6 anos depois
Capítulo 2 – New Old
World
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Foi tudo muito confuso. Quando entraram
na passagem dimensional que Ami abrira, perderam o chão sob seus pés e
começaram a cair. Parecia um abismo, já que a queda sempre continuava; temeram
que pudessem se separar, mas sempre sentiam a energia dos outros às suas
voltas, e isso os acalmava. Após um espaço de tempo que foi como uma eternidade
para eles, a velocidade com que caiam começou a diminuir. Ami pensou que isso
era um bom sinal, pois se encontrassem o chão na velocidade que estavam, com
certeza morreriam. Após mais alguns minutos, não mais caíam, e sim flutuavam.
Conseguiram se aproximar e deram as mãos, formando uma roda.
“Acho que
estamos chegando...” murmurou Sailor Moon.
“Espero que não
haja muitos perigos quando chegarmos, pois perdemos parte de nossa energia
nessa queda. Acho que durante ela passamos por espécies de “fendas do tempo”
que agem como buracos negros sob nossas energias,” explicou Mercúrio.
Vênus ia dizer alguma coisa quando um vento
gélido começou a soprar. Todos se encolheram e a escuridão onde se encontrava
foi diminuindo, tendendo levemente para o roxo e depois ficando azulada. Um
chão acinzentado foi se criando sob seus pés e logo podiam ver a abertura do
vórtex, mostrando-lhes uma paisagem nem de longe hostil, pelo contrário, acolhedora.
Saíram um a um e, quando a escuridão do vórtex se fechou, olharam mais
calmamente em volta.
Estavam numa rua vazia. De ambos os lados,
casas de classe média se erguiam altivas, com suas janelas iluminadas pelas
luzes vindas das televisões. A rua também tinha postes de luz, que iluminavam o
asfalto, tornando-o uma passarela convidativa para as Sailor.
“Esse lugar...” começou Vênus, “é tão
estranho... Me parece de certa forma... familiar...”
“Não sinto nenhuma energia malígna aqui,
pessoal,” disse Sailor Marte.
“Acho que devemos voltar às nossas
identidades normais,” falou Júpiter.
Todos se entreolharam e decidiram numa
conferência sem palavras que isso seria o mais sábio fazer.
Eles continuaram andando e logo saíram daquela
e de mais um par de ruas consecutivas, chegando a uma avenida. Alguns carros
passavam rapidamente por elas e, quando saíram da extremidade da avenida,
pessoas começaram a aparecer.
Primeiramente, eles ficaram receosos que
forma de vida encontrariam naquele lugar, mas, a medida que as pessoas passavam
por eles, esse medo desapareceu. As pessoas desse mundo eram humanas. Humanas
iguais as outras e usavam o mesmo estilo de roupa e falavam o mesmo idioma que
Serena e seus companheiros.
“O que é isso, Ami? Por que eles são iguais
a nós? Isso não deveria acontecer!” falou Darien.
“Eu também não entendo,” ela começou a
responder, “Eu esperava sair daquele vórtex e me encontrar num lugar árido e
nocivo, e agora...”
“Ge-ge-gente!” interrompeu Serena, visivelmente
assustada, “ Olhem ali, à direita! Olhem! Olhem! É o..... o..... o.....
o.......”
“GAME CENTER CROWN!!!!!!!” gritaram ao mesmo tempo.
Por um instante não souberam como agir e
mesmo Ami parecia confusa. Sua primeira atitude foi checar em seu computador os
dados do vórtex, pois começou a achar que tinha copiado algum dado errado e que
tinham simplesmente ido para outro lado de Tóquio. Contudo, nada procedeu, pois
eles realmente tinham entrado numa dimensão e saído noutra. “O que está acontecendo
aqui?” pensou ela.
“Vamos até lá!” gritou Serena e saiu
correndo, parecendo novamente a garotinha de 14 anos que conheceram a muito.
Após uma breve troca de olhares, foram atrás dela.
Quando entraram,
ficaram mais chocados ainda. Tudo lá dentro era igual ao Crown que eles
conheciam. A mesma disposição das máquinas, a mesma decoração...
“Só falta
aparecer o Andrew...” disse Mina.
“O Andrew não, sua desatualizada!” começou
Lita toda animada. “Agora quem toma conta do Crown é o Seijo-chan!”
“Seijo-chan?!” se espantou Serena. “Quando
você ficou tão íntima dele assim?”
Lita corou como um pimentão. “Bem, enfim...
eu... ele... nós...”
“Pare com o interrogatório, Serena!” salvou
Mina, “Vamos deixar Lita em paz. Mas fale, como ele é?”
“Bem,” disse Lita, “é alto, loirinho, olhos
azuis...”
“Então pode parar,” interrompeu Ami
apontando para o rapaz que cuidava do Crown, “Aquele não é o Seijo.”
Realmente, pela descrição de Lita, não
podiam ser nem parentes. O rapaz que Ami mostrara era de estatura média,
cabelos negros e tinha um rosto cheio de marcas de espinhas. Ami foi até ele
para descobrir algo mais sobre o lugar onde foram parar.
Quando ela chegou em sua frente, o rapaz
disse, “Tóquio.”
Ami olhou surpresa. “Como sabia que eu ia
perguntar o nome da cidade onde estamos?”
“É isso mesmo que está pensando, Ami
Mizuno,” falou ele.
“Como sabe o meu nome? E como sabe o que eu
estou pensando?” perguntou cada vez mais atordoada.
“Pensei que por ter sido a melhor aluna do
colegial e por ser uma médica de renome, não ficaria me fazendo perguntas para
as quais você já sabe a resposta,” disse sarcasticamente.
“Você é... não, você pode...” Ami tentava
dizer algo.
“Sim. Eu leio mentes. Por que o espanto?”
Ami foi correndo em direção aos outros e contou
o ocorrido. Todos, após se acalmarem do choque que haviam levado, decidiram
sair logo dali, antes que o jovem descobrisse algo mais sobre ele, já que
ninguém tinha idéia do raio de alcance de seu poder.
Quando saíram e começaram a caminhar a esmo,
estavam mais confusos que nunca. Além disso, todos bombardeavam Ami com
perguntas e ela só sabia responder “Não sei” ou “Não entendo também”. Estavam
tão desligados que quando viraram a esquina trombaram com uma senhora.
Ela já devia ter seus 70 anos, mas
continuava com um porte saudável. Tinha cabelos brancos na altura do ombro e
olhos azuis tão límpidos como água pura. Darien ajudou-a a se levantar e,
quando a senhora se recompôs, fitou um a um com seus olhos fulgurantes.
“São vocês. Eu esperei todos esses anos pelo
dia em que vocês chegassem aqui. Vamos comigo, acho que precisarão de minha
ajuda.”
Eles não sabiam o que dizer. Acharam que a
velhinha parecia saudável mas já estava com algum problema. Vendo a reação
deles, ela completou, “Precisarão de minha ajuda.... para vencer Titã.”
E isso foi o
suficiente para que eles a seguissem.
Foi um longo caminho. Todos seguiam a
velhinha em comitiva, ainda assustados demais para perguntar qualquer coisa.
Passaram por diversas ruas residenciais e reconheceram facilmente a casa de
Mina, o templo Hikawa e, ao longe, avistaram a Torre de Tóquio.
“Porque tudo
aqui é igual a Tóquio?” Serena rompeu o silêncio.
“Logo saberá,
menina...” disse friamente a senhora.
Serena se contraiu com o tom de voz da
resposta e aninhou-se no peito de Darien. “Será que não estamos perdendo tempo
aqui? Hikari já está pelo menos duas horas na mão de Titã. Imagine as
barbaridades que ele pode fazer com ela..?” sussurrou Serena para Darien,
lágrimas se formando em seus olhos.
“Serena,
acalme-se. Ele não quer ferir Hikari... Só quer leva-la para o lado do mal. Eu
sei que isso é terrível, mas pense que este processo é demorado, leva três
meses, lembra? Nesse ínterim nós a salvaremos.” respondeu Darien, tentando
acalmar Serena embora ele próprio estivesse receoso de que suas palavras não se
cumprissem.
Repentinamente pararam ante uma casa. Era de
porte médio, parecia confortável. Tinha um jardim com flores que abriam durante
a noite, exalando um perfume doce e suave e cobrindo tudo com suas pétalas
brancas e firmes. Lita adorava flores e conhecia essas espécies, contudo nunca
tinha visto um jardim tão repleto e lindo. Pensou até que era mais bonito que
os jardins botânicos de Tóquio. Ami se aproximou do jardim e viu que havia nele
uma placa com as seguintes inscrições:
Multiplicatus,
vigeo!
(Multiplicadas, floresceis!)
Beatus Deméter,
auxilium (Abençoada Deméter,
ajude)
Converto niveus
magis niveus
(Transforme as brancas em mais brancas)
Fragus magis
fragus (Perfumadas em mais
perfumadas)
Decorus magis
decorus
(Formosas em mais formosas)
Charitum abico
mei oratio cotidio (Ofereço humilde minhas orações diárias)
Salus beatus
Deméter
(À abençoada Deméter)
Ami ficou pensativa por alguns instantes.
Sabia que aquela língua era latim, mas essa era uma língua que Ami não sabia.
“Do que se trata?” finalmente perguntou.
“Ah, a placa,”
disse a velhinha, “É uma oração à deusa da agricultura, Deméter. Eu peço que
faça meu jardim cada vez mais bonito e ofereço minhas orações diárias à ela.”
“Orações
diárias?” perguntou Rey.
“Sim. Aqui
geralmente cada pessoa escolhe seu deus protetor e oferece a ele uma oração às
11 e meia da noite. Todos fazem isso, já que o poder dos deuses é grande demais
para ser ignorado. E é lógico que minha deusa protetora é Deméter, como a de
toda boa feiticeira.” concluiu a senhora, para o desespero de todos.
“Pera aí, deixa
eu ver se eu entendi,” começou Serena, “Você é uma BRUXA???!!”
“Sim. É... acho
que vocês precisarão mesmo de longas explicações. Mas entrem, vou contar lá
dentro porque aqui fora está muito frio.”
Todos entraram na casa da senhora e ela era
mais aconchegante ainda por dentro. Sentaram-se numa sala ante uma lareira que
crepitava incessantemente. A velhinha então começou a falar.
“Bem, para começar meu nome é Safinna, mas
todos me chamam de Finna. Agora posso começar a explicar onde vocês estão. Como
podem ver tudo aqui é igual a Tóquio, menos as pessoas. Na verdade, todos os
que moram aqui tem algum poder mágico ou sobrenatural e antes de virem para cá
moravam em seu mundo. Mas os dotados de poderes assim são discriminados na
sociedade do mundo normal, e, se não querem ser isolados do convívio social,
não podem usar seus poderes. Sofrendo juntos com isso, os dotados com maiores
poderes criaram uma réplica de seu mundo há 30 anos atrás, mas neste novo mundo
não existiria preconceito contra os poderes obscuros, pois só consegue chegar a
esse mundo quem tem alguma espécie de poder. Rapidamente a notícia da criação
de Eros, como chama nosso mundo. Com isso, milhares de pessoas começaram a
chegar, todos com históricos semelhantes de isolamento por causa de seus
poderes.”
“Então não é só Tóquio que foi replicada?
Outras cidades e outros países também?” perguntou Ami.
“Fizemos isso para que as pessoas
continuassem com uma vida semelhante a que antes levavam, que pudessem ir aos
mesmos lugares e assim por diante.”
“Certo,” disse Darien, “Mas como sabia que
nós viríamos? E como sabia sobre Titã?”
“Bem, essa é uma outra longa história. Eu tinha
10 anos quando Titan nasceu. Eu era filha do chefe da guarda real e minha mãe
era muito próxima da mãe de Titan. Desse modo, crescemos juntos, tal qual irmão
e irmã. Éramos muito próximos e nos amávamos muito. Acompanhei de perto sua
história com a Rainha Serenity e foi eu que consegui mantê-lo vivo quando
passou um ano trancafiado em seu quarto. Eu o aconselhava, mas ele não seguia
meus conselhos. Nossa amizade ficou profundamente estremecida quando ele raptou
a Rainha Cibele, contrariando todos os meus pedidos. Estive com ele quando
fomos tirados de órbita e assisti a sua morte. Eu tinha ajudado a criar Titã,
mas ele contrariou todas as minhas expectativas se tornando vingativo e
rancoroso. Acompanhei-o por anos, tentando ajudá-lo a esquecer o passado e
construir um bom futuro quando ele encontrou Eros. Ele abriu uma passagem para
cá e trouxe todos os seus súditos. Ele construiu uma fortaleza para ser seu
covil a alguns quilômetros daqui, no topo de uma montanha. Lá é frio e sempre
está nevando, como em nosso satélite Titã. Eu achei que finalmente ele ia
sossegar, mas então descobri seus planos de raptar a filha da Princesa Serenity
e do príncipe Endymion e tomá-la como sua esposa e rainha, para conquistar toda
a galáxia. Então fugi para a cidade e me escondi. Aos poucos fui arrumando
minha vida e, numa leitura ante o fogo, vi que guerreiros chegariam aqui para
lutar com Titã e acabar com seus planos maléficos. Vi também que teria que
ajudá-los nessa empreitada, mas, quando tentei ver como acabaria essa história,
não consegui, já que esse é um futuro que promete tantas reviravoltas e em que
tantas coisas ainda vão acontecer que nem os deuses sabem como isso vai
acabar.”
Todos ficaram estáticos. Agora sabiam onde
estavam e quem eram essas pessoas com estranhos poderes. Mas Serena ainda tinha
uma pergunta entalada na garanta. “Como poderemos salvar Hikari?” gritou ela.
“Bem...” disse Finna, pensativa, “segundo
meus cálculos, se Titã usar a magia Auctus Coacto...”
“Magia o quê?” perguntou Ami, interessada
pelas tão diferentes palavras em latim.
“Bem, e a magia conhecida em nosso idioma
como Desenvolvimento Forçado. Acho que é essa que ele vai usar e, sendo assim,
teremos cerca de três meses para derrotar Titã e resgatar Hikari...”
“E onde ele se esconde?” indagou uma
extasiada Serena. “Temos que ir lá agora! Não há tempo a perder!”
“Não. Ainda não podemos ir até ele.” disse
secamente Finna.
“Como não? Hikari não pode esperar!” se
intrometeu Darien.
“Bem,” continuou Finna, “Titã é muito
poderoso, e tem poderes concedidos pelos deuses, como os seus. Mas...” ela
pensou por alguns instantes, “Mas ele não tem só estes poderes. Sim, pois os
poderes que lhe foram concedidos pelos deuses poderiam até ser vencidos pelos
seus; isso, é claro, se Sailor Moon estivesse em sua última forma, Eternal
Sailor Moon, e que vocês todas estivessem em sua forma Super, o que eu sei que
não ocorre. Porém o que eu ia dizer é que Titã tem poderes mágicos como vocês
viram. E não é apenas um bruxo de curso via correio. Ele é um exímio feiticeiro
e tem as bases da magia muito bem cravadas no fundo de seu coração. Isso o
torna poderoso e dotado de um poder que não pode ser vencido com os seus
poderes normais. Para vencerem Titã vocês terão que... que aprender as artes
mágicas. Pois só tendo os mesmos poderes que Titã tem que vocês conseguirão
vence-lo.”
“E como aprenderemos isso em apenas três
meses? Aposto que não é nada fácil” disse Mina.
“Acertou, jovem. Não é fácil. Mas eu poderei
ensiná-los, esta é a minha missão.”
“Mas então estaremos aptos a vencer Titã em
meses?” perguntou Lita.
“Bem, ainda há uma coisa que eu não lhes
contei...” murmurou Finna.
“Então fale, eu lhe rogo.” falou Serena,
pensando se conseguiria realmente salvar Hikari.
“O detalhe que falta é que Titã sempre foi
um feiticeiro nato, mas... para se tornar mais poderoso, ou melhor, o mais
poderoso de todos os bruxos, ele... ele se dedicou nos últimos anos à magia
negra. Esse é um lado obscuro da magia e decerto o mais intenso. É também
terrível e amedrontador e, se quiserem vencer Titã, também terão que entrar
nesse mundo de trevas.”
“Mas é claro que farei isso! Se for preciso
irei ao inferno buscar minha filha!” gritou Serena.
“Calma, mulher. Ainda não disse a pior
parte. É que nem todos podem aprender magia negra. Eu, por exemplo, pude
aprender apenas os rudimentos e ainda com anos de esforço. Para aprender magia
negra é preciso ter o Dom. A pessoa tem que nascer com uma veia para isso, tem
que nascer com o tino para a magia. E poucos são os escolhidos pelas trevas
para nascerem com esse potencial.”
“E como saberemos se temos o Dom?” perguntou
Rey.
“Bem, ensinar-lhes-ei a magia branca, e, se
tudo correr bem, em um mês saberemos.”
“Um mês?! Como posso esperar um mês para
saber o destino de minha filha?” Serena se desesperou.
“Bem, lição número um: A melhor bruxa tem a
maior paciência e sabe esperar o tempo certo de colher os frutos de sua
disciplina. E agora vamos encerrar esta conversa e dormir, pois já está tarde e
amanhã um dia longo nos espera.” disse Finna e, olhando para cada um continuou,
“Mas que tal me dizerem seus nomes? Afinal só sei suas identidades de
guerreiros e de que planetas são princesas; e príncipe, claro.”
“Sou Ami Mizuno.”
“Lita Kino.”
“Mina Aino.”
“Rey Hino.”
“Darien
Chiba.”
“Serena Tsukino.”
“Serena, você não mudou de sobrenome quando
casou?” perguntou Ami.
“Na verdade eu e Darien decidimos manter
nossos nomes como eram antes.” respondeu, encerrando o assunto.
Decidiram que Serena e Darien dormiriam no
quarto de hóspedes e as meninas se ajeitariam na sala. O casal logo se
recolheu, após comentarem que mal tinham percebido que abandonaram Lua e
Artemis na verdadeira Tóquio. Mina decidiu que falariam sobre isso no dia
seguinte. Finna também foi se deitar, pois estava realmente exausta. Rey logo
percebeu que por trás daquela poderosa feiticeira havia uma mulher, já idosa e
sem parentes e sem amor. Rey sentiu pena de Finna e pensou que seria bom se ela
pudesse ajudá-la a se sentir menos solitária. Logo só estavam as quatro garotas
na sala.
“E então meninas, o que andaram fazendo por
esses anos?” perguntou Rey, tentando descontrair o ambiente.
Mina olhou friamente para ela e, trocando um
breve olhar com Ami e Lita disse, “Rey, espero que você não tenha nos entendido
mal. Quando aceitamos parar de brigar com você para procurar Hikari, nós não
dissemos que voltaríamos a ser suas amigas. Você traiu a confiança de Serena e,
com isso, nos traiu, por isso só aceitamos uma espécie de “cessar fogo” para
podermos ajudar Serena. Mas espero que você entenda que não queremos mais sua
amizade.”
Rey olhou espantada. Ela pensara que tinha
sido perdoada, mas tudo fôra ilusão. Sentiu um aperto no peito, pois se
arrependia amargamente do que tinha feito no passado, embora, ainda hoje, não
controlasse seu coração teimoso. Tudo escureceu a sua volta quando viu que suas
amigas a rejeitavam. Então ela se aninhou no sofá e fechou os olhos, querendo
que tudo aquilo fosse um pesadelo e, quando acordasse todos a tratassem como
sempre.
Lita, após esse momento, decidiu fazer um
café para ela, para aliviar as tensões do dia. Ami disse que ia ao banheiro e
Mina a acompanhou. No caminho Ami pareceu preocupada.
“Mina, será que não estamos sendo duras
demais com a Rey?” perguntou.
“Ami, eu, sinceramente, acho que não. Se ela
quer nossa amizade e confiança novamente, acho que terá que lutar para
reconquistar.”
As duas foram o resto do caminho em
silêncio, e, quando chegaram no final do corredor, Ami entrou no banheiro cuja
porta ficava à direita. Na parede final do corredor havia uma janela e Mina se
pôs a olhar pelo vidro. Tudo estava escuro na rua e a casa que ficava do outro
lado não tinha nenhuma luz acesa. Para a surpresa de Mina, a porta dessa casa
se abriu repentinamente. Mina apertou os olhos, a fim de conseguir ver melhor o
que estava acontecendo, mas só conseguiu ver um vulto negro usando uma espécie
de capa pesada com um capuz que lhe cobria a face. Mina ficou intrigada, mas
Ami saiu do banheiro e a distraiu por um segundo. Entretanto, quando Mina
retornou o olhar para a janela, o vulto não estava mais lá.
“O que você está olhando, Mina?” perguntou
Ami.
“Nada...” respondeu Mina, mas em sua cabeça
a imagem do vulto negro retumbava. “Quem será...?” pensou.
As duas voltaram para a sala e ficaram
conversando sentadas na mesa e tomando café, enquanto Rey continuava inerte no
sofá, tentando sem sucesso dormir. Enquanto isso, Serena e Darien se instalavam
em seu quarto e, já deitados, Serena se aninhou no peito de Darien.
“Você acha que conseguiremos salvar nossa
filha?”
“É claro que sim, Serena.”
“Mas e se nenhum de nós tiver o dom para a
magia negra? Não conseguirei sobreviver sem Hikari.”
“Serena,” disse Darien, e levantou a cabeça
de Serena delicadamente, fazendo com que os olhos dela encontrassem os seus,
“tudo vai dar certo. Tenha esperança, porque é ela que faz o seu poder ficar
mais forte e brilhante. Nesse exato momento sinto sua aura tão fraca e sem
resplendor que me dá medo. Seja forte e salvaremos nossa filha”
“Darien...” murmurou ela e beijou-o
longamente.
No dia seguinte todos acordaram cedo,
inclusive Serena. Reunidos na mesa de café da manhã, decidiam qual seria o
próximo passo. Finna explicou que eles teriam que começar um curso intensivo de
magia e que isso parecia muito fácil e divertido, mas na verdade era exaustivo
e complicado, necessitando de uma alta dose de concentração e dedicação. Para
finalizar o assunto, disse que começariam após o café da manhã e que, como ela
já tinha tomado o seu, estaria esperando-os no porão da casa. Quando ela saiu,
um burburinho começou.
“Vamos ter aulas de magia no porão da casa?”
perguntou Serena assustada “Não é perigoso?”
“Isso me lembra terríveis histórias de
bruxaria e torturas medievais. Era nos porões que eles costumavam guardar toda
a espécie de ervas venenosas e partes de animais mortos, além de cadeiras
cobertas por pregos onde você teria que sentar e...” dizia Mina.
“Querem parar de falar bobagens? Não
percebem que tudo isso não passa de ficção? Foi por causa de pessoas como vocês
que eles tiveram que construir outro mundo, já que não conseguiam viver
normalmente no nosso. E olha que vocês têm poderes sobrenaturais também.”
Interrompeu Darien
E assim o assunto foi suspenso até o final
do café da manhã.
Quando todos terminaram, foram descendo para
o porão. Serena e Darien foram na frente e Mina, Lita e Ami atrás, seguidos por
Rey, que estava no final da fila. Assim que desceram uma escadaria interminável
tiveram uma surpresa, já que o que encontraram foi completamente o contrário de
tudo o que tinham pensado. Na verdade, o porão era o cômodo mais aconchegante
da casa e tinha uma lareira circular ao fundo, onde havia apetrechos para
pendurar um enorme caldeirão de ferro que estava encostado num canto. As
paredes eram claras e as lâmpadas reluziam com um tom violeta. Havia uma mesa
de doze lugares, com um banco comprido de cada lado, tudo de madeira. Mais a
esquerda estava um par de sofás de couro negro, muito confortáveis por acaso,
com um tapete entre eles de pele de urso. Havia também armários enormes e
prateleiras repletas de livros. Além disso havia um belo quadro de uma mulher
na parede, emoldurado em dourado.
“De quem é esse retrato?” perguntou Rey.
“É de minha falecida mãe.” respondeu Finna, enxugando
com o dorso da mão uma lágrima que teimava em lhe escorrer pela face ao se
lembrar de sua mãe. “Bem, vamos começar então. Quero que formem duplas.”
Serena e Darien logo se uniram, mas as meninas
ficaram em dúvida do que deveriam fazer, pois nenhuma queria ficar com Rey.
Vendo o ocorrido, Serena interviu.
“O que é isso? Não lhes falei que perdôo Rey
e que vocês devem esquecer o que aconteceu no passado? Esqueceram da ordem
explícita que lhes foi dada pela sua princesa?”
“Sim,” começou Mina, “É que... bem, não
conseguimos esquecer e voltar a ser amigas de Rey normalmente. Não somos tão
magnânimas e bondosas como você, princesa.” E abaixou a cabeça em sinal de
respeito.
“E qual de vocês vai ficar com Rey?”
perguntou Serena, com seus olhos azuis faiscando de irritação.
Não houve resposta.
“Então eu decido. Ami fica com Mina e Lita
com Rey. E quem lançar a primeira careta ou olhar esguio que eu ver para Rey,
vai ter uma ‘conversinha’ comigo.”
Lita foi até Rey, com o olhar no chão,
pensando porque Serena tinha a escolhido. Quando olhou para Rey, viu nos seus
olhos negros uma dor e arrependimento gigantescos. “Rey...” pensou.
Terminado o dilema das duplas, todos olharam
para Finna, que começou, “Bem, já lhes disse que temos que ter um deus protetor
e que nós, os feiticeiros temos como praxe orar para Deméter. A questão é que
vocês têm ainda seus deuses protetores dos planetas, de modo que precisarão
orar duplamente, para os dois, já que deuses enciumados são como najas do
deserto. Vocês sabem quais são seus deuses protetores?”
Um silêncio sepulcral respondeu a pergunta.
“Bem, então vou lhes dizer. Serena deve seus
poderes à Selene, Darien à Titéia, Ami a Hermes, Rey a Ares, Lita a Zeus e Mina
à Afrodite.” então olhou diretamente para Mina, “Fique sabendo, Mina que sua
deusa, Afrodite é muito boa e generosa, mas não a irrite, pois é uma das mais
vingativas.”
“Certo,” disse Mina, “Acho que todos nós já
sabemos a quem orar. Mas o que devemos dizer?”
“Bem, no início, só pensem em coisas boas
para seus deuses e peçam proteção. As palavras virão naturalmente, a medida que
seus poderes se desenvolverem. Agora vamos á prática, certo? Vamos começar por
um feitiço básico de cura, pois devemos aprender as artes da defesa antes das
do ataque. Cada um de vocês devem ir até o armário que tem a palavra Sectum
escrita e escolher a de sua preferência. Lembrem-se ela os acompanhará par
sempre daqui em diante.”
Ninguém pensou muito no que haveria lá,
simplesmente foram. Contudo, quando abriram o armário, ficaram chocados.
Arrumadas em caixas de vidro, havia dezenas de adagas, todas de dois gumes, com
os cabos adornados belissimamente. Pareciam competir para ver em qual havia
mais pedras preciosas incrustadas ou qual reluzia mais.
“Mas o que é isso? Não quero uma faca! É
perigoso!” gritou Serena, dando um pulo para trás.
“Para começar são adagas, não facas. E em
segundo lugar, todos os feiticeiros têm que ter uma adaga. É com ela que você
vai ‘preparar’ os ingredientes necessários para muitas poções; e na magia negra
então, nem se fala! Deixem que seu coração escolha a que mais tem a ver com
você”
Todos então examinaram mais atentamente a
exuberante coleção. Mina se sentiu fortemente atraída por uma incrustada de
topázios. Lita preferiu a com esmeraldas. Ami não sabia direito o que fazer,
pois nunca pensara em ter uma adaga, era contra o uso de armas, mesmo brancas.
Contudo não resistiu a adornada com safiras. Rey escolheu a de rubis e Serena a
com diamantes. Darien olhou todas muito calmamente e acabou escolhendo uma de
belas pérolas negras. Então fecharam o armário e voltaram para perto de Finna.
“Bem, agora que já escolheram suas
companheiras, têm que torná-las fiéis a vocês.”
“Como assim,” perguntou Ami, “elas vão nos
‘trair’?”
“De certa forma... É que como elas iram
partilhar de seus poderes, é melhor se proteger, pois, tornando-as fiéis, os
inimigos não poderão ferir vocês usando suas próprias adagas e ninguém além de
vocês poderá usá-las.”
Todos chegaram perto da mesa e colocaram
suas adagas em sua frente, como Finna ordenara. Estavam muito nervosos.
“Agora façam um pequeno furo em seus dedos
indicadores esquerdos e deixem escorrer uma gota pela lâmina. Depois repitam:
Fidelis mei, semper.”
Um
pouco apreensivos, mas determinados, todos cumpriram as ordens de Finna e
executaram o simples ritual da fidelidade. Logo, Finna explicou que o que
tinham dito era: “Fiel a mim, sempre”
“Agora troquem de adaga com sua dupla.”
Foi o que fizeram e, por pouco, não tiveram
um ataque de tanto susto. Quando Darien pegou a adaga de Serena, esta se
transformou em mel e lhe escorreu pelos dedos. A de Darien se decompôs em
pétalas de rosa, a de Ami escorreu pelos dedos de Mina como água, a de Rey se tornou
chamas nas mãos de Lita, que por pouco não queimaram, Ami viu a adaga de sua
parceira se transformar em milhares de raios de sol em suas mãos e a de Lita
caiu das mãos de Rey na forma de milhares de folhas verdejantes.
“Viu como são fiéis?” satirizou Finna.
“Agora para fazerem que elas voltem às suas mãos, digam: ‘Revenius mei’ que é
‘Retorne a mim’.”
Todos repetiram as palavras de Finna e as
adagas apareceram repentinamente nas mãos do respectivos donos, ainda muito
estupefatos para dizer qualquer coisa. Também toda aquela sujeira de folhas,
mel, etc. tinha sumido.
“Agora vamos realmente começar com a aula,
pois isso foi só uma preparação necessária. Os integrantes das duplas devem
ficar um de frente pro outro ali no meio, onde há espaço.” ordenou Finna e foi
prontamente obedecida. “Bem, já que está tudo certo, um de cada dupla deve
pegar seu punhal e fazer um corte de uns 10 cm no meio do próprio antebraço.”
“O quê?” perguntou uma irritadíssima Lita,
“Você acha que vamos nos cortar tanto assim com isso?”
“Se vocês não se cortarem, como vão aprender
a curar?” respondeu Finna.
“Porque não corta o seu braço então? Daí
todos nós usamos ele de cobaia” sentenciou Lita
“É simples. Como vocês não têm nenhuma intimidade
com esse tipo de magia, e por isso ainda tem um poder muito fraco, o ferimento
a curar deve ser em uma pessoa realmente querida, que vocês não querem ver
sofrer. Isso ajudará a sua magia a emergir.”
Lita torceu o nariz, fechou os olhos e fez uma
cara emburrada, pensando que nunca ia fazer aquilo. Então ouviu uma voz sutil
no seu ouvido, “Lita, temos que fazer isso. É muito importante para Serena.”
Quando abriu os olhos, era Rey que lhe falava.
“Rey...” murmurou e depois em voz alta,
“Está bem, eu começo.”
Todos voltaram sua atenção para Lita, que já
pegava sua adaga e cortava seu antebraço do modo que Finna indicara. O primeiro
fio de sangue saiu quente e dolorido, escorrendo incessantemente no braço de
Lita.
“Podemos ir rápido?” disse Lita como quem
quer disfarçar a dor.
“Sim,” começou Finna, “Agora, Rey, você deve
colocar suas mãos acima no corte e fechar os olhos. Então concentre-se, deixe a
magia fluir pelo seu corpo, tomar todas as suas veias e sair pelos poros de sua
mão. Quando você sentir a mágica concentrada em suas mãos, pronta para
transpassar sua pele diga, ‘Rememdium divinus, confutus cruor, crinus velius!’
(Cura divina, pare o sangue, feche a pele!)”
Rey então posicionou adequadamente suas mãos
e, vendo em Lita uma dor incessante, ficou ainda mais determinada. Quando
fechou os olhos, procurou esquecer tudo mais que estava à sua volta, elevando
sua concentração ao máximo. Percebeu rapidamente que o que buscava era o mesmo
desligamento com o mundo exterior quando fazia leituras no fogo. Naqueles
momentos, o que queria era entrar em sintonia com os deuses, para que lhe
enviassem a resposta e, agora, o que buscava era a sintonia com algo que estava
dentro de si, no fundo de sua alma, escondido por todos esses anos. Sua mente
foi mergulhando numa escuridão cada vez maior e mais profunda e Rey percebeu
que teria que procurar sua mágica dentro de sua alma. Foi como se tivesse
mergulhado numa piscina, e logo começou a nadar, vasculhando todos os cantos
obscuros que encontrava. Era tudo muito escuro, e Rey se perguntou se todas as
almas eram negras assim ou só a dela. Depois achou que era um reflexo de como
sua vida tinha sido nos últimos anos, o próprio inferno em terra. Sentiu que
lembranças há muito esquecidas voltavam em sua mente, como os jantares que
fazia com o pai todos os aniversários e que eram o único dia do ano que o via.
Entre essas lembranças amargas, encontrou um lugar quente, onde uma chama
parecia crepitar. Quando Rey tocou essa chama ela ganhou volume e foi tomando
conta de seu corpo, correndo junto com seu sangue e se misturando com ele.
Logo, ela sentia esse calor intenso queimando em sua mão e disse as palavras
que Finna ensinara.
Todos ficaram bobos quando Rey entrou em uma
espécie de transe e não respondia aos chamados dos amigos. Finna ordenou que
não a incomodassem e, instantes depois, Rey falou as palavras, ainda mergulhada
em seus próprios sentimentos, com lágrimas escorrendo por suas bochechas
rosadas. Ao fazer isso, o sangue parou de sair do ferimento e a pele de Lita se
restabeleceu, como se nada tivesse ocorrido. Rey abriu os olhos.
“Rey, deu certo, olhe!” e Lita colocou seu
braço na frente dos olhos da amiga.
“Sim...” murmurou Rey, com um desânimo.
Finna chegou com uma cadeira e Rey se sentou imediatamente, parecendo que tinha
doado 10 litros de sangue. Sua face empalideceu.
“Ela está bem?” perguntou Darien,
preocupado,
“Sim, em alguns minutos ela se
restabelecerá. Eu lhes disse que mágica era algo muito penoso.” disse Finna.
Ami buscou um copo de água para Rey, que
bebeu rapidamente. Em menos tempo que Finna imaginara, ela já estava bem.
“Então eu consegui?” indagou Rey.
“Sim. E mais rápido do que eu pensava. Você
é dotada de uma grande dose de concentração.” Finna falou.
“Ela faz leituras no fogo. É uma sacerdotisa
de Shinto.” propagou Lita aos quatro ventos, ainda em êxtase por ver seu
ferimento curado.
“Então foi isso. Você estabeleceu um
paralelo entre a concentração necessária para fazer as leituras e para
encontrar sua mágica.” declarou Finna.
“Sim. Agora sinto que minha mágica não está
mais escondida, mas corre junto com meu sangue,” começou Rey, “Finna, por que
minha alma é negra?”
Finna foi pega de surpresa por essa
pergunta, “É? Bem, talvez você não esteja vivendo anos muito bons nos últimos
tempos.”
“É exatamente o que eu pensei.” falou Rey
desviando o olhar.
“Quem vai ser o próximo? Lita vai ter que
esperar Rey recuperar plenamente suas forças. Então? Mina, Ami, Serena ou
Darien?” perguntou Finna.
“Pode ser eu,” disse Ami, “acho que prefiro
começar me cortando que mergulhando nos meus próprios problemas e anseios...”
Todos então deram espaço para Mina e Ami. Os
olhos azuis escuros logo enxergaram seu próprio sangue vazando por um grande
corte no antebraço. Ami fitou Mina e implorou com um olhar que começasse logo.
“Bem,” disse a loira, tensa, “aqui vou
eu...”
Mina colocou suas mãos acima do corte e
fechou os olhos. Pensou que se Rey conseguira, ela também o faria. Tentou
distrair sua mente, se concentrar em procurar a mágica perdida em seu corpo.
Primeiro ela ficou pensando em como seria ser uma bruxa verdadeira, fazer
diversos feitiços... Era excitante para ela só o fato de ter uma adaga e poder
manejá-la. Depois imaginou como seria se ela tivesse o dom para a magia negra.
Ela não sabia ao certo o que poderia fazer, mas sua mente logo pensou em
zumbis, feitiços malignos e empolgantes como nos filmes. Logo ouviu uma voz
gritando seu nome.
“Mina? O que você está fazendo?” perguntou
Serena.
“Oi?” respondeu ela, não entendendo o que
estava acontecendo, “o que foi?”
“Você não está se concentrando nem um
pouco.” falou Finna.
“Ah, é...” Mina não sabia o que dizer.
“Mina,” gemeu Ami, “Concentre-se por favor...”
e fez uma careta de dor. Uma poça de sangue se ajuntava aos pés de Ami. Mina
tinha ficado pensando em bobagens mais tempo do que percebera.
“Certo, vou tentar de novo.”
Ela fechou novamente os olhos e fez força em
se concentrar, mas, definitivamente, esse não era seu forte. Nunca conseguira
prestar atenção em uma só coisa, por isso que costumava ir mal nas provas, não
conseguia se concentrar o suficiente para estudar direito. Pareceu-lhe um tempo
interminável aquela segunda tentativa de concentração, já que sua mente estava
totalmente embaralhada, cada pedaço de seu cérebro pensando em uma coisa
diferente. Mina abriu um pouquinho as pálpebras, o suficiente para conseguir
enxergar o que estava acontecendo, mas de modo que ninguém percebesse que estava
olhando. Viu Ami fazendo uma cara de dor e Serena e Darien estavam preocupados.
Finna não deixava que os dois se aproximassem pois não podia haver intervenção
de outras pessoas. Ami falou que seu braço estava latejando e que estava
sentindo agulhadas. Mina então abriu os olhos de uma vez.
“Eu não consigo me concentrar,” declarou,
“falta de concentração sempre foi o meu ponto fraco.”
Ninguém sabia o que dizer, mas Rey
levantou-se da cadeira onde estava sentada e foi até Mina. Ela tocou os ombros
da loira e a virou de frente para ela.
“Mina, fique calma. Você quer ajudar a Ami,
não?” falou Rey.
“Sim.”
“Pense. Você pode se concentrar, já que é
uma ótima jogadora de vôlei. Quantas vezes já não vi você marcando pontos
direto do saque, não? Então, veja bem, para fazer aquilo você se concentrava
muito, certo? Agora tem que fazer o mesmo. Imagine que este é o último saque e
que a vitória depende disso. Marque o ponto, Mina, você consegue.”
Mina sorriu para Rey e a abraçou
gentilmente. “Agora vou poder ajudar Ami.
Graças a você.” murmurou no ouvido de Rey.
Ela retomou sua posição e deu um olhar
confiante para Ami antes de fechar os olhos. Logo se imaginou numa quadra de
vôlei, com a bola em suas mãos. Tudo dependia dela. Foi fechando sua mente só nisso
e, quando se sentiu pronta para o saque, apagou essa imagem de sua mente e caiu
diretamente dentro de sua própria existência, pronta para procurar a magia
dentro de si. Ela via tudo em preto e branco, piscando como se estivesse sendo
iluminada por aquelas luzes de boates que fazem tudo ficar em câmera lenta.
Sentiu-se andando num emaranhado de fios, e cada um deles era um momento de sua
vida. Alguns dos fios cortavam, outros eram melados como se cobertos por mel.
Instintivamente, foi se dirigindo para o fundo de sua alma e, a cada passo, os
fios ficavam mais cortantes e os melados iam desaparecendo. Após certo tempo
encontrou um casulo brilhante e, quando o tocou lembrou-se claramente do vulto
perto que tinha visto da janela na noite anterior. Ele andava em sua volta, com
seu grande capuz cobrindo sua face. Quando se aproximou de Mina, tirou sua capa
e o que ela viu foi apenas um vulto de um homem coberto de sangue, que escorria
por todos os cantos. Então ela arrebentou o casulo, sentindo uma dor terrível,
causada pelos fios cortantes que o compunham. Entretanto uma luz dourada e
quente como os raios de sol cobriram tudo e entraram em cada célula de Mina,
que disse as palavras ensinadas por Finna.
Quando fez isso, Ami sentiu um formigamento
e um calor intenso no seu corte, que parou de sangrar e se fechou. Mina então
abriu os olhos, viu que tinha curado o ferimento de Ami e, ainda abalada com a
imagem do homem coberto de sangue, desmaiou.
Logo foi acordada por Finna e Rey lhe dava
um copo d’água. “Seja forte, Mina,” falou Rey, “Já passou. Você conseguiu,
acabou tudo.”
“Sim. Me sinto péssima, mas se Ami está bem,
eu também estou. Muito obrigada, Rey, se não fosse você, eu nunca conseguiria.
Acho... acho que lhe devo um pedido de desculpas.”
“Imagina...” ia respondendo Rey.
“Sim,” interrompeu Lita, “Eu também lhe devo
desculpas.”
“E eu também,” falou Ami.
Então as quatro amigas se abraçaram,
pensando no que viria pela frente.
Darien então disse, “Minha vez.”
Todas olharam para ele, que brincava com sua
adaga de brilhantes pérolas negras, que reluziam estranhamente com a luz
violeta.
“Por que a luz é dessa cor?” perguntou
Darien.
“Bem,” falou Finna, “Tal qual fotos precisam
de luz vermelha para não estragarem durante a revelação, algumas mágicas
necessitam de luz violeta, já que as outras cores às vezes interferem no
andamento das coisas. Por exemplo, se eu ligasse a luz normal aqui, vocês nunca
conseguiriam encontrar seus poderes dentro de si, pois eles reagiriam de forma
inadequada e, em vez de ficarem parados, escondidos num só ponto, mudariam de
lugar a cada segundo na velocidade da luz.”
“Então,” recomeçou Darien, “posso fazer o
corte?”
“Se Serena estiver pron...” ia dizendo Finna
quando Serena interrompeu com um sim.
Darien ficou de frente para sua amada e
disse calmamente, “Coragem, força, tranqüilidade. Essas são as palavras chave.”
O sangue correu pelo gume e manchou algumas pérolas. Serena colocou suas mãos
sobre o ferimento de Darien e fechou os olhos lentamente, iniciando de imediato
uma queda vertiginosa para dentro de seu próprio ser. Parecia estar num abismo
extremamente profundo, daqueles que pareciam não ter fim. Sentia muito frio e
percebeu estar nua, coberta por uma camada de luz. Então, para seu espanto e
terror, um enorme Jedite apareceu em seu caminho. Serena fechou os olhos,
achando que iria colidir com ele, mas ultrapassou-o como se passasse por um
fantasma. Era apenas uma imagem, mas, quando olhou para seu corpo, estava com
manchas de algo negro, pegajoso. Serena cheirou o material, e percebeu que era
algo parecido com piche, mas... havia algo mais. Ela não sabia exatamente o que
era, contudo estava convicta de que não era nada de bom. Logo uma imagem de
Neflyte, semelhante à anterior, apareceu e ao passar por ela, Serena ficou com
mais daquele material. Com a maior quantidade, Serena logo percebeu que o que
estava misturado com o piche era sangue. Sentiu uma terrível vontade de
vomitar, e não queria passar por nenhuma daquelas imagens de novo.
“Vadia!” uma voz ecoou pelo abismo.
“Você é a responsável por nossas mortes!”
outra voz fez coro com a anterior.
Serena estava atordoada, não sabia o que
fazer para se livrar daquela sujeira e agora essas vozes a acusavam.
“Assassina! Você tem as mãos manchadas com o
nosso sangue!” gritou alguém.
“Não! Não é verdade! Eu não tive culpa!”
bradou Serena, lágrimas saíam de seus olhos. Passou por Zyocite e seu corpo se
cobriu inteiro daquela imundice.
“Você teve culpa! Você, direta ou
indiretamente, foi a responsável pelas nossas mortes!”
“Mas eu não tive escolha! Vocês estavam
ameaçando a Terra e as pessoas que vivem nela!”
“Os fins não justificam os meios. Você é uma
assassina nojenta!”
E a cada metro Serena passava por mais um de
seus inimigos, sendo manchada pelo sangue imundo deles. Ademais, as ofensas não
paravam e o pior de tudo é que Serena sempre se sentira culpada por matar toda
aquela gente, pois realmente acreditava que os fins não justificavam os meios.
Estava se sentindo culpada e amedrontada e só gritava que não tivera escolha,
que não queria tê-los matado.
“Não! Não! Não foi minha culpa!” gritava
Serena, em uma espécie de transe. Rey e Darien estavam preocupados e queriam
fazer algo para ajudá-la, mas Finna repetia, “Não interfiram.”
Mina já estava recuperada e conversava com
Ami no sofá.
“Por que temos que passar por todo esse
sofrimento? Ainda me pergunto se foi uma boa idéia recuperarmos nossos
poderes,” dizia a loira.
“É, eu às vezes penso como você, mas depois
lembro que temos que salvar Hikari e então minhas dúvidas se vão. Serena está
completamente desolada com o rapto da filha.”
“É o que me motiva também. Pelo menos isso
serviu para que eu pudesse perdoar Rey. Se algo assim não acontecesse, acho que
eu nunca veria nela a amiga que sempre fora. Sabe, eu sou meio orgulhosa e
tenho dificuldade em pedir desculpas e em perdoar, por isso algo tem que me
pegar pelos ombros e me chacoalhar para que eu perceba que estou cometendo um
erro com alguém.” falou Mina.
“Estou preocupada com Serena, acho que está
passando por maus bocados. Ela não pára de gritar.” disse Ami.
“Vamos até lá.” E as duas se uniram a Finna,
Rey e Darien.
Serena tinha acabado de passar por Rubens
quando sua pele começou a escurecer. Ela sentiu que aquela coisa estava
entrando dentro de si e quando se deu conta chorava lágrimas de sangue. Serena
estava desistindo, mas lembrou-se de Hiraki. Viu que não podia desistir, que
tinha que superar todas as mortes que estavam em seu passado. Serena então fez
ouvidos moucos para as vozes que só tinham o intuito de deixá-la frágil e
desesperada e colocou-se em posição de mergulho, acelerando a velocidade da
queda. Logo estava passando pelo Trio Amazonas e depois por Sailor Iron Mouse.
Contudo, quando viu uma enorme massa negra que borbulhava como um caldeirão
fervente, o Caos, teve uma vontade súbita de parar, pois sentia que não iria
agüentar a podridão da fonte de tudo que é mau. Então, como num ato
inconsciente de defesa, asas saíram de suas costas e a fizeram parar logo acima
do Caos. Serena pensou por alguns minutos, mas lembrou-se que tinha que
encontrar sua mágica dentro de si para curar Darien. Os bons momentos que
passaram juntos vieram em sua cabeça como uma fonte de inspiração, dizendo a
ela que tinha que mergulhar dentro do Caos.
Foi o que fez. Ao penetrar no Caos,
sentiu-se dentro dum balde gigante de piche e não conseguia respirar. Quando
finalmente achou que ia sufocar, saiu do outro lado e tudo se iluminou. Caiu em
um lago de luz cálida e translúcida e toda a culpa e a sujeira que havia em
Serena foi retirada. Sentiu que aquele enorme lago era a sua mágica assim que
aquela luz começou a penetrar em seus poros. Se concentrou e disse as palavras
ensinadas por Finna.
“Rememdium divinus, confutus cruor, crinus
velius!” disse Serena num espasmo e o ferimento de Darien cicatrizou. Ela caiu
em seus braços.
“Você está bem, Serena?” perguntou ele.
“Foi horrível, Darien,” disse chorando, “foi
horrível ver e ouvir tudo aquilo mas eu consegui.”
“Sabíamos que conseguiria,” disse Ami.
“Afinal,” continuou Lita, “É a mais forte de
nós.”
“E a mais corajosa,” falou Mina.
“É a nossa querida princesa.” terminou Rey.
Todos ficaram em silêncio por alguns
instantes, ainda enternecidos pelas lágrimas de Serena quando Finna propôs um
descanso. Serena, Rey e Darien ficaram sentados perto da lareira enquanto
Serena se recuperava. Ami, Lita e Finna foram fazer um pouco de café para
aumentar os ânimos. Mina também subiu com elas, mas preferiu sair um pouco para
dar uma voltinha. Finna pediu a ela que não demorasse, pois a próxima seria
Lita, e Mina disse que só ia ficar perto da casa.
Quando saiu no jardim, uma brisa repentina
gelou suas maçãs do rosto, que tinham uma coloração levemente rósea. Mina
passou pelas belas flores e ervas de Finna e olhou de relance, ao contrário do
que faria Lita. Começou a pensar que todas as confusões que aconteceram em suas
vidas serviram ao menos para atá-las com fortes laços de amizade e amor, embora
sentisse que nunca poderia amar alguém plenamente que não fosse a princesa e
suas companheiras. Era uma espécie de devoção, missão a cumprir, e estava
escrito em alguma espécie de contrato, em letras miúdas, que teria que abdicar
da paixão de um homem em prol de sua incumbência. Mina começara a pensar nisso
logo após que se separara das outras pois, em seus momentos de solidão, ficava
lembrando e analisando cada momento que viveram juntas e vira que nem ela e nem
Ami, Rey e Lita conseguiram se ligar a um alguém especial. Nesses instantes de
reflexão pensava muito em Alan e em como sua paixão não tinha dado certo, tal
qual a de Lita e Rey. Sentia muita vontade de chorar, mas sempre sua grande
amiga Nanako a confortava.
Nem se dera conta que estava dando voltas na
casa e, quando acordara de seus devaneios, estava olhando para a casa de onde
vira o vulto sair na noite anterior. Era uma construção bem semelhante à de
Finna, mas as paredes eram de um cinza triste e todas as janelas tinham pesadas
cortinas pretas. A porta tinha tantas trancas que Mina ficou ainda mais curiosa
sobre quem moraria em semelhante local. Contudo, algo estalou em sua mente e
Mina saiu correndo de volta para a casa de Finna, pois precisava falar com as
meninas sobre algo que lembrara.
“Mina,
o que foi?” perguntou Ami ao vê-la entrar correndo.
“Ami,
Lita, venham logo até aqui em baixo que eu preciso falar com todos vocês,”
disse Mina.
Quando todos estavam reunidos no porão, Mina
começou a esclarecer o assunto.
“Eu sei que viemos para cá na pressa,” ia
dizendo, “mas e Artemis e Lua? Deixamos eles lá sem maiores explicações. Além
disso, todos devem estar preocupados com nosso sumiço. Isso sem contar que
ontem nos ajeitamos com o que Finna nos emprestou, mas se vamos ficar
precisaremos de roupas e afins.”
Todos pensaram por alguns instantes. Finna
quebrou o silêncio.
“Bom, pelo que entendi, vocês devem estar
falando dos gatos guardiões, certo? Pois bem, faremos um feitiço para traze-los
até aqui sem irmos até lá. Traremos roupas também. Quanto aos familiares, sinto
dizer que ficarão sem notícias...” disse ela.
“Mas porque não podemos ir até lá?”
perguntou Lita.
“Simples. As movimentações de saída e
entrada ficam todas gravadas no computador central da cidade. No dia em que
vieram, Titã tinha acabado de sair de uma batalha e possivelmente não contava
com a possibilidade de vocês clonarem o portal dele. Enfim, o fato é que se
Titã possuir um acesso secreto ao computador da prefeitura, ele já deve estar
monitorando as entradas e saídas, esperando por sinais vitais semelhantes aos
de vocês que ele provavelmente colheu na batalha. Por isso é mais prudente que
vocês não usarem portais entre as dimensões.” explicou Finna.
“Certo. Só gostaria que não ficassem
preocupados conosco...” murmurou Serena.
“Talvez eu possa dar um jeito nisso,” falou
Finna para Serena, “mas não garanto. E não será de imediato, já que tenho que
fazer algumas pesquisas.” Serena olhou compreensiva para Finna, que sentiu um
calor poderoso se apoderar de seu corpo. “Essa menina...” pensou.
“De qualquer forma, só faremos isso após que
todos vocês tenham despertado suas respectivas magias.” sentenciou Finna e
serviu o café que tinham feito.
Houve então um momento mais descontraído que,
ao olhar de Finna, era apenas perda de tempo, mas, de observadora que era,
percebeu que eles precisariam disso para aliviar as tensões.
“Então,” falava Serena, “o que fez durante
esses anos, Lita?”
“Bem, eu fiz alguns cursos de culinária e
estava trabalhando como chefe de cozinha num restaurante.” respondeu.
“Então estava realizando seu sonho,” falou
Rey.
“De certa forma, sim,” disse com um suspiro,
“Apesar de que com essas faltas que vou ter agora é bem capaz que eu seja
demitida... E você, Ami, finalmente se tornando médica?”
“É... Espero que sim.” respondeu pensativa.
“O que quer dizer com isso?” perguntou Mina.
“Bem, é que eu não estava muito bem de notas
e...”
“O QUÊ??! Você não estava bem de notas??”
falou uma assustada Serena.
“O que houve, Ami?” indagou Darien.
“Bem,” ela começou a responder, “É que eu
estava meio deprimida esses últimos tempos e não conseguia me concentrar...
Tinha que estudar muito agora para recuperar minhas notas e ainda estava
fazendo estágio... Acho... que vou ter que refazer o último período.”
“Fico triste em pensar que vai repetir o
período porque vai estar aqui me ajudando,” disse Serena.
“Ah, não fique! Acho que iria repetir mesmo
se não estivesse aqui! Mas vamos mudar de assunto, certo?” falou toda sem
graça, “E o que você estava fazendo, Rey?”
“Nada de muito importante. Além de cuidar do
templo eu preparava uma peça com o grupo de teatro. Mas agora eles terão que
ensaiar sem mim.”
“Que peça?” perguntou Darien.
“Romeu e Julieta.”
“Estou enganada se afirmar que você fazia o
papel da Julieta?” disse Mina.
“Não, está certa.”
“Eu sabia! Imagina se a Rey ia aceitar nada
menos que o papel principal!” falou Serena e todos riram.
“E Nicholas? Estão juntos?” disse Lita.
“Bem,” Rey ficou pensativa, “Estávamos,
mas... Não estamos mais.”
“Por quê?” Lita ficou curiosa.
“Estarei sendo rude se não quiser falar
sobre isso agora? Ainda é muito penoso para mim.”
“De jeito nenhum.”
Finna chegou perto deles e lembrou-os do que
deveriam fazer. Todos levantaram e o clima tenso se apoderou da sala novamente.
Tinham que acabar o que começaram.
Rey se colocou no centro da sala perante
Lita, que parecia muito nervosa. Rey pegou as mãos da amiga entre as suas e deu
um sorriso reconfortante. Lita sentiu que Rey confiava nela e isso a fez se
sentir mais segura. Rey então sacou sua adaga de rubis e fez um corte em seu
antebraço. Lita posicionou suas mãos e fechou lentamente os olhos.
Tudo ficou escuro, mas Lita ainda sentia a
presença de todos a sua volta, indicando que ela ainda não tinha se concentrado
o suficiente. Ficar de olhos fechados apenas fez com que ela perdesse um pouco
a noção de equilíbrio, ficando um tanto tonta. De quando em quando ouvia um
gemido de Rey, que se esforçava ao máximo para não deixar Lita ainda mais
nervosa. Ela então deu um suspiro profundo e centrou seus pensamentos em seu
próprio corpo. Nada aconteceu no início, mas Lita foi se distanciando cada vez
mais daquela sala e das pessoas que estavam lá e logo se encontrava num lugar
escuro, irreconhecível, onde não conseguia ver seu próprio corpo.
Lita abriu os olhos e se encontrava num
avião. “Como vim parar aqui?” pensou. Olhou pela janela e a visão de nuvens
brancas a deixou amedrontada, pois em nada lhe agradava a idéia de estar voando
a milhares de pés de altura. “Odeio aviões...” pensou enquanto se levantava.
Estava na ponta da frente do avião e foi andando em direção ao fundo,
observando com espanto a cara das pessoas, que pareciam tristes. Já tinha
passado da metade do avião quando um homem chamou sua atenção. Era alto e usava
um chapéu marrom com um terno muito bem cortado na cor cáqui. O homem olhou
para ela diretamente e Lita, olhando aquele bigode, a barba bem cuidada, sentiu
um aperto no peito.
“Poderia nos dar licença?” perguntou uma voz
de mulher atrás de Lita.
Lita se virou para dar passagem a mulher,
que levava uma menininha de uns 3 anos pela mão e percebeu logo quem eram: nada
mais que seu pai, sua mãe e... ela, quando tinha apenas três anos. Enquanto a
mulher sentava com a filha, Lita ficou parada, um turbilhão de pensamentos em
sua mente. Ela não se lembrava desse dia, mas algo lhe dizia que fora o dia em
que seus pais morreram.
Lita milagrosamente sobrevivera ao acidente
de avião em que todos os outros passageiros morreram. O avião tinha tido uma
pane numa das turbinas e caíra a três quilômetros da ilha onde Lita fora
encontrada. OP surpreendente é que só ela chegara até a ilha, visto que houve
tantas explosões que quando o avião se chocou com o mar, todos os passageiros e
tripulantes provavelmente já estavam mortos.
Ela queria avisar a todos sobre o que ia
acontecer, mas algo dentro de si dizia que nada poderia mudar o passado. Isso a
bloqueava de tal forma que não conseguia abrir a boca. De repente, um ruído
surdo foi ouvido e o avião tremeu, causando o pânico nas pessoas. Em segundos
aconteceu a primeira explosão. Os pais de Lita foram jogados no chão, e a
menininha se agarrou no assento com todas as suas forças. Na segunda explosão,
o avião ficou em chamas. A pequena Lita gritava de terror, mas seu pai tinha
ficado preso nos destroços de um banco e sua mãe tentava ajudá-lo. Outra
explosão e o avião se tornou o próprio inferno; uma labareda tremeluzia tão
perto da pequena Lita que seus cabelos castanhos chamuscavam. Enquanto isso
Lita não conseguia nem se mexer, sendo obrigada a assistir àquele pandemônio.
Contudo, quando o fogo pareceu engolir a pequena Lita, o símbolo de Júpiter
brilhou em sua testa e a envolveu com uma luz verde, transportando-a por mágica
para a ilha onde fôra encontrada. Então pareceu que o avião ficou livre para
explodir de vez e Lita viu com seus próprios olhos seus pais sendo consumidos
pelas chamas. Eles gritavam de dor e sofrimento e Lita chorava imóvel. Ela não
agüentava ver essa cena, que parecia sempre se repetir ante seus olhos. Metade
do rosto de sua linda mãe estava tão queimado que partes brancas do osso já
apareciam. Lita queria se libertar disso, mas não conseguia nem falar. Ela
então juntou suas forças e todo a saudade que sentia de seus pais estourou
dentro de si, fazendo-a gritar de angústia, dizendo que não merecia ver tal
cena sofrível. Tudo então começou a ficar turvo e Lita, ao firmar novamente a
vista, viu-se numa ilha deserta, enquanto uma bola de fogo caía no mar. À sua
frente, a pequena Lita chorava assustada e brilhava num tom verde. Lita a
abraçou e sentiu aquele brilho quente da menina entrar em seu coração; tinha
encontrado a sua magia.
Disse então as palavras ensinadas e o corte
no braço de Rey foi se fechando até parecer que nada tinha ocorrido ali. Lita
abraçou Rey, “Obrigada por confiar em mim, Rey. Mas por que temos que ver
coisas tão horríveis?”
“Para nos acostumarmos com o que vem pela
frente...” respondeu Rey lentamente.
Hotaru estava indo para seu curso de pintura
quando viu Setsuna sentada na mesa de uma lanchonete. Ela virou-se toda
contente e foi em direção à amiga.
“Oi!” falou Hotaru.
“Olá, querida, sente-se.” respondeu Setsuna.
“Novidades?”
“Algumas.”
“Conte-me então.”
“Bem,
depois de terem recuperado seus poderes, as Inner Senshi e Tuxedo Mask foram
para outra dimensão.”
“Sabe qual?”
“Não. Elas não usaram um portal comum do
tempo e espaço. Foi algo... sobrenatural... Senti isso pela interferência que houve
na Porta do Tempo. Ficou inutilizável até elas chegarem em seu destino
misterioso.”
“Acha que elas sabem para onde foram?”
“Sinceramente?”
“Sim.”
“Acho que foram sem saber. Até onde eu sei,
elas não poderia usar esse tipo de mágica.”
As duas ficaram em silêncio, preocupadas.
Hotaru pediu um suco e Setsuna outro capuccino.
“Sabe...” começou uma perspicaz Hotaru,
“Acho que Sailor Mercúrio deve ter clonado esse portal sobrenatural de algum
feiticeiro que perseguiam...”
“Só pode ser Titã, não acha?” Setsuna
perguntou inquieta.
“Sim. Isso me deixa apavorada, sabe? Ele
definitivamente não é flor que se cheire. Eu pesquisei sobre a história dele e
de seu pai, Titan na época do Milênio de Prata e não gostei nada do que
descobri.”
“Eu posso lhe assegurar que todos os dados
são reais. Eu era muito amiga de Cibele... ela sofreu tanto...”
“Setsuna,” disse Hotaru iniciando uma
pergunta, “Você acha que a maldição que Titan lançou sobre Cibele pode ter a
ver com meus... ataques?”
“Bem,” respondeu Setsuna, “Eu sei que ele
determinou que Cibele morresse se tivesse outro filho mas... Não tenho certeza
se ele lançou algum feitiço sobre esse filho... Porém acho que é bem provável.”
“Ontem eu achei que ia ter um ataque. Estava
quase ligando para você, mas todos os sintomas cessaram antes que eu pudesse te
chamar.”
“Fique tranqüila que em breve eu descobrirei
um jeito de fazer com que isso pare.”
“Assim espero. Mas o fato das meninas terem
ido para um mundo desconhecido com poderes tão fracos está me deixando ainda
mais preocupada. Não há nada que possamos fazer, Setsuna?”
“Não, Hotaru. Não agora, pelo menos.”
“Bem, tenho que ir. Já estou atrasada para
minha aula de pintura.”
“Falando em pintura, ouvi falar que Michiru
irá fazer uma exposição no prédio da sua escola de artes, é verdade?”
“Infelizmente. E eu fui a escolhida para dar
as ‘boas-vindas’ à exposição em nome da escola.” disse Hotaru com cara de
tédio.
“Quer que eu vá? Michiru pode tentar algo
contra você, não?”
“Eu acho que ela não vai se expor na frente
de tanta gente.”
“Você quem sabe. Qualquer coisa me liga,
certo?”
“Certo,” disse Hotaru se levantando e
pegando sua carteira, “Aqui está o dinheiro do suco.”
“Imagine,” respondeu Setsuna com um sorriso,
“É por minha conta.”
“Obrigada, até mais!”
“Até, Hotaru!”
Setsuna ficou observando Hotaru se afastar.
Não estava certa de que Michiru não tentaria nada contra ela. Nas últimas
semanas Urano e Netuno tinham estado quietas demais, não chegando a ameaçar
Hotaru uma só vez. “Quando a esmola é demais, até o santo desconfia...” pensou
Setsuna.
Ami se aproximou de Mina. “Acho que ainda
não estou pronta...” sussurrou.
“Por que diz isso?”
“Sei lá, Mina, acho que não vou
conseguir...”
Mina virou-se abruptamente e chamou Finna.
“Será que podemos deixar Ami por último?” perguntou.
“Se assim desejarem...” respondeu calmamente
Finna, “Darien,” chamou, “Serena e você serão os próximos, certo?”
Finna deixou o meio da sala livre ao ver o casal
assentir. Serena tremia um pouco, pois estava receosa em fazer o corte, mas se
amparava em Darien. Pararam no meio da sala e ficaram frente a frente. Darien
se curvou um pouco e beijou Serena. Ela então soube que ele daria a vida por
ela e um reflexo vermelho rebateu de sua adaga de diamantes.
Darien cerrou os olhos e mergulhou em um
emaranhado de imagens do passado. Para todos os lados que olhava, via Serena,
em suas mais diversas expressões. Lembrou-se de suas brigas e de todas as vezes
que seu amor superou as barreiras do imaginável. Uma tristeza foi tomando conta
de seu coração lentamente, como uma traça roendo um livro ao longo dos anos.
Ela não era por causa de Serena, mas sim porque Darien percebera que todas as
suas lembranças eram de Serena e, que sem ela, nada em sua vida tivera sentido.
Não que não gostasse disso, mas notar que seu ser existe apenas em decorrência
de um outro é difícil de aceitar. Pensando nessas coisas, ele lembrou do
trágico acidente em que seus pais morreram e em que perdera sua memória... Era
isso... Ele tinha existido plenamente um dia, mas seu destino era proteger e
amar Serena sem nada mais para atrapalhar... Por isso seus pais morreram...
Para que seu destino fosse cumprido, já que eles estariam viajando para os Estados
Unidos uma semana depois do dia do acidente. Um gemido de Serena fez com que
despertasse, e pensou então que de nada adianta brigar contra o destino. E se
assim era, deveria encontrar sua magia perdida, para o bem de sua amada e de
sua linda filhinha. Era por elas que tinha que viver agora. Ele então viu um
botão de rosa em sua frente e, ao tocá-lo, libertou seu poder, curando Serena.
Darien se sentiu aliviado ao ver o
desabrochar de um sorriso em Serena. Então teve uma tontura, sendo amparado por
ela, que olhava calidamente para ele. Darien pensou que viver em prol da
felicidade de alguém tão doce e meiga não era nada mal.
Ami foi então para o centro, acompanhada por
Mina, que percebia algo estranho em Ami, pois esta tremia. Mina nunca havia
visto Ami tremer.”O que foi?” perguntou.
“Nada,” disse orgulhosa. “Vamos começar de
uma vez.”
Mina então fez o corte, muito fria e
controlada, e a amiga se posicionou, fechando os olhos em seguida. Ami estava
concentrada, mas nada acontecia. Sua consciência ficava gritando para ela “Não
vai dar certo! Deixe de bobagens!” e isso deixava Ami preocupada. A verdade é
que ela sempre fora sensata e racional, e não estava preparada para entrar no
mundo da magia. Acreditava que nem possuía mágica alguma. Isso tudo dificultava
as coisas para ela, que a cada instante ficava mais nervosa.
“O que foi, Ami?” indagou Mina com um
gemido.
Ami abriu os olhos. “Eu não tenho magia,”
falou chocando a todos, suas mãos tremiam, “e não acredito que possa fazer nada
de mágico. Tudo no mundo tem uma explicação e, como o que acontece aqui não
tem, significa que não existe. Preciso ocupar meu tempo com coisas reais.”
Então subiu correndo as escadas, deixando seis pessoas perplexas para trás.
Mina e Lita saíram correndo atrás de Ami, e Serena pediu que Rey ficasse com
Darien, que ainda estava fraco, para que ela pudesse convencer Ami a voltar.
Finna então decidiu subir e ir procurando algum feitiço para trazerem os gatos
e algumas roupas para Eros.
“Ami! Onde você está?”
“Volte aqui! Vamos conversar!” Mina e Lita
gritavam.
“Acharam ela?” perguntou Serena, vinda dos
quartos. Obteve uma negativa.
Foram então checar a cozinha e a sala de
jantar, mas nenhum sinal de Ami fora encontrado.
“Ela pode ter saído.” supôs Lita.
“Vamos dar uma volta pela vizinhança? Ela
pode ter saído para arejar as idéias.” propôs Serena, e todas as três deixaram
a casa, preocupadas com o desaparecimento de Ami.
Rey e Darien estavam sentados no sofá perto
da lareira. Vez em quando ela ouvia um gemido.
“Você está bem, Darien?”
“Um pouco exausto... Mas logo estarei
bem...”
“Sabe...” começou Rey.
“O quê?”
“Eu acho que te devo desculpas...”
“Imagine. Acho que você deve parar de se
culpar, afinal, as meninas já te perdoaram.”
“Mas eu não me perdoei. Nunca vou me perdoar
por ter feito aquilo.”
“Rey, você têm que superar isso. Não se
martirize.”
“Como eu posso ter feito aquilo com a
Serena? Eu a amo tanto, a admiro, a protejo... e a traio...”
“Eu já disse que ela te perdoou, Rey...” disse
Darien com ternura.
“Mas eu não posso me perdoar,” gritou Rey,
lágrimas nos olhos, “Não posso! Não posso porque eu... eu ainda te amo!” e
subiu correndo as escadas, deixando Darien perplexo, sentado no sofá, pensando
em que fim isso teria.
Logo as meninas voltaram, pois não acharam
Ami por perto e não achavam que ela teria ido muito longe num mundo tão
estranho. Rey estava sentada na mesa da cozinha quando chegaram.
“Rey, por que você não está com o Darien?”
perguntou Serena, intrigada.
“Ele já está bem, não se preocupe. E a Ami?”
disse mudando de assunto.
As meninas contaram que não tinham achado a
amiga. Todas sentaram e ficaram pensativas, sem saber direito o que fazer.
Finna saiu de seu quarto e foi ao encontro delas.
“Que tal fazermos o almoço?” sugeriu Finna.
Como resposta obteve quatro olhares raivosos
de “como pode pensar em comida com Ami desaparecida!”. Finna suspirou
profundamente e sentenciou, “Já olharam por toda a casa?”
Um “sim” uníssono ressoou.
“Inclusive no sótão?”
Todas
olharam para Finna, percebendo a falha em suas buscas. Logo as escadarias do
sótão tremiam com a manada de garotas subindo. Era visível: sentada, com os
joelhos encolhidos e os olhos inchados de chorar, Ami estava lá.
“O que aconteceu?” perguntaram todas.
Ami levantou os olhos se sentindo
envergonhada e por um momento não soube o que dizer.
“Ami...” aproximou-se Rey, “pode se abrir
conosco... Somos suas amigas e só queremos o se bem. Não vamos lhe julgar.”
As meninas sentaram-se perto de Ami e Serena
abraçou a amiga, “Estava com medo que você tivesse ido embora para sempre,”
disse a amiga.
“Bem,” começou Ami, enxugando as lágrimas,
“O problema é que eu acho que não vou conseguir encontrar minha magia, pois
realmente não acredito que exista tal coisa dentro de mim. Sabem, minha mãe e
meu pai eram felizes no início... Acho que os dois se completavam: mamãe era
ponderada e racional e papai um sentimental que se deixava levar pelo momento e
vivia as emoções com toda a intensidade possível. Mas com a convivência, a
rotina, muitas desavenças foram se colocando entre eles e minha mãe o expulsou
de sua casa e de nossas vidas. Papai saiu, e nunca mais escreveu nem telefonou,
só me manda uma ou outra pintura no meu aniversário. Por tudo isso, eu cresci somente
com a racionalidade de mamãe, e da emotividade e entrega de papai pouco restou
em mim. Tornei-me então essa mulher fria que busca explicações para tudo...
Aceitei nossos poderes de Sailor falando para mim mesma que aquela energia
poderosa era uma parte de nós, herdada de nossos antepassados do Milênio de
Prata. Contudo, em relação à magia, à revelação que podemos fazer essas coisas
sobrenaturais, sem explicação nenhuma, bem...” suspirou profundamente, “Não
consigo aceitar.”
“Ami,” falou Lita, “para você encontrar sua
magia, você tem que acreditar que ela existe!”
Ami desviou o olhar, ouvindo de longe os
incentivos das amigas. Não, ela não tinha mágica. Não adiantava insistirem.
Pensamentos desse tipo rodopiaram em sua cabeça como num vendaval até que Finna
irrompeu das escadas. Ela foi até o centro da sala e abriu um livro com páginas
em branco.
“Eu não queria ter que fazer isso, pois tudo
é bem mais fácil quando não pedimos provas de tudo. Mas já que não há outro
jeito...” Todas olharam para Finna, que recitou, “Imago praevius, redus noster
praesentia. Necessarius testimonium veritas.” (Imagens anteriores, retornem a
nossa presença. Necessária a prova da verdade.)
Do livro então emanou uma luz brilhante e
ele projetou uma holografia no meio da sala. Viam um quarto com um berço muito
rico no centro. Dentro do berço, estava um bebezinho muito meigo e enroladinho.
Era uma menina, Ami, para ser mais preciso e brincava com uma chupeta. Tinha
mais ou menos 10 meses e um sorriso lindo. Entretanto, a chupeta caiu de suas
mãos e passou pelo vão do berço. Ami chorou, mas a babá tinha ido fazer sua
mamadeira e não escutara o choro da cozinha. Ami estendeu o braço para tentar
pegar a chupeta, mas seus dedinhos não a alcançavam. Foi ficando mais e mais
impaciente, até que, num rompante de irritação, ficou com o corpo todo tenso e
contraído e a chupeta veio flutuando do chão até sua mão, dentro do berço.
A holografia se dissipou e, sob olhares
atônitos, Finna disse, “Como vocês viram, essa foi uma manifestação da magia de
Ami. É bem natural as pessoas que tem poderes terem essas manifestações até 1
ano de idade. Normalmente eles despertam e depois voltam a se esconder mas,
quando isso não ocorre, as crianças crescem com essas manifestações e por
muitas vezes são achadas de loucas, possuídas, etc.”
“Então eu realmente tenho uma magia...”
murmurou Ami.
Desceram em seguida para o porão e
encontraram Darien no mesmo sofá que estava quando o deixaram lá, na mesma
posição. Ele brincava delicadamente com a ponta de sua adaga.
“O que foi?” perguntou gentilmente Serena,
passando as costas de sua mão na face de Darien.
“Nada,” respondeu rapidamente, “Acharam a
Ami?”
“Estou aqui,” falou ela.
Todos foram então para o meio da sala, mas Serena
ficou sentada pensando, “Estranho...”
“Vai ficar aí?” perguntou Lita.
A loira então se levantou e colocou-se ao
lado de Darien, passando suas mãos entre a cintura do rapaz e aconchegando a
cabeça em seu ombro.
Mina estava um pouco nervosa, mas se
controlou o suficiente para fazer o corte com precisão cirúrgica. Ami então
colocou suas mãos sobre ele e fechou os olhos. Logo ela descobriu que o que
estava bloqueando sua concentração era apenas sua mente racional, que precisava
de uma prova de que havia magia dentro dela. Portanto, Ami quase imediatamente
mergulhou em seus pensamentos e lembranças.
No começo, tudo estava escuro demais, e ela
se sentia flutuando em águas calmas. Lentamente, sua visão foi se acostumando
com a escuridão e, projetado no lugar onde estaria o céu, viu imagens de todos
os momentos que experimentara drogas. Ver-se daquele jeito era algo deprimente
para Ami, tão correta. Ela sentia como se fosse uma fraca, uma idiota, que
brincara com fogo e por pouco não se queimara. Ela ficava fora de si, gritava,
falava bobagens. Isso foi apertando o coração de Ami e ela foi se sentindo
pesada, afundando cada vez mais na água; quando se deu conta, sua cabeça estava
quase toda submersa. Tentou emergir, mas não conseguiu, vendo-se cada vez em
lugares mais fundos. Seu ar estava acabando rapidamente, mesmo com o grande
fôlego de nadadora que tinha. Resolveu nadar a favor da corrente, já que algo
muito forte a puxava naquela direção. Seus esforços foram válidos, já que,
quando não havia mais ar nenhum em seus pulmões, achou uma gigante bolha de ar.
Rapidamente colocou sua cabeça dentro da bolha e inspirou profundamente. Para
sua surpresa, o que preencheu seus pulmões e em seguida seu corpo todo, foi uma
grande força, sua magia. Ami falou calmamente as palavras ensinadas por Finna e
o corte de Mina cicatrizou.
Ami abriu os olhos, ofegante, e sentou-se
logo para não desmaiar. Seus olhos tinham lágrimas, ainda causadas pelas
lembranças de todas as burradas que tinha feito. Mas agora tudo tivera fim.
Encontrara novamente sua força, encontrara suas amigas.
Finna deu um suspiro, “Finalmente acabou.
Bem-vindos ao mundo da mágica.”
“O que faremos agora?” perguntou Mina.
“Que tal um descanso? Acho que vocês ficaram
muito exaustas hoje, não? Por que não se arrumam e vão conhecer a vida noturna
da cidade?” propôs a bruxa.
“Eu gosto da idéia...” disse Lita com um
sorriso maroto.
“Vamos começar a nos arrumar, meninas?”
animou Rey.
Todos começaram a subir as escadas quando
Finna gritou, “Esperem!”
Viraram-se.
“O que foi?” perguntou Serena assustada.
“Bem, vocês falaram que tinham que trazer
roupas e dois gatos da Terra, não? Vamos trazê-los antes de vocês se
arrumarem?” propôs Finna.
“É que..” começou Mina, “Sabe, Finna, acho
que, como vamos sair, é melhor deixarmos para trazer eles amanhã... Acho que
não vamos querer a Lua e o Artemis aqui pegando no nosso pé... E ainda teríamos
que explicar tudo pra eles, ia demorar um tempão...”
“Mina,” interrompeu Finna, “Pode deixar que
eu já entendi a mensagem. Vão e se divirtam essa noite. Pode ser a última de
diversão.”
Saíram, Serena e Darien foram para seu
quarto e as meninas se dividiram em duplas para usarem os dois outros
banheiros. No quarto, Serena sentou Darien na cama e, olhando nos olhos dele
perguntou, “O que aconteceu? Desde que voltamos para o porão com Ami você está
estranho.”
“Nada,” disse, atônito, “É só sua
imaginação.”
“Darien, você não acha que eu já te conheço
demais para você tentar me enganar?”
Ele ficou pensando por um momento. Como
poderia falar para Serena o que Rey lhe dissera a pouco? Seria cruel. Agora que
elas tinham voltado a se entender, ele não podia destruir tudo. Ademais, nada
de importante tinha acontecido.
“É que eu fiquei pensando em nossa filha...
Como ela estará agora? E se estiver sofrendo? Gostaria de trocar de lugar com
ela se fosse possível.”
Os olhos de Serena se enterneceram e ela
abraçou Darien. “Então era isso... Eu também me sinto como você, mas decidi que
temos que ser fortes e aprendermos o máximo possível para podermos ajudar
Hikari. Temos que fazer isso por ela.”
“Serena...” começou a dizer e foi calado por
um beijo.
Por volta das sete da noite, todos já
estavam prontos, mas passavam por um conflito.
“Não dá! Assim não dá! Como posso sair com
essa cara lavada?” gritava Rey.
“E eu com essa roupa chinfrim? Vou parecer
uma mendiga!” emendava Lita.
“Isso não é a aparência ideal para sair a
noite...” dizia Ami mais amena.
“Quem me vê assim nem pensa que um dia fui uma
estrela...” murmurava Mina de cara amarrada.
“Calma, meninas,” tentava apaziguar Serena.
Ela não estava lá essas coisas, mas... quem se importa? Ela já era casada
mesmo!
Finna apareceu perguntando o que estava
acontecendo na sua sala e rapidamente ficou sabendo do problema. Ela falou que
tinha se oferecido para trazer as roupas e os gatos, elas que não quiseram. E
não ia fazer duas mágicas iguais só por capricho das moçoilas.
Todas amarraram a cara para Finna e
sentaram-se no sofá. Serena olhou para a bruxa com cara de clemência.
“Bem, acho que posso dar um jeito...”
murmurou Finna.
As meninas se levantaram num pulo, já
agradecendo de antemão. Finna se concentrou, escolhendo as palavras certas e
finalmente disse, “Pulchritudo, velius turpis, deludo visum! (Beleza, esconda o
feio, engane a vista!)
Uma luz envolveu a todos, inclusive Darien e
Serena, e quando se dissipou todos estavam vestidos adequadamente para sair, as
meninas bem maquiadas e penteadas.
“Então você pode criar roupas?” perguntou
Mina.
“Não posso criar nada. Vocês ainda estão com
a mesma roupa, só que as pessoas agora enxergam vocês de modo diferente. Criei
uma ilusão em volta de vocês,” respondeu Finna.
Eles se encaminharam para a porta. Antes de
saírem, Finna disse, “Esperem... Queria dizer só para... bem, prestem atenção,
certo? Não que alguém vá fazer mal a vocês de graça, mas alguns seres que
residem aqui tem um modo... diferente de enxergar o certo e o errado...”
Então todos saíram, levando em suas mentes o
aviso de Finna.
Estava simplesmente lotado. A escola de
artes onde Hotaru estudava já estava abarrotada de gente e mesmo assim Hotaru
ainda ajustava alguns quadros e esculturas que tinham sido enviados de última
hora. Os visitantes já estavam olhando as obras de arte e já se ouvia
comentários de que alguns quadros já estavam sendo disputados a tapa pelos
compradores. Hotaru não estava nada feliz com seu trabalho naquela noite, mas
não tivera como escapar. Felizmente, Michiru e Haruka só chegariam quando tudo
estivesse pronto e, portanto, teriam menos tempo para importunar, se é que o
fariam. Hotaru era bastante eficiente, de modo que em poucos minutos tudo
estava pronto. “São lindos...” pensou a garota, que ainda tinha Michiru como
ídolo nas artes.
Quando a artista chegou, foi um burburinho.
Todos queriam cumprimentá-la, reservar quadros, o diabo, mas Michiru dizia que
esperassem a abertura da exposição. Ela subiu num palquinho preparado para
ela Haruka ficou perto, encostada na
parede. Hotaru subiu em seguida, dando um oi seco a Michiru.
“Essas não foram as boas maneiras que eu te
ensinei, Hotaru,” começou Michiru, “me dê um abraço...” e ela mesma abraçou
Hotaru, visivelmente indisposta a fazer isso. Logo se soltou e decidiu cumprir
logo seu papel.
“Senhoras e senhores,” disse ao microfone,
“a Escola de Artes Infinity hoje apresenta uma exposição de alto nível. Teremos
a chance de nos deliciarmos com as pinturas e esculturas tão belas e profundas
de uma grande artista do mundo atual, Michiru Kaiou.” E saiu, dando lugar a
Michiru, que assumiu sob muitos aplausos.
“Obrigada,” dizia ela, até que as palmas
cessaram, “Bem, estou muito agradecida com a presença de todos vocês e espero
sinceramente que minhas obras agradem o sofisticado gosto dos aqui presentes.
Saibam que cada um delas tem um pouco do meu espírito, da minha vida, e foram
feitas com muito cuidado e dedicação.” E desceu do palco ovacionada, recebendo
muitos cumprimentos.
“Felizmente ela vai estar muito ocupada essa
noite...” disse Hotaru para si mesma.
Quando chegaram na rua principal, Mina
atentou para um coisa, “Deveríamos ter perguntado a Finna onde poderíamos
dançar e nos divertir. Agora vamos ter que ficar zanzando até encontrar...”
“Talvez não,” começou Ami, “Podemos pedir
informações para alguém.”
“Mas não conhecemos ninguém aqui...” disse
Rey.
Andaram mais um pouco em silêncio e Lita
começou a gritar, “Claro que conhecemos! Conhecemos o carinha do Crown!”
“Conhecemos uma ova, Lita,” interrompeu
Serena, “Não perguntamos nem o nome dele e saímos correndo.”
“E daí? Mas ele sabe que somos novos por
aqui, não?” falou Lita e saiu andando em direção ao fliperama.
Ela entrou e passou por dois rapazes que
jogavam corrida de carros; eram os únicos que estavam lá. Foi até o balcão e o
tal rapaz estava lá. “Oi,” Lita disse.
“Oi, sua amiga não quis vir hoje?” ele
perguntou.
“A Ami? Ela está lá fora. Como sabe que sou
amiga dela? Leu minha mente?”
“Não,” disse com um sorriso, “Só que quando
ela saiu daqui toda assustada foi conversar com você lá fora. Você e mais um
monte de gente. Qual é seu nome?”
“Por que não lê minha mente?” perguntou Lita
olhando nos olhos dele.
“Porque você é tão linda que não consigo me
concentrar o suficiente para ler seus pensamentos.”
“Ha, ha, ha. Essa me matou de rir,” disse ela com
sarcasmo, “Fala sério... Qual seu nome?”
“Perguntei primeiro.”
“Me chamo Lita. Lita Kino.”
“E eu sou Bond. James Bond,” brincou ele. Como via que Lita não ria,
completou, “Brincadeirinha. Meu nome é Kayama Umino. Pode me chamar por
Kayama.”
“Bem melhor assim.”
“Agora, sobre ler sua mente, o que disse não
foi brincadeira. A razão não é aquela, óbvio, só que há algumas mentes que são
‘fechadas’ para esse tipo de poder. Poucas, mas existem.”
“A minha é uma delas, então?” perguntou Lita
e obteve confirmação, “Bem, vou direto ao assunto então. É que eu e os meus
amigos somos novos por aqui e queríamos ir a um lugar para dançar e nos
divertir. Pode nos indicar algum?”
“Se não houvesse mais clientes eu até
fecharia mais cedo para te levar pessoalmente, mas...” deu um olhar rancoroso
para os dois rapazes que estavam no jogo de corrida, “mas como não posso, o
lugar mais adequado para irem é o Dragon Magic. É a boate do momento. Muita
gente, boa música e drinks refrescantes.”
“Você foi muito gentil. Espero que a gente
se encontre mais vezes. Como chegamos lá?”
“É só seguirem mais dois quarteirões em
frente e então virarem a esquerda. Vão ver logo onde é. Sabe, muita luz, muita
gente...”
“Claro. Muito obrigada pela informação.”
“É só aparecer, Kino.”
“Lita. Me chame de Lita.”
“É só aparecer, Lita.”
Ela então saiu e se encontrou com os
outros. “Dragon Magic,” disse, “sigam-me rápido que acho que o lugar é demais!”
Todos se animaram e pegaram o caminho
indicado por Lita.
Hotaru já estava cansada de ficar lá, vendo
Michiru rodeada de gente e tendo que sorrir para todos que olhavam. Ela teria
que ficar até a última pessoa ir embora, mas já estava de saco cheio. Resolveu
lavar o rosto no banheiro interno da escola, onde certamente não haveria
ninguém. Ela molhou a nuca e respirou profundamente quando alguém entrou pela
porta.
“Michiru...? O que faz aqui?” perguntou.
“Nada, vim no banheiro também. Os outros
estão muito cheios e eu estou um pouco cansada.”
As duas entraram nas cabines e o banheiro
ficou deserto de novo. Hotaru saiu primeiro e, após lavar as mãos, estava quase
saindo quando um vulto pulou entre ela e a porta.
“Sailor Netuno...?” assustou-se Hotaru, “O
que quer aqui?” e deu um passo para trás.
“Ah, Hotaru, querida...” disse Netuno com
uma voz cortante, “Eu não te ensinei nada mesmo... Vai dizer que você não
sabe...”
Hotaru virou-se, para tentar entrar numa
cabine, mas Sailor Urano saiu de uma delas e a encurralou.
“Como, vai? Pronta para o fim?” perguntou
Urano.
“Por que fazem isso? Na lhes fiz nenhum
mal!” falou Hotaru.
“Não...” começou Netuno, “Ainda.”
“Sabemos que você está possuída de novo Hotaru!
E não deixaremos que você continue arriscando a vida da Terra!” declarou Urano.
“Não descobrimos que ser que está em seu
corpo agora, mas sabemos que, aos poucos, ele está despertando. Ele vai tomar
conta de seu corpo uma hora, Hotaru. E vai fazer muito mal a Terra. Eu sinto,”
continuou Netuno.
“Por isso é melhor te matarmos antes que
isso aconteça! World..........” Urano iniciou seu golpe.
“Deep......” Netuno fez o mesmo.
Hotaru estava perdida. Encontrava-se
exatamente entre Urano e Netuno e dois poderosos golpes convergiam para ela.
Era seu fim.
“........Shaking!!!”
“........Submerge!!!”
Hotaru viu duas bolas de energia vindo em
sua direção quando tudo foi coberto por uma luz roxa brilhante. Quando a luz se
dissipou, Hotaru havia desaparecido e Urano levou o golpe de Netuno e
vice-versa.
“Diabos...!” gritou Urano, ferida.
“Aquela maldita!” completou Netuno,
segurando seu braço, que sangrava e doía.
Hotaru viu a luz roxa desaparecer, mas não
estava mais no banheiro e sim no meio de um quarto. Ela olhou em volta e viu
Plutão segurando o Garnet Orb, que ainda resplandescia.
“Plutão!” falou Hotaru e abraçou-a.
“Hotaru...” disse Sailor Plutão ternamente,
“Eu sabia que elas iriam tentar algo. Estiveram quietas demais.”
“Desculpe,” choramingou Hotaru, “eu deveria
ter confiado no que você disse. Eu fui tão... imprudente!” e explodiu em
lágrimas.
“Acalme-se, querida...” aconselhou Plutão.
Chegaram ao local indicado por Kayama em
pouco tempo. Darien se encarregou de pagar as entradas com os últimos ienes que
lhe restaram no bolso. Apesar da moeda ser a mesma, os cartões de crédito e
cheques da Terra não eram aceitos.
A boate era realmente movimentada. Havia os
mais diferentes tipos de pessoas: jovens estudantes, homens de terno e gravata,
mulheres elegantes tomando drinks no bar, toneladas de pessoas nas pistas de
dança. Mina logo arrastou Lita para dançar. Fazia um bom tempo que não ia
dançar em boates, pois ficara impossível devido a sua fama. Ela estava tão
radiante que sua energia envolveu até Ami, que acompanhou as duas. Darien e
Serena sentaram no bar e pediram bebidas. Rey sentou ao lado de Serena, mas ficou deslocada entre o casal, de modo que
apenas começou a escutar a conversa dos dois.
“Queria que essa noite nunca acabasse...”
murmurou Serena.
“Por quê?” Replicou Darien.
“Não queria ter que enfrentar a realidade,
ter que pensar que talvez nossa filha nunca mais seja a mesma...”
“Não pense assim, querida. Nós a
salvaremos.”
“Nada pode garantir isso. Mesmo que nos
esforçarmos e aprendermos tudo que Finna nos ensinar, podemos não vencer Titã.
Ele é muito poderoso. O mais forte de todos os inimigos que já enfrentamos.”
“Não seja derrotista. Você sabe que os
deuses estão ao nosso lado. Sabe que a sorte sempre acompanha os que fazem o
bem.”
“Sei...” retrucou com ironia. Darien
encostou a cabeça de Serena em seu ombro e cochichou algo em seu ouvido,
fazendo a loira sorrir. Rey mordeu os lábios para conter uma inveja que
queimava seu coração.
As três meninas estavam embaladas com a
música da pista. Mina e Lita naturalmente descontraídas e Ami as acompanhava,
deixando com que seu corpo fosse envolvido pelo ritmo e tirando as preocupações
de sua mente. Quando conseguiu prestar mais atenção a sua volta viu que Lita já
estava dançando com um belo rapaz, que provavelmente deveria fazê-la lembrar do
rapaz que partira seu coração. Antes de seus olhos encontrarem Mina, Ami levou
um susto com duas mãos que pousaram sobre seus ombros.
“Problemas... uma grande amizade...
solidão...” sussurrou o dono das mão ao seu ouvido.
Ao se virar, os olhos azuis de Ami depararam
com os lindos olhos verdes de um rapaz.
“Outro leitor de mentes?” perguntou com
desdém.
“Não,” começou o rapaz, deixando sua boca
bem próxima do ouvido de Ami, “eu apenas vejo as auras das pessoas e entendo o
que elas sentem...”
“E que te deu permissão para conhecer meus
sentimentos?” disse Ami com mais ternura na voz. Os olhos verdes estavam
penetrando sua alma e derretendo seu coração duro.
“Os deuses. Senão não teriam me dado esse
dom.”
“Boa saída,” respondeu Ami com um sorriso.
“O que me dá direito a saber o seu nome,
certo?”
“Se me disser o seu...”
“Yan O’Donkel.”
“Bem diferente, não?”
“Meu pai é americano.”
“Ami Mizuno.”
“Aposto que as ninfas dos rios presentearam
você com sua beleza.”
Ami emudeceu, embaraçada com o elogio. Ele
guiou Ami para outro bar, diferente daquele em que estava Serena.
“Quer beber algo?”
“Quem sabe um uísque.”
Yan se espantou um pouco com o pedido de
Ami, mas logo disse, se dirigindo ao garçom, “Dois uísques, por favor.”
Ami sentia que não controlava seu corpo.
Sentar num bar para tomar uísque com um desconhecido não era uma atitude que
tomaria em são consciência.
“Vem sempre aqui?” perguntou Yan, fazendo
Ami despertar de seus pensamentos.
“Na verdade é a primeira vez.”
“Ah.... Suas amigas vão ficar preocupadas se
não te encontrarem na pista?”
“Não... Elas já devem estar acompanhadas,”
disse, pensando que Mina teria pegado o mesmo caminho que Lita. Ami deu um gole
em sua bebida.
“Mora na cidade?”
“Bem,” Ami pensou um pouco, “sim... moro.”
“Eu também,” falou Yan, sacando um cartão do
bolso com seu nome, telefone, endereço e etc, “Podemos nos ver mais se você
quiser.”
Ami pegou o cartão delicadamente. “Sim...
Pode ser que sim...”
“Vamos dançar?”
“Dançar?” Ami perguntou, tomando o último
gole de uísque, “Sim, vamos dançar.”
E saíram para a pista de dança.
Mina tinha se entretido tanto com a música
que perdera Lita de vista. Ela vira que a amiga estava com um rapaz e que Ami
também tinha se arranjado bem, mas não conseguia conversar com nenhum rapaz.
Não que não tivesse havido oportunidades, pelo contrário, muitos se atraíram
pela beleza de Mina, mas ela não estava com cabeça para nenhum deles. Não
conseguia tirar o homem misterioso de seus pensamentos. Aquele capuz negro, que
cobria-lhe a face, era tão... instigante! Não tinha nem certeza se era
realmente um homem, devido a capa, que lhe cobria todas as formas mas... algo
lhe dizia que ERA um homem com certeza. Talvez fosse um instinto, ou até mesmo
um delírio, o que importava é que aquilo estava a deixando maluca! Ela fechava
os olhos e a imagem do homem misterioso vinha a sua cabeça, sem contar do que
vira quando tentava despertar sua magia. O que significaria aquele vulto
coberto de sangue? Por que veria tal coisa? Mina estava confusa. E curiosa.
Muito curiosa. Como diz o ditado, “A curiosidade matou um gato...”
Rey não estava mais agüentando ficar ao lado
de Serena e Darien e já tinha bebido uma meia dúzia de drinks. Decidiu procurar
as meninas e se levantou bruscamente, o que a fez sentir-se tonta (ou talvez
mais tonta do que já estava por causa do álcool). Foi andando, olhando as
pistas de dança, tentando sentir a presença das garotas, já que não as acharia
no meio daquela multidão. Pé ante pé, foi até o lugar onde estava Mina.
“Oi, Rey!” disse a loira, “Decidiu dançar?”
“Bem, eu não levo muito jeito pra dançar
esse tipo de música... Só estava procurando vocês...”
As duas saíram da pista e se encostaram numa
parede.
“Onde estão as outras?” perguntou Rey.
“Hi, hi, hi...” começou Mina com ar de
gozação, “Elas se arranjaram muito bem sem mim...”
“Você quer dizer que a Lita já arranjou um
carinha?!”
“E a Ami também...”
“E depois se faz de santa!” completou Rey e
as duas riram.
“E a Serena e o Darien?”
“Bem, namorando, você sabe como eles são...
Você não arranjou ninguém?”
“Bem,” Mina pensou por um instante o que
iria dizer. Não queria que soubessem da sua fixação pelo homem misterioso,
“Acho que não estou com cabeça para isso hoje...”
“Acho que eu também não...” murmurou Rey. E
mentiu, “Ainda faz pouco tempo que me separei do Nichola.” A verdade é que seu
coração era só de Darien e não queria nenhum outro.
“Por que vocês se separaram? Fiquei sabendo
que viviam já como marido e mulher, só faltavam as alianças.”
“Bem,” Rey suspirou, “Foi justamente por
isso. Ele me pediu em casamento e eu... não aceitei. Ao me sentia pronta para
casar.”
“Acha que ele pode voltar?”
“Sinceramente, não. Ele ficou muito magoado.
Eu juro que não queria feri-lo, mas...” Rey começou a chorar. Tinha Nichola em
alta conta, mesmo depois de tudo que ele lhe dissera. Realmente não queria ter
machucado tanto seu grande amigo.
Mina abraçou Rey, “Calma, eu acredito que
não queria magoá-lo. É que não tem jeito de recusar um pedido de casamento sem
causar sofrimento. Mas agora já passou, bola pra frente.”
As duas se olharam nos olhos e reconheceram
que partilhavam a alegria e a tristeza, a saúde e a doença. Não poderiam viver
separadas, um elo poderoso as unia, e também unia as outras. Só a morte
quebraria esse elo. Ou talvez nem isso.
Lita estava totalmente envolvida por
Kenkure, o rapaz que conhecera. Ele era lindo, olhos e cabelos cor de mel, um
sorriso estonteante. Ele era engraçado e tinha palavras doces e agradáveis que
a embargavam. Sentia-se mais uma vez apaixonada. Tinha o mesmo olhar de seu
antigo namorado... Lita se lembrou de todos os rapazes com quem tinha estado
nos últimos anos e se sentiu confusa. Estaria realmente amando Kenkure ou
queria apenas mais uma noite de prazer? Uma voz melodiosa chamou-a de volta
para a realidade.
“Lita... Eu não sei como te dizer isso..
Acho que você nem vai acreditar mas...” Era Kenkure falando ao seu ouvido.
“Lita,” ele dizia, “Nunca me senti assim
antes... Eu... acho que me apaixonei por você. Quando meus olhos passaram por
você, no meio da pista de dança, só consegui enxergar você, sua pele, seu cabelo...
Você parecia exalar um odor que me atraía e me dizia que era a mulher pela qual
eu esperei todos esses anos. Eu te amo.”
Ela ficou atônita. Primeiramente, achou que
estava sonhando. Mas olhou para Kenkure e viu que ele parecia falar sério. Ela
se sentia da mesma forma, mas nunca pensou que teria seu sentimento
correspondido com tanta intensidade. “Ken-chan...” murmurou, tendo sua voz
abafada por um beijo. O beijo mais doce e romântico que já recebera em sua
vida. Sentiu suas pernas balançarem, seu corpo amolecer e seu coração disparar.
“Eu também te amo, Kenkure...” sussurrou.
“Eu sei que tudo parece precipitado e
rápido, mas não consigo esconder meus sentimentos, Lita.”
“Eu entendo. Estou tão assustada com isso...
Estou feliz.”
“Você não quer ir no meu carro para
conversarmos melhor? Está aqui no estacionamento.”
“Sim.” Respondeu prontamente, e saíram
andando.
Lita agora estava mais espantada com seu
comportamento do que com as palavras de Kenkure. Estava indo para o carro de um
rapaz que acabara de conhecer! Bem, não era a primeira vez... Sempre acontecia
isso com Lita. Nunca encontrava seu príncipe encantado, todos queriam sempre a
mesma coisa... E ela aceitava. No momento tudo era alegria e deslumbramento,
mas quando se via sozinha de novo tudo parecia podre a sua volta. Sentia-se
enjoada... Mas só no dia seguinte...
Mina estava conversando com Rey quando viu
Lita passar abraçada com o rapaz que estava com ela. Estavam indo para um local
onde não havia nada, e Mina não entendia para onde se dirigiam.
“Rey, olhe lá! É a Lita!”
“Para onde ela vai com ele? Acabou de
conhecê-lo!”
“Não tenho um bom pressentimento disso...”
“Será que ela vai...”
“Não pode ser! Lita não faria isso...”
As duas se entreolharam, vendo que sim, Lita
faria sim o que elas estavam pensando. Decidiram impedi-la, mas, quando
tentaram segui-la, já tinham a perdido de vista.
“Isso não vai acabar bem...” pensou Rey.
“Vamos procurá-la,” sentenciou Mina.
Lita e Kenkure entraram no carro, que estava
num canto da garagem. Era algo parecido com um Omega verde escuro. Kenkure
colocou um CD e uma musica bem mais calma que a da boate começou a tocar.
“Você gosta de blues?” perguntou ele.
“Sim...” sua voz ficou cálida, “E de muitas
outras coisas também.”
“Lita, eu sei que você não deve estar
acreditando no que te falei lá em cima mas... é a pura verdade.”
“Eu acredito,” disse e sentou-se mais de
lado, revelando mais um pouco de suas coxas bem torneadas.
“Você é tão linda...” disse Kenkure
baixinho.
Lita
enterneceu o olhar e encarou o rapaz, aproximando-se dele o mais que pode. Ela
murmurou, “Eu te amo,” e abaixou uma alça de seu vestido.
Kenkure arregalou os olhos enquanto Lita
abaixava a outra alça do vestido. De repente ele saiu do transe.
“O que diabos você está fazendo?” falou,
nervoso.
“Bem,” agora Lita que estava assustada,
“Nós, bem, nós... Eu pensei que nós íamos... Bem, você sabe...”
“Você achou que iríamos transar?” gritou
baixo Kenkure.
“Por quê? Você não quer fazer amor comigo?”
“Lita, não é isso, é que...”
“O que eu tenho de errado? Por que você não
me deseja?” gritou Lita.
“Não fale bobagens! É claro que eu te
desejo, só que você não é qualquer uma para mim! Eu te amo de verdade, não
posso correr o risco de te magoar.”
Lita ficou muda.
“Você não entendeu nada do que eu disse!
Estava falando sério quando me declarei para você. Foi realmente amor à
primeira vista. Por isso não posso fazer amor com você dentro de um carro, num
estacionamento, horas depois de nos conhecermos.”
Lita olhava para baixo. Quando ergueu os
olhos, explodiu em lágrimas.
“Eu sei que fiz tudo errado! Eu sempre faço
tudo errado! É que você falou de virmos para o seu carro e eu pensei...”
“Pensou errado,” disse Ken, com a voz um
pouco menos ríspida, “Só queria conversar para nos conhecermos melhor, sem
aquela barulheira toda.”
“É... eu sempre entendo tudo errado...
estraguei tudo...”
“Calma, também não é assim,” falou Ken, já
com pena de Lita. Não queria vê-la chorando. Ele a amava.
“É assim, sim. Agora acabou tudo para nós.”
“Não, Lita, calma, não se culpe tanto...”
“Eu sou um desastre.”
“Sabe,” Ken disse com carinho, “Você é doce
demais Lita, mas se martiriza muito. Acho que você teve muitos desencontros em
sua vida emocional.”
“É...” murmurou mais calma, “Você está
certo. Acho que na hora que mais precisei de ajuda não tive uma mãe para me
ensinar, um pai para me repreender, um irmão para me proteger e amigos para me
aconselharem. Quando necessitava de compreensão, não encontrei ninguém ao meu
lado...”
“Sabia que uma história triste se escondia
atrás de seus lindos olhos... Não quer me contar mais.”
“Não,” disse abruptamente, “não há mais
clima entre nós.”
“Saiba que nada mudou em meus sentimentos.”
“Mas eu é que não estou pronta...”
“Podemos nos encontrar outro dia? Vou te dar
meu endereço...” e começou a procurar caneta e papel.
“Não se preocupe, Ken. Acho que não devemos
mais nos encontrar. Meu coração não está preparado nem para uma amizade nesse
momento,” disse, embora seu coração quisesse exatamente o contrário, quisesse
se entregar para uma nova paixão. Antes que Kenkure respondesse, Lita saiu
correndo do carro e voltou para a boate.
“Eu ainda te amo Lita... Acho que nunca mais
vou esquecer você...” rumorejou ele para si mesmo.
Mina e Rey encontraram Lita algum tempo
depois, encostada num bar.
“Lita, o que houve?” preocupou-se Rey.
Porém Lita não tinha condição alguma de
falar, de tanto que tinha bebido. Rey ficou com Lita enquanto Mina foi
encontrar Ami, Serena e Darien para irem embora e levarem Lita.
“Eu sou um lixo...” cantarolava Lita, apoiando a cabeça no balcão.
Logo Mina chegou com Darien e Serena,
anunciando que Ami já estava vindo.
“Bem, tenho que ir. Estamos indo embora,” falou
Ami. Ela passara a noite toda dançando com Yan e estava muito feliz.
“Não quer ficar mais? Eu te levo em casa,”
sugeriu ele.
“Não posso. Minha amiga está precisando de
mim. Mas obrigado pelo convite, você é muito gentil.”
“É uma pena. Me concede um pedido, deusa das
águas?”
“Bem,” respondeu Ami, meio sem graça,
“Depende...”
“Posso te dar um beijo?”
Ami refletiu um pouco. “Quem sabe da próxima
vez? Eu ainda vou te procurar.” E saiu andando, brandindo o cartão de visitas
que ele lhe dera no ar.
“Garota difícil, heim, Yan?” disse para si
próprio, “Mas é linda...”
Ami encontrou suas amigas, que davam café
preto e amargo para Lita. Decidiram voltar logo para casa, pois Lita não
parecia melhorar do porre. Darien apoiou Lita em seu ombro e se foram. Sair da
boate foi um desafio, mas andar na rua foi um ainda maior. Lita cambaleava,
falava com as pessoas, se ofendia, um horror. A sorte é que logo saíram da
avenida movimentada. Quando passaram na frente do Game Center, ele já estava
fechado. Darien carregara Lita sozinho o caminho todo e estava simplesmente
exausto. As meninas se ofereceram para carregá-la até a casa de Finna para que
ele pudesse descansar, mas ele não aceitou, disse que ele que era homem e mais
forte tinha que fazer isso. Contudo, mediante muita insistência, ele jogou o
pano e desistiu de resistir. Mina pegou Lita de um lado e Rey do outro; Ami foi
ajudando as duas, a medida que precisavam. Serena e Darien decidiram ficar ali
mais um pouco e curtir a fresca da noite.
Em não muito tempo, as meninas chegaram na
casa de Finna e “descarregaram” Lita no sofá; ela permaneceu imóvel. Finna veio
logo se interar dos fatos e não gostou nada.
“Mas como conseguem ser tão irresponsáveis?!
Tendo que acordar bem e dispostas no dia seguinte, tomam um porre na véspera!
Vocês têm muita mágica para aprender e para isso terão que ter disciplina e
clareza na mente,” berrou ela.
“Finna,” disse Ami com cuidado, “Você não
teria um feitiço para curar a bebedeira de Lita?”
“O quê!?!” a bruxa se revoltou, “Fazem a
burrada e querem curar com feitiço?! Imaginem só! O que eu tenho é banho frio e
café sem açúcar! E tenho dito,” concluiu, voltando aos seus aposentos.
As meninas seguiram o conselho de Finna e
colocaram Lita embaixo do chuveiro gelado. A garota até sentiu choques pelo
corpo, tamanho o gelo da água, mas melhorou consideravelmente. Depois
arranjaram-se nos sofás onde dormiam e colocaram uma garrafa de café na mão de
Lita.
“Agora, conte-nos,” sentenciou Rey, “O que
houve, Lita?”
Darien e Serena andavam de mãos dadas contra
a brisa gélida da noite.
“Apesar de tudo,” começou Serena, “Me
diverti bem essa noite,”
“Eu também... Olhe lá!”
Serena olhou o que Darien apontava e sorriu.
Era uma espécie de bosque, com uma trilha que levava a uma clareira com bancos
e mesinhas (ao menos era o que dizia na placa de informações). Uma clareira
banhada pelo luar... Mediante essa visão tentadora, decidiram entrar.
“Bosque da Branca...” murmurou Serena, “Deve
estar se referindo a Lua...”
“Provavelmente,” concordou Darien, beijando
o pescoço de Serena.
“Eu te amo tanto...” disse Serena no meio de
um beijo apaixonado.
Lita tinha acabado de contar em meio a
lágrimas e soluços o que lhe acontecera naquela noite fatídica. As meninas
olhavam enternecidas para ela, e as gotas que caíam dos olhos de Lita eram como
punhais que se cravavam em seus corações.
“Eu sou tão... horrível, imunda...”
choramingava Lita.
“Não fale assim, pois não é verdade. É
só...” Mina pensou por um instante, “Seu jeito de ser...”
“E que jeito mais sem vergonha,” ciciou Lita
para si mesma, já com um pouco de bom humor. Só a companhia de suas amigas já a
agradava.
“Mas, Lita,” interessou-se Ami, “Por que age
dessa forma se não gosta?”
“Ami, sei lá...” respondeu, “É algo
incontrolável, um instinto...”
“Um fogo ardente, um frio paralisante, um
raio numa tempestade...” secundou Rey.
Todos olharam para Rey, que parecia tão
empolgada na descrição. Riram, inclusive Lita.
“Ai, gente, não olha assim pra mim!”
envergonhou-se.
“Parece que a Rey também andou conhecendo o
esquema ‘prazer por uma noite’...” ironizou Mina.
“Não fale bobagens!” enraiveceu-se Rey, “Em
toda minha vida eu só fui de um homem.”
“Nichola?”
“Sim, ele mesmo. E fiquem sabendo que, mesmo
com algumas brigas, nos dávamos muito bem ‘naquela hora’, viu?” disse com
vaidade.
“Pois fique sabendo que minhas noites também
são ótimas, viu?” resmungou Lita, “O dia seguinte que nem tanto...”
“E vocês já realizaram alguma... fantasia?”
perguntou Ami.
“Ai, quanta curiosidade,” brincou Rey, “Por
que você não conta algumas de suas experiências?”
“Bem,” Ami enrubesceu, “É que... que... eu
não tenho nenhuma...”
“O quê?!” escandalizou-se Mina, “Vai dizer
que ainda é virgem?!”
“Sim...” A voz de Ami era praticamente
inaudível.
“Mas, Ami, com 23 anos vai dizer que ainda
não rolou nada?” perguntou Rey com mais delicadeza.
“Nada.”
“Mas, por quê?” interessou-se Lita,
esquecendo de seus próprios problemas.
“Ah, depois que nos separamos eu mergulhei
nos estudos... Além disso fiquei com uma depressão dos diabos, não tinha ânimo
para nada, não saía... Afastava todos os rapazes que se aproximavam de mim...”
“Pelo jeito isso mudou,” disse Mina, “Pensa
que não vimos o belo rapaz com quem você estava?”
“Er...” Ami ficou mais vermelha, “Mina,
acabamos de nos conhecer...”
“O que não quer dizer nada...” retrucou a
loira.
“Pare de infernizar a Ami, Mina!” irritou-se
Lita, “Por que você não conta as SUAS experiências?”
“Bem,” Mina ficou indecisa por um momento,
mas se recompôs logo, “É porque não foram nada especiais. Não foi uma nem
muitas, algumas, provenientes de alguns rolos, que duravam no máximo uma
semana. Foram tão banais que não há nada a dizer.”
“Mina, não fique triste,” começou Rey, “Você
ainda é jovem, linda, e muitas coisas ainda vão acontecer. E para você também,
Ami.”
“Não sabe o valor que carne fresca tem no
mercado...” falou Lita sem pensar.
“Lita!” todas gritaram, encarando-a com
assombro. E riram.
Darien e Serena realmente acharam no final
da trilha uma clareira com bancos brancos, que ficavam ainda mais pálidos com o
reflexo da Lua. Um vento frio passava por lá, o que fazia Serena se arrepiar e
encostar-se mais em Darien. Às vezes, um farfalhar de folhas era ouvido de
longe. Sentaram-se.
“Não acha esse lugar lindo, Serena?”
“Sim. Mas... acho que há algo estranho por
aqui.”
“Estranho? O quê?”
“ Me sinto observada.”
Darien olhou em volta e garantiu que não
havia nada ali. O farfalhar foi ouvido ao longe.
“Viu? Olhe esse barulho!” exclamou Serena.
“São só as folhas se mexendo com o vento,
querida...”
“Mas então por que não vemos elas se
mexerem?”
Essa pergunta pegou Darien desprevenido. Era
verdade: as folhas não se mexiam com o vento, mas o farfalhar podia ser ouvido
claramente agora. E ele parecia estar se aproximando. Serena encostou suas
costas nas de Darien e eles começaram a girar lentamente, esperando algo
acontecer. Logo o barulho estava ensurdecedor e parecia vir de todos os lados.
Abruptamente, Branca saiu de trás das árvores.
“O que é isso?!” indagou Serena, apavorada.
Darien não respondeu, parecia estar paralisado.
A figura voadora era do tamanho de um ser
humano, mas o manto verde esvoaçante com ricos bordados dourados lhe dava um ar
maioral e fantasmagórico. Tinha a face de uma mulher, mas dezenas de vezes mais
pálida, como se sangue não corresse em suas veias. Seus cabelos brancos de
nascença eras sedosos e batiam em seus ombros, com faíscas de eletricidade
saltando de alguns fios. Não se via seus pés, eram cobertos pelo manto, mas se
fossem vistos revelariam sua triste realidade: da cintura para baixo tinha a
aparência de uma cabra.
Olhando fixamente para Darien, Branca
sorriu.
Ainda conversando, agora sobre a carreira de
Mina, as meninas riam descontraídas. Na mente de Rey começou a se formar uma
imagem e ela se concentrou mais. As feições de Darien foram se revelando e ela
viu os olhos do rapaz ficarem negros. Logo após isso, ele caiu no chão. Rey
levantou-se.
“Meninas, há algo errado com a Serena. Eu
sinto!” disse, sabendo que não deveria demonstrar preocupação exagerada com
Darien ou logo daria a maior bandeira do que sentia.
As outras ficaram sem saber o que fazer.
Ainda podiam confiar nas visões de Rey?
“Precisamos ir atrás da princesa, ela corre
perigo!”
Com a reafirmação de Rey elas decidiram ir
encontrar Serena e Darien. “Já estou indo...” pensou Rey.
Serena virou-se para Darien preocupada, ele
parecia não conseguir se mexer e não respondia às suas perguntas. Branca fez um
movimento brusco com sua mão delicada e pálida e Serena foi se chocar com as
árvores do outro lado da clareira. Branca começou a cantar uma música lenta e
cheia de altos e baixos, melodia envolvente. Serena estava caída no meio das
árvores e sentia um dor terrível na perna, que a impedia de levantar. Branca,
cantando, começou a rodar em volta de Darien, que, lentamente, foi fechando os
olhos, entrando numa espécie de transe. Logo ele dançava com Branca, embalados
na melodia incessante. Repentinamente, ela parou de cantar. Foi se aproximando
de Darien e, com uma mordida feroz, rasgou o punho da camisa dele e mordeu seu
pulso. Sua boca logo ficou cheia do sangue do rapaz, que ela sorvia em largos
goles. Ele foi ficando pálido.
“Darien!” gritou Serena, incapaz de se
levantar.
Ele parecia estar prestes a desfalecer
quando passos foram ouvidos.
“Supreme Thunder!” gritou Sailor Júpiter.
O relâmpago foi até Branca e se chocou
contra ela, mas foi absorvido por seu corpo. Ela soltou o braço de Darien, que
caiu no chão. Sua pele alva da face estava manchada de sangue. Ela mostrou seus
dentes de fera, pontudos, para as Sailor.
“Fire Soul!” gritou Marte, e, felizmente,
seu golpe foi mais bem sucedido que o de Júpiter, fazendo a capa esvoaçante de
Branca crepitar no vermelho-fogo das chamas. Ela soltou um urro de dor e,
lançando um olhar derrotista para o corpo desfalecido de Darien, embrenhou-se
na floresta.
Mercúrio e Vênus chamaram pelas outras duas
Sailor. Elas tinham dado a volta e estavam com Serena.
“O que houve?” perguntou Marte ao ver Serena
caída. Um fio de sangue escorria da boca da amiga e seus braços estavam
arranhados pelos galhos. Mas a perna da loira que estava mal. Inchada e arroxeada,
parecia estar com uma fratura interna.
“Isso não está bom...” murmurou Mercúrio,
olhando para a face pálida de Serena.
Júpiter chegou trazendo Darien nos braços. O
pulso dele estava dilacerado e o sangue não parava de fluir.
“Darien...” murmurou Serena com amargura e
fragilidade. Mercúrio ajudou Júpiter a carregar Darien e Marte e Vênus
carregaram Serena até a casa de Finna. Teriam que ser rápidas se quisessem
ajudar Darien.
“Finna!” chegou Marte gritando, “Corra
aqui!!!”
Logo a feiticeira descia com um hobby de
seda sobre a camisola. “Ó, céus, o que houve?”
Elas explicaram o que houve e Finna soltou
um suspiro. “Por que foram se meter com uma Glastig?” Vendo que ninguém
entendera nada, sentenciou que esclareceria as dúvidas mais tarde. Darien
respirava com dificuldade e não conseguia falar.
“Bom, já que vocês não conseguiram esperar
até amanhã,” começou Finna com sarcasmo, “Vamos ter mais uma aula de magia
agora. Prestem atenção em mim e vejam como curar um ferimento causado por uma
criatura mágica.” Ela então respirou profundamente e colocou suas mãos sobre o
pulso de Darien.
“Rememdium divinus, confutus cruor, crinus
velius! Iucunditas, fragmenum potem magus! (Cura divina, pare o sangue, feche a
pele! Encanto, quebre o poder mágico!)”
Luzes brancas começaram a flutuar sobre o
pulso de Darien e foram fechando lentamente seu machucado, reconstituindo seu
pulso. As cores voltaram para sua face. Serena gemeu.
“E vocês? Por que ainda não curaram a perna
quebrada da sua amiga com a magia que dantes lhes ensinei?” perguntou uma Finna
irritada.
As meninas ficaram envergonhadas. “É que...”
murmurou Júpiter, “Como não nos acostumamos a fazer magias... Esquecemos que
podíamos curar Serena....”
Finna balançou a cabeça com tal esquecimento.
Conseguiriam elas tornar-se grandes bruxas em tão pouco tempo? Enquanto pensava
nisso, Marte usou o encantamento em Serena e curou sua perna. Finna ficou
aliviada, já que, pelo menos, não estavam tendo problemas em fazer funcionar a
magia da cura. A mágica de cada uma delas realmente chegara à superfície e
exalava pelos seus poros. Serena levantou-se e beijou os lábios de Darien, que
estava desmaiado. Finna tranqüilizou-a, dizendo que no dia seguinte ele já
estaria recuperado. Todas foram se arrumando para dormir, estavam muito
cansadas. Mina foi até a janela perto do banheiro e ficou olhando a casa de
onde o homem misterioso saíra. Esperava vê-lo de novo, mas nenhum movimento
aconteceu. Suspirando profundamente, voltou para a sala. O que estava acontecendo
com ela? Nunca sentira tanta expectativa em ver alguém.
Às sete horas em ponto, Finna estava
acordando a todos, que relutavam em levantar-se. Ela reclamava que eles tinham
se metido em confusões demais e que estava na hora de trabalhar. Tinham que trazer
os gatos e objetos pessoais para Eros e Finna queria fazer isso logo.
Em pouco tempo, todos já tinham tomado o
café preto que Finna fizera e se reuniam
no porão. Finna estendeu uma folha de caderno para cada um e mandou que
escrevessem o nome de tudo que queriam, a exemplo de: “blusa de lã verde com
listras amarelas”. Esse foi um trabalho demorado, como Finna previra, e as
listas só ficaram prontas às dez horas da manhã. Ela instruíra Mina e Serena
para colocarem Artemis e Lua em suas listas, respectivamente.
“Bem, agora vamos fazer um círculo,”
comandou Finna acendendo sete velas vermelhas, cada uma no local onde cada um
ficaria. “Essa é uma magia de invocação a longa distância. Usem ela para
trazerem pessoas ou coisas que estão longe. Só que terão que estar com tempo no
momento, pois o ritual leva alguns minutos.”
“Finna,” disse Serena, “acho que algo como
isso só daria para ser realizado em casa, já que ninguém carrega velas
vermelhas por aí.”
“Bem,” respondeu Finna com um sorriso, “Logo
aprenderão a carregar uma bolsa com itens básicos... Mas verão isso depois. Só
fiquem sabendo que o que importa não é o tamanho da vela, mas sua preparação.”
completou, olhando para as velas grandes que iluminavam o ambiente.
Ninguém entendeu muito bem o que Finna
queria dizer, mas ela não quis prolongar o assunto. Parecia estar com pressa e
fez com que as atenções dispersas voltassem para ela quando recomeçou a falar.
“Bem, quero que se concentrem e repitam
mentalmente as palavras que eu disser. É importante que não pensem em mais
nada, dirijam sua mente só para as palavras e para a magia que estamos
executando. Se fosse apenas um objeto ou pessoa, poderia até fazer isso
sozinha, mas devido ao volume de coisas precisarei da ajuda de todos vocês.”
Todos assentiram e ela pediu que dessem as mãos. As listas foram colocadas sob
as velas de cada um.
“Ulterius orbis, transitus unde platea. Iter
itineris unde lux, accersum appellum albus inferus veho letum! (Longe mundo,
cruzamento de estradas. Caminho de luz, traga os nomes listados sob as velas da
morte!)”
Um clarão se apoderou da sala.
Lua e Artemis estavam preocupados com as
meninas. Não tinham dado notícia e Lua pensava que algo terrível podia ter
acontecido.
“Calma, Lua,” Artemis tentou acalmar, “Vai
ver elas não puderam enviar notícias de onde estavam.”
“Essa desculpa não adianta! Elas devem estar
em perigo, senão teriam nos avisado. Aconteceu o pior.”
“Pare de falar isso, Lua. Lembre-se que elas
têm poderes!”
“Que acabaram de receber de volta e que
estão mais fracos que nunca!”
Artemis suspirou. Sabia que não adiantaria
argumentar com a teimosa da Lua. Quando ela colocava uma idéia na cabeça, nada
a fazia mudar de opinião. Os dois seguiram andando na rua deserta, longe do
barulho da cidade. Lua parou de repente.
“O que foi?” perguntou Artemis intrigado.
“Eu não sei... Sinto que algo vai acontecer.
É como se as dimensões se remexessem à nossa volta. Plutão poderia me explicar
bem melhor o que isso é.”
“Não sinto nada,” comentou Artemis
incrédulo.
“Ah, seu bobo!” gritou Lua, “Como você não
tem um pingo de sensibilidade! Bom, eu, durante o Milênio de Prata, passei um
mês com Sailor Plutão, averiguando movimentações no Portal do Tempo. Por isso
acho que adquiri certa sensibilidade para essas coisas em relação ao tempo e
espaç...”
Lua foi interrompida por um clarão e um
zumbido que retiniu em seus ouvidos aguçados. Artemis logo se aproximou de Lua
e, como um passe de mágica, eles desapareceram.
Quando a luz desapareceu e os olhos de
Serena se acostumaram àquela luminosidade dançante das velas, a garota tomou
uma baita susto. Nada que não fosse previsto, mas não imaginou que tudo viesse daquele
jeito: um amontoado de roupas de todos, misturadas e desarrumadas. Meio
assustados, um casal de gatos saiu do monte de roupas.
“O que diabos aconteceu...?” ia gritando Lua
quando seus olhos vermelhos se encontraram com os azuis de Serena. A loira
abaixou-se e abraçou Lua, emocionada. Mina fez o mesmo com Artemis.
“Bem
vindos,” falou Darien, meio atônito com a situação.
Finna logo tomou o controle da situação e,
antes que Lua pudesse enchê-los de perguntas, disse que tudo seria explicado.
Finna se apresentou e se disse muito honrada de conhecer os gatos guardiões.
Após isso designou tarefas: Darien, Serena e Mina deveriam colocar Lua e
Artemis a par dos acontecimentos e Rey, Lita e Ami deveriam separar as roupas e
dobrá-las.
“Agora viramos arrumadeiras enquanto os
outros batem papo com os gatos,” reclamou Rey, recebendo em troca um olhar de
reprovação de Finna.
Lita e Ami já trabalhavam nas roupas quando
Rey se juntou a elas.
Do ponto de vista de Finna, aquele fôra um
dia totalmente inútil. Tirando a magia de convocação, não tinham aprendido
absolutamente nada, perderam todo tempo arrumando as roupas e objetos. Ela não
ficava nem um pouco feliz com aquilo, visto o pouco tempo que tinha para
ensiná-los. Serena, Darien e Mina, por outro lado, tinham se ocupado contando
todos os detalhes de tudo que acontecera desde que entraram no portal clonado
de Titã. Lua e Artemis ouviam tudo extremamente atentos, e Lua tinha ficado
muito preocupada com o fato de terem que aprender magia (ela já tinha ouvido
falar sobre esses poderes especiais de algumas pessoas no Milênio de Prata) em
tão pouco tempo se quisessem ter alguma chance para salvar Hikari. As outras
meninas se divertiram muito com aquela tarefa que a princípio lhes causara
descontentamento. Arrumar as roupas, separar o que era de quem, ver as roupas
das amigas (que elas não conheciam mais devido o tempo que ficaram separadas);
tudo foi uma grande festa. E no fim todos estavam cansados, reunidos na mesa da
cozinha.
“Finna, agora conte-nos. O que atacou Darien
a noite passada?” indagou Ami.
“Bem, aquilo era uma Glastig. Ela é uma
espécie de vampiro, que seduz os homens com seu olhar e dança. Não sei se
observaram, mas ela só se ocupa com homens. A lenda conta que a primeira
Glastig era uma mulher muito bonita e rica, que se apaixonou por um camponês.
Ela lutou contra a família, muito poderosa e tradicional, e conseguiu se casar
com o homem. Contudo, ele se mostrou um feiticeiro sórdido após a morte dos
pais da moça, filha única, e, após se apoderar de todo o seu dinheiro,
amasiou-se com uma bruxa, que sempre fôra sua amante, e os dois transformaram a
mulher num ser em que a metade inferior é igual à de uma cabra. A moça viveu
errante, cobrindo sua deformidade com um manto, e, após sua morte, voltou para
atormentar os homens, executando assim sua vingança contra o sexo masculino,
que para ela é o causador dos males e sofrimento do mundo. No universo
além-morte, ela encontra almas femininas errantes que sofreram muito por causa
dos homens e as oferece a oportunidade de persegui-los. Se a mulher aceita, ela
então recebe a metade cabra e o manto comum às Glastig, junto com o dom de
sugar o sangue e a alma dos homens, após enfeitiçá-los com seus poderes
sobrenaturais.”
“Isso quer dizer que Darien morreria se não
afugentássemos a Glastig?” perguntou Rei.
“Sim. E pior, pois a alma dele simplesmente
não existiria, ele acabaria seus dias de vida e de morte ali,” respondeu Finna
com um olhar sério. Darien estava perplexo com o que poderia ter-lhe
acontecido.
“E como deixam um treco desses solto por
aí?!” gritou Serena, inconformada.
“Ah, mas vocês que são muito enxeridos,”
começou Finna, “Não leram a placa? Lá estava escrito ‘Bosque da Branca’, não
estava?”
“Sim, mas e daí? Achamos que era por causa
da Lua... Não era?” perguntou Serena.
“Bom, é como eu falo, vocês que não sabem
de nada. Branca é o nome da Glastig que mora lá, a que vocês encontraram. Por
medida de segurança, as Glastig são aprisionadas por magia em bosques, onde, é
claro, só mulheres poderiam entrar em segurança. Por isso até colocam placas,
para que homens não entrem. Os que entram, bem, elas ficam livres para
atacarem.”
“É o fim da picada mesmo,” murmurou Mina,
“manter aquela coisa lá dentro...”
“E, bem,” ia dizendo Artemis, preocupado, “e
gatos? Elas também pegam?”
“Não, branquinho, fique tranqüilo. Animais
estão em segurança,” respondeu Finna, afagando a cabeça de Artemis, que
respirou aliviado.
Todos ficaram conversando na mesa; Lua
discutindo com Serena e Darien sobre Titã e se ele já estaria sabendo que
estavam em Eros. As meninas se divertiam com Artemis, fazendo palavras
cruzadas. Mina foi sorrateiramente até a janela dos fundos e se encostou o
rosto junto ao vidro. Será que ele apareceria? Queria muito vê-lo de novo, e,
dessa vez, iria atrás dele, para descobrir o que aquela capa escondia. Estava
imersa em seus devaneios quando uma mão surpreendeu-a, tocando-lhe o ombro.
“Mina? O que está fazendo aqui?” perguntou
Finna.
“Ah, er...” tentou pensar numa boa desculpa,
sem sucesso, “nada...”
“Agora quer me enganar? Ainda tem que aprender
muito para passar a perna na grande bruxa Finna,” disse, tentando descontrair
Mina, que estava muito nervosa. A loira olhou diretamente para Finna e depois
virou-se para a janela.
“Quem mora naquela casa, Finna?” indagou
Mina.
“Por que deseja saber?”
“Quem mora? Quero saber que foi o encapuzado
que vi.”
Finna olhou para Mina com desaprovação,
“Deve esquecê-lo. Não quero que fale nele. Não quero que fique tentando vê-lo
novamente.”
“Mas por quê? Que ele é?” perguntou
exaltada.
“Não importa, é para o seu bem. Não deve
procurá-lo nem vê-lo novamente. Prometa que vai esquecer que o viu,” falou
Finna, muito séria.
“Mas, Finna...”
“Não argumente. Prometa apenas.”
“Não sei se posso.”
“Então terei que enviar todas vocês de volta
e banir-lhes deste mundo.” Finna virou-se para ir embora. Mina viu-a se afastar
decidida e suspirou.
“Eu juro. Vou esquecê-lo. Quem quer que ele
seja, vou apagá-lo de minha mente.”
Finna não se virou.
“Será melhor assim.” E continuou a andar.
Mina virou-se para o vidro e olhou mais uma vez para a casa misteriosa. “É pelo
bem da princesa,” murmurou para si mesma.
Mais tarde, Darien e Serena resolveram se
recolher, já que Finna avisara que iriam todos acordar cedo para começarem de
verdade com o aprendizado da magia. Deviam parar de levar tudo na brincadeira,
pois a vida de todos, inclusive de Hikari, dependia disso.
Deitados na cama, Darien abraçou Serena,
murmurando palavras doces no seu ouvido. Ela riu, descontraída, e olhou para
ele. Sua boca era igual à de Hikari... Sentiu-se mortalmente culpada por estar
ali, tendo momentos agradáveis com o homem que amava enquanto sua pobre filha
sofria nas mãos de um crápula desumano. Não era justo. Não era justo ela amar
enquanto a filha se contaminava com o vírus do ódio. Não era justo que ela se
divertisse. Serena virou-se para o outro lado, dando as costas a Darien.
“O que foi?” perguntou ele, não entendendo
nada.
“Nada, é só que...” Serena pensou mais uma
vez, “Não é justo que nós tenhamos bons momentos enquanto nossa filha sofre.”
“Serena,” começou Darien, “Não deve pensar
assim. Relaxe... Tudo acabará bem.” E abraçou-lhe as costas.
A loira se desvencilhou dos braços fortes de
Darien e sentou-se na cama. Ele beijou-lhe os dedos lânguidos da mão. Ela puxou
a mão para junto ao corpo bruscamente.
“Não. Me deixe em paz!” disse com lágrimas
nos olhos e deitou-se, cobrindo a cabeça. Darien suspirou, deitando virado para
o outro lado.
Rei tinha decidido que iria dormir no sofá
do porão, perto da lareira. Metera na cabeça que faria da lareira um fogo
sagrado para que sempre estivesse aceso, permitindo leituras e previsões do
presente e futuro. Para ela, uma sacerdotisa de Shinto, era muito importante
realizar as orações diante de um fogo sagrado e ela não podia mais adiar essa
tarefa. Passaria a noite cuidando disso. As outras meninas continuariam a
dormir na sala e os gatos... bem, os gatos se arranjam em qualquer lugar, não?
Mina e Lita já estavam dormindo e a casa
estava às escuras quando Ami abriu os olhos. Sem fazer barulho algum, puxou
algo de debaixo do travesseiro. Ergueu à altura dos olhos e viu em letras
douradas “Yan O’Donkel”. Seu coração bateu mais rápido enquanto lia o endereço
e telefone que constavam no cartão de visitas.
“Só mais um pouco,” pensou, “Só vou esperar
mais um pouco.”
No seu gélido planeta, Sailor Plutão teclava
no computador principal de seu castelo. Parecia preocupada e intrigada. No
fundo era mais curiosa que um gato, e não se conformava quando não sabia de algo.
Seus olhos iam de um lado para o outro, observando cada dado na tela
cuidadosamente.
“Não pode ser... ninguém some assim...”
murmurava, “Vou descobrir... Vou descobrir, e logo.”
Ikuko olhava pensativa para o céu. Onde
havia se metido Serena, Darien e Hikari? Que saudades tinha de sua filha e de
sua netinha... Até mesmo de seu genro... Ele era muito bom e ela gostava dele
realmente. Pensara em procurar a polícia, mas algo em sua mente não a deixava
fazê-lo. E agora havia aquilo. Havia aquilo no céu. Era tudo tão
fantástico.
A chuva de meteoros começara há uma hora,
deixando os estudiosos em polvorosa. Ninguém estava esperando por uma chuva,
muito menos daquela intensidade, muito menos que durasse tantas horas. As
pessoas saíam nas ruas ou se amontoavam nas janelas para assistir àquele
deslumbrante fenômeno. Alguns tiravam fotos, outros filmavam, a diversão era
geral. Era tanta agitação que ninguém percebeu quando uma esfera de luz caiu
sobre um prédio e rapidamente tomou a forma humana, desaparecendo
misteriosamente na escuridão...
Fim
do Capítulo 2!
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