| D i c i o n á r i o H i p e r - T u d o |
HIPER-VIADO _ Era um cara lá de Pinote do Aragão-M.G., o Wanderly, hoje "consultor de estilo de vida", astrólogo de empresas e crítico de vinhos em Miami; um cara jeitoso, que se deu bem na vida sem ter que desmanchar o penteado.
Há uns anos atrás, quando ainda morava no Brasil, ele caiu de amores por um garotão que tinha acabado de se mudar pra sua vizinhança. Não sei o que ele viu no rapaz, mas a sua fissura era tanta que, não conseguindo se aproximar dele de outra forma, deu um jeito de começar a namorar sua irmã, a Ironeide, uma ninfomaníaca bestialmente, histericamente libidinosa _ dessas que rosnam, babam e de vez em quando arrancam até pedaço do macho durante o "ato". Ela também já tava de olho nele (no Wanderly), de modo que não foi nada difícil conquistá-la.
Ele a abordou numa festa, com trejeitos de machinho no cio. Fazendo um esforço enorme, disse que ela tinha "um sorriso in-crí-vel!" Ao que ela retribuiu dizendo-lhe, à queima-roupa, que sentira um tesão louco e inexplicável, logo que o vira pela primeira vez (e assim falando, vasculhou-o de alto a baixo com um olhar indecente). Isto já nos primeiros segundos de conversa. Wanderly sentiu um gelo na barriga, pressentindo a roubada em que tava se metendo!.. Ela gostava de futebol, meteção e bebida; e ele, de moda, poesia, decoração de interiores e culinária tailandesa.
Aliás, o "comer" sempre foi pra ele uma das coisas sublimes
da existência. Era na mesa que ele se
encontrava
consigo mesmo, fazendo as louças tilintarem musicalmente, manejando
os talheres como um mágico, dissecando acepipes exóticos com
procedimentos cirúrgicos de alta complexidade, sentindo a textura
dos materiais, o ritmo, os aromas, o enlevo estético... Neste
esotérico ritual, não era propriamente o sabor da comida que
contava, mas o clima, o cerimonial da coisa, o melindre infinito _ enfim,
era justamente ali, mexendo coisinha pra cá, coisinha pra lá,
que o Wanderly recompunha o seu mundo e reorganizava os seus sentimentos
de bicha sem-vergonha.
Tomar vinho em copo de conhaque ou conhaque em copo de vinho, pra ele é o "fim do mundo". Já a loba selvagem com quem ele foi se meter é um desastre à mesa, a notória figura do macaco em loja de cristais. É natural dela um despojamento de maneiras tal, que chega a ser confundido com escândalo e grosseria. Um exemplo corriqueiro: toda vez que sente fome fora dos horários de refeição, ela vai até o fogão e, abrindo a portinha do forno, dá uma golpada de concha na panela de feijão frio, donde saca estupidamente a massaroca preta respingante em direção à boca; abre então a geladeira e manda duas dedadas no vidro de maionese, misturando-a com o feijão dentro da boca. Quase que entalada, ela ainda completa o gosto com uma e sguichada de ketchup ou uma dentada num tomate e, com a boca transbordando, dá uma aspirada num montinho de sal colocado sobre a palma da mão. Engolido o bocado, dirige-se ao filtro e chupa um pouco dágua, direto na torneirinha. Nosso equívoco mancebo, quando dava de cara com aquela torneirinha batizada com uma resma marrom ensebada, chegava a ter vertigens!..
O cara é tão fresco que desmaia quando leva susto. Certa vez, pra tirar um espinho do pé, teve que ser contido à força e ir carregado pro hospital, aos chiliques. No entanto pra arrebitar o narizinho com cirurgia plástica, seria capaz encarar o bisturi sem anestesia.
É lógico, o hiper-viado só veste roupa de grife. Cueca? _ Só se for Calvin Klein... e dois números abaixo do seu tamanho. Como toda bicha que se preza, ele adora perfuminhos, penteados arrojados e fofoca de artista. Seu sonho é um dia estar pessoalmente na festa do "Oscar", rebolando num modelito negro Versace...
Ele acha um absurdo ter que pagar dez reais por um bujão de gás, mas acha o máximo ser assaltado nessas descaradas butiques de grife ou pagar 300 reais por um frasco de perfume de 5 ml... Não aceita carona em carro feio, não corta cabelo em barbeiro e não come bife a não ser que esteja grelhado ao ponto, pincelado com algum molho de nome empolado e artisticamente decorado com um melancólico galhinho de manjericão ou, melhor ainda, aureolado com umas cinco folhinhas de bambu bem fresquinhas... Já a Ironeide, mulé "do bicho", não esquenta com nada: não tá nem aí se o bife é frito, grelhado, assado ou cru... e no demais, não quer nem saber se o pato é macho.
Mesmo tendo náuseas ante aquele órgão feminino que os médicos chamam de buceta, Wanderly se dispôs a foder com a taradona 7 vezes por dia... Tudo em nome de um sonho! Você naturalmente tá duvidando: "Mas como ele conseguia ?!" _ Ora essa, eu sei lá! Tente enfiar uma beringela no cu pra ver se não era esse o truque.
HIPER-MALOGRO _ É quando o hiper-viado, anteriormente descrito, após finalmente ter conseguido fisgar o seu rapazola, descobre: primeiro, que o dito cujo também é enrustido; segundo, que a irmã dele está grávida. E é obrigado a casar (com um revólver encostado na cabeça).
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