Sailor Moon VI

 

6 anos depois

 

Capítulo 2 – New Old World

 

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Foi tudo muito confuso. Quando entraram na passagem dimensional que Ami abrira, perderam o chão sob seus pés e começaram a cair. Parecia um abismo, já que a queda sempre continuava; temeram que pudessem se separar, mas sempre sentiam a energia dos outros às suas voltas, e isso os acalmava. Após um espaço de tempo que foi como uma eternidade para eles, a velocidade com que caiam começou a diminuir. Ami pensou que isso era um bom sinal, pois se encontrassem o chão na velocidade que estavam, com certeza morreriam. Após mais alguns minutos, não mais caíam, e sim flutuavam. Conseguiram se aproximar e deram as mãos, formando uma roda.

“Acho que estamos chegando...” murmurou Sailor Moon.

“Espero que não haja muitos perigos quando chegarmos, pois perdemos parte de nossa energia nessa queda. Acho que durante ela passamos por espécies de “fendas do tempo” que agem como buracos negros sob nossas energias,” explicou Mercúrio.

  Vênus ia dizer alguma coisa quando um vento gélido começou a soprar. Todos se encolheram e a escuridão onde se encontrava foi diminuindo, tendendo levemente para o roxo e depois ficando azulada. Um chão acinzentado foi se criando sob seus pés e logo podiam ver a abertura do vórtex, mostrando-lhes uma paisagem nem de longe hostil, pelo contrário, acolhedora. Saíram um a um e, quando a escuridão do vórtex se fechou, olharam mais calmamente em volta.

  Estavam numa rua vazia. De ambos os lados, casas de classe média se erguiam altivas, com suas janelas iluminadas pelas luzes vindas das televisões. A rua também tinha postes de luz, que iluminavam o asfalto, tornando-o uma passarela convidativa para as Sailor.

  “Esse lugar...” começou Vênus, “é tão estranho... Me parece de certa forma... familiar...”

  “Não sinto nenhuma energia malígna aqui, pessoal,” disse Sailor Marte.

  “Acho que devemos voltar às nossas identidades normais,” falou Júpiter.

  Todos se entreolharam e decidiram numa conferência sem palavras que isso seria o mais sábio fazer.

 

  Eles continuaram andando e logo saíram daquela e de mais um par de ruas consecutivas, chegando a uma avenida. Alguns carros passavam rapidamente por elas e, quando saíram da extremidade da avenida, pessoas começaram a aparecer.

  Primeiramente, eles ficaram receosos que forma de vida encontrariam naquele lugar, mas, a medida que as pessoas passavam por eles, esse medo desapareceu. As pessoas desse mundo eram humanas. Humanas iguais as outras e usavam o mesmo estilo de roupa e falavam o mesmo idioma que Serena e seus companheiros.

  “O que é isso, Ami? Por que eles são iguais a nós? Isso não deveria acontecer!” falou Darien.

  “Eu também não entendo,” ela começou a responder, “Eu esperava sair daquele vórtex e me encontrar num lugar árido e nocivo, e agora...”

  “Ge-ge-gente!” interrompeu Serena, visivelmente assustada, “ Olhem ali, à direita! Olhem! Olhem! É o..... o..... o..... o.......”

  “GAME CENTER CROWN!!!!!!!” gritaram ao mesmo tempo.

  Por um instante não souberam como agir e mesmo Ami parecia confusa. Sua primeira atitude foi checar em seu computador os dados do vórtex, pois começou a achar que tinha copiado algum dado errado e que tinham simplesmente ido para outro lado de Tóquio. Contudo, nada procedeu, pois eles realmente tinham entrado numa dimensão e saído noutra. “O que está acontecendo aqui?” pensou ela.

  “Vamos até lá!” gritou Serena e saiu correndo, parecendo novamente a garotinha de 14 anos que conheceram a muito. Após uma breve troca de olhares, foram atrás dela.

Quando entraram, ficaram mais chocados ainda. Tudo lá dentro era igual ao Crown que eles conheciam. A mesma disposição das máquinas, a mesma decoração...

“Só falta aparecer o Andrew...” disse Mina.

  “O Andrew não, sua desatualizada!” começou Lita toda animada. “Agora quem toma conta do Crown é o Seijo-chan!”

 “Seijo-chan?!” se espantou Serena. “Quando você ficou tão íntima dele assim?”

  Lita corou como um pimentão. “Bem, enfim... eu... ele... nós...”

  “Pare com o interrogatório, Serena!” salvou Mina, “Vamos deixar Lita em paz. Mas fale, como ele é?”

  “Bem,” disse Lita, “é alto, loirinho, olhos azuis...”

  “Então pode parar,” interrompeu Ami apontando para o rapaz que cuidava do Crown, “Aquele não é o Seijo.”

  Realmente, pela descrição de Lita, não podiam ser nem parentes. O rapaz que Ami mostrara era de estatura média, cabelos negros e tinha um rosto cheio de marcas de espinhas. Ami foi até ele para descobrir algo mais sobre o lugar onde foram parar.

  Quando ela chegou em sua frente, o rapaz disse, “Tóquio.”

  Ami olhou surpresa. “Como sabia que eu ia perguntar o nome da cidade onde estamos?”

  “É isso mesmo que está pensando, Ami Mizuno,” falou ele.

  “Como sabe o meu nome? E como sabe o que eu estou pensando?” perguntou cada vez mais atordoada.

  “Pensei que por ter sido a melhor aluna do colegial e por ser uma médica de renome, não ficaria me fazendo perguntas para as quais você já sabe a resposta,” disse sarcasticamente.

  “Você é... não, você pode...” Ami tentava dizer algo.

  “Sim. Eu leio mentes. Por que o espanto?”

  Ami foi correndo em direção aos outros e contou o ocorrido. Todos, após se acalmarem do choque que haviam levado, decidiram sair logo dali, antes que o jovem descobrisse algo mais sobre ele, já que ninguém tinha idéia do raio de alcance de seu poder.

 

  Quando saíram e começaram a caminhar a esmo, estavam mais confusos que nunca. Além disso, todos bombardeavam Ami com perguntas e ela só sabia responder “Não sei” ou “Não entendo também”. Estavam tão desligados que quando viraram a esquina trombaram com uma senhora.

  Ela já devia ter seus 70 anos, mas continuava com um porte saudável. Tinha cabelos brancos na altura do ombro e olhos azuis tão límpidos como água pura. Darien ajudou-a a se levantar e, quando a senhora se recompôs, fitou um a um com seus olhos fulgurantes.

  “São vocês. Eu esperei todos esses anos pelo dia em que vocês chegassem aqui. Vamos comigo, acho que precisarão de minha ajuda.”

  Eles não sabiam o que dizer. Acharam que a velhinha parecia saudável mas já estava com algum problema. Vendo a reação deles, ela completou, “Precisarão de minha ajuda.... para vencer Titã.”

E isso foi o suficiente para que eles a seguissem.

 

  Foi um longo caminho. Todos seguiam a velhinha em comitiva, ainda assustados demais para perguntar qualquer coisa. Passaram por diversas ruas residenciais e reconheceram facilmente a casa de Mina, o templo Hikawa e, ao longe, avistaram a Torre de Tóquio.

“Porque tudo aqui é igual a Tóquio?” Serena rompeu o silêncio.

“Logo saberá, menina...” disse friamente a senhora.

 Serena se contraiu com o tom de voz da resposta e aninhou-se no peito de Darien. “Será que não estamos perdendo tempo aqui? Hikari já está pelo menos duas horas na mão de Titã. Imagine as barbaridades que ele pode fazer com ela..?” sussurrou Serena para Darien, lágrimas se formando em seus olhos.

“Serena, acalme-se. Ele não quer ferir Hikari... Só quer leva-la para o lado do mal. Eu sei que isso é terrível, mas pense que este processo é demorado, leva três meses, lembra? Nesse ínterim nós a salvaremos.” respondeu Darien, tentando acalmar Serena embora ele próprio estivesse receoso de que suas palavras não se cumprissem.

  Repentinamente pararam ante uma casa. Era de porte médio, parecia confortável. Tinha um jardim com flores que abriam durante a noite, exalando um perfume doce e suave e cobrindo tudo com suas pétalas brancas e firmes. Lita adorava flores e conhecia essas espécies, contudo nunca tinha visto um jardim tão repleto e lindo. Pensou até que era mais bonito que os jardins botânicos de Tóquio. Ami se aproximou do jardim e viu que havia nele uma placa com as seguintes inscrições:

 

Multiplicatus, vigeo!                                                                            (Multiplicadas, floresceis!)

Beatus Deméter, auxilium                                                                    (Abençoada Deméter, ajude)

Converto niveus magis niveus                                                             (Transforme as brancas em mais brancas)

Fragus magis fragus                                                                             (Perfumadas em mais perfumadas)

Decorus magis decorus                                                                        (Formosas em mais formosas)

Charitum abico mei oratio cotidio                                                       (Ofereço humilde minhas orações diárias)

Salus beatus Deméter                                                                          (À abençoada Deméter)

 

  Ami ficou pensativa por alguns instantes. Sabia que aquela língua era latim, mas essa era uma língua que Ami não sabia. “Do que se trata?” finalmente perguntou.

“Ah, a placa,” disse a velhinha, “É uma oração à deusa da agricultura, Deméter. Eu peço que faça meu jardim cada vez mais bonito e ofereço minhas orações diárias à ela.”

“Orações diárias?” perguntou Rey.

“Sim. Aqui geralmente cada pessoa escolhe seu deus protetor e oferece a ele uma oração às 11 e meia da noite. Todos fazem isso, já que o poder dos deuses é grande demais para ser ignorado. E é lógico que minha deusa protetora é Deméter, como a de toda boa feiticeira.” concluiu a senhora, para o desespero de todos.

“Pera aí, deixa eu ver se eu entendi,” começou Serena, “Você é uma BRUXA???!!”

“Sim. É... acho que vocês precisarão mesmo de longas explicações. Mas entrem, vou contar lá dentro porque aqui fora está muito frio.”

  Todos entraram na casa da senhora e ela era mais aconchegante ainda por dentro. Sentaram-se numa sala ante uma lareira que crepitava incessantemente. A velhinha então começou a falar.

  “Bem, para começar meu nome é Safinna, mas todos me chamam de Finna. Agora posso começar a explicar onde vocês estão. Como podem ver tudo aqui é igual a Tóquio, menos as pessoas. Na verdade, todos os que moram aqui tem algum poder mágico ou sobrenatural e antes de virem para cá moravam em seu mundo. Mas os dotados de poderes assim são discriminados na sociedade do mundo normal, e, se não querem ser isolados do convívio social, não podem usar seus poderes. Sofrendo juntos com isso, os dotados com maiores poderes criaram uma réplica de seu mundo há 30 anos atrás, mas neste novo mundo não existiria preconceito contra os poderes obscuros, pois só consegue chegar a esse mundo quem tem alguma espécie de poder. Rapidamente a notícia da criação de Eros, como chama nosso mundo. Com isso, milhares de pessoas começaram a chegar, todos com históricos semelhantes de isolamento por causa de seus poderes.”

  “Então não é só Tóquio que foi replicada? Outras cidades e outros países também?” perguntou Ami.

  “Fizemos isso para que as pessoas continuassem com uma vida semelhante a que antes levavam, que pudessem ir aos mesmos lugares e assim por diante.”

  “Certo,” disse Darien, “Mas como sabia que nós viríamos? E como sabia sobre Titã?”

  “Bem, essa é uma outra longa história. Eu tinha 10 anos quando Titan nasceu. Eu era filha do chefe da guarda real e minha mãe era muito próxima da mãe de Titan. Desse modo, crescemos juntos, tal qual irmão e irmã. Éramos muito próximos e nos amávamos muito. Acompanhei de perto sua história com a Rainha Serenity e foi eu que consegui mantê-lo vivo quando passou um ano trancafiado em seu quarto. Eu o aconselhava, mas ele não seguia meus conselhos. Nossa amizade ficou profundamente estremecida quando ele raptou a Rainha Cibele, contrariando todos os meus pedidos. Estive com ele quando fomos tirados de órbita e assisti a sua morte. Eu tinha ajudado a criar Titã, mas ele contrariou todas as minhas expectativas se tornando vingativo e rancoroso. Acompanhei-o por anos, tentando ajudá-lo a esquecer o passado e construir um bom futuro quando ele encontrou Eros. Ele abriu uma passagem para cá e trouxe todos os seus súditos. Ele construiu uma fortaleza para ser seu covil a alguns quilômetros daqui, no topo de uma montanha. Lá é frio e sempre está nevando, como em nosso satélite Titã. Eu achei que finalmente ele ia sossegar, mas então descobri seus planos de raptar a filha da Princesa Serenity e do príncipe Endymion e tomá-la como sua esposa e rainha, para conquistar toda a galáxia. Então fugi para a cidade e me escondi. Aos poucos fui arrumando minha vida e, numa leitura ante o fogo, vi que guerreiros chegariam aqui para lutar com Titã e acabar com seus planos maléficos. Vi também que teria que ajudá-los nessa empreitada, mas, quando tentei ver como acabaria essa história, não consegui, já que esse é um futuro que promete tantas reviravoltas e em que tantas coisas ainda vão acontecer que nem os deuses sabem como isso vai acabar.”

  Todos ficaram estáticos. Agora sabiam onde estavam e quem eram essas pessoas com estranhos poderes. Mas Serena ainda tinha uma pergunta entalada na garanta. “Como poderemos salvar Hikari?” gritou ela.

  “Bem...” disse Finna, pensativa, “segundo meus cálculos, se Titã usar a magia Auctus Coacto...”

  “Magia o quê?” perguntou Ami, interessada pelas tão diferentes palavras em latim.

  “Bem, e a magia conhecida em nosso idioma como Desenvolvimento Forçado. Acho que é essa que ele vai usar e, sendo assim, teremos cerca de três meses para derrotar Titã e resgatar Hikari...”

  “E onde ele se esconde?” indagou uma extasiada Serena. “Temos que ir lá agora! Não há tempo a perder!”

  “Não. Ainda não podemos ir até ele.” disse secamente Finna.

  “Como não? Hikari não pode esperar!” se intrometeu Darien.

  “Bem,” continuou Finna, “Titã é muito poderoso, e tem poderes concedidos pelos deuses, como os seus. Mas...” ela pensou por alguns instantes, “Mas ele não tem só estes poderes. Sim, pois os poderes que lhe foram concedidos pelos deuses poderiam até ser vencidos pelos seus; isso, é claro, se Sailor Moon estivesse em sua última forma, Eternal Sailor Moon, e que vocês todas estivessem em sua forma Super, o que eu sei que não ocorre. Porém o que eu ia dizer é que Titã tem poderes mágicos como vocês viram. E não é apenas um bruxo de curso via correio. Ele é um exímio feiticeiro e tem as bases da magia muito bem cravadas no fundo de seu coração. Isso o torna poderoso e dotado de um poder que não pode ser vencido com os seus poderes normais. Para vencerem Titã vocês terão que... que aprender as artes mágicas. Pois só tendo os mesmos poderes que Titã tem que vocês conseguirão vence-lo.”

  “E como aprenderemos isso em apenas três meses? Aposto que não é nada fácil” disse Mina.

  “Acertou, jovem. Não é fácil. Mas eu poderei ensiná-los, esta é a minha missão.”

  “Mas então estaremos aptos a vencer Titã em meses?” perguntou Lita.

  “Bem, ainda há uma coisa que eu não lhes contei...” murmurou Finna.

  “Então fale, eu lhe rogo.” falou Serena, pensando se conseguiria realmente salvar Hikari.

  “O detalhe que falta é que Titã sempre foi um feiticeiro nato, mas... para se tornar mais poderoso, ou melhor, o mais poderoso de todos os bruxos, ele... ele se dedicou nos últimos anos à magia negra. Esse é um lado obscuro da magia e decerto o mais intenso. É também terrível e amedrontador e, se quiserem vencer Titã, também terão que entrar nesse mundo de trevas.”

  “Mas é claro que farei isso! Se for preciso irei ao inferno buscar minha filha!” gritou Serena.

  “Calma, mulher. Ainda não disse a pior parte. É que nem todos podem aprender magia negra. Eu, por exemplo, pude aprender apenas os rudimentos e ainda com anos de esforço. Para aprender magia negra é preciso ter o Dom. A pessoa tem que nascer com uma veia para isso, tem que nascer com o tino para a magia. E poucos são os escolhidos pelas trevas para nascerem com esse potencial.”

  “E como saberemos se temos o Dom?” perguntou Rey.

  “Bem, ensinar-lhes-ei a magia branca, e, se tudo correr bem, em um mês saberemos.”

  “Um mês?! Como posso esperar um mês para saber o destino de minha filha?” Serena se desesperou.

  “Bem, lição número um: A melhor bruxa tem a maior paciência e sabe esperar o tempo certo de colher os frutos de sua disciplina. E agora vamos encerrar esta conversa e dormir, pois já está tarde e amanhã um dia longo nos espera.” disse Finna e, olhando para cada um continuou, “Mas que tal me dizerem seus nomes? Afinal só sei suas identidades de guerreiros e de que planetas são princesas; e príncipe, claro.”

  “Sou Ami Mizuno.”

  “Lita Kino.”

  “Mina Aino.”

  “Rey Hino.”

  “Darien Chiba.”

  “Serena Tsukino.”

  “Serena, você não mudou de sobrenome quando casou?” perguntou Ami.

  “Na verdade eu e Darien decidimos manter nossos nomes como eram antes.” respondeu, encerrando o assunto.

  Decidiram que Serena e Darien dormiriam no quarto de hóspedes e as meninas se ajeitariam na sala. O casal logo se recolheu, após comentarem que mal tinham percebido que abandonaram Lua e Artemis na verdadeira Tóquio. Mina decidiu que falariam sobre isso no dia seguinte. Finna também foi se deitar, pois estava realmente exausta. Rey logo percebeu que por trás daquela poderosa feiticeira havia uma mulher, já idosa e sem parentes e sem amor. Rey sentiu pena de Finna e pensou que seria bom se ela pudesse ajudá-la a se sentir menos solitária. Logo só estavam as quatro garotas na sala.

  “E então meninas, o que andaram fazendo por esses anos?” perguntou Rey, tentando descontrair o ambiente.

  Mina olhou friamente para ela e, trocando um breve olhar com Ami e Lita disse, “Rey, espero que você não tenha nos entendido mal. Quando aceitamos parar de brigar com você para procurar Hikari, nós não dissemos que voltaríamos a ser suas amigas. Você traiu a confiança de Serena e, com isso, nos traiu, por isso só aceitamos uma espécie de “cessar fogo” para podermos ajudar Serena. Mas espero que você entenda que não queremos mais sua amizade.”

  Rey olhou espantada. Ela pensara que tinha sido perdoada, mas tudo fôra ilusão. Sentiu um aperto no peito, pois se arrependia amargamente do que tinha feito no passado, embora, ainda hoje, não controlasse seu coração teimoso. Tudo escureceu a sua volta quando viu que suas amigas a rejeitavam. Então ela se aninhou no sofá e fechou os olhos, querendo que tudo aquilo fosse um pesadelo e, quando acordasse todos a tratassem como sempre.

  Lita, após esse momento, decidiu fazer um café para ela, para aliviar as tensões do dia. Ami disse que ia ao banheiro e Mina a acompanhou. No caminho Ami pareceu preocupada.

  “Mina, será que não estamos sendo duras demais com a Rey?” perguntou.

  “Ami, eu, sinceramente, acho que não. Se ela quer nossa amizade e confiança novamente, acho que terá que lutar para reconquistar.”

  As duas foram o resto do caminho em silêncio, e, quando chegaram no final do corredor, Ami entrou no banheiro cuja porta ficava à direita. Na parede final do corredor havia uma janela e Mina se pôs a olhar pelo vidro. Tudo estava escuro na rua e a casa que ficava do outro lado não tinha nenhuma luz acesa. Para a surpresa de Mina, a porta dessa casa se abriu repentinamente. Mina apertou os olhos, a fim de conseguir ver melhor o que estava acontecendo, mas só conseguiu ver um vulto negro usando uma espécie de capa pesada com um capuz que lhe cobria a face. Mina ficou intrigada, mas Ami saiu do banheiro e a distraiu por um segundo. Entretanto, quando Mina retornou o olhar para a janela, o vulto não estava mais lá.

  “O que você está olhando, Mina?” perguntou Ami.

  “Nada...” respondeu Mina, mas em sua cabeça a imagem do vulto negro retumbava. “Quem será...?” pensou.

 

  As duas voltaram para a sala e ficaram conversando sentadas na mesa e tomando café, enquanto Rey continuava inerte no sofá, tentando sem sucesso dormir. Enquanto isso, Serena e Darien se instalavam em seu quarto e, já deitados, Serena se aninhou no peito de Darien.

  “Você acha que conseguiremos salvar nossa filha?”

  “É claro que sim, Serena.”

  “Mas e se nenhum de nós tiver o dom para a magia negra? Não conseguirei sobreviver sem Hikari.”

  “Serena,” disse Darien, e levantou a cabeça de Serena delicadamente, fazendo com que os olhos dela encontrassem os seus, “tudo vai dar certo. Tenha esperança, porque é ela que faz o seu poder ficar mais forte e brilhante. Nesse exato momento sinto sua aura tão fraca e sem resplendor que me dá medo. Seja forte e salvaremos nossa filha”

  “Darien...” murmurou ela e beijou-o longamente.

 

  No dia seguinte todos acordaram cedo, inclusive Serena. Reunidos na mesa de café da manhã, decidiam qual seria o próximo passo. Finna explicou que eles teriam que começar um curso intensivo de magia e que isso parecia muito fácil e divertido, mas na verdade era exaustivo e complicado, necessitando de uma alta dose de concentração e dedicação. Para finalizar o assunto, disse que começariam após o café da manhã e que, como ela já tinha tomado o seu, estaria esperando-os no porão da casa. Quando ela saiu, um burburinho começou.

  “Vamos ter aulas de magia no porão da casa?” perguntou Serena assustada “Não é perigoso?”

  “Isso me lembra terríveis histórias de bruxaria e torturas medievais. Era nos porões que eles costumavam guardar toda a espécie de ervas venenosas e partes de animais mortos, além de cadeiras cobertas por pregos onde você teria que sentar e...” dizia Mina.

  “Querem parar de falar bobagens? Não percebem que tudo isso não passa de ficção? Foi por causa de pessoas como vocês que eles tiveram que construir outro mundo, já que não conseguiam viver normalmente no nosso. E olha que vocês têm poderes sobrenaturais também.” Interrompeu Darien

  E assim o assunto foi suspenso até o final do café da manhã.

 

  Quando todos terminaram, foram descendo para o porão. Serena e Darien foram na frente e Mina, Lita e Ami atrás, seguidos por Rey, que estava no final da fila. Assim que desceram uma escadaria interminável tiveram uma surpresa, já que o que encontraram foi completamente o contrário de tudo o que tinham pensado. Na verdade, o porão era o cômodo mais aconchegante da casa e tinha uma lareira circular ao fundo, onde havia apetrechos para pendurar um enorme caldeirão de ferro que estava encostado num canto. As paredes eram claras e as lâmpadas reluziam com um tom violeta. Havia uma mesa de doze lugares, com um banco comprido de cada lado, tudo de madeira. Mais a esquerda estava um par de sofás de couro negro, muito confortáveis por acaso, com um tapete entre eles de pele de urso. Havia também armários enormes e prateleiras repletas de livros. Além disso havia um belo quadro de uma mulher na parede, emoldurado em dourado.

  “De quem é esse retrato?” perguntou Rey.

  “É de minha falecida mãe.” respondeu Finna, enxugando com o dorso da mão uma lágrima que teimava em lhe escorrer pela face ao se lembrar de sua mãe. “Bem, vamos começar então. Quero que formem duplas.”

  Serena e Darien logo se uniram, mas as meninas ficaram em dúvida do que deveriam fazer, pois nenhuma queria ficar com Rey. Vendo o ocorrido, Serena interviu.

  “O que é isso? Não lhes falei que perdôo Rey e que vocês devem esquecer o que aconteceu no passado? Esqueceram da ordem explícita que lhes foi dada pela sua princesa?”

  “Sim,” começou Mina, “É que... bem, não conseguimos esquecer e voltar a ser amigas de Rey normalmente. Não somos tão magnânimas e bondosas como você, princesa.” E abaixou a cabeça em sinal de respeito.

  “E qual de vocês vai ficar com Rey?” perguntou Serena, com seus olhos azuis faiscando de irritação.

  Não houve resposta.

  “Então eu decido. Ami fica com Mina e Lita com Rey. E quem lançar a primeira careta ou olhar esguio que eu ver para Rey, vai ter uma ‘conversinha’ comigo.”

  Lita foi até Rey, com o olhar no chão, pensando porque Serena tinha a escolhido. Quando olhou para Rey, viu nos seus olhos negros uma dor e arrependimento gigantescos. “Rey...” pensou.

  Terminado o dilema das duplas, todos olharam para Finna, que começou, “Bem, já lhes disse que temos que ter um deus protetor e que nós, os feiticeiros temos como praxe orar para Deméter. A questão é que vocês têm ainda seus deuses protetores dos planetas, de modo que precisarão orar duplamente, para os dois, já que deuses enciumados são como najas do deserto. Vocês sabem quais são seus deuses protetores?”

  Um silêncio sepulcral respondeu a pergunta.

  “Bem, então vou lhes dizer. Serena deve seus poderes à Selene, Darien à Titéia, Ami a Hermes, Rey a Ares, Lita a Zeus e Mina à Afrodite.” então olhou diretamente para Mina, “Fique sabendo, Mina que sua deusa, Afrodite é muito boa e generosa, mas não a irrite, pois é uma das mais vingativas.”

  “Certo,” disse Mina, “Acho que todos nós já sabemos a quem orar. Mas o que devemos dizer?”

  “Bem, no início, só pensem em coisas boas para seus deuses e peçam proteção. As palavras virão naturalmente, a medida que seus poderes se desenvolverem. Agora vamos á prática, certo? Vamos começar por um feitiço básico de cura, pois devemos aprender as artes da defesa antes das do ataque. Cada um de vocês devem ir até o armário que tem a palavra Sectum escrita e escolher a de sua preferência. Lembrem-se ela os acompanhará par sempre daqui em diante.”

  Ninguém pensou muito no que haveria lá, simplesmente foram. Contudo, quando abriram o armário, ficaram chocados. Arrumadas em caixas de vidro, havia dezenas de adagas, todas de dois gumes, com os cabos adornados belissimamente. Pareciam competir para ver em qual havia mais pedras preciosas incrustadas ou qual reluzia mais.

  “Mas o que é isso? Não quero uma faca! É perigoso!” gritou Serena, dando um pulo para trás.

  “Para começar são adagas, não facas. E em segundo lugar, todos os feiticeiros têm que ter uma adaga. É com ela que você vai ‘preparar’ os ingredientes necessários para muitas poções; e na magia negra então, nem se fala! Deixem que seu coração escolha a que mais tem a ver com você”

  Todos então examinaram mais atentamente a exuberante coleção. Mina se sentiu fortemente atraída por uma incrustada de topázios. Lita preferiu a com esmeraldas. Ami não sabia direito o que fazer, pois nunca pensara em ter uma adaga, era contra o uso de armas, mesmo brancas. Contudo não resistiu a adornada com safiras. Rey escolheu a de rubis e Serena a com diamantes. Darien olhou todas muito calmamente e acabou escolhendo uma de belas pérolas negras. Então fecharam o armário e voltaram para perto de Finna.

  “Bem, agora que já escolheram suas companheiras, têm que torná-las fiéis a vocês.”

  “Como assim,” perguntou Ami, “elas vão nos ‘trair’?”

  “De certa forma... É que como elas iram partilhar de seus poderes, é melhor se proteger, pois, tornando-as fiéis, os inimigos não poderão ferir vocês usando suas próprias adagas e ninguém além de vocês poderá usá-las.”

  Todos chegaram perto da mesa e colocaram suas adagas em sua frente, como Finna ordenara. Estavam muito nervosos.

  “Agora façam um pequeno furo em seus dedos indicadores esquerdos e deixem escorrer uma gota pela lâmina. Depois repitam: Fidelis mei, semper.”

Um pouco apreensivos, mas determinados, todos cumpriram as ordens de Finna e executaram o simples ritual da fidelidade. Logo, Finna explicou que o que tinham dito era: “Fiel a mim, sempre”

  “Agora troquem de adaga com sua dupla.”

  Foi o que fizeram e, por pouco, não tiveram um ataque de tanto susto. Quando Darien pegou a adaga de Serena, esta se transformou em mel e lhe escorreu pelos dedos. A de Darien se decompôs em pétalas de rosa, a de Ami escorreu pelos dedos de Mina como água, a de Rey se tornou chamas nas mãos de Lita, que por pouco não queimaram, Ami viu a adaga de sua parceira se transformar em milhares de raios de sol em suas mãos e a de Lita caiu das mãos de Rey na forma de milhares de folhas verdejantes.

  “Viu como são fiéis?” satirizou Finna. “Agora para fazerem que elas voltem às suas mãos, digam: ‘Revenius mei’ que é ‘Retorne a mim’.”

  Todos repetiram as palavras de Finna e as adagas apareceram repentinamente nas mãos do respectivos donos, ainda muito estupefatos para dizer qualquer coisa. Também toda aquela sujeira de folhas, mel, etc. tinha sumido.

  “Agora vamos realmente começar com a aula, pois isso foi só uma preparação necessária. Os integrantes das duplas devem ficar um de frente pro outro ali no meio, onde há espaço.” ordenou Finna e foi prontamente obedecida. “Bem, já que está tudo certo, um de cada dupla deve pegar seu punhal e fazer um corte de uns 10 cm no meio do próprio antebraço.”

  “O quê?” perguntou uma irritadíssima Lita, “Você acha que vamos nos cortar tanto assim com isso?”

  “Se vocês não se cortarem, como vão aprender a curar?” respondeu Finna.

  “Porque não corta o seu braço então? Daí todos nós usamos ele de cobaia” sentenciou Lita

  “É simples. Como vocês não têm nenhuma intimidade com esse tipo de magia, e por isso ainda tem um poder muito fraco, o ferimento a curar deve ser em uma pessoa realmente querida, que vocês não querem ver sofrer. Isso ajudará a sua magia a emergir.”

  Lita torceu o nariz, fechou os olhos e fez uma cara emburrada, pensando que nunca ia fazer aquilo. Então ouviu uma voz sutil no seu ouvido, “Lita, temos que fazer isso. É muito importante para Serena.” Quando abriu os olhos, era Rey que lhe falava.

  “Rey...” murmurou e depois em voz alta, “Está bem, eu começo.”

  Todos voltaram sua atenção para Lita, que já pegava sua adaga e cortava seu antebraço do modo que Finna indicara. O primeiro fio de sangue saiu quente e dolorido, escorrendo incessantemente no braço de Lita.

  “Podemos ir rápido?” disse Lita como quem quer disfarçar a dor.

  “Sim,” começou Finna, “Agora, Rey, você deve colocar suas mãos acima no corte e fechar os olhos. Então concentre-se, deixe a magia fluir pelo seu corpo, tomar todas as suas veias e sair pelos poros de sua mão. Quando você sentir a mágica concentrada em suas mãos, pronta para transpassar sua pele diga, ‘Rememdium divinus, confutus cruor, crinus velius!’ (Cura divina, pare o sangue, feche a pele!)”

  Rey então posicionou adequadamente suas mãos e, vendo em Lita uma dor incessante, ficou ainda mais determinada. Quando fechou os olhos, procurou esquecer tudo mais que estava à sua volta, elevando sua concentração ao máximo. Percebeu rapidamente que o que buscava era o mesmo desligamento com o mundo exterior quando fazia leituras no fogo. Naqueles momentos, o que queria era entrar em sintonia com os deuses, para que lhe enviassem a resposta e, agora, o que buscava era a sintonia com algo que estava dentro de si, no fundo de sua alma, escondido por todos esses anos. Sua mente foi mergulhando numa escuridão cada vez maior e mais profunda e Rey percebeu que teria que procurar sua mágica dentro de sua alma. Foi como se tivesse mergulhado numa piscina, e logo começou a nadar, vasculhando todos os cantos obscuros que encontrava. Era tudo muito escuro, e Rey se perguntou se todas as almas eram negras assim ou só a dela. Depois achou que era um reflexo de como sua vida tinha sido nos últimos anos, o próprio inferno em terra. Sentiu que lembranças há muito esquecidas voltavam em sua mente, como os jantares que fazia com o pai todos os aniversários e que eram o único dia do ano que o via. Entre essas lembranças amargas, encontrou um lugar quente, onde uma chama parecia crepitar. Quando Rey tocou essa chama ela ganhou volume e foi tomando conta de seu corpo, correndo junto com seu sangue e se misturando com ele. Logo, ela sentia esse calor intenso queimando em sua mão e disse as palavras que Finna ensinara.

  Todos ficaram bobos quando Rey entrou em uma espécie de transe e não respondia aos chamados dos amigos. Finna ordenou que não a incomodassem e, instantes depois, Rey falou as palavras, ainda mergulhada em seus próprios sentimentos, com lágrimas escorrendo por suas bochechas rosadas. Ao fazer isso, o sangue parou de sair do ferimento e a pele de Lita se restabeleceu, como se nada tivesse ocorrido. Rey abriu os olhos.

  “Rey, deu certo, olhe!” e Lita colocou seu braço na frente dos olhos da amiga.

  “Sim...” murmurou Rey, com um desânimo. Finna chegou com uma cadeira e Rey se sentou imediatamente, parecendo que tinha doado 10 litros de sangue. Sua face empalideceu.

  “Ela está bem?” perguntou Darien, preocupado,

  “Sim, em alguns minutos ela se restabelecerá. Eu lhes disse que mágica era algo muito penoso.” disse Finna.

  Ami buscou um copo de água para Rey, que bebeu rapidamente. Em menos tempo que Finna imaginara, ela já estava bem.

  “Então eu consegui?” indagou Rey.

  “Sim. E mais rápido do que eu pensava. Você é dotada de uma grande dose de concentração.” Finna falou.

  “Ela faz leituras no fogo. É uma sacerdotisa de Shinto.” propagou Lita aos quatro ventos, ainda em êxtase por ver seu ferimento curado.

  “Então foi isso. Você estabeleceu um paralelo entre a concentração necessária para fazer as leituras e para encontrar sua mágica.” declarou Finna.

  “Sim. Agora sinto que minha mágica não está mais escondida, mas corre junto com meu sangue,” começou Rey, “Finna, por que minha alma é negra?”

  Finna foi pega de surpresa por essa pergunta, “É? Bem, talvez você não esteja vivendo anos muito bons nos últimos tempos.”

  “É exatamente o que eu pensei.” falou Rey desviando o olhar.

  “Quem vai ser o próximo? Lita vai ter que esperar Rey recuperar plenamente suas forças. Então? Mina, Ami, Serena ou Darien?” perguntou Finna.

  “Pode ser eu,” disse Ami, “acho que prefiro começar me cortando que mergulhando nos meus próprios problemas e anseios...”

  Todos então deram espaço para Mina e Ami. Os olhos azuis escuros logo enxergaram seu próprio sangue vazando por um grande corte no antebraço. Ami fitou Mina e implorou com um olhar que começasse logo.

  “Bem,” disse a loira, tensa, “aqui vou eu...”

  Mina colocou suas mãos acima do corte e fechou os olhos. Pensou que se Rey conseguira, ela também o faria. Tentou distrair sua mente, se concentrar em procurar a mágica perdida em seu corpo. Primeiro ela ficou pensando em como seria ser uma bruxa verdadeira, fazer diversos feitiços... Era excitante para ela só o fato de ter uma adaga e poder manejá-la. Depois imaginou como seria se ela tivesse o dom para a magia negra. Ela não sabia ao certo o que poderia fazer, mas sua mente logo pensou em zumbis, feitiços malignos e empolgantes como nos filmes. Logo ouviu uma voz gritando seu nome.

  “Mina? O que você está fazendo?” perguntou Serena.

  “Oi?” respondeu ela, não entendendo o que estava acontecendo, “o que foi?”

  “Você não está se concentrando nem um pouco.” falou Finna.

  “Ah, é...” Mina não sabia o que dizer.

  “Mina,” gemeu Ami, “Concentre-se por favor...” e fez uma careta de dor. Uma poça de sangue se ajuntava aos pés de Ami. Mina tinha ficado pensando em bobagens mais tempo do que percebera.

  “Certo, vou tentar de novo.”

  Ela fechou novamente os olhos e fez força em se concentrar, mas, definitivamente, esse não era seu forte. Nunca conseguira prestar atenção em uma só coisa, por isso que costumava ir mal nas provas, não conseguia se concentrar o suficiente para estudar direito. Pareceu-lhe um tempo interminável aquela segunda tentativa de concentração, já que sua mente estava totalmente embaralhada, cada pedaço de seu cérebro pensando em uma coisa diferente. Mina abriu um pouquinho as pálpebras, o suficiente para conseguir enxergar o que estava acontecendo, mas de modo que ninguém percebesse que estava olhando. Viu Ami fazendo uma cara de dor e Serena e Darien estavam preocupados. Finna não deixava que os dois se aproximassem pois não podia haver intervenção de outras pessoas. Ami falou que seu braço estava latejando e que estava sentindo agulhadas. Mina então abriu os olhos de uma vez.

  “Eu não consigo me concentrar,” declarou, “falta de concentração sempre foi o meu ponto fraco.”

  Ninguém sabia o que dizer, mas Rey levantou-se da cadeira onde estava sentada e foi até Mina. Ela tocou os ombros da loira e a virou de frente para ela.

  “Mina, fique calma. Você quer ajudar a Ami, não?” falou Rey.

  “Sim.”

  “Pense. Você pode se concentrar, já que é uma ótima jogadora de vôlei. Quantas vezes já não vi você marcando pontos direto do saque, não? Então, veja bem, para fazer aquilo você se concentrava muito, certo? Agora tem que fazer o mesmo. Imagine que este é o último saque e que a vitória depende disso. Marque o ponto, Mina, você consegue.”

  Mina sorriu para Rey e a abraçou gentilmente. “Agora vou poder ajudar Ami.  Graças a você.” murmurou no ouvido de Rey.

  Ela retomou sua posição e deu um olhar confiante para Ami antes de fechar os olhos. Logo se imaginou numa quadra de vôlei, com a bola em suas mãos. Tudo dependia dela. Foi fechando sua mente só nisso e, quando se sentiu pronta para o saque, apagou essa imagem de sua mente e caiu diretamente dentro de sua própria existência, pronta para procurar a magia dentro de si. Ela via tudo em preto e branco, piscando como se estivesse sendo iluminada por aquelas luzes de boates que fazem tudo ficar em câmera lenta. Sentiu-se andando num emaranhado de fios, e cada um deles era um momento de sua vida. Alguns dos fios cortavam, outros eram melados como se cobertos por mel. Instintivamente, foi se dirigindo para o fundo de sua alma e, a cada passo, os fios ficavam mais cortantes e os melados iam desaparecendo. Após certo tempo encontrou um casulo brilhante e, quando o tocou lembrou-se claramente do vulto perto que tinha visto da janela na noite anterior. Ele andava em sua volta, com seu grande capuz cobrindo sua face. Quando se aproximou de Mina, tirou sua capa e o que ela viu foi apenas um vulto de um homem coberto de sangue, que escorria por todos os cantos. Então ela arrebentou o casulo, sentindo uma dor terrível, causada pelos fios cortantes que o compunham. Entretanto uma luz dourada e quente como os raios de sol cobriram tudo e entraram em cada célula de Mina, que disse as palavras ensinadas por Finna.

  Quando fez isso, Ami sentiu um formigamento e um calor intenso no seu corte, que parou de sangrar e se fechou. Mina então abriu os olhos, viu que tinha curado o ferimento de Ami e, ainda abalada com a imagem do homem coberto de sangue, desmaiou.

  Logo foi acordada por Finna e Rey lhe dava um copo d’água. “Seja forte, Mina,” falou Rey, “Já passou. Você conseguiu, acabou tudo.”

  “Sim. Me sinto péssima, mas se Ami está bem, eu também estou. Muito obrigada, Rey, se não fosse você, eu nunca conseguiria. Acho... acho que lhe devo um pedido de desculpas.”

  “Imagina...” ia respondendo Rey.

  “Sim,” interrompeu Lita, “Eu também lhe devo desculpas.”

  “E eu também,” falou Ami.

  Então as quatro amigas se abraçaram, pensando no que viria pela frente.

  Darien então disse, “Minha vez.”

  Todas olharam para ele, que brincava com sua adaga de brilhantes pérolas negras, que reluziam estranhamente com a luz violeta.

  “Por que a luz é dessa cor?” perguntou Darien.

  “Bem,” falou Finna, “Tal qual fotos precisam de luz vermelha para não estragarem durante a revelação, algumas mágicas necessitam de luz violeta, já que as outras cores às vezes interferem no andamento das coisas. Por exemplo, se eu ligasse a luz normal aqui, vocês nunca conseguiriam encontrar seus poderes dentro de si, pois eles reagiriam de forma inadequada e, em vez de ficarem parados, escondidos num só ponto, mudariam de lugar a cada segundo na velocidade da luz.”

  “Então,” recomeçou Darien, “posso fazer o corte?”

  “Se Serena estiver pron...” ia dizendo Finna quando Serena interrompeu com um sim.

   Darien ficou de frente para sua amada e disse calmamente, “Coragem, força, tranqüilidade. Essas são as palavras chave.” O sangue correu pelo gume e manchou algumas pérolas. Serena colocou suas mãos sobre o ferimento de Darien e fechou os olhos lentamente, iniciando de imediato uma queda vertiginosa para dentro de seu próprio ser. Parecia estar num abismo extremamente profundo, daqueles que pareciam não ter fim. Sentia muito frio e percebeu estar nua, coberta por uma camada de luz. Então, para seu espanto e terror, um enorme Jedite apareceu em seu caminho. Serena fechou os olhos, achando que iria colidir com ele, mas ultrapassou-o como se passasse por um fantasma. Era apenas uma imagem, mas, quando olhou para seu corpo, estava com manchas de algo negro, pegajoso. Serena cheirou o material, e percebeu que era algo parecido com piche, mas... havia algo mais. Ela não sabia exatamente o que era, contudo estava convicta de que não era nada de bom. Logo uma imagem de Neflyte, semelhante à anterior, apareceu e ao passar por ela, Serena ficou com mais daquele material. Com a maior quantidade, Serena logo percebeu que o que estava misturado com o piche era sangue. Sentiu uma terrível vontade de vomitar, e não queria passar por nenhuma daquelas imagens de novo.

   “Vadia!” uma voz ecoou pelo abismo.

  “Você é a responsável por nossas mortes!” outra voz fez coro com a anterior.

  Serena estava atordoada, não sabia o que fazer para se livrar daquela sujeira e agora essas vozes a acusavam.

  “Assassina! Você tem as mãos manchadas com o nosso sangue!” gritou alguém.

  “Não! Não é verdade! Eu não tive culpa!” bradou Serena, lágrimas saíam de seus olhos. Passou por Zyocite e seu corpo se cobriu inteiro daquela imundice.

  “Você teve culpa! Você, direta ou indiretamente, foi a responsável pelas nossas mortes!”

  “Mas eu não tive escolha! Vocês estavam ameaçando a Terra e as pessoas que vivem nela!”

  “Os fins não justificam os meios. Você é uma assassina nojenta!”

  E a cada metro Serena passava por mais um de seus inimigos, sendo manchada pelo sangue imundo deles. Ademais, as ofensas não paravam e o pior de tudo é que Serena sempre se sentira culpada por matar toda aquela gente, pois realmente acreditava que os fins não justificavam os meios. Estava se sentindo culpada e amedrontada e só gritava que não tivera escolha, que não queria tê-los matado.

 

  “Não! Não! Não foi minha culpa!” gritava Serena, em uma espécie de transe. Rey e Darien estavam preocupados e queriam fazer algo para ajudá-la, mas Finna repetia, “Não interfiram.”

  Mina já estava recuperada e conversava com Ami no sofá.

  “Por que temos que passar por todo esse sofrimento? Ainda me pergunto se foi uma boa idéia recuperarmos nossos poderes,” dizia a loira.

  “É, eu às vezes penso como você, mas depois lembro que temos que salvar Hikari e então minhas dúvidas se vão. Serena está completamente desolada com o rapto da filha.”

  “É o que me motiva também. Pelo menos isso serviu para que eu pudesse perdoar Rey. Se algo assim não acontecesse, acho que eu nunca veria nela a amiga que sempre fora. Sabe, eu sou meio orgulhosa e tenho dificuldade em pedir desculpas e em perdoar, por isso algo tem que me pegar pelos ombros e me chacoalhar para que eu perceba que estou cometendo um erro com alguém.” falou Mina.

  “Estou preocupada com Serena, acho que está passando por maus bocados. Ela não pára de gritar.” disse Ami.

  “Vamos até lá.” E as duas se uniram a Finna, Rey e Darien.

 

  Serena tinha acabado de passar por Rubens quando sua pele começou a escurecer. Ela sentiu que aquela coisa estava entrando dentro de si e quando se deu conta chorava lágrimas de sangue. Serena estava desistindo, mas lembrou-se de Hiraki. Viu que não podia desistir, que tinha que superar todas as mortes que estavam em seu passado. Serena então fez ouvidos moucos para as vozes que só tinham o intuito de deixá-la frágil e desesperada e colocou-se em posição de mergulho, acelerando a velocidade da queda. Logo estava passando pelo Trio Amazonas e depois por Sailor Iron Mouse. Contudo, quando viu uma enorme massa negra que borbulhava como um caldeirão fervente, o Caos, teve uma vontade súbita de parar, pois sentia que não iria agüentar a podridão da fonte de tudo que é mau. Então, como num ato inconsciente de defesa, asas saíram de suas costas e a fizeram parar logo acima do Caos. Serena pensou por alguns minutos, mas lembrou-se que tinha que encontrar sua mágica dentro de si para curar Darien. Os bons momentos que passaram juntos vieram em sua cabeça como uma fonte de inspiração, dizendo a ela que tinha que mergulhar dentro do Caos.

  Foi o que fez. Ao penetrar no Caos, sentiu-se dentro dum balde gigante de piche e não conseguia respirar. Quando finalmente achou que ia sufocar, saiu do outro lado e tudo se iluminou. Caiu em um lago de luz cálida e translúcida e toda a culpa e a sujeira que havia em Serena foi retirada. Sentiu que aquele enorme lago era a sua mágica assim que aquela luz começou a penetrar em seus poros. Se concentrou e disse as palavras ensinadas por Finna.

 

  “Rememdium divinus, confutus cruor, crinus velius!” disse Serena num espasmo e o ferimento de Darien cicatrizou. Ela caiu em seus braços.

  “Você está bem, Serena?” perguntou ele.

  “Foi horrível, Darien,” disse chorando, “foi horrível ver e ouvir tudo aquilo mas eu consegui.”

  “Sabíamos que conseguiria,” disse Ami.

  “Afinal,” continuou Lita, “É a mais forte de nós.”

  “E a mais corajosa,” falou Mina.

  “É a nossa querida princesa.” terminou Rey.

 

  Todos ficaram em silêncio por alguns instantes, ainda enternecidos pelas lágrimas de Serena quando Finna propôs um descanso. Serena, Rey e Darien ficaram sentados perto da lareira enquanto Serena se recuperava. Ami, Lita e Finna foram fazer um pouco de café para aumentar os ânimos. Mina também subiu com elas, mas preferiu sair um pouco para dar uma voltinha. Finna pediu a ela que não demorasse, pois a próxima seria Lita, e Mina disse que só ia ficar perto da casa.

  Quando saiu no jardim, uma brisa repentina gelou suas maçãs do rosto, que tinham uma coloração levemente rósea. Mina passou pelas belas flores e ervas de Finna e olhou de relance, ao contrário do que faria Lita. Começou a pensar que todas as confusões que aconteceram em suas vidas serviram ao menos para atá-las com fortes laços de amizade e amor, embora sentisse que nunca poderia amar alguém plenamente que não fosse a princesa e suas companheiras. Era uma espécie de devoção, missão a cumprir, e estava escrito em alguma espécie de contrato, em letras miúdas, que teria que abdicar da paixão de um homem em prol de sua incumbência. Mina começara a pensar nisso logo após que se separara das outras pois, em seus momentos de solidão, ficava lembrando e analisando cada momento que viveram juntas e vira que nem ela e nem Ami, Rey e Lita conseguiram se ligar a um alguém especial. Nesses instantes de reflexão pensava muito em Alan e em como sua paixão não tinha dado certo, tal qual a de Lita e Rey. Sentia muita vontade de chorar, mas sempre sua grande amiga Nanako a confortava.

  Nem se dera conta que estava dando voltas na casa e, quando acordara de seus devaneios, estava olhando para a casa de onde vira o vulto sair na noite anterior. Era uma construção bem semelhante à de Finna, mas as paredes eram de um cinza triste e todas as janelas tinham pesadas cortinas pretas. A porta tinha tantas trancas que Mina ficou ainda mais curiosa sobre quem moraria em semelhante local. Contudo, algo estalou em sua mente e Mina saiu correndo de volta para a casa de Finna, pois precisava falar com as meninas sobre algo que lembrara.

 

“Mina, o que foi?” perguntou Ami ao vê-la entrar correndo.

“Ami, Lita, venham logo até aqui em baixo que eu preciso falar com todos vocês,” disse Mina.

 Quando todos estavam reunidos no porão, Mina começou a esclarecer o assunto.

  “Eu sei que viemos para cá na pressa,” ia dizendo, “mas e Artemis e Lua? Deixamos eles lá sem maiores explicações. Além disso, todos devem estar preocupados com nosso sumiço. Isso sem contar que ontem nos ajeitamos com o que Finna nos emprestou, mas se vamos ficar precisaremos de roupas e afins.”

  Todos pensaram por alguns instantes. Finna quebrou o silêncio.

  “Bom, pelo que entendi, vocês devem estar falando dos gatos guardiões, certo? Pois bem, faremos um feitiço para traze-los até aqui sem irmos até lá. Traremos roupas também. Quanto aos familiares, sinto dizer que ficarão sem notícias...” disse ela.

  “Mas porque não podemos ir até lá?” perguntou Lita.

  “Simples. As movimentações de saída e entrada ficam todas gravadas no computador central da cidade. No dia em que vieram, Titã tinha acabado de sair de uma batalha e possivelmente não contava com a possibilidade de vocês clonarem o portal dele. Enfim, o fato é que se Titã possuir um acesso secreto ao computador da prefeitura, ele já deve estar monitorando as entradas e saídas, esperando por sinais vitais semelhantes aos de vocês que ele provavelmente colheu na batalha. Por isso é mais prudente que vocês não usarem portais entre as dimensões.” explicou Finna.

  “Certo. Só gostaria que não ficassem preocupados conosco...” murmurou Serena.

  “Talvez eu possa dar um jeito nisso,” falou Finna para Serena, “mas não garanto. E não será de imediato, já que tenho que fazer algumas pesquisas.” Serena olhou compreensiva para Finna, que sentiu um calor poderoso se apoderar de seu corpo. “Essa menina...” pensou.

  “De qualquer forma, só faremos isso após que todos vocês tenham despertado suas respectivas magias.” sentenciou Finna e serviu o café que tinham feito.

   Houve então um momento mais descontraído que, ao olhar de Finna, era apenas perda de tempo, mas, de observadora que era, percebeu que eles precisariam disso para aliviar as tensões.

  “Então,” falava Serena, “o que fez durante esses anos, Lita?”

  “Bem, eu fiz alguns cursos de culinária e estava trabalhando como chefe de cozinha num restaurante.” respondeu.

  “Então estava realizando seu sonho,” falou Rey.

  “De certa forma, sim,” disse com um suspiro, “Apesar de que com essas faltas que vou ter agora é bem capaz que eu seja demitida... E você, Ami, finalmente se tornando médica?”

  “É... Espero que sim.” respondeu pensativa.

  “O que quer dizer com isso?” perguntou Mina.

  “Bem, é que eu não estava muito bem de notas e...”

  “O QUÊ??! Você não estava bem de notas??” falou uma assustada Serena.

  “O que houve, Ami?” indagou Darien.

  “Bem,” ela começou a responder, “É que eu estava meio deprimida esses últimos tempos e não conseguia me concentrar... Tinha que estudar muito agora para recuperar minhas notas e ainda estava fazendo estágio... Acho... que vou ter que refazer o último período.”

  “Fico triste em pensar que vai repetir o período porque vai estar aqui me ajudando,” disse Serena.

  “Ah, não fique! Acho que iria repetir mesmo se não estivesse aqui! Mas vamos mudar de assunto, certo?” falou toda sem graça, “E o que você estava fazendo, Rey?”

  “Nada de muito importante. Além de cuidar do templo eu preparava uma peça com o grupo de teatro. Mas agora eles terão que ensaiar sem mim.”

  “Que peça?” perguntou Darien.

  “Romeu e Julieta.”

  “Estou enganada se afirmar que você fazia o papel da Julieta?” disse Mina.

  “Não, está certa.”

  “Eu sabia! Imagina se a Rey ia aceitar nada menos que o papel principal!” falou Serena e todos riram.

  “E Nicholas? Estão juntos?” disse Lita.

  “Bem,” Rey ficou pensativa, “Estávamos, mas... Não estamos mais.”

  “Por quê?” Lita ficou curiosa.

  “Estarei sendo rude se não quiser falar sobre isso agora? Ainda é muito penoso para mim.”

  “De jeito nenhum.”

  Finna chegou perto deles e lembrou-os do que deveriam fazer. Todos levantaram e o clima tenso se apoderou da sala novamente. Tinham que acabar o que começaram.

  Rey se colocou no centro da sala perante Lita, que parecia muito nervosa. Rey pegou as mãos da amiga entre as suas e deu um sorriso reconfortante. Lita sentiu que Rey confiava nela e isso a fez se sentir mais segura. Rey então sacou sua adaga de rubis e fez um corte em seu antebraço. Lita posicionou suas mãos e fechou lentamente os olhos.

  Tudo ficou escuro, mas Lita ainda sentia a presença de todos a sua volta, indicando que ela ainda não tinha se concentrado o suficiente. Ficar de olhos fechados apenas fez com que ela perdesse um pouco a noção de equilíbrio, ficando um tanto tonta. De quando em quando ouvia um gemido de Rey, que se esforçava ao máximo para não deixar Lita ainda mais nervosa. Ela então deu um suspiro profundo e centrou seus pensamentos em seu próprio corpo. Nada aconteceu no início, mas Lita foi se distanciando cada vez mais daquela sala e das pessoas que estavam lá e logo se encontrava num lugar escuro, irreconhecível, onde não conseguia ver seu próprio corpo.

 

  Lita abriu os olhos e se encontrava num avião. “Como vim parar aqui?” pensou. Olhou pela janela e a visão de nuvens brancas a deixou amedrontada, pois em nada lhe agradava a idéia de estar voando a milhares de pés de altura. “Odeio aviões...” pensou enquanto se levantava. Estava na ponta da frente do avião e foi andando em direção ao fundo, observando com espanto a cara das pessoas, que pareciam tristes. Já tinha passado da metade do avião quando um homem chamou sua atenção. Era alto e usava um chapéu marrom com um terno muito bem cortado na cor cáqui. O homem olhou para ela diretamente e Lita, olhando aquele bigode, a barba bem cuidada, sentiu um aperto no peito.

  “Poderia nos dar licença?” perguntou uma voz de mulher atrás de Lita.

  Lita se virou para dar passagem a mulher, que levava uma menininha de uns 3 anos pela mão e percebeu logo quem eram: nada mais que seu pai, sua mãe e... ela, quando tinha apenas três anos. Enquanto a mulher sentava com a filha, Lita ficou parada, um turbilhão de pensamentos em sua mente. Ela não se lembrava desse dia, mas algo lhe dizia que fora o dia em que seus pais morreram.

  Lita milagrosamente sobrevivera ao acidente de avião em que todos os outros passageiros morreram. O avião tinha tido uma pane numa das turbinas e caíra a três quilômetros da ilha onde Lita fora encontrada. OP surpreendente é que só ela chegara até a ilha, visto que houve tantas explosões que quando o avião se chocou com o mar, todos os passageiros e tripulantes provavelmente já estavam mortos.

  Ela queria avisar a todos sobre o que ia acontecer, mas algo dentro de si dizia que nada poderia mudar o passado. Isso a bloqueava de tal forma que não conseguia abrir a boca. De repente, um ruído surdo foi ouvido e o avião tremeu, causando o pânico nas pessoas. Em segundos aconteceu a primeira explosão. Os pais de Lita foram jogados no chão, e a menininha se agarrou no assento com todas as suas forças. Na segunda explosão, o avião ficou em chamas. A pequena Lita gritava de terror, mas seu pai tinha ficado preso nos destroços de um banco e sua mãe tentava ajudá-lo. Outra explosão e o avião se tornou o próprio inferno; uma labareda tremeluzia tão perto da pequena Lita que seus cabelos castanhos chamuscavam. Enquanto isso Lita não conseguia nem se mexer, sendo obrigada a assistir àquele pandemônio. Contudo, quando o fogo pareceu engolir a pequena Lita, o símbolo de Júpiter brilhou em sua testa e a envolveu com uma luz verde, transportando-a por mágica para a ilha onde fôra encontrada. Então pareceu que o avião ficou livre para explodir de vez e Lita viu com seus próprios olhos seus pais sendo consumidos pelas chamas. Eles gritavam de dor e sofrimento e Lita chorava imóvel. Ela não agüentava ver essa cena, que parecia sempre se repetir ante seus olhos. Metade do rosto de sua linda mãe estava tão queimado que partes brancas do osso já apareciam. Lita queria se libertar disso, mas não conseguia nem falar. Ela então juntou suas forças e todo a saudade que sentia de seus pais estourou dentro de si, fazendo-a gritar de angústia, dizendo que não merecia ver tal cena sofrível. Tudo então começou a ficar turvo e Lita, ao firmar novamente a vista, viu-se numa ilha deserta, enquanto uma bola de fogo caía no mar. À sua frente, a pequena Lita chorava assustada e brilhava num tom verde. Lita a abraçou e sentiu aquele brilho quente da menina entrar em seu coração; tinha encontrado a sua magia.

  Disse então as palavras ensinadas e o corte no braço de Rey foi se fechando até parecer que nada tinha ocorrido ali. Lita abraçou Rey, “Obrigada por confiar em mim, Rey. Mas por que temos que ver coisas tão horríveis?”

  “Para nos acostumarmos com o que vem pela frente...” respondeu Rey lentamente.

 

  Hotaru estava indo para seu curso de pintura quando viu Setsuna sentada na mesa de uma lanchonete. Ela virou-se toda contente e foi em direção à amiga.

  “Oi!” falou Hotaru.

  “Olá, querida, sente-se.” respondeu Setsuna.

  “Novidades?”

  “Algumas.”

  “Conte-me então.”

  “Bem, depois de terem recuperado seus poderes, as Inner Senshi e Tuxedo Mask foram para outra dimensão.”

  “Sabe qual?”

  “Não. Elas não usaram um portal comum do tempo e espaço. Foi algo... sobrenatural... Senti isso pela interferência que houve na Porta do Tempo. Ficou inutilizável até elas chegarem em seu destino misterioso.”

  “Acha que elas sabem para onde foram?”

  “Sinceramente?”

  “Sim.”

  “Acho que foram sem saber. Até onde eu sei, elas não poderia usar esse tipo de mágica.”

  As duas ficaram em silêncio, preocupadas. Hotaru pediu um suco e Setsuna outro capuccino.

  “Sabe...” começou uma perspicaz Hotaru, “Acho que Sailor Mercúrio deve ter clonado esse portal sobrenatural de algum feiticeiro que perseguiam...”

  “Só pode ser Titã, não acha?” Setsuna perguntou inquieta.

  “Sim. Isso me deixa apavorada, sabe? Ele definitivamente não é flor que se cheire. Eu pesquisei sobre a história dele e de seu pai, Titan na época do Milênio de Prata e não gostei nada do que descobri.”

  “Eu posso lhe assegurar que todos os dados são reais. Eu era muito amiga de Cibele... ela sofreu tanto...”

  “Setsuna,” disse Hotaru iniciando uma pergunta, “Você acha que a maldição que Titan lançou sobre Cibele pode ter a ver com meus... ataques?”

  “Bem,” respondeu Setsuna, “Eu sei que ele determinou que Cibele morresse se tivesse outro filho mas... Não tenho certeza se ele lançou algum feitiço sobre esse filho... Porém acho que é bem provável.”

  “Ontem eu achei que ia ter um ataque. Estava quase ligando para você, mas todos os sintomas cessaram antes que eu pudesse te chamar.”

  “Fique tranqüila que em breve eu descobrirei um jeito de fazer com que isso pare.”

  “Assim espero. Mas o fato das meninas terem ido para um mundo desconhecido com poderes tão fracos está me deixando ainda mais preocupada. Não há nada que possamos fazer, Setsuna?”

  “Não, Hotaru. Não agora, pelo menos.”

  “Bem, tenho que ir. Já estou atrasada para minha aula de pintura.”

  “Falando em pintura, ouvi falar que Michiru irá fazer uma exposição no prédio da sua escola de artes, é verdade?”

  “Infelizmente. E eu fui a escolhida para dar as ‘boas-vindas’ à exposição em nome da escola.” disse Hotaru com cara de tédio.

  “Quer que eu vá? Michiru pode tentar algo contra você, não?”

  “Eu acho que ela não vai se expor na frente de tanta gente.”

  “Você quem sabe. Qualquer coisa me liga, certo?”

  “Certo,” disse Hotaru se levantando e pegando sua carteira, “Aqui está o dinheiro do suco.”

  “Imagine,” respondeu Setsuna com um sorriso, “É por minha conta.”

  “Obrigada, até mais!”

  “Até, Hotaru!”

  Setsuna ficou observando Hotaru se afastar. Não estava certa de que Michiru não tentaria nada contra ela. Nas últimas semanas Urano e Netuno tinham estado quietas demais, não chegando a ameaçar Hotaru uma só vez. “Quando a esmola é demais, até o santo desconfia...” pensou Setsuna.

 

  Ami se aproximou de Mina. “Acho que ainda não estou pronta...” sussurrou.

  “Por que diz isso?”

  “Sei lá, Mina, acho que não vou conseguir...”

  Mina virou-se abruptamente e chamou Finna. “Será que podemos deixar Ami por último?” perguntou.

  “Se assim desejarem...” respondeu calmamente Finna, “Darien,” chamou, “Serena e você serão os próximos, certo?”

  Finna deixou o meio da sala livre ao ver o casal assentir. Serena tremia um pouco, pois estava receosa em fazer o corte, mas se amparava em Darien. Pararam no meio da sala e ficaram frente a frente. Darien se curvou um pouco e beijou Serena. Ela então soube que ele daria a vida por ela e um reflexo vermelho rebateu de sua adaga de diamantes.

  Darien cerrou os olhos e mergulhou em um emaranhado de imagens do passado. Para todos os lados que olhava, via Serena, em suas mais diversas expressões. Lembrou-se de suas brigas e de todas as vezes que seu amor superou as barreiras do imaginável. Uma tristeza foi tomando conta de seu coração lentamente, como uma traça roendo um livro ao longo dos anos. Ela não era por causa de Serena, mas sim porque Darien percebera que todas as suas lembranças eram de Serena e, que sem ela, nada em sua vida tivera sentido. Não que não gostasse disso, mas notar que seu ser existe apenas em decorrência de um outro é difícil de aceitar. Pensando nessas coisas, ele lembrou do trágico acidente em que seus pais morreram e em que perdera sua memória... Era isso... Ele tinha existido plenamente um dia, mas seu destino era proteger e amar Serena sem nada mais para atrapalhar... Por isso seus pais morreram... Para que seu destino fosse cumprido, já que eles estariam viajando para os Estados Unidos uma semana depois do dia do acidente. Um gemido de Serena fez com que despertasse, e pensou então que de nada adianta brigar contra o destino. E se assim era, deveria encontrar sua magia perdida, para o bem de sua amada e de sua linda filhinha. Era por elas que tinha que viver agora. Ele então viu um botão de rosa em sua frente e, ao tocá-lo, libertou seu poder, curando Serena.

  Darien se sentiu aliviado ao ver o desabrochar de um sorriso em Serena. Então teve uma tontura, sendo amparado por ela, que olhava calidamente para ele. Darien pensou que viver em prol da felicidade de alguém tão doce e meiga não era nada mal.

  Ami foi então para o centro, acompanhada por Mina, que percebia algo estranho em Ami, pois esta tremia. Mina nunca havia visto Ami tremer.”O que foi?” perguntou.

  “Nada,” disse orgulhosa. “Vamos começar de uma vez.”

  Mina então fez o corte, muito fria e controlada, e a amiga se posicionou, fechando os olhos em seguida. Ami estava concentrada, mas nada acontecia. Sua consciência ficava gritando para ela “Não vai dar certo! Deixe de bobagens!” e isso deixava Ami preocupada. A verdade é que ela sempre fora sensata e racional, e não estava preparada para entrar no mundo da magia. Acreditava que nem possuía mágica alguma. Isso tudo dificultava as coisas para ela, que a cada instante ficava mais nervosa.

  “O que foi, Ami?” indagou Mina com um gemido.

  Ami abriu os olhos. “Eu não tenho magia,” falou chocando a todos, suas mãos tremiam, “e não acredito que possa fazer nada de mágico. Tudo no mundo tem uma explicação e, como o que acontece aqui não tem, significa que não existe. Preciso ocupar meu tempo com coisas reais.” Então subiu correndo as escadas, deixando seis pessoas perplexas para trás. Mina e Lita saíram correndo atrás de Ami, e Serena pediu que Rey ficasse com Darien, que ainda estava fraco, para que ela pudesse convencer Ami a voltar. Finna então decidiu subir e ir procurando algum feitiço para trazerem os gatos e algumas roupas para Eros.

 

  “Ami! Onde você está?”

  “Volte aqui! Vamos conversar!” Mina e Lita gritavam.

  “Acharam ela?” perguntou Serena, vinda dos quartos. Obteve uma negativa.

  Foram então checar a cozinha e a sala de jantar, mas nenhum sinal de Ami fora encontrado.

  “Ela pode ter saído.” supôs Lita.

  “Vamos dar uma volta pela vizinhança? Ela pode ter saído para arejar as idéias.” propôs Serena, e todas as três deixaram a casa, preocupadas com o desaparecimento de Ami.

 

  Rey e Darien estavam sentados no sofá perto da lareira. Vez em quando ela ouvia um gemido.

  “Você está bem, Darien?”

  “Um pouco exausto... Mas logo estarei bem...”

  “Sabe...” começou Rey.

  “O quê?”

  “Eu acho que te devo desculpas...”

  “Imagine. Acho que você deve parar de se culpar, afinal, as meninas já te perdoaram.”

  “Mas eu não me perdoei. Nunca vou me perdoar por ter feito aquilo.”

  “Rey, você têm que superar isso. Não se martirize.”

  “Como eu posso ter feito aquilo com a Serena? Eu a amo tanto, a admiro, a protejo... e a traio...”

  “Eu já disse que ela te perdoou, Rey...” disse Darien com ternura.

  “Mas eu não posso me perdoar,” gritou Rey, lágrimas nos olhos, “Não posso! Não posso porque eu... eu ainda te amo!” e subiu correndo as escadas, deixando Darien perplexo, sentado no sofá, pensando em que fim isso teria.

 

  Logo as meninas voltaram, pois não acharam Ami por perto e não achavam que ela teria ido muito longe num mundo tão estranho. Rey estava sentada na mesa da cozinha quando chegaram.

  “Rey, por que você não está com o Darien?” perguntou Serena, intrigada.

  “Ele já está bem, não se preocupe. E a Ami?” disse mudando de assunto.

  As meninas contaram que não tinham achado a amiga. Todas sentaram e ficaram pensativas, sem saber direito o que fazer. Finna saiu de seu quarto e foi ao encontro delas.

  “Que tal fazermos o almoço?” sugeriu Finna.

  Como resposta obteve quatro olhares raivosos de “como pode pensar em comida com Ami desaparecida!”. Finna suspirou profundamente e sentenciou, “Já olharam por toda a casa?”

  Um “sim” uníssono ressoou.

  “Inclusive no sótão?”

  Todas olharam para Finna, percebendo a falha em suas buscas. Logo as escadarias do sótão tremiam com a manada de garotas subindo. Era visível: sentada, com os joelhos encolhidos e os olhos inchados de chorar, Ami estava lá.

  “O que aconteceu?” perguntaram todas.

  Ami levantou os olhos se sentindo envergonhada e por um momento não soube o que dizer.

  “Ami...” aproximou-se Rey, “pode se abrir conosco... Somos suas amigas e só queremos o se bem. Não vamos lhe julgar.”

  As meninas sentaram-se perto de Ami e Serena abraçou a amiga, “Estava com medo que você tivesse ido embora para sempre,” disse a amiga.

  “Bem,” começou Ami, enxugando as lágrimas, “O problema é que eu acho que não vou conseguir encontrar minha magia, pois realmente não acredito que exista tal coisa dentro de mim. Sabem, minha mãe e meu pai eram felizes no início... Acho que os dois se completavam: mamãe era ponderada e racional e papai um sentimental que se deixava levar pelo momento e vivia as emoções com toda a intensidade possível. Mas com a convivência, a rotina, muitas desavenças foram se colocando entre eles e minha mãe o expulsou de sua casa e de nossas vidas. Papai saiu, e nunca mais escreveu nem telefonou, só me manda uma ou outra pintura no meu aniversário. Por tudo isso, eu cresci somente com a racionalidade de mamãe, e da emotividade e entrega de papai pouco restou em mim. Tornei-me então essa mulher fria que busca explicações para tudo... Aceitei nossos poderes de Sailor falando para mim mesma que aquela energia poderosa era uma parte de nós, herdada de nossos antepassados do Milênio de Prata. Contudo, em relação à magia, à revelação que podemos fazer essas coisas sobrenaturais, sem explicação nenhuma, bem...” suspirou profundamente, “Não consigo aceitar.”

  “Ami,” falou Lita, “para você encontrar sua magia, você tem que acreditar que ela existe!”

  Ami desviou o olhar, ouvindo de longe os incentivos das amigas. Não, ela não tinha mágica. Não adiantava insistirem. Pensamentos desse tipo rodopiaram em sua cabeça como num vendaval até que Finna irrompeu das escadas. Ela foi até o centro da sala e abriu um livro com páginas em branco.

  “Eu não queria ter que fazer isso, pois tudo é bem mais fácil quando não pedimos provas de tudo. Mas já que não há outro jeito...” Todas olharam para Finna, que recitou, “Imago praevius, redus noster praesentia. Necessarius testimonium veritas.” (Imagens anteriores, retornem a nossa presença. Necessária a prova da verdade.)

  Do livro então emanou uma luz brilhante e ele projetou uma holografia no meio da sala. Viam um quarto com um berço muito rico no centro. Dentro do berço, estava um bebezinho muito meigo e enroladinho. Era uma menina, Ami, para ser mais preciso e brincava com uma chupeta. Tinha mais ou menos 10 meses e um sorriso lindo. Entretanto, a chupeta caiu de suas mãos e passou pelo vão do berço. Ami chorou, mas a babá tinha ido fazer sua mamadeira e não escutara o choro da cozinha. Ami estendeu o braço para tentar pegar a chupeta, mas seus dedinhos não a alcançavam. Foi ficando mais e mais impaciente, até que, num rompante de irritação, ficou com o corpo todo tenso e contraído e a chupeta veio flutuando do chão até sua mão, dentro do berço.

  A holografia se dissipou e, sob olhares atônitos, Finna disse, “Como vocês viram, essa foi uma manifestação da magia de Ami. É bem natural as pessoas que tem poderes terem essas manifestações até 1 ano de idade. Normalmente eles despertam e depois voltam a se esconder mas, quando isso não ocorre, as crianças crescem com essas manifestações e por muitas vezes são achadas de loucas, possuídas, etc.”

  “Então eu realmente tenho uma magia...” murmurou Ami.

 

  Desceram em seguida para o porão e encontraram Darien no mesmo sofá que estava quando o deixaram lá, na mesma posição. Ele brincava delicadamente com a ponta de sua adaga.

  “O que foi?” perguntou gentilmente Serena, passando as costas de sua mão na face de Darien.

  “Nada,” respondeu rapidamente, “Acharam a Ami?”

  “Estou aqui,” falou ela.

  Todos foram então para o meio da sala, mas Serena ficou sentada pensando, “Estranho...”

  “Vai ficar aí?” perguntou Lita.

  A loira então se levantou e colocou-se ao lado de Darien, passando suas mãos entre a cintura do rapaz e aconchegando a cabeça em seu ombro.

  Mina estava um pouco nervosa, mas se controlou o suficiente para fazer o corte com precisão cirúrgica. Ami então colocou suas mãos sobre ele e fechou os olhos. Logo ela descobriu que o que estava bloqueando sua concentração era apenas sua mente racional, que precisava de uma prova de que havia magia dentro dela. Portanto, Ami quase imediatamente mergulhou em seus pensamentos e lembranças.

  No começo, tudo estava escuro demais, e ela se sentia flutuando em águas calmas. Lentamente, sua visão foi se acostumando com a escuridão e, projetado no lugar onde estaria o céu, viu imagens de todos os momentos que experimentara drogas. Ver-se daquele jeito era algo deprimente para Ami, tão correta. Ela sentia como se fosse uma fraca, uma idiota, que brincara com fogo e por pouco não se queimara. Ela ficava fora de si, gritava, falava bobagens. Isso foi apertando o coração de Ami e ela foi se sentindo pesada, afundando cada vez mais na água; quando se deu conta, sua cabeça estava quase toda submersa. Tentou emergir, mas não conseguiu, vendo-se cada vez em lugares mais fundos. Seu ar estava acabando rapidamente, mesmo com o grande fôlego de nadadora que tinha. Resolveu nadar a favor da corrente, já que algo muito forte a puxava naquela direção. Seus esforços foram válidos, já que, quando não havia mais ar nenhum em seus pulmões, achou uma gigante bolha de ar. Rapidamente colocou sua cabeça dentro da bolha e inspirou profundamente. Para sua surpresa, o que preencheu seus pulmões e em seguida seu corpo todo, foi uma grande força, sua magia. Ami falou calmamente as palavras ensinadas por Finna e o corte de Mina cicatrizou.

  Ami abriu os olhos, ofegante, e sentou-se logo para não desmaiar. Seus olhos tinham lágrimas, ainda causadas pelas lembranças de todas as burradas que tinha feito. Mas agora tudo tivera fim. Encontrara novamente sua força, encontrara suas amigas.

 

  Finna deu um suspiro, “Finalmente acabou. Bem-vindos ao mundo da mágica.”

  “O que faremos agora?” perguntou Mina.

  “Que tal um descanso? Acho que vocês ficaram muito exaustas hoje, não? Por que não se arrumam e vão conhecer a vida noturna da cidade?” propôs a bruxa.

  “Eu gosto da idéia...” disse Lita com um sorriso maroto.

  “Vamos começar a nos arrumar, meninas?” animou Rey.

  Todos começaram a subir as escadas quando Finna gritou, “Esperem!”

  Viraram-se.

  “O que foi?” perguntou Serena assustada.

  “Bem, vocês falaram que tinham que trazer roupas e dois gatos da Terra, não? Vamos trazê-los antes de vocês se arrumarem?” propôs Finna.

  “É que..” começou Mina, “Sabe, Finna, acho que, como vamos sair, é melhor deixarmos para trazer eles amanhã... Acho que não vamos querer a Lua e o Artemis aqui pegando no nosso pé... E ainda teríamos que explicar tudo pra eles, ia demorar um tempão...”

  “Mina,” interrompeu Finna, “Pode deixar que eu já entendi a mensagem. Vão e se divirtam essa noite. Pode ser a última de diversão.”

  Saíram, Serena e Darien foram para seu quarto e as meninas se dividiram em duplas para usarem os dois outros banheiros. No quarto, Serena sentou Darien na cama e, olhando nos olhos dele perguntou, “O que aconteceu? Desde que voltamos para o porão com Ami você está estranho.”

  “Nada,” disse, atônito, “É só sua imaginação.”

  “Darien, você não acha que eu já te conheço demais para você tentar me enganar?”

  Ele ficou pensando por um momento. Como poderia falar para Serena o que Rey lhe dissera a pouco? Seria cruel. Agora que elas tinham voltado a se entender, ele não podia destruir tudo. Ademais, nada de importante tinha acontecido.

  “É que eu fiquei pensando em nossa filha... Como ela estará agora? E se estiver sofrendo? Gostaria de trocar de lugar com ela se fosse possível.”

  Os olhos de Serena se enterneceram e ela abraçou Darien. “Então era isso... Eu também me sinto como você, mas decidi que temos que ser fortes e aprendermos o máximo possível para podermos ajudar Hikari. Temos que fazer isso por ela.”

  “Serena...” começou a dizer e foi calado por um beijo.

 

  Por volta das sete da noite, todos já estavam prontos, mas passavam por um conflito.

  “Não dá! Assim não dá! Como posso sair com essa cara lavada?” gritava Rey.

  “E eu com essa roupa chinfrim? Vou parecer uma mendiga!” emendava Lita.

  “Isso não é a aparência ideal para sair a noite...” dizia Ami mais amena.

  “Quem me vê assim nem pensa que um dia fui uma estrela...” murmurava Mina de cara amarrada.

  “Calma, meninas,” tentava apaziguar Serena. Ela não estava lá essas coisas, mas... quem se importa? Ela já era casada mesmo!

  Finna apareceu perguntando o que estava acontecendo na sua sala e rapidamente ficou sabendo do problema. Ela falou que tinha se oferecido para trazer as roupas e os gatos, elas que não quiseram. E não ia fazer duas mágicas iguais só por capricho das moçoilas.

  Todas amarraram a cara para Finna e sentaram-se no sofá. Serena olhou para a bruxa com cara de clemência.

  “Bem, acho que posso dar um jeito...” murmurou Finna.

  As meninas se levantaram num pulo, já agradecendo de antemão. Finna se concentrou, escolhendo as palavras certas e finalmente disse, “Pulchritudo, velius turpis, deludo visum! (Beleza, esconda o feio, engane a vista!)

  Uma luz envolveu a todos, inclusive Darien e Serena, e quando se dissipou todos estavam vestidos adequadamente para sair, as meninas bem maquiadas e penteadas.

  “Então você pode criar roupas?” perguntou Mina.

  “Não posso criar nada. Vocês ainda estão com a mesma roupa, só que as pessoas agora enxergam vocês de modo diferente. Criei uma ilusão em volta de vocês,” respondeu Finna.

  Eles se encaminharam para a porta. Antes de saírem, Finna disse, “Esperem... Queria dizer só para... bem, prestem atenção, certo? Não que alguém vá fazer mal a vocês de graça, mas alguns seres que residem aqui tem um modo... diferente de enxergar o certo e o errado...”

  Então todos saíram, levando em suas mentes o aviso de Finna.

 

  Estava simplesmente lotado. A escola de artes onde Hotaru estudava já estava abarrotada de gente e mesmo assim Hotaru ainda ajustava alguns quadros e esculturas que tinham sido enviados de última hora. Os visitantes já estavam olhando as obras de arte e já se ouvia comentários de que alguns quadros já estavam sendo disputados a tapa pelos compradores. Hotaru não estava nada feliz com seu trabalho naquela noite, mas não tivera como escapar. Felizmente, Michiru e Haruka só chegariam quando tudo estivesse pronto e, portanto, teriam menos tempo para importunar, se é que o fariam. Hotaru era bastante eficiente, de modo que em poucos minutos tudo estava pronto. “São lindos...” pensou a garota, que ainda tinha Michiru como ídolo nas artes.

  Quando a artista chegou, foi um burburinho. Todos queriam cumprimentá-la, reservar quadros, o diabo, mas Michiru dizia que esperassem a abertura da exposição. Ela subiu num palquinho preparado para ela  Haruka ficou perto, encostada na parede. Hotaru subiu em seguida, dando um oi seco a Michiru.

  “Essas não foram as boas maneiras que eu te ensinei, Hotaru,” começou Michiru, “me dê um abraço...” e ela mesma abraçou Hotaru, visivelmente indisposta a fazer isso. Logo se soltou e decidiu cumprir logo seu papel.

  “Senhoras e senhores,” disse ao microfone, “a Escola de Artes Infinity hoje apresenta uma exposição de alto nível. Teremos a chance de nos deliciarmos com as pinturas e esculturas tão belas e profundas de uma grande artista do mundo atual, Michiru Kaiou.” E saiu, dando lugar a Michiru, que assumiu sob muitos aplausos.

  “Obrigada,” dizia ela, até que as palmas cessaram, “Bem, estou muito agradecida com a presença de todos vocês e espero sinceramente que minhas obras agradem o sofisticado gosto dos aqui presentes. Saibam que cada um delas tem um pouco do meu espírito, da minha vida, e foram feitas com muito cuidado e dedicação.” E desceu do palco ovacionada, recebendo muitos cumprimentos.

  “Felizmente ela vai estar muito ocupada essa noite...” disse Hotaru para si mesma.

 

  Quando chegaram na rua principal, Mina atentou para um coisa, “Deveríamos ter perguntado a Finna onde poderíamos dançar e nos divertir. Agora vamos ter que ficar zanzando até encontrar...”

  “Talvez não,” começou Ami, “Podemos pedir informações para alguém.”

  “Mas não conhecemos ninguém aqui...” disse Rey.

  Andaram mais um pouco em silêncio e Lita começou a gritar, “Claro que conhecemos! Conhecemos o carinha do Crown!”

  “Conhecemos uma ova, Lita,” interrompeu Serena, “Não perguntamos nem o nome dele e saímos correndo.”

  “E daí? Mas ele sabe que somos novos por aqui, não?” falou Lita e saiu andando em direção ao fliperama.

  Ela entrou e passou por dois rapazes que jogavam corrida de carros; eram os únicos que estavam lá. Foi até o balcão e o tal rapaz estava lá. “Oi,” Lita disse.

  “Oi, sua amiga não quis vir hoje?” ele perguntou.

  “A Ami? Ela está lá fora. Como sabe que sou amiga dela? Leu minha mente?”

   “Não,” disse com um sorriso, “Só que quando ela saiu daqui toda assustada foi conversar com você lá fora. Você e mais um monte de gente. Qual é seu nome?”

  “Por que não lê minha mente?” perguntou Lita olhando nos olhos dele.

  “Porque você é tão linda que não consigo me concentrar o suficiente para ler seus pensamentos.”

  “Ha, ha, ha. Essa me matou de rir,” disse ela com sarcasmo, “Fala sério... Qual seu nome?”

  “Perguntei primeiro.”

  “Me chamo Lita. Lita Kino.”

  “E eu sou Bond. James Bond,”  brincou ele. Como via que Lita não ria, completou, “Brincadeirinha. Meu nome é Kayama Umino. Pode me chamar por Kayama.”

  “Bem melhor assim.”

  “Agora, sobre ler sua mente, o que disse não foi brincadeira. A razão não é aquela, óbvio, só que há algumas mentes que são ‘fechadas’ para esse tipo de poder. Poucas, mas existem.”

  “A minha é uma delas, então?” perguntou Lita e obteve confirmação, “Bem, vou direto ao assunto então. É que eu e os meus amigos somos novos por aqui e queríamos ir a um lugar para dançar e nos divertir. Pode nos indicar algum?”

  “Se não houvesse mais clientes eu até fecharia mais cedo para te levar pessoalmente, mas...” deu um olhar rancoroso para os dois rapazes que estavam no jogo de corrida, “mas como não posso, o lugar mais adequado para irem é o Dragon Magic. É a boate do momento. Muita gente, boa música e drinks refrescantes.”

  “Você foi muito gentil. Espero que a gente se encontre mais vezes. Como chegamos lá?”

  “É só seguirem mais dois quarteirões em frente e então virarem a esquerda. Vão ver logo onde é. Sabe, muita luz, muita gente...”

  “Claro. Muito obrigada pela informação.”

  “É só aparecer, Kino.”

  “Lita. Me chame de Lita.”

  “É só aparecer, Lita.”

   Ela então saiu e se encontrou com os outros. “Dragon Magic,” disse, “sigam-me rápido que acho que o lugar é demais!”

  Todos se animaram e pegaram o caminho indicado por Lita.

 

  Hotaru já estava cansada de ficar lá, vendo Michiru rodeada de gente e tendo que sorrir para todos que olhavam. Ela teria que ficar até a última pessoa ir embora, mas já estava de saco cheio. Resolveu lavar o rosto no banheiro interno da escola, onde certamente não haveria ninguém. Ela molhou a nuca e respirou profundamente quando alguém entrou pela porta.

  “Michiru...? O que faz aqui?” perguntou.

  “Nada, vim no banheiro também. Os outros estão muito cheios e eu estou um pouco cansada.”

  As duas entraram nas cabines e o banheiro ficou deserto de novo. Hotaru saiu primeiro e, após lavar as mãos, estava quase saindo quando um vulto pulou entre ela e a porta.

  “Sailor Netuno...?” assustou-se Hotaru, “O que quer aqui?” e deu um passo para trás.

  “Ah, Hotaru, querida...” disse Netuno com uma voz cortante, “Eu não te ensinei nada mesmo... Vai dizer que você não sabe...”

  Hotaru virou-se, para tentar entrar numa cabine, mas Sailor Urano saiu de uma delas e a encurralou.

  “Como, vai? Pronta para o fim?” perguntou Urano.

  “Por que fazem isso? Na lhes fiz nenhum mal!” falou Hotaru.

  “Não...” começou Netuno, “Ainda.”

  “Sabemos que você está possuída de novo Hotaru! E não deixaremos que você continue arriscando a vida da Terra!” declarou Urano.

  “Não descobrimos que ser que está em seu corpo agora, mas sabemos que, aos poucos, ele está despertando. Ele vai tomar conta de seu corpo uma hora, Hotaru. E vai fazer muito mal a Terra. Eu sinto,” continuou Netuno.

  “Por isso é melhor te matarmos antes que isso aconteça! World..........” Urano iniciou seu golpe.

  “Deep......” Netuno fez o mesmo.

  Hotaru estava perdida. Encontrava-se exatamente entre Urano e Netuno e dois poderosos golpes convergiam para ela. Era seu fim.

  “........Shaking!!!”

  “........Submerge!!!”

  Hotaru viu duas bolas de energia vindo em sua direção quando tudo foi coberto por uma luz roxa brilhante. Quando a luz se dissipou, Hotaru havia desaparecido e Urano levou o golpe de Netuno e vice-versa.

  “Diabos...!” gritou Urano, ferida.

  “Aquela maldita!” completou Netuno, segurando seu braço, que sangrava e doía.

 

  Hotaru viu a luz roxa desaparecer, mas não estava mais no banheiro e sim no meio de um quarto. Ela olhou em volta e viu Plutão segurando o Garnet Orb, que ainda resplandescia.

  “Plutão!” falou Hotaru e abraçou-a.

  “Hotaru...” disse Sailor Plutão ternamente, “Eu sabia que elas iriam tentar algo. Estiveram quietas demais.”

  “Desculpe,” choramingou Hotaru, “eu deveria ter confiado no que você disse. Eu fui tão... imprudente!” e explodiu em lágrimas.

  “Acalme-se, querida...” aconselhou Plutão.

 

  Chegaram ao local indicado por Kayama em pouco tempo. Darien se encarregou de pagar as entradas com os últimos ienes que lhe restaram no bolso. Apesar da moeda ser a mesma, os cartões de crédito e cheques da Terra não eram aceitos.

  A boate era realmente movimentada. Havia os mais diferentes tipos de pessoas: jovens estudantes, homens de terno e gravata, mulheres elegantes tomando drinks no bar, toneladas de pessoas nas pistas de dança. Mina logo arrastou Lita para dançar. Fazia um bom tempo que não ia dançar em boates, pois ficara impossível devido a sua fama. Ela estava tão radiante que sua energia envolveu até Ami, que acompanhou as duas. Darien e Serena sentaram no bar e pediram bebidas. Rey sentou  ao lado de Serena, mas ficou deslocada entre o casal, de modo que apenas começou a escutar a conversa dos dois.

  “Queria que essa noite nunca acabasse...” murmurou Serena.

  “Por quê?” Replicou Darien.

  “Não queria ter que enfrentar a realidade, ter que pensar que talvez nossa filha nunca mais seja a mesma...”

  “Não pense assim, querida. Nós a salvaremos.”

  “Nada pode garantir isso. Mesmo que nos esforçarmos e aprendermos tudo que Finna nos ensinar, podemos não vencer Titã. Ele é muito poderoso. O mais forte de todos os inimigos que já enfrentamos.”

  “Não seja derrotista. Você sabe que os deuses estão ao nosso lado. Sabe que a sorte sempre acompanha os que fazem o bem.”

  “Sei...” retrucou com ironia. Darien encostou a cabeça de Serena em seu ombro e cochichou algo em seu ouvido, fazendo a loira sorrir. Rey mordeu os lábios para conter uma inveja que queimava seu coração.

 

  As três meninas estavam embaladas com a música da pista. Mina e Lita naturalmente descontraídas e Ami as acompanhava, deixando com que seu corpo fosse envolvido pelo ritmo e tirando as preocupações de sua mente. Quando conseguiu prestar mais atenção a sua volta viu que Lita já estava dançando com um belo rapaz, que provavelmente deveria fazê-la lembrar do rapaz que partira seu coração. Antes de seus olhos encontrarem Mina, Ami levou um susto com duas mãos que pousaram sobre seus ombros.

  “Problemas... uma grande amizade... solidão...” sussurrou o dono das mão ao seu ouvido.

  Ao se virar, os olhos azuis de Ami depararam com os lindos olhos verdes de um rapaz.

  “Outro leitor de mentes?” perguntou com desdém.

  “Não,” começou o rapaz, deixando sua boca bem próxima do ouvido de Ami, “eu apenas vejo as auras das pessoas e entendo o que elas sentem...”

  “E que te deu permissão para conhecer meus sentimentos?” disse Ami com mais ternura na voz. Os olhos verdes estavam penetrando sua alma e derretendo seu coração duro.

  “Os deuses. Senão não teriam me dado esse dom.”

  “Boa saída,” respondeu Ami com um sorriso.

  “O que me dá direito a saber o seu nome, certo?”

  “Se me disser o seu...”

  “Yan O’Donkel.”

  “Bem diferente, não?”

  “Meu pai é americano.”

  “Ami Mizuno.”

  “Aposto que as ninfas dos rios presentearam você com sua beleza.”

  Ami emudeceu, embaraçada com o elogio. Ele guiou Ami para outro bar, diferente daquele em que estava Serena.

  “Quer beber algo?”

  “Quem sabe um uísque.”

  Yan se espantou um pouco com o pedido de Ami, mas logo disse, se dirigindo ao garçom, “Dois uísques, por favor.”

   Ami sentia que não controlava seu corpo. Sentar num bar para tomar uísque com um desconhecido não era uma atitude que tomaria em são consciência.

  “Vem sempre aqui?” perguntou Yan, fazendo Ami despertar de seus pensamentos.

  “Na verdade é a primeira vez.”

  “Ah.... Suas amigas vão ficar preocupadas se não te encontrarem na pista?”

  “Não... Elas já devem estar acompanhadas,” disse, pensando que Mina teria pegado o mesmo caminho que Lita. Ami deu um gole em sua bebida.

  “Mora na cidade?”

  “Bem,” Ami pensou um pouco, “sim... moro.”

  “Eu também,” falou Yan, sacando um cartão do bolso com seu nome, telefone, endereço e etc, “Podemos nos ver mais se você quiser.”

  Ami pegou o cartão delicadamente. “Sim... Pode ser que sim...”

  “Vamos dançar?”

  “Dançar?” Ami perguntou, tomando o último gole de uísque, “Sim, vamos dançar.”

  E saíram para a pista de dança.

 

  Mina tinha se entretido tanto com a música que perdera Lita de vista. Ela vira que a amiga estava com um rapaz e que Ami também tinha se arranjado bem, mas não conseguia conversar com nenhum rapaz. Não que não tivesse havido oportunidades, pelo contrário, muitos se atraíram pela beleza de Mina, mas ela não estava com cabeça para nenhum deles. Não conseguia tirar o homem misterioso de seus pensamentos. Aquele capuz negro, que cobria-lhe a face, era tão... instigante! Não tinha nem certeza se era realmente um homem, devido a capa, que lhe cobria todas as formas mas... algo lhe dizia que ERA um homem com certeza. Talvez fosse um instinto, ou até mesmo um delírio, o que importava é que aquilo estava a deixando maluca! Ela fechava os olhos e a imagem do homem misterioso vinha a sua cabeça, sem contar do que vira quando tentava despertar sua magia. O que significaria aquele vulto coberto de sangue? Por que veria tal coisa? Mina estava confusa. E curiosa. Muito curiosa. Como diz o ditado, “A curiosidade matou um gato...”

 

  Rey não estava mais agüentando ficar ao lado de Serena e Darien e já tinha bebido uma meia dúzia de drinks. Decidiu procurar as meninas e se levantou bruscamente, o que a fez sentir-se tonta (ou talvez mais tonta do que já estava por causa do álcool). Foi andando, olhando as pistas de dança, tentando sentir a presença das garotas, já que não as acharia no meio daquela multidão. Pé ante pé, foi até o lugar onde estava Mina.

  “Oi, Rey!” disse a loira, “Decidiu dançar?”

  “Bem, eu não levo muito jeito pra dançar esse tipo de música... Só estava procurando vocês...”

  As duas saíram da pista e se encostaram numa parede.

  “Onde estão as outras?” perguntou Rey.

  “Hi, hi, hi...” começou Mina com ar de gozação, “Elas se arranjaram muito bem sem mim...”

  “Você quer dizer que a Lita já arranjou um carinha?!”

  “E a Ami também...”

  “E depois se faz de santa!” completou Rey e as duas riram.

  “E a Serena e o Darien?”

  “Bem, namorando, você sabe como eles são... Você não arranjou ninguém?”

  “Bem,” Mina pensou por um instante o que iria dizer. Não queria que soubessem da sua fixação pelo homem misterioso, “Acho que não estou com cabeça para isso hoje...”

  “Acho que eu também não...” murmurou Rey. E mentiu, “Ainda faz pouco tempo que me separei do Nichola.” A verdade é que seu coração era só de Darien e não queria nenhum outro.

  “Por que vocês se separaram? Fiquei sabendo que viviam já como marido e mulher, só faltavam as alianças.”

  “Bem,” Rey suspirou, “Foi justamente por isso. Ele me pediu em casamento e eu... não aceitei. Ao me sentia pronta para casar.”

  “Acha que ele pode voltar?”

  “Sinceramente, não. Ele ficou muito magoado. Eu juro que não queria feri-lo, mas...” Rey começou a chorar. Tinha Nichola em alta conta, mesmo depois de tudo que ele lhe dissera. Realmente não queria ter machucado tanto seu grande amigo.

   Mina abraçou Rey, “Calma, eu acredito que não queria magoá-lo. É que não tem jeito de recusar um pedido de casamento sem causar sofrimento. Mas agora já passou, bola pra frente.”

  As duas se olharam nos olhos e reconheceram que partilhavam a alegria e a tristeza, a saúde e a doença. Não poderiam viver separadas, um elo poderoso as unia, e também unia as outras. Só a morte quebraria esse elo. Ou talvez nem isso.

 

  Lita estava totalmente envolvida por Kenkure, o rapaz que conhecera. Ele era lindo, olhos e cabelos cor de mel, um sorriso estonteante. Ele era engraçado e tinha palavras doces e agradáveis que a embargavam. Sentia-se mais uma vez apaixonada. Tinha o mesmo olhar de seu antigo namorado... Lita se lembrou de todos os rapazes com quem tinha estado nos últimos anos e se sentiu confusa. Estaria realmente amando Kenkure ou queria apenas mais uma noite de prazer? Uma voz melodiosa chamou-a de volta para a realidade.

  “Lita... Eu não sei como te dizer isso.. Acho que você nem vai acreditar mas...” Era Kenkure falando ao seu ouvido.

   “Lita,” ele dizia, “Nunca me senti assim antes... Eu... acho que me apaixonei por você. Quando meus olhos passaram por você, no meio da pista de dança, só consegui enxergar você, sua pele, seu cabelo... Você parecia exalar um odor que me atraía e me dizia que era a mulher pela qual eu esperei todos esses anos. Eu te amo.”

   Ela ficou atônita. Primeiramente, achou que estava sonhando. Mas olhou para Kenkure e viu que ele parecia falar sério. Ela se sentia da mesma forma, mas nunca pensou que teria seu sentimento correspondido com tanta intensidade. “Ken-chan...” murmurou, tendo sua voz abafada por um beijo. O beijo mais doce e romântico que já recebera em sua vida. Sentiu suas pernas balançarem, seu corpo amolecer e seu coração disparar.

  “Eu também te amo, Kenkure...” sussurrou.

  “Eu sei que tudo parece precipitado e rápido, mas não consigo esconder meus sentimentos, Lita.”

  “Eu entendo. Estou tão assustada com isso... Estou feliz.”

  “Você não quer ir no meu carro para conversarmos melhor? Está aqui no estacionamento.”

  “Sim.” Respondeu prontamente, e saíram andando.

  Lita agora estava mais espantada com seu comportamento do que com as palavras de Kenkure. Estava indo para o carro de um rapaz que acabara de conhecer! Bem, não era a primeira vez... Sempre acontecia isso com Lita. Nunca encontrava seu príncipe encantado, todos queriam sempre a mesma coisa... E ela aceitava. No momento tudo era alegria e deslumbramento, mas quando se via sozinha de novo tudo parecia podre a sua volta. Sentia-se enjoada... Mas só no dia seguinte...

 

  Mina estava conversando com Rey quando viu Lita passar abraçada com o rapaz que estava com ela. Estavam indo para um local onde não havia nada, e Mina não entendia para onde se dirigiam.

  “Rey, olhe lá! É a Lita!”

 “Para onde ela vai com ele? Acabou de conhecê-lo!”

  “Não tenho um bom pressentimento disso...”

  “Será que ela vai...”

  “Não pode ser! Lita não faria isso...”

  As duas se entreolharam, vendo que sim, Lita faria sim o que elas estavam pensando. Decidiram impedi-la, mas, quando tentaram segui-la, já tinham a perdido de vista.

  “Isso não vai acabar bem...” pensou Rey.

  “Vamos procurá-la,” sentenciou Mina.

 

  Lita e Kenkure entraram no carro, que estava num canto da garagem. Era algo parecido com um Omega verde escuro. Kenkure colocou um CD e uma musica bem mais calma que a da boate começou a tocar.

  “Você gosta de blues?” perguntou ele.

  “Sim...” sua voz ficou cálida, “E de muitas outras coisas também.”

  “Lita, eu sei que você não deve estar acreditando no que te falei lá em cima mas... é a pura verdade.”

  “Eu acredito,” disse e sentou-se mais de lado, revelando mais um pouco de suas coxas bem torneadas.

  “Você é tão linda...” disse Kenkure baixinho.

  Lita enterneceu o olhar e encarou o rapaz, aproximando-se dele o mais que pode. Ela murmurou, “Eu te amo,” e abaixou uma alça de seu vestido.

  Kenkure arregalou os olhos enquanto Lita abaixava a outra alça do vestido. De repente ele saiu do transe.

  “O que diabos você está fazendo?” falou, nervoso.

  “Bem,” agora Lita que estava assustada, “Nós, bem, nós... Eu pensei que nós íamos... Bem, você sabe...”

  “Você achou que iríamos transar?” gritou baixo Kenkure.

  “Por quê? Você não quer fazer amor comigo?”

  “Lita, não é isso, é que...”

  “O que eu tenho de errado? Por que você não me deseja?” gritou Lita.

  “Não fale bobagens! É claro que eu te desejo, só que você não é qualquer uma para mim! Eu te amo de verdade, não posso correr o risco de te magoar.”

  Lita ficou muda.

  “Você não entendeu nada do que eu disse! Estava falando sério quando me declarei para você. Foi realmente amor à primeira vista. Por isso não posso fazer amor com você dentro de um carro, num estacionamento, horas depois de nos conhecermos.”

  Lita olhava para baixo. Quando ergueu os olhos, explodiu em lágrimas.

  “Eu sei que fiz tudo errado! Eu sempre faço tudo errado! É que você falou de virmos para o seu carro e eu pensei...”

  “Pensou errado,” disse Ken, com a voz um pouco menos ríspida, “Só queria conversar para nos conhecermos melhor, sem aquela barulheira toda.”

  “É... eu sempre entendo tudo errado... estraguei tudo...”

  “Calma, também não é assim,” falou Ken, já com pena de Lita. Não queria vê-la chorando. Ele a amava.

  “É assim, sim. Agora acabou tudo para nós.”

  “Não, Lita, calma, não se culpe tanto...”

  “Eu sou um desastre.”

  “Sabe,” Ken disse com carinho, “Você é doce demais Lita, mas se martiriza muito. Acho que você teve muitos desencontros em sua vida emocional.”

  “É...” murmurou mais calma, “Você está certo. Acho que na hora que mais precisei de ajuda não tive uma mãe para me ensinar, um pai para me repreender, um irmão para me proteger e amigos para me aconselharem. Quando necessitava de compreensão, não encontrei ninguém ao meu lado...”

  “Sabia que uma história triste se escondia atrás de seus lindos olhos... Não quer me contar mais.”

  “Não,” disse abruptamente, “não há mais clima entre nós.”

  “Saiba que nada mudou em meus sentimentos.”

  “Mas eu é que não estou pronta...”

  “Podemos nos encontrar outro dia? Vou te dar meu endereço...” e começou a procurar caneta e papel.

  “Não se preocupe, Ken. Acho que não devemos mais nos encontrar. Meu coração não está preparado nem para uma amizade nesse momento,” disse, embora seu coração quisesse exatamente o contrário, quisesse se entregar para uma nova paixão. Antes que Kenkure respondesse, Lita saiu correndo do carro e voltou para a boate.

  “Eu ainda te amo Lita... Acho que nunca mais vou esquecer você...” rumorejou ele para si mesmo.

 

  Mina e Rey encontraram Lita algum tempo depois, encostada num bar.

  “Lita, o que houve?” preocupou-se Rey.

  Porém Lita não tinha condição alguma de falar, de tanto que tinha bebido. Rey ficou com Lita enquanto Mina foi encontrar Ami, Serena e Darien para irem embora e levarem Lita.

  “Eu sou um lixo...” cantarolava  Lita, apoiando a cabeça no balcão.

  Logo Mina chegou com Darien e Serena, anunciando que Ami já estava vindo.

 

  “Bem, tenho que ir. Estamos indo embora,” falou Ami. Ela passara a noite toda dançando com Yan e estava muito feliz.

  “Não quer ficar mais? Eu te levo em casa,” sugeriu ele.

  “Não posso. Minha amiga está precisando de mim. Mas obrigado pelo convite, você é muito gentil.”

  “É uma pena. Me concede um pedido, deusa das águas?”

  “Bem,” respondeu Ami, meio sem graça, “Depende...”

  “Posso te dar um beijo?”

  Ami refletiu um pouco. “Quem sabe da próxima vez? Eu ainda vou te procurar.” E saiu andando, brandindo o cartão de visitas que ele lhe dera no ar.

  “Garota difícil, heim, Yan?” disse para si próprio, “Mas é linda...”

 

  Ami encontrou suas amigas, que davam café preto e amargo para Lita. Decidiram voltar logo para casa, pois Lita não parecia melhorar do porre. Darien apoiou Lita em seu ombro e se foram. Sair da boate foi um desafio, mas andar na rua foi um ainda maior. Lita cambaleava, falava com as pessoas, se ofendia, um horror. A sorte é que logo saíram da avenida movimentada. Quando passaram na frente do Game Center, ele já estava fechado. Darien carregara Lita sozinho o caminho todo e estava simplesmente exausto. As meninas se ofereceram para carregá-la até a casa de Finna para que ele pudesse descansar, mas ele não aceitou, disse que ele que era homem e mais forte tinha que fazer isso. Contudo, mediante muita insistência, ele jogou o pano e desistiu de resistir. Mina pegou Lita de um lado e Rey do outro; Ami foi ajudando as duas, a medida que precisavam. Serena e Darien decidiram ficar ali mais um pouco e curtir a fresca da noite.

 

  Em não muito tempo, as meninas chegaram na casa de Finna e “descarregaram” Lita no sofá; ela permaneceu imóvel. Finna veio logo se interar dos fatos e não gostou nada.

  “Mas como conseguem ser tão irresponsáveis?! Tendo que acordar bem e dispostas no dia seguinte, tomam um porre na véspera! Vocês têm muita mágica para aprender e para isso terão que ter disciplina e clareza na mente,” berrou ela.

  “Finna,” disse Ami com cuidado, “Você não teria um feitiço para curar a bebedeira de Lita?”

  “O quê!?!” a bruxa se revoltou, “Fazem a burrada e querem curar com feitiço?! Imaginem só! O que eu tenho é banho frio e café sem açúcar! E tenho dito,” concluiu, voltando aos seus aposentos.

  As meninas seguiram o conselho de Finna e colocaram Lita embaixo do chuveiro gelado. A garota até sentiu choques pelo corpo, tamanho o gelo da água, mas melhorou consideravelmente. Depois arranjaram-se nos sofás onde dormiam e colocaram uma garrafa de café na mão de Lita.

  “Agora, conte-nos,” sentenciou Rey, “O que houve, Lita?”

 

  Darien e Serena andavam de mãos dadas contra a brisa gélida da noite.

  “Apesar de tudo,” começou Serena, “Me diverti bem essa noite,”

  “Eu também... Olhe lá!”

  Serena olhou o que Darien apontava e sorriu. Era uma espécie de bosque, com uma trilha que levava a uma clareira com bancos e mesinhas (ao menos era o que dizia na placa de informações). Uma clareira banhada pelo luar... Mediante essa visão tentadora, decidiram entrar.

  “Bosque da Branca...” murmurou Serena, “Deve estar se referindo a Lua...”

  “Provavelmente,” concordou Darien, beijando o pescoço de Serena.

  “Eu te amo tanto...” disse Serena no meio de um beijo apaixonado.

 

  Lita tinha acabado de contar em meio a lágrimas e soluços o que lhe acontecera naquela noite fatídica. As meninas olhavam enternecidas para ela, e as gotas que caíam dos olhos de Lita eram como punhais que se cravavam em seus corações.

  “Eu sou tão... horrível, imunda...” choramingava Lita.

  “Não fale assim, pois não é verdade. É só...” Mina pensou por um instante, “Seu jeito de ser...”

  “E que jeito mais sem vergonha,” ciciou Lita para si mesma, já com um pouco de bom humor. Só a companhia de suas amigas já a agradava.

  “Mas, Lita,” interessou-se Ami, “Por que age dessa forma se não gosta?”

  “Ami, sei lá...” respondeu, “É algo incontrolável, um instinto...”

  “Um fogo ardente, um frio paralisante, um raio numa tempestade...” secundou Rey.

  Todos olharam para Rey, que parecia tão empolgada na descrição. Riram, inclusive Lita.

  “Ai, gente, não olha assim pra mim!” envergonhou-se.

  “Parece que a Rey também andou conhecendo o esquema ‘prazer por uma noite’...” ironizou Mina.

  “Não fale bobagens!” enraiveceu-se Rey, “Em toda minha vida eu só fui de um homem.”

  “Nichola?”

  “Sim, ele mesmo. E fiquem sabendo que, mesmo com algumas brigas, nos dávamos muito bem ‘naquela hora’, viu?” disse com vaidade.

  “Pois fique sabendo que minhas noites também são ótimas, viu?” resmungou Lita, “O dia seguinte que nem tanto...”

  “E vocês já realizaram alguma... fantasia?” perguntou Ami.

  “Ai, quanta curiosidade,” brincou Rey, “Por que você não conta algumas de suas experiências?”

  “Bem,” Ami enrubesceu, “É que... que... eu não tenho nenhuma...”

  “O quê?!” escandalizou-se Mina, “Vai dizer que ainda é virgem?!”

  “Sim...” A voz de Ami era praticamente inaudível.

  “Mas, Ami, com 23 anos vai dizer que ainda não rolou nada?” perguntou Rey com mais delicadeza.

  “Nada.”

  “Mas, por quê?” interessou-se Lita, esquecendo de seus próprios problemas.

  “Ah, depois que nos separamos eu mergulhei nos estudos... Além disso fiquei com uma depressão dos diabos, não tinha ânimo para nada, não saía... Afastava todos os rapazes que se aproximavam de mim...”

  “Pelo jeito isso mudou,” disse Mina, “Pensa que não vimos o belo rapaz com quem você estava?”

  “Er...” Ami ficou mais vermelha, “Mina, acabamos de nos conhecer...”

  “O que não quer dizer nada...” retrucou a loira.

  “Pare de infernizar a Ami, Mina!” irritou-se Lita, “Por que você não conta as SUAS experiências?”

  “Bem,” Mina ficou indecisa por um momento, mas se recompôs logo, “É porque não foram nada especiais. Não foi uma nem muitas, algumas, provenientes de alguns rolos, que duravam no máximo uma semana. Foram tão banais que não há nada a dizer.”

  “Mina, não fique triste,” começou Rey, “Você ainda é jovem, linda, e muitas coisas ainda vão acontecer. E para você também, Ami.”

  “Não sabe o valor que carne fresca tem no mercado...” falou Lita sem pensar.

  “Lita!” todas gritaram, encarando-a com assombro. E riram.

 

  Darien e Serena realmente acharam no final da trilha uma clareira com bancos brancos, que ficavam ainda mais pálidos com o reflexo da Lua. Um vento frio passava por lá, o que fazia Serena se arrepiar e encostar-se mais em Darien. Às vezes, um farfalhar de folhas era ouvido de longe. Sentaram-se.

  “Não acha esse lugar lindo, Serena?”

  “Sim. Mas... acho que há algo estranho por aqui.”

  “Estranho? O quê?”

  “ Me sinto observada.”

  Darien olhou em volta e garantiu que não havia nada ali. O farfalhar foi ouvido ao longe.

  “Viu? Olhe esse barulho!” exclamou Serena.

  “São só as folhas se mexendo com o vento, querida...”

  “Mas então por que não vemos elas se mexerem?”

  Essa pergunta pegou Darien desprevenido. Era verdade: as folhas não se mexiam com o vento, mas o farfalhar podia ser ouvido claramente agora. E ele parecia estar se aproximando. Serena encostou suas costas nas de Darien e eles começaram a girar lentamente, esperando algo acontecer. Logo o barulho estava ensurdecedor e parecia vir de todos os lados. Abruptamente, Branca saiu de trás das árvores.

  “O que é isso?!” indagou Serena, apavorada. Darien não respondeu, parecia estar paralisado.

  A figura voadora era do tamanho de um ser humano, mas o manto verde esvoaçante com ricos bordados dourados lhe dava um ar maioral e fantasmagórico. Tinha a face de uma mulher, mas dezenas de vezes mais pálida, como se sangue não corresse em suas veias. Seus cabelos brancos de nascença eras sedosos e batiam em seus ombros, com faíscas de eletricidade saltando de alguns fios. Não se via seus pés, eram cobertos pelo manto, mas se fossem vistos revelariam sua triste realidade: da cintura para baixo tinha a aparência de uma cabra.

  Olhando fixamente para Darien, Branca sorriu.

 

  Ainda conversando, agora sobre a carreira de Mina, as meninas riam descontraídas. Na mente de Rey começou a se formar uma imagem e ela se concentrou mais. As feições de Darien foram se revelando e ela viu os olhos do rapaz ficarem negros. Logo após isso, ele caiu no chão. Rey levantou-se.

  “Meninas, há algo errado com a Serena. Eu sinto!” disse, sabendo que não deveria demonstrar preocupação exagerada com Darien ou logo daria a maior bandeira do que sentia.

  As outras ficaram sem saber o que fazer. Ainda podiam confiar nas visões de Rey?

  “Precisamos ir atrás da princesa, ela corre perigo!”

  Com a reafirmação de Rey elas decidiram ir encontrar Serena e Darien. “Já estou indo...” pensou Rey.

 

  Serena virou-se para Darien preocupada, ele parecia não conseguir se mexer e não respondia às suas perguntas. Branca fez um movimento brusco com sua mão delicada e pálida e Serena foi se chocar com as árvores do outro lado da clareira. Branca começou a cantar uma música lenta e cheia de altos e baixos, melodia envolvente. Serena estava caída no meio das árvores e sentia um dor terrível na perna, que a impedia de levantar. Branca, cantando, começou a rodar em volta de Darien, que, lentamente, foi fechando os olhos, entrando numa espécie de transe. Logo ele dançava com Branca, embalados na melodia incessante. Repentinamente, ela parou de cantar. Foi se aproximando de Darien e, com uma mordida feroz, rasgou o punho da camisa dele e mordeu seu pulso. Sua boca logo ficou cheia do sangue do rapaz, que ela sorvia em largos goles. Ele foi ficando pálido.

  “Darien!” gritou Serena, incapaz de se levantar.

  Ele parecia estar prestes a desfalecer quando passos foram ouvidos.

  “Supreme Thunder!” gritou Sailor Júpiter.

  O relâmpago foi até Branca e se chocou contra ela, mas foi absorvido por seu corpo. Ela soltou o braço de Darien, que caiu no chão. Sua pele alva da face estava manchada de sangue. Ela mostrou seus dentes de fera, pontudos, para as Sailor.

  “Fire Soul!” gritou Marte, e, felizmente, seu golpe foi mais bem sucedido que o de Júpiter, fazendo a capa esvoaçante de Branca crepitar no vermelho-fogo das chamas. Ela soltou um urro de dor e, lançando um olhar derrotista para o corpo desfalecido de Darien, embrenhou-se na floresta.

  Mercúrio e Vênus chamaram pelas outras duas Sailor. Elas tinham dado a volta e estavam com Serena.

  “O que houve?” perguntou Marte ao ver Serena caída. Um fio de sangue escorria da boca da amiga e seus braços estavam arranhados pelos galhos. Mas a perna da loira que estava mal. Inchada e arroxeada, parecia estar com uma fratura interna.

  “Isso não está bom...” murmurou Mercúrio, olhando para a face pálida de Serena.

  Júpiter chegou trazendo Darien nos braços. O pulso dele estava dilacerado e o sangue não parava de fluir.

  “Darien...” murmurou Serena com amargura e fragilidade. Mercúrio ajudou Júpiter a carregar Darien e Marte e Vênus carregaram Serena até a casa de Finna. Teriam que ser rápidas se quisessem ajudar Darien.

 

  “Finna!” chegou Marte gritando, “Corra aqui!!!”

  Logo a feiticeira descia com um hobby de seda sobre a camisola. “Ó, céus, o que houve?”

  Elas explicaram o que houve e Finna soltou um suspiro. “Por que foram se meter com uma Glastig?” Vendo que ninguém entendera nada, sentenciou que esclareceria as dúvidas mais tarde. Darien respirava com dificuldade e não conseguia falar.

  “Bom, já que vocês não conseguiram esperar até amanhã,” começou Finna com sarcasmo, “Vamos ter mais uma aula de magia agora. Prestem atenção em mim e vejam como curar um ferimento causado por uma criatura mágica.” Ela então respirou profundamente e colocou suas mãos sobre o pulso de Darien.

  “Rememdium divinus, confutus cruor, crinus velius! Iucunditas, fragmenum potem magus! (Cura divina, pare o sangue, feche a pele! Encanto, quebre o poder mágico!)”

  Luzes brancas começaram a flutuar sobre o pulso de Darien e foram fechando lentamente seu machucado, reconstituindo seu pulso. As cores voltaram para sua face. Serena gemeu.

  “E vocês? Por que ainda não curaram a perna quebrada da sua amiga com a magia que dantes lhes ensinei?” perguntou uma Finna irritada.

  As meninas ficaram envergonhadas. “É que...” murmurou Júpiter, “Como não nos acostumamos a fazer magias... Esquecemos que podíamos curar Serena....”

  Finna balançou a cabeça com tal esquecimento. Conseguiriam elas tornar-se grandes bruxas em tão pouco tempo? Enquanto pensava nisso, Marte usou o encantamento em Serena e curou sua perna. Finna ficou aliviada, já que, pelo menos, não estavam tendo problemas em fazer funcionar a magia da cura. A mágica de cada uma delas realmente chegara à superfície e exalava pelos seus poros. Serena levantou-se e beijou os lábios de Darien, que estava desmaiado. Finna tranqüilizou-a, dizendo que no dia seguinte ele já estaria recuperado. Todas foram se arrumando para dormir, estavam muito cansadas. Mina foi até a janela perto do banheiro e ficou olhando a casa de onde o homem misterioso saíra. Esperava vê-lo de novo, mas nenhum movimento aconteceu. Suspirando profundamente, voltou para a sala. O que estava acontecendo com ela? Nunca sentira tanta expectativa em ver alguém.

 

  Às sete horas em ponto, Finna estava acordando a todos, que relutavam em levantar-se. Ela reclamava que eles tinham se metido em confusões demais e que estava na hora de trabalhar. Tinham que trazer os gatos e objetos pessoais para Eros e Finna queria fazer isso logo.

  Em pouco tempo, todos já tinham tomado o café preto que Finna fizera e se reuniam  no porão. Finna estendeu uma folha de caderno para cada um e mandou que escrevessem o nome de tudo que queriam, a exemplo de: “blusa de lã verde com listras amarelas”. Esse foi um trabalho demorado, como Finna previra, e as listas só ficaram prontas às dez horas da manhã. Ela instruíra Mina e Serena para colocarem Artemis e Lua em suas listas, respectivamente.

  “Bem, agora vamos fazer um círculo,” comandou Finna acendendo sete velas vermelhas, cada uma no local onde cada um ficaria. “Essa é uma magia de invocação a longa distância. Usem ela para trazerem pessoas ou coisas que estão longe. Só que terão que estar com tempo no momento, pois o ritual leva alguns minutos.”

  “Finna,” disse Serena, “acho que algo como isso só daria para ser realizado em casa, já que ninguém carrega velas vermelhas por aí.”

  “Bem,” respondeu Finna com um sorriso, “Logo aprenderão a carregar uma bolsa com itens básicos... Mas verão isso depois. Só fiquem sabendo que o que importa não é o tamanho da vela, mas sua preparação.” completou, olhando para as velas grandes que iluminavam o ambiente.

  Ninguém entendeu muito bem o que Finna queria dizer, mas ela não quis prolongar o assunto. Parecia estar com pressa e fez com que as atenções dispersas voltassem para ela quando recomeçou a falar.

  “Bem, quero que se concentrem e repitam mentalmente as palavras que eu disser. É importante que não pensem em mais nada, dirijam sua mente só para as palavras e para a magia que estamos executando. Se fosse apenas um objeto ou pessoa, poderia até fazer isso sozinha, mas devido ao volume de coisas precisarei da ajuda de todos vocês.” Todos assentiram e ela pediu que dessem as mãos. As listas foram colocadas sob as velas de cada um.

  “Ulterius orbis, transitus unde platea. Iter itineris unde lux, accersum appellum albus inferus veho letum! (Longe mundo, cruzamento de estradas. Caminho de luz, traga os nomes listados sob as velas da morte!)”

  Um clarão se apoderou da sala.

 

  Lua e Artemis estavam preocupados com as meninas. Não tinham dado notícia e Lua pensava que algo terrível podia ter acontecido.

  “Calma, Lua,” Artemis tentou acalmar, “Vai ver elas não puderam enviar notícias de onde estavam.”

  “Essa desculpa não adianta! Elas devem estar em perigo, senão teriam nos avisado. Aconteceu o pior.”

  “Pare de falar isso, Lua. Lembre-se que elas têm poderes!”

  “Que acabaram de receber de volta e que estão mais fracos que nunca!”

  Artemis suspirou. Sabia que não adiantaria argumentar com a teimosa da Lua. Quando ela colocava uma idéia na cabeça, nada a fazia mudar de opinião. Os dois seguiram andando na rua deserta, longe do barulho da cidade. Lua parou de repente.

  “O que foi?” perguntou Artemis intrigado.

  “Eu não sei... Sinto que algo vai acontecer. É como se as dimensões se remexessem à nossa volta. Plutão poderia me explicar bem melhor o que isso é.”

  “Não sinto nada,” comentou Artemis incrédulo.

  “Ah, seu bobo!” gritou Lua, “Como você não tem um pingo de sensibilidade! Bom, eu, durante o Milênio de Prata, passei um mês com Sailor Plutão, averiguando movimentações no Portal do Tempo. Por isso acho que adquiri certa sensibilidade para essas coisas em relação ao tempo e espaç...”

  Lua foi interrompida por um clarão e um zumbido que retiniu em seus ouvidos aguçados. Artemis logo se aproximou de Lua e, como um passe de mágica, eles desapareceram.

 

  Quando a luz desapareceu e os olhos de Serena se acostumaram àquela luminosidade dançante das velas, a garota tomou uma baita susto. Nada que não fosse previsto, mas não imaginou que tudo viesse daquele jeito: um amontoado de roupas de todos, misturadas e desarrumadas. Meio assustados, um casal de gatos saiu do monte de roupas.

  “O que diabos aconteceu...?” ia gritando Lua quando seus olhos vermelhos se encontraram com os azuis de Serena. A loira abaixou-se e abraçou Lua, emocionada. Mina fez o mesmo com Artemis.

  “Bem vindos,” falou Darien, meio atônito com a situação.

  Finna logo tomou o controle da situação e, antes que Lua pudesse enchê-los de perguntas, disse que tudo seria explicado. Finna se apresentou e se disse muito honrada de conhecer os gatos guardiões. Após isso designou tarefas: Darien, Serena e Mina deveriam colocar Lua e Artemis a par dos acontecimentos e Rey, Lita e Ami deveriam separar as roupas e dobrá-las.

  “Agora viramos arrumadeiras enquanto os outros batem papo com os gatos,” reclamou Rey, recebendo em troca um olhar de reprovação de Finna.

  Lita e Ami já trabalhavam nas roupas quando Rey se juntou a elas.

 

  Do ponto de vista de Finna, aquele fôra um dia totalmente inútil. Tirando a magia de convocação, não tinham aprendido absolutamente nada, perderam todo tempo arrumando as roupas e objetos. Ela não ficava nem um pouco feliz com aquilo, visto o pouco tempo que tinha para ensiná-los. Serena, Darien e Mina, por outro lado, tinham se ocupado contando todos os detalhes de tudo que acontecera desde que entraram no portal clonado de Titã. Lua e Artemis ouviam tudo extremamente atentos, e Lua tinha ficado muito preocupada com o fato de terem que aprender magia (ela já tinha ouvido falar sobre esses poderes especiais de algumas pessoas no Milênio de Prata) em tão pouco tempo se quisessem ter alguma chance para salvar Hikari. As outras meninas se divertiram muito com aquela tarefa que a princípio lhes causara descontentamento. Arrumar as roupas, separar o que era de quem, ver as roupas das amigas (que elas não conheciam mais devido o tempo que ficaram separadas); tudo foi uma grande festa. E no fim todos estavam cansados, reunidos na mesa da cozinha.

  “Finna, agora conte-nos. O que atacou Darien a noite passada?” indagou Ami.

  “Bem, aquilo era uma Glastig. Ela é uma espécie de vampiro, que seduz os homens com seu olhar e dança. Não sei se observaram, mas ela só se ocupa com homens. A lenda conta que a primeira Glastig era uma mulher muito bonita e rica, que se apaixonou por um camponês. Ela lutou contra a família, muito poderosa e tradicional, e conseguiu se casar com o homem. Contudo, ele se mostrou um feiticeiro sórdido após a morte dos pais da moça, filha única, e, após se apoderar de todo o seu dinheiro, amasiou-se com uma bruxa, que sempre fôra sua amante, e os dois transformaram a mulher num ser em que a metade inferior é igual à de uma cabra. A moça viveu errante, cobrindo sua deformidade com um manto, e, após sua morte, voltou para atormentar os homens, executando assim sua vingança contra o sexo masculino, que para ela é o causador dos males e sofrimento do mundo. No universo além-morte, ela encontra almas femininas errantes que sofreram muito por causa dos homens e as oferece a oportunidade de persegui-los. Se a mulher aceita, ela então recebe a metade cabra e o manto comum às Glastig, junto com o dom de sugar o sangue e a alma dos homens, após enfeitiçá-los com seus poderes sobrenaturais.”

  “Isso quer dizer que Darien morreria se não afugentássemos a Glastig?” perguntou Rei.

  “Sim. E pior, pois a alma dele simplesmente não existiria, ele acabaria seus dias de vida e de morte ali,” respondeu Finna com um olhar sério. Darien estava perplexo com o que poderia ter-lhe acontecido.

  “E como deixam um treco desses solto por aí?!” gritou Serena, inconformada.

  “Ah, mas vocês que são muito enxeridos,” começou Finna, “Não leram a placa? Lá estava escrito ‘Bosque da Branca’, não estava?”

  “Sim, mas e daí? Achamos que era por causa da Lua... Não era?” perguntou Serena.

   “Bom, é como eu falo, vocês que não sabem de nada. Branca é o nome da Glastig que mora lá, a que vocês encontraram. Por medida de segurança, as Glastig são aprisionadas por magia em bosques, onde, é claro, só mulheres poderiam entrar em segurança. Por isso até colocam placas, para que homens não entrem. Os que entram, bem, elas ficam livres para atacarem.”

  “É o fim da picada mesmo,” murmurou Mina, “manter aquela coisa lá dentro...”

  “E, bem,” ia dizendo Artemis, preocupado, “e gatos? Elas também pegam?”

  “Não, branquinho, fique tranqüilo. Animais estão em segurança,” respondeu Finna, afagando a cabeça de Artemis, que respirou aliviado.

 

  Todos ficaram conversando na mesa; Lua discutindo com Serena e Darien sobre Titã e se ele já estaria sabendo que estavam em Eros. As meninas se divertiam com Artemis, fazendo palavras cruzadas. Mina foi sorrateiramente até a janela dos fundos e se encostou o rosto junto ao vidro. Será que ele apareceria? Queria muito vê-lo de novo, e, dessa vez, iria atrás dele, para descobrir o que aquela capa escondia. Estava imersa em seus devaneios quando uma mão surpreendeu-a, tocando-lhe o ombro.

  “Mina? O que está fazendo aqui?” perguntou Finna.

  “Ah, er...” tentou pensar numa boa desculpa, sem sucesso, “nada...”

  “Agora quer me enganar? Ainda tem que aprender muito para passar a perna na grande bruxa Finna,” disse, tentando descontrair Mina, que estava muito nervosa. A loira olhou diretamente para Finna e depois virou-se para a janela.

  “Quem mora naquela casa, Finna?” indagou Mina.

  “Por que deseja saber?”

  “Quem mora? Quero saber que foi o encapuzado que vi.”

  Finna olhou para Mina com desaprovação, “Deve esquecê-lo. Não quero que fale nele. Não quero que fique tentando vê-lo novamente.”

  “Mas por quê? Que ele é?” perguntou exaltada.

  “Não importa, é para o seu bem. Não deve procurá-lo nem vê-lo novamente. Prometa que vai esquecer que o viu,” falou Finna, muito séria.

  “Mas, Finna...”

  “Não argumente. Prometa apenas.”

  “Não sei se posso.”

  “Então terei que enviar todas vocês de volta e banir-lhes deste mundo.” Finna virou-se para ir embora. Mina viu-a se afastar decidida e suspirou.

  “Eu juro. Vou esquecê-lo. Quem quer que ele seja, vou apagá-lo de minha mente.”

  Finna não se virou.

  “Será melhor assim.” E continuou a andar. Mina virou-se para o vidro e olhou mais uma vez para a casa misteriosa. “É pelo bem da princesa,” murmurou para si mesma.

 

  Mais tarde, Darien e Serena resolveram se recolher, já que Finna avisara que iriam todos acordar cedo para começarem de verdade com o aprendizado da magia. Deviam parar de levar tudo na brincadeira, pois a vida de todos, inclusive de Hikari, dependia disso.

  Deitados na cama, Darien abraçou Serena, murmurando palavras doces no seu ouvido. Ela riu, descontraída, e olhou para ele. Sua boca era igual à de Hikari... Sentiu-se mortalmente culpada por estar ali, tendo momentos agradáveis com o homem que amava enquanto sua pobre filha sofria nas mãos de um crápula desumano. Não era justo. Não era justo ela amar enquanto a filha se contaminava com o vírus do ódio. Não era justo que ela se divertisse. Serena virou-se para o outro lado, dando as costas a Darien.

  “O que foi?” perguntou ele, não entendendo nada.

  “Nada, é só que...” Serena pensou mais uma vez, “Não é justo que nós tenhamos bons momentos enquanto nossa filha sofre.”

  “Serena,” começou Darien, “Não deve pensar assim. Relaxe... Tudo acabará bem.” E abraçou-lhe as costas.

  A loira se desvencilhou dos braços fortes de Darien e sentou-se na cama. Ele beijou-lhe os dedos lânguidos da mão. Ela puxou a mão para junto ao corpo bruscamente.

  “Não. Me deixe em paz!” disse com lágrimas nos olhos e deitou-se, cobrindo a cabeça. Darien suspirou, deitando virado para o outro lado.

 

  Rei tinha decidido que iria dormir no sofá do porão, perto da lareira. Metera na cabeça que faria da lareira um fogo sagrado para que sempre estivesse aceso, permitindo leituras e previsões do presente e futuro. Para ela, uma sacerdotisa de Shinto, era muito importante realizar as orações diante de um fogo sagrado e ela não podia mais adiar essa tarefa. Passaria a noite cuidando disso. As outras meninas continuariam a dormir na sala e os gatos... bem, os gatos se arranjam em qualquer lugar, não?

 

  Mina e Lita já estavam dormindo e a casa estava às escuras quando Ami abriu os olhos. Sem fazer barulho algum, puxou algo de debaixo do travesseiro. Ergueu à altura dos olhos e viu em letras douradas “Yan O’Donkel”. Seu coração bateu mais rápido enquanto lia o endereço e telefone que constavam no cartão de visitas.

  “Só mais um pouco,” pensou, “Só vou esperar mais um pouco.”

 

  No seu gélido planeta, Sailor Plutão teclava no computador principal de seu castelo. Parecia preocupada e intrigada. No fundo era mais curiosa que um gato, e não se conformava quando não sabia de algo. Seus olhos iam de um lado para o outro, observando cada dado na tela cuidadosamente.

  “Não pode ser... ninguém some assim...” murmurava, “Vou descobrir... Vou descobrir, e logo.”

 

  Ikuko olhava pensativa para o céu. Onde havia se metido Serena, Darien e Hikari? Que saudades tinha de sua filha e de sua netinha... Até mesmo de seu genro... Ele era muito bom e ela gostava dele realmente. Pensara em procurar a polícia, mas algo em sua mente não a deixava fazê-lo. E agora havia aquilo. Havia aquilo no céu. Era tudo tão fantástico.

 

  A chuva de meteoros começara há uma hora, deixando os estudiosos em polvorosa. Ninguém estava esperando por uma chuva, muito menos daquela intensidade, muito menos que durasse tantas horas. As pessoas saíam nas ruas ou se amontoavam nas janelas para assistir àquele deslumbrante fenômeno. Alguns tiravam fotos, outros filmavam, a diversão era geral. Era tanta agitação que ninguém percebeu quando uma esfera de luz caiu sobre um prédio e rapidamente tomou a forma humana, desaparecendo misteriosamente na escuridão...

 

Fim do Capítulo 2!

 

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