| D i c i o n á r i o H i p e r - T u d o |
HIPER-FOLGADO _ Carlos Jorge é aquele tipo de rapagão espaçoso e indecentemente satisfeito consigo mesmo, apesar de ainda dormir chupando dedo e de mijar na cama quase todas as noites. Na doce inocência de sua juventude, do alto dos seus 26 anos, ele resplandece, equilibrado em seu pedestal de ilusões: a síntese do ego perfeito, uma Ferrari top de linha em forma de gente.
Um talento admirável que não se pode negar nele é o dom que tem de afetar todas as atitudes e trejeitos daqueles ídolos do cinema que fazem o gênero "fodão". Ele conhece todos os climas, todas as fotogênicas e crepitantes asneirinhas dignas de um bom roteiro norte-americano; sabe como encaixar ali um personagem bem seboso e como agir dentro da pele deste personagem: às vezes charmoso, às vezes impetuoso; sombrio; sentencioso; cool; viajado; expedito; temerário; velhaco; às vezes um misto de intelectual e esportista; às vezes um misto de homem generoso e cruel... sonhador e dinâmico... sofisticado e rude... pragmático e romântico... frio e astuto, porém indefeso e inocente como uma criança, quando sente o toque do amor ou se lembra do perfume de uma rosa _ enfim, um homem cheio de contradições, mas com um imenso coração, algo assim... mais forte que a própria vida... um enigma a ser desvendado. Eis, em poucas palavras, como o rapaz se sente: a coisa mais saborosa do pedaço!
Todas
estas prendas e cabedais acabam por lhe conferir aquela personalidade robusta,
exuberante, energética; aquela largueza de gestos, aquele carisma
de menino grande e forte, carente de adulação, que passa pras
pessoas um misto de pena e intimidação _ pois ele parece poder
muito bem machucar a si mesmo e aos outros caso perca o controle, ou seja,
caso se desespere por não ser levado a sério.
E eis que chegam os dois _ ele e Vânia, sua noiva _ em visita a casa de uma tia desta, até então desconhecida de Cacá. Constatando, logo de cara, que se trata de gente de condição mais humilde que a sua, ele, que por precaução se sentia de moderado tamanho até um minuto atrás, automaticamente passa a se sentir mais importante, mais ilustre, mais dono da pelota. Apesar da diferença de idades, ele cumprimenta os donos da casa com uma jovialidade esfuziante, uma pegada firme e franca, quase que brutal no aperto de mãos, como se dissesse: "Alô, meninos, estou me sentindo ótimo hoje!, aproveitem!" Apesar do tom prazenteiro e folgazão, há no cumprimento, por parte de Cacá, uma clara presunção de que a sua presença ali é uma honra pros anfitriões _ talvez mesmo um favor, um ato de nobreza.
O primeiro cômodo da casa é a copa, onde eles se assentam em volta da mesa já posta, pra comentarem as últimas manchetes da mídia e fazer um lanche _ Vânia, Cacá, tia Juraci e o tio Welerson... Minutos mais tarde, depois de dar um show de desequilíbrio mental e monopolizar os artigos mais suculentos da mesa com a fúria de um leão, ele se levanta (a boca cheia de queijo, requeijão e presunto) e interrompe o assunto da tia Juraci: "Agora vamos conhecer o resto da família!", comanda ele sem a menor cerimônia. E se dirige à sala, onde estão a vovó, as meninas e o tio Biba, assistindo televisão. "E aí pessoal, cumé qui é? Nóis vamo ganhá esse jogo de hoje ou num vamo?", diz ele referindo-se a uma partida de futebol que vai acontecer daqui a pouco, semifinal do campeonato carioca... Depois das apresentações, da troca de referências e daquela familiar cheiração de cu, a atenção do pessoal passa a se dividir entre a conversa e o programa da televisão.
Cacá: "Posso dar um telefonema?" "Claro, a casa é sua!" Ele só não explicou que ia ligar pro serviço esotérico que acabou de anunciar na TV. Os poderes da numerologia a 5,99 o minuto. Após 20 minutos de um papo muito esquisito, Cacá desliga o telefone e se volta pro pessoal com a fisionomia de quem acabou de receber uma notícia maravilhosa. Com passadas enérgicas, visivelmente excitado, dirige-se à televisão e a desliga na cara de todos. "Vamo dialogá, minha gente, vamo dialogá! O que o mundo mais precisa hoje em dia é de diálogo, de pessoas que se comunicam, que trocam idéias!", falou ele, julgando-se eloqüente. Com este gesto, que copiou de um filme, pensava ele estar sendo bacana, entusiasmante, desrobotizante, libertador (e lindo como o ator cabeludo que protagonizava o filme). Passou então a falar de seu telefonema pro serviço de Walter Melado, o travesti esotérico.
Cacá ligou porque queria "revelações" sobre a sua linda personalidade. Bastou dar seu nome e dia de seu nascimento pra que a feiticeira de plantão deslindasse com uma precisão espantosa todos os empolgantes aspectos de seu ser. A telepilantra não teve dificuldade em retê-lo por 25 minutos ao telefone, após detectar nele aquela espécie de bobeira mesclada com vaidade e imodéstia total. E foi esta a matéria do "diálogo" que ele marretou por uma hora e meia na cabeça do pessoal: toda a lenda e toda a vertigem que jazem ocultas em seu enigmático universo interior, à espera de um chamado do destino...
Então, já repleto e satisfeito, Cacá consegue se lembrar de outro assunto.
_ Ih, caralho! O jogo! _ ele pula do sofá e torna a ligar a TV.
_ Porra, o Vasco já fez um gol, cacete! _ e pula de volta, escarrapachando-se entre a vovó e as meninas.
_ Cruza a bola, viado! ... Não tem cerveja aí nessa casa
não, ô malandragem?! ... Vai tomá no cu, ô porra,
filho de uma puta, abre esse jogo pela direita, caralho!... Essa merda vive
só pra chutar uma porra duma bola, não faz outra coisa na vida,
e não sabe acertar um cruzamento na área!
Puta-que-o-pariu!..
Chega um momento em que a sala tá vazia _ todos saíram, constrangidos, um a um, de fininho. Ficou só o Cacá, compenetrado, gesticulando e gritando palavras cabeludas a torto e a direito. Num desses faniquitos, duas moedas lhe escorregam do bolso da calça e caem na fresta entre o assento e o braço do sofá. A princípio ele fica futucando distraidamente com os dedos, enquanto acompanha o jogo; depois tenta com uma caneta; depois com uma agulha de tricô que achou no armário do quarto de casal. Sem sucesso, ele começa a ficar nervoso, passando a dar estocadas e arrancões. Tirar aqueles míseros centavos da greta tornou-se pra ele uma questão de honra. Sem hesitar, ele então arromba o sofá aos solavancos, grunhindo como um animal. Pro sonsão, nada mais existe no mundo neste momento a não ser a sanguinolenta vingança em que ele se empenha com toda as fibras do seu ser!.. Atingido o seu intento, dirige alguns desaforos emocionados às moedinhas, coloca-as no bolso e engatilha descaradamente as duas partes quebradas da mobília, deixando-a pronta pra desmoronar com um simples assovio.
Com a consciência leve e limpa, nosso príncipe troca de assento e continua a assistir o jogo, tranqüilamente... Percebendo que o pessoal tá todo na varanda, ele abandona a timidez e invade a geladeira, a procura de cerveja. "Porra, só tem duas!.. Se eles me perguntarem alguma coisa, digo que já cheguei aqui com essas cervejas... Oba!, tem uma cidra aqui também! Dá pra completar a calibragem.
O jogo terminou, um a zero pro seu Vasco. Feliz e meio bêbado ele reencontra a noiva e seus parentes no pequeno quintal. Diz como foi comovente conhecê-los, como foi bonito estar ali entre eles, mesmo que por uns breves instantes. Expõe a sua análise do jogo, e conclui a conversa com reiteradas exclamações de como a vida é linda e preciosa. Vânia está orgulhosa!
Assim ele se despede, convencido de ter encantado a todos. Leva consigo, de cortesia, o caderno de esportes surrupiado do jornal do tio Welerson, um bonito canivete com cabo de chifre e um abridor de garrafas em forma de cavalo marinho. Deixa, em contrapartida, algumas lembranças que os donos da casa logo vão descobrir: uma privada entupida, uma peça de mussarela com várias marcas de dentada, um sofá arrombado, a televisão quase estourando no volume máximo, três garrafas de bebida dentro da maquina de lavar roupas e uma bomboneira de cerâmica cheia de urina. No começo do mês que vem, a contragosto, eles tornarão a se lembrar do nosso gentleman. "Deve haver algum erro aqui!", pensarão eles ao receber a conta telefônica de 180 reais, sendo que 140 referentes a uma só ligação. "Que nome mais estranho é este?.. Sucesso Total _ Os Números Divinos de Walter Melado..."
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