foi me transformar em Serena, ser ela por ao menos uma noite!” gritou Rey em desespero. Seiya estava quase entendendo o que tinha acontecido, mas tudo era tão sórdido que ele não conseguia acreditar.

  “Seiya, eu não sei como pude, mas ao mesmo tempo foram os momentos mais lindos de toda a minha vida...” choramingava Rey, ainda com a voz alterada, estridente, “Só me disfarçando de Serena que eu pude enganar Darien e fazer com que ele me amasse pelo menos uma vez. Sabia que em sua mente ele estava pensando que eu era Serena, mas era no meu corpo que ele tocava... e isso me bastava. Só que Serena nos pegou no flagra e quase me matou, só não teve sucesso porque o Cristal de Prata não deixou que ela sujasse suas mãos com o meu sangue, com o sangue de uma Sailor Senshi...”

  “Mas...” começou Seiya com o horror estampado em sua face, “como que o Darien não percebeu essa farsa? Um homem conhece o corpo, o jeito, os carinhos de sua própria mulher. Você não poderia enganá-lo a esse ponto.”

  “Concordo com isso,” respondeu Rey, agora um pouco mais calma, “mas Serena e Darien estavam separados. Claro que eles ainda se amam profundamente, mas Serena estava passando por uma grande crise com o seqüestro de sua filha. Como Hikari estava em cárcere, e além disso sendo preparada para se tornar rainha ao lado de Titã, ela não achava justo que sua própria mãe tivesse momentos felizes enquanto sua filha sofria. Por causa disso, a relação entre ela e Darien ficou insuportável, ela não queria que ele a tocasse, que ele a beijasse, não queria sentir felicidade. Para tanto, decidiu se separar, pelo menos provisoriamente, e foi dormir comigo, enquanto Darien dormia no quarto que era dos dois.”

  Rey deu uma pequena pausa e sentou-se numa cadeira enxugando suas próprias lágrimas, que ainda insistiam em escorrer pela sua face.

  “Por causa dessa separação, Darien ficou solitário e carente, o que o deixou propenso a acreditar e a desejar intensamente a ‘volta’ de sua amada esposa, mas que no caso era eu...”

  “Entendo...” murmurou Seiya, ainda sem saber como reagir àquela revelação que Rey fizera. Com certeza tinha sido um ato desprezível, mas ele tinha o direito de julgá-la? Sua consciência decidiu que não, afinal ela própria já estava sofrendo as punições por suas atitudes, não precisava de mais um falando-lhe o que era certo e o que não era.

  “Rey, eu lamento por você e por tudo que houve, mas ainda assim quero ir até Serena,” disse ele, um tanto animado com a idéia de Serena e Darien separados, “Ainda mais que antes, pois também quero ajudá-la com sua filha. Sabe como chegar até lá?”

   “Bom, da primeira vez foi Ami que nos levou, clonando o portal que titã tinha aberto,” falou Rey, “isso eu certamente não saberia fazer, mas vi quando Finna, a feiticeira que nos ensinava magia, abriu o portal para que eu voltasse à Terra e as palavra que ela disse ainda ecoam cristalinas em minha mente. Está certo de que quer ir?”

  “Mais certo que nunca,” sentenciou Seiya com firmeza na voz.

  “Pois bem,” murmurou Rey, “Que seja feita a sua vontade e boa sorte,”

  Ele agradeceu com o olhar e Rey levantou-se para iniciar a magia que levaria Seiya para Eros.

 

  Plutão andava entre as brumas do portal do tempo, um tanto ansiosa. Erguendo o Time Staff, fez com que a neblina se dissipasse antes de abrir a Porta do Tempo. Em alguns instantes uma jovem surgiu envolta em luz. Conforme esta foi se apagando, a silhueta delgada da garota foi se delineando, e ela tinha longos cabelos presos em dois rabos, um de cada lado da cabeça. Alguns fios estavam trançados e ela usava maquiagem pesada nos olhos, puxando para os tons de azul. Seu vestido era também nessa cor, como os abismos mais profundos do mar.

  “Vim assim que pude,” disse ela com nervosismo na voz, “Como está Hotaru?”

  “Nada bem, nada bem, princesa,” falou Plutão, fechando o portão com um movimento do Time Staff, “Ela está numa espécie de coma,”

  “E você ainda acha que é mesmo coisa daquele homem, o tal de Titã?” perguntou Rini.

  “Certamente, mas não consegui descobrir mais nada sobre ele, muito menos sobre Serena e as outras,” respondeu Plutão.

  “Isso já não me interessa,” retrucou Rini com agressividade.

  “Não seja assim, princesa,” ralhou Plutão, “Talvez elas possam ajudar, além do que esse sumiço prolongado me deixa muito preocupada,”

  “Não se preocupe com pouco, Plu,” disse Rini ainda mal-humorada, “Provavelmente elas não ajudariam em nada... Nunca ajudaram em nada, principalmente você-sabe-quem,”

  Sailor Plutão tinha um olhar de desgosto. O canto de sua boca se contorcia como sinal de sua chateação com os rumos da conversa.

  “Não acha que está mais do que na hora de parar com essa implicância?” perguntou Plutão, “Uma verdadeira rainha sabe entender, aceitar as diversas opiniões, é ponderada e magnânima. Acho que você já deveria saber dessas características à essa altura,”

  “Sim, eu sei,” falou Rini, “Mas certamente isso não é o mais importante. Uma verdadeira rainha deve proteger seu povo e conduzi-los pelo caminho do progresso,”

  “Você certamente ainda tem muito a aprender antes de ser coroada,” murmurou Plutão, “Um bom coração é dezenas de vezes mais importante que uma mente astuta, princesa, e acho que já está na hora de você parar com esses atritos com as garotas e, principalmente, com a Serena,”

  “Ha!” riu Rini com desprezo, “Veja se me darei a esse trabalho. Nunca poderei aceitar o fato delas terem desistido de sua missão como Sailor Senshi, Plutão! Isso não se faz, não se brinca com as grandes dádivas que recebemos, não podemos negar quem somos!”

  “Elas mesmas já perceberam o erro que cometeram, princesa, eu já disse, não?” insistiu Plutão.

  “Grande coisa!” exclamou Rini, “Isso não muda em nada o que eu sinto por elas... E a pior de todas é Serena... e Darien, claro, não pense que eu o perdôo pelo que fizeram. Quem sabe em algum futuro distante poderia perdoá-los por terem abdicado de seus poderes, mas nunca pelo que fizeram depois... Não podiam mandar no destino de sua própria filha!”

  “Mas, Rini, pode ser que eles não soubessem exatamente o que estavam fazendo...” mentiu Plutão, tentando acalmar a raiva de Rini. Entretanto, isso só atiçou mais a ira da jovem princesa.

  “Faz-me rir!” falou ela, colocando as mãos na cintura, “Você sabe que isso é uma mentira deslavada, Plu! Eu mesma conversei com Serena, eu mesma, assim que percebi o quão sérias as coisas estavam ficando entre ela e Darien. Eu fiz questão de passar para ela o que dizem os manuscritos sagrados, os que estipulam as regras sobre as herdeiras do Reino Lunar. Afinal, como você bem sabe, cada rainha só pode ter uma única filha, assim mantendo a unidade e a paz no reino, afastando qualquer possibilidade de disputa interna. E o que ela fez? Ignorou tudo o que eu disse!”

  “Princesa, certas coisas não podem ser controladas... elas acontecem...” disse Plutão ainda tentando amansar a fera.

  “Qualquer um sabe que isso é conversa fiada! Até uma tonta como a Serena sabia o que estava fazendo. E eles fizeram de propósito!!! Mas quer saber, Plutão? Eu estou pouco me importando com isso, e não quero continuar essa conversa. Se tiver outras notícias sobre a Hotaru me chame, porque agora tenho que ir para minha aula de Ciências Políticas,”

  Dito isso, ela simplesmente voltou para o século 30 pela Porta do Tempo, deixando para trás Plutão, muito preocupada com o que aconteceria em seguida.

 

  Serena quase desmaiou quando viu que era a única que poderia desenvolver os poderes da magia negra. Era uma faca de dois gumes, porque ao mesmo tempo que estava feliz por poder ajudar sua filha com suas próprias mãos, sentia-se pressionada por isso, já que se falhasse o pior poderia acontecer.

  “Bem, bem,” começou Finna, “Ao menos um de vocês poderá ter poderes tão grandiosos como os de Titã. Fique claro, Serena, que isso significa apenas que você tem o dom para a magia negra, mas para aprendê-la precisará de muito esforço e dedicação. Quanto aos outros, não pensem que o treinamento acabou, pois para lutar contra Titã terão que se transformar em mestres na magia branca, alcançar o último patamar de desenvolvimento,”

  Ninguém respondeu para Finna, estavam ainda chocados com o resultado, pois, no fundo, todos queriam poder aprender magia negra, tanto para ajudar Hikari quanto para massagear seus próprios egos. A sensação de terem perdido uma batalha alastrou-se pelo ar.

  “Bom, então eu já vou indo,” disse Darien tomando seu rumo em direção à porta.

  Finna acenou com a cabeça para ele e Serena, ao ver que uma lágrima escorria pela sua face, virou de costas para seu amado que partia.

  “Bom,” tornou Finna, “Quanto aos seus novos horários, decidi que as três terão aulas pela manhã e Serena depois do almoço em diante. Assim, sem misturar as estações, você aprenderão muito melhor.” Ela virou-se na direção de Mina, que, pelos últimos acontecimentos, tinha se esquecido de suas mazelas pessoais. “Contudo, hoje não haverá aulas porque irei sair e conversar com alguns amigos para saber se podemos fazer algo por Mina ou se ela já é um caso perdido,”

  Falou e foi buscar sua bolsa para sair, deixando Mina com um sentimento de culpa muito grande. Afinal ela tinha desobedecido as ordens de Finna e se metido num enorme problema. Tentou segurar seu pranto o máximo possível, mas, quando viu que não conseguiria, saiu correndo para o banheiro, onde se trancou. As outras trocaram olhares preocupados, mas foi Ami que seguiu a amiga.

 

  “Mina, abra, sou eu, a Ami,” ela pedia enquanto batia delicadamente na porta.

  “Saia daqui! Me deixe!” gritava a outra do lado de dentro, “Quero ficar sozinha!”

  Ami insistiu por mais alguns minutos, e então usou um feitiço para abrir a porta, o que causou um acesso de raiva em Mina.

  “Como você ousa entrar aqui assim?” indagou Mina, “Saia já! Me deixe em paz!”

  A loira esta sentada no chão, encostada no gabinete embaixo da pia e tinha a cabeça entre os joelhos. Entre seus gritos de revolta podia-se ouvir claramente soluços desesperados e o gemido que acompanhavam as lágrimas incessantes. Ami fechou a porta e sentou na frente da amiga.

  “Mina, acalme-se,” pediu ela, “eu quero ajudar você, vamos conversar,”

  Mina parou de gritar, mas não respondeu nem ao menos ergueu a cabeça. Ami interpretou isso como um bom sinal.

  “Sabe, Mina, queria dizer que você pode contar comigo para tudo, e com as outras também,” começou Ami. “Ninguém aqui vai te julgar ou te culpar, porque todas nós já erramos muito nas nossas vidas. Erramos porque sempre estamos fugindo do sofrimento e da solidão,”

  Mina ergueu levemente o rosto, seus olhos brilhavam com aquela camada de lágrimas que os recobria e que fazia Mina enxergar tudo embaçado.

  “Nunca enfrentamos de frente os problemas, sempre tentamos um jeito de nos esconder deles ou de fingir que não existem,” continuou Ami, “E é por causa disso que sempre estamos errando,”

  “Acha que nós fugimos dos problemas?” perguntou Mina com insegurança, “Como assim, Ami? Nós sempre estamos lutando contra eles...”

  “Ah, não é bem assim,” disse Ami com ternura, “Veja, quando desistimos dos nossos poderes, coisa que hoje reconhecemos como um erro, o que estávamos fazendo? Fugindo. Em vez de tentarmos viver o melhor possível, ter nossas carreiras e famílias junto com o fato de sermos escolhidas pelo destino para assegurar a paz na Terra, preferimos fugir de nossas bênçãos, de nossos poderes. Depois disso, fugimos umas das outras, pois conviver depois do que fizemos seria doloroso e só nos faria lembrar de como era bom ser uma Sailor Senshi. Mais uma vez fugimos em vez de enfrentar as dificuldades.”

  “É você até que tem alguma razão...” murmurou Mina.

  “Alguma?” riu Ami, “Mina os anos que passamos separadas foi uma constante fuga do sofrimento para todas nós. Ou por que você acha que a Serena se tornou escritora? Escrever também é uma forma de fuga, pois você pode entrar em um outro mundo, viver outras vidas, ser outra pessoa e ainda pode escolher seu destino. A mesma coisa com Lita, se jogando nos braços de qualquer um e assim tentando esquecer a realidade. Mesmo Rey, e eu sei que você não gosta que eu fale nela, mas mesmo ela se entregou numa relação sem futuro com Nicholas para fugir de seus verdadeiros sentimentos.”

  “Mas eu e você tivemos sucesso em nossos planos,” disse Mina, “você já estava acabando a faculdade e eu tinha um bela carreira,”

  “Sucesso? Não, bem longe disso,” contrariou Ami, “o seu sucesso também era uma fuga, pois você se imergia num mundo de glamour onde todos estão sempre encenando. Ser um ídolo e ter fama faz com que você crie uma outra personalidade, uma fachada que sempre diz: ‘Olhem como sou feliz! Olhem como sou perfeita!’. Foi escondendo-se atrás dessa máscara que você tentava esquecer quem realmente era e o que sentia. E não pense que para mim foi diferente. Eu não ia bem na faculdade, estava sempre em depressão, sempre tentando me esconder dos problemas, me esconder de mim mesma... Eu até cheguei a...”

  “A o quê? Fale, Ami!” insistiu Mina. Ela já tinha parado de chorar e se interessava pelo rumo da conversa.

  “Eu cheguei a experimentar diversas drogas. Quer maior fuga que essa?” falou Ami um pouco nervosa.

  Mina ficou chocada com o que tinha ouvido, pois se havia uma pessoa no mundo por quem ela poria a mão no fogo era Ami. Era inimaginável que ela já tivesse experimentado drogas.

  “Mas esse não é o ponto principal,” disse Ami, retomando a conversa, “O que eu quero dizer com isso...”

  “Você quer dizer que como todo mundo já errou – e muito – ninguém vai me crucificar por esse meu novo erro, de ter feito amor com um vampiro e agora ser uma meio-vampira,” falou Mina, um tanto chateada com toda aquela situação.

  “Não!” exclamou Ami, para a surpresa de Mina, “Não é nada disso, Mina, me deixe falar! O que eu estou querendo dizer é que, agora que isso tudo aconteceu, você deve tomar cuidado para não errar de novo Mina!”

  “Não errar de novo? O que você está dizendo?” indagou ela, sem entender o que Ami falava.

  “Você se arrependeu de ter feito o que fez? Estou certa que não,” falou Ami com firmeza, “Mina, é lógico que você confiava no amor, e achou que nada disso ia acontecer, mas no fundo de sua mente, algo a impeliu para esse ato. Mesmo inconscientemente, você sabia dessa possibilidade e a aceitou,”

  “Você está falando que eu realmente queria ser uma vampira?” perguntou Mina, abismada.

  “Não que você quisesse, mas, se isso acontecesse, você estaria disposta a pagar esse preço para viver plenamente seu amor,” sentenciou Ami.

  Mina ficou pensativa por alguns minutos e as duas nada falaram, raciocinando sobre o que Ami acabara de dizer.

  “Sim, pode até ser, acho que você pode ter razão...” murmurou Mina, “Mas e daí?”

  “E daí que eu não quero que você cometa mais um erro Mina!” exclamou Ami, “Você já pensou em ir conversar com o Takeru?”

  “Não... não sei se conseguiria...” disse Mina com um quê de tristeza na voz.

  “E sobre isso que eu estou falando!” continuou Ami, “Não deve deixar que nós, ou Finna, ou você mesma atrapalhem sua felicidade. Ao deve fugir de seu amor, Mina, pois você abdicou de tudo por ele, você desistiu de ser humana por ele. Takeru é certamente o amor de sua vida, de sua eternidade agora, e não deve deixar o medo de enfrentar os problemas estragar isso! Não fuja!”

  Mina olhou ternamente para Ami, entendendo o que ela dizia. Estava assustada com as mudanças que iam acontecer em sua vida, mas nada deveria fazer ela se esconder de sua verdadeira paixão. Ami era uma pessoa surpreendente, e Mina pensou que não a conhecia tão bem como imaginava, pois não imaginaria nunca escutar esse tipo de conselho dela.

  “Obrigada, Ami,”falou Mina, “Você é maravilhosa, me fez enxergar a verdade sobre o que aconteceu... Mas sabe de uma coisa? Até agora eu não entendi o que aconteceu. Estava indo tudo tão bem, e de repente Takeru ficou estranho, virou outra pessoa...”

  “Acho que só conversando com ele você poderá descobrir o que houve,” disse Ami.

  “É o que vou fazer,” respondeu Mina, levantando-se. Antes de ir, deu um grande abraço em sua amiga, agradecendo-lhe por tudo o que tinha dito.

 

  Mina estava terrivelmente trêmula quando parou na frente da porta de Takeru. Queria muito falar com ele, mas tinha medo do que sentiria ao olhar para ele novamente. No fundo de seu peito ainda sentia arder uma paixão muito grande, mas temia que ao vê-lo sua mente só conseguisse se lembrar da dor que ela sentiu quando foi mordida por aquele quem tanto amava.

  Tentou abrir a porta, com alguma esperança que Takeru tivesse deixado-a destrancada, esperando por sua volta. Contudo, isso não ocorreu e Mina teve que usar o feitiço para entrar na casa dele, que parecia mais escura que nunca. Por outro lado, ela não sentiu muita dificuldade em se movimentar, talvez porque conhecesse bem o caminho ou porque algo estava diferente em seus sentidos. Parou ao encontrar a porta do quarto de Takeru fechada e bateu com força para ter certeza que ele iria acordar se estivesse dormindo.

  Ninguém respondeu e Mina bateu repetidas vezes na porta, até decidir entrar de uma vez, mesmo que ele estivesse a evitando. Agora que tinha chegado até ali, nada a faria retroceder.

  Foi abrindo lentamente a porta, mas logo deu de cara com Takeru, que estava sentado na ponta da cama. Ao vê-lo, entrou no quarto, mas algo a fez deixar a porta bem aberta em vez de fechá-la às suas costas.

  “O que quer aqui, Mina? Não está satisfeita agora?”

  “Não, não estou. Só poderei descansar novamente depois que nós conversarmos,” respondeu ela secamente.

  “Errado,” falou Takeru, com um sorriso amarelado, “você nunca mais vai poder descansar, Mina. Agora você pertence à raça dos fadados ao eterno desespero.”

  Essas palavras surtiram efeito em Mina, pois por pior que fossem, eram apenas a mais pura verdade. Ela ainda não entendia completamente o que Takeru dizia, mas logo iria compreender.

  “Takeru,” continuou Mina, espantando aqueles pensamentos de sua mente, “não vai conseguir me assustar mais do que eu já estou, então nem tente. O que vim fazer aqui é muito mais importante do que discutir o que aconteceu, vim discutir o que vai acontecer.”

  “Como assim?” perguntou ele.

  “Takeru, eu quero que você saiba que eu não te odeio nem guardo nenhum ressentimento pelo que houve. Afinal, foi tudo minha culpa...”

  “Continuo não entendendo,” murmurou Takeru, “Está certo que você insistiu muito, mas se eu tivesse me contido, nada disso estaria acontecendo. A culpa é minha.”

  “Não é,” contradisse Mina, “fui eu que te induzi a fazer aquilo. O chá que eu servi para você antes de tudo começar na verdade era uma poção para fazer os seus medos irem embora. Assim, você parou de se preocupar com o que poderia acontecer e deixou seus sentimentos o guiarem.”

  Takeru ficou estupefato com o que Mina acabara de dizer, não sabia se se sentia aliviado por não ter sido culpado do que ocorrera, se se sentia um idiota por ter caído num truque ou se esgoelava aquela louca imediatamente.

  “Você é uma desmiolada!” berrou Takeru, “Como pode ter uma idéia tão estúpida como essa! Agora olhe o que aconteceu!”

  “Eu sei que fui imprudente...” tentou ela se justificar, “mas eu confiava e ainda confio no poder do amor. Takeru, eu sei que nada de mal ia acontecer, sei que o nosso amor não deixaria que você me mordesse. Alguma coisa aconteceu para que tudo fosse por água abaixo. Algo interferiu e fez que você perdesse o controle... Eu só queria saber o que aconteceu... De repente você enlouqueceu... eu não entendo...”

  Takeru olhou com ternura para Mina, imaginando se ela era tão ingênua assim. Afinal, não era possível que não soubesse.

  “Mina, não se faça de boba,” disse Takeru com desdém, “Você sabe bem o que desencadeou toda aquela confusão. Eu me lembro bem que estava me sentindo muito livre e que acreditava que você estava certa, que o meu amor faria com que eu me controlasse. E eu estava mesmo muito seguro de mim, não sentia a menor vontade de te ferir, em nenhum momento... Mas você praticamente provocou toda aquela reação e não é possível que você não saiba o que aconteceu.”

 “Agora sou eu que não estou entendendo,” falou Mina totalmente perdida, pois não sabia a que ele estava se referindo. “Como eu posso ter causado tudo aquilo? Eu te dei o chá, mas você mesmo falou que estava se controlando. Depois disso eu não fiz mais nada, juro...”

  Takeru olhou no fundo dos olhos brilhantes de Mina, quase que enxergando sua alma. De repente aquela mulher que se mostrava tão segura, ardilosa, capaz de enganar a qualquer um e de seduzir a quem desejasse pareceu uma menininha inocente e sua pureza se refletiu em sua íris azulada.

  “Mina, não é possível que você não saiba,” gracejou ele, “afinal foi o seu sangue que desencadeou aquela reação em mim. Ou achou que poderia me enganar?”

  “O quê? Do que você está falando, Takeru? Que sangue?” indagou ela, mais confusa que nunca.

  “Ah, Mina, pare com isso. Você não é tão desinformada a esse ponto. Está cansada de saber que algumas mulheres sangram um pouco quando perdem a virgindade...”

  Tudo então ficou claro para Mina, e ela ficou estática no lugar, muda. Era tão estranho ouvir isso. Desde que começara na vida artística (e que se separara de suas amigas) ela começara a mentir que não era mais virgem. Fazia isso para reforçar sua imagem de “mulher fatal” e para intimamente se sentir mais segura. Achava que poderia continuar com esse segredo só para si, que ninguém nunca ia ficar sabendo, nem mesmo Takeru. Tinha se esquecido completamente que poderia ocorrer um pequeno sangramento. Agora ela entendia o que tinha acontecido, foi ao ver aquele sangue que o instinto vampírico que dormia dentro de Takeru despertara.

  Mina sentou-se na cama de Takeru, pois sentira uma pequena tontura. Como tinha sido tão ingênua? Por um momento se sentiu a perfeita idiota e corou, rindo da sua própria burrice e da sua própria desgraça.

  “Então está certo,” começou Mina, se recompondo, “Fique sabendo, como você já deve ter percebido, que eu não sou uma qualquer, muito pelo contrário. Comigo é assim, ajoelhou, tem que rezar, você não vai fugir das suas responsabilidades.”

  “Hã? Do que você está falando?” perguntou Takeru, que era quem estava confuso agora.

  “Você mesmo acabou de dizer,” continuou Mina, “você foi o primeiro homem de toda a minha vida e agora vai ter que me assumir.”

  Ele olhou para Mina com incredulidade.

  “Eu o amo mais do que a mim mesma, Takeru,” disse ela com docilidade, “Eu quero que você seja o meu  primeiro e último homem para toda a eternidade. E sem força de expressão.”

  “Você é inacreditável, Mina,” falou ele com um sorriso radiante e beijou-a longamente.

 

  Lita, que estava lendo um livro sobre magia na varanda da casa de Finna, entrou chamando por Ami.

  “O que foi, Lita?” respondeu Ami, parando de conversar com Serena sobre o fato dela ser a única a poder aprender magia negra.

  “Um príncipe encantado...” murmurou Lita, “O seu príncipe encantado está aí fora, naquele carro que tira o fôlego de qualquer uma...”

  Ami riu, lembrando-se que tinha faltado ao encontro com Takeru por causa de toda aquela confusão com Mina.

  “Pode estar certa que o Yan tira o meu fôlego muito mais do que o carro que ele tem,” brincou Ami, enquanto saía animadamente pela porta. Serena e Lita riram do jeito apaixonado de Ami.

  “Como é bom estar apaixonada,” pensou Serena em voz alta.

  “Então por que você não deixa o amor prevalecer sobre um orgulho ferido?” emendou Lita, pegando a amiga de surpresa. Serena ficou sem palavras por alguns instantes.

  “Lita, não comece...” murmurou Serena.

  “Você não acha que está na hora de parar de se esconder dos seus sentimentos? O orgulho é um pecado capita,” retrucou ela.

  “E você está cansada de saber que não é por orgulho que eu me separei do Darien...” falou Serena.

  “Não? Faz-me rir,” disse Lita, “Você deixou ele sair por aquela porta sem fazer nada e diz que não foi por orgulho ferido? Até você querer dar um tempo por causa da Hikari, era uma besteira, mas entendível, agora deixar ele ir embora? Está claro que foi por causa do que aconteceu com a Rey,”

  Uma fagulha de ódio iluminou o olhar plácido de Serena, transfigurando as feições delicadas dela em traços marcados pela mágoa.

  “E você acha pouco?” perguntou Serena.

  “Não,” respondeu Lita, “Mas você acha justo acabar com sua vida por causa de uma armação barata como a que ela aprontou?”

  “Você sabe que não é só isso...” falou Serena.

  “E o que mais pode ser?” indagou Lita.

  “Não é estranho o Darien ter me confundido com a Rey?” começou Serena, “Por mais que ela usasse o meu penteado, o meu perfume... Ele me conhece muito além das aparências. E num momento de tanta intimidade como... como aquele, não é estranho ele ter simplesmente ‘sido enganado’?”

  Lita pensou um pouco antes de responder, mesmo porque essas indagações já tinham se passado por sua cabeça. De alguma forma Serena tinha razão em querer distância daquele homem.

  “Já que você quer ser realista, vamos ser,” falou ela, “Para mim é óbvio que no fundo ele sabia que aquela não era você. E mais, ele sabia que era Rey, pois daqui ela era a única que poderia querer estar com ele além de você. Entretanto, ele deixou que essas certezas ficassem mergulhadas em seu subconsciente e deixo-se enganar, pois estava carente, precisava de carinho, de amor...”

  “Se é para ser realista, vamos ser,” retrucou Serena, “o que ele queria mesmo era sexo,”

  “Tá, pode ser, mas você sabe que foi um engano, um grande engano da parte do Darien. Ele te ama, Serena, e uma transa não significa nada para ele se não for com você. Se você não tivesse flagrado os dois, ele ia acordar de manhã e se sentir vazio, sujo, um canalha da pior espécie,”

  “Merecidamente,” sentenciou Serena com um olhar gélido.

  “Mas não acha que está na hora de vocês dois superarem isso? As pessoas erram...” insistiu Lita.

  “Queria ver se fosse com você,” falou Serena, “Ou melhor, queria ver se fosse com ele, se eu caísse em tentação e fizesse amor com um outro... Com Seiya, por exemplo. Lembra dele? Se eu quisesse, podia ter transado com ele quando ele estava aqui na Terra. Tenho certeza que ele estava morrendo de vontade,”

  “Certamente,” disse Seiya, que tinha acabado de aparecer na sala, graças ao portal aberto por Rey, a tempo de ouvir as palavras de Serena.

  As duas olharam bestificadas para ele, parado na frente de seus olhos. Era inacreditável, se alguém contasse... Mas não, ele estava bem ali, em carne e osso.

  “Fico feliz por ser lembrado depois de tantos anos,” continuou ele, com seu costumas jeito sarcástico, “Ainda mais feliz por ouvir que continuo povoando suas fantasias sexuais...”

 

  Ami desculpou-se com Yan por sua falta, mas foi reticente quanto ao que se referia ao por quê de sua ausência. Ele insistiu, mas Ami desvencilhou-se de suas investidas sem revelar nada sobre Mina.

  “Está certo, por ora eu desisto,” falou ele, “mas ainda vou querer saber isso direitinho. Fiquei tão preocupado ontem com você, achei que tinha sido pega por alguém da LGA.

  “Mas e você?” Ami desviou o assunto, “Encontrou um esconderijo?”

  “Sim,” respondeu Yan, estendendo um mapinha para Ami, “É uma pequena cabana ao norte da cidade. Não muito confortável, mas seguro,”

  “E qual o próximo passo?” indagou Ami.

  “Não sei ao certo,” murmurou Yan, “Gostaria de falar com meu pai a sós, convencê-lo a nos deixar em paz. Se ele não fizer alguma coisa, vão nos cassar até o fim dos nossos dias,”

  “E como pretende fazer isso?”

  “Tenho um amigo de confiança, que tentará estabelecer uma ligação não grampeada entre eu e ele. Até lá, temos que tentar nos manter vivos,” falou ele com pouca esperança na voz.

  “Fique certo que conseguiremos, Yan,” falou Ami, “Eles não vão nos pegar assim tão fácil,”

  “Tenho medo por você...” disse Yan.

  “Não tenha, pois eu sei muito bem como lidar com gente dessa laia. Agora vá, pois não é seguro você ficar muito tempo aqui na frente da minha casa. Se eu puder, irei te ver hoje a noite, só não posso dar certeza.”

  Ami já ia sair do carro quando Yan a segurou pelo braço.

  “Acha que vai indo embora assim? Ainda não se desculpo o suficiente por ter me dado o bolo ontem à noite...” murmurou ele começando a beijá-la com paixão.

 

  “Não entenda mal tudo o que eu disse, viu! Você pegou a conversa pela metade e não sabe o que está dizendo...” falou Serena totalmente embaraçada e nervosa.

  “O que está fazendo aqui, afinal?” perguntou Lita, “Como chegou aqui?”

  “Calma, garotas, não se desesperem...” falou Seiya, “Eu já cheguei na Terra há alguns dias, mas só agora consegui descobrir o paradeiro de vocês... Como cheguei aqui é uma outra história, e não há necessidade de contá-la a vocês.”

  “E o que veio fazer aqui na Terra?” indagou Serena.

  “Ora, bombom, qual a única coisa de interessante que há nesse planeta? Você, é claro...”

  Lita e Serena se entreolharam, sem saber o que falar. Estavam completamente sem palavras.

  “Mas falando sério,” continuou Seiya, “o que houve é que reestabelecida a ordem e a paz de nosso planeta, a princesa Kakyuu me liberou para fazer uma viagem até a Terra. E quando cheguei aqui e não encontrei ninguém, fiquei preocupado e demorou um tempo até que eu conseguisse me informar. Contudo, agora eu já sei de tudo e estou aqui para ajudar no que for preciso para resgatar sua filha, Serena,”

  Lita ficou boquiaberta ao ouvir tudo aquilo. Como ele conseguira saber de tudo aquilo, com todos os detalhes...?

  “Agora, como é que é, bombom? Você estava dizendo que queria fazer amor comigo agora, que me amava desesperadamente? É isso ou entendi mal?” perguntou Seiya, só para irritar.

  “Não é nada disso!” gritou Serena, e os dois começaram a brigar como nos velhos tempos.

 

  Enquanto Ami olhava o carro de Takeru se distanciar, Mina veio chegando, toda sorrisos.

  “Vejo que a conversa foi muito boa,” apontou Ami.

  “Se foi...” completou Mina. “Mas vejo que você também não perde tempo...”

  As duas riram e Mina começou a contar o que tinha acontecido.

   “Vou te contar uma coisa, Ami, mas jura que não vai contar a ninguém e nem caçoar de mim?” perguntou Mina, com seriedade, recebendo uma resposta afirmativa de Ami. Contou-lhe então os entreveros que a sua virgindade tinha causado e Ami, após consolá-la, não pode segurar um risinho disfarçado.

  “E imaginar que outro dia mesmo você estava me enchendo o saco por eu ainda ser virgem!” exclamou Ami. “No final das contas você foi a última de nós a transar!”

  “Eu sei que eu fui uma idiota,” reconheceu Mina, “mas mesmo assim não conte a ninguém, certo?”

  “Claro, Mina,” falou calmamente Ami, “Apesar de tudo eu entendo os seus motivos...”

  As duas deram as mãos e entraram em casa novamente, deparando com Seiya, que teve que se explicar novamente...

 

  Infelizmente, aquela não foi a última explicação do dia, pois quando Finna chegou quis saber quem era aquele novo ‘hóspede’ que tinha se alojado em sua casa. Após ter esclarecido quem era e dito que ia ficar para ajudar no que fosse preciso, Seiya esperou pela reação da bruxa.

  “Bem, no patamar em que estão as coisas, ajuda é sempre bem vinda,” começou Finna, “Contudo, não ensinarei magia a você, pois isso só atrasara o treinamento, e pouco tempo nos resta. De resto, pode ficar hospedado aqui, temos o quarto que era de Darien vago agora,”

  “Vago? Como assim?” interessou-se Seiya, que até então não estava sabendo de nada.

  “Deixe que eu explico,” Serena se adiantou, “o fato é que eu e Darien estamos temporariamente separados e ele foi continuar seu treinamento de magia na casa de um amigo de Finna,”

  “Aaaahhh...” disse ele, “então significa que o caminho está livre?”

  “Já disse que não é nada disso!” exclamou Serena, “Se você não ouviu direito, eu disse temporariamente, o que significa que não vamos nos separar para sempre,”

  “Espere só você começar a conviver todos os dias comigo...” continuou Seiya sarcasticamente, “vai mudar de idéia rapidinho...”

  Serena deu um grito enfurecido e os dois já iam começar uma nova discussão quando Finna interveio, dando-lhes uma bronca e dizendo que precisavam conversar sobre um assunto sério: Mina. Em alguns minutos, ela colocou Seiya a par do que havia acontecido e estava pronta para começar a contar o que descobrira com as conversas que tivera no dia.

  “Infelizmente, não tenho boas notícias,” falou Finna, “diversos magos e bruxas experientes me disseram que não há feitiço no mundo capaz de retroceder um processo de vampirismo, mesmo que a pessoa seja apenas um meio-vampiro.”

  “Finna, não se preocupe,” disse Mina, “eu vou superar esse momento difícil e aprenderei a conviver com esse mal. Além do mais, eu ainda tenho o homem da minha vida sempre ao meu lado, me apoiando.”

  “Você está louca?” surpreendeu-se Finna, “ele a morde e você ainda o quer?!”

  “Finna,” respondeu Mina, “eu não gostaria de entrar em detalhes, mas eu posso assegurar a você que a culpa de tudo isso foi minha. Eu tomei atitudes erradas e provoquei toda essa situação, portanto não pense que Takeru tem alguma culpa nisso. Se tem que julgar alguém, essa pessoa sou eu,”

  Finna não perguntou mais nada sobre essa declaração de Mina, apenas a aceitou, pois viu nos olhos brilhantes de Mina que ela falava a verdade e que era difícil para ela própria aceitar esses tristes fatos.

  “Bom, para concluir,” continuou Finna, “gostaria que todos vocês prestassem muita atenção de agora em diante, pois com todos esses problemas ficará mais difícil prosseguirmos com as aulas. Não é por nada, mas vocês conseguiram arranjar muitas confusões em muito pouco tempo, o que vive atrapalhando a sua concentração. Mas temos que prosseguir, não é? O que tiver que ser, será; com o perdão do clichê.”

  Todos trocaram olhares de aceitação e profundo entendimento da situação crítica em que estavam. E o tempo passava.

 

  Titã estava encerrando o ritual noturno quando parou para olhar mais atentamente o desenvolvimento de Hikari. Agora ela já estava mais crescida e começando a perder o corpo de bebê. Seu corpo flutuava calmamente no líquido avermelhado, que brilhava na escuridão da sala. Tudo tinha um quê de misterioso e sensual e isso apenas lembrou Titã de que não faltava tanto tempo mais para que ele a tivesse para si, com todo seu poder, esplendor e beleza. E então ele reinaria absoluto.

 

  Sem acender a luz, Michiru e Haruka entraram em seu apartamento, deslizando suavemente sobre o carpete macio. Haruka sentou-se na poltrona da sala, olhando displicentemente para cortina, que ondulava ao sopro constante do vento.

  “Finalmente,” começou ela, “finalmente seu braço está são Michiru...”

  Michiru deu a volta na poltrona e depositou suas mãos nos ombros de Haruka, que suspirou, fechando os olhos.

  “Sim,” respondeu ela, “eu não agüentava mais ficar com o braço imobilizado... mas agora poderemos voltar a nossa missão,”

  “Eu preciso te contar o que descobri hoje,” falou Haruka, ainda com os olhos fechados, mas com o semblante contraído e cheio de preocupação. “Aquela menina, a Hotaru, ela entrou em coma,”

  A face de Michiru desfigurou-se com uma expressão de intenso descontentamento. Ela foi até o centro da sala e virou-se de frente para Haruka. A luz da cidade que entrava pela janela projetava sua sombra por toda a extensão do aposento.

  “Não é possível, isso é muito azar!” exaltou-se, “Agora não podemos fazer mais nada além de esperar,”

  “Sim,” continuou Haruka, abrindo os olhos, “E sabendo que quando ela acordar, não será mais Hotaru, mas sim uma entidade maligna e poderosa.”

  “Isso vai ser um desastre certamente, mas você sabe que não podemos matá-la enquanto ela não estiver apta a se defender,”

  “Sim, eu sei,” concordou Haruka, “e isso é deveras preocupante. Mas esqueça esse assunto agora. Vamos concentrar nossas forças em tentar descobrir onde as Inner Senshi foram parar, e o que está acontecendo.”

  “Certo,” respondeu Michiru, “mas só amanhã...” murmurou, indo lentamente na direção de Haruka.

 

  Mais tarde, estavam todos na sala, estudando os pesados livros de magia de Finna, quando Seiya pediu para falar com Serena a sós. Meio sem saber que atitude tomar, Serena aceitou, indo com ele para o quarto que há algumas semanas era dela e de Darien.

  “Seiya,” falou ela um pouco nervosa, “queria só pedir para que você não crie falsas esperanças...”

  “Bombom, não fale assim...” respondeu ele, sentando-se na beirada da cama, “Todas as minhas esperanças são bem reais, porque eu sei que você não é apaixonada por mim,”

  Serena olhou confusamente para ele depois dessas palavras.

  “O que eu quero dizer,” continuou ele, “é que como eu sei que você ainda não me ama, eu vou colocar todas as minhas forças em conquistá-la. Ainda mais depois do que aconteceu entre vocês dois...”

  “Como você sabe disso?” perguntou Serena.

  “Ora,” mentiu ele, “quando eu cheguei eu ouvi você falando com a Lita...”

  “Se você ouviu, saiba que ela estava certa em tudo. Eu ainda amo o Darien e não pretendo ficar longe dele por muito tempo.”

  Seiya segurou a mão de Serena entre as suas, olhando intimamente seus olhos azuis. Serena sentiu-se acuada por aquele olhar, paralisada e indefesa, tal qual uma presa sob as garras de seu algoz. Dessa forma, permitiu quase que inconscientemente que ele se aproximasse dela a ponto de suas respirações se tornarem uma só, pausada e densa. Ela não conseguiu evitar que ele a beijasse; um beijo intenso e envolvente, com o sabor do néctar bebido pelos deuses, o primeiro desde que tinham se conhecido.

 

  “O que será que aqueles dois estão conversando?” perguntou Lita, erguendo sua cabeça para as outras meninas.

  “Sei lá...” falou Mina, que estava deitada com os olhos fechados. Ami e Lita se entreolharam, estranhando a reação tão pouco curiosa de Mina.

  “Tudo bem, Mina? Está sentindo alguma coisa?” preocupou-se Ami.

  “Não...” murmurou a loira, “Só uma dorzinha de cabeça chata...”

  “Ah...” continuou Lita, “mas como eu queria ser uma mosquinha para ver o que eles estão falando!”

 

  Serena afastou seu rosto lentamente, ainda com os olhos fechados. Só o fato de abri-los e ver que aquela boca que tinha acabado de beijar era de outro homem senão Darien, a deixava nervosa. Seiya acariciou um dos lados de seu rosto e Serena abriu os olhos, antes que perdesse o controle sobre si.

  Seiya estava muito perto, ela via os detalhes de sua pele cuidada e sentia o calor de seu corpo. Os olhos de Seiya brilhavam como estrelas numa noite de lua cheia, e isso deixava Serena perturbada.

  “Por favor, Seiya...” pediu Serena, “não faça isso... por favor...”

  “Não lute contra esse momento, Serena...” falou Seiya, “Eu só quero uma chance...”

  “Eu não quero machucar ninguém...” disse ela. Seiya se levantou, olhando firmemente para Serena.

  “Então por que está machucando a si mesma?” perguntou ele.

  “O quê?” respondeu Serena, não entendendo onde ele queria chegar.

  “Sim, entendo que não queria ferir ninguém,” continuou Seiya, “mas com suas atitudes você só está magoando a si mesma. Se não quer me dar uma chance porque ainda ama o Darien, então por que o deixou ir embora? Agora está aí, sofrendo com a ausência dele. E, mesmo antes disso, eu sei que você estava meio separada dele, só causando mais dor no seu próprio coração.”

  “Antes eu não podia... e não posso... Como posso ter qualquer felicidade com Hikari seqüestrada?”

  “Você realmente acha que sua filha vai gostar de saber que, indiretamente, causou um dissabor entre os pais?”

  Os dois ficaram em silêncio por algum tempo, e Seiya olhou no fundo dos olhos de Serena, que desviou daquele olhar que a fazia pensar em algumas verdade que ela não queria encarar.

  “E não é só isso, você sabe,” continuou Serena, “Ele me traiu.”

  “E isso destruiu o amor entre vocês?”

  “Não,” falou Serena, “mas minou minha confiança em Darien.”

  Seiya então se sentou ao lado de Serena, passando suavemente a mão sobre seus cabelos. Segurando sua nuca, ele trouxe a cabeça dela para perto da sua.

  “Então confie em mim...” disse ele num sussurro, “apenas uma chance...”

  Serena sentiu-se insegura, guiada por caminhos que ela não escolhera. Seus lábios estavam quase se tocando novamente quando ouviram gritos vindos da sala. Imediatamente, os dois se levantaram, assustados, e foram para lá.

 

  “Serena!” gritou Ami ao ver a amiga, “Algo está acontecendo com a Mina!”

  Mina retorcia-se no sofá, gritando de dor. Ela agarrava seus cabelos com força, quase arrancando-os e lágrimas saíam de seus olhos.

  “O que houve?” perguntou Seiya.

  “Nós estávamos estudando e conversando quando Mina disse que estava com dor de cabeça,” explicou Ami, “mas essa dor foi aumentando e aumentando e agora ela está nesse estado, berrando de dor. Finna estava no banho, só está colocando uma roupa e logo estará aqui.”

  Mina tentava não gritar, mas a dor que estava sentindo era tão forte que dominava todas as suas outras vontades ou pensamentos. Ela começara na cabeça, mas parecia estar se espalhando por todo o seu corpo, como uma peste. Sentia como se cada átomo que a formava estivesse se partindo em dois, como se alguém estivesse dilacerando sua carne. Então, como uma luz esclarecedora, Mina se lembrou de trechos de uma conversa que tivera com Takeru, já há algum tempo...

  “...uma dor profunda e sofrimento eterno seriam nosso destino...” ecoou em sua mente.

  “...não sentimos a dor da decomposição, pois ela é paralisada com a entrada...”ecoou em resposta.

  Mina então entendeu o que estava acontecendo com ela, e Finna tinha acabado de chegar na sala quando Mina juntou todas as suas forças e se levantou.

  “Afastem-se de mim! Saiam daqui!” gritou ela, mas, sem conseguir se sustentar, caiu no chão, encostada no sofá. Os outros se aproximaram ainda mais dela, perguntando se tinha se machucado.

  “Não toquem em mim!” continuou Mina, desesperada.

  “O que foi? Fale o que está sentindo,” pediu Ami.

  “Não! Por que não em escutam! Saiam daqui todos! Saiam!!!”

  Todos trocaram olhares assustados e preocupados. Finna interveio.

  “Ela está... ela está se transformando...” murmurou a bruxa, causando um silêncio de espanto, só interrompido pelos gritos desesperados de Mina.

  “Sim! E por isso você não podem ficar perto de mim!” falou Mina.

  Ninguém sabia muito bem o que fazer. Não podiam abandonar Mina, mas também o fato de ficarem ali a deixava ainda mais irritada. Serena aproximou-se de Mina e segurou sua mão.

  “Acalme-se, Mina, só queremos ajudá-la...” falou ela.

  Mina suspirou profundamente, como se evitando o inevitável. Seus olhos azuis brilharam, ficando cada vez mais claros e lampejantes. Logo em seguida, os caninos de Mina protuberaram, sentindo a presença daquele sangue humano tão perto e isso gerou um grito de medo na sala. Nada mais poderia ser feito, pois Serena já estava nos braços de Mina, presa numa armadilha.

  Com a boca levemente aberta, Mina tocou a pele macia do pescoço de Serena, que estava paralisada de pavor. Em um movimento rápido, contudo, Mina soltou Serena e saiu da casa de Finna, passando pela janela fechada, estilhaçando o vidro. Os outros mal viram o que acontecera, pois Mina se movera em uma velocidade enorme para os padrões humanos. Serena olhou para trás, encarando os outros, que estavam boquiabertos.

  “O que vamos fazer agora?” perguntou ela.

  “Nada,” respondeu Finna, “Mina vai ter que resolver isso sozinha.

 

  Mina andou pela cidade com sua super-velocidade para procurar um refúgio, mas em todos lugares haviam pessoas, e seu sangue quente fazia Mina quase perder a cabeça. Ela não podia cogitar a idéia de matar ou sequer mandar um ser vivo inocente para um mundo eterno de sonhos. Isso não era justo. E só havia um lugar onde ela poderia ir.

 

  Mina praticamente invadiu o quarto de Takeru, que se preparava para sair. Ele pode perceber em seu rosto toda a dor que Mina continha a altos custos.

  “Me ajude! Me ajude, Takeru!” gritou Mina, em meio a gemidos de dor.

  “Mina...” murmurou ele, abraçando-a. “Eu sinto tanto que esteja passando por isso...”

  “Takeru... eu não posso...” falou ela, “Eu não posso fazer aquilo...”

  Mina chorava lágrimas de sofrimento e agonia. Takeru ergueu a cabeça de Mina, fazendo-a olhar para ele. Takeru estava sério, mas não escondia uma certa ternura no olhar.

  “Mina, eu sei o que você está sentindo, acredite,” começou ele, “Eu já senti isso na minha própria pele. Mas, de certa forma, você escolheu esse caminho. Você sabia dos riscos, e mesmo assim arriscou-se a pisar na fina linha que separa a morte da vida. Agora é hora de você aceitar o seu destino...”

  “Eu achei que conseguiria... achei que poderia... Mas não posso!” falou Mina, unindo a sua exclamação final um profundo grito de dor.

  “Então você terá que conviver com a dor...” murmurou Takeru.

  “Isso é insuportável, Takeru! E você sabe disso!” disse Mina.

  “Eu sei. Quer que eu te mate então?” perguntou ele sem olhar diretamente para Mina. Ela ficou em silêncio.

  “Como posso escolher entre a minha vida e a das muitas pessoas que precisaria quase matar para sobreviver? É injusto, pois a minha única escolha digna seria a minha própria morte,” respondeu Mina.

  “Eu sei que você tem um coração bom, Mina,” falou Takeru, “E sei o quanto você vai sofrer cada vez que tiver que tomar o sangue, mas a sua única escolha possível é a sua vida ou morte.”

  Em um só movimento, Mina sacou sua adaga e cravou em seu próprio peito. Entretanto, apenas sentiu um forte incômodo, a dor que sentia era só por causa do seu vampirismo. Vendo isso, ela retirou a adaga de seu peito, vendo o que restava de seu próprio sangue se esvair pelo ferimento.

  “Não faça uma idiotice dessas, Mina!” exclamou Takeru, “Isso não vai te matar, olhe só para baixo e verá que a ferida já está se fechando. Sua recuperação não é tão rápida quanto a dos vampiros completos, mas em alguns minutos esse corte nem existirá mais.”

  Mina ficou olhando seu ferimento se curar, tentando se concentrar o máximo nisso para esquecer a enorme dor que sentia. Contudo, essa tática não funcionou, pois seu próprio cérebro parecia estar se despedaçando em mil pedaços. Mina deu um urro de dor e Takeru agarrou com força os seus ombros.

  “Mina, escute! Eu sei que depois que você fizer sua primeira vítima, nunca mais será a mesma. Você vai macular para sempre sua infinita bondade e amor por todos. Mas Mina, não se é uma meio-vampira impunemente. Vai ter que decidir agora o que prevalecerá em seu coração: ser mais humana, assim escolhendo pela morte, ou ser mais vampira e viver.”

  O coração de Mina já pulsava com a resposta.

 

  Em algum lugar secreto do universo, aqueles que quase nunca interferiam no fado dos humanos estavam preocupados. Os deuses guardiões dos planetas das Inner Senshi observavam os últimos acontecimentos pensativos.

  “Você não vai fazer nada?” perguntou Ares.

  “Não...” respondeu Afrodite.

  “Mas você não pode deixar tudo como está!” bradou Titéia.

  “Posso sim, ela é minha protegida,” falou Afrodite, “Muitas coisas ruins podem estar acontecendo, mas ela tem a força e transformar tudo o que é mau em bondade e amor.”

  “Se ela prosseguir com isso não poderá mais ser uma Sailor Senshi,” sentenciou Ares, “São as regras,”

  “Eu conheço as regras,” disse Afrodite, “E uma hora ou outra elas serão cumpridas. Só que ela ainda tem uma função a desempenhar. E vocês sabem disso.”

  Os três deuses se separaram, indo meditar sobre aquela situação.

 

  “É impressionante como nunca pensamos nas conseqüências de nossos atos,” começou Mina, “Há até algumas horas atrás eu via tudo sob as lentes românticas de uma mulher apaixonada. Agora, perante essa escolha, eu sinto apenas que não tenho mais escolha. Ao me entregar a um vampiro eu já desisti da minha própria humanidade, pois compactuei com todos os seus atos. Já estou manchada pelos seus crimes e agora só me resta assumir os meus próprios.”

  “Mas junte-se a mim em minhas pesquisas, pois assim poderemos, quem sabe, mudar nossos destinos,” pediu Takeru.

  “Sim, o farei, mas não agora,” respondeu Mina, “Tenho alguns assuntos a resolver antes de poder me dedicar completamente ao nosso amor e às pesquisas. E antes de tudo isso tenho que assumir que eu sou agora, no que me transformei.”

  Sem dizer mais nada, Mina saiu como uma brisa da casa de Takeru, deixando-o com um misto de tristeza, esperança e mais alguns sentimentos que ele não conseguia discernir.  Atravessando velozmente a cidade, Mina não escolheu uma vítima, mas deixou-se guiar pelo seu instinto; seu corpo escolheu a vítima. Era uma jovem, assim como ela, vivaz e alegre, que era amada por muitas outras pessoas. Mina podia sentir o perfume de seu sangue sob a pele, e isso a inebriava como álcool. Enquanto cravava seus caninos no pescoço longo e alvo de sua vítima, que desmaiara, Mina desejou a ela bons sonhos, pedindo que por toda a eternidade ela vivesse cada um de seus sonhos.

  Tudo funcionava como uma espécie de transe, do qual Mina só despertou quando o corpo da jovem caiu aos seus pés. Do canto da boca de Mina escorria um largo fio de sangue, que ela limpou com a mão. Foi ao ver aquele sangue manchando sua mão que ela finalmente se deu conta que não era mais humana e nunca mais o seria. Mina Aino morrera e agora só restava uma meio-vampira sem nome, sem idade e sem passado.

  Mas ela ainda tinha uma tarefa a cumprir nesse presente.

 

  Todos estavam na sala esperando por Mina quando ela entrou. A janela já tinha sido consertada por Finna e seus amigos a olharam com preocupação e medo.

  “Não olhem assim para mim,” pediu Mina, “isso é o que sou agora e gostaria que vocês me aceitassem. Mas se não puderem, eu irei embora,”

  “Você está louca?” perguntou Serena, correndo até Mina e a abraçando, “Mina, nunca vou deixar que mais uma de nós se vá. Nunca!”

  “Obrigada, Serena,” disse Mina, olhando diretamente para a amiga, “E desculpe por aquilo...”

  “Não tem o que pedir desculpas...” murmurou Serena, “Afinal, você me salvou... de você mesma...”

  “Mas o que houve?” perguntou Lita, ainda um tanto assustada.

  “Apenas o inevitável,” sentenciou Mina, “Mas acho que vocês não vão querer saber os detalhes... e também não me agradaria em nada ter que contar...”

  “Nós entendemos,” falou Ami em nome do que todos sentiam. “Mas que tal então irmos todos dormir? Amanhã teremos um longo dia e muitas coisas novas a aprender. Temos que nos concentrar em nossa missão: derrotar Titã e salvar Hikari.”

  E assim, sem mais uma palavra, eles se recolheram. Qualquer coisa a mais que fosse dita não seria agradável, mas sim dolorosa, e por isso o melhor era mesmo seguir o conselho de Ami: esquecer de tudo e se concentrar.

 

  Verda estava no laboratório de pesquisas quando um dos auxiliares chegou perto dela.

  “Mestra, já é tarde...” começou o rapaz, “Você já está aqui há muito tempo... Por que não vai descansar um pouco?”

  “Não...” murmurou Verda, “Há muito trabalho, tenho que continuar,”

  “Mas você pode fazer isso mais tarde,” insistiu o assistente, que se preocupava muito com Verda, admirada por ele desde que se conhecia por gente. “Um pouco de descanso até ajuda a melhorar as idéias...”

  “Não posso...” falou Verda ainda mais baixo. O assistente então desistiu e a deixou a só com seus pensamentos. Hiroi, contudo, observava a cena de seu computador, onde também pesquisava, e decidiu ir conversar com Verda.

  “Verda...” começou ele, com cuidado, “Não quer ir tomar um café comigo?”

  “Não.”

  “Eu também estou trabalhando há muito tempo, acho que é bom para nós dois ‘despertarmos’ um pouco...” Ele olhou para ela, que continuava inexpressiva. “Espairecer agora será produtivo mais tarde,”

  Verda estava cansada, mas não queria baixar a guarda, não queria deixar-se levar pela conversa de Hiroi. Por outro lado, percebeu que todos na sala já se preocupavam com ela, que estava trabalhando incessantemente desde muito cedo, e se ela não desse uma pausa, ninguém a deixaria em paz. Sem dizer uma palavra, assentiu com a cabeça.

  Ela saiu na frente, Hiroi logo atrás, apertando o passo para ficar ao seu lado. Ele não queria mais prestar esse papel de ficar seguindo Verda como um cachorro faminto, mas uma força maior o impelia. Além disso, ela parecia estar diferente, mais calada, olhando sempre para um vazio infinito. Isso o preocupava. Assim que pegaram um café na máquina, sentaram-se em um banco que ficava logo abaixo de uma enorme janela. A lua os iluminava com seu brilho pálido.

  “Verda,” disse Hiroi, “sinto algo muito estranho em você... Está acontecendo alguma coisa?”

  “Muitas,” respondeu ela.

  “Mas é algo grave? Nunca vi você assim...”

  “Não precisa se preocupar comigo,” falou ela, tomando um gole do café que fervia em sua mão, “Eu já sou grandinha e sei me cuidar,”

  “Sabe? Às vezes você me parece muito solitária...”

  “Solitária...” murmurou ela, “Todos nesse castelo o são...”

  “Isso não é verdade,” retrucou Hiroi, “Pode haver uma inimizade excessiva entre algumas pessoas, mas, em geral, as famílias são bem unidas,”

  Não ouvindo resposta, ele decidiu continuar, motivado por sua última frase.

  “O que houve com a sua família?” perguntou ele, conseguindo fazer Verda se virar para ele com uma expressão de surpresa. “Eu sei o que todos sabem, que você não tem exatamente uma família, foi criada junto com Titã praticamente, mas... ninguém surge do nada. O que houve?”

  “Por que você quer saber isso?” perguntou Verda, interessada.

  “Porque eu me interesso por tudo que tem relação com você,” respondeu Hiroi secamente.

  “Não vejo porque tenho que dar satisfações a você,”

  “Isso não é uma satisfação,” falou ele, “é apenas uma conversa informal. Eu só me preocupo...”

  “Eu não tenho família,” disse Verda, decidida, mas desviando o olhar. “Meu pai e minha mãe tinham cargos na alta corte, mas morreram num acidente durante uma viagem de exploração. Eu ainda era um bebê e Titan me criou por consideração a eles, pois eram amigos,”

  “E como ninguém sabe disso no castelo?”

  “Foi tudo guardado como a sete chaves, pois a viagem que eles realizavam era um segredo de estado,” balbuciou Verda, com os olhos parados novamente, “Eu nem sei porque estou te falando isso... não devia...”

  “Eu vou guardar essa história para mim, não se preocupe,” assegurou Hiroi, “mas essa antiga história não explica esse seu desânimo, Verda. Algo mais está acontecendo e você parece não poder contar com ninguém. É com Titã o problema?”

  Verda olhou para baixo, fitando o café no fundo do copinho descartável. Sua visão foi ficando embaçada por lágrimas que insistiam em brotar de seus olhos. Verda mordeu o lábio inferior, tentando conter aquele seu acesso de choro. Ninguém devia vê-la assim. Muito menos Hiroi. Contudo, ela foi surpreendida por uma atitude dele, que colocou o braço em volta dos ombros de Verda carinhosamente. De alguma forma, isso a deixou desnorteada, sem ação, e o pior: desconcentrada em dissimular suas emoções. As lágrimas logo abriram rios em sua face, entremeadas com soluços incontroláveis.

  “Não!” gritou Verda, soltando-se do braço de Hiroi, “Saia! Você não tem o direito de me ver assim!”

  “Acalme-se, Verda! Não há nada de errado em chorar. Foi ele, não é? O que ele fez para você?!”

  “Ele não fez nada, Hiroi! Nada! E isso não te dá o direito de me ver nesse estado deprimente!”

  “Não é justo, Verda! Não é justo o que ele está fazendo com você! Deixe-me ajudá-la, me diga o que houve!”

  Verda levantou-se, de costas para Hiroi, escondendo seu rosto com as palmas das mãos. Logo ele segurou os dois braços de Verda e virou-a de frente para ele, ficando separados por apenas alguns centímetros.

  “Não... ouse... me... beijar...” falou Verda com clareza.

  “Eu não vou fazer isso,” respondeu Hiroi, “Eu só vou beijar você de novo quando você quiser. Mas deixe-me ajudá-la mesmo assim,”

  “Por que você faz isso comigo?” choramingou Verda, “Cada mulher desse maldito palácio daria tudo para estar em seus braços, nem que só por uma noite. Mas não, você prefere me perseguir. Só porque eu não quero você, isso fere o seu orgulho. Sou apenas um troféu que você quer adicionar à sua coleção.”

  “Não é verdade, Verda...” murmurou Hiroi, “você sabe dos meus sentimentos em relação a você. Eu não quero nenhuma outra porque só consigo pensar em você. E por isso quero te ajudar.”

  “Eu não preciso de ajuda... O que eu preciso ninguém pode me dar,”

  “Então agora você percebeu que ele nunca vai te amar,” disse Hiroi, “Mas outras pessoas podem, Verda,”

  “Não, elas não podem. Eu posso não ser amada, mas não sou livre,”

  “Então se liberte. Você pode ter acompanhado Titã por todos esses anos, mas não é por isso que você tem que ser o brinquedo dele para sempre. Ele não passa de uma criança mimada, pensa que pode tratar você como um objeto. Ainda por cima é desastrado, pois está quebrando o brinquedo em pedaços e nem percebe,” falou Hiroi.

  “É muito bonito na teoria, mas, na prática, eu não sairia viva para contar a história...”

  “Eu posso proteger você,”

  “Não, não pode, Hiroi. Ninguém aqui pode medir forças com Titã. E agora, depois de tudo isso, eu acho que vou dar uma pausa no trabalho e dormir um pouco,”

  Verda se desvencilhou de Hiroi, afastando-se dele, que estava com um olhar perdido. Esse olhar, entretanto, iluminou-se quando viu Verda voltar.

  “Mas antes...” disse ela com uma expressão nervosa e insegura.

  Lentamente, aproximou-se de Hiroi, dando-lhe um beijo rápido, mas caloroso. Então foi embora, desaparecendo nos corredores. Hiroi tomou o caminho da sala de pesquisas, ainda sem entender o que se passava na cabeça de Verda. Talvez ele nunca entenderia.

 

  Assim que Hiroi saiu daquele pequeno pátio iluminado pelo luar, Їѕн’цоц entrou pelo outro corredor de acesso. Sua massa gosmenta se ergueu na forma de um homem, que correu para o interior do palácio.

 

  Logo ele estava passando pela fresta do aposento de Titã, que tinha acabado de voltar do seu ritual noturno com Hikari. A chegada de Їѕн’цоц foi uma verdadeira surpresa.

  “O que faz aqui?” indagou Titã, olhando para Їѕн’цоц, que era novamente apenas uma poça de gosma no chão. Só podia assumir outras formas perante Titã se assim ele ordenasse.

  “Messsstre, é horrrrrível!!!” exclamou ele, “Eu nem sssssei como dizerrrrrr!”

  “Fale logo! E espero que seja realmente importante para estar me importunando a essa hora!”

  “É Verrrrrda! Ela.... Eu não vi o que esssstava acontecendo... Mas vi quando ela beijou aquele rrrrrapazote, o tal de Hiroi!!!”

  Titã ficou calado por cerca de um minuto, mas faíscas de energia saltitavam de seu corpo, como uma tempestade se formando. Saiu como um furação de seu quarto, passando por cima de Їѕн’цоц e dividindo-o ao meio. Enquanto Їѕн’цоц reunia as duas metades de seu corpo em uma, um estrondo ecoou no palácio.

 

  Titã bateu a porta do quarto de Verda com tanta força que quase a quebrou em pedaços. Ela estava colocando sua camisola, se preparando para dormir.

  “O que foi?!” perguntou ela, assustada com o jeito de Titã.

  “Quem você acha que é para me fazer de palhaço?” esbravejou ele, agarrando-a pelo braço com força.

  “Do que você está falando?” insistiu Verda com cara de inocente.

  “Não se faça de sonsa, sua vagabunda!” urrou ele, jogando-a na cama violentamente. “Eu já sei que você andou beijando aquele conjurador de meia-tigela!”

  Verda ficou sem ação, pensando como as notícias poderiam se espalhar tão velozmente. Além disso, não havia mais ninguém naquela parte do palácio quando estava lá com Hiroi.

  “Foi muita ignorância da sua parte achar que podia fazer isso sem que eu soubesse! E ainda dentro do meu próprio palácio! Como ficaria a minha reputação se alguém visse isso?”

  Verda não respondeu nada, apenas ficou imóvel, pensando o que aconteceria com ela.

  “Como tem coragem de me trair embaixo do meu nariz, Verda?! Você não renega suas origens!”

  Ao ouvir essa frase, o sangue de Verda congelou em suas veias. Mas não houve tempo para ela se preocupar com isso, pois Titã criou uma espécie de chicote de energia e começou a açoitar Verda, que gritava de dor e medo.

  “Eu devia mesmo esperar isso de você!” Titã continuava a gritar com Verda, “Uma traidora maldita! Você sabe muito bem qual é a punição para gente igual a você, não sabe? Não sabe?!!!!”

  Os gritos de Verda ecoaram pelo quarto.

 

  A lua não aparecia mais no céu. Nuvens negras vindas de lugares distantes tinham chegado durante a noite formando um cortejo fúnebre. Agora velavam um corpo que vivia num eterno purgatório, pois a decisão era que ainda não ganharia o descanso eterno.

  “Por que...” gemeu Verda, que tinha vergões e machucados por todo o corpo, “por que não me mata...”

  “Seria muito cômodo para você, não?” falou Titã com cinismo, “Mas não vou fazer isso porque não me convém. Você é útil e, depois que essas marcas saírem, continuará a ser linda, pelo menos por fora,”

  “Por que fez isso então?” indagou Verda, sem chorar pois suas lágrimas já tinham acabado, “Você não me deu chance nem de explicar...”

  “Explicar... muito engraçado... Verda, minha querida, minha vontade era ter te matado, mas seria muito bom para você. E não pense que vou te mandar embora, pois assim você teria vencido essa luta. Sim, vencido, pois estaria livre. Deve saber que nunca sairá livre daqui.”

  “Mas um dia você vai encontrar sua rainha e eu serei dispensada,” insistiu Verda.

  “Aí é que você se engana. Com esse último acontecimento, seu destino mudou, minha cara. Quando não precisar mais de você, você vai morrer, mas não será pelas minhas mãos.”

  “O que você quer dizer com isso?”

  “Quero dizer que não vou sujar minhas mãos com você,” continuou Titã. “Quando você for dispensável, simplesmente revelarei seu segredo a todos...”

  Verda teve vontade de gritar, implorar, se humilhar para pedir que ele não fizesse isso, mas não tinha forças. Não podia se mover de tanta dor e não podia mais gritar de tanta vergonha que sentia. Sua morte era simplesmente questão de tempo.

  “E espero que seja discreta quanto ao que aconteceu aqui,” ordenou Titã, “Uma palavra sua pode ser fatal. Além disso, está dispensada do trabalho por hoje, mas ficará trancada aqui. A partir de amanhã, vida normal,”

  “Mas eu não fiz de propósito!” gritou Verda num ato de desespero, “Simplesmente aconteceu! Eu estava tão deprimida e carente... nem eu mesma sei porque fiz aquilo!”

  “Então estou fazendo um favor,” sentenciou Titã, “Terá o dia inteiro para refletir os seus motivos e atitudes, já que ficará confinada aqui.”

 

  Com o raiar de uma manhã nublada, todos na casa de Finna já estavam mais calmos e havia uma espécie de “pacto interno” de não se tocar no assunto da noite anterior. As meninas acordaram bem cedo, prontas para continuarem com suas aulas. Serena tinha preferido continuar a dormir, apesar de Finna ter dito que não haveria nenhum problema se ela quisesse assistir ou mesmo participar das aulas matutinas. Seiya, por sua vez, tinha saído logo cedo para dar uma volta e pensar em como poderia ajudar.

  Finna decidira que a aula iria ser dada dentro de casa mesmo, pois era mais apropriado.

  “Como assim, Finna?” perguntou Ami, sem entender o porquê daquela mudança, já que as aulas eram em sua maioria dadas no jardim.

  “É que hoje vocês aprenderão um feitiço muito útil e que pode salvar uma vida,” explicou ela.

  “E ele é...” interessou-se Mina.

  “Invisibilidade,” falou Finna, para o êxtase de todas.

  “Eu nunca acreditei que isso fosse possível!” exclamou Ami, batendo palmas de alegria.

  “Bom, é possível,” continuou Finna, “mas difícil. O mais importante aqui é a concentração, pois a sua matéria continua ali, ela não vai desaparecer.”

  “Como funciona essa magia então?” perguntou Lita.

  “Bom, a magia invocada faz com que as pessoas não vejam você, mas só sua força mental fará os objetos, pessoas e animais desviarem de você, já que se for atingido por qualquer coisa a magia se dissipa.”

  Finna então começou a usar uma técnica de relaxamento para facilitar a concentração das garotas que estavam excitadas demais.

 

  Como um trovão, Titã chegou ribombando no laboratório e chamou Hiroi pessoalmente para terem uma conversa em sua sala. Hiroi foi, um lado de sua mente prevendo sobre o que seria a conversa e o outro pensando quais seriam as conseqüências de tudo aquilo.

  O ambiente da sala de Titã era realmente intimidador para ele, só estivera ali em uma ou duas oportunidades. Será que ele já tinha descoberto o que acontecera na noite anterior?

  “Espero que você também não tenha sido ingênuo o suficiente em achar que iria me enganar,” disse Titã após se sentar atrás de sua mesa.

  “Você está se referindo ao quê exatamente?” perguntou Hiroi, a voz um pouco trêmula.

  “Ótimo. Os dois se merecem,” riu Titã, mas atrás de seu sorriso irônico, toda sua ira era revelada pelas faíscas de energia que cintilavam em sua volta. “Sabe que Verda me veio com uma pergunta bem parecida ontem à noite? Parece até que combinaram,”

  “Titã, meu soberano,” disse Hiroi, vendo que não adiantava mentir, “não a culpe pelo que aconteceu. A verdade é que eu sempre a persegui. Você ou qualquer outro nesse palácio sabem que eu nunca a deixei em paz, que desde que a conheci tento conquistá-la. Eu forcei aquele beijo aproveitando um momento de fraqueza de Verda,”

  Titã encarou Hiroi, um embate de olhos, já que nenhum dos dois ousava desviar o olhar, pois estaria assumindo sua derrota. O mais forte venceria e, mesmo com todo o seu sentimento por Verda, Hiroi nunca poderia ganhar de Titã com uma mentira.

  “Eu sabia,” falou Titã, “Eu sempre soube da sua fixação por Verda, mas ela é um bocado turrona e nunca deu atenção a um boboca como você...”

  “E continua assim...” tentou Hiroi.

  “Faz-me rir,” contrapôs Titã, “Eu a conheço muito bem e sei que se ela não quisesse beijar você teria feito um escarcéu dantesco. Aliás, tenho certeza que foi ela que beijou você,”

  “Mas ela não quer nada comigo,” desconversou Hiroi, que tentava não piorar as coisas para o lado de Verda, “Acho que ela até estava gozando da minha cara...”

  “Isso realmente seria bem a cara de Verda,” começou Titã, “mas não foi o que aconteceu. Verda está diferente, depressiva, fria... Estranha.”

  “Bom, mas e quanto a mim?” indagou Hiroi, “Quer que eu vá embora do palácio?”

  “Óbvio que não!” exclamou Titã, “Pela segunda vez digo que não misturo trabalho com divergências pessoais. Você continuará a trabalhar na missão que lhe cabe e Verda continuará a supervisioná-lo.”

  “Mas então...” disse Hiroi, sem entender o que estava acontecendo, “Por que me chamou aqui?”

  Titã levantou-se de sua cadeira e, com um movimento extremamente rápido, encostou a ponta de sua adaga na garganta de Hiroi, que engoliu a seco.

  “Isso é apenas um aviso,” falou Titã, “não vou fazer nada com você agora, pois sempre soube que você não era de confiança e o que aconteceu não me surpreende em nada por sua parte. Porém,” continuou ele, apertando a ponta contra a pele de Hiroi, “não ouse encostar um dedo em Verda novamente. Mesmo que ela queira, mesmo que ela o force, nada vai importar para mim. Sua obrigação é resistir, pois se eu ficar sabendo de qualquer coisa, sua morte certamente não será rápida e indolor,”

  Com a mesma rapidez, Titã guardou a adaga e dispensou Hiroi, que saiu sem dizer uma palavra. Voltou para sua sala, mas não conseguia se concentrar em nenhum trabalho, pois apenas Verda habitava sua mente naquele momento. Hiroi temia por ela, pelo que Titã poderia fazer a ela, já que naquele palácio a pena para traidores era nada menos que a morte.

 

  Setsuna estava em seu apartamento, lendo alguns livros que pudessem ajudá-la a encontrar uma forma de fazer Hotaru sair logo daquele coma quando a campainha tocou. Ela não estava esperando ninguém e isso a deixou intrigada, mas abriu a porta mesmo assim.

  “Olá,” falou Michiru, que estava parada do lado de fora ao lado de Haruka, “Nós temos um assunto a tratar aqui.”

  “Eu não tenho nada a tratar com vocês!” exclamou Setsuna, abismada com a cara-de-pau das duas.

  “Acalme-se, nós viemos em paz,” disse Haruka.

  “E como eu posso acreditar em alguém que armou um plano para pegar Hotaru de surpresa e matá-la sem a menor chance de defesa?” indagou Setsuna, cética.

  “Ela está em coma agora,” continuou Michiru, “E não podemos tentar nada contra alguém nesse estado,”

  Setsuna olhou para as duas e seu instinto, que geralmente não falhava, a dizia que elas estavam falando a verdade.

  “Entrem,” pediu ela.

  Logo, as três estavam sentadas na pequena sala do apartamento de Setsuna.

  “Viemos propor uma trégua,” falou Haruka calmamente, para o espanto de Setsuna.

 

  “Trégua?” estranhou Setsuna, “Por quê? Para quê?”

  “Desde que Serena e ou outros sumiram naquele vórtex atrás de Hikaru, nós estamos atrás de pistas de seu paradeiro,” explicou Haruka, “Sabemos que você também está e que não encontrou nenhuma pista, assim como nós,”

  “E daí? Onde querem chegar?” perguntou Setsuna, ainda um pouco desconfiada.

  “Elas estão desaparecidas há muito tempo,” continuou Michiru, “o futuro da Terra está, de certa forma, na mão daquelas garotas, ou melhor, daquelas mulheres, e é imprescindível que nós as encontremos.”

  “Proteger a Terra é nossa missão,” falou Setsuna, “Mas vocês estão dispostas a esquecer todo o resto até as encontrarmos?”

  “Sim, senão não teríamos vindo,” resmungou Haruka, “Juntas, temos mais chances que encontrá-las, reunir nossas informações pode fazer alguma diferença,”

  “Se é assim, eu acho que devo aceitar essa trégua,” disse Setsuna calmamente.

  “Mas fique sabendo,” sentenciou Michiru com as de desdém, “que assim que as encontrarmos e que Hotaru acordar, nós a mataremos,”

  Um silêncio ficou pairando entre as três, mas, por fim, acabaram por baixar as armas e começaram a traçar novos planos para encontrar as Inner Senshi.

 

  Após ter almoçado, Lita saiu para dar uma volta, refrescar sua mente que andava tão tumultuada. A aula de magia tinha sido muito proveitosa, e Finna era uma mestra muito paciente e eficaz, mas aprender tudo aquilo em tão pouco tempo era extremamente cansativo. Ao menos, a fazia esquecer. Sim, pois tinha que se concentrar tanto naquele difícil aprendizado, que acabava esquecendo-se de seus sentimentos e problemas. Mais extenuante que aprender magia era ser a mulher Lita Kino. Quando fechava seus olhos, suas pálpebras se tornavam telas de cinema, que passavam apenas as mais dolorosas cenas de sua vida, e elas eram muitas.

  Ultimamente, o que estava em cartaz era seus relacionamentos tumultuados com Kenkure e Kayama. Sentia-se confusa e dividida, com vontade de correr até Kenkure e implorar seu perdão e seu amor. Ao mesmo tempo desejava ardentemente amar Kayama, como se ele fosse uma “pílula mágica” que acabaria com todo o seu sofrimento para o resto de seus dias.

  Estar com Kayama era agradável e relaxante, ele a cobria de agrados e carinhos, o que sempre a deixava mais confusa. Seria necessário amar de verdade para ser feliz com alguém? Ela era feliz a cada momento que passava ao lado de Kayama, e sentia um forte desejo por ele também. Só Lita sabia o esforço que fazia a cada dia para controlar sua ânsia de deixar-se levar pelas vontades de seu corpo e fazer amor com ele de uma vez por todas. Era inegável a química que existia entre os dois, como o sangue de ambos fervia ao menor contato, como cada beijo era a porta para que suas mentes criassem as maiores fantasias do que viria em seguida.

  Mas só isso era suficiente para ela? Esse desejo era só o que ela precisava para viver? Por duas ou três vezes pensara em Kenkure enquanto beijava Kayama e era baseada nesses momentos que Lita resistia à tentação de dormir com ele. Ken-chan... O coração de Lita saltava só em pensar naquele que era certamente seu grande amor. Ele tinha sido bruto e intolerante com ela, mas isso não parecia importar em nada, sua vontade de vê-lo novamente só crescia.

  “Pare de pensar nisso Lita!” gritou ela para si mesma quando chegou na porta do Crown, “É melhor entrar, ter bons momentos com Kayama e fazer o possível para esquecer de vez o Ken-ch.... quer dizer, o outro. Afinal, pensar demais faz com que despertemos de nossos sonhos...”

  Dizendo isso, ela entrou no Game Center, encontrando-se novamente com aquele que ela gostaria tanto de amar.

 

  Após terem almoçado, Serena estava muito ansiosa para ter sua aula de magia negra, pois, como única escolhida, sentia uma enorme responsabilidade recaindo sobre seus ombros. Seiya tinha voltado para o almoço e Mina percebera que ele não havia tirado os olhos de cima de Serena por um só segundo durante toda a refeição. Serena então levantou-se para ir escovar os dentes e, mais que depressa, Seiya foi atrás dela.

  “Ele não está aqui de brincadeira, hein?” comentou Ami olhando para Mina.

  “Não mesmo...” murmurou ela, “Seiya está fazendo marcação cerrada em cima de Serena,”

  “Será que ela vai conseguir resistir?” perguntou Ami.

  “Eu duvido muito,” respondeu Mina, com preocupação no semblante, “Ele está dez vezes mais bonito que quando nós o vimos pela primeira vez,”

  “Se eu já não estivesse apaixonada por outro, eu não resistiria,” Ami disse com um olhar perdido.

  “Isso não te preocupa?” indagou Mina.

  “O quê?”

  “Serena e Seiya...” explicou a loira, “Eu sei que eu fui extremamente dura com Darien, que lhe disse coisas que possivelmente contribuíram para a decisão dele de sair dessa casa, mas...”

  “Mas o quê, Mina?” estranhou Ami, “Não sei o que você está querendo dizer com isso,”

  “Mas pelo menos eu sei que eles se amavam... Serena e Darien podiam estar brigados, ele podia ter feito coisas horríveis para ela, mas se amavam acima de tudo. Estavam estremecidos, mas eu sabia que mesmo ele saindo de casa, algum dia voltariam a se encontrar e o amor prevaleceria sobre todo o orgulho e a mágoa,”

  “E o que te preocupa então?”

  “O que me preocupa é que nesse meu raciocínio não existia ‘Seiya’ nenhum, ora!” exclamou Mina, “Eu disse todas aquelas palavras duras para Darien e incentivei que ele saísse de casa como uma espécie de ‘castigo’, mas no fundo eu sabia que eles se reconciliariam. Queria apenas que ele pensasse no que tinha feito!”

  “Só que com Seiya aqui você não sabe se Serena vai resistir, não é?” falou Ami, agora entendendo aonde a amiga queria chegar.

  “Exatamente. Seiya é uma verdadeira tentação, principalmente nesse momento de fragilidade de Serena. E se ela não resistir? E se ela aprender a amá-lo? Seria terrível se o amor entre ela e Darien ruísse por causa de Seiya... é contra o destino...”

  “Fale a verdade, Mina,” pediu Ami, “O que acontece é que você está se sentindo culpada.”

  “Estou,” concordou Mina, “Eu queria que Darien levasse um susto, sabe? Queria que ele tivesse medo de perdê-la. Assim ele Daria mais valor a Serena e ficaria sabendo que não pode fazer o que bem entender com ela. Agora tudo mudou, pois Seiya está aqui e Darien não, e Seiya está jogando por tudo ou nada,”

  Ami ficou em silêncio, olhando para a amiga, que parecia realmente preocupada. Mas o que elas podiam fazer agora? A única coisa que Ami podia ver é que elas não tinham como interferir nas decisões de Serena, e sem Darien por perto o campo estava livre para Seiya. Após alguns minutos de reflexão, Ami notou que se alguém tinha força para resolver esse imbróglio, essa pessoa era Mina.

  “Sabe de uma coisa, Mina?” falou Ami, “Acho que você sabe o que fazer?”

  “Eu? Não sei o que você quer dizer com isso.”

  “Sabe, sim,” continuou Ami, com a expressão mais calma do mundo, “Não está se sentindo culpada por ter tirado Darien da jogada? Então você sabe exatamente como expiar essa culpa,”

  “Mas...” Mina ainda tentou dizer.

  “Nada de mas. Sei que você sabe o que fazer. Vá em frente!”

  “Ami, você acha que consigo...”

  “Acho,” interrompeu Ami, antes que Mina perdesse a coragem que começava a despontar em seu peito, “Não perca mais tempo!”

  Trocando olhares de força, Mina saiu correndo porta afora.

 

  Serena estava saindo do banheiro quando encontrou Seiya no corredor, bloqueando a passagem.

  “Você pode me dar licença?” pediu Serena, olhando para o chão.

  “Acho que temos um assunto pendente, não?” disse Seiya, sem sair do caminho.

  “Eu não tenho nenhum assunto a tratar com você,”

  “Pois eu me lembro muito bem que na hora que fomos interrompidos pela crise de Mina você estava prestes a me dar uma chance,” continuou ele, segurando a mão de Serena.

  “Eu não ia te dar nenhuma chance. Você que estava se aproveitando de um momento de fraqueza,” respondeu Serena, olhando para Seiya.

  “Isso não é verdade, Serena,” disse Seiya, “Eu sei muito bem quando uma mulher quer alguma coisa ou quando está sendo forçada. E você queria me beijar.”

  “Não! Eu não queria!” exclamou Serena, “Eu não estava sendo forçada, claro, mas estava frágil e você com seu jeito doce estava me envolvendo, para que eu não conseguisse refletir se era aquilo que eu realmente queria.”

  “Por que você não abaixa a guarda?” indagou Seiya, aproximando-se de Serena com um ar inocente e sedutor, “Como eu já disse, eu só quero uma chance, uma única chance...”

  Antes que ela pudesse falar qualquer coisa, Seiya encostou-a contra a parede, beijando-a ardorosamente. No início Serena tentou resistir, mas logo deixou-se levar pelo sentimento contido naquele beijo.

 

  Toda aquela conversa sobre Darien e Serena fez com que Ami sentisse uma enorme saudade de Yan, uma dor tão profunda que tirava todo ar de seus pulmões.

  “Mas será que devo ir lá agora?” Ami pensou alto, “Ainda é dia...”

  Ficou andando de um lado para o outro na sala, e resolveu ir estudar magia, pois assim ela arranjava outra coisa para se preocupar. Contudo, ao virar no corredor, deu de cara com Serena e Seiya, que se beijavam, totalmente entregues um ao outro. Antes que eles a vissem, Ami voltou correndo para a sala.

  “Agora mais essa...” continuou Ami a conversar com si própria, “Mas eu sabia que ela não ia resistir por muito tempo...”

  Ami pegou sua bolsa, um casaco, e saiu de casa, andando calmamente pelas ruas. Ela mesma já se sentira atraída por Seiya no passado. Embora Taiki fizesse muito mais o seu tipo, Seiya tinha um jeito que conquistava qualquer garota. Era sua maneira de olhar, de falar, de andar... Um charme inexplicável. Ami se lembrava bem das noites que passara acordada pensando em Seiya, ouvindo a voz dele em seus sonhos; aquela fora uma boa época, apesar de todas as lutas.

  Afinal, as lutas simplesmente iam e voltavam, era algo inevitável. Elas bem que tentaram se libertar para sempre dessa sina, mas por forças que Ami não conseguia compreender, acabaram voltando ao mesmo ponto. Era uma roda-gigante, que gira mil vezes, mas você sempre acaba saindo no mesmo lugar que entrou. No passado ao menos elas eram adolescentes, viviam o começo da idade adulta a todo vapor, mas agora... Agora os problemas só aumentavam. Serena e Darien, Mina e seu vampirismo, Lita e suas relações sempre complicadas, Ami com um... um assassino.

  Ao pensar nisso, Ami se chocou com as coisas que estavam passando em sua cabeça, ela não podia reviver esse dilema de ficar ou não com Yan. Essa era uma história passada, resolvida, e ela já estava correndo perigo por ter aceitado entrar nesse jogo de inimigos de elite. E já que quem está na chuva é pra se molhar, Ami seguiu para o esconderijo de Yan.

 

  “Isso não é justo,” murmurou Serena quando Seiya afastou seus lábios dos dela.

  “Isso é a vida,” respondeu ele, tentando incorporar todos os sentidos que aquela frase poderia ter.

  “Estar com você me faz sentir viva de novo,” falou Serena, olhando diretamente para Seiya, “e me sinto mal por me sentir viva enquanto minha filha morre. Entretanto, é diferente de quando estava com Darien, pois de uma forma ou de outra, os seus beijos me fazem sentir vingada,”

  “Você acha que trair o Darien comigo é um castigo pelo que aconteceu entre ele e Rey?” perguntou Seiya, embora já soubesse a resposta.

  “Sim,” confirmou Serena, “E embora não pareça, é exatamente a mesma situação. Estar nos seus braços me tira do sério, eu perco a razão, não domino o meu próprio corpo. Mas sei que só me sinto assim porque, no fundo, eu quero os seus beijos.”

  “Você está carente,” constatou Seiya, afagando os cabelos de Serena.

  “E como nunca,” disse ela, com um suspiro nervoso, “por isso que eu não respondo por mim quando estou com você. É um misto de desforra com desejo, uma combinação explosiva,”

  “Então você vai gostar do que eu tenho a lhe dar,” falou Seiya com um olhar oblíquo, “tanta coisa... muito mais que simples beijos,”

  Ele segurou os ombros de Serena com delicadeza e força, beijando seu pescoço esguio. As mãos de Serena abraçavam-no, acariciando suas costas com vigor. Tudo teria acontecido ali mesmo se eles não tivessem ouvido Finna descendo as escadas.

  “Vamos?” perguntou Finna para Serena, que ainda se recompunha, um pouco sem graça. “E você, Seiya, acho que é melhor que não fique por perto... pode desconcentrá-la...” a bruxa adicionou com um riso de preocupação enterrado no canto da boca.

  “Pode se esquecer de mim,” falou Seiya, indo em direção a porta, “vou sair e fazer umas pesquisas de campo...”

  Finna olhou fixamente para Serena e, sem querer tocar mais naquele assunto, a guiou para o jardim dos fundos.

 

  Com muita dificuldade, Ami conseguiu encontrar a trilha que levava até a choupana onde Yan estava escondido. Era um local de acesso problemático, mas até que não parecia tão mal, pois a cabana estava bem conservada. Ela bateu na porta, se anunciando.

  Após ficar alguns minutos parada ante a porta, Ami começou a ficar preocupada, pois Yan não aparecera para deixá-la entrar. Se ele não estivesse lá, onde mais poderia estar? Distraída com tais pensamentos, levou um grande susto quando uma mão saiu por uma fresta da porta e puxou-a sem a menor delicadeza para dentro.

  “O que está fazendo aqui a essa hora, Ami?” perguntou Yan, um tanto alterado, “Onde está com a cabeça, alguém poderia te ver!”

  Ami nem conseguiu responder, atônita com aquele lugar. O que parecia tão bom do lado de fora, era um verdadeiro horror do lado de dentro. A madeira era úmida, o chão de barro, com lugar para acender um pequeno fogo no meio. Uma esteira de palha era a cama de Yan, que contava com dois cobertores (as únicas coisas em bom estado que ela podia ver) para se poupar do frio. Uma mala com as roupas de Yan ficava ao lado da esteira. Sem ouvir nada do que ele dizia, Ami se jogou nos seus braços.

  “Como você está vivendo aqui, Yan?” disse ela, “é tão horrível...”

  Isso quebrou o véu de irritação que estava sobre Yan, pois esta fora a única reação que ele não previra. Podia ver pela aura de Ami que ela estava preocupada, mas nunca podia adivinhar que agiria daquela forma.

  “Não é tão ruim assim,” falou ele, tentando acalmá-la.

  “Como não?” Ami respondeu indignada, “Não há um banheiro, água a disposição, cama adequada... nada!”

  “Foi o melhor que deu pra arranjar, Ami,” começou Yan, sentando-se com ela na esteira, “qualquer outro esconderijo melhor já seria conhecido, qualquer lugar com eletricidade ou telefone poderia ser rastreada... Ou é isso, ou a morte,”

  “Mas como está conseguindo viver aqui?” perguntou Ami com lágrimas nos cantos dos olhos.

  “Há um riacho aqui perto. Durante a noite, vou até lá, tomo banho e pego água para o dia seguinte.”

  “Isso é perigoso, esse lugar deve estar cheio de bichos!” exclamou Ami.

  “Ami, alguém como eu não tem medo de simples animais,” falou Yan, “eu dei a Hydrargiros para você, mas ainda tenho outras armas. E os animais que pego durante a noite servem muito bem como comida para o dia,”

  “Isso não pode ficar assim, tem que haver um jeito que você escapar dessa!” disse Ami.

  “Assim que tiver, nós agarraremos essa oportunidade, até lá... Até lá você não pode vir aqui em plena luz do dia!” Yan ralhou com Ami, mas agora com muito mais carinho na voz.

  “Desculpe, mas eu tomei cuidado. Estava com tantas saudades...” murmurou ela.

  “Eu sei que você foi cuidadosa, mas saiba que está lidando com gente muito esperta. Não deve fazer mais isso,” afirmou ele.

  Ami pediu desculpas mais uma vez com o olhar e Yan, antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa, beijou-a, apagando todos as preocupações da face de Ami. Agora só existiam no mundo ele e ela.

 

  “Sim, ela veio,” uma mulher morena com cabelos perfeitamente cacheados falou no celular. Os ramos de um arbusto teimavam em raspar em seu rosto, arranhando-a. Ao desligar o celular, ela olhou para uma cabana entre as árvores e sorriu prazerosamente.

  “Nunca subestime Dolores Martinez, garotinha,” murmurou ela.

 

  Serena sabia o quanto aquilo tudo era importante, e que se não aprendesse logo a essência da magia negra a vida de Hikari estaria perdida. Sem dúvida sua filha era o que Serena mais amava em todo o mundo, mas não conseguia parar de pensar em Seiya. Mesmo após ele ter saído da casa e Finna ter começado a aula, Serena só enxergava Seiya em sua frente e, se fechasse os olhos, lá estava ele, estampado em sua mente. Esse seria um dia difícil.

  “Finna,” começou Serena, tentando pensar em outra coisa, “qual é exatamente a diferença entre a magia branca e a magia negra?”

  “É muito simples, Serena,” respondeu Finna, reconhecendo que Serena estava se esforçando para não dispersar seus pensamentos ainda mais, “a magia branca só consegue realizar qualquer feitiço que de alguma forma esteja ligado aos quatro elementos: fogo, água, terra ou ar. A magia negra, por sua vez, tem uma amplitude muito maior,”

  “E vou começar aprendendo o quê?” interessou-se Serena.

  “Bem,” disse Finna, pensando com seus botões, “Acho que se o objetivo é lutar com Titã, a primeira coisa que você deve aprender são os feitiços que lidam com eletricidade,”

  Serena abriu um sorriso tímido, embalado pela esperança de ver sua filha novamente.

 

  Darien foi surpreendido quando o amigo de Finna que agora lhe abrigava veio avisar que uma moça loira estava esperando por ele na sala. Instintivamente, seu coração começou a dar saltos de ansiedade em seu peito, e Darien desceu correndo como um garoto. A segunda surpresa do dia foi quando ele viu, sentada no sofá, Mina, ao invés de Serena.

  “O que faz aqui?” perguntou ele desconfiado.

  Mina virou-se para ele, pensando em como introduziria aquele assunto tão delicado. Além disso, o relacionamento entre ela e Darien estava meio balançado desde a última conversa que tiveram, na qual ela fora um tanto dura demais com ele.

  “Como vai, Darien?” cumprimentou Mina, um pouco sem jeito de começar a conversa. Darien sentou-se no sofá, de frente para Mina, e olhou-a com uma expressão confusa.

  “Acho que você não veio aqui para ver como eu estou, não é?” indagou ele, “Conte logo a que veio. Mina Aino não é uma mulher de rodeios,”

  Mina sentiu na última frase de Darien um tom de descontração, e ele pareceu estar aberto a conversar com ela, não estava magoado com as coisas que ela havia lhe dito.

  “Darien, algo muito chato aconteceu...” começou Mina, “Quer dizer, está acontecendo...”

  “O quê?” interessou-se ele, com uma curiosidade que adquiriu de Serena após alguns anos de casados.

  “Bem, uma pessoa chegou lá em casa...” falou ela com a voz trêmula, indecisa, “na casa de Finna, e está morando conosco e...”

  “Quem é, Mina? Está me deixando nervoso,” disse ele, esfregando as mãos uma na outra.

  “É... o... lembra-se... o Seiya...” ela concluiu, esperando pela reação de Darien. Inicialmente ele ficou estático, sem saber o que pensar, mas uma chama logo acendeu em seu coração.

  “O Seiya? O que ele está fazendo aqui? O que ele pretende com isso?” exaltou-se Darien, o olhar exigindo respostas de Mina.

  “Ele estava de volta a Terra e nos procurou, até finalmente encontrar,” explicou Mina, “Ele quer nos ajudar com Hikari, mas...”

  Mina hesitou, e a pausa criou um clima de tensão entre os dois. Os olhos de Darien estavam arregalados, esperando uma definição por parte de Mina, que por sua vez não sabia como dizer o que estava realmente acontecendo. Ela começou a suar frio.

  “Mas não é só isso,” falou ela, decidida a ir até o fim, “Ele quer conquistar Serena de uma vez por todas. E não está poupando esforços,”

  “O que você pretende dizer com não está poupando esforços?” perguntou Darien, controlando sua vontade de ir na casa de Finna agora e arrancar Serena de lá.

  “É melhor não entrar em detalhes, não estou aqui para fazer fofoquinhas,” Mina desviou o assunto, “o que importa é que temos que fazer alguma coisa, planejar o contra-ataque!”

  Darien levantou-se em silêncio, e deu algumas voltas na sala, pensando no que fazer, em como agir, acalmando seu ímpeto de sair fazendo uma loucura. Quando tinha se acalmado, sentou-se novamente.

  “Mina, é muito interessante você vir ate aqui falar isso,” começou Darien, “pelos últimos acontecimentos, achei que você estaria dando saltos de alegria por Serena estar se envolvendo com outro homem que não eu,”

  “Não é bem assim,” agora era a vez de Mina explicar-se, “Eu realmente não engoli aquele ‘assunto’ entre você e Rey, mas eu sei reconhecer um amor verdadeiro de um caso fugaz. Mais que isso, quando incentivei você a sair de casa, eu não queria que se separasse para sempre de Serena, pois tal coisa é contra o destino, queria apenas que você sentisse a falta dela, para dar mais valor a minha querida amiga”

  “Entendo,” murmurou Darien, “acho que já se meteu demais entre nós dois, Mina, deixe-nos resolver nossos problemas sozinhos,”

  “Você não vai fazer nada? Ou não quer minha ajuda? Eu sei que me meti demais, mas não me perdoa pelos meus erros...?” insistiu Mina, não querendo sair dali sem poder ajudar.

  “Não é isso,” falou Darien, “Eu não tenho que te perdoar por nada, você só queria ajudar. Só que eu não sei se podemos fazer alguma coisa, ou se devemos fazê-lo. Quem sabe Serena mereça uma outra chance de amar,”

  “Mas que bobagem! Não podermos desafiar o destino de novo!” exaltou-se Mina.

  “Eu não quero saber de destino! Sei que fiz Serena muito infeliz, e por isso talvez seja melhor para ela encontrar outro homem que ela ame!” Darien estava também exasperado, “E se Seiya largou o mundo dele para procurar Serena, é porque ele a ama de verdade,”

  “Mesmo assim, Darien,” tentou Mina.

  “Vamos combinar uma coisa então,” sugeriu Darien, “você volta para casa, fica de olho nos dois, tenta conversar com Seiya, ou com Serena, ou até com os dois, e amanhã você volta. Eu vou refletir bastante sobre isso e amanhã terei uma posição mais clara,”

  Mina levantou-se, sentindo que a conversa tinha terminado. Ao menos ela ganhara uma nova chance para o dia seguinte.

  “Certo,” concordou Mina, despedindo-se, “Mas pense bem, pois ir contra o destino já colocou-nos em apuros uma vez,”

  “Se o destino realmente tiver todo esse poder, nós não conseguiremos fugir dele,” falou Darien, dando um beijo de despedida na face direita de Mina, o que a pegou desprevenida, “Mina, obrigado por tudo,”

  Ela então saiu, e assustou-se quando viu que o sol já estava acabando de se pôr, pois não imaginara o quanto tempo tinha ficado conversando. E com a noite, logo viria a fome.

 

  Aquele dia tinha sido particularmente angustiante para Hiroi, pois Verda não aparecera para trabalhar e ninguém tinha notícia nenhuma dela. Estava praticamente desaparecida, e Hiroi só não temia por sua vida porque Titã tinha lhe dito que os dois continuariam a trabalhar juntos. Contudo, ele não conseguia imaginar o que estaria acontecendo.

  Por volta das 8 horas da noite, Hiroi resolveu encerrar o expediente daquele dia. Distribuiu as últimas tarefas e monitoramentos para os plantonistas, escreveu seu relatório diário e fechou sua sala particular. Saiu então em uma discreta caçada em busca de Verda. Passou por todos os refeitórios do palácio, perguntou para as pessoas, checou todos os laboratórios que Verda supervisionava, mas nenhum sinal dela. Estava começando a ficar com medo de alguém perceber sua movimentação suspeita e denunciá-lo para Titã, mas fofocas não eram muito bem recebidas dentro do palácio, pois todos tinhas ojeriza à traição e, desde que Hiroi não estivesse fazendo nada que ameaçasse o palácio ou Titã em pessoa, ninguém interferiria.

  Após muito procurar, Hiroi percebeu que o único lugar que ele ainda não tinha checado foi o único ao qual ele não tinha acesso, o terceiro andar da torre norte, área privativa de Titã. Além dele, lá só entrava Verda, e nunca ninguém tinha ousado invadir o lugar. Na verdade não havia motivo, pois lá só ficavam os quartos de Titã, Verda, e mais um há muito desocupado.

  Por causa dessa falta de interesse, o lugar não tinha muita proteção, apenas um guarda em cada turno, que era trocado de 6 em 6 horas. Isso significava que o guarda tinha entrado às 18 horas e o próximo só entraria à meia-noite. Se algo acontecesse, provavelmente não haveria ninguém por perto para substituí-lo. Além do mais, os guardas não eram a maior proteção do local, pois as portas eram protegidas por magia, sendo que só Verda ou Titã conseguiam abri-las.

 

  Quando Hiroi estava no primeiro andar da Torre, encontrou com uma amiga de Verda, que por acaso já tinha sido sua amante em uma ocasião. Na verdade Hiroi nunca a amara, tinha apenas se envolvido com ela para tentar descobrir algo mais sobre Verda, plano no qual não teve sucesso. Entretanto, a moça nunca soubera disso e, como metade das mulheres daquele palácio, sentia-se atraída por Hiroi mesmo depois de ter sido abandonada.

  “Hiroi, o que faz por aqui?” perguntou ela, jogando para trás seus longos cabelos negros.

  “Lysa, eu te pergunto o mesmo,” falou ele, olhando diretamente para ela, “De onde você está vindo? Pelo que me lembro, o seu quarto fica na ala sul do palácio,”

  “Que bom que ainda não esqueceu, pois já faz tempo que não aparece por lá,” disse Lysa, colocando sua mão no ombro de Hiroi.

  “Como se eu pudesse esquecer,” brincou Hiroi cinicamente, “Mas ainda não me respondeu o que faz por aqui...”

  “Ah, sim,” começou ela, um pouco desanimada por Hiroi ter mudado de assunto, “Eu vim ver se Verda está bem, pois ela tinha combinado almoçar comigo e não apareceu,”

  “E como ela está?” perguntou Hiroi com brilho nos olhos. Talvez não fosse necessário arriscar a sua segurança e a de Verda para ter notícias.

  “Eu não sei,” respondeu Lysa, com mais desânimo ainda, “O guarda disse que Verda está impossibilitada de receber visitas hoje, que amanhã ela entraria em contato comigo,”

  Isso deixou os nervos de Hiroi à flor da pele. Verda estava trancada, incomunicável, e tal coisa não poderia ser bom sinal.

  “Mas o que você está fazendo aqui?” Lysa perguntou novamente a Hiroi.

  “Vim visitar uma amiga no segundo andar,” disse ele, utilizando toda a sua sabedoria de conquistador. Ao ouvir aquilo, Lysa lançou-lhe um olhar de desprezo e foi embora. Ela bem sabia o tipo de “amiga” que Hiroi visitava durante a noite.

  “É, a minha reputação não anda nada boa...” murmurou Hiroi para si mesmo. Subiu então até o segundo andar, entrando no primeiro quarto à esquerda, que estava desocupado. Ele pertencera a uma outra “amiga” de Hiroi, que tinha se mudado para a zona oeste do palácio por desobedecer a uma pequena ordem de Titã. O quarto ainda estava em bom estado, esperando para ser ocupado novamente.

  Assim que entrou, certificou-se que a janela estava fechada e concentrou-se em seu feitiço.

  “Ser do fogo, apareça! Serve seu mestre e seja efêmero, apareça, Fátuos!”

  Assim que Hiroi acabou seu feitiço de conjuração, uma chama com forma e tamanho de um homem adulto apareceu na frente de Hiroi, iluminando um pouco o recinto.

  “Fátuos, meu servo,” começou Hiroi, “O seu serviço é simples. Vá até o terceiro andar, lance uma chama sobre o guarda, e então desça correndo. Ele perseguirá você e, quando estiverem longe da torre, desapareça,”

  Hiroi era um ótimo conjurador e suas crias eram extremamente inteligentes e obedientes, sendo que não precisou que Hiroi repetisse seu comando para que Fátuos o obedecesse. Em alguns segundos, Hiroi ouviu o guarda descer as escadas e então saiu rapidamente do quarto, antes que chegassem outras pessoas, atraídas pela confusão.

  O lance de escadas para o terceiro andar era extenso, mas Hiroi estava em ótima forma física, de modo que logo estava na porta do quarto de Verda.

 

  Verda mal tinha se levantado da cama naquele dia. Mesmo utilizando alguns feitiços para acelerar a cicatrização de seus machucados, eles ainda estavam latejando e doendo, pois as armas de Titã também eram encantadas. Alguns ainda manchavam levemente sua camisola de sangue.

  Ela também mal conseguia dormir, tanto pela dor como pelos milhões de pensamentos e sentimentos conflitantes que passavam por sua cabeça e coração. Coração este que deu um pulo ao ouvir a voz de Hiroi chamando por ela na porta.

  “Abra, Verda, rápido!” pedia ele.

  Verda abriu a porta sem pensar, trancando-a logo após que Hiroi havia entrado. Só de imaginar o que aconteceria com ele caso alguém o pegasse no corredor da área privativa de Titã, Verda estremecia. Hiroi mal conseguiu olhar para ela antes que Verda começasse a falar, a única coisa que percebeu foi que ela estava com profundas olheiras e parecia mais pálida que nunca.

  “O que está fazendo aqui, seu louco?” perguntou Verda, gritando baixo para não ser ouvida.

  “Você desapareceu! Eu precisava saber o que está acontecendo!” exclamou ele em resposta.

  “Se alguém nos pegar aqui, estamos mortos,” disse ela, com o coração aos pulos.

  “Então me diga porque está incomunicável,” pediu Hiroi.

  Contudo, não houve tempo de Verda responder. Mais rápido do que Hiroi imaginara, eles ouviram a voz de Titã no corredor, brigando com o guarda por causa de ter deixado aquele “maldito ser de fogo” escapar.

  “Rápido, entre embaixo da cama!” falou Verda, enquanto ela própria se jogava em baixo dos lençóis, fingindo estar descansando. Quase naquele momento, Titã entrou bruscamente no quarto.

  “Como vai, Verda?” perguntou ele, com uma voz doce, totalmente diferente daquela com que estava esbravejando no corredor.

  Verda ergueu os olhos para ele, muda. Titã sentou-se na cadeira que ficava de frente para a cama e sorriu para ela.

  “Esses guardas...” começou ele, calmamente, “não se pode mais confiar neles...”

  Verda permaneceu em silêncio, amedrontada pelo jeito estranhamente carinhoso de Titã.

  “Venha aqui, querida,” pediu Titã, abrindo os braços. De onde Hiroi estava, ele conseguia ver claramente a cadeira onde Titã estava sentado. Verda levantou-se devagar, indo até Titã, que a abraçou. Verda gemeu de dor quando as mãos de Titã roçaram nos ferimentos de suas costas.

  “Ainda dói muito, querida?” perguntou ele, com um estranho misto de sarcasmo e preocupação, “Vou fazer um feitiço para diminuir sua dor,”

  Hiroi não pôde entender o que ele dizia, mas entendia menos ainda do que eles falavam. Que ferimentos eram aqueles?

  “Obrigada,” agradeceu Verda, ao sentir a dor diminuir gradativamente.

  “Como passou o dia?” perguntou Titã.

  “Mau,” respondeu ela secamente, “ninguém me trouxe comida o dia inteiro, além de toda dor,”

  “É, Verda,” disse Titã, “aqui se faz, aqui se paga. Mas a partir de amanhã, tudo vai melhorar,”

  Hiroi estava abismado com tudo que ouvia, mas seu estômago revirou quando viu Titã beijar Verda ardorosamente. Ele fechou os olhos para se poupar daquela cena revoltante.

  “Eu vou cuidar de você agora,” sussurrou Titã, beijando Verda novamente e levando-a até a cama. Verda respondia glacialmente aos carinhos de Titã, fazendo o possível para que ele não se enfurecesse novamente com ela e acabasse percebendo que Hiroi estava embaixo da cama. Quando Hiroi abriu os olhos, viu a camisola de Verda cair ao pé da cama.

  Ele tinha vontade de vomitar com toda aquela situação. A cada barulho incriminador, a cada gemido que ouvia, Hiroi sentia um aperto no coração, uma vontade louca de matar Titã ali mesmo. Contudo, sabia que se tentasse algo contra ele, seria morto, pois Titã era extremamente poderoso. Verda seria punida também, poderia até morrer. Além disso, outros pensamentos passavam por sua mente, pois aquela situação lembrava a ele próprio. Quantas vezes tinha sido tão canalha como Titã? Quantas vezes não pensara nem por um segundo nos sentimentos da mulher com quem estava se deitando? Certamente já magoara muitas mulheres e já tinha sido tão vil como Titã estava sendo. De repente, tudo que já tinha feito começou a povoar sua mente, como um carrossel dos horrores. Estava com nojo de si próprio quando foi interrompido pela voz de Titã.

  “Verda, Verda...” começou ele, “Já estou ficando cansado desse seu jeito gélido comigo. Você sabe muito bem que eu gosto de mulheres quentes, apaixonadas... Saiba que quem tem muito a perder aqui é você. Não sou eu quem guarda segredos mortais...”

  O coração machucado de Verda saltou quando Titã falou sobre seu segredo. Ela sentiu medo que ele falasse mais alguma coisa, pois não queria que Hiroi soubesse de nada. Contudo, estava fraca demais para reagir ou para falar, Simplesmente ficou observando Titã se vestir e sair do seu quarto.

  Assim que viu a porta se fechar, Hiroi pegou a camisola de Verda e saiu de seu esconderijo. Ao ter a camisola em suas mãos, viu as pequenas manchas de sangue que pontilhavam o tecido.

  “Verda, o que é isso...?” ele ia perguntando quando ergueu os olhos para a cama. Verda estava largada sobre os lençóis, nua, totalmente sem expressão. Ao olhar para ela, Hiroi viu os vergões, as feridas e os hematomas que cobriam grande parte do seu corpo. Ele ficou sem ação, pois a nudez da mulher que amava era totalmente insignificante perante o estado calamitoso em que ela se encontrava. Hiroi deu a volta na cama e ajoelhou-se ao seu lado, cobrindo-a com um lençol e acariciando os seus cabelos.

  “Agora você sabe...” murmurou Verda, não muito lúcida.

  “Não fale nada, não fale...” disse Hiroi, apertando com firmeza a sua mão.

  “Hiroi, deite aqui... me abrace...” ela pediu num fiapo de voz.

  “Não, eu não posso...” respondeu Hiroi, atônito com o convite, “não nessa cama,”

  “Não se prenda a bobagens,” falou Verda, “eu preciso... preciso tanto de você...”

  Ela olhou para ele quase que suplicando, e Hiroi deitou ao seu lado sobre o lençol. Verda virou-se, apoiando a cabeça em seu peito e jogando o braço sobre o corpo de Hiroi. Então caiu num sono profundo.

 

  Ami acabara pegando no sono na esteira da cabana mesmo. Yan tinha coberto ela com um cobertor para que não sentisse frio, e preparava uma sopa no fogareiro que havia acendido. Ami acordou em silêncio e vestiu sua calça, que estava ao lado da esteira. Yan se virou.

  “Já acordou, Bela Adormecida?” brincou ele.

  “É muito tarde, tenho que voltar, Yan,” falou ela, preocupada.

  “Ah, Ami, já que você veio até aqui, fique mais um pouco,” Yan começou, “Estou preparando uma sopa para nós com os últimos legumes que trouxe na minha bagagem,”

  “Está certo, não vou fazer essa desfeita,” concordou Ami, pensando em como todos ficariam preocupados com ela. Entretanto, o amor falou mais alto e ela se sentou ao lado de Yan.

  “Está um cheiro ótimo,” murmurou no ouvido dele. Yan mexeu a sopa e deu uma prova para Ami no dorso da sua mão. Ela beijou a mão de Yan, degustando a amostra de sopa, e deu um sorriso de aprovação.

  “Não sabia que um filhinho de papai como você sabia cozinhar,” ela disse rindo.

  “Um agente tem que saber muitas coisas, não importa qual seja sua situação social ou financeira,” respondeu ele, surpreendendo Ami com um beijo. Ela deixou-se envolver pelos braços de seu amado, que ainda há pouco acariciavam seu corpo.

  “Acho que está pronta,” falou Yan, levantando-se para servir a sopa para os dois em cumbucas de barro. Logo estavam se deliciando com a sopa, pois a fome já estava grande.

 

  Mina voltava para casa lentamente, andando como uma tartaruga. Ela não sabia o que fazer, não estava acostumada com sua nova situação. Já sentia os primeiros indícios da fome, uma pequena mas incessante dor de cabeça. O nervosismo aumentava à medida que se lembrava do dia anterior, de como tudo aquilo fora horrível; não queria sentir tal dor novamente, mas também ainda não conseguia se convencer que a única forma era... matando. Ainda confusa com o que faria, decidiu que até chegar a uma conclusão não voltaria para casa, já que colocaria vida de todos em risco.

 

  Yan estava juntando os utensílios sujos em um saco de estopa enquanto Ami o observava. Yan parecia tão absorto em seu trabalho, era tão meticuloso com tudo... E mesmo assim seu pai não dava a ele o valor que merecia. Era tudo tão triste que Ami chegava a perdoá-lo por ele ser um assassino.

  “Ami, eu vou sair agora,” disse ele após ter arrumado tudo, “vou até o rio limpar essas coisas e tomar um banho, e volto em mais ou menos uma hora,”

  “Não!” exclamou Ami, “Eu não vou ficar aqui sozinha, prefiro ir com você,”

  “Está louca? É muito perigoso para você,”

  Ami intimamente achou graça do que Yan falava, se ele soubesse da metade dos perigos que ela já havia passado como uma Sailor Senshi, ele não a trataria como uma frágil boneca de porcelana.

  “Não se preocupe comigo, Yan,” disse Ami, “Só me deixe ir com você porque não vou agüentar uma hora de espera sozinha nessa cabana,”

  Vendo que não adiantava discutir, pois a aura de Ami mostrava que ela seria irredutível quanto àquele ponto, Yan concordou. Ami pegou sua bolsa e levantou-se para sair.

  “Não precisa levar isso, Ami,” falou ele, sem entender porque  ela ia precisar de uma bolsa ali.

  “Preciso sim,” retrucou Ami, “uma mulher nunca se separa de sua bolsa,”

  Yan abanou a cabeça, ainda sem compreender o que se passava na cabeça das mulheres. Juntos, os dois saíram sem fazer barulho para não chamar a atenção dos animais.

  Mas um vulto que saíra detrás de um arbusto já os seguia.

 

  Quando estavam caminhando há cerca de 10 minutos, Yan deu uma pausa, pois parecia ter ouvido algo. Contudo, o silêncio encontrado os fez continuar. Faltava pouco para chegarem ao riacho quando Yan virou-se ao ouvir um galho se partindo, assim que olhou na direção do barulho, viu um brilho inconfundível: o resplandecer de uma aura humana.

  “Abaixe-se!” gritou ele, se jogando sobre Ami para que os dois caíssem no chão a tempo de verem uma bola de fogo queimar o lugar onde estavam há alguns segundos.

  Ami olhou assustada para as cinzas em que as plantas tinham se transformado. Yan pediu a ela que ficasse abaixada até segunda ordem, pegou uma arma negra como o ônix e levantou-se silenciosamente. Sabia que como o atacante tinha errado o ataque surpresa, agora ele estava em vantagem, pois podia ver onde ele estava devido o brilho de sua aura. Protegeu-se atrás de uma árvore e atirou contra o vulto que os perseguia.

  Com a agilidade de um puma, Dolores desviou-se do tiro mortal que quase lhe atingira. Ficou deitada no chão, pois como a vegetação rasteira era muito densa, sabia que dessa forma Yan não conseguiria enxergar sua aura. Que azar ter errado! Mas não havia tempo para lamentações, pois ele logo a encontraria. Usando uma técnica desenvolvida especialmente para adversários como Yan, Dolores usou o máximo de sua energia mental para diminuir o brilho de sua aura. Era uma espécie de retração, pois a aura não desaparecia, apenas entrava dentro do corpo.

  Quando se sentiu pronta, decidiu partir para o tudo ou nada. Lembrava-se bem de onde viera o tiro que quase lhe atingira e para lá que lançou uma de suas bolas de fogo, que bateu contra a árvore, começando um pequeno incêndio. Isso iluminou um pouco o lugar e tanto Yan como Dolores podiam ver os vultos um do outro. Imediatamente, uma perseguição começou. Usando as árvores como proteção, trocavam tiros explosivos e bolas incendiárias, que logo havia transformado a floresta em um verdadeiro inferno. Yan tentava correr em direção à clareira do riacho, mas Dolores evitava isso a qualquer custo, pois seria uma área de grande risco.

  Ami permanecia abaixada, mas ver aquela guerra sem fazer nada a deixava muito angustiada. Não era de sua natureza se esconder. Pensou que seus poderes como Sailor Mercúrio seriam muito bem vindos, mas não queria se transformar na frente de Yan, pois ele não deveria se envolver na sua luta contra Titã. Aquela era um missão destinada apenas às Sailor Senshi, afinal. Contudo, deveria ter alguma forma dela ajudar.

  Yan movia-se quase que instintivamente. Já havia participado de muitas situações como aquela, mas disputar com um agente da LGA com certeza era diferente, um outro nível de conhecimento de batalha. Ele agora estava certo de que aquele vulto era ninguém menos que Dolores Martinez, e ela se mostrava à altura dele, desviando-se de todos os seus ataques e ainda arranjando muitas boas oportunidades para atingi-lo. Entretanto, após uma explosão causada  por Dolores, ele a perdeu de vista. Girando em seu próprio eixo, Yan sentia que ela estava preparando um ataque surpresa e, sem poder mais ver sua aura, ele se encontrava em grande desvantagem.

  Finalmente Dolores tinha conseguido despistar Yan. Ela estava cansada de brincar de gato e rato com ele, pois sua primeira missão nada tinha a ver com ele, mas sim com a segurança dos segredos da LGA. Fazendo quase barulho nenhum, Dolores seguiu o caminho de volta em busca de sua presa.

  Ami estava raciocinado sobre como podia ajudar sem ter uma morte certa. Olhando para sua bolsa, a Hydrárgyros apareceu em sua mente como uma mensagem de salvação, estava esticando a mão para dentro de sua bolsa quando uma bola de fogo passou raspando à sua esquerda. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, sentiu um corpo pulando sobre o seu  e enforcando-a com a mão.

  “Achou que podia escapar?” perguntou Dolores, esmagando o pescoço de Ami com sua mão esquerda e erguendo a direita para matá-la com uma de suas bolas de fogo.

  Contudo, Ami, alcançando a Hydrárgyros com a ponta dos seus dedos, agarrou-a e deu uma coronhada na cabeça de Dolores, que caiu para o lado. Com a leveza e destreza que só uma verdadeira Sailor Senshi possui, Ami inverteu o jogo e ficou de pé, atirando nela com a Hydrárgyros. Imediatamente, Dolores foi envolta na distorção do tempo, o que deu tempo para Ami preparar a Hydrárgyros para explodir aquela maldita para sempre.

  Yan chegou nesse momento, atraído pela luta entre as duas. Segurando o braço de Ami para baixo, ele impediu que ela atirasse.

  “Vamos tentar descobrir alguma coisa, antes,” disse ele, atirando com a sua arma na perna de Dolores. O campo de distorção temporal desapareceu e ela urrou de dor.

  “Traidor asqueroso!” gritou Dolores entre gemidos de sofrimento, “Até a Hydrárgyros você deu para essa vagabunda!”

  Yan abaixou-se ao lado de Dolores, irritado com seus insultos, e encostou o cano da arma na têmpora dela. O metal ainda estava um pouco quente do último tiro e queimou levemente sua pele.

  “Se eu fosse você, tomaria mais cuidado com o que diz,” ameaçou Yan.

  Puedes me matar,” retrucou Dolores, “Devia ter deixado tuya cuyo me explodir em pedaços,”

  Revoltado e cansado dessa conversa inútil, Yan atirou na outra perna de Dolores, que gritou mais uma vez. Ami sentiu o sofrimento dela; apesar de tudo, tortura era uma palavra que não existia no dicionário de Ami.

  “Quem te mandou aqui? Você contou a alguém sobre esse lugar?” perguntou Yan.

  “Não me venha com essas perguntas idiotas,” disse Dolorez, com as pernas encharcadas de sangue, “Sabe que cumpro ordens da LGA, praticamente diretas do seu pai. Quanto ao resto, deduza por si mesmo,”

  “Qual informação importante você vai me passar? Pense bem, pois ela pode valer a sua vida,” perguntou Yan, apertando uma das pernas de Dolores. Ami agarrou o seu braço e afastou-o da perna ferida.

  “Pare de torturá-la, Yan! Isso não é certo!” gritou Ami, angustiada. Dolores estourou em risos.

  “Que ángel mais politicamente correta!” bradou Dolores, “Ouça la sargento!”

  Yan estava confuso entre aquelas duas. Ele estava acostumado com lutas e torturas, mas isso parecia ferir Ami, e ela já estava agüentando muito para ficar com ele. Não era justo obrigá-la a aceitar mais isso. Ademais, Dolores não parecia tentada a colaborar. Yan levantou-se e atirou no peito de Dolores, um tiro certeiro.

  Tu es... es un necio... desperdiciaste tuya vida.... necio...” murmurou Dolores antes de morrer.

  Yan abraçou Ami, que estava tensa com toda aquela situação. Ele olhou dentro dos seus olhos.

  “Ami, aqui já não é mais seguro,” falou Yan, “logo outros agentes virão procurar Dolores. Tenho que fugir,”

  “Mas para onde?” indagou Ami, nervosa.

  “Ainda não sei. É melhor que você não saiba também,” respondeu Yan, “Vamos combinar o seguinte: você vai para sua casa, vai viver a sua vida o mais normal possível, tomar cuidado, sempre ficar atenta para ver se não está sendo seguida. Eu vou dar um jeito de sumir do mapa até achar um jeito de resolver essa situação. Quando tudo se resolver, a procurarei de novo,”

  “Mas, Yan!” exclamou Ami, “Como vou poder viver longe de você, sem saber sequer onde está!”

  “Ami, se não for assim, logo estaremos mortos!” explicou ele, “Hoje tivemos sorte, mas as coisas tendem a piorar. Eles a perseguirão, e quanto mais perto estiver de mim, pior será!”

  Ami ia reclamar, mas desistiu. Talvez Yan tivesse razão, e ela não podia morrer antes de ajudar Serena a salvar Hikari. Após isso estaria finalmente livre, e então iria atrás de Yan até o fim do mundo. Despediram-se com o beijo mais longo de suas vidas e Yan escoltou Ami até uma estrada na saída da floresta. Uns duzentos metros à frente ela encontraria um posto policial de onde poderia chamar um táxi, mas era mais seguro que Yan não fosse até lá. Trocaram olhares de adeus, corações partidos, e tomaram rumos opostos.

 

  Verda saiu da escuridão dos seus pesadelos e abriu lentamente os olhos, encontrando Hiroi ao seu lado, acordado. Ele olhava para ela com ternura, mas estava pensativo, nem conseguira pregar o olho. Verda sentiu lágrimas nos olhos ao pensar na sua própria situação e limpou-as com a palma da mão.

  “Desculpe por fazer você passar por isso,” disse ela, olhando para Hiroi.

  “Não precisa, você não teve culpa,” falou Hiroi, “Eu que invadi o seu quarto, afinal,”

  “Mesmo assim,” murmurou ela.

  “O que ele fez com você, Verda? Como ele pôde lhe machucar tanto?” indagou Hiroi, ainda assustado com a lembrança do corpo de Verda coberto por ferimentos.

  “Não importa, Hiroi, são águas passadas,” respondeu ela, tentando mudar de assunto.

  “Não são, não,” retrucou ele, “Foi por minha causa, não foi? Titã também me ameaçou,”

  “Ele ficou sabendo que eu beijei você,” declarou Verda, resolvendo encarar os fatos, “ficou tão irado, que me espancou quase até a morte, só não aconteceu o pior porque ele acha que se me matasse, eu estaria saindo vitoriosa disso tudo,”

  “Ainda dói?”

  “Não,” falou Verda, desviando o olhar, “Depois da magia que ele lançou em mim hoje, a dor praticamente desapareceu,”

  “Ele não queria, mas teve que tirar a sua dor,” Hiroi falou com pesar, “senão você despertaria o palácio inteiro com urros quando ele fosse transar com você,”

  “Não me lembre disso,” Verda abaixou a cabeça, tentando esquecer o que acontecera, “Há tempos já não sentia o mesmo prazer ao deitar-me com ele, mas hoje foi o ápice. Eu tenho repulsa só de pensar nas mãos dele sobre o meu corpo,”

  “Eu sou o culpado de tudo isso...” disse ele, desgostoso, “Se eu não te perseguisse, nada teria acontecido,”

  “Isso não é verdade,” rebateu Verda, “Sabe que eu que desejei beijar você, eu tomei a iniciativa. Só espero que agora você entenda quando digo que não sou livre e que você não pode me ajudar,”

  “Nunca, Verda, nunca!” exclamou Hiroi, acariciando seus cabelos, “Nós vamos encontrar um jeito de fugir daqui!”

  “Titã nunca vai me deixar partir, eu não posso fugir,” sentenciou ela.

  “Daremos um jeito, eu darei um jeito, Verda,” assegurou Hiroi, “Eu te amo,”

  Verda ficou totalmente sem palavras, as lágrimas escorriam desenfreadas. Hiroi ficou assustado com aquela reação tão incomum para mulheres como Verda.

  “O que foi? Está se sentindo mal?” perguntou ele.

  “É claro que não, bobo,” disse ela, rindo – era a primeira vez que Hiroi a via rindo, e mesmo abatida ela estava simplesmente linda, “é que jamais alguém tinha me dito isso,”

  “Isso o quê?” ele perguntou confuso.

  “Eu te amo,” falou Verda, calmamente, “Sabe, por muitos anos eu amei Titã, e por isso eu só conseguia enxergá-lo, só ele podia me conhecer de verdade. Agora, entretanto, eu percebo que eu estava enganada, que não fazia idéia do que era o verdadeiro amor. Nesse momento eu entendo o que significa amar, porque eu também te amo, Hiroi,”

  Hiroi viu nos olhos de Verda o brilho da sinceridade e seu coração se aqueceu. Finalmente ela estava se abrindo, abaixando as armas; estava na hora de deixar o amor entrar em sua vida.

  “Verda,” começou Hiroi, curioso, “me diga que segredo é esse que você esconde,”

  Ela se surpreendeu com a pergunta e se afastou de Hiroi, olhando-o com desconfiança. Esse assunto não deveria ser comentado.

  “É um segredo, como disse,” respondeu Verda, “não deve jamais sair da minha boca,”

  “Mas Titã ameaça você com ele,” insistiu Hiroi, “se eu souber do que se trata, posso ajudá-la a se libertar dessa ameaça,”

  “Ninguém pode me ajudar em relação a isso, Hiroi,” alegou ela, “Não vou revelar meu segredo a você,”

  “Mas revelou a Titã, não é?” Hiroi disse com ciúme.

  “Não,” Verda respondeu, “Eu não precisei contar a ele, pois Titã sempre soube. Como disse, nunca contei a ninguém e nem contarei, já que minha vida depende da manutenção desse segredo,”

  “Mas, Verda, o que...”

  “Não insista,” interrompeu Verda, colocando sua mão delicadamente sobre a boca de Hiroi. Contornou ser rosto com a ponta dos dedos, trazendo-o para perto a fim de beijá-lo. Com cuidado, Hiroi tomou-a em seus braços, apaixonado. Verda estava sendo levada pelos seus sentimentos quando parou subitamente de beijá-lo.

  “Hoje não, Hiroi,” pediu ela, “Estou ferida por dentro, meu coração dói com os últimos acontecimentos. Eu quero estar especial para você,”

  Ele assentiu com o olhar e beijou-a delicadamente antes de se deitarem abraçados, preparados para uma merecida noite de sono.

 

  Ami estava descendo do táxi quando viu Mina se aproximando e então resolveu esperar pela amiga. Sentia-se transtornada com todas as coisas que tinham acontecido nas últimas horas e suas mãos tremiam levemente. Ao ver Mina mais de perto, percebeu que ela também não estava nada bem.

  “Olá, Ami,” murmurou Mina, com a cabeça baixa.

  “Está tudo bem, Mina?” indagou Ami, sem saber o que pensar sobre aquele jeito estranho de Mina.

  “Não,” murmurou a loira, chorando, “Eu não sei por quanto tempo vou agüentar viver assim...”

  Mina ergueu a cabeça, e seus olhos foram diretamente guiados para uma mancha de sangue que estava na roupa de Ami. Os olhares das duas se encontraram e, sem mais palavras, se abraçaram longamente.

 

  A manhã surgiu com o sol despontando com um brilho fraco no horizonte, mas Serena ficou feliz por ouvir os pássaros cantando. Há um bom tempo não tinha esse privilégio, parecia que nos últimos tempos tinha se tornado surda, muda e cega. Todos os seus sentidos estavam atrapalhados, ela não conseguia ver as coisas claramente. Talvez ainda não pudesse, mas pelo menos já conseguia enxergar o mundo com um olhar mais suave.

  O barulho de passos descendo a escada do porão despertou Serena de suas reflexões. Virou-se rapidamente, e sentiu alívio quando viu que era apenas Mina que estava chegando, e não Seiya. Mal ela sabia qual era o assunto que trazia Mina até lá tão cedo.

  “Serena... já acordou?” perguntou Mina com um voz doce.

  “Sim,” respondeu Serena, sorrindo gentilmente para Mina, que se aproximou da amiga, segurando sua mão com ternura.

  “Como vai indo, amiga? Acho que nós não temos conversado muito nos últimos dias, não?” Mina começou, tentando abrir seu coração ao máximo, “Eu, Ami, você, Lita... todas nós estamos tão imersas em nossos próprios problemas...”

  “Mina, não se preocupe,” Serena disse com um brilho fraco no olhar, “Eu sei da força da nossa amizade. Ela não precisa de palavras para sobreviver,”

  “Eu também sei, mas acho que no meio de todo esse silêncio, acabei falando o que não devia,”

  Serena não entendeu o que Mina estava querendo dizer, e sentou-se para demonstrar que realmente desejava parar com meias conversas e ir direto ao assunto.

  “Serena, mesmo totalmente consumida por essa mudança que está acontecendo em minha vida, minha língua de trapo ainda arranjou um tempo para dar conselhos,” falou Mina, tentando desculpar-se com Serena, que continuava sem compreender nada, “E conselhos nunca são uma coisa boa...”

  “Mina, está me deixando preocupada,” disse Serena, “explique logo essa história,”

  “Eu me meti na sua vida, foi isso,” respondeu Mina, “Sabe, eu disse umas verdades para o Darien e não me opus quando ele disse que iria embora...”

  “Não precisa se preocupar com isso,” resmungou Serena, uma faísca de mágoa piscando em seu semblante, “ele teve o que mereceu,”

  “Não, não é verdade,” argumentou Mina, “Eu sei o quanto vocês se amam, e se me meti na vida de vocês, foi para que ele te desse o valor que você merece, minha amiga. Sabia que se ele ficasse um tempo afastado de você, ele perceberia como agiu errado e então daria um jeito de fazer as pazes com você,”

  Serena olhou para Mina com aprovação, pois o que a amiga estava dizendo fazia sentido. Ela só não entendia porque Mina estava tão preocupada com isso.

  “Mas agora tudo mudou, porque Seiya está aqui e Darien não!” exclamou Mina, demonstrando toda sua preocupação, “Serena, eu sei bem como o Seiya pode ser sedutor, e não é justo que ele se aproveite dessa situação que, em parte, eu ajudei a criar!”

  “Mina,” começou Serena com calma e decisão, “eu aprecio sua preocupação, mas eu sei me cuidar. Eu não sou mais uma adolescente para ser simplesmente ‘seduzida’ por um rosto bonito,” Serena agora parecia gélida e insensível, “E se era só isso, acho que nossa conversa acabou,”

  As duas se olharam profundamente, e Mina percebeu a postura altiva com que Serena sustentava o seu olhar. Mesmo em suas identidades civis, Serena às vezes demonstrava sua realeza inconscientemente, e Mina sabia que nada do que ela fizesse mudaria a opinião da amiga naquele momento. Serena não estava mais aberta a conversas, simplesmente pedia de um modo polido para que Mina se retirasse. Ao vê-la subindo as escadas, Serena, contudo, deixou seus sentimentos aflorarem novamente, e o seu pensamento fixou-se em Darien, por mais que ela lutasse contra isso. Essa indecisão tinha que ter fim, mas a própria Serena não conseguia enxergar além daquele momento conturbado, não conseguia enxergar nem o que estava escrito em seu próprio coração.

 

  Mina estava no corredor quando deu de encontro com Seiya, que estava indo ver Serena. Mina estava tão confusa sobre o que iria fazer que acabou explodindo ali mesmo.

  “Onde você pensa que vai?! Não percebe que vai acabar com a vida dela?!” Mina gritou, encostando o dedo indicador no rosto de Seiya.

  “Espere aí, Mina!” retrucou Seiya, o tipo de pessoa que não leva desaforo para casa, “Quem você acha que é para falar assim comigo? Eu faço o que bem entendo, e sei que isso vai salvar Serena, e não o contrário!”

  “Você não sabe de nada!” esbravejou Mina, “Nada! Você é um aproveitador!”

  Seiya agarrou o braço de Mina e a encostou contra a parede num gesto de revolta. Ela estava totalmente alterada, e Seiya se segurava para não brigar ainda mais com ela.

  “Mina, não acha que já tem coisas demais para se preocupar?” perguntou ele, “Não se meta entre nós, pois se eu conseguir conquistar Serena estarei fazendo um bem a ela. Ou não sabe que ela está sofrendo muito depois do que houve entre ela e Darien?”

  Mina desvencilhou-se de Seiya, ofegante. Sua mente começou a entrar nos eixos novamente, e ela percebeu que de nada adiantava brigar com Seiya. Ela o conhecia muito bem e sabia que ele tinha a mesma teimosia de Serena. Ergueu a cabeça para ir embora, mas antes olhou pra ele com firmeza.

  “Ela não ficará com você, pois só o quer como amigo. Ademais, o destino é contra a união de vocês dois,” disse ela e sai andando, deixando Seiya muito inquieto, embora ele não demonstrasse publicamente suas inseguranças.

  “Você está errada,” murmurou ele para si próprio, assim que Mina saiu do seu campo de visão, “Você tem que estar errada,”

 

  “... e é por isso que a escolha dos Conselheiros sempre é feita com cautela. Como líder de um reino, você terá que tomar decisões difíceis, e boas opiniões são sempre valiosas,”

  Rini mal estava ouvindo o que o seu mestre de Ciências Políticas estava dizendo. Ela tinha aulas diárias com ele, um homem de seus 30 anos, com cabelo castanho curto e olhos da cor do mais puro mel. Rini costumava se distrair olhando aqueles olhos que lhe pareciam tão misteriosos, mas nem isso estava chamando sua atenção. Mal tinha dormido, pensando na conversa que tinha tido com Plutão, e ainda uma sensação de ódio e desgosto vinha à sua mente quando pensava em Serena e Darien. A sala em que ela tinha aulas era o mais desinteressante possível, visto a facilidade de dispersão de Rini, mas isso de nada adiantava, pois quando ela tinha problemas acabava por ficar absorta em seus próprios pensamentos. Talvez por essa ser uma característica comum de Rini, Wanabe, seu professor, logo percebia quando sua pupila não estava prestando a menor atenção em seus ensinamentos e aquele estava sendo um dos piores dias.

  “Ei, princesa Serena, acorde!” pediu ele, estalando os dedos na frente de Rini. Ela olhou para ele com surpresa, como se nem tivesse percebido sua presença.

  “De-desculpe, professor...” murmurou Rini, envergonhada. Ela sabia que não deveria se distrair em aulas tão importantes, mas uma força maior a impelia para aquelas “viagens” que tomavam conta de sua mente. “Sobre o que estávamos falando?” ela perguntou com inocência.

  “Nada, não importa mais,” disse Wanabe, sem esperanças de tirar qualquer proveito daquela aula, “princesa Serena, eu sei que deve ter muitas coisas com que se preocupar, mas esses ensinamentos serão de suma importância no seu futuro. Devia levá-los mais a sério,”

  Rini não respondeu, apenas olhou para baixo, vendo a folha em branco na qual deveriam estar as anotações da aula. Ela percebeu que Wanabe estava saindo da sala e dando a aula por encerrada quando levantou-se e saiu correndo atrás dele.

  “Espere, mestre!” ela pediu com ansiedade, “Posso fazer um pergunta?”

  “Claro...” respondeu ele, já no corredor, surpreso com o rompante da sua aluna.

  “Qual é a postura que uma rainha deve ter com traidores?” indagou ela, as mãos enroscando-se uma na outra nervosamente.

  Aquela pergunta certamente pegou Wanabe de surpresa. Traição era sempre um assunto delicado, e as informações que uma futura rainha obtinha sobre esse assunto eram de importância vital na construção de seu perfil de governante. Ele deu alguns passos em direção a Rini, mostrando sua preocupação com o tema.

  “Depende, alteza...” começou ele, “depende da gravidade da situação...”

  “A gravidade é a mais alta possível,” falou Rini, abandonando definitivamente o campo das hipóteses e pousando na realidade, “Se descubro uma traição gravíssima, o que eu, como princesa, posso fazer?”

  Wanabe ficou ainda mais sem palavras. O que ele diria? Parecia que o caso era grave, e dando aulas para Rini há 4 anos, ele já conhecia o caráter impulsivo e um tanto imaturo da princesa.

  “O primeiro passo é ter certeza da traição, porque às vezes as aparências enganam, com o perdão do chavão,” explicou ele.

  “Eu tenho certeza,” afirmou Rini, olhando profundamente nos olhos de Wanabe, o que o deixava um pouco sem graça.

  “O segundo passo é saber o que está envolvido nessa traição, quais são as conseqüências, se elas atingem uma, duas, ou muitas pessoas,” continuou Wanabe.

  “Envolve diretamente uma pessoa, mas, indiretamente, atinge a todos,” disse Rini com pesar.

  “Você já conversou com o suposto traidor?” perguntou Wanabe, agora com grande interesse no caso.

  “Conversar?!” estranhou Rini, “É claro que não! Eu não converso com essa laia,”

  “Pois essa é a medida que se deve tomar antes de qualquer outra,” sentenciou Wanabe, certo de que estava dando o seu melhor conselho, “Deve-se saber os motivos que levaram o traidor a cometer seus maus atos, compreender antes de julgar,”

  Rini desviou o olhar, decepcionada com a resposta. Sentia que de alguma forma as palavras de Plutão estavam em comunhão com as de seu mestre, e Rini tinha muita confiança em ambos. Contudo, seu orgulho era digno de uma verdadeira monarca e não permitia com que ela simplesmente aceitasse conselhos que iam de encontro às suas idéias. Com um aceno de cabeça, se despediu de seu professor e seguiu para a ala residencial do Palácio de Cristal. Wanabe ficou um pouco preocupado por causa daquelas perguntas da princesa, mas decidiu parar de pensar em assuntos que não eram do seu modesto âmbito de súdito.

 

  Verda acordou com o raiar daquele novo dia, que para ela significava o amanhecer de uma nova vida. Finalmente tinha encontrado o amor, e naquele momento se encontrava nos braços dele. Hiroi olhou para ela ao sentir que tinha acordado e beijou-a com carinho.

  “Bom dia, meu amor,” murmurou ele.

  “Bom dia...” respondeu ela, mas a preocupação logo adentrou sua mente, “Hiroi, temos que agir depressa. Você tem que sair daqui antes que o guarda entre com meu café da manhã,”

  “Então você já tem um plano?” perguntou Hiroi.

  Verda então contou que a única oportunidade de Hiroi sair dali sem ser visto seria quando o guarda entrasse com o seu desjejum, o que aconteceria em breve. Verda e Hiroi se aprontaram, arrumando-se cada um em seu posto, e ele ficou ao lado da porta, pronto para ser escondido pela mesma quando se abrisse.

  Mal estavam prontos para por o “plano de fuga” em ação, o guarda bateu na porta de Verda, perguntando se já podia entrar. Assim que Verda assentiu e o rapaz foi até sua cama com a bandeja, Hiroi saiu sorrateiramente e desceu as escadas o mais rápido possível, por sorte sem ser visto por ninguém. Quando o guarda deixou o quarto de Verda e ela não ouviu nenhum alarde, respirou aliviada devido ao sucesso de seu plano. Talvez agora ela tivesse uma chance de ser feliz.

 

  Quando Mina chegou na sala, encontrou um bilhete de Lita e Ami, dizendo que tinham ido comprar algumas coisinhas para o café da manhã. Mina suspirou, deixando-se cair no sofá, sem a menor idéia de qual seria seu próximo passo. Do jeito que as coisas estavam, Serena logo ia se envolver com Seiya e Mina tinha certeza disso, pois mesmo estando apaixonada por Takeru e odiando Seiya por suas atitudes, ela sentira um calafrio quando ele a segurara e a encostara na parede. Mesmo sabendo que estavam brigando, ela não podia ignorar o quão sedutor seus olhos eram e como ele fazia todas as mulheres à sua volta ficarem de alguma forma ligadas a ele. Com Serena não seria diferente, ela não resistiria por muito tempo.

  Olhando displicentemente para a sala, seus olhos dançaram por cada móvel até se fixarem na mesa de centro, sobre a qual estava um livro que Mina estava lendo. Não era referente à magia, mas sim um dos livros que ela trouxera de seu verdadeiro mundo junto com suas roupas e bens pessoais. Pensando em refrescar a mente daquele incêndio de pensamentos conflitantes, começou a lê-lo. Não conseguiu se concentrar facilmente, mas quando estava quase totalmente compenetrada em sua leitura, uma folha de papel que estava dentro do livro chamou sua atenção. Pegou-a com curiosidade, desfazendo suas dobras e desamassando as beiradas; não lembrava o que era aquilo, e pelo estado levemente amarelado do papel, ele estava lá há algum tempo. Contudo, ao contemplar a folha aberta, Mina sorriu com a idéia que se formava em sua mente.

 

  Hiroi caminhou exultante até seu quarto, uma boa suíte localizada numa área nobre o palácio. Apesar de fingir que nada estava acontecendo para não despertar suspeitas, seu interior estava repleto de chamas de alegria e paixão, nem acreditava que aquilo estava realmente acontecendo. Após tomar banho e se arrumar adequadamente, foi para sua sala, pois havia muito trabalho a fazer. Ser uma espécie de “empregado” para Titã não lhe agradava muito, mas só o fato de poder estar com Verda todos os dias já era o suficiente para encarar essa nova fase com muito mais ânimo. Além do mais, quase tudo estava pronto para o próximo e certamente último ataque.

 

  Titã estava indo para o seu ritual matinal com Hikari enquanto pensava em Verda. Tinha acabado de falar com ela, liberando-a da punição para que pudesse retomar seus afazeres. Verda estava ainda tomando café, sob as cobertas, e ele a achara especialmente bonita naquela manhã. É verdade que Titã sempre admirara a beleza de Verda, mas após os últimos acontecimentos ele não esperava vê-la com tanto vigor. Certamente seus olhos não brilhavam mais quando o viam, mas sua pele irradiava frescor e jovialidade.

  “Estranho,” pensou Titã, entrando na sala onde estava Hikari.

  Hikari flutuava com olhos fechados dentro do seu casulo de vidro. Ela tinha a aparência de uma garota com 10 anos, e seus longos cabelos envolviam seu corpo que começava a se delinear. Um estranho brilho a envolvia, e Titã sabia que era o poder dormente de Hikari tentando impedir os efeitos da magia negra de Titã. Contudo, os poderes de uma garota inconsciente ainda não ameaçavam os planos do grande soberano, como sua equipe técnica explicara a ele. Era tudo uma questão de tempo.

 

  “Pode parar aí,” sentenciou Serena, ao ver Seiya ao pé da escada. Se havia uma pessoa que ela não queria encarar nesse momento, essa pessoa era Seiya.

  “O que foi, Serena?” perguntou Seiya, sem parar de andar.

  “Não ouviu o que eu disse?” esbravejou ela, e suas palavras ressoaram com tanta violência que Seiya estacou onde estava, confuso. “Eu não quero ver você agora, nem falar com você. Me deixe só.”

  Seiya não sabia que atitude tomar, nunca tinha visto Serena daquele jeito, sentia uma revolta em seu olhar, uma nuvem negra ante seus olhos tão azuis. E sabia que ela não estava brincando, se ele se aproximasse, ela não responderia por seus atos.

  “Eu vou,” respondeu Seiya, “mas quero falar com você. Quando puder, me procure,”

  Serena grunhiu algo inaudível enquanto ele ia embora. Assim que se encontrou sozinha, explodiu em lágrimas e soluços descontrolados.

  “Droga...” murmurou ela, “o que está acontecendo comigo...?”

 

  Infelizmente, Hiroi e Verda mal conseguiram conversar naquela manhã. Mal ela tinha chegado para trabalhar, os computadores começaram a apresentar diversos problemas, o que colocou em risco o trabalho de dias. Em pouco tempo, descobriu-se que se tratava de um vírus e havia o risco dele infectar o sistema de segurança do palácio. Diversos alertas foram espalhados, e Verda teve que tomar diversas providências por todo o castelo, já que ela tinha muitas outras funções além da eliminação das Sailor Senshi. Ela e Hiroi trocaram o último olhar por volta das 9 horas da manhã, as Hiroi tinha a esperança de encontrar Verda para almoçarem. Já eram duas horas da tarde quando, trabalhando dentro de sua sala (o vírus já tinha sido eliminado, mas alguns arquivos ainda estavam sendo recuperados), Hiroi foi surpreendido pela visita de Lysa.

  “O que faz aqui?” perguntou ele, sem entender o que ela pretendia.

  “Isso não é jeito de me receber, Hiroi,” disse ela, entrando e sentando-se na cadeira logo à frente dele, do outro lado da sua grande mesa de trabalho. “Ontem você estava bem mais gentil,”

  Hiroi lembrou-se de sua pequena conversa com Lysa quando estava indo para o quarto de Verda, e tinha certeza que não havia dado nenhuma esperança a ela.

  “Lysa, vá direto ao assunto por favor,” pediu ele.

  “Certo,” respondeu Lysa, jogando para trás seu cabelo sedoso e negro – um céu sem estrelas. “Você sabe que eu gosto muito de você, não?”

  “Não acredito que você esteja falando isso,” disse Hiroi, “acho que nunca dei maiores esperanças a você,”

  “Como não? E ontem?” indagou ela com uma falsa indignação.

  “Isso é um absurdo, nós mal nos falamos!” retrucou Hiroi.

  “Pois acho que você não devia falar assim comigo,” Lysa continuou, debruçando-se sobre a mesa de Hiroi sedutoramente. Ele ficou apreensivo, mas não pode deixar de notar a beleza de Lysa, “Não devia falar dessa forma com a única pessoa que pode dizer quem burlou a segurança do andar em que se encontra a suíte real,”

  Hiroi olhou fixamente para Lysa, sem mexer um só músculo.

  “Não faço idéia do que você está falando,” ele falou com gelo na voz, fazendo Lysa começar a gargalhar incessantemente.

  “Isso é ridículo Hiroi,” ela falou, tentando conter o riso, “Acha que eu sou burra? Pois bem, eu estava lá e somei dois mais dois,”

  “Você não tem provas,” contradisse Hiroi, ainda inexpressivo, “Ninguém vai acreditar na sua palavra,”

  “Ah, não? Você tem certeza?” instigou ela, “Pois bem, o quarto de Verda por acaso fica no mesmo andar que o do nosso querido e amado soberano. E não é segredo que você vive correndo atrás dela. Fora isso, há um forte rumor pelo palácio que Verda também andou arrastando uma asa para o seu lado. Bem, mas vamos deixar Titã tirar suas próprias conclusões,”

  Lysa saiu de cima da mesa e arrumou sua túnica com charme, indo em direção à porta. Quando encostou na maçaneta, Hiroi pediu que ela esperasse.

  “O que você quer de mim?” perguntou ele, agora sem aquela máscara de frieza; estavam nas mãos daquela mulher.

  “Você,” ela respondeu sem rodeios.

  “Isso é ridículo,” Hiroi retrucou, “Você sabe que eu amo Verda,”

  “Não estou falando de amor, meu querido,” Lysa declarou, sentando-se na ponta da mesa, “Estou falando que quero ter você sempre que eu desejar,”

  “E eu digo que isso é ridículo. O que adianta eu poder ficar com Verda para traí-la dessa forma vil?”

  Lysa pensou um pouco, avaliando novamente seu pedido, talvez pudesse ser benevolente.

  “Certo, então eu quero que você fique comigo ao menos uma vez. Uma última vez. Hoje.”

  “Eu já disse que não vou trair Verda,” respondeu Hiroi, “Peça outra coisa,”

  “Acho que você não está em posição de fazer exigências,” ela falou com exaltação, “Essa é minha última palavra ou contarei o que sei. Além disso, você e Verda seriam declarados traidores do reino e acho que você sabe bem qual é a pensa para traidores,”

  Hiroi fechou os olhos, refletindo sobre os prós e contras da proposta de Lysa. Ele sentia nojo só de pensar em trair Verda, poderia agüentar qualquer coisa a isso, mas... não podia deixar que sua doce Verda sofresse... se ela fosse declarada uma traidora, ela... não, era horrível. E certamente Titã acreditaria em Lysa e faria valer as punições, afinal, não podia ser feito de idiota perante todos os seus súditos.

  “Certo,” assentiu Hiroi com pesar no coração, “Mas você só vai me ter por uma única vez, e depois disso esquecerá essa história,”

  “Feito,” concordou Lysa com um sorriso, “Às dez horas estarei te esperando, você conhece o caminho,”

  Ela então saiu, deixando Hiroi imerso em seu próprio sentimento de culpa.

 

  No café da manhã, todos estavam mudos e introspectivos, mas no almoço tardio as garotas estavam mais animadas, principalmente Mina, que falava sem parar e comia tão rápido que parecia que ia estourar. Ami também estava conversando, mas algo em seus olhos dizia a todos que ela estava com problemas e que não queria dividi-los com ninguém. Geralmente, isso não era motivo para deixarem Ami em paz, mas embora estando mais descontraídos que pela manhã, todos estavam de certa forma imersos em seus pensamentos.

  Certamente Mina tentaria especular sobre o jeito de Ami, principalmente sobre o que significava aquela mancha de sangue da noite anterior, mas estava com muita pressa para colocar em prática a idéia que tivera logo cedo; Serena também tentaria descobrir o motivo daquela postura cabisbaixa de Ami, mas ela própria se sentia confusa com seus sentimentos e num momento nada bom para dar qualquer conselho. Lita, por sua vez, seria a última a tentar desvendar os mistérios de Ami, pois além de saber que às vezes as pessoas simplesmente não querem lavar as feridas, ela própria se sentia decepcionada consigo mesma, amando um homem e enganando aquele que a amava. Sim, pois ela estava cada vez mais certa de que nunca amaria Kayama, o que estava fazendo era só “diversão”. Estava brincando com ele. Pensar assim a fazia se sentir baixa e infeliz, destinada a não encontrar o amor. Ou talvez estivesse na hora de buscá-lo e agarrá-lo com as próprias mãos.

  Assim que Mina conseguiu acabar sua refeição, pediu licença  todos e saiu. Seiya acompanhou-a com o olhar até a porta, pensando o que Mina estaria aprontando, e então voltou seus olhos para Serena, que tremeu por dentro ao contato visual com Seiya. Sua confusão estava cada vez maior e ela já não sabia mais qual eram seus verdadeiros desejos. Sentia saudade de Darien, muita saudade, mas ao mesmo tempo se recusava a vê-lo. E além disso, Seiya estava ali... tão próximo... tão próximo...

 

  Rey andava pelo templo com um olhar perdido, pensando em tudo o que acontecera e imaginando o que estaria por vir. Desde que Seiya se fora para Eros, ela vinha se sentindo solitária e triste, pois sua vida simplesmente não existia mais. Depois dos eventos ocorridos em Eros, muita coisa tinha mudado dentro de si e ela, apesar de seus esforços para fingir-se de forte e seguir em frente, não conseguia mais se enturmar com seus antigos amigos; nem mesmo o teatro a animava mais. Após a farsa que Rey encenara em Eros, ela não via mais graça alguma nos jogos teatrais, e isso a distanciava de seu mundo ainda mais.

  Além disso, seu avô, que sempre a ajudou e fez companhia a ela, não tinha mais a energia de anos atrás. Ele passava grande parte do tempo descansando, e Rey sentia que ele não estava muito bem de saúde, embora ele resistisse ferozmente a ir visitar um médico. Ele era a última pessoa, a última pessoa que restava para Rey, e ela sofria ao pensar em perdê-lo. Ela realmente era uma mulher valente e corajosa, mais seu maior medo era a solidão, e nesse momento seu avô era o único que a fazia sentir parte de alguma coisa, parte de uma família. Às vezes Rey pensava em seu pai, mas ela sabia que nunca iria perdoá-lo pelo sofrimento que fizera sua mãe passar, além de todo o egoísmo e frieza daquele homem que era tão distante que Rey nem mais considerava como pai. Quando era mais jovem, ele costumava levá-la para jantar em seu aniversário, mas nos últimos cinco anos ela passara o 17 de abril em casa, comendo alguma comida especial preparada por seu avô... por isso, ao pensar em perder o único que a amava acima de tudo era extremamente triste e cruel para alguém que teme ficar só num mundo que parece não ter lugar para pessoas como Rey.

  Enquanto pensava, Rey passeava pelo jardim, uma leve brisa tocando suas maçãs do rosto. O dia estava levemente nublado, mas o sol conseguira uma brecha naquele momento e seus raios um tanto fracos passavam através das árvores. Num relance, algo resplandeceu atrás do amplo tronco de uma cerejeira.

  “Quem está aí?” gritou Rey, indo na direção daquilo que há pouco brilhara. O ruído do farfalhar de folhas se intensificou, e Rey sabia que ele não era mais causado pelo vendo, mas sim por alguém que a espiava. Ao chegar na cerejeira, entretanto, o invasor já tinha desaparecido por completo, e nenhum vestígio tinha sido deixado para trás.

  “O que será que... Quem...?” murmurou Rey em voz baixa, preocupada com aquele acontecimento. Sem ter mais o que fazer, decidiu voltar para dentro do templo.

 

  Após almoçarem, Lita pediu licença e saiu, já que era o dia de Ami lavar a louça do almoço. Seiya se prontificou a ajudá-la com a tarefa, já que Mina tinha saído apressada logo que acabara de comer e Serena ia passar a tarde tendo sua aula de magia. Sua intenção era dar uma volta para relaxar, afinal o dia estava bonito e fresco, mas nem tudo acontece como se planeja.

  Assim que Lita saiu de casa, sua atenção praticamente desapareceu, e ela simplesmente deixou o sol cálido cair sobre o seu corpo, um bálsamo naqueles dias tão conturbados. Estava tão distraída, que só saiu do seu mundo particular quando algo esbarrou em seu ombro com força. Ao abrir os olhos, Lita se virou imediatamente para a direita, procurando o que havia a atingido, e encontrou uma jovem, ainda um pouco desequilibrada, apoiando-se em um rapaz aparentemente da sua idade.

  Lita se desculpou rapidamente, mas o que prendeu o seu olhar e o seu pensamento foi o cuidado daquele rapaz com sua namorada. Ela retribuía sua atenção com olhares cálidos, e Lita viu que os dois se entendiam sem dizer uma única palavra.

  “Palavras são tão frágeis contra o tempo, Lita. Palavras são esquecidas, tem um curto prazo de validade, o que realmente importa é o que não precisa ser dito,”

  Kenji... Lita lembrou-se do que seu amigo lhe dissera há alguns anos, após alguma das suas tantas desilusões amorosas. De tudo o que lembrava daquela noite, a memória mais forte era de Kenji segurando sua mão com tanta força que ela sentia como se os dois fossem um só ser. Nesse momento ele lhe disse aquela frase, que ressoou no seu coração com a força de mil trovões, para nunca mais ser perdida. Olhando aquele casal, Lita recuperou em seu íntimo o que era o verdadeiro sentido do amor. De nada valiam palavras se os corações não fossem unos, se o sentimento não transcendesse o real. Pensando nisso, Lita tomou a direção do Game Crown.

 

  A tarde estava movimentada, e Lita ficou esperando calmamente até que ela pudesse ficar a sós com Kayama. Ele a achou estranha desde o momento que ela tinha chegado, estava quieta e introvertida, uma Lita que ele praticamente não conhecia. Alguma coisa já lhe dizia que uma tempestade estava se formando, mesmo sem ler os pensamentos da mulher que ele tanto amava.

  “O que quer conversar, Lita,” perguntou ele assim que sentiu que o pico de movimento havia passado. Depois de algum tempo trabalhando ali, ele já sabia quais as horas que o Crown estaria lotado e quais ele estaria às moscas. Lita estava encostada na parede, e ergueu os olhos ao ouviu a voz de Kayama. Por um momento ela quis esquecer tudo novamente e enterrar-se nos seus braços, mas a lembrança tão viva daquele casal apaixonado a impedia de cometer os mesmos erros novamente.

  “Kayama, antes de começar, eu só peço que você não me interrompa, pois o que vou dizer vai ser muito difícil para mim e eu não quero cair em tentação e voltar a mentir para mim mesma,”

  “Claro, Lita, eu sou todo ouvidos,” respondeu ele, preocupado.

  “Bem, eu nunca escondi que não te amava,” começou ela, estalando compulsivamente os dedos das mãos, “mas eu enganei a nós dois quando admiti a possibilidade de me apaixonar por você. Essa possibilidade não existe, porque eu sinto que mesmo que Kenkure tenha me magoado e eu a ele, desde o primeiro momento que eu o vi soube que Ken-chan era a estrela da minha vida, aquele que eu esperei por todos esses anos. E é por isso que não podemos mais ficar juntos, porque eu estou amando outro homem e é por ele que eu quero lutar,”

  Kayama ficou em silêncio. Algo de previsível existia naquela declaração de Lita, mas ouvi-la era mais do que ele podia suportar friamente. Ele a amava, e por amá-la tanto não podia prendê-la a um relacionamento sem futuro, mas sua sensibilidade profunda aflorou em forma de lágrimas quentes e contidas.

  “Você acha realmente que nada do que eu fizer ou disser pode mudar os seus sentimentos?” perguntou ele.

  “Sinceramente, não,” Lita murmurou, entristecida pela dor que causava ao seu amigo por considerá-lo apenas com amigo.

  “Então,” falou Kayama aproximando-se de Lita até que seus hálitos se confundiam, “me deixe uma última lembrança,”

  Ela sabia do que ele falava, pois as mãos de Kayama pousaram gélidas de nervosismo na cintura aveludada de Lita, fazendo com que arrepios percorressem sua espinha dorsal.

  “Kayama, não faça isso comigo... eu já contei a você toda a minha história, e eu não quero mais destruir amizades. Eu preciso de amigos – só amigos – que possam me entender e ouvir sem outras intenções.

  “Lita” ele disse, passando ambas as mãos pelos cabelos sedosos de Lita, que ela usava excepcionalmente soltos naquele dia, “por você eu suprimo todos os meus desejos, se essa for a sua vontade. Em mim você terá um amigo eterno, mas para ser assim, a única coisa que eu peço é um tempo. Um tempo sem ver você, sem sentir o seu doce aroma de rosas, um tempo... Meu coração está partido agora, e eu quero consertá-lo para poder dar a você o que é do seu desejo,”

  “Você está delicadamente me mandando embora, então?” Lita perguntou com um brilho triste no olhar.

  “Essa foi definitivamente uma pergunta retórica, não?” Kayama falou, afastando-se dela. Sem mais delongas, Lita se retirou com um misto de tristeza e alívio em seu coração. Ao sair, a primeira estrela da noite já brilhava, e, do lado oposto, o sol era apenas meio círculo incandescente contra o horizonte.

 

  Rini estava sentada na sua escrivaninha, um grande livro aberto em sua terça parte repousava sob as mãos delicadas da princesa. Seus olhos, contudo, não estavam voltados para ele, mas saiam em uma viagem longínqua pela janela, voltados fixamente para o horizonte acobreado. O brilho do pôr-do-sol se refletia nas íris azuis de Rini, tingindo-as de um multicor quase mágico.

  Um dos últimos raios de sol daquele dia brilhou diretamente nos olhos de Rini, fazendo-a piscar e desviar a visão. Fitou o livro sob suas mãos – era sobre Economia, uma das matérias que mais detestava – o que fez com que ela fechasse o volume com certo desgosto. Alcançou uma pequena chave brilhante em sua bolsa, que repousava sobre a escrivaninha, e abriu a primeira das gavetas que ficavam sob o móvel. Lá dentro estavam muitas coisas de alta relevância para Rini, algumas realmente valiosas e outras de puro valor sentimental. Pegou uma encadernação de aparência antiga, embora bem conservada para sua idade. Não era muito fino, mas de forma alguma se comparava nem à terça parte do livro de Economia que Rini tinha que ler para sua próxima prova. Folheou a encadernação com destreza, indo quase que diretamente para uma parte específica do livro, a abertura naquela página já estava viciada, tanta era a freqüência que a jovem lia a passagem.

  Rini estava prestes a começar a ler novamente o trecho em questão quando um barulho na porta fez com que ela se virasse bruscamente.

  “Quem é?” indagou ansiosamente.

  A pergunta não foi respondida, pois em questão de segundos a Rainha Serenity entrou no quarto, determinada e impassível como só uma rainha consegue ser. Usava um vestido longo marfim, com rosas minuciosamente bordadas, rosas tão pequenas que nenhuma costureira do reino acreditava que mãos humanas tivessem confeccionado aquela veste. A lenda contava que fora feito por mágica, dado à rainha como agradecimento por seu papel diplomático em uma guerra milenar entre dois planetas distantes. Rini, contudo, pouco se importava com esses rumores. Tão poucos eram os momentos que tinha para conversar com sua mãe, que, quando os tinha, não falava de trivialidades ou fofocas.

  “Minha filha,” a voz cristalina da rainha ressoou no quarto de Rini, “Como está indo? Acabamos de chegar da expedição conciliadora à Tebris,”

  Rini levantou-se em sinal de respeito. Embora não concordasse com muitas das normas de etiqueta do reino, ela não gostava de desperdiçar os raros momentos com seus pais entrando em pequenas desavenças. E como eles levavam muito a sério todas aquelas convenções, ela curvou-se perante sua mãe.

  “Eterna seja sua luz, Rainha Serenity, minha mãe,” disse Rini, com delicadeza.

  Acabada a saudação oficial, a rainha aproximou-se da filha e a abraçou. Imediatamente seus olhos foram atraídos para o volume manuscrito que estava aberto na mesa de estudos de Rini. Ela desvencilhou-se dos braços da filha e tocou a página do livro.

  “Não acha que está um pouco cedo para se preocupar com isso, querida?” perguntou Serenity.

  “Oh, não, mamãe!” explicou-se rapidamente Rini, “Não é para mim. Estava apenas refletindo sobre aquele assunto,”

  “Novamente, meu amor? Eu já não lhe falei para não se preocupar com isso?” falou a Rainha preocupada.

  “Mãe, não posso!” exclamou Rini, deixando-se cair em sua cama, “Não consigo conceber certas coisas! Por exemplo, não entendo como você e Serena podem ter sido a mesma pessoa,”]

  “Nós não fomos, nós somos...” disse Serenity, “Ou não... não sei... bem, em alguma parte da linha do tempo e do espaço, nós fomos um só. Rini, isso tudo é tão complexo. Por isso que eu sempre fui contra viagens no tempo, elas sempre acabam em problemas e indagações sem respostas,”

  “E porque a Plu não me dá essas respostas de uma vez? Ela sim pode falar algumas verdades a todos nós,”

  “Rini,” continuou Serenity, “primeiro, Plutão não pode e nem deve ficar falando sobre esses assuntos, é contra as regras. E mesmo que pudesse, nem ela tem todas as respostas. Eu a conheço muito bem, e digo com certeza que ela finge saber mais do que realmente sabe ou entende... Humanos são seres complexos,”

  “Então,” retomou Rini, “Vamos esclarecer uma coisa sobre a qual você entende. Se você e Serena são a mesma pessoa, ou um dia foram, como quiser, me explique as razões de suas atitudes insanas – e você sabe do que estou falando, mamãe,”

  “Não sei, Rini. Medo talvez, ou cansaço, ou esperança. Eu não sou mais como era no passado, não penso mais com aquela cabeça... Certas coisas, só a própria Serena poderia lhe dizer. Mas eu sinceramente não quero que você viaje no tempo novamente, isso não é saudável.”

  Rini nada respondeu, e Serenity deu aquela conversa como encerrada. Parada na porta, Serenity somente se voltou para dizer mais algumas palavras.

  “E não gaste seu tempo sobre esses manuscritos. Eles têm que ser conhecidos pela família real, é verdade, mas também é verdade que trazem má sorte. E não esqueça de que daremos um grande baile hoje à noite, antes de nossa partida para a Romênia. Algo me diz que lá conseguiremos finalmente firmar aquele tratado comercial que vem sendo discutido há dois anos. Vai ser uma boa viagem, uma boa viagem,”

  Rini levantou-se da cama, cansada de pensar sobre destino, futuro e passado. Seguiu até sua escrivaninha, e leu aleatoriamente uma parte do texto escrito.

“Reunindo poder em crescente escala

Pois o mal também se amplia

E nada o pára.”

  Com essas palavras ecoando com as de sua mãe, fechou o livro com um baque e trancou-o novamente na escrivaninha, dizendo para si mesma que tinha que esquecer tudo isso e se divertir no baile. As pessoas do passado que se virassem sozinhas com seus problemas.

 

 Ami e Seiya tinham passado o resto do dia juntos, depois que terminaram sua tarefa de lavar a louça do almoço. Como Finna e Serena estavam juntas no porão, e as outras garotas tinham saído sem maiores explicações, a sala ficara livre só para os dois. Ami aproveitou para colocar Seiya a par de todos os detalhes desde o dia que ele tinha voltado para o seu planeta com as Starlights e ele contara a ela como eles conseguiram reconstruir o seu planeta, além de outras novidades sobre outros planetas da galáxia que ele conhecia. Ami estava deliciada com aquela conversa, principalmente porque a fazia parar de pensar em Yan e em se alguém da LGA estaria esperando para atacá-la a qualquer momento.

  “Ami,” começou Seiya, com cuidado, “eu sei que você é e sempre foi bastante sensata, e gostaria de saber sua opinião,”

  “Não sei se sou exatamente como você pensa, mas posso opinar mesmo assim, se você quiser,” respondeu Ami, pensando em seu relacionamento mais recente.

  “Você acha que eu posso ter alguma esperança em relação a Serena? Fale a verdade,” ele pediu.

  “Seiya,” começou Ami, lembrando-se do beijo ardente que vira Seiya dando em Serena. Ela sentira naquele momento que Serena estava totalmente entregue, e isso podia ser um sinal. “Não sei se é certo falar sobre isso, mas acho que o amor verdadeiro de Serene é Darien, apesar de tudo. Só que...”

  “Só que..???” interrompeu Seiya, ansioso.

  “Só que ela se sente atraída por você, Seiya. Você mexe com os hormônios dela, você é um galanteador, um sedutor... Na verdade, qualquer uma não resistiria às suas investidas por muito tempo,”

  “Nem você?” surpreendeu Seiya, com um olhar esguio.

  “Que espécie de pergunta é essa?” indagou Ami, encabulada.

  “Uma pergunta de pura curiosidade,” declarou ele, “Sabe, só para checar, sem segundas intenções,”

  “Sexualmente falando, nem eu,” respondeu Ami, com um risinho envergonhado e irônico, “Mas sem segundas intenções,

  “Resumo da ópera: você acha que Serena nunca vai me amar, só ficaria comigo pro atração, desejo,” concluiu Seiya.

  “Você perguntou a minha opinião,” concordou Ami, “Agora só resta saber se: um, isso é o suficiente para você, e dois, se você acredita nas minhas observações,”

  Seiya ficou calado, pensativo. Ami começou a folear uma revista quando ele se levantou repentinamente.

  “Bem, Ami,” falou Seiya, “É claro que eu acredito em você. Agora quanto ao primeiro item... é uma coisa a se pensar... Vou fazer um chá, você aceita?”

  Ami riu com a mudança de assunto que Seiya introduziu na conversa, mas aceitou a bebida. Sim, qualquer mulher poderia desejá-lo, e até se apaixonar por ele. Mas ele não escolhera qualquer uma, e sim a mais inacessível e complicada: Serena.

 

  O expediente de Hiroi terminara após muito barulho e confusão, ainda por causa dos arquivos danificados pelo vírus, e ele estava visivelmente cansado. Para agravar a situação, passara a tarde toda pensando em Verda e no que ele iria fazer naquela noite. Ele sabia que Lysa não estava brincando e que se ele não fizesse o que ela pedira, ele e Verda estariam mortos – ou pior do que mortos. Ele até agüentaria as conseqüências, mas não era justo fazer Verda passar por tudo aquilo. E era só uma noite, só uma vez, por um bem muito maior.

  Estava se dirigindo para o quarto de Lysa e olhando em todos os cantos para ver se conseguia ao menos ver Verda, tamanha a saudade e preocupação que sentia, mas ela parecia ter desaparecido. Ficou com medo de Titã tê-la aprisionado de novo, mas aquilo não lhe parecia realmente possível, ele não tinha motivos para tirar Verda do trabalho num dia como aquele. Estava quase enlouquecendo com toda aquela situação, mas as implicações de voltar atrás o impeliam adiante.

 

  Titã estava verificando o pavilhão onde os condenados do reino ficavam enquanto esperavam por sua punição quando sentiu um “ser” se movimentando com velocidade logo atrás dele.

  “Їѕн’цоц?” indagou Titã enquanto se virava, suspeitando que seu fiel servo era o “ser” que o seguia.

  “Messsssstrrrrrrre! Espere!” pediu Їѕн’цоц, que se movimentava com velocidade até chegar em Titã.

  O soberano parou, para esperar que Їѕн’цоц se aproximasse, e ordenou que o servo adotasse a forma humana para poderem conversar melhor, afinal, o assunto parecia ser importante.

  “Sssssssssim, é imporrrrrrtante! É sobre.... ele....” murmurou Їѕн’цоц.

  Titã rapidamente desocupou uma saleta de descanso dos vigias para que ele e Їѕн’цоц pudessem conversar a sós.

  “Diga, o que você soube sobre aquele traidor conhecido como Hiroi?”

  “Muito bom... muito bom para o messsssssstrrrrrrrre... Eu vi o Hiroi na ala sul do palácio!”

  “Sim, e o que isso tem de interessante, traste?” perguntou Titã com inquietação.

  “Ora, messsssstrrrrrrrrre, o que tem na ala sul do palácio? Apenasssssss ossssss quarrrrrtos das moçass ssolteirassss!”

  “E você acha que ele pode estar indo ao encontro de alguma delas?” perguntou Titã com incredulidade.

  “Messsstrrrre, a fama de Hiroi me faz terrr quase cerrrteza!”

  “Mesmo assim... E Verda? Ele a trairia assim tão rápido depois de se arriscar tanto para conquistá-la?”

  “Ele pode terrrrrr desistido!” disse Їѕн’цоц.

  “Muito estranho,” retrucou Titã, “Eu ordenei que você o vigiasse porque achei que ele tentaria se encontrar a sós com Verda novamente e... e ele sai com outra?!”

  “Messsssstrrrrre, essa pode serrr sua chance! Temos que agirrr rápido!”

  Titã começou a formular um plano em sua mente. Essa realmente era uma oportunidade boa demais para ser desperdiçada. Ele conjurou um pequeno aparelho eletrônico e deu para Їѕн’цоц.

  “Ouça-me com atenção, servo,” começou Titã, “Percorra o forro de todos os aposentos da ala sul, pois assim você poderá vistoriar todos os quartos sem que ninguém o veja, graças às aberturas escondidas nos tetos dos quartos. Se encontrar Hiroi com alguma garota, aperte o botão desse aparelho que eu lhe dei e diga o número do quarto. Esse transmissor passará a informação diretamente para mim e então eu agirei.”

  Їѕн’цоц saiu correndo rapidamente, enquanto voltava à sua forma de poça gosmenta. Titã deixou imediatamente a inspeção de lado e foi se preparar para o ataque, pois sua intuição lhe dizia que aquele não era um alarme falso.

 

  Hiroi estava parado na porta do quarto de Lysa há alguns minutos, a indecisão ainda o devorando por dentro. Ele ia entrar quando ouviu gritos desesperados vindo em sua direção. Em pouco tempo, quatro guardas reais passaram pelo corredor trazendo à força uma mulher de cerca de 25 anos, que se debatia incansavelmente.

  “Soltem-me!” ela gritava, “É mentira! Ele mente! Eu não o traí!”

  “Veremos isso no seu julgamento, agora, cale a boca!” reprimiu o guarda, mas a mulher continuou gritando palácio a dentro. Logo os seus clamores não eram mais ouvidos por Hiroi, mas aquela cena o deu a coragem que lhe faltava para entrar.

 

  Lysa estava sentada na frente de sua pequena penteadeira, borrifando em seu pescoço uma água de colônia requintada. Ela usava um roupão preto e tinha os cabelos molhados, pois saíra há pouco do banho.

  “Olá, Hiroi,” começou ela, “Veja, estou passando aquele perfume que você sempre gostou...”

  Hiroi foi até ela e agarrou seu braço, jogando-a na cama.

  “Vamos logo com isso,” disse ele.

  Lysa sentou-se, arrumando o cabelo com calma, ela olhou para Hiroi com firmeza e se levantou.

  “Não pense que isso vai ser rápido, querido,” disse ela seriamente, “Eu quero tudo o que eu tenho direito, e é bom você me tratar bem direitinho.”

  Lysa puxou Hiroi para perto de seu corpo e beijou-o. Ele resistiu no início, mas, sem alternativa, passou os braços em volta da cintura de Lysa e retribuiu o beijo com ardor. Sem que eles percebessem, Їѕн’цоц dava as boas notícias a Titã.

 

  Mina quase não conseguia ficar sentada no sofá da casa onde Darien estava morando. Ela levantava e se sentava compulsivamente, em êxtase.

  “Você acha mesmo que vai funcionar?” perguntou Darien, ainda incrédulo, apesar de já ter concordado com o plano de Mina há algumas horas, “Eu não sei se...”

  “Claro que vai, Darien!” exclamou Mina, “Eu confio nisso como eu confio no amor que há entre vocês dois. Não há dúvidas,”

 

  Verda estava tomando um café forte numa das dezenas de salas de descanso para funcionários que havia no castelo quando Titã irrompeu pela porta.

  “Verda, venha comigo,” ordenou Titã.

  “Mas, Titã, eu...” tentou argumentar, receosa devido às últimas atitudes do imperador.

  “É do seu interesse, acredite,” falou ele com uma voz mais calma, estendendo a mão para ela. Sem alternativa, Verda segurou na mão de Titã e saiu com ele da sala, atraindo olhares curiosos de todos. Que havia alto entre eles, todos suspeitavam, mas ninguém nunca vira os dois de mãos dadas pelo castelo, muito menos Titã falando com alguém em um tom quase gentil.

 

  “Hiroi...” murmurou Lysa em meio a sussurros abafados. Ele agora acariciava seu corpo nu, suas roupas caídas pelo quarto. Apesar de todo o seu complexo de culpa, a excitação o libertara de suas morais e agora ele não pensava, simplesmente agia por instinto. Lysa já contava com isso, pois ela conhecia bem Hiroi, sabia de suas necessidades, de seus desejos. E, principalmente, ela sabia como enlouquecer um homem.

 

  Verda tentou durante todo o caminho descobrir o que estava acontecendo, mas Titã estava sendo evasivo em todas as suas respostas, quando as dava. Aquela movimentação seria suficiente para atrair uma multidão, mas como era relacionado com Titã, ninguém tinha a ousadia de segui-los, por medo da reação dele. Olhos espiavam pelas gretas das portas quando Titã parou na frente do quarto 138, o quarto de Lysa.

  “O que nós viemos fazer aqui?” perguntou Verda.

  “Você quer abrir ou quer que eu abra?” disse Titã, ignorando a questão de Verda.

  “O que viemos fazer no quarto da minha amiga Lysa? Ela fez alguma coisa?” Verda ainda tentava entender.

  Percebendo que não iam sair desse impasse, Titã abriu a porta trancada com um só movimento de sua mão. Sua magia era tão forte que ele não precisou proferir nenhuma palavra em voz alta.

  Verda deu um passo a frente, olhando fixamente para a cama de Lysa, que ficava bem em frente à porta. Porque Titã a fizera interromper um momento de intimidade de Lysa? Assim que entrou, Verda só conseguiu ver a amiga, nua, beijando algum rapaz que estava deitado sob ela. Ao perceber a invasão, Lysa virou-se, puxando um lençol para cobrir seu corpo. Por um momento, o sangue fugiu de suas faces.

  “Titã, o que viemos fazer aqu...” Verda ia falando quando Hiroi, ainda exausto, ergueu-se lentamente da cama, tentando ver o que acontecia. Ele ficou paralisado ao ver Verda.

  “Hiroi...” murmurou Verda enquanto seus olhos vertiam lágrimas automaticamente, “Eu não posso... não entendo...”

  “Calma, Verda, eu tenho uma explicação para isso...” disse Hiroi, sentando-se.

  “Não...” dizia Verda, sem muita ordem em suas palavras, “Como eu pude... Eu sempre soube... É minha culpa... isso tudo é minha culpa...”

  “Mas,” ia dizendo Hiroi.

  “Hiroi,” interrompeu Titã, “Tem cenas que são auto-explicativas, não se desgaste. Aliás, porque você não começa cobrindo suas vergonhas, hum? Há damas no recinto...” completou ele, sarcástico.

  Hiroi olhou com ódio para Titã, mas puxou uma parte do lençol para se cobrir. Verda parecia desolada, ele nunca a tinha visto assim. Nem mesmo após ter sido praticamente estuprada por Titã ela tinha ficado com olhos tão inexpressivos.

  “Vamos, Verda,” falou Titã, abraçando-a e assim a cobrindo com parte de sua capa, “Vamos embora, é melhor não haver escândalos aqui,”

  Ele a guiou para fora do quarto, e Hiroi levantou-se para ir atrás deles. Ele estava se vestindo quando Lysa interveio.

  “Acho melhor você não ir a lugar nenhum, querido,”

  “Eu não devo mais nada a você, vadia,” retrucou Hiroi, irado.

  “Mas é para o próprio bem de vocês!” exclamou Lysa, atraindo a atenção de Hiroi, “Sabe, se houver um escândalo, todos vão perceber que você traiu Verda. A partir disso, as conexões serão feitas! Se todos têm quase certeza que Titã e Verda têm um caso, e se você e Verda também mostrarem que tiveram um relacionamento, você e ela serão acusados de terem traído o imperador Titã! E você sabe qual é a pena para isso... É melhor que não haja escândalos, ou então Titã vai ter que tomar as providências cabíveis para limpar sua honra...”

  “Você é desprezível, Lysa,” disse Hiroi, pensativo, “Mas eu temo que esteja certa,” finalizou ele, encostando a testa contra a parede e maldizendo toda aquela situação.

 

  “Vamos, Darien, vamos!” falava Mina, andando à frente de Darien ansiosamente, “Já está super tarde! E eu nem vi a hora passar!”

  “Mina, tem certeza que não poderíamos ter trazido essas coisas com mágica?” perguntou ele, exausto.

  “Poderíamos,” concordou Mina, sem olhar para trás ou diminuir o passo, “mas para alguém que quer se redimir, um pouco de sacrifício é bom,”

  Darien deu um suspiro resignado. Pelo menos a casa onde ele estava morando não era tão longe.

 

  Lita tinha acabado de chegar em casa, pois após sair do Crown tinha passeado um pouco para refletir sobre sua vida. Assim que entrou na sala, Ami e Seiya perceberam que algo ruim tinha acontecido.

  “O que houve, Lita?” indagou Ami, “Você não está com uma expressão muito boa,”

  “Eu terminei meu namoro com Kayama,” disse Lita, sentando-se junto com os dois, que tomavam chá com biscoitos.

  “Oh, que triste,” falou Seiya, que sabia bem o que era ser dispensado.

  “Pois sem querer ser insensível,” disse Ami, “eu acho que você fez o certo,”

  “Eu também acho, Ami,” concordou Lita, “Não era justo continuar enganando o Kayama, ele merece encontrar alguém que o ame de verdade”

  “Vocês falam isso porque não sabem como é horrível ser dispensado,”

  Lita olhou para Seiya com uma expressão que dizia, “você é quem pensa”, e ele abaixou os olhos em sinal de desculpas. Talvez aquelas garotas já tinham vivido muito mais do que ele poderia imaginar. Talvez seu destino realmente não era compatível com o delas.

  “Vocês ouviram algum barulho?” irrompeu Lita, olhos atentos.

  “Não, nada,” respondeu Seiya.

  “Eu também não, Lita,” ressoou Ami, “Foi imaginação,”

  “Pode ser...” murmurou ela, ainda pouco convencida. Contudo, esqueceu isso rapidamente assim que Seiya lhe ofereceu uma xícara de chá.

 

  “Mina, isso... isso não precisa ser ligado na tomada?” perguntou Darien. Os dois estavam na frente da casa de Finna e ele já tinha tirado todo aquele carregamento das costas.

  “Ah, não!” falou Mina, “Por incrível que pareça, também funciona com pilhas...”

  “Ainda não estou certo se devemos continuar com isso,”

  “Ora, Darien,” retrucou Mina, “Já viemos até aqui não? Está tudo pronto agora, é só executar. Confie em mim,”

  “Eu confio. Só não confio em mim mesmo,” disse ele.

  “Pois eu digo que você leva jeito, e se você acredita em mim, pare de duvidar de você mesmo,” falou ela, “Agora, que tal você usar o seu truque preferido e conseguir uma daquelas?”

  Com um sorriso de descontração, Darien fez com que uma rosa vermelha e orvalhada surgisse em sua mão como mágica. Mina bateu palmas de leve e piscou o olho, indicando que o show ia começar.

 

  “Eu não acredito!” explodiu Verda com ira assim que chegaram em seu quarto, “Como eu pude ser tão burra? Como eu pude me deixar levar pela conversa daquele maldito?!”

  Titã sentou-se calmamente na cama de Verda; ele estava muito satisfeito com tudo aquilo.

  “Eu sempre duvidei de todos os homens, sempre soube que todos eram traidores vis, sempre...” continuava Verda, andando impacientemente de um lado para o outro, “Por que eu me deixei enganar, por quê?!”

  “Acalme-se, querida,” disse Titã, “tudo acabou agora. Eu só lhe mostrei aquilo para que soubesse com quem você está lidando,”

  “Sim, você fez bem,” concordou Verda, cega de raiva, “eu é que não me perdôo. A culpa é minha, pois eu me deixei enganar,

  “Mas agora a farsa é finita,” falou Titã, segurando Verda pela mão, “e você está livre para mim novamente,”

  “Titã, você também já me fez sofrer muito,” sentenciou Verda, “Se eu deixei Hiroi me enganar por amor, por que vou me enganar com alguém que eu não amo e que não me ama?”

  “Porque nós não precisamos disso, Verda,” retrucou Titã, “O amor é para os fracos, Verda. Você ficará comigo por poder. O poder é a maior fonte de vitalidade, querida”

  “Sim, pode até ser, mas agora eu não consigo pensar nisso. O ódio que corre em minhas veias é tanto que eu não sei o que fazer para dissipá-lo. Minha vontade é matar aquele farsante,”

  “Não, Verda. Nós precisamos dele,” ordenou Titã.

  Com um brilho repentino no olhar cheio de raiva, Verda desvencilhou-se de Titã e saiu correndo. Ela mais parecia uma máquina de matar do que uma mulher.

  “Só espero que ela não faça nenhuma besteira...” murmurou Titã.

 

  A lua brilhava com esplendor sobre a cabeça de Mina, que fechou os olhos e pousou as mãos sobre o seu teclado, que ela tinha trazido da Terra junto com Darien. Tudo estava preparado, amplificadores, microfones, uma luz natural cálida e envolvente. Isso fazia bem para ela mesma, só estar com as mãos sobre as teclas reluzentes do seu amado teclado a deixava calma e relaxada. Estava com tantas saudades, tantas saudades de tocar que mal podia esperar.

  “Eu farei a introdução, e quando indicar, você entra, certo?” falou ela para Darien, que assentiu com o olhar.

  As mãos de Mina deslizaram pelas teclas, produzindo um som harmonioso e perfeito. Ela era uma grande musicista, e sua alma corria pelas notas em um balé perfeitamente coreografado. Em segundos a noite estava envolvida pela sua música e a calçada era o seu palco. Mina então começou a cantar.

 

  “I stand at your gate

   And the song that I sing is of moonlight

   I stand and I wait for the touch of your hand in the June night

   The roses are sighing a Moonlight Serenade”

 

  De dentro da casa, Lita, Ami e Seiya ouviram as notas introdutórias de Mina e correram até a janela para ver o que estava acontecendo. Ao verem Mina ao teclado e Darien com um microfone a postos para cantar a qualquer hora, eles deduziram o que estava acontecendo.

  “Eles vão fazer uma serenata para a Serena!” exclamou Lita, e saiu em disparada para o porão, correndo para chamar a amiga.

  “Então a Mina ficou fora a tarde toda por causa disso,” murmurou Ami.

  “Bem que ela estava estranha...” disse Seiya, “Bem que ela me avisou. Eu sabia que ela preferia o darien, mas nunca imaginei que ela inventaria tudo isso para fazer os dois reatarem,”

  “Seiya, não fique triste,” Ami falou para confortá-lo, “Mina só fez isso porque estava se sentindo culpada pela separação dos dois. Ela que ficou incentivando Darien a ir embora, e depois que você chegou e ela percebeu o perigo, viu que tinha metido os pés pelas mãos,”

  “Então você também está do lado dele,” concluiu Seiya.

  Ami segurou as mãos do amigo, com um olhar afirmativo. De alguma forma ela tentou fazer Seiya se sentir melhor, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, Lita entrou na sala arrastando Serena pela mão. Finna veio logo atrás, e todos saíram da casa, exceto Seiya.

 

  Verda entrou como um trovão no laboratório e, para o seu desespero, lá estava Hiroi, que tinha voltado para o trabalho, tentando esquecer o horror que tinha acontecido. Ao ver Verda, ele tentou aproximar-se, mas ela o repeliu a metros de distância.

  “Não chegue perto de mim ou eu o mato,” alertou Verda, sem força de expressão. Voltando-se para todos que trabalhavam no laboratório, continuou, “Vamos usar Sypares agora, preparem tudo,”

  “Não, Verda!” gritou Hiroi, “Ela ainda não está pronta,”

  “Sua opinião não me importa!” retrucou Verda.

  “Você vai destruir todo o nosso trabalho! Se quer descontar sua raiva em alguém, o faça em mim! Se atacar as Sailor Senshi agora tudo será em vão!”

  “Não queira me impedir, seu idiota!” exclamou Verda, “Eu acho que Sypares já está forte o suficiente para acabar com aquelas Sailor-ridículas,”

   Hiroi suspirou profundamente, vendo que de nada adiantaria suas palavras. Verda estava louca de raiva e precisava descontar isso em alguém. E ela ainda pretendia destruir todo o trabalho que desenvolvera com Hiroi. Era como se tentasse apagar tudo o que vivera com ele. E ninguém podia impedi-la.

 

  Assim que todos saíram de dentro da casa de Finna, Mina fez uma segunda introdução, menor que a inicial, mas com a função de ajustar a melodia para o tom de Darien, que começou a cantar quando ela indicou.

 

  “The stars are aglow and tonight how their lights sets me dreaming

   My love, do you know that your eyes are like stars brightly beaming?

   I bring you and sing you a Moonlight Serenade”

 

  A voz de Darien era realmente boa, e Mina não estava exagerando quando dizia que ele levava jeito para a música. Serena olhava boquiaberta, sem saber o que pensar. Tudo aquilo era tão surpreendente, tão surreal... Seu coração batia em uma alegria descompassada, mas sua mente ainda tentava bloquear seus sentimentos.

 

  “Let us stray till break of day in love’s valley of dreams

   Just you and I, a summer sky, a heavenly breeze kissing the trees

   So don’t let me wait, come to me tenderly in the June night

   I stand at your gate and I sing you a song in the moonlight

   A love song, my darling, a Moonlight Serenade”

 

  Mina seguiu com a melodia, aproveitando com maestria todos os recursos musicais que um teclado oferece. Ela pode ver as lágrimas escorrendo pela face de Serena e sentiu que estavam perto de tocar definitivamente seu coração. Fechou os olhos e deixou as notas fluírem sob seus dedos.

  “Serena,” disse Darien, com a bela música ao fundo, “Eu sei que eu errei e magoei profundamente o seu coração. Sei que eu estou longe de ser o homem perfeito, e que você é a mulher mais linda e pura dentre todas e, portanto, merecia alguém muito melhor que eu. Só que eu te amo e minha vida não tem sentido longe de você. Serena, você é minha terra, o meu céu, a minha lua, minhas estrelas... Se ficar longe de mim é o que te faz mais feliz eu farei a sua vontade, mas se for o contrário, eu serei o mais feliz de todos os homens,”

  Darien respirou fundo, e lágrimas surgiram em seus olhos como as que banhavam os olhos de Serena. Ela mantinha seu olhar fixo e profundo.

  “Serena, sob o luar seus olhos resplandecem

               mas sob as lágrimas

               de amor

               é que são mais brilhantes que estrelas

 

               sob o luar sua pele é quente

               sangue fervente borbulha

               por amor

               é então que nos encontramos

 

               quando a lua vem

               sempre sua mão quero encontrar

               junto à minha

 

               quando o sol se ergue

               sempre seu calor quero encontrar

               junto ao meu

 

               e quando a lua se esconder

               você que vai guiar a minha maré

               me levará até meu porto seguro

 

               e quando o sol não mais nascer

               nosso amor brilhará na eternidade

               e aquecerá a todos

 

               sempre!

 

   Serena, eu te amo!” exclamou ele após declamar o poema. Mina tocou o acorde final, esperando pela reação definitiva de Serena.

  “Desde quando o Darien é poeta também?” perguntou Lita, emocionada com a beleza daquela poesia.

  “Desde nunca,” respondeu Serena, imóvel, “Essa poesia é minha. Foi a primeira poesia que eu escrevi depois que nos casamos,”

  Lita suspirou com ainda mais sentimento, ansiosa para ver a reação final de Serena. Pouco ela teve que esperar, pois, assim que Darien estendeu a rosa que segurava em sua mão para Serena, ela saiu correndo em sua direção e o abraçou, beijando-o com todo o amor que tinha dentro de si.

 

  A cortina da sala, que estava entreaberta, se fechou, e Seiya sentou-se no sofá com a cabeça entre as mãos, derrotado. Suas últimas esperanças tinham se esvaído naquele beijo de amor.

 

  Mina estava exultante com o sucesso de seu plano, finalmente sentia-se livre da culpa de quase ter destruído um lindo casal. Virou-se para Lita, que tinha os olhos banhados em lágrimas e sorriu, percebendo que as amigas também estavam internamente lhe dando os parabéns por sua idéia perfeita. Quem conhecia Serena sabia que ela não seria fria o suficiente para colocar seu orgulho na frente de todo o amor que Darien declarara e Mina tocara no ponto fraco das amigas. Ia se aproximar de todas para receber verbalmente os cumprimentos quando um clarão súbito cegou sua vista e a de todos.

  O chão tremeu sob os pés de Ami e ela não gostou nem um pouco dessa sensação. A luz ainda não havia se dissipado quando ela ouviu um grito de Serena, agravando seu sentimento de impotência. Lita sentiu um aroma acre se espalhando no ar, um perfume das trevas, e logo percebeu que um combate estava começando.

  “Meninas, é um monstro enviado por Titã! Transformação!” gritou Lita, erguendo sua caneta no ar.

  No meio daquela estranha neblina brilharam as mais diversas cores, mas Ami só se acalmou quando viu o resplandecer do Cristal de Prata. Apesar dos gritos, Serena estava bem e preparada para a luta. Quando todos já estavam transformados, já era possível enxergar o que estava acontecendo.

  “É a Sypares de novo!” exclamou Tuxedo Mask, reconhecendo a maligna instantaneamente.

  “Há certos monstros que não aprendem a perder!” resmungou Sailor Júpiter, atacando-a com o Supreme Thunder, golpe que foi facilmente evitado por Sypares.

  “E há certas guerreiras desmemoriadas que insistem em usar seus golpes idiotas!” retucou a vilã, lançando um raio de energia em Júpiter. Com um movimento ágil, ela conseguiu desviar do raio por um fio.

  “Mercúrio, ela é aquela que conhece todos os nossos golpes, por isso nossas tentativas são fracassadas,” dise Sailor Vênus.

  “Eu lembro de vocês terem me contado do ataque dessa bruxa,” respondeu Mercúrio, ativando os seus óculos e começando a analisar o inimigo, “Temos que encontrar seu ponto fraco,”

  “Aqui, sua mal amada! Tome isso!” gritou Vênus, lançando sua corrente contra a maligna. Era a primeira vez que usava seu Vênus Love Me Chain novamente, já que aquela também era a primeira luta depois do Cristal de Prata ter despertado novamente e, com isso, também houve a evolução dos poderes de todas. Sypares conseguiu também fugir do golpe de Vênus, mas a loira não pareceu surpreender-se com isso. Enquanto a atenção de Sypares  era atraída por Sailor Vênus, Sailor Moon preparava o seu Moon Princess Halation logo atrás da vilã. Contudo, ao lançar o seu golpe, algo estranho aconteceu.

  Sypares, ao pressentir que seria atacada, virou-se para Sailor Moon. Certamente seria tarde demais para a maligna desviar do golpe, mas ela nem ao menos tentou fazer tal coisa. Quando as auréolas de luz iam atingi-la, Sypares simplesmente... desapareceu.

 

  “Verda, pare com isso agora!” exclamou Hiroi, pois não conseguira ficar parado vendo Verda destruindo o trabalho de dias e noites a fio. “Sypares não vai conseguir,”

  “Já disse para não se intrometer,” retrucou Verda. Ela tinha que acabar logo com as Sailor Senshi, pois senão Titã a obrigaria a continuar trabalhando com Hiroi. E isso seria insuportável. A presença de Hiroi só a fazia lembra de como tinha sido uma idiota por se deixar levar pelas belas palavras de um homem, como se apaixonar era a maior burrice que já cometera.

  Hiroi estava se aproximando de Verda para tentar acalmá-la quando Verda repentinamente se virou e lançou uma bola de fogo na direção de Hiroi, que só não foi atingido por pura sorte. Vendo o chamuscado no chão, onde a bola de fogo caíra, Hiroi afastou-se novamente, decidido a esperar pelo final daquela luta que, para ele, já estava perdida desde o começo.

 

  “Onde ela está?” perguntou Sailor Júpiter, olhando em todas as direções.

  Sailor Mercúrio digitava vários comandos em seu teclado enquanto os resultados apareciam instantaneamente no visor, e sua expressão era tensa.

  “Já vamos descobrir, todos fiquem atentos,” disse ela, “Iniciando escaneamento infravermelho,”

  Em guarda, esperavam ansiosamente pela posição de Sypares. Segundos pareciam uma eternidade até o momento que a expressão de Sailor Mercúrio mudou. Seus olhos arregalaram-se quando ela girou 180 graus.

  “Está atrás de mim!” gritou Mercúrio, mas antes que qualquer um pudesse se mexer, Sypares reapareceu, assoprando um vento congelante no rosto de Mercúrio. Seu visor transformou-se em vidro congelado imediatamente e, com um bom soco, Sypares quebrou-o em mil estilhaços. Sem conseguir enxergar devido aos cacos de vidro que se espalhavam sobre seu rosto, Sailor Mercúrio não pode fazer nada quando Sypares agarrou o seu pescoço e começou a estrangulá-la. Para piorar, Sypares ergueu vôo, ficando a uns 3 metros do solo.

  “Solte ela já!” gritou Júpiter, lançando o seu Sparkling Wide Pressure, do qual Sypares desviou calmamente. Sailor Mercúrio se debatia no ar quando uma bola de energia surgiu do nada e atingiu Sypares. Sailor Mercúrio estava quase batendo no chão, pois a maligna a soltara quando fora atingida, mas alguém velozmente a pegou, trazendo-a em segurança para o solo.

  “Obrigada, Sailor Fighter,” agradeceu Mercúrio, limpando o sangue que escorria dos cortes no seu rosto, ocasionados pelo vidro quebrado do seu visor.

  “Então temos mais uma guerreira, hoje?” perguntou Sypares ironicamente.

  “E eu serei o seu pior pesadelo,” respondeu Sailor Fighter, atacando-a. Sypares foi atingida na perna, que ficou bastante machucada.

 

  “Rápido, iniciar modo invisível!” exclamou Verda, ao ver em seu visor que Sypares estava ferida. “Captação de dados urgente!” continuou ela, dando ordens a todos que trabalhavam no laboratório. Do lado de fora, Hiroi ouvia a movimentação, preocupado e impotente.

 

  “Onde ela se meteu de novo?” esbravejou Júpiter, incomodada com o sumiço da inimiga.

  “E agora nem tenho mais meu computador...” murmurou Sailor Mercúrio, que estava muito triste com a perda de seu visor. Vênus tentou acalmá-la, preocupada com um corte logo acima da sobrancelha de Mercúrio que ainda estava sangrando.

  “Não se preocupe, isso é normal,” tranqüilizou Mercúrio, “É a “quase” médica que está dizendo...”

  Vênus ficou quieta, mas não gostou nem um pouco de como a amiga dissera a segunda frase, cheia de uma amargura que geralmente ela não mostrava. Contudo, seus pensamentos foram interrompidos por uma explosão.

 

  “Dados primários e secundários assimilados!” informou um dos subordinados de Verda.

  “Modo de batalha ajustado!” emendou outro, que trabalhava num computador ao lado. “Devemos cancelar o modo invisível?”

  “Positivo,” confirmou Verda, impassível.

 

  Assim que a poeira baixou, Fighter estava caída no chão, pois fora atingida pelo golpe de Sypares. Ela se levantou o mais rápido possível e contra-atacou, mas dessa vez Sypares não precisou nem se esforçar para se esquivar do golpe.

  “Não pensava que eu ia cair nesse seu truque barato muitas vezes, pensava?” gargalhou a maligna, lançando rajadas de vento para todos os lados. Uma a uma, Fighter, Vênus e Mercurio foram arremessadas contra a parede da casa de Finna, caindo semi-inconscientes.

  Tuxedo Mask e Sailor Moon estavam do outro lado da rua, enquanto Júpiter ficava perto das outras, tentando protegê-las de novos ataques. Os três não sabiam ao certo o que fazer, pois como seus golpes certamente seriam bloqueados, começaram a pensar ao invés de agir, esperando por um movimento em falso de Sypares.

  “E se tentássemos ataques mágicos?” propôs Tuxedo Mask.

  “Não vai funcionar,” respondeu Serena, “Quando Sypares atacou Mercúrio, eu tentei paralisá-la com um feitiço, mas nada aconteceu. Acho que ela é imune,”

  “Chega de conversa, vou acabar logo com isso!” urrou Sypares, “Primeiro vou destruir aquela nervosinha ali!”

  Sypares olhou com desdém para Sailor Júpiter e começou a voar velozmente em sua direção. Júpiter ficou em guarda, pronta para desviar do ataque, mas ele nunca aconteceu.

  Quando estava a centímetros de Júpiter, Sypares deu uma guinada surpreendente, indo na direção de Sailor Moon. Com uma velocidade ainda maior que a que estava, em segundos estava numa posição privilegiada para atacar, e assim ela lançou uma bola de eletricidade certeira em Sailor Moon.

  Contudo, no momento anterior ao impacto, Serena caiu para a direita, batendo a cabeça no meio fio. Tudo ficou escuro e por um instante ela não conseguiu entender o que acontecia. Sua mente foi clareando aos poucos, até ela ver que, caído em seu lugar, estava Tuxedo Mask. Sailor Moon levantou imediatamente, os olhos injetados de ódio.

  “Você não devia ter feito isso...” murmurou Sailor Moon.

 

  “Isso não é normal, não é normal!” gritou um dos técnicos que trabalhavam na monitoração da batalha.

  “Dra. Verdammt, há um alto índice de energia concentrada no local. É como uma tempestade eletromagnética!”

  “Droga, o que é isso...?” perguntava-se Verda, ainda sem uma opinião formada sobre qual seria o próximo passo. “E onde fica o epicentro?”

  “Últimas leitura chegando...” alguém começou a responder, observando atentamente a enxurrada de dados que chegavam a cada segundo, “É... o ponto central é... aquela mulher! Sailor Moon!”

  “Mudar para modo invisível! Imediatamente!” ordenou Verda, nervosa.

 

  Sailor Moon deu um passo em direção à Sypares, que estava visivelmente atordoada com o comportamento atípico da guerreira. O broche de Sailor Moon abriu, e o Cristal de Prata começou a pulsar com uma luz incandescente. Por um breve instante Sypares desapareceu, mas logo sua imagem era visível novamente.

  “Problemas?” perguntou sarcasticamente Sailor Moon, indo em direção à maligna.

 

  “Alerta geral! Alerta geral! Campo magnético instável!”

  “O que aconteceu? Por que Sypares ainda está visível?” perguntou Verda, sem compreender o que estava acontecendo. Ela entendia bastante de computação e leitura de dados, mas aquela não era exatamente sua especialidade,

  “As ondas lambda que partem do epicentro estão deixando o campo magnético irregular,” alguém explicou, “Sypares não consegue manter-se invisível nesse ambiente,”

  “E por que ela está parada?” irritou-se Verda, ao ver que a sua criação não se movia com a proximidade de Sailor Moon.

  “Não sabemos ao certo,” o mesmo rapaz respondeu. “Sypares entrou em colapso com a atipicidade da luta e perdemos o controle sobre ela,”

  “Traga-a de volta imediatamente, então,” ordenou Verda.

  “Infelizmente não podemos, Dra. Verdammt,” continuou ele, “Não há possibilidade de transporte no ambiente atual de batalha. Só podemos esperar,”

 

  Ao chegar próxima o suficiente de Sypares, Sailor Moon agarrou os braços da maligna, que continuava paralisada, a expressão de puro pavor. Murmurando palavras inaudíveis, correntes de eletricidade começaram a emanar dos braços de Sailor Moon e eletrocutar Sypares.

  Finna, olhando pela janela da sala, estava atônita com o que via. Aquela garota provava mais uma vez que não era normal, e Finna não fazia idéia de onde isso iria parar.

  O lugar onde as mãos de Sailor Moon prendiam os braços de Sypares já estavam completamente queimado, e a vilã tremia em agonia, mas nada parava Sailor Moon. O brilho flamejante do Cristal de Prata aumentava, pulsando com vigor, mas nem o seu brilho ofuscante interferia no ataque. Com um estrondo, a luz emanada expandiu-se como a explosão de uma supernova, lançando Sailor Moon e Sypares para lados opostos da rua.

 

  “É... inacreditável...” murmurou uma jovem, olhando diversos gráficos no computador, “Eu nunca vi... tamanha concentração de energia...”

  “O que houve? O que foi aquela explosão?” indagou Verda, totalmente confusa.

  “Não, nada de explosões...” a garota continuou, “Se toda aquela energia tivesse explodido, Tóquio simplesmente... não existiria mais. Houve apenas a liberação de uma quantidade ínfima da energia acumulada, o epicentro continua em Sailor Moon.”

  “E agora o que há? E Sypares?” perguntou Verda, ainda nervosa.

  “A energia parece estar... se contraindo... eu nunca via algo assim... Depois de uma expansão, uma contração de proporções incríveis,” respondeu ela, “Quanto à Sypares... ela está com todos os seus níveis baixos, em estado crítico, mas ainda está viva. E antes que pergunte, não podemos ainda tirá-la de lá,”

 

  Atordoada com o que houvera, Sailor Moon baixou seus olhos para o Cristal de Prata, e não enxergou nada, claro, a visão ofuscada pelo brilho intenso. Aos poucos, contudo, o clarão foi diminuindo, até que ela viu o que tinha acontecido.

  “É o Cosmic Heart Compact!” exclamou Sailor Moon, “O Cristal de Prata evoluiu!”

  Ela olhou em volta, e viu que Sailor Júpiter estava cuidando de Tuxedo Mask, que, até onde Sailor Moon podia ver, estava ao menos vivo. Seu coração se acalmou com isso e também ao ver que Finna tinha levado as outras Senshi para dentro e provavelmente estaria curando-as.

  Tornou então seu olhar para Sypares, que agonizava no chão. Os olhos de Sailor Moon não estavam mais cheios de ódio, mas sim repletos de compaixão e tristeza.

  “Acho que não preciso mais de magia para acabar com sua dor,” falou ela, erguendo o Spiral Moon Heart Rod, “Moon Spiral Heart Attack!!!”

  Em segundos, Sypares foi transformada em um monte de poeira. Correndo na direção de Tuxedo Mask, Sailor Moon abraçou-o com força, lágrimas molhavam o seu rosto.

  “Eu te amo, Darien! Não me deixe nunca mais!”

 

  O sino da torre mais alta do castelo já dava a sua décima segunda badalada, mas o baile promovido pela rainha parecia estar apenas começando. Muitos convidados importantes conversavam ao som de boa música clássica enquanto bebericavam de suas taças cristalinas preenchidas com líquidos borbulhantes. No centro do salão principal muitos casais dançavam, perdendo-se na infinidade de pares que se divertiam como se estivessem vivendo um conto de fadas.

  Contudo, recostada numa pilastra de alvo mármore, Rini não parecia estar feliz. Em geral ela se divertia nas festas do palácio apenas durante as primeiras horas, quando os convidados chegavam e ela os recebia como a princesa de Tóquio de Cristal. Após esses primeiros momentos felizes, os convidados se dividiam nos seus grupos já de costume e seus pais iam de grupo em grupo para trocarem idéias sobre política ou assuntos relacionados. Não havia ninguém da faixa etária de Rini e ela sentia-se deslocada e perdida, mas como princesa, sua mãe exigia que ela ficasse nas festas até que o último convidado se retirasse. E em festas badaladas como aquela, isso somente aconteceria pela manhã.

  Cansada de ficar parada, Rini começou a andar erroneamente pelo salão, as pessoas passando por ela como luzes ofuscantes dentro da escuridão. Ninguém tinha uma forma exata e conhecida, todos eram meros borrões de pessoas sem identidade. De vez em quando alguém se curvava levemente ao vê-la passar, e Rini sabia que tal pessoa não tinha um lugar muito favorecido em qualquer que fosse a hierarquia a qual pertencesse, pois as pessoas mais importantes eram geralmente enfadonhas, pedantes e extremamente orgulhosas.

  Ela já pensava em sentar-se em algum lugar quando algo esbarrou em seu ombro. Virou-se repentinamente, e uma silhueta se delineou, separando-se da massa incompreensível que lotava o salão.

  “Mestre!” exclamou Rini, ao ver que quem esbarrara em seu ombro era seu professor Wanabe.

  Wanabe também estava surpreso em esbarrar em sua ilustre pupila, visto que ainda não tinham se encontrado na festa. Seu olhar parecia estranhamente aliviado.

  “Boa noite, princesa,” disse ele, sério, “A festa de hoje está muito agradável,”

  Rini desanimou-se com o excesso de decoro de seu professor, mas tentou reverter a situação. Afinal, ele parecia uma pessoa ao menos interessante para passar o tempo até que aquela cansativa festa acabasse.

  “Oh, não precisa falar dessa forma! Venha comigo um minuto,” falou Rini, pegando a mão de Wanabe e puxando-o para longe daquela bagunça. Ele deixou-se ir, sem reação por causa das atitudes impulsivas da princesa. Pararam numa das amplas varandas do castelo, onde não havia nada nem ninguém, só uma brisa refrescante que fez com que Rini se arrepiasse. Ela usava apenas um vestido longo se seda lilás, tipo tomara-que-caia, e que estava usando pela primeira vez.

  “Não está muito frio aqui, alteza?” preocupou-se Wanabe.

  “Não, não,” respondeu Rini, ainda incomodada por causa do jeito polido de seu mestre. “Só gostaria de fazer um pedido,”

  “Você é a soberana aqui,” falou Wanabe com um tom jovial, “Peça o que quiser,’

  “Não precisa ficar me chamando de alteza,”

  “Certo, princesa Serena,” respondeu ele, “Como desejar,”

  Rini deu uma risada nervosa, passando a mão pelos cabelos, que estavam soltos e se mexiam com o vento.

  “Não, nada disso de princesa também. Me chame apenas de Rini,”

  “Creio que não posso chamar-lhe pelo seu apelido íntimo, princesa Serena,” sentenciou Wanabe.

  “Eu ordeno, então,” falou ela, tentando impor seu pedido.

  “Mesmo assim...” murmurou Wanabe, “É indecoroso...”

  Rini andou até a mureta, debruçando-se sobre ela. Olhou o horizonte, ornado pelas luzes brilhantes da cidade em pleno desenvolvimento.

  “Não lembro de tê-lo visto nas outras festas do palácio,” comentou Rini.

  “Certamente não me viu, princesa. Essa é a primeira festa real que participo,”

  “Por quê?” indagou Rini, virando-se repentinamente para ele.

  “Acho que não sou muito de festas...” disse Wanabe, “Mesmo hoje, acho que já está quase na hora de eu ir embora,”

  “Não!” exclamou Rini, surpreendendo a ele e a si mesma, “Quero dizer, não vá tão cedo...”

  “Mas, princesa, como disse, eu não gosto muito de festas e não conheço quase ninguém aqui. Esse não é o meu ambiente,”

  “Você conhece a mim,”

  “Sim, mas você é a princesa, todos a conhecem,”

  “Fique, por favor, me faça companhia...” pediu Rini, temendo ficar sozinha novamente.

  Wanabe não entendia o motivo da princesa estar pedindo para que ele ficasse. Certamente ela logo encontraria convidados mais importantes e até esqueceria que tinha o visto.

  “Imagine, numa festa como essa, a princesa nunca fica só,” disse ele.

  “Aqui não há ninguém com que eu tenha afinidade!” exclamou Rini, “Fiquei tão feliz por tê-lo encontrado e agora você me diz que quer ir embora? Minha presença se faz tão insuportável assim?”

  “De forma alguma, mas...” começou Wanabe.

  “Então fique...” interrompeu Rini, “Não quero ficar sozinha até o final dessa festa,”

  O pedido de Rini enterneceu o coração de Wanabe e ele concordou com um aceno, sorrindo para ela. Ela deu um giro de felicidade, rindo de pura alegria.

  “Por que então não pega algo para tomarmos?” sugeriu Rini.

  “O que deseja?” especulou Wanabe.

  “Champagne,” disse ela, singelamente.

  “Princesa, eu não estou autorizado a servir bebidas alcoólicas para menores de idade,” retrucou Wanabe.

  “Por favor... você sabe que eles não irão dar uma taça para mim se eu própria for pedir. Só uma taça... é um pedido da futura rainha, acho que você deveria levar em consideração,”

  “Nem pensar, trarei um suco,” disse ele enquanto dirigia-se novamente ao salão. Sentiu que Rini segurava seu braço.

  “Tudo é tão controlado e frio na minha vida, me ajude a ter uma noite diferente,” falou Rini, enquanto segurava as mãos de Wanabe dentre as suas.

  “Isso não é certo, princesa,”

  “Por favor, Wanabe...”

  Ele pensou por um momento, ainda surpreso pelo fato de Rini tê-lo chamado pelo nome, coisa que ela nunca fizera antes. Olhando-a nos olhos, sentiu que ela escondia uma solidão profunda no âmago de seu coração, algo que não deixava seu olhar brilhante como deveria ser o olhar de uma princesa tão privilegiada. Talvez a aparente vida de sonhos da princesa Serena não fosse tão feliz como todos pensavam, mas isso daria a ele o direito de infringir as regras para agradá-la? E se fossem pegos? Olhou ao redor, e constatou que ninguém ousava sair naquela varanda, onde o vento batia mais forte, o que significava que não seriam vistos. Talvez...

 

  Em alguns minutos, os dois estavam sentados num banco esculpido em pedra que ficava do lado oposto da mureta.

  “...E o mais engraçado foi quando, no meio do jantar, o garçom esbarrou no embaixador e fez com que a peruca dele caísse dentro da sopa!” contava Rini, rindo, enquanto bebia sua taça de champagne. Wanabe sorria com as histórias que ela contava, mas algo estava o incomodando.

  “Princesa, pode me responder uma pergunta?”

  “Sim,” concordou Rini, olhando diretamente para ele.

  “Se acha essas festas tão chatas por não ter ninguém para conversar, por que não chama alguns amigos?” indagou ele, curioso. O sorriso de Rini esmoreceu lentamente.

  “Digamos que eu não tenho um grande círculo de amizades...” murmurou Rini.

  “Não entendo como essa frase pode estar saindo da boca da futura Rainha de Tóquio de Cristal,” disse ele, olhando diretamente para ela.

  “Ora, eu tenho apenas aulas particulares, não tenho vizinhos, não freqüento outros clubes que não sejam no castelo... Onde posso encontrar amigos? Embaixo dos tapetes persas?” falou ela, tentando achar graça de sua triste situação.

  “Acho que ser princesa não deve ser como eu imaginava...” respondeu Wanabe, “Desculpe se a incomodei,”

  “Não é incômodo...” falou Rini, “Mas você também veio sozinho à festa,”

  “Acho que sou um pouco anti-social...”

  Os dois riram com suas situações tão semelhantes mesmo sendo de mundos tão diferentes. Do lado de dentro, a sonata em mi bemol de Haydn começou a ser tocada e ela podia ser claramente escutada da varanda. Rini levantou-se com leveza e estendeu a mão para Wanabe.

  “Dança comigo?” perguntou ela, para espanto de seu mestre.

 

  Finna tinha acabado de curar os cortes no rosto de Ami e Serena dava uma sopa quente para Darien (nem precisa dizer que quem preparara fora Lita) quando Seiya entrou na sala, atraindo a atenção de todos.

  “Acho que vocês podem adivinhar o que tenho a dizer,” falou Seiya, mas a sala continuou em silêncio. “Já que ninguém fala nada, eu me encarrego. Sei reconhecer que perdi e estou jogando a toalha,”

  “Seiya, não é bem ass...” começou Serena, mas foi interrompida.

  “Não diga nada, Serena, pois guardo comigo cada bom momento que vivemos juntos,” falou ele, e Darien ficou pensando o que realmente acontecera entre os dois, mas espantou logo esses macaquinhos do sótão. “O que eu sinto, todos sabem, mas visível também é o que você sente. Portanto, eu gostaria de me despedir de todos e pedir para que alguém abra um portal para a Terra,”

  “Mas, Seiya, por que você não fica e...” tentou Serena, novamente.

  “Desculpe, Serena,” respondeu Seiya, “Vou torcer muito para que encontre sua filha e que seja muito feliz, mas não posso mais conviver com você... é demais para mim,”

  “Ele tem razão,” disse Lita, “Não podemos pedir para que Seiya fique, seria muito injusto,”

  Um a um, todos se despediram com abraços e beijos, pois Seiya era um amigo querido, apesar de tudo. Por fim, Seiya e Darien ficaram frente a frente.

  “Como já disse uma vez,” começou Seiya, “Cuide dela com muito carinho. E nunca, nunca mais a faça sofrer,”

  “Entendido,” respondeu Darien, apertando a mão estendida de Seiya, “Mas saiba que eu tenho a intuição muito forte de que ainda vamos nos ver. E em situações mais confortáveis.”

  “Assim seja,” desejou Seiya, entrando no portal aberto por Finna e deixando de uma vez por todas o seu grande amor para trás.

 

  “Nem pensar!” exclamou Wanabe, balançando a cabeça, “Eu não sei dançar essas coreografias da corte! Não vou entrar lá e pagar esse mico!”

   “Ora,” começou Rini, dando um passo a frente, “Eu não falei nada sobre entrar lá,”

  Os dois ficaram parados, olhando um para o outro sem ação. Rini então pegou Wanabe pela mão e o levantou.

  “Eu também acho muito chato dançar com toda aquela gente,” falou ela, “Você erra um passo e tudo está arruinado! Venha aqui e coloque a palma da sua mão junto a minha,” pediu ela, com o braço estendido para a frente. Wanabe fez o que ela pediu, rindo de sua falta de jeito.

  “Agora um passo a frente,” continuou Rini, ensinando a ele a coreografia, “Eu uma para trás. Girando...”

  Os dois continuaram a dançar, ele seguindo as instruções, recebendo uma aula de dança da sua ilustre aluna. Não era tão difícil como parecia á primeira vista, mas Wanabe não sentia-se propriamente confortável dançando.

  “Essas danças são bastante esquisitas...” disse ele, depois de uns três minutos.

  “Você gosta mais das danças modernas?” perguntou Rini calmamente.

  “Acho que sim,”

  “Então está na hora de mudarmos de estilo...”

  Sem dizer mais nada, ela se aproximou de Wanabe, colocando as mãos dele em volta da sua cintura e passando seus próprios braços em torno do pescoço dele. Seus corpos se juntaram e suas faces ficaram tão próximas que Wanabe podia sentir o calor que emanava das bochechas rosadas de Rini.

  “Não acho que isso seja apropriado,” disse Wanabe, um pouco tímido com a situação.

  “Dane-se o que é apropriado,” respondeu Rini, “Você não queria se divertir? Então relaxe.”

  Wanabe sentia sob suas mãos a cintura delgada de Rini e ele começava a pensar que nunca devia ter deixado aquilo acontecer. Sem que ele ao menos percebesse, estavam se beijando.

  “Não!” exclamou Wanabe, empurrando Rini para longe, “Pare com isso!”

  “Desculpe!” falou Rini, também confusa com o que tinha feito, “Eu não queria... quer dizer, não sei o que houve...”

  “Eu sei! Nunca devia ter ficado aqui com você. Vou embora!”

  Wanabe estava rumando em direção ao salão quando Rini o segurou.

  “Espere, a culpa foi minha. Isso nunca mais vai aconteceu, eu prometo!”

  “Mesmo assim, tenho que ir,” disse ele, desvencilhando-se de Rini e perdendo-se no salão lotado de pessoas. Sem mais o que fazer, Rini sentou-se na varanda, colocando a cabeça entre as mãos, pensativa. Em ela entendia porque tinha o beijado.

  “Por quê...?” ela se perguntava, confusa.

 

  Darien já estava instalado novamente em seu quarto e, sentado na cama, lia um livro sobre magia, procurando pelo feitiço que Serena usara em Sypares. Surpreendeu-se quando a porta se abriu.

  “Ainda acordado?” perguntou Serena, usando uma longa camisola de seda azul.

  “Já estava indo dormir,” respondeu Darien, fechando o livro e colocando-o sobre a mesa de cabeceira. “Aconteceu algo?”

  “Sim,” falou Serena, sentando na beirada da cama, “Todos esses dias eu pensei muito e conversei com as meninas. Eu estava errada, e agora vejo isso,”

  “Do que está falando, Serena?” perguntou Darien, confuso.

  “Sobre nós. E sobre Hikari,” ela explicou, “E cheguei a conclusão de que nada adianta eu me punir. Isso não vai mudar nada,”

  Darien sorriu levemente, em silêncio. Serena estava linda, os seus cabelos loiros soltos e perfumados. Ela aproximou-se dele e, depois de muito tempo, seus lábios se tocaram novamente. Darien abraçou-a com ardor, e os dois perceberam o quanto eram infelizes separados. Darien estendeu a mão e apagou a luz do abajur.

  “Não,” disse Serena, ligando a luz novamente, “Não há motivo para nos escondermos na penumbra. Eu quero que você me veja por inteiro.”

  Dizendo isso, ela tirou de uma só vez sua camisola, deslumbrando Darien com seu corpo perfeito. Sedentos de paixão, amaram-se novamente, selando uma nova etapa em suas vidas.

 

 Verda estava sentada em sua sala, a mesa cheia de papéis bagunçados à sua frente, mas ela não os via, tão distante estava seu pensamento. Suas mãos frias estavam pousadas no seu colo, seu corpo totalmente inanimado. Verda era orgulhosa e não gostava de perder, mas daquela vez estava sendo diferente, a pior das situações pela qual passara. Não tinha sido derrotada, mas sim aniquilada por Sailor Moon e aquela força inexplicável que parecia estar sempre ao seu lado.

  Para deixar tudo ainda mais terrível, ela simplesmente não conseguia tirar Hiroi da sua cabeça, dizendo-lhe para não enviar Sypares ara aquela batalha. E lembrar de sua voz a fazia lembrar da sua traição, de como ela tinha sido enganada por aquele maldito.

  “Verda...” ela ouviu alguém chamar seu nome à distância e isso fez com que ela fosse saindo lentamente de seu mundo interior, até voltar para a realidade que ela definitivamente não queria enfrentar.

  “Verda...” chamou novamente Hiroi, parado à frente da mesa de trabalho de Verda. Quando ela virou seus olhos para ele, chamas de ódio brilharam no âmago do seu coração e ela só não explodiu em brados raivosos porque estava totalmente humilhada pelos últimos fatos.

  “Veio tripudiar ainda mais sobre as minhas perdas?” perguntou Verda com um quê de amargura em sua voz.

  “É claro que não,” respondeu Hiroi, respirando fundo para agüentar o bombardeio de acusações que Verda certamente estaria prestes a começar. “Na verdade, eu acho que você discutira esse assunto diretamente com Titã. O que eu vim fazer aqui nada tem a ver com Sypares,”

  Verda olhou curiosamente para Hiroi, mas algo lhe dizia que ela não queria continuar aquela inevitável  conversa.

  “Caia fora daqui, Hiroi,” falou Verda, pronunciando com firmeza cada palavra, enquanto uma bola de fogo surgia em sua mão, “Não preciso de muitos motivos para acabar de uma vez com sua existência,”

  “Agora não é mais como há algumas horas,” começou ele, “antes você até podia me matar, pois não estava pensando nas conseqüências de seus atos, mas agora... Bem, agora você sabe que não pode fazer isso, é contra as ordens de Titã.”

  Verda ficou calada, nada podia fazer contra a verdade dos fatos. Já iria sofrer as conseqüências daquele ataque impensado contra as Sailor Senshi e não podia nem cogitar erguer um dedo contra Hiroi. Contudo, isso não dava a ele o direito de humilhá-la ainda mais.

  “Você não acha que já me machucou o suficiente por hoje? Não acha que já aprontou o suficiente para anotar o meu nome no seu caderninho de conquistas e me deixar em paz?”

  “O meu amor não é uma mentira, Verda. Deixe-me explicar o que aconteceu,” pediu ele com serenidade.

  “Ah, essa é boa. Deixe que eu explico o que aconteceu: o grande garanhão não pode deixar uma só mulher passar, e, após conquistar a única mulher desse palácio maldito que não queria nada com ele, foi comemorar com uma piranha qualquer. Melhor, foi comemorar com uma piranha que se dizia amiga da pateta aqui,”

  “Você está se deixando levar pelas aparências, Verda” insistiu Hiroi.

  “E desde quando ver um homem e uma mulher nus se beijando pode ser chamado de ‘aparência’?”

  “Se você não me amasse, não estaria reagindo dessa forma,” sentenciou Hiroi, e a bola de fogo que ardia na mão de Verda desapareceu devido a sua surpresa diante daquela frase.

  “O amor só traz sofrimento, o amor é para os fracos,”

  “Ela me chantageou para conseguir aquilo, Verda,” revelou ele, ainda com esperança no olhar.

  “Quem dera todas as chantagens fossem tão prazerosas,” ironizou ela, desacreditando as palavras de Hiroi.

  “Ela ia nos denunciar, Verda, ela sabia de nós, sabia que fui eu quem burlou a segurança de Titã!”

  Verda ficou olhando para Hiroi, analisando sua expressão e a história que acabara de contar. Sim, aquilo tudo era verdade, ela sabia que ele não estava mentindo em nenhum momento, o que a deixava ainda mais triste.

  “Pois eu preferia morrer ao seu lado do que vê-lo com outra mulher,” disse ela, segurando a todo custo as lágrimas que corroíam seu coração como ácido.

  “Mas eu não podia suportar a idéia de ver você sofrendo, Verda,” argumentou Hiroi.

  “E já não está vendo? Você me fez e faz sofrer como mais ninguém conseguiria fazer,”

  Finalmente, Hiroi sentiu que fora derrotado pelos argumentos de Verda; ele tinha errado nas suas decisões e só lhe restava pagar o preço por isso.

  “É o fim,” pensou ele, ao sair da sala daquela a quem tanto amava.

  Verda acompanhou os passos de Hiroi até a saída e quando a porta se fechou uma grande dor afligiu seu peito, uma dor tão grande que ela desejou desaparecer para sempre desse mundo, deixar toda a traição e as mágoas para sempre. Toda a sua vida parecia ser um enorme e infindável erro e tudo que ela queria era passar uma borracha em sua existência.

 

  Seiya vagava sem rumo pela noite, em becos escuros e perigosos para os simples mortais. Ele ainda não sabia ao certo o que deveria fazer, pensava se já era hora de voltar para seu planeta, mas algo o dizia que sua missão ainda não tinha acabado. Essa intuição de que muita coisa ainda estava para acontecer na Terra o confundia, mas o que podia fazer? Em Eros não podia ter ficado e agora, de volta a Terra... estava novamente só. Ao pensar nisso, uma idéia brilhou em sua mente, uma pessoa que adormecia em seus pensamentos finalmente reluziu como fonte de nova esperança. Ademais, essa seria sua última alternativa.

 

  Rey estava se revirando de um lado para o outro, mas não conseguia dormir. Insônia era um mal que a perseguia desde que era muito nova e somente calmantes a faziam dormir naquelas noites intermináveis, mas Rey definitivamente não era a favor de ficar se dopando. Se ela tinha que passar por aquilo, iria encarar seu destino.

  Contudo, ela não estava agüentando mais ficar deitada, a ansiedade do sono que nunca vinha era estressante. Com isso, levantou-se, aproveitando para olhar o céu estrelado que luzia sobre o templo. A brisa era leve e fresca, fazendo o cabelo de Rey flutuar ao ritmo do vento. Ela ia sentar-se na relva para descansar quando ouviu passos se aproximando. Imediatamente, seus músculos se contraíram em uma postura defensiva.

  “Quem está aí?” indagou Rey, lembrando-se da presença misteriosa que estivera visitando-a.

  Não houve resposta, mas o som de passos se intensificou. Antes que ela pudesse tomar qualquer atitude, o mistério se desfez com o som de uma voz conhecida.

  “Sou eu, Rey. Seiya.” disse ele, com um sorriso tímido no rosto.

  Certamente, ele era a última pessoa que Rey imaginava encontrar naquela noite e sua presença a deixou sem ação. Até que esperava revê-lo algum dia, mas... tão cedo? Será que alguma coisa tinha acontecido em Eros? Estariam todos bem? Perguntas dançavam freneticamente na cabeça de Rey enquando Seiya ia se aproximando dela.

  “Por que você está aqui?,” perguntou ela abruptamente, “A batalha terminou? E Hikari, foi salva?”

  Seiya segurou as mãos de Rey para tentar acalmá-la, mas sabia que não seria um portador de boas notícias.

  “Não, Rey, tudo está mais ou menos na mesma,” Seiya respondeu.

  “E por que você está aqui?” ela estranhou.

  “Posso entrar?” disse ele, desviando um pouco o assunto. Afinal, não queria dar aquela notícia a Rey de qualquer jeito, no meio do jardim. Ela assentiu com a cabeça e levou-o para dentro do templo, mas nada daquilo conseguiu fazê-la ignorar o sentimento de que algo mau estava por vir. Seiya aceitou o chá que Rey lhe oferecera e os dois foram para a cozinha. Ele queria adiar o assunto para depois do chá, mas Rey insistiu até que ele lhe contasse o que tinha acontecido.

  “Rey, eu voltei porque senti que não havia mais espaço para mim em Eros,” falou ele sem olhar diretamente para ela. Rey, por sua vez, não pareceu entender de pronto o que ele queria dizer com aquilo.

  “Por quê?” indagou ela, “Eles recusaram sua ajuda? Não entendo...”

  “Nada disso, Rey, você sabe do que estou falando,” continuou Seiya, “Eles voltaram,”

  “Hã? Eles quem?” insistiu Rey, servindo o chá despreocupadamente. Olhando para ela, Seiya percebeu com clareza que ela sabia o que ele ia dizer, mas não queria aceitar.

  “Serena e Darien estão juntos novamente,” consluiu seiya.

  Sem que ele pudesse fazer nada, a face de Rey empalideceu e ela deixou a xícara de chá que ia entregar para ele cair no chão. O líquido fervente se espalhou em meio aos cacos de porcelana, mas quem parecia que ia desabar a qualquer instante era Rey; até seus lábios que eram sempre tão vermelhos perderam a cor. Antes que isso acontecesse, Seiya a amparou, e os dois sentaram-se perto da mesa.

  “Calma, Rey, não fique assim,” pediu Seiya. Ele sabia que a notícia seria triste para ela, mas nunca havia imaginado uma reação tão chocante. Ela balbuciava palavras que ele nem sequer conseguia entender e suas mãos tremiam. “Rey, você sabia que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde,” falou Seiya.

  “Sim, mas não tão cedo!” exclamou ela, “Não tão cedo!”

  Ao ver as lágrimas escorrendo em abundância dos olhos de Rey, Seiya finalmente conseguiu entender a extensão daquela paixão insana que ela nutria por Darien. Era muito mais intenso do que ele poderia imaginar e vendo a reação inflamada de Rey ele pode compreender o tamanho da força que a tinha motivado a trair sua melhor amiga. Ele a abraçou, tentando confortá-la.

  “Não é justo... tudo foi em vão... como eles puderam se entender tão rápido...!” murmurava Rey, ainda bastante descontrolada. Contudo, ao sentir a mão de Seiya acariciando seus cabelos, sua angústia foi diminuindo, ela sentiu novamente que alguém se importava com ela, algo que não sentia há algum tempo. A cada minuto que se passava, ela se acostumava ao inevitável, e aceitava o fato que aquilo já era esperado.

  “Desculpe pelo ataque histérico,” disse ela depois de um tempo, olhando para Seiya, “Imagino o que deve estar pensando de mim agora,”

  “Não diga bobagens, Rey,” respondeu Seiya, com sinceridade, “Saiba que você é surpreendente, sim, mas isso definitivamente não é um defeito,”

  Ela deu uma risada tensa, mas algo lhe dizia que Seiya tinha mudado alguns conceitos em relação a ela. Se isso era bom ou ruim, só o tempo diria.

  “Ainda quer chá? Posso fazer mais?” ofereceu Rey.

  “Não, obrigada,” agradeceu ele, “Na verdade eu nem sei ao certo o que vim fazer aqui. Depois que voltei de Eros fiquei meio ‘perdido’,”

  “Então aceite meu convite e fique aqui em casa até que saiba o que fazer,” falou Rey.

  Seiya foi pego desprevenido com aquele convite, e não sabia o que responder. Era óbvio que ele não tinha outro lugar para onde ir, mas a idéia de passar alguns dias na casa de Rey realmente não tinha aparecido em sua mente até então e por isso não sabia como agir.

  “Não seja tímido, Seiya, saiba que vai ser um prazer abrigar um amigo como você,” insistiu Rey. Antes que ele respondesse, ela se levantou, puxando-o pela mão para dentro do templo. Pararam na frente de um dos quartos e ela abriu a porta.

  “Pode ficar nesse quarto, agora ele está vazio mesmo...” falou ela, mas agora sua voz não parecia tão animada.

  “O que foi, Rey?” indagou Seiya, notando que o ânimo dela tinha novamente mudado.

  “Nada...” murmurou ela, “é que fazia um bom tempo que eu não entrava nesse quarto... não sabia que ele ainda me trazia tantas lembranças doloridas,”

  Seiya ficou quieto, observando Rey enquanto ela caminhava pelo quarto e tocava as paredes delicadamente, como se aquele contato reavivasse memórias em sua mente.

  “Quer falar sobre isso?” perguntou ele, não querendo parecer intrometido.

  “Tudo bem...” ela disse com a voz suave e abafada, “é que esse lugar me lembrou o outro homem da minha vida... Você chegou a conhecer Nicholas, não?”

  “Sim, era aquele rapaz que ajudava seu avô aqui no templo, não?” confirmou Seiya.

  “Certo,” assentiu Rey, “Esse era o quarto dele até pouco tempo,”

  “Vocês se separaram, então...” presumiu Seiya.

  Rey apontou uma caixinha arredondada vermelho-escura em cima de uma pequena mesinha. Ao vê-la, Seiya nem precisou ver o que tinha dentro, pois só pela caixa já dava para imaginar seu conteúdo.

  “Um anel de noivado, certo?” disse ele, olhando para Rey, que estava encostada na porta.

  “Certo,”

  “E você recusou, não é?”

  “Bem,” começou ela, “acho que a resposta é um tanto óbvia,”

  “E se arrependeu?” perguntou ele, instintivamente. Até Seiya começou estranhar sua forte curiosidade acerca da vida de Rey.

  “Não... sei,” falou ela, “Talvez se eu tivesse aceitado seria mais feliz hoje, mas seria justo? Eu sinto muita falta de Nicholas, ele era um grande amigo, companheiro, amante, só que eu não podia dar a ela a única coisa que ele queria de mim,”

  “Amor,”

  Rey olhou para Seiya, indicando que ele tinha matado a charada e os dois ficaram a se observar por alguns minutos, sem saber o que falar ou o que pensar, até que decidiram que um simples ‘Boa Noite’ era o suficiente para aquele dia.

 

  Contudo, além de tudo e todos, em um mundo ou em outro, o tempo nunca pára. Essa é a única certeza que há, pois tal força é implacável e soberana. E, com os ponteiros girantes do relógio, uma nova manhã nasceu, a aurora brilhante de todos os dias, trazendo novas esperanças e tormentos para o mundo. Com os raios de sol ainda tênues e frágeis entrando pelas janelas, um novo dia chegou para todos.

 

  Rini tinha ido dormir à apenas duas horas quando alguém entrou em seu quarto, interrompendo o sono conturbado que ela vinha tendo, devido aos pensamentos borbulhantes sobre o beijo que dera em Wanabe. Ela abriu os olhos, poucos raios de sol entravam pela janela fechada, mas ela pode discernir quem era aquela mulher que estava parada ao lado de sua cama.

  “Mamãe...” murmurou Rini, não compreendendo o motivo daquela visita tão súbita.

  “Querida,” disse Serenity, “eu só estou aqui para me despedir. Eu e seu pai estamos embarcando para a Romênia e deveremos ficar lá por duas semanas,”

  “Mas... espere!” exclamou Rini, ainda sonolenta, mas esforçando-se para acordar, “Eu preciso tanto conversar com você, mamãe,”

  “Infelizmente o assunto terá que ser adiado para depois da viagem,” respondeu a rainha, acariciando a mão de Rini, “Já estamos atrasados,”

  “Não dá, é tão urgente...” insistiu Rini, mas em seu interior sabia que sua mãe não iria ficar. Ela nunca ficava.

  Com um sorriso suave, a rainha Serenity se dirigiu para a porta do quarto, acenando para sua filha, que permanecia sentada na cama.

  “Duas semanas passam rápido, querida,” disse ela antes de partir.

  Rini olhava desolada para a porta, lembrando quantas vezes sua mãe tinha feito a mesma coisa. Ela era rainha, e seu poder era tanto que não podia se dar ao luxo de preterir assuntos relacionados ao governo para tratar de assuntos pessoais.

  “Eu queria tanto conversar com ela...” murmurou Rini para si mesma. Seu coração estava confuso, ela não sabia mais como agir, o que deveria sentir. Desde que tinha voltado do passado, Rini tinha entrado num ritmo de estudo muito grande, pois grandes seriam as responsabilidades que a esperavam, de tal forma que perdeu todo o contato com outros jovens da sua idade. Ela se sentia solitária, alguém que não passou pelas experiências que devia, e isso a angustiava. Por tudo isso, estava perdida, sem saber mais como olhar para a cara de Wanabe. Como ela iria encará-lo depois daquele beijo? Ele certamente não sabia, mas fora o primeiro homem a tocar os doces lábios da princesa de Tóquio de Cristal.

 

  Rey estava conversando com seu avô sobre a permanência de Seiya no templo e, como sempre, ele concordara sem maiores perguntas. Estavam na varanda quando o próprio hospede apareceu para dar bom dia.

  “Eu acordo cedo, mas vocês conseguiram me superar!” brincou ele, tentando animar Rey, que estava com uma expressão bastante triste. Ela abriu um sorriso discreto com a chegada de Seiya, mas seus olhos permaneceram opacos.

  “Eu e vovô acordamos muito cedo mesmo,” confirmou ela.

  “Seja bem-vindo, rapaz,” disse o avô de Rey, “Fique o tempo que precisar,”

  “Espero não causar nenhum incômodo,”

  O avô balançou a cabeça negativamente, mostrando-se simpático à presença de Seiya e entrou no templo. Ele andava devagar e com dificuldade, e sua saúde não parecia mais tão forte.

  “Você nunca será um incômodo, Seiya,” reafirmou Rey, segurando gentilmente as mãos de Seiya, numa atitude de confiança e amizade. Por um momento, ele sentiu que algumas nuvens negras haviam saído do semblante de Rey, e isso o deixou inexplicavelmente feliz.

 

  Ao lado da cama de Hotaru, onde tinha passado a noite inteira, Setsuna encerrava sua última tentativa de acordá-la. Com dois dedos, ela apagou as velas aromáticas que estavam na mesa de cabeceira e, com uma lágrima nos olhos, acariciou a testa de sua querida amiga.

  “Eu juro que tentei tudo, Hotaru-chan,” murmurou Setsuna, permitindo-se chorar amargamente, perdendo toda a sua expressão fria e distante. Ela debruçou-se sobre o corpo pálido de Hotaru e soluçava com todo aquele sofrimento que parecia não ter fim. Ficou daquela forma até conseguir recompor suas forças, podendo então voltar a olhar o rosto imóvel de sua amiga.

  “Eu sabia que não adiantaria, afinal” falou Setsuna para si mesma, ainda com os olhos fixos em Hotaru, “Mas, no seu caso, eu não pude me privar de tentar. O que mais me dói é pensar que tudo isso ainda mal começou e que a única coisa que posso fazer é seguir o script,”

  Ela então ajeitou o lençol que cobria o corpo de Hotaru com muito carinho e saiu do quarto. Ela tinha levado a amiga para sua casa, visto que no estado em que estava Hotaru não poderia ficar sozinha em um apartamento deserto. Lentamente, ainda triste com aquela situação, Setsuna foi para o banheiro, pensando que teria que entrar em contato o mais rápido possível com alguns médicos amigos seus, para que Hotaru recebesse alimentação através de uma sonda. O ideal seria que ela fosse para o hospital, mas Setsuna não podia arriscar que Hotaru acordasse possuída na frente de todos; ela mesma teria que cuidar de Hotaru, em sua própria casa.

  Ela então abriu o chuveiro, uma ducha forte de água morna caiu em seu corpo, suas roupas depositadas no cesto de roupa suja a lembravam que teria muito trabalho pela frente. Setsuna começou a lavar seu corpo com uma esponja macia, percorrendo cada milímetro de sua pele morena, e seus músculos foram perdendo a tensão acumulada. De repente se sentiu sozinha, como já diversas vezes havia se sentido, mas por algum motivo ela nunca se acostumava com essa sensação. Mesmo após séculos guardando o portal do tempo e estando sempre solitária, cada vez que se sentia só daquela forma era como se morresse um pouco. Setsuna imaginava se um dia poderia ter uma vida de verdade, como todas as outras pessoas, se um dia poderia se preocupar com coisas banais, com amor, com filhos, com vida... e com morte.

  Sua toalha se aconchegou junto ao seu belo corpo, sugando avidamente as gotas de água que brilhavam sobre sua pele. Assim que terminou de se secar, pendurou a tolha no cabideiro e saiu em direção ao seu quarto sem se importar com sua nudez, afinal viver sozinha tinha que ter suas vantagens, não é? Decidiu usar um vestido leve e sensual, todo estampado de flores vermelhas. Ela raramente usava esse tipo de roupa, mas precisava de uma injeção de ânimo naquele momento tão melancólico. Terminou de se arrumar, ajeitando o cabelo e passando um pouco de maquiagem para esconder as olheiras que só uma noite mal dormida poderia trazer. Pegando a chave do seu carro, um sedan muito bonito, na mesa da sala, saiu de casa para cumprir seu destino.

 

  Ami estava andando de um lado para o outro, todos ainda estavam dormindo para se reestabelecerem da batalha da noite anterior, mas ela estava muito preocupada com Mina, que tinha desaparecido depois que Seiya entrara no portal de volta para Terra. Cansada de esperar, Ami saiu decidida de casa, pronta para revirar a cidade atrás de sua amiga.

  Contudo, nada disso foi preciso. Assim que pisou no jardim, deu de cara com Mina, que estava recostada a uma pequena árvore. Primeiro Ami achou que ela estava dormindo, mas depois percebeu que ela estava só parada, imóvel, com um olhar inexpressivo.

  “Mina, o que faz aqui?” perguntou Ami, se aproximando da amiga.

  Mina não respondeu, nem sequer desviou seus olhos parados. Ela batia a ponta dos dedos nos chão compulsivamente, e Ami percebeu que ela estava fazendo isso há um bom tempo, pois suas unhas estavam cheias de terra e pequenos buracos já podiam ser vistos no chão. Ela segurou as mãos de Mina entre as suas com delicadeza e, finalmente, Mina pareceu despertar daquele transe.

  “O que há, Mina?” perguntou Ami novamente.

  “Eu não posso... não posso...” sussurrou Mina, tão baixo que Ami mal podia ouvi-la. Olhando para as mãos da amiga, Ami pode ver que, além de terra, as unhas de Mina também estavam cheias de sangue.

  “Por que você está aqui fora?” continuou inquirindo Ami, mas agora já tendo uma boa idéia do que tinha acontecido.

  “Poderia ser você, Ami...” murmurou Mina, “ou Lita... ou Serena... ela era tão jovem... acho que tinha menos idade que nós, deixou cair várias apostilas de um cursinho preparatório...”

  Ami abraçou Mina, pois não conseguia encontrar palavras que pudesse dar algum consolo a ela. Ami já tinha notado que Mina tinha feito mais uma vítima e que nem ela mesma estava conseguindo se suportar.

  “Sabe, eu não sei se você notou,” continuou Mina, agora mais calma, “mas erramos quando previmos que a fome só viria em dias intercalados. Ela me aflige todas as noites... é horrível. Por mais que eu entenda que devo aceitar as conseqüências dos meus atos... é horrível,”

  Mina então estourou em lágrimas, não agüentando toda aquela situação. Ami acariciou seus cabelos, limpo-lhe as lágrimas do rosto, embora outras voltassem a escorrer.

  “E Takeru? Como ele está reagindo ao seu sofrimento?” perguntou Ami.

  “Não está,” respondeu Mina, “Na verdade eu decidi pedir um tempo para ele, eu preciso de um tempo para mim mesma. Desde a primeira noite que eu tive que me alimentar, nós não vimos mais. E só o verei de novo depois que salvarmos Hikari, quando eu poderei me dedicar inteiramente a ele, a mim, e a nossa vida,”

  Ami assentiu com a cabeça, e abraçou Mina por alguns minutos. As duas então entraram, Ami aconselhando Mina a tomar um bom banho para se acalmar, pois logo todos acordariam e Finna iniciaria sua aula. Mina aceitou, e, juntas, entraram novamente em casa.

 

  O sol brilhava com o calor suave das manhãs, mas a cena que ele iluminava naquele momento era triste. Dentre as belas tumbas de mármore e granito, mais uma vala se abria, e desta vez para um corpo belo e jovem de mulher. Não havia muitas pessoas naquele enterro, mas todas que lá estavam choravam com profunda tristeza pela perda de uma pessoa querida. Era na Espanha, e o padre já havia encerrado as orações, de modo que os parentes e amigos findavam sua despedida jogando rosas brancas e vermelhas sobre o caixão.

  Entretanto, alguém ali estava chamando mais atenção que a falecida Dolores Martinez, cujo enterro tardio tinha sido provocado por diversas medidas burocráticas na liberação do corpo para a viajem do Japão até a Espanha. Entre um lamurio e outro, ouvia-se murmúrios de surpresa.

  “Ele está aqui!”

  “Que prestígio!”

  “Eu não podia imaginar...!”

  Vendo que o enterro já tinha sido concretizado e que sua presença estava causando um pequeno furor, Benjamin O’Donkel se dirigiu para seu carro, uma linda limusine negra, e foi seguido por um outro homem, que também entrou no veículo.

  “Sr. Yamamura, veja o que essa situação está causando,” falou sobriamente Benjamin.

  “Ela era uma das nossas melhores agentes, eu reconheço,” respondeu ele, “A situação está crítica,”

  “E tudo culpa daquela praga a quem eu chamo de filho!” estourou Benjamin, irado, “Qual são as novidades?”

  “Poucas. Perdemos todo o rastro de Yan, Ele realmente desapareceu do mapa,” falou Yamamura, “Não nega ser um agente de elite da LGA,”

  Benjamin deu um riso nervoso, seus músculos faciais se contraíram em reação ao puro estresse.

  “E a garota? Descobriram seu paradeiro?” inquiriu ele.

  “Isso é o mais estranho. Está realmente difícil encontrar pistas sobre ela, ninguém na cidade parece tê-la visto ou conhecê-la. E o mais incrível: ela não está cadastrada no SIE, o Serviço de Identificação de Eros,”

  “Como assim?” surpreendeu-se Benjamin, “Todos os haitantes estão cadastrados!”

  “Sim, eu sei. Mas ela não está, é como se não existisse, não há dado nenhum sobre ela além do nome, que pode muito bem ser falso,”

  Os dois ficaram em silêncio, meditando sobre a questão enquanto o carro se aquecia conforme o sol subia mais no céu. Finalmente Benjamin decidiu falar.

  “Acho que não devemos mais nos preocupar com a garota por enquanto,” começou ele, “Yan não seria idiota o suficiente para revelar nossos segredos a uma qualquer, acho que ela não vai contar a ninguém, principalmente porque isso denunciaria seu próprio paradeiro,”

  “Faz sentido,” concordou Yamamura.

  “Então continuem  busca somente por Yan, em algum lugar ela há de estar. Será difícil, mas deixemos para nos preocupar com a garota depois de encontrar Yan. Afinal, ele é um perigo muito maior solto por aí,”

  Yamamura acenou com a cabeça e saiu do carro, indo cumprir suas novas designações.

  “Yan...” murmurou Benjamin para si mesmo, “Quando vai parar de me criar problemas?”

 

  Somente Verda tinha acesso a todas as áreas do palácio, além do próprio Titã, claro. E ela precisava falar com ele, precisava esclarecer as coisas, precisava pedir que tirasse Hiroi de sua vida, ela não agüentaria conviver com ele depois do que houvera. Contudo, quando ela descobriu que Titã estava no seu salão particular – e podia-se contar com os dedos de uma mão quantas pessoas tinha permissão para entrar no lugar mais secreto e sombrio do palácio – ela quase desistiu. Mas o que tinha a fazer era mais importante do que o que poderia vir a encontrar lá, de modo que continuou seu caminho, indo para o lugar que só tinha visitado em outras duas ocasiões.

  O salão ficava no segundo subsolo do palácio, e seu caminho cheirava à morte e infiltrações de umidade. Os sapatos de Verda faziam um barulho repetitivo contra aquele chão de pedras cobertas de limo, e as velas que iluminavam a passagem criavam sombras negras e apavorantes. Ao longo do corredor, havia diversas portas de ferro pesado, que trancafiavam as salas de tortura e as celas onde ficavam presos aqueles que tinham recebido as mais duras sentenças.

  Ao chegar no final do corredor, encontrou apenas uma enorme e ricamente decorada porta de madeira que, ao contrário de todo o resto que ali estava, parecia perfeitamente limpa e em ótimo estado, com seus filetes reluzentes de ouro e cravejada com as mais belas pedras preciosas do universo. Ela não rangeu quando Verda a abriu, mas assim que ela entrou, a porta se fechou às suas costas.

  Estava escura a maior parte da sala, mas ela pode ver claramente que apenas um facho grande e forte de luz se concentrava no meio do salão, onde se encontrava um grandioso altar de mármore. Titã estava lá, e percebeu a presença de Verda, só que continuou o que estava fazendo.

  Ao se aproximar mais um pouco, Verda compreendeu a tarefa que lá era executada. Deitada e amarrada sobre o altar, estava uma linda garota de cabelos negros e olhos esfuziantemente verdes, que pareciam duas esmeraldas. Verda não se constrangeu com a nudez total da moça, que, pelos cálculos dela, devia ter por volta de 15 ou 16 anos. Titã continuava imóvel, como que realizando preces, o que permitiu a Verda que se aproximasse ainda mais.

  A moça estava acordada e consciente e seus belos olhos emitiam o sentimento de mais profundo pânico que um ser humano poderia sentir, mas ela não gritava. Nada podia falar naquele momento e nunca mais, pois sua boca estava devidamente costurada com uma grossa linha negra, e seus lábios, que um dia foram admiráveis, agora estavam cobertos de hematomas e sangue. Verda desviou o olhar daquela garota suplicante e olhou para seu corpo. Agora, de perto, podia ver que sua pele era muito branca e salpicada de sardas. Ela não era oriental, mas sim um belo espécime caucasiano.

  Titã ergueu sua reluzente adaga negra, adornada com rubis, safiras e diamantes. Verda se assustou com o gesto abrupto, mas quem mais sofreu foi a garota, pois Verda viu uma poça de urina se formar entre as pernas abertas e amarradas da jovem. Verda sentiu-se incomodada com aquilo, apesar de já ter visto cenas bem parecidas em sua vida, e não entendeu porque estava com aquele aperto no peito. Ela pensou em sair dali e falar com Titã outra hora, mas, como que lendo seus pensamentos, ele lançou um olhar para Verda que a obrigou a continuar ali, assistindo.

  Após isso, Titã finalmente usou a adaga que segurava em sua mão, entalhando a figura de um triângulo no seio esquerdo da moça, que se revolveu de dor mesmo estando completamente amarrada. Ele banhou a adaga no sangue que vertia daquele seio de marfim e desenhou sobre o ventre da jovem o símbolo de infinito. A pobre garota tremia e Verda via a agonia crescer descontroladamente em seu coração, mas sabia que nunca se deve interromper um ritual. Titã colheu um pouco do sangue em um cálice de prata, para depois perfurar a barriga da mulher bem no ponto onde a linha desenhada do símbolo se cruzava. A moça deu um brado silencioso de dor que poderia ter acordado uma cidade interira se ela pudesse emitir algum som. Titã preencheu o resto do cálice com o sangue do ventre da moça e colocou o cálice sobre um aparador, ao lado de um grande livro de páginas negras.

  “Puter animus, niger fatum animus, nunc accerso ele sanctus converto talis castitas cruor quae profanus mei actio! Solus lapsus beo tui converto niger talis rufus liquidus!” (Espíritos caídos, espíritos de destino negro, agora os chamo para consagrar esse sangue puro que por mim foi profanado! Só tua bênção falta para tornar negro tal rubro líquido!).

  Dito isso, o sangue borbulhou loucamente no cálice, até que parasse tão de súbito como começou. De resto, nada parecia ter mudado, só a garota que se contorcia cada vez mais em dor. Titã relaxou a expressão, retirando quilos de tensão de sua face.

  “Quer ter a honra?” perguntou ele a Verda, estendendo-lhe a adaga coberta de sangue. Ela sentiu seu estômago embrulhar com aquilo, mas ela somente recusou com a cabeça, tentando disfarçar suas reais reações. Titã ficou um pouco chateado com a atitude negativa de Verda, porém decidiu relevar. Com um só golpe, cortou profundamente a garganta da jovem que agonizava, e sua cabeça ficou presa apenas por alguns centímetros de carne.

  “Para que tudo isso?” perguntou Verda, tentando encobrir seu nojo daquela cena.

  “É para aquela criança maldita...” respondeu Titã, demonstrando estar com problemas com o ritual de Hikari, “Conforme cresce, ela esta ficando cada vez mais forte, e imaginamos que além de seus próprios poderes, ela pode estar sendo beneficiada pelos poderes dos pais,”

  “E este ritual...” Verda insistiu, ainda não fazendo a ligação.

  “Bem, decidimos cortar por magia a ligação entre a menina e seus pais e para esse feitiço é necessário o sacrifício de uma linda virgem...” respondeu ele, passando a ponta da adaga por toda a extensão do corpo morto da jovem, “Agora devo misturar esse sangue recém-colhido com o meu para usar em Hiraki,”

  Verda, suas dúvidas solucionadas, ficou em silêncio, observando o cadáver e pensando que aquela garota deveria ter muitas pessoas que a amavam e que ficariam extremamente tristes com sua partida. Pior, pois eles nunca recuperariam o cadáver e nem saberiam o que tinha acontecido com aquela jovem ainda em sua tenra idade.

  “Está se sentindo bem, Verda?” indagou Titã, estranhando a expressão distante de Verda.

  “Sim... Quer dizer, não. Eu preciso ter uma conversa séria com você,”

  Ele deu um passo em direção a Verda, agarrando-a pela cintura e puxando-a contra seu corpo.

  “Conversa...” disse ele ao seu ouvido em um sussurro, “que tal algo mais... emocionante...”

  Verda colocou suas mãos entre os dois, afastando-o gentilmente.

  “É sério, Titã, não posso mais esperar,” reafirmou ela.

  “O meu assunto também é sério, querida,” continuou ele, beijando-a em seguida. Verda tentou resistir, mas ele era maior e mais forte do que ela, de modo que Verda só pode se deixar envolver pelo beijo profundo de Titã, que a envolvia totalmente em seus braços.

  “Esse local não lhe traz boas lembranças...?” perguntou Titã, quase como se já soubesse a resposta.

  Verda, por sua vez, não respondeu, apenas fechando os olhos e revivendo momentos de há muito tempo atrás. Certamente seria ‘sim’ a sua resposta, mas agora ela não sabia mais o que sentia, tudo estava confuso em sua vida. Titã estranhou o fato de Verda não responder prontamente sua pergunta e parou de beijá-la.

  “O que foi? Perdeu a língua?” disse Titã, visivelmente irritado.

  “Não...” murmurou Verda, tentando se recompor, “É que eu realmente queria falar algo importante com você,”

  “Acha que me engana, Verda? Já convivemos o suficiente para eu perceber quando está mentindo,” retrucou ele. Ela desviou o olhar, dando de cara com o semblante frio e morto da moça que continuava no altar.

  “Dá para você tirar isso daqui?” pediu Verda, achando que ia vomitar a qualquer minuto. Com um gesto bruto, Titã derrubou o cadáver para o outro lado do altar, saindo então do campo de visão de Verda. Depois executou uma magia básica que tirou toda aquela sujeira de sangue, suor e urina que estavam sobre o mármore, deixando-o impecavelmente limpo.

  “Agora está mais parecido com a última vez que você esteve aqui?” perguntou ele, irônico.

  “Sim,” disse ela, deixando-se levar pelo lado bom de suas lembranças.

  “Está sorrindo agora,” notou Titã, “Acho que as coisas tem sido difíceis para nós nos últimos tempos. Muitas brigas inúteis, sofrimento barato... Que tal se começássemos de novo?”

  Embora temerosa do que Titã pretendia com aquelas palavras, Verda não pode deixar de notar que ele estava realmente sendo sincero e isso tocou seu coração, mesmo contra sua vontade. Ele a beijou novamente e ela teve menos força da resistir, o beijo de Titã estava mais envolvente que nunca.

  “Foi aqui que tudo começou,” falou Titã, colocando Verda sentada sobre o altar, “Você se lembra?”

  “Claro,” respondeu Verda, as mãos tremendo, pois sabia que logo não poderia evitar o inevitável, o estômago ainda se revolvia com o cheiro de morte que estava impregnado naquele lugar “Mulheres nunca se esquecem da sua primeira vez,”

  Titã a beijou novamente, e Verda sabia que ele não pararia naquele beijo, como um menino comportado. Ela não sabia o que fazer, pensou que nunca devia ter entrado ali, até que empurrou-o para longe de seu corpo.

  “Não...” murmurou ela, “Eu não quero, Titã...”

  “O quê?” riu ele, e agora sua expressão não tinha mais a calma de minutos atrás, “Já faz um tempo que a palavra ‘querer’ foi riscada do seu vocabulário, meu amor,”

  “E o que você vai fazer?” falou Verda, quase gritando, e sua voz ecoava pelo salão, “Vai me estuprar de novo?”

  Ele ficou em silêncio, e Verda teve medo do que ele faria em seguida.

  “Não, querida,” disse Titã, “Você vai fazer tudo por vontade própria,”

  Ele começou a beijá-la, e deitou a no altar, como mais uma de suas vítimas. Verda estava imóvel, mas ele não desistia de possuí-la. Entretanto, num repente, Titã agarrou os cabelos de Verda, puxando-os com força para trás.

  “Se eu quisesse fazer sexo com uma morta eu teria usado aquele cadáver ali, Verda,” bradou ele, com ódio no olhar, pois sabia que Verda nunca mais seria sua como fora um dia, “Então, trate de agir como uma boa menina antes que eu faça aquela surra que você levou parecer brincadeira de criança,”

  Ele voltou a acariciar Verda e, desta vez, ela retribuiu seus carinhos, apesar das lágrimas nos olhos e do coração em pedaços.

 

  Rini estava andando de um lado para o outro no corredor, não sabia com que cara conseguiria entrar na sala de aula onde Wanabe a esperava. Ela já estava atrasada cinco minutos, mas não tinha coragem de abrir a porta e entrar. Essa indecisão a irritava um pouco, pois em sua vida de princesa poucas eram as horas que ela simplesmente não podia fazer o que queria, Rini não tinha muito que pensar nas conseqüências de seus atos.

  E foi exatamente não pensar em conseqüências que havia a colocado naquela situação incomoda.

  Por fim, achando que nada iria adiantar ficar do lado de fora por mais tempo, Rini entrou na sala, a cabeça baixa, segurando seu caderno contra o corpo. Ela evitou o olhar de Wanabe, indo rapidamente para sua cadeira.

  “Bom dia...” murmurou para o professor, enquanto finalmente olhava para ele.

  “Bom dia,” respondeu Wanabe, olhando para ela calmamente, como se fosse apenas mais um dia de aula. “Você acabou a leitura que eu pedi há duas semanas atrás?”

  Rini ficou extremamente surpresa com a frieza de Wanabe. De todas as reações que ela tinha imaginado que ele podia ter, fingir que nada tinha acontecido nunca havia passado por sua mente. Ela ficou atônita, sem saber o que fazer diante do inesperado.

  “Er, Princesa Serenity, não ouviu a minha pergunta?” insistiu Wanabe, ainda com a mesma expressão indiferente.

  “Como você pode ser tão insensível?” retrucou Rini, ainda pasma. Wanabe fez-se de desentendido novamente e a jovem princesa ficou simplesmente irada com aquele desprezo.

  “Achei que iríamos conversar sobre ontem à noite, só isso!” exclamou Rini, os punhos cerrados.

  “Não há nada para conversar,” disse ele, de costas para ela, “Erros como aquele devem ser esquecidos,”

  “Erro? Quem disse que foi um erro?!”

  “Agora é você quem está sofrendo de falta de sensibilidade,” disse Wanabe, ainda com os olhos virados para a parede, “Você sabe bem que nunca poderíamos ter nos beijado,”

  “Por quê?” indagou Rini, se coração batendo tão forte e ela sem nem entender porque estava agindo daquela forma e falando aquelas coisas, “Por que eu não posso beijar o homem que eu desejo?”

  A forma com que Rini pronunciou a palavra ‘desejo’ fez Wanabe tremer de cima a baixo. Ele se sentia culpado por estar despertando tais sentimentos na princesa, principalmente por saber que seria um romance sem futuro. Ele virou-se para ela, pronto para dizer palavras duras, palavras que a fizessem desprezá-lo e esquecê-lo. Contudo, o que ele viu ao encará-la foram dois olhos de um azul profundo, brilhantes com lágrimas que se formavam sem o consentimento de Rini, que pressentia mais frases repreensivas da parte de Wanabe. Ao ver tais olhos ingênuos e ao mesmo tempo tão passionais, ele sentiu seu coração apertado e tudo o que pretendia dizer desapareceu de sua mente, ele só conseguia contemplar aquele rosto tão familiar e tão diferente do que ele lembrava.

  Mesmo tendo beijado a princesa e a tido em seus braços na noite anterior, só agora ele conseguiu ver nela uma mulher e não mais a menina que se escondia por trás daqueles longos cabelos rosáceos. Essa visão o perturbava, e Wanabe tentava lutar contra o fato de estar se sentindo atraído por aquela recém-descoberta mulher, jovem e fresca no auge de sua beleza, e cujas lágrimas só ressaltavam a pele acetinada.

  “Não!” gritou ele, tentando espantar aquele pensamentos de sua mente, “Não podemos nem pensar nessas coisas, não podemos continuar com isso!”

  “Por quê? Por que eu não posso tentar descobrir o que realmente sinto por você?” interpelou Rini, cada gota de sentimento em sue peito se transformando em lágrimas que ela vertia.

  “Porque não! Porque você é a aluna e eu sou o professor! Você é a princesa e eu sou o súdito! Você é jovem demais e por pouco eu poderia ser seu pai!”

  Rini ficou calada e Wanabe andou até a porta, ficando de costas para ela para poder pensar com clareza. Certo, ele tinha conseguido arranjar três bons motivos para refrear os desejos inconseqüentes da princesa, mas ela os aceitaria? Na verdade ele mesmo não tinha certeza das coisas que dizia àquela altura, tal era a confusão dos seus pensamentos. Wanabe quase teve uma parada cardíaca ao sentir Rini abraçando-o pelas costas.

  “Vamos apenar nos conhecer melhor,” propôs ela, “Ninguém precisa saber... Eu sinto que você também está atraído por mim, então podemos só tentar, não? Eu não sei ao certo o que é isso que vibra dentro do meu peito quando sinto sua pele sob as minhas mãos, mas não quero desistir sem ao menos tentar,”

  “Isso é loucura, nunca vai dar certo,” murmurou ele, arrepiado ao sentir o corpo perfeito de Rini contra as suas costas.

  “É só uma tentativa... Se não der certo, esquecemos tudo isso e continuamos nossas vidas...” insistiu Rini e Wanabe, como na noite anterior, não conseguiu recusar mais um pedido da princesa. Virando-se com rapidez, ele a enlaçou e beijou-a delicadamente, um beijo que foi ficando cada vez mais intenso até que se separaram.

  “Mas não aqui, não agora,” disse ele, voltando para sua mesa, “Nos veremos depois, pois nesse momento temos uma aula pela frente,”

  Rini sorriu, satisfeita, e Wanabe tremeu novamente com a força e o amor que emanavam daquele sorriso, mas seguiu seu próprio conselho e encerrou o assunto para começar finalmente a aula.

 

  Verda olhava para Titã sem saber até onde aquilo continuaria. Por um momento ela pensou que se tivesse um pouquinho mais de coragem poderia cometer suicídio. Sim. Uma bala fatal no cérebro não seria uma má opção. Contudo, ela mesma já sabia que ela nunca teria força o suficiente para ir até o fim com aquela idéia, de modo que seus sentidos começaram a perceber o mundo a sua volta novamente. Olhando fixamente nos seus olhos, Titã também não parecia muito feliz.

  “Posso pedir uma coisa agora?” perguntou Verda, tentando voltar ao assunto que a trouxera àquela triste sala.

  “Sim,” respondeu Titã, mas sua voz não tinha nada de agradável, pelo contrário, estava mais áspera que nunca.

  “Substitua-me na minha função de controlar e acabar com as Sailor Senshi,” pediu ela, desviando instintivamente o olhar, como alguém que pressente a tempestade caminhando em sua direção.

  “Não,” falou Titã, e foi uma resposta tão seca que Verda quase pode sentir sua aridez.

  “Por favor...” insistiu ela, “Não me obrigue a trabalhar com aquele que me traiu, ao menos,”

  Titã, que estava praticamente deitado sobre Verda, levantou-se devagar, ela o acompanhando com o olhar tal qual uma lebre amedrontada.

  “Querida, você tem que aprender a separar o pessoal do profissional,” disse ele, e Verda percebeu o quanto ingênua fora ao pensar que ele poderia dispensá-la. E o quanto isso tinha custado a ela.

  “Eu imploro! Faço o que você quiser!” exclamou ela, ajoelhando-se aos pés de Titã, que olhou para baixo com um desdém que perfurou o coração de Verda sem piedade.

  “Verda, você não percebe que não tem nada a oferecer nessa barganha?” ironizou Titã, “Eu já tenho de você tudo o que quero, e, mesmo se não tivesse, você não merece tão grande recompensa. Sabe, ultimamente estou achando que você é do tipo ‘barato’...”

  Ele pegou o cálice de sangue e saiu do salão, largando Verda entregue a sua própria dor, ao seu próprio desespero – tão grande que a deixava desnorteada. Verda sempre fora uma mulher segura de si, característica da qual ela se orgulhava, mas naquele momento ela percebeu que aquela segurança não existia mais. A sua frieza ante as mais adversas situações era só uma lembrança do passado, e ela nem sabia quando aquela mudança tinha começado, o que a deixava ainda mais confusa. Antes que pensamentos mais perturbadores se apossassem de sua mente, Verda deixou aquele lugar assombroso.

 

  Andando com segurança, Setsuna passou sob o portal de entrada do templo onde Rey morava. Aquela escadaria cansava muita gente, mas esse não era o caso de Setsuna, que sempre tivera um ótimo preparo físico. À distância, ela pode vislumbrar Rey, que, vestida com sua roupa de sacerdotisa, vendia alguns amuletos mágicos para duas jovens. Ela não percebeu a chegada de Setsuna e continuou a animadamente conversar com as garotas, mas quando se deu conta da presença daquela mulher genuinamente misteriosa, Rey se calou instintivamente.

  “Senhorita Rey, o que foi?” uma da meninas perguntou, e sua amiga lhe deu um cutucão, mostrando que alguém chegara, desviando a atenção da sacerdotisa Rey. As duas se viraram para Setsuna, que sorriu.

  “Pode continuar o que estava fazendo, Rey,” riu Setsuna, pois não imaginara que sua chegada causaria tanto impacto, “o assunto que me traz aqui pode ser um tanto... longo,”

  “Então talvez queira começar a tratar dele comigo,” disse Seiya, chegando por trás de Setsuna e assustando-a com sua aparição repentina. Rey deu uma risada contida do susto que a outra levara com a mão de Seiya tocando seu ombro.

  “Então você está por aqui...” murmurou Setsuna, virando-se para Seiya, “Está aí uma coisa que eu não esperava,”

  “Não se pode saber de tudo,” Seiya completou, com seu jeito maroto. “Quer entrar? Posso preparar um chá para nós enquanto Rey acaba de atender as meninas,”

  Os dois rumaram para o tempo, enquanto as garotinhas riam entre si, animadas com a beleza e a personalidade de Seiya, que se ressaltavam sem que ele quisesse, conquistando todas as mulheres que por acaso tivessem algum contato com ele. Menos a que ele mais queria, claro.

 

  Alguns minutos depois, Rey entrou no templo e logo percebeu que apesar dos esforços de Seiya, Setsuna ainda não tinha dito a que viera. Bom, isso era de certa forma previsível, mesmo porque Rei imaginou que Setsuna estivesse ali em busca de explicações sobre o sumiço repentino de todas as Inner Senshi.

  “A que devemos sua visita, Setsuna?” Rey perguntou, enquanto se servia de chá.

  “Que tal se eu quisesse saber onde estão as outras senshi e onde vocês estiveram todo esse tempo?” disse Setsuna em resposta. Desde que as Inner Senshi abdicaram de seus poderes, a relação entre Setsuna e elas, que sempre fora amigável, tinha mudado. Não que ela as tivesse condenado por sua decisão, mas também não aprovara, o que era suficiente para um clima tenso se instaurar sempre que se encontravam.

  “Bem, como posso explicar?” começou Rey, “fomos atrás de Titã, que seqüestrou a filha de Serena, e caímos em um mundo chamado Eros,”

  “Eros...” murmurou Setsuna inconscientemente.

  “Você conhece?” indagou Seiya, um olhar intrigado pousou em sua face.

  “Não. O que é isso?” falou Setsuna repentinamente, tornando a olhar fixamente para Rey.

  “É um mundo igual à Terra, mas criado por magos a fim de abrigar todos que têm poderes mágicos e são hostilizados aqui em nosso mundo,” respondeu Rey.

  “Não é estranho uma pessoa que vive através dos tempos não conhecer algo como Eros?” apontou Seiya, seu faro para histórias mal-contadas em alerta máximo.

  “Não. Eu não sou uma turista temporal, Seiya Kou, mas sim alguém que passou as últimas eras ao lado do portal do tempo, vigiando-o na escuridão,”

  Com essa réplica ríspida de Setsuna, Seiya se calou, pois percebeu que tinha tocado em um ponto doloroso para ela. Ele nem conseguia imaginar como deveria ser passar ano após ano no mesmo lugar, na mesma solidão.

  “Deixem-me continuar,” pediu Rey, tentando amenizar a situação, “Como ia dizendo, é nesse mundo cheio de pessoas com dons especiais que Titã instaurou seu castelo. Conhecemos então uma bruxa muito sábia chamada Safinna, que nos prometeu ensinar as artes da magia para derrotarmos Titã. E desde então lá ficamos,”

  “E por que você não está mais tendo aulas com Finna?” indagou Setsuna.

  “Porque... bem...” Rey hesitou em responder, pois não queria expor para mais uma pessoa sua vergonha.

  “Setsuna, você conhece essa bruxa?” interviu Seiya.

  “Não. Como conheceria?” retrucou Setsuna, ainda brava com o comentário infeliz de Seiya.

  “E como sabe que ela gosta de ser chamada de Finna?”

  “Não é óbvio? Esse é o primeiro apelido que me veio à mente,” falou Setsuna, “O nome Safinna é muito grande, não acha?”

  Seiya ia responder com um grande “olha o nome de quem fala”, mas Rey calou sua boca com o olhar. A relação dela com Setsuna já estava um pouco estremecida, e ela não queria piorar as coisas com aqueles comentários impertinentes de Seiya.

  “Setsuna,” continuou Rey, “o que eu estava dizendo é que tive de ir embora de Eros porque briguei com as meninas. Não me pergunte o porquê, pois não quero falar sobre isso agora.”

  “Certo,” entendeu Setsuna, “Então você as deixou para que se virem sozinhas contra um inimigo tão poderoso como Titã.”

  Aquela não foi uma frase nada afável, pensou Rey, mas era de certo modo verdadeira. Tinha-as deixado, mas havia algum jeito de continuar com aquela situação? Ela simplesmente não podia viver mais no mesmo mundo que Darien e Serena.

  “Ela precisou, Setsuna, não foi uma questão de escolha,” interviu Seiya, chamando a atenção de Rey, que não estava muito acostumada com as pessoas defendendo suas atitudes.

  “Pelo que eu conheço dessas garotas,” disse Setsuna, após meditar um pouco, “eu vou acreditar que você teve um bom motivo, Rey. Afinal a amizade entre vocês sempre foi tão forte... Mas dada a situação que acho que posso ajudar. Tenho uma proposta a fazer,”

  Rey e Seiya se entreolharam, imaginando o que estaria por vir.

 

  Titã jogou a taça vazia com toda a sua força no chão, e urrou com sua ira monstruosa ao ver que seu feitiço havia sido repelido por Hikari. A força daquela garota estava muito mais forte do que ele pensava, e ele não conseguira quebrar o elo entre ela e seus pais, de modo que a energia vital de Serena e Darien continuaria a protegê-la, mesmo que à distância. Segundo a equipe que acompanhava o processo de transformação de Hikari, eles ainda poderiam mantê-la sob controle por algum tempo, mas certamente não até o final completo do crescimento de Hikari, o que deixava Titã preocupado. Ele precisava resolver aquele problema o mais rápido possível, mas não via uma solução muito evidente aparecer. Resolveu pensar por um tempo, algumas semanas e ele certamente encontraria uma solução...

 

  Era quase inacreditável tudo que estava acontecendo desde que Setsuna fizera aquela visita ao templo. Rey se lembrava com clareza de cada movimento realizado pelos lábios de Setsuna para lhes dizer “Eu irei ensinar magia a vocês”. Ela e Seiya se entreolharam com espanto antes de pedirem maiores explicações sobre aquela frase um tanto quanto bombástica, mas Setsuna continuava mais calma do que nunca.

  Para Rey, essa calma toda era o que mais a incomodava, justamente por não conseguir de forma alguma agir daquela forma tão distante. Se para tudo era resolvido com extrema paixão, para Setsuna tudo deveria ser refletido e decidido com cuidado. Era uma grande diferença entre as duas, tanta que no início Rey achou que Setsuna nunca conseguiria lhe ensinar nada, que seus gênios nunca bateriam, mas isso se provou totalmente contrário.

  “O que foi, Rey?” perguntou Seiya, aproximando-se de Rey que, pensativa, estava debruçada no beiral da varanda.

  “Nada...” murmurou ela, saindo de seu transe, “Estava somente pensando em como achava que eu e Setsuna nunca conseguiríamos ter uma relação de professora e aluna,”

  “Eu ainda acho totalmente estranho ela saber magia. Sim, ela viveu através de muitas eras, mas.... alguma coisa me diz que ela não nos conta toda a verdade,” respondeu Seiya.

  Rey suspirou, virando-se de frente para ele e segurando carinhosamente suas mãos. Ela gostava de sentir a pele macia de Seiya sob a sua, sentir o calor que ele emanava tão intensamente.

  “Concordo com isso,” disse ela, e seus olhos brilhavam como nunca, “mas só o fato de ela estar me ensinando magia para que eu possa ajudar Serena e os outros quando for preciso.... só isso já é o suficiente para mim. É como se alguém estivesse me dando uma nova oportunidade para me redimir,”

  Ele sorriu, vendo como aquelas aulas que vinham tendo nas últimas semanas estavam fazendo bem para Rey. E isso bastava para que ele se sentisse feliz.

 

  O quarto agora mais parecia uma UTI de hospital, e lágrimas subiam aos olhos de Setsuna cada vez que ela olhava para Hotaru no meio de todos aqueles aparelhos.

  “Querida, eu juro que isso um dia vai acabar...” disse ela, enquanto acariciava os cabelos de Hotaru, agora já bem mais compridos que o usual. “Um dia eu vou realmente poder te ajudar...”

  Ela então se levantou rapidamente, pegando sua bolsa na cadeira, visto que já estava atrasada para as aulas de magia que estava dando para Seiya e Rey. Como eles eram talentosos! Setsuna não tinha a menor dificuldade de passar a eles os conhecimentos que um dia ela adquirira sobre magia, e ansiava pelo dia em que eles finalmente poderiam usar seus poderes para cumprir seus destinos.

  Atravessou a pequena sala em passos largos, mas, ao abrir a porta, deparou-se com uma visita inesperada e um tanto irritante.

 “O que faz aqui, Haruka?” perguntou Setsuna, não gostando nada daquela surpresa.

  “Acho que precisamos ter uma conversinha,” a loira respondeu.

  “Estou com pressa, não vê?” retrucou Setsuna.

  “Vai ser rápido, não se preocupe,” falou Haruka, e logo já foi iniciando o assunto que a trouxera ali, “Sabe, eu e Michiru acabamos ‘engolindo’ essa história de você estar ensinando magia para Rey e Seiya e toda aquela longa história sobre Eros e Hikari... mas queríamos realmente falar pessoalmente com Rey,”

  “Eu já disse que vocês devem nos deixar em paz,” respondeu Setsuna à insistente vontade de Haruka, “Eu contei a vocês a história do que está acontecendo com Serena e vocês sabem como isso é importante para a Terra,”

  “Por isso mesmo que deveríamos estar mais bem informadas!” disse Haruka, “Muitos pontos estão obscuros na história que você nos contou, inclusive onde você aprendeu bruxaria,”

  “Isso não é relevante. O que importa é que já Seiya está tendo aulas com Rey, o que já é de certa forma um incômodo, e mais gente por perto só vai atrapalhar,”

  “Setsuna,” começou Haruka, “você fala como se já soubesse que teria que dar aulas de magia para Rey... temos certeza que você está escondendo coisas de nós,”

  Setsuna pensou em como se desviar das perguntas incessantes de Haruka, e sentiu-se pressionada a dizer mais do que deveria, o que nada a agradava. Contudo, resolveu não entrar nesse jogo de forças contra aquela adversária tão eficiente e poderosa.

  “Talvez esteja mesmo escondendo,” disse ela, “Mas eu sou uma Outer Senshi como você, e, embora não sejamos as melhores amigas, você deve confiar em mim como sua aliada na missão de proteger o futuro da Terra. E se eu acho que tenho que concentrar todas as minhas energias em Rey nesse momento, sem ninguém mais para me atrapalhar, você deve aceitar e confiar em mim,”

  Haruka calou-se com as palavras verdadeiras e sensatas de Setsuna, e nada do que ela dissesse poderia responder a argumentos tão eficientes como aqueles. Confiar nos outros não era algo que Haruka ou Michiru estavam acostumadas a fazer, e de certa forma elas tinham seus motivos para serem assim, mas dessa vez... Talvez dessa vez devessem simplesmente deixar as coisas acontecerem por si mesmas.

  “Ainda acho essa situação muito perigosa para ser tratada com tamanha leviandade, mas se você está certa do que está fazendo... vamos dar um voto de confiança. Mas saiba que, mais dia, menos dia, nós iremos entrar definitivamente nessa história,”

  “Aguarde, pois esse dia não tardará a chegar,”

  Com essas palavras as duas se despediram, ansiando pelo dia em que todos lutariam juntos, sem segredos ou divergências a os separar.

 

  Sentados em uma ampla sala de reunião estavam Verda, Hiroi e toda a sua equipe, totalizando cerca de vinte pessoas. Titã caminhava ao redor da mesa em que estavam sentados, e sua voz despejava eletricidade no ar, tamanha era sua ira.

  “Senhores, senhoras, o que me dizem dessa situação!” esbravejou ele, “Há semanas eu peço UMA ao menos UMA idéia realmente eficaz contra as Sailor Senshi e vocês só me aparecem com os mesmos planos cheios de falhas. Como elas podem ser mais poderosas que todas essas mentes brilhantes que eu reúno aqui à minha volta?”

  Nenhum deles ousou responder àquela pergunta.

  “Como, digam-me como,” Titã retomou a palavra, “nenhum de vocês, os servos mais poderosos deste reino, pode achar um meio de ao menos causar um dano real àquelas garotas, um dano que ao menos consiga atrasá-las em seu aprendizado de magia?! Sim, pois a cada dia elas recebem mais conhecimento daquela bruxa maldita Saffina que todos vocês conhecem bem, aquela traidora, e a cada dia ficam mais e mais poderosas,”

  Mais uma vez todos ficaram em silêncio e, quando acharam que Titã voltaria a reclamar do alto de sua ira, ele dispensou a todos, ficando apenas com os responsáveis pela missão, Verda e Hiroi.

  “Agora sim, cada um de vocês pode responder às minhas perguntas,” ordenou ele.

  “Mestre Titã,” começou Hiroi, encontrando a coragem que tinha dentro de si para encarar aquele homem repleto do mais puro poder, “Estamos dando o nosso máximo, mas, levando em conta a energia extraordinária que Sailor Moon mostrou possuir em sua última batalha...”

  “Energia que acabou por destruir um dos mais perfeitos combatentes que eu já vi, e tudo com grande culpa da imaturidade de vocês,” Titã disse, cortando a fala de Hiroi e virando-se diretamente para Verda, que desviou de seu olhar.

  “Sim, aquela energia que destruiu Sypares, as magias negras de altíssimo nível que ela parece conjurar nos momentos mais improváveis...” continuou Hiroi, “juntando tudo isso, temos de levar em consideração que ela é a inimiga mais forte que eu e todos nós já vimos e por isso ainda não descobrimos como pegá-la,”

  “E você, Verda, o que tem a dizer a seu favor?”

  “Nada além do que foi dito. Eu realmente não sei qual o ponto fraco daquela mulher que insiste em se contrapor a nós,”

  Titã riu e trovões saíram de sua boca, fazendo com que Verda estremecesse. Ela ousou trocar um olhar cúmplice com Hiroi, que se sentia tão apavorado como ela perante as reações intempestivas de Titã, que logo voltou a falar.

  “Pois eu acho realmente que você devem encontrar uma solução para isso, e com urgência,” sentenciou ele, “Pois ter servos tão ineficientes pode macular a minha imagem perante todo o reino, de modo que, se vocês não se mostrarem dignos dos cargos que ocupam, eu terei que castigá-los exemplarmente para mostrar o que acontece com perdedores como vocês”

  Dito isso ele saiu, deixando os dois na sala, mudos, sem saberem o que dizer um para o outro. O fato é que eles mal conseguiam se falar, mesmo quando o assunto era trabalho, e de certa forma isso se refletia nessa ausência de soluções para o caso das Sailor Senshi. Hiroi, tentando amenizar essa situação, começou a falar algo para Verda, mas ela, sem poder ouvir a voz daquele que a traíra, saiu correndo da sala.

  “Verda, o que faremos... não podemos continuar assim,” murmurou Hiroi, agora sozinho na sala, tendo como companhia apenas o perfume marcante da mulher que ele tanto amava.

 

  O dia foi escorrendo pela vida de todos e, enquanto Finna ensinava magia em Eros para as Sailor Senshi, Setsuna fazia a mesma coisa por Rey e Seiya; elas agiam como se envoltas na mesma sincronia, pareciam estar muito perto, embora mundos as separassem. Rey por vezes via Finna refletida nas atitudes de Setsuma, que ria cada vez que era interrogada sobre o assunto. Seiya já tinha definitivamente desistido de tirar alguma coisa de dentro do saquinho de mistérios que Setsuna parecia ter, e de certa forma fazia isso para agradar Rey, que detestava quando os dois começavam a discutir.

  Quantas coisas ele não fazia para agradá-la...

 

  A lua já estava alta no céu, mas Seiya continuava vagando pelo templo, pensando no que vivera até o momento. Tantos sentimentos que se passaram no seu peito, muitas vezes ele estivera confuso. E ainda estava.

 

  Quieta em voz mas ativa em pensamento, Rey murmurava uma magia, os braços tensos estendidos na sua frente, tentando conjurar uma parede defensiva. Todos os seus músculos estavam contraídos, e a respiração era ofegante. Uma gota de suor escorria pelo lado direito de sua face, e a sensação foi de profunda frustração quando os dizeres mágicos acabaram e nada aconteceu.

  Exausta, pois, sem conseguir dormir, começara a treinar aquele feitiço que tanto a desafiava. Todas as suas tentativas tinham sido em vão, e ela se sentia incapaz de prosseguir, incapaz de mostrar a si mesmo que ainda podia servir para alguma coisa. Deixou-se desabar no chão, um barulho surdo de seu corpo chocando-se contra o tatame ecoou na sala de treinamento do templo. Em meio ao suor, uma lágrima dolorida correu.

  “Quem está aí?” gritou Rey assustada, ao ouvir o ruído suave de meias roçando no chão. Seu impulso foi virar-se para olhar, mas conteve-se, pois não pretendia mostrar a ninguém aquela lágrima que revelava seu momento de fragilidade. Uma mão apoiou-se em seu ombro.

  “Sou eu,” respondeu a voz tranqüila de Seiya, “O que faz aqui a essa hora?”

  “Treinando,” falou Rey, sem movimentar um fio de cabelo, “Pode voltar a dormir,”

  “Não,” disse Seiya, “Eu também estou sem sono,”

  Sem saber porque Rey não olhava para ele, Seiya deu a volta e sentou-se de frente para Rey, que abaixou o rosto. Delicadamente, ele ergueu o queixo dela com a mão, ficando surpreso ao ver o caminho ainda úmido de uma lágrima.

  “O que houve, Rey? Por que você está chorando?”

  Rey desvencilhou-se da mão de Seiya e novamente virou seu olhar para o chão; os punhos estavam tão cerrados que ela sentia suas próprias unhas ferindo as palmas das suas mãos.

  “Confie em mim, Rey,” pediu Seiya. A sala estava relativamente escura, só o que a iluminava eram alguns lampiões amarelados que pendiam das paredes.

  “Eu não presto para nada,” murmurou Rey, “quer dizer, eu simplesmente não presto,”

  “Do que você está falando?”

  “De mim. De como eu sou errada. De como minha vida é errada.”

  Seiya levantou o rosto de Rey novamente, e agora ele estava coberto de lágrimas quentes que não paravam de brotar dos olhos brilhantes de Rey. Dessa vez, ela fixou o olhar em Seiya e sentiu uma imensa confusão dentro de si.

  “Por que está aqui?” perguntou ela.

  “Porque estou aprendendo magia junto com você, ora,”

  “Mas, por quê? Porque você desistiu de voltar para o seu planeta?”

  “Não acho justo abandonar Serena numa hora como estas,” respondeu ele, mas sua voz tremulou ao dizer essa frase que há pouco tempo sairia clara e vivaz.

  “Ela já tem muitas pessoas ao seu lado. Você está aqui porque a ama,” declarou Rey, agora olhando Seiya com mais firmeza que nunca.

  “Não sei mais se isso é verdade,” disse Seiya, “acho que minha paixão transformou-se em carinho e admiração. Quando penso em Serena hoje, meu sangue não ferve mais como fazia, meu corpo não arde em desejo,”

  Rey ouviu essa frase com atenção. Em sua mente, novas questões e novas respostas se formaram.

  “Por que está aqui, então? Carinho e admiração não são motivos fortes o suficiente para alguém se preparar para uma batalha de vida ou morte,” falou Rey.

  “É claro que são. É por esses mesmos motivos que as Sailor Senshi lutam para defender Serena. É por esse mesmo motivo que você luta,” retucou Seiya, seu coração sentindo dúvida nas palavras que sua boca proferia.

  “Você está errado,” declarou Rey, “Eu, assim como as outras Sailor, lutamos porque amamos Serena. Embora muitas vezes tentemos nos enganar e fugir desse sentimento, a amamos mais do que a nós mesmas. É por isso que meu peito sangra quando eu penso no que fiz. A Rey mulher não se arrepende do que fez, mas a Rey como um todo deseja a morte como punição para o seus atos. As Sailor Senshi são apaixonadas por sua rainha,”

  Dessa vez foi Seiya que desviou o olhar, pois não sabia o que dizer ou sequer o que pensar. Rey ergueu o rosto de Seiya como ele fizera com ela.

  “Você insistiu que eu não fugisse do seu olhar. Agora é você que não deve fugir de mim. Por que você está aqui?” insistiu Rey.

  “Eu não sei,”

  “Por que você está aqui?”

  “Eu não sei,”

  “Por que você está aqui?”

  Seiya nada respondeu, mas sustentou o olhar inquisidor de Rey. Sem que ela pudesse fazer mais qualquer pergunta, Seiya lançou seu corpo contra o dela, como um urso que após muito espreitar ataca definitivamente a gazela. Ele a beijou com a voracidade do predador e, ao invés de resistir, Rey deixou-se abater.

  Seus lábios se separaram e Rey, estendida no chão, olhou para cima para enxergar aquele que tinha ousado ultrapassar a barreira de proteção que ela já tinha naturalmente à sua volta.

  “Estou aqui porque não consegui dizer adeus a você,” Seiya enfim respondeu.

  Rey abraçou o pescoço de Seiya com suas mãos e puxou-o para perto de si, mas ele resistiu.

  “Rey, eu não vou dividir outra mulher com ele,” disse Seiya.

  “Ele quem?” perguntou Rey.

  “Você sabe. Eu não quero amar uma outra mulher que seja apaixonada por outro,” esclareceu Seiya e Rey retirou seus braços do corpo dele.

  “Então você ainda o ama...” sussurrou Seiya.

  “Eu não sei o que dizer,” falou Rey, “Não posso garantir que não sinto mais nada por Darien, mas posso assegurar que eu não quero mais viver essa história que só me trouxe dor e sofrimento.”

  “Eu não posso arriscar, Rey. Você pode dizer que me ama?” perguntou ele.

  “Você pode? Você pode me afirmar que eu sou a mulher da sua vida?” devolveu Rey.

  Os dois permaneceram parados, buscando em seus corações a resposta certa. Mas existiria uma resposta segura? Mais uma vez sentiam estar atrás de uma busca sem fim, perseguindo a utopia vendida nos folhetins.

  “Seiya,” começou Rey, “Por que vamos nos prender com promessas que não sabemos se podemos cumprir? Por que vamos tecer desde já as cordas que irão nos enforcar? Vamos dar uma chance a nós mesmos, uma chance a esse amor que é apenas um embrião. Não me obrigue, não se obrigue a mentir...”

  “Eu nunca fui um fã do carpe diem,” retrucou Seiya, relutando a aceitar as palavras sábias de Rey.

  “Me ame, Seiya,” pediu Rey, “Mas o faça sem cobranças. Vamos nos deixar livres para amar,”

  Novamente ela ergueu-se levemente para beijá-lo, mas dessa vez não encontrou resistência. A chama contida nos dois finalmente alcançou seu maior brilho e puderam finalmente explodir em uma paixão sem fronteiras, o horizonte como limite. Rey não sabia se estava certa em começar aquilo, em envolver Seiya em sua vida cheia de problemas, mas deixou-se levar pelos sentimentos que estavam despertando em seu coração. Talvez fosse ele que a guiaria para uma vida melhor, talvez...

 

  Engraçado como o tempo é uma medida tão fixa e ao mesmo tempo tão mutável. Os dias pareciam nascer mais cedo para todos, pois cada um tinha claramente em mente os objetivos a serem atingidos a cada dia. Bons ou maus, certos ou errados, sozinhos ou acompanhados, todos estavam ocupados com seus próprios pensamentos e ações – o tempo estava correndo.

  A transformação de Hikari também estava acelerada. Após alguns problemas com o poder que estava despertando nela, Titã e seus cientistas finalmente conseguiram dominar – temporariamente – o corpo rebelde de Hikari, que já não era mais uma criança nem de longe. Titã já conseguia imaginá-la como sua mulher, uma negra rainha de ódio com poderes que nem ele ousava imaginar.

  Havia também preocupações, claro. Hiroi, Verda e todos os outros que os ajudavam não conseguiam conceber uma forma segura de atacar as Sailor Senshi; elas pareciam invencíveis quando levadas ao extremo, e a força de Sailor Moon mostrara na última batalha assustava até os pensamentos dos mais céticos. Nenhum deles conseguia prever as reações que aquelas mulheres poderiam ter ou traçar uma estratégia boa o suficiente para arriscar mais uma de suas criações.

  As Sailor Senshi e seus aliados, por sua vez, estavam em um ritmo crescente de aprendizado, mostrando todo o seu poder e habilidade a cada dia. Por muitas vezes, Finna e até mesmo Setsuna se surpreendiam com o que viam, com o jeito fácil que elas apreendiam cada palavra, como se aquilo fizesse parte da vida delas desde sempre.

  Talvez fizesse.

 

  Triste estava a Princesa de Tóquio de Cristal. Embora estivesse se entendendo com Wanabe, eles por muitas vezes discutiam se esse era o caminho certo a tomar. Essa inconstância a deixava frustrada, pois pensava não ser boa o suficiente para enfeitiçá-lo logo de uma vez. Queria falar sobre isso com alguém, mas de repente todos pareciam ter virado as costas para ela. Sua mãe e suas infindáveis viagens, Plutão aparentemente desaparecida do Portal do Tempo... e ela ainda remoendo o ódio por Serena e por suas comparsas. De tudo, esse ódio era o que a fazia se sentir pior, pois ele estava ao lado do amor que nutria por aquela que considerava como uma mãe. Rini estava profundamente abalada com aqueles sentimentos conflitantes, que lhe causavam muito mais angústia que o amor descompassado que dividia com Wanabe.

  Pensando isso, no seu quarto, enquanto a noite já brilhava com seus milhares de diamantes, Rini percebeu que talvez houvesse alguém que pudesse aconselhá-la. Alguém que não a julgaria e que estava de certa forma longe dessa história toda. Alguém que dizia amá-la.

  A casa de Wanabe ficava um pouco distante do palácio, mas Rini não tinha muita pressa. Foi andando calmamente, sentindo a brisa fresca no seu rosto, a pele se arrepiando com o friozinho da noite. Logo ela estava lá, tocando a campainha.

  Certamente foi uma surpresa para Wanabe alguém chegar na sua casa àquela hora da noite, quando nem telefonemas eram mais socialmente aceitáveis. Ele já estava se preparando para dormir, vestia apenas uma cueca samba-canção e o peito nu. Pensou em deixar a campainha tocar, em não abrir a porta, mas o seu instinto lhe falou que deveria ser realmente importante para alguém ousar visitá-lo àquela hora. Apanhou seu roupão azul, bastante aveludado e macio, que entrou em contato com sua pele tão suavemente quanto a carícia de uma mão delicada. Pensou em Rini ao mesmo tempo em que tentava repelir tais pensamentos.

  “Quem é?” perguntou ele pela fresta da porta que tinha aberto. Um olho azul apareceu na sua frente com o brilho inconfundível que o fez abrir a porta rapidamente. Ele puxou Rini para dentro com ansiedade, fechando a porta às suas costas.

  “Você está louca?” irritou-se Wanabe, “O que faz aqui a essa hora? Alguém pode ter visto você!”

  Rini ficou quieta. Ele estava certo e não tinha porquê ela discutir isso, mas o que a levara até lá era mais importante que qualquer escândalo que o relacionamento entre os dois poderia provocar se descoberto.

  “Não vai falar nada?” insistiu ele, achando estranho o comportamento da princesa, que geralmente não conseguia ouvir uma crítica e ficar calada.

  “Estou errada” disse ela, finalmente, “Só que eu preciso conversar com alguém. E o único alguém que existe na minha vida é você.”

  Wanabe foi quem se calou ao ouvir as palavras de Rini, que ressoaram com uma amargura tão contrastante com a personalidade comumente vivaz da moça. Ele viu em sua expressão que ela não estava blefando, que não era um truque ou coisa assim.

  “Venha, querida, vamos sentar, ok?”

  Ele pegou em sua mão, que estava gelada e trêmula, levando Rini para a pequena saleta que antecedia o quarto. A direita havia uma cozinha simples, de alguém que muito provavelmente deveria se alimentar de congelados e comida pronta em geral. Rini notou isso assim que entrou, apesar de seu estado de confusão, pois ainda não conhecia onde Wanabe morava. Apesar de achar que tudo era muito pequeno, sentiu uma vontade enorme de ficar ali para sempre, num lugar onde as paredes eram próximas e acolhedoras, e não muros gélidos de mármore que separavam as pessoas com sua opressiva grandiosidade.

 

  “Minha mãe é tão fria como aquelas paredes.”

 

  “O quê?” perguntou Wanabe, que não tinha entendido o que Rini tinha acabado de sussurrar. Ele não sabia ao certo se ela estava falando com ele ou se simplesmente debatia com seus fantasmas internos, mas el não parava de dizer frases entre seus dentes cerrados.

  “Eu tenho duas mães. Sabia?” perguntou Rini com um sorriso irônico.

  Wanabe olhou para ela com surpresa, pois não entendia a natureza de uma frase tão absurda.

  “Vou te contar um pouco sobre mim,” disse ela, antes de se lembrar que ele, como todos os outros, poderia também não ter tempo para suas lamúrias. “Claro, só se você quiser ouvir,”

  Wanabe assentiu com a cabeça, o silêncio sendo tudo que ele podia dizer perante a aparência quase inerte de Rini. Sua face dançava entre um ar sarcástico e desalentador de forma assustadora.

  “Poucos sabem disso, mas eu, quando mais jovem, atravessei o Portal do Tempo. Conheci o passado e vivi naquele passado tão diferente do que somos hoje,” falou ela languidamente.

  Wanabe mal podia acreditar no que estava ouvindo.

  “Mais do que isso, eu conheci minha mãe no passado e, apesar de muito brigarmos, eu a amei. Amei como amava a Rainha Serenity, admirei-a em sua força, ela era extraordinária,”

  “Isso é perturbador, na minha opinião,” retrucou Wanabe, pensando nas implicações que uma viagem no tempo poderia ter trazido.

  “Talvez seja. Sabe, na início tudo era mágico porque eu era muito nova para ver as reais cores do mundo. Só que eu fui crescendo e vendo que a minha mãe Rainha de Tóquio de Cristal era muito diferente da minha mãe do passado. Essa Rainha que você conhece está envolta em responsabilidades tão monstruosamente gigantes, que a tornaram distante e fria, ornada com as pompas e o rigor de um reino que deveria ser construído sobre o pilar do amor. E eu me pergunto então como ela consegue colocar tudo entre nós duas; tudo é mais valioso que o nosso amor,”

  Wanabe tentou argumentar em favor da Rainha, mas Rini estava irredutível em sua certeza sobre os fatos e conseguiu facilmente convencê-lo dessa verdade que estava bem longe de ser implausível.

  “E por isso eu me apaixonei ainda mais pela minha mãe do passado – vivaz, alegre, real personificação do amor. Eu acompanhei sua vida até seu casamento, eu vi suas juras de amor, eu vi o nascimento do que eu imaginava que se tornaria Tóquio de Cristal. E vi também que nada daquilo estava se encaixando, principalmente quando ela pagou meu amor com traição,”

  Wanabe se lembrou de uma conversa que teve com Rini sobre esse assunto e como ela estava revoltada com supostos traidores. As coisas começavam a fazer sentido para ele, apesar da história de Rini exigir bastante da capacidade de imaginação de Wanabe, que pensava como seria conhecer o seu passado com a consciência do presente.

  Apesar de que perante tais declarações de Rini, mais intangíveis ficavam os conceitos de passado, presente e futuro. Pareciam nada além de alucinações coletivas de um povo que tentava buscar ordem e respostas num mundo abstrato.

  Rini colocou a mão no bolso interno do seu casaco, que era de um vermelho bastante escuro e opaco, e tirou uma folha de caderno dobrada 4 vezes. Ela desdobrou-a, revelando sua caligrafia limpa e perfeita, e entregou a Wanabe.

  “Eu não pude trazer o livro, mas copiei a parte relevante,” disse Rini enquanto ele começava a ler aqueles versos saídos de um passado remoto.

 

Dada a união,

Máxima bênção celestial,

Terno par apenas um bendito poderá gerar

Definida condição desde que

Em áureos tempos,

Primaveril era,

Em rubros tempos,

Sangue derramado,

Tornado foi aquela era.

Entre irmãos não mais haverá disputa

Única estrela nascerá

Reunindo poder em crescente escala

Pois o mal também se amplia

E nada o pára.

Tal candura será uma flor

Rosa rubra de amor

Dotada do manto que pode renascer

Nossa Fênix que se ergue além de todos

Para reinar soberana sem empecilho.

Obstáculo uno só é visto

Na interrupção do cósmico rio

Que em suas águas cristalinas

A magia transporta sem pesar

Cruel ou doce aquela rosa

Que os espinhos irá podar

Durante a mágica hora

Momento singular de concepção

O céu negro no quarto sem resplendor

O brilho cálido do destino que não há

Interrompe também a linhagem milenar

E livres então todos serão

Mal e bem sem vantagens serão iguais

E o que isso causará um mistério é

Nem o oráculo sabe o que virá

Nem o Cego Deus poderá imaginar

Ou ordenar suas três virgens desde então.

Cuidado com o quarto sem luz!

Ele sim pode bloquear o rio de magia pura

Para jogar-nos então no Caos e na Noite inférteis

A mercê do acaso ou do revés.

Pergaminho esse que se reforça

Todas as linhagens devem conhecer tal passagem

Para que se um acidente acontecer

Que não seja acidente, mas escolha

Dura, porém única

Que só a seiva da rosa mais pura

Possa guiar à opção tão crua

Pois esse pergaminho nada vale

O reino nada vale

O amor nada vale

Se for uma opulenta prisão.

 

  “Esses versos saíram de um livro restrito aos integrantes do Reino Lunar,” começou Rini, ao perceber que Wanabe acabara de ler, “Ele é passado de geração para geração, pois revela os segredos do poder que abraça a minha família desde os primórdios do Milênio de Prata,”

  “Eu não sei se compreendi totalmente seu significado,” disse Wanabe, ainda confuso com as palavras estavam escritas naquele papel.

  “Minha mãe foi a primeira reencarnação depois da queda do reino antigo, por isso não havia ninguém que a guiasse. Eu poderia deixar que o destino se encarregasse de nossa sorte ou azar, mas eu a amava. Queria que ela sempre estivesse comigo, que nossas linhas de vida se encontrassem. Por isso, quando ela estava realmente envolvida por aquele que seria seu futuro marido, eu lhe contei sobre as determinações do manuscrito sagrado.”

  Wanabe olhava maravilhado para Rini, mal acreditando nas histórias que ouvia. E ainda ler aqueles versos tão secretos... ela realmente devia confiar muito nele para mostrar essas coisas. Ou então estava totalmente desesperada.

  “E qual não foi a minha surpresa quando aquela mulher que eu mais amava simplesmente usou a sabedoria que eu passei a ela contra mim! Contra nós! O que dizem esses versos é uma coisa simples, Wanabe... Para que não sejamos eternamente prisioneiras da nossa missão em proteger a todos, há uma chance de quebrar a linhagem. A concepção de um filho em um dia de lua nova determina isso – o concebido se torna o último a herdar os poderes,”

  “E pelo que entendi... foi exatamente isso que sua ‘mãe’ do passado fez?” perguntou Wanabe, entendendo de onde vinha o rancor que estava estampado em cada gesto de Rini. Ela gemeu com a pergunta dele, sentindo-se novamente apunhalada por tal notícia. Seus olhos se encheram de lágrimas e ela começou a enxergar através delas, as cores do mundo se distorcendo como alguém que olha para cima do fundo de uma piscina, o balançar incessante da água carregando-a para longe em sua memória...

 

  Estava frio naquele dia, pelo menos o suficiente para as bochechas ficarem avermelhadas e os pescoços serem adornados com cachecóis de lã fina. Rini estava especialmente feliz com a chegada de Serena de sua lua-de-mel, mesmo porque não queria voltar definitivamente para Tóquio de Cristal sem antes se despedir de sua querida mãe e, a essa altura, amiga.

  Darien e Serena estavam morando em uma bela casa em Minato-ku e Rini olhou admirada para a construção quando a viu. Havia um pequeno jardim na frente da casa, com rosas bem cultivadas, vermelhas e brancas. Atravessando-o, Rini chegou até a porta, que estava entreaberta, de modo que entrou sem ser anunciada.

  A mudança recente estava ainda bem viva no lugar, pois caixas amareladas ainda se espalhavam pelo chão enquanto objetos envoltos em plástico bolha se amontoavam nas prateleiras, como enfeites pós-modernos de gosto discutíveis. Rini riu, achando todo aquele pequeno caos bastante engraçado.

  “Você ri porque não tem que arrumar essa bagunça,” disse Serena, surgindo do corredor atrás de Rini.

  “Certamente!” afirmou Rini com alegria, indo abraçar sua mãe. Ela se lembraria desse último abraço por diversos anos com saudade e pesar.

  Elas então conversaram, riram e até choraram com as lembranças de todos aqueles anos. Rini tinha que voltar para se preparar como princesa, já que um dia reinaria sobre Tóquio de Cristal. Ela estava triste, mas tentava esconder isso de Serena, que por sua vez era alegria pura.

  “Mas agora eu preciso falar com você um assunto sério,” falou Serena, segurando as mãos de Rini carinhosamente entre as dela.

  “Nossa, estou curiosa,”

  As duas trocaram um olhar profundo, Serena sentiu um aperto no peito, pensou eu deixar aquilo para outra hora, mas depois de brigar um pouco consigo mesma, decidiu que não devia protelar aquela conversa; se era para Rini saber da verdade, que fosse pela sua própria boca.

  “Querida, eu não quero fazer voltas para dizer uma coisa simples,” começou Serena, “E queria que você fosse a primeira a saber da nossa decisão,”

  “Você me assusta falando assim,” murmurou Rini em resposta, as mão ficando frias entre as de Serena.

  “Desde que ficamos sabendo da possibilidade de acabarmos com essa sina que nos acompanha, pensamos muito, e essa escolha pode ser feita graças a sua sinceridade quando podia ficar apenas quieta. Há algum tempo já vínhamos pensando em como poderíamos seguir nossas vidas com tranqüilidade, mas as batalhas sempre nos atrapalhavam. Agora chegou a oportunidade,”

  “Não entendo o que você quer dizer,”

  “Quero dizer duas coisas. A primeira é que nós vamos abdicar dos nossos poderes de Sailor Senshi. E a segunda é que eu estou grávida da última princesa do Reino Lunar,” falou Serena com ansiedade, como se estivesse cuspindo algum veneno de sua boca.

  Rini ficou boquiaberta por alguns minutos, para depois começar a brigar com Serena, mas não havia volta em nenhuma de suas decisões. Eles estavam decididos e a opinião de ninguém faria diferença, de modo que após essa discussão Rini disse um adeus amargo e definitivo para sua querida mãe.

 

  “Apesar de que com essa decisão ela abdicou de ser minha mãe,” complementou Rini, olhando para os pés de Wanabe, que se perdiam em um chinelo felpudo cinza. Ele pareceu acordar de um transe.

  “Como assim?” indagou ele.

  “Bom, dando à luz a uma criança cujo fado seria carregar pela última vez o poder do Reino Lunar, ela optou por dar à luz a uma outra filha que não a ‘Rini’, pois a ‘Rini’ não partilha desse destino,” explicou ela.

  Wanabe meneou a cabeça levemente, sem saber muito bem o que dizer após ter ouvido toda aquela história quase fantasiosa por suas tantas voltas e detalhes curiosos.

  “Agora me diga como ela pode ser tão falsa? Como pode dizer que me amava e depois me descatar, me preterir por outra! Como ela pode desdenhar todo o maravilhoso destino das descendentes do Milênio de prata? Como?”

  Rini irrompeu em lágrimas, soluços quentes fazendo seu corpo tremer por completo. Wanabe a abraçou, sentando-se ao lado dela, e sentiu as lágrimas escorrerem pelos seus dedos enquanto as secava. E como eram doces aquelas lágrimas!

  “Lembra, amor, lembra o que eu disse a você uma vez? Para pensar no todo e não no detalhe?”

  Rini olhou para Wanabe ainda com lágrimas encharcando-lhe a face, mas surpresa pela frase dele. Por que ele estaria falando aquilo?

  “Você mesma acabou de me dizer o quão fria é a Rainha Serenity. O quão distante ela te parece, o quão cerimoniosa,” disse Wanabe com cuidado, medindo cada palavra, “Talvez sua ‘mãe’ do passado não quisesse esse destino tão cruel para ela, onde sua própria filha mal conseguiria conversar com ela,”

  A frase de Wanabe foi contundente, ninguém nunca tinha obrigado Rini a olhar por esse prisma. E ela não podia negar a coerência em tal raciocínio.

  “Ela talvez tenha visto o quão aprisionante pode ser esse destino. E lembra também o que diz o pergaminho?” Wanabe continuou, desdobrando novamente o pedaço de papel, “O reino nada vale / O amor nada vale / Se for uma opulenta prisão. Ouça essas palavras sábias, elas indicam que se você não pode suportar o fado, se ele lhe parecer enclausurante demais, você tem uma opção. Porque se não houvesse opção, não haveria amor. Se você a ama, e eu sei que ainda a ama, porque quer privá-la da opção?”

  Ficaram então em silêncio.

 

  Apesar da hora avançada, Verda não conseguia dormir, estava andando de um lado para o outro no seu quarto, que para ela nunca tinha parecido tanto com uma masmorra. Sua respiração estava alterada, ora ansiosa, ora falha, o ar relutando em entrar-lhe nos pulmões. Angustiava-se por não conseguir sucesso em seu trabalho, mas o pior era a paixão por Hiroi que ainda ardia em seu interior, mesmo após tudo o que ele a fizera passar. Ficava louca quando percebia o quanto queria perdoá-lo, dizer que o entendia, que tudo aquilo não significava nada... como podia pensar tais absurdos! Estava chocada até que ponto aquele homem conseguira enfeitiçá-la. Verda temia deixar-se levar em um momento de fraqueza, aquilo seria a morte para ela e seu orgulho.

  Contudo, não podia deixar esses sentimentos malucos tomarem o controle de seu corpo e mente, tinha de reagir, de tomar novamente as rédeas da sua vida. Não podia continuar nessa queda interminável em direção ao desconhecido.

 

  Setsuna ficou um tempo maior com Hotaru antes de ir para a casa de Rey. A responsabilidade sobre ela era muito grande, sempre fora, e Setsuna estava bastante cansada de sua missão. Apesar de nunca ter concordado com a decisão das Inner Senshi, ela admitia para si mesma que as invejara. Queria ter tamanha coragem e determinação, mesmo que para tomar decisões erradas. Claro que ela sabia, como profunda conhecedora do antes, do agora e do depois, que isso nunca seria possível para ela. Mais um motivo para invejar os que podiam errar sem maiores desdobramentos.

  O que a intrigava no momento era aquela sensação de ansiedade que a perseguia, como se alguma coisa estivesse prestes a acontecer, como se as linhas que controlam o destino estivessem sendo trançadas de uma forma nova, desafiando até o maior dos poderes. Isso assustava Setsuna, que imaginava que isso tivesse relação com a pobre Hotaru, cada vez mais distante naquela cama em seu quarto.

  Ela precisava se apressar, pois já estava atrasada para seu compromisso com Rey e Seiya, mas algo a impedia de ir, esses pensamentos tão estrategicamente plantados na sua mente como se tudo fosse parte de um plano – um plano tão incrível que nenhuma mente humana poderia tangenciar seu significado.

  A porta então reluziu com um brilho arroxeado, fachos de luzes entrando pela soleira, algo estava acontecendo do lado de fora, com certeza. Setsuna se assustou com o inesperado, uma sensação sempre intrigante para ela, que não estava lá muito acostumada a lidar com situações imprevistas. Se antecedeu às batidas e abriu a porta de uma vez.

  “Você?” perguntou ela com espanto, ao ver quem se apresentava ao seu humilde apartamento.

 

  “Michiru?” murmurou Haruka ainda sonolenta, não encontrando nenhum corpo ao seu lado na cama. Os raios de sol ofuscaram sua visão assim que ela levantou a cabeça, mas também delinearam a sombra de Michiru de pé no meio do quarto.

  “O que há?” perguntou ainda deitada, tentando acostumar-se com a luz.

  “Acordou, preguiçosa?” zombou Michiru, aproximando-se da cama, “Achei que dormiria até amanhã...”

  “Se estou cansada, a culpa é sua!” caçoou Haruka e as duas se beijaram com o amor mais tranqüilo e pleno que um dia existiu. O sol da manhã entrava através da enorme janela envidraçada e envolvia o ambiente num calor rosado, as peles reluziam como se tivessem acabado de ser abençoadas pelos deuses.

  “Não me sinto bem hoje,” respondeu Michiru, fechando os olhos, “é como se todas as ondas do mar estivessem arrebentando dentro da minha cabeça,”

  Elas trocaram um olhar angustiado, e Haruka entendia cada sensação de Michiru somente por vê-la. Algo estava acontecendo naquele dia, algo que desafiava as previsões dos mais antigos oráculos.

 

  Como uma sombra que se arrasta sorrateiramente sem que a percebam, aquele vulto se movia lentamente de um lado para o outro, em uma câmara tão sinistra como sua própria existência. A luz em tal lugar era produto raro, na maioria das vezes inexistente, mas o seu morador não sentia a menor falta de sua presença. Estava preocupado, e com sua mão branca e decrépita, formada por dedos finos como ossos, revolvia uma urna que segurava com firmeza. O titilar das dezenas de anéis pesados e cravejados das mais estranhas pedras assombrava a câmara como o grito dos milhares que pereceram sob aquelas mãos.

  Retirou uma pedra vermelha acastanhada da urna e a segurou com firmeza, murmurando palavras que há muito não eram ouvidas.

 

  “Desculpe aparecer assim,” disse com os olhos no chão, “mas é importante. Senão eu não viria,”

  “Creio que sim! Entre, vamos!” respondeu Setsuna ainda espantada, dando passagem a Rini, que ganhou confiança a cada passo. Tinha que prosseguir.

  “Você pode ver que ainda não consigo dominar muito bem a técnica do portal,” riu Rini, “Era para eu me transportar para o lado ‘de dentro’ do seu apartamento.”

  As duas se sentaram no sofá, com uma risada espontânea porém nervosa.

  “Um dia você consegue,” incentivou Setsuna, “Mas creio que não foi por pura e irresponsável vontade de praticar que você ousa utilizar uma magia tão restrita como a da viagem no tempo.”

  “Decerto não,” respondeu Rini, olhando sua velha amiga e mestra com profundidade, “É que você é a única pessoa que pode me ajudar,”

  “Qual o problema, Pequena Dama?” perguntou Setsuna.

  “Preciso...” começou Rini, ainda com um quê de hesitação, “Preciso ver Serena.”

  Setsuna não pode conter a risada.

  “Desculpe,” disse ela, após se restabelecer, “mas foi um choque para mim seu pedido.”

  “Imagino que sim, dada a natureza das nossas últimas conversas, mas preciso desfazer o mal que meu gênio infantil causou,”

  “Inacreditável ouvir isso da sua boca, Pequena Dama,” disse Setsuna com real espanto, “Imagino o que não está acontecendo no futuro na minha ausência,”

  Rini enrubesceu a um ponto incrível, parecia que ia explodir, mas conseguiu voltar ao normal e retomar o assunto.

  “Talvez algum dia teremos paz novamente e você saberá de tudo, querida Plutão,” falou Rini, “No momento, contudo, eu preciso apenas falar com Serena,”

  “E o que a faz pensar que sei como chegar até ela?”

  “Notícias correm, amiga”, falou Rini com um sorriso maroto, “Está ensinando magia a Rey. Sabe que elas estão em um mundo chamado Eros. Fazer um portal de conexão não deve ser difícil,”

  “Pois é, sim” retrucou Setsuna, “E mais: Não sei se posso fazê-lo”

  Rini a olhou diretamente nos olhos, com toda a firmeza e determinação que só uma verdadeira rainha pode demonstrar. Querendo ou não, parecendo ou não, o brilho e poder do Cristal de Prata e do Cristal Dourado resplandeciam dentro de Rini e a tornavam a mais poderosa força no firmamento.

  “Pode. Não minta para mim,” sentenciou Rini, não dando margem  a nenhuma discussão sobre seu conhecimento ou sabedoria. Setsuna levantou-se do sofá e ajoelhou perante Rini, prestando-lhe reverência.

  “De forma alguma, alteza. Sua súdita apenas esperava a sua ordem para prosseguir,” disse Setsuna com desenvoltura, “Apenas teremos que fazer alguns preparativos para essa viagem, pois temo que ela pode não ter uma volta tão calma como se espera.”

  Setsuna então contou a Rini o que deveria ser feito.

 

  “Nem pensar. Não posso. Não posso. Não posso,” repetia Rey à pergunta de Setsuna.

  “Mas Rey, é hora! Temos que ir, vamos voltar para Eros!” pediu a guerreira do tempo.

  Seiya pensou somente analisava a quantidade de coisas estranhas que via nas palavras e comportamento de Setsuna, mas preferiu não comentar nada para não aumentar a tensão.

  “Não é hora, Setsuna. Não posso voltar. Não ainda,” insistiu Rey.

  “Para que aceitou ser treinada em magia se quando a hora de ajudar suas amigas chega você as abandona?” perguntou Setsuna, colocando Rey em xeque.

  “Também me angustia essa situação, e não é de meu feitio fugir à luta,” continuou Rey no seu discurso, “Só que ainda é muito cedo para que eu retorne. Se quando eu estiver realmente pronta for tarde demais, ficarei eternamente triste por isso, mas não posso fazer nada. Ir agora não vai ajudar, apenas atrapalhará,”

  Setsuna ia insistir mais, brigar, gritar com Rey para que ela a obedecesse, mas Seiya interviu.

  “Você não sabe o que aconteceu, Setsuna,” disse ele, “Deveria acreditar no sentimento de uma Sailor Senshi. Se Rey diz que a sua volta não pode ajudar de forma alguma nesse momento, você devia mais que todos saber que ela não está brincando. Ouça o que ela diz, pois eu acredito que ela tem razão em sua decisão.”

  Rini, que acompanhava a cena à distância observou a reação de Seiya enquanto defendia a posição de Rey. Ele pareceu ter uma chama incendiando em seu peito, pronto a ratificar qualquer decisão de Rey. Rini só tinah visto tal  fervor nas ações de Rey, e agora elas estavam também em Seiya... Algo estranho estava acontecendo ali, mas ela não pode definir o que.

  “Se é assim que vocês desejam,” disse Setsuna, encerrando o assunto, “Creio que ensinei muito a vocês e ainda deixarei alguns livros como legado, para que continuem aprimorando suas técnicas.”

  Eles se despediram com acenos, mas Setsuna, quando já no pé da escada de saída do templo, voltou-se para Rey.

  “Espero que saiba o que está fazendo, pois eu não gostaria de estar na sua pele se você algum dia descobrir que tomou a decisão errada,” disse ela com segurança, mas não obteve nenhuma resposta de Rey.

  Quando ela desapareceu por completo, Seiya e Rey trocaram um olhar profundo, e novamente veio à mente de Rey tudo o que ela vivera em Eros. Em prantos de dor, toda sua firmeza desabou, e Seiya a abraçou com paixão.

 

  Verda estava quase em um estado catatônico, virada para a parede de seu quarto, as olheiras profundas denunciando a noite que não dormiu, o rosto inchado pelo desespero e a angústia. Todos os fatos mais recentes tinham por fim quase a enlouquecido, ela não parava de pensar e repensar cada palavra que fora dita, cada gosto amargo que passara por sua boca.

  Mas aquilo tinha que mudar.

  Como uma fênix que renasce de sua própria destruição, Verda deixou seus olhos reluzirem novamente, mas dessa vez o brilho que emanava era pérfido como o do mais puro ódio, criado por tanta revolta que borbulhava no caldeirão de amargura que agora era seu coração. Olhou profundamente para as mãos pálidas de delicadas, mas que continham o poder de milhares de dragões enfurecidos.

  Seus cabelos de fogo crepitaram ao sentirem a decisão que ela acabara de tomar.

 

  “Definitivamente não esperávamos você em nossa casa. E muito menos ela.”

  “Haruka, temo que não é hora para dramas ou grandes explicações,” disse Setsuna com a voz firme e decidida.

  “Querida, você não pode deixar de perceber o quanto age de forma estranha,” emendou Michiru, que usava um vestido leve com estampa floral, “Simplesmente chega dizendo que sabe como nos levar a Eros e ainda não quer que questionemos nada?”

  “E o que faz nossa ilustre princesa nesse mundo?” inquiriu Haruka.

  “A verdade sempre vem à tona, não se preocupem,” respondeu Setsuna, “Mas as vezes o destino se antecipa às respostas. O que queremos saber é se estão prontas para seguir seu destino mesmo com os olhos vendados,”

  Michiru e Haruka se entreolharam com muitas dúvidas, tantas quanto há peixes no oceano. Contudo, a vida lhes ensinara muito sobre momentos de crise – e as duas sabiam o que deviam fazer.

 

  Finna se sentia cada dia mais dispensável ao olhar para seus pupilos mais especiais. Sim, os guerreiros da lua honravam cada linha da lenda de poder que os envolvia. O esforço que emanava deles durante todo esse tempo era especial, uma luz interna brilhava em cada um, aquela luz que os motivava a desvendar seus próprios poderes. Finna agora entendia as evoluções de poder em Sailor Moon e suas amigas, pois descobrira que elas eram sua própria fonte de energia e que podiam sempre aumentar seus poderes a níveis intangíveis, algo divino. Isso também a assustava, principalmente quando relembrava o dom de Serena em relação aos poderes das trevas. Tanto poder reunido em uma pessoa que tem dentro de si ambos os lados do cosmo, que pode dominar tanto a escuridão como a luz... ela nada mais era que uma bomba atômica.

  Todos aproveitavam o espaço do jardim de Finna e o dia de pouco sol para exercitar seus dotes mágicos e os feitiços que aprendiam nos livros e que por vez ou outra também surgiam de suas próprias almas. Finna ainda não compreendia por completo aquela habilidade inexplicável, mas estava confortável ao ver que só precisava monitorá-los em seu desenvolvimento, sua missão como professora tinha praticamente chegado ao fim. Resolveu entrar em casa para cuidar de seus afazeres e deixar por ora que seus poderes se auto-estimulassem.

 

  “Olhe, Serena, olhe!” gritou Ami com risadas caindo pelos cantos de sua boca. Com movimentos delicados e firmes criou um elemental de água como alvo e prontamente o destruiu com uma rajada densa de chuva ácida. Darien iniciou uma salva de palmas, seguida por todas as garotas.

  “Você não costumava ser tão exibida assim, Ami-chan,” disse Mina com uma ponta de ironia.

  “Realmente, moça, é uma vergonha!” exclamou Lita, e Ami sentiu-se roxa de vergonha, mesmo sabendo que não se passava de uma brincadeira.

  Todos riam enquanto treinavam seus novos poderes, mas mesmo nesse clima de descontração, cada um tinha atrás dos olhos uma parede densa de medo, preocupação e ansiedade. Tentavam se divertir para fugir da loucura que os sondava, mas era uma corrida de si mesmos, algo que nunca poderiam ganhar. Serena por muitas vezes perdia-se em seus pensamentos e todos sabiam que nesses momentos ela sofria as dores de Hikari, onde quer que ela estivesse.

  Mina estava tentando repetir a magia de Ami, tendo algumas dificuldades, mas sorriu quando viu a pequena nuvem negra começar a se formar ante seus olhos. Estava concentrada, mas de repente um raio de luz passou por sua nuvem e dissipou seu feitiço.

  “Hei, Lita! Eu sei que foi você, sua boba!” gritou Mina, virando-se para o lado, pronta para iniciar uma pequena discussão com sua amiga, mas o que viu foi apenas uma escuridão profunda ao receber um golpe fortíssimo no rosto, que a jogou desacordada metros para trás como um saco de batatas.

  Ami arrepiou-se ao ver aquela perna branca indo em direção a Mina e chutando-a no rosto com uma força incrível, e tudo foi tão rápido que ela nem ao menos conseguiu esboçar um grito de assombro. Mal pode determinar o que atingira a amiga quando também foi arremessada longe com um soco no nariz que praticamente o partiu em dois.

  “Quem é você?!” gritou Lita, olhando para uma bela mulher que levitava a um palmo do chão e que usava um belo vestido chinês vermelho, combinando com a cor flamejante de seus cabelos. Serena e Darien correram até Mina e Ami, que não pareciam nada bem.

  “Sailor Senshi....” murmurou a mulher que resplandecia exuberante, “Então finalmente nos encontramos!”

  Lita tentou acertá-la com um soco, mas ela teve seu punho interrompido pela mão brancas e forte de sua oponente, que torceu o punho de Lita com força, até que lágrimas ousassem sair de seus olhos.

  “Ah, minha criança... meu nome é Verdammt Schrübel, mas pode me chamar de Verda. Enquanto ainda estiver viva, claro,” disse Verda com um olhar negro, erguendo Lita pelo pulso torto e a jogando para longe sem o menos esforço.

  “Maldita!” gritou Serena a plenos pulmões, segurando Ami em seus braços. Ela estava acordada, mas seu nariz não parava de sangrar. “É mais uma enviada de Titã, não é?”

  “Digamos que... Sim,” respondeu Verda, “O que significa que podem dizer adeus a suas vidas medíocres,”

  Todos a olharam com ódio, e Verda, mesmo sem demonstrar, temia suas adversárias a certo ponto, pois já tinha tido muitas provas de sua força. Entretanto, tinha a convicção que poderia tomar conta desse assunto com suas próprias mãos, ao vez de tentar invocar seres milhares de vezes mais fracos. Mina acordou e o raciocínio rápido daqueles guerreiros experientes fez com que se transformassem imediatamente, pois sabiam que suas formas de batalha os deixavam mais resistentes e poderosos.

  “Não achem que roupinhas bonitas vão ser o suficiente para me derrotarem,” riu Verda, mostrando seus dentes brancos e perfeitos. Com uma velocidade incrível, ela avançou para Sailor Vênus novamente, chutando-a no estômago. Sailor Moon tentou agarrar seus braços por trás, mas com um impulso pequeno Verda levitou ao menos três metros para cima. Para seu espanto, Mercúrio elevou-se também três metros ficando cara-a-cara com sua inimiga.

  “Vejo que a bruxa andou ensinando uns truques de circo para vocês,” disse ela, “ridículo.”

  “Vamos ver quem ganha essa brincadeira,” retrucou Mercúrio.

  Verda tentou acertá-la com seu punho direito, mas Mercúrio segurou sua mão com firmeza e agilidade. Verda virou-se no ar e desvencilhou sua mão da guerreira com habilidade. Do chão, Júpiter curava seu pulso torcido, impressionada com a força da oponente.

  “Corrente de Vênus!” gritou Sailor Vênus, atiçando sua corrente para o alto e tentando agarrar Verda, que realmente foi presa pelo pé. Vênus a puxou para baixo com violência, mas com um gesto de suas mãos, Verda criou uma espécie de ácido sobre a corrente, que se derreteu em partículas de luz. Ela voltou ao chão, seguida por Ami. Todos estavam tensos, em guarda, esperando pelo próximo movimento.

  “Como vocês preferem,” provocou Verda, “Lenta ou rapidamente?”

  Tuxedo Mask lançou uma saraivada de rosas em Verda, que desviou de todas, exceto uma, que abriu-lhe um corte no braço esquerdo. Ela olhou para o sangue escorrendo em seu braço, criando um caminho sinuoso entre sua pele alva.

  “Rápido como suas rosas eu então derramarei seu sangue!” gritou ela, arremessando um raio de luz negra na direção de Sailor Júpiter, que desviou-se mas ainda foi atingida na perna. Ela perdeu o equilíbrio e caiu com um grito, vislumbrando grande parte de sua coxa coberta por uma enorme queimadura. Com a velocidade de uma pantera, Verda se moveu entre eles, disparando seus ferozes raios e evitando magistralmente os ataques. Ela era uma grande lutadora e também distribuía chutes e golpes que derrubavam seus adversários como peças de dominó. Logo todos tinham queimaduras por seus corpos e Verda lançava um poderoso feitiço que tomava a forma de uma serpente e os chicoteava com agulhas cheias de veneno.

  Sailor Moon ficou com a visão turva após um golpe desses nas costas, mas reuniu suas forças para lançar uma rajada de flechas que surgiram do céu na forma de águias negras. Verda assustou-se com o poder do golpe, mas ergueu uma barreira de gelo em sua frente que bloqueou as flechas. Em uma seqüência incrível de chutes, derrubou-os um a um sem dó, Tuxedo Mask e Júpiter caindo desacordados sob alguns arbustos, Vênus e Mercúrio ardendo em dor no lado oposto.

  Todos estavam de certa forma muito machucados e com os sentidos confusos pelo veneno de Verda que corria em suas veias. Ela era uma oponente de força tão grande que mal podiam pensar em uma forma de vencê-la. Acertaram-na algumas vezes, mas os ferimentos em seu corpo não chegavam a uma gravidade relevante. Ao ver Sailor Moon caída perto de seus pés, agarrou-a pelo pescoço, cravando suas unhas até o sangue começar a escorrer ardentemente.

  “Acho que a brincadeira acaba aqui, querida,” caçoou Verda, “Reconheço que são grandes oponentes, mas o meu poder é demais para vocês, aprendizes de bruxa,”

  Com sua mão esquerda, Verda começou a formar uma bola de energia negra, que em breve iria arremessar à queima roupa contra o coração de Sailor Moon, muito provavelmente partindo-a ao meio de uma vez por todas. Verda não podia parar de pensar em Titã finalmente reconhecendo o seu valor e recompensando-a por tal feito.

  Contudo, antes que ela pudesse perceber, uma energia arroxeada a atingiu de surpresa na lateral de seu corpo, arremessando-a contra uma árvore. Sailor Moon caiu no chão, apertando as mãos contra os ferimentos recém-abertos em seu pescoço. Júpiter acordou com o grito assustado de Verda e, ainda com a visão embaralhada, pode determinar a distância quem se aproximava.

  “Plutão!” gritou com um sorriso de felicidade.

  “Não só ela,” disse Netuno saindo de trás da guerreira do tempo.

  “Afinal todas nós somos Sailor Senshi” falou Urano, fazendo o mesmo.

  “E essa luta é de todas nós,” encerrou Sailor Chibimoon, olhando diretamente para Sailor Moon, que não entendeu nada de sua presença nessa batalha após tudo o que acontecera.

  “É realmente tocante a chegada da cavalaria,” gargalhou Verda, de pé novamente, “Mas saiba que todas você vão acabar como esses coitados!”

 

  Finna estava no porão, alheia a tudo o que estava acontecendo do lado de fora de sua casa, mas algo muito forte apertou seu coração, uma força que sabia que não devia ignorar. Sentiu uma angústia, uma tristeza que não podia agüentar, algo que sentira apenas uma vez em sua vida toda.

  Sem mais pensar, subiu as escadas com pressa.

 

  “Espada Espacial, exploda!” gritou Urano, lançando os raios cortantes de sua espada contra Verda, que os repeliu facilmente. Ela apenas não esperava que, encoberta pela luz da energia do golpe, Urano se aproveitasse para se aproximar de Verda e encosta-la contra a árvore com a lâmina de sua espada contra o seu pescoço.

  “Belo golpe, garota, conseguiu me enganar,” falou Verda.

  “Vamos deixar claro que não foi tão difícil assim,” ironizou Urano.

  “Então por que não vai em frente e corta meu pescoço de uma vez com seu brinquedinho?” disse Verda com uma risadinha, “Sabe, matar os inimigos com um golpezinho de luz é fácil, parece até uma brincadeira, mas cortar a garganta do oponente com a frieza de um assassino é bem mais difícil, não?”

  Urano pressionou ainda mais sua espada contra o pescoço de Verda, mas ainda com hesitação demais para cortá-lo.

  “Sim, o sangue vai espirrar, jorrar na sua cara e mostrar como você é tão fria e homicida como eu, docinho. O meu sangue vai ficar manchado em seu rostinho de princesa para sempre!”

  Verda deu uma risada estrondosa e lançou uma bola de energia negra no estômago de Urano, que foi parar do outro lado do jardim. Netuno e Plutão atacaram juntas, mas Verda desviou de seus ataques como uma águia. Sailor Moon correu para ajudar Sailor Urano, que parecia gravemente ferida, mas os outros estavam ainda muito debilitados, dando tempo a Verda para atacar ferozmente Plutão e Netuno, que logo não estavam em estado melhor que os outros. Plutão tentava conjurar alguns feitiços para restabelecer Netuno, que respirava com dificuldade.

  “Vocês não passam de crianças com muitos poderes,” zombou Verda, com ares de conselheira, “Ainda têm muito que aprender. Pena que irão morrer tão jovens!”

  O olhar de todas tremeu de pavor.

  “Acho que você não ganhou essa luta ainda, sua cobra,” disse uma voz à distância.

  Verda procurou de onde viria aquela voz fina que arranhava seus tímpanos. Até tinha se esquecido daquela outra.

  “O que uma jovenzinha tão graciosa faz num cenário como esse?” disse Verda rindo de Chibimoon. Ela não parecia saber de quem se tratava e Sailor Moon pensou que isso seria uma vantagem. Ao mesmo tempo, temia pelo que ela poderia fazer com Chibimoon... e o que ela estava fazendo ali afinal?

  “Não se deixe enganar pelas aparências! Saiba que eu represento um poder que voc....”

  Sailor Chibimoon continuou a discursar sobre seu poder e ascendência, mas Verda não estava ouvindo uma palavra sequer. Mesmo à distância, seus olhos se encontraram com outros olhos que não via há muito, muito tempo.

  Saffina, ao sair no jardim e ver aquela confusão, imaginou que estavam sofrendo mais um ataque, mas pelo estado das guerreiras, o oponente era milhares de vezes mais poderoso que os anteriores. Havia também outras guerreiras e uma delas chamou a atenção dos olhos de Finna. Estava indo em sua direção, mas outra pessoa chamou sua atenção ainda mais.

  Verda estava muda, paralisada, mas Chibimoon ou qualquer outro não entenderam o que estava acontecendo para poder tomar vantagem da situação. Verda engoliu a seco e começou a murmurar alguma magia. Do outro lado Finna cambaleou, encostando-se na parede, mas não pode resistir e desmaiou em segundos, batendo a cabeça em uma pedra.

  “Agora é com você então,” disse Verda, olhando para Chibimoon, “Não me interessa quem seja, vou acabar com você, assim como com seus amigos!”

  “Isso é o que você pensa!” gritou Chibimoon.

  Verda atacou com seu chicote serpente, mas Sailor Chibimoon desviou com a habilidade de uma guerreira muito bem treinada.

  “Você nunca entenderá, bruxa,” disse Chibimoon, “Nunca entenderá porque não pode me atingir com seus tão poderosos golpes. Algo além da batalha me dá forças, algo muito além!”

  Verda não sabia do que aquela garota estava falando, mas Sailor Moon, que cuidava de Tuxedo Mask, estava prestando muita atenção.

  “Pode parecer até bobagem para os ouvidos de uma pessoa perversa como você,” continuou Chibimoon, “Mas eu errei muito no passado e feri as pessoas que amava... que amo!! E não vou deixar mais ninguém machucar essas pessoas!”

  Apesar da situação calamitosa, o olhar de Chibimoon encontrou o se Sailor Moon, que riu com uma alegria nervosa, incontida, derramando lágrimas que nem ela sabia explicar.

  “Deixe de baboseira!” gritou Verda, tentando-a atingir com golpes corpo-a-corpo, mas Sailor Chibimoon parecia se movimentar cada vez mais rápido, imersa em um poder incrível.

  “Não vai me vencer!”

  Sailor Chibimoon então ergueu seu cetro aos ares e o Cristal de Prata resplandeceu, pulsando em compasso com as batidas de seu coração. Verda sentiu que algo muito poderoso estava se formando ali, mas não entendia direito quem era aquela guerreira e porque ela tinha uma jóia tão parecida com o Cristal de Prata. Mais que rapidamente, ergueu sua barreira de gelo, ainda a tempo de barrar um poderoso ataque de Sailor Chibimoon, que reuniu o poder do Cristal de Prata em seu cetro e lançou-o contra Verda.

  Foi um estrondo, a energia do Cristal de Prata saltava em faíscas para todos os lados ao encontrar a barreira de gelo de Verda, que ameaçava trincar com tamanha força. Sailor Chibimoon mantinha o ataque, concentrada, mas Verda não ficava atrás, fortalecendo sua barreira contra a investida daquela guerreira misteriosa que tanto a surpreendia. A luminosidade que as envolvia era tamanha que os outros mal conseguiam enxergar o desenvolvimento daquele embate, apenas sabiam que qualquer deslize seria fatal.

  “Não pense que vai ser tão fácil, garota!” gritou Verda a plenos pulmões, sua defesa cheia de rachaduras que ficavam cada vez maiores, “Pondera deus, pondera hominis! Quae aras, bellicumus! (Reflete deus, reflete o homem! O que protege, ataque!)”

  Toda a cobertura de gelo então brilhou, parecendo absorver o poder que era arremessado contra ela e, se transformando em um gigante espelho, explodiu em energia na direção contrária, jogando Sailor Chibimoon pelos ares. Verda foi jogada na direção oposta, contra a árvore novamente, atingida por um refluxo de energia que ela não conseguiu controlar. Sua cabeça começou a rodar com a pancada, e o feitiço que usara acabou por sugar-lhe a própria energia também, de forma que estava arfante e exausta.

  Muito pior, contudo, estava Sailor Chibimoon que abriu os olhos ainda tonta, mas, como um bálsamo, a imagem de Sailor Moon se compôs perante seus olhos.

  “Obrigada, meu amor,” disse Sailor Moon com lágrimas em sua face, “Eu sabia que um dia você entenderia, e não sabe o quanto fico feliz que esse dia tenha chegado,”

  “Eu errei,” respondeu ela, um tanto fraca, “E finalmente vejo isso longe das lentes do ciúme e do rancor... me perdoe!”

  “Não há nada a ser perdoado!”

  As duas se abraçaram como se não se vissem há muitos e muitos séculos e o tempo parou à sua volta enquanto deixavam-se ficar nos braços uma da outra. Sailor Chibimoon se afastou um pouco, e repousou a mão sobre o peito de Sailor Moon.

  “Agora somos uma novamente,” disse ela com serenidade, “E o meu poder é seu poder, minha vida é a sua vida,”

  Sailor Moon sorriu, e quando Chibimoon levantou sua mão, revelou o broche de Sailor Moon, que agora tinha evoluído para o Crisis Compact.

  “Entendo,” disse Sailor Moon, decidida apesar de não estar completamente restabelecida dos ferimentos que havia sofrido, “Essa luta não será em vão.”

  “Tanta dor não pode ser causada impunemente, Verda” falou Sailor Moon, andando ao encontro da oponente, “Não pense que está acabado,”

  “Nunca pensarei isso enquanto você ainda estiverem vivas,” respondeu Verda, se levantando e indo também na direção de Sailor Moon.

  As duas pararam mantendo um metro de distância entre elas, mas faíscas surgiam na tensão que se formara no ambiente. Preparam seus golpes, seu ânimos, seus poderes: aquela seria uma batalha de vida ou morte.

  “Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!” gritaram ao mesmo tempo e lançaram seus golpes mais poderosos.

  Sailor Moon sustentava seu cetro com as duas mãos, lançando uma energia tremendamente poderosa. Em vez de apenas se defender, Verda também lançara um golpe de energia, que reluzia em um azul profundo, causando um choque de forças que assustaria muitos lutadores experientes. Ambas lutavam com paixão, e essa é a mais poderosa energia de uma mulher, sem dúvida. Verda queria sua honra de volta, queria respeito, queria ser tratada como sempre fora, como uma rainha, e morreria por isso se precisasse. Nunca queria ter seu nome maculado, não queria sentir vergonha... nunca mais!

  Sailor Moon sentia a dificuldade daquela batalha e o poder de Verda era realmente incrível. Ela pensava como seria lutar com Titã, dado o poder de uma de suas servas, e isso a assustava. Entretanto, o amor de Hikari, e agora o amor de Rini, a dariam força para superar qualquer um!

  Lentamente fechou os olhos e o Cristal de Prata começou a flamejar como uma tocha acesa, sua luz branca ainda mais forte, pois ressoava com a presença e o apoio do Cristal de Prata de Chibimoon, que estava profundamente concentrada em sintonizar seu Cristal de Prata com o de Sailor Moon. Verda sentiu que alguma coisa estava mudando na força de Sailor Moon, aquela coisa incontrolável que tinha acontecido com Sypares... aquela coisa que a amedrontava.

  “Você não vai ficar no meu caminho para salvar Hikari. Verda,” disse placidamente Sailor Moon, concentrando todas a chama do Cristal de Prata no seu cetro, que intensificou sua força de uma forma incontrolável, ribombando e trovejando. Verda não agüentou e começou a ser atingida pelo golpe mais poderoso que jamais vira, algo que incendiava e eletrocutava seu corpo até que perdesse os sentidos.

 

  Só que ninguém poderia contar com mais um participante nesse espetáculo. Surgindo do nada, como uma luz que corre através das maiores distâncias para chegar aos lugares mais improváveis, alguém interferiu naquela luta, se jogando sobre Verda e rolando com ela para fora do raio mortal do ataque de Sailor Moon.

  Verda estava desacordada, mas parecia respirar com dificuldade no colo daquele homem, que emanava beleza dentro de uma túnica séria, mas muito bonita. Ele a segurava em seus braços perto do chão, também tonto pelo golpe que pegara de raspão. Sua mão corria o cabelo de Verda e limpava o suor de suas faces, que pareciam tão exaustas. Por um momento todos estavam paralisados, pensando quem tratava aquela mulher tão cruel com tanto carinho – quem era aquele homem que arriscara sua vida para salvá-la da morte certa?

  Vendo que estavam muito expostos aos inimigos, Hiroi abraçou Verda e os dois desapareceram em um piscar de luz.

 

  O lugar era escuro, e um cheiro de umidade pairava no ar. Ao longe, Verda ouvia o rufar de corrente d’água, som que foi ficando cada vez mais próximo até que ela abrisse os olhos. Sobressaltada, sentou-se em um pulo, imaginando que lugar era aquele e como tinha ido parar lá. Olhou a sua volta: definitivamente era uma caverna em um bosque ou algo do gênero, mas isso não respondia como ela teria ido parar lá, já que apenas se lembrava da poderosa energia de Sailor Moon a atingindo de forma incrível. Será isso o céu? Ou o inferno?

  “Nenhum dos dois,” disse Hiroi, vindo por trás dela, “Você está bem viva ainda,”

  Verda virou-se com espanto, odiando vê-lo e ao mesmo tempo extasiada por isso.

  “Onde estou? O que faz aqui?” resmungou ela, ainda se sentindo tonta o bastante para conseguir gritar.

  “Apenas em um velho lugar que conheço,” respondeu Hiroi, sentando-se ao lado dela, “Venho aqui quando quero ficar sozinho,”

  “E por que estou aq...” ia perguntando Verda quando veio em sua mente a imagem embaçada de um corpo se chocando contra o dela em meio a nuvem de energia que Sailor Moon criara. “Era... você...?”

  “Se está perguntando que a salvou da morte, fui eu, sim,” respondeu Hiroi, olhando-a nos olhos.

  “Nunca pedi que me salvasse. Devia ter-me deixado morrer!!!!” gritou Verda.

  Em vez de responder a sua ingratidão, Hiroi a abraçou com firmeza, sentindo seus corpos colados novamente. Ela relutou, quis afastá-lo, mas por fim deixou-se levar pelos seus sentimentos, abraçando-o em retorno. Irrompeu em um soluço nervoso e encharcado de lágrimas.

  “Por que fez isso? Por que fez isso, Hiroi?” perguntava ela, em semi-histeria.

  Hiroi se perguntava se ela se referia a ele tê-la salvado ou traído. Talvez ambos.

  “Porque eu te amo!” exclamou ele, pensando ser a verdadeira resposta para qualquer uma das opções.

  Verda se afastou dele, olhando-o profundamente, seu rosto inchado pelas lágrimas, pela exaustão, pelos golpes que levara. Em seu pescoço se delineava uma linha arroxeada, reflexo da espada de Sailor Urano tão firmemente prensada contra sua garganta. Hiroi segurou seu rosto, apesar de tudo belo, entre suas mãos firmes.

  “Verda, eu te amo, acredite em mim,” implorou ele.

  “É impossível me amar,” disse ela, relutante, “É impossível me amar e sair vivo disso,”

  “Bobagem,” retrucou Hiroi, “diga que me ama e eu ficarei ao seu lado para sempre. Lutarei contra tudo por você, meu amor,”

  “Você não entende?” perguntou Verda, entre o desespero e a esperança, “Titã vai nos matar!”

  “Não, Verda, vamos fugir juntos! Ele não pode nos encontrar se estivermos perdidos em qualquer parte do universo,”

  “Claro que vai, você não o conhece!”

  “Ademais, ele estará muito ocupado com Sailor Moon e seus amigos. Eu vi aquele poder ao vivo, eu senti aquele poder em meu corpo, me atingindo, me tomando por completo. Por um momento achei que não sairíamos vivos daquele mar de energia,”

  Os dois ficaram em silêncio, em um momento de quase admiração por uma força nunca vista antes.

  “Verda,” continuou Hiroi, “Olhe, já estamos fora do castelo. Titã não faz a menor idéia de onde estamos, ele não pode nos encontrar. Vamos aproveitar essa chance! Deixemos tudo para trás e vamos fugir juntos!”

  Verda hesitou, mas o brilho no olho de Hiroi, no olho do homem que ela amava, acabou por seduzi-la. Suas mãos a tocavam e ela sabia que aquilo era real, aquilo que existia entre ele podia realmente perdurar através da eternidade.

  “Vamos...! Vamos!” disse ela, começando a confiar que podia sim ter uma vida mais bonita ao lado de Hiroi. Os dois se abraçaram novamente, mas dessa vez um abraço apaixonado, pelo qual os dois esperaram por tanto tempo. Eles sonharam através de noites tempestuosas por esse abraço, e beijaram-se como se fosse a primeira vez. Hiroi inclinou-se sobre Verda, beijando-lhe toda a face, decorando cada centímetro de sua beleza. Eles sorriram um para o outro e tocaram-se com amor, Hiroi percorria as pernas sedosas de Verda, sentia suas coxas firmes sob suas mãos, seu corpo tênue sob o seu. Ela mau podia acreditar que isso estava acontecendo, uma pessoa como ela não merecia tal felicidade.

 

  Passos chegaram com ritmo, aquele click-clack seqüencial, mas somente as palmas puderam preencher o ambiente e ecoar na mente de cada um.

  “Parabéns, lindo! Muito lindo mesmo! Que linda cena tenho que presenciar... meu coração mal pode agüentar tanto romantismo!”

  Aquela voz... não, tudo menos aquela voz...

  Eles sabiam que só havia uma pessoa que poderia estar ali para dizer aquelas coisas.

  “Titã?” disse Verda, já com o desespero batendo em seu coração. Hiroi saiu de cima dela, segurando-a em seus braços e evitando que Titã visse seus seios expostos pela parte de cima do vestido que estava aberta.

  “Hahahaha,” riu Titã com ironia, “Não precisa cobrir essa piranha, Hiroi, eu já conheço de cor esse material barato,”

  Ele fuzilou Titã com o olhar, mas esse nem se importou. Verda soluçava nos ombros de Hiroi e ele pensou que nunca a tinha imaginado tão vulnerável daquele jeito. Não ela, Verda, a poderosa mulher de gelo.

  “E sabe...” continuou Titã, “pensando bem, nos últimos tempos ela não tem sido lá essas coisas nem como a vadia que é.”

  “Como pode falar isso?” gritou Verda, olhando para Titã de soslaio, “Como pode? Você foi o único homem da minha vida! Você foi o único homem a me ter por completo! E você sequer me ama, sequer me dá uma gota de valor! Eu te amei por tantos anos, tantos anos... eu admirava você... mas você nunca quis nada comigo! Eu nada mais era que um corpo em sua cama, já que você planejava ter outra ao seu lado como sua rainha! Não é justo!”

  Verda urrou, num misto de ódio, dor e vergonha. Apertando o corpo de Hiroi contra o seu.

  “Fica até difícil acreditar nessas palavras vinda de uma mulher seminua abraçada em um homem no meio do mato. Sabe-se lá com quantos mais você já se deitou!” respondeu Titã com sarcasmo.

  “Você sabe que isso é mentira! Nem com Hiroi cheguei a me deitar!” retrucou ela, agora olhando fixamente para ele, pouco se importando em exibir seu peito nu, “O que quer de mim, Titã? Um corpo? Olhe para mim, posso até ser bonita, mas como eu você pode encontrar milhares! Por que me odeia tanto?”

  “Não é questão de ódio,” respondeu ele, calma e friamente, “É questão de posse, poder. Você é minha, e me desafiou mesmo assim. Mesmo sendo advertida. Mesmo sabendo que eu sei seu segredo.”

  Os olhos de Verda se dilataram ainda mais, e toda seu corpo estremeceu de medo. Achou que ia desmaiar, mas não. Isso não...

  “Por favor, não,” clamou ela, “Eu faço o que você quiser!”

  Verda se levantou e jogou-se aos pés de Titã, abraçando suas canelas e molhando suas botas com suas lágrimas. Hiroi ficou estupefato com a mudança repentina de Verda. Ele não podia entender o que se passava. Titã chutou Verda de volta para Hiroi.

  “Que bonito, pelo visto ainda não contou para o seu namoradinho...” zombou Titã, “Como é ter em seus braços uma piranha que ainda mente para você, Hiroi?”

  Ele não entendeu nada, mas Verda ainda implorava para que Titã parasse, que fizesse o que quisesse com ela, mas que não contasse nada.

  “Não seja ridícula,” retrucou ele, “Você já teve sua chance e desperdiçou-a. Agora é a hora de fazer algumas revelações,” ele virou-se para Hiroi, “Não acha?”

  “Então conte logo,” pediu Hiroi, ignorando os clamores de Verda. Quando tudo fosse esclarecido, seria mais fácil de contornar a situação.

  “Sabe,” começou Titã, “Você e essa piranha traíram seu Imperador, eu. Traição é o crime mais grave do nosso império, e vocês sabem a punição que merecem. Verda, contudo, é jovem e ainda pode me servir muito com seu corpinho... se eu quisesse. Eu poderia então apenas dar um fim em você, Hiroi, e poupá-la da humilhação e do castigo. Sim, eu poderia...”

  “Faça isso então!” exclamou Hiroi, não se contendo, “Se for para salvá-la, vá em frente e tire minha vida!”

  “Shhh,” Titã pediu silêncio com um dedo sobre a boca, “Quieto. Não é só isso contudo. Eu a protegi todos esses anos porque... bem, porque eu gostava dela. Embora ela me seja ingrata hoje, eu gostava dela muito além de seu belo corpo. Fomos praticamente criados juntos, ela era tida em alta conta com a família real desde que nasceu. E por isso eu sempre mantive seu segredo, porque gostava dela. Agora, contudo, sei que não posso confiar nessa peste! As nossas leis sempre disseram a verdade! A traição está no sangue dos traidores! Não se pode recuperar uma fruta podre, ela só acaba por contaminar toda a cesta.”

  Hiroi não estava entendendo mais nada. Do que Titã estava falando? Verda não mais se movia, parecia uma morta nos braços de Hiroi.

  “Você sabe qual a punição para os traidores do império?” perguntou Titã.

  “Sim. O traidor e sua família são queimados vivos,” disse Hiroi, agora um pouco mais nervoso com aquela conversa.

  “E é por isso que Verda deveria ter sido queimada viva. Devia ter sido queimada em praça pública como uma traidora que é. Como a filha de uma das maiores traidoras da nossa história, a bruxa Safinna!!”

  Hiroi arregalou os olhos. Verda, filha de Safinna? A mulher que traiu a confiança do rei e fugiu? A mulher que treinou as Sailor Senshi contra Titã, contra o império?

  “Não é possível! Verda é órfã!” protestou Titã.

  “Apenas uma historinha boba,” declarou Titã, “Safinna era quase uma irmã para o meu pai Titan, apesar de ser apenas uma plebéia. Por causa disso, os membros do conselho real achavam que ela era uma qualquer, achavam que meu pai apenas fazia uma caridade para ela. Por causa disso ela foi estuprada por eles em uma festa regada a muita bebida. Era um escândalo, ninguém poderia saber. Isso acabaria com a reputação de Safinna e com a do reino. Titan então, por amor a sua irmã de criação, matou-os um a um, envenenados, para não gerar suspeitas e ao mesmo tempo vingá-la. Mas isso foi ao longo do tempo, muito antes descobrimos o pior, que Finna estava grávida. Ela nunca mais seria respeitada, seria a escória. Eu era apenas uma criancinha, mas lembro bem como essa história só circulou entre Titan, Finna, uma velha médica da família que já se foi e eu, pois papai nunca me escondeu nada. Finna teve a filha em segredo, com toda a ajuda e apoio de meu pai, que decidiu criar Verda junto comigo, quase como uma filha. Titan, meu pai, sentia o poder nas pessoas. Ele sabia que Verda era poderosa e disse a todos que tinha a encontrado abandonada. Ninguém o questionava, ele era o mais poderoso de todos, e assim, mantendo Verda por perto, Finna, sua irmã querida, ainda poderia criar Verda, poderia dizer a verdade a ela, poderia amá-la. Essa maldita é filha daquela traidora. Quando a própria irmã de meu pai o traiu e fugiu do castelo para se armar contra nós, tivemos pena dela. Tivemos compaixão. Pensamos que era uma mulher poderosa, uma mulher que diversas vezes nos jurou lealdade, e como mais ninguém sabia que Finna era sua verdadeira mãe, a poupamos de ser queimada, como deve ser feito com a família dos traidores. Verda foi poupada porque acreditamos na lealdade dela. E agora... ela me traiu como a vagabunda de sangue ruim que é! Não será poupada novamente!”

  Raios de eletricidade trovejavam pela caverna, sendo emanados por Titã. Hiroi estava atônito, pasmo com aquela história. Verda, filha da maior traidora do reino. E agora ela seria desmascarada na frente de todos, seria queimada na frente de todos. Bem, os dois seriam queimados. A ira de Titã não pouparia um grama de seu sofrimento. Hiroi abraçou Verda, que ainda não se mexia, estava muda e dura como uma pedra. Ele ajeitou seu vestido, para que não se expusesse mais.

  Já que não podiam viver juntos, morreriam juntos.

Fim do Capítulo 4!

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PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO: em breve

Desculpem pela demora enorme na atualização do fic, mas como disse para alguns, eu estava trabalhando na Disney de Orlando então não pude me dedicar ao fic. Enfim, o que importa mesmo é que o capítulo 4 acabou, o que significa que............. falta só UM!!!! Sim, sim, o capítulo 5 é o último e em breve vocês já poderão ler as primeiras linhas do final dessa saga que promete! Mais uma vez obrigada a todos pelo apoio, pela fidelidade e por NUNCA desistirem do fic!!! Vocês são tudo!

PROJETO: Esse é um fanfic que se passa 6 anos depois da separação das Sailor e entra numa história que envolve um passado no Moon Kingdom, um futuro na Neo-Crystal Tokyo e um presente onde todos estão confusos e assustados e prestes a entrar numa dimensão jamais vista, onde coisas mágicas acontecem e onde seres diferentes aparecem. Vale a pena conferir!
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