S U R U C U C U   C O M   I N H A M E                   





                                  




      D i c i o n á r i o  H i p e r - T u d o                                 




HIPER-LOQUACIDADE _ (A cena que se segue é continuação à do verbete anterior).

... Quando todos se preparavam pra deixar o local, um som estranho começa a vir do túmulo. A lápide de concreto se levanta lentamente, respingando cimento fresco. É o doutor Aparício ressurgindo do mundo dos mortos. O discurso de seu nobre sobrinho foi tão pungente, que ele, já desencarnado, sentiu-se na obrigação de retornar a seu invólucro carnal para agradecê-lo, e a todos os que hoje vieram prestigiá-lo. Ele se põe de pé sobre a catacumba... os ossos a estalar repulsivamente... a voz rouca e gorgolejante... a baba escorrendo...

"Meus senhores, minhas senhoras. É com a alma jubilosa e o coração fremente de prazer que venho agradecer-vos pela torrente de aclamações com que fui saudado! Faltaria ao mais elementar princípio da civilidade, se não agradecesse o brinde tão calorosamente erguido por este meu excelente sobrinho. É somente por isto que retorno momentaneamente ao calor de vosso convívio, em carne, osso... e ectoplasma.

Meu dileto e tenebroso pupilo! Caboclo torunguenga das venta furada! É profundamente sensibilizado que vos agradeço tantas deferências. O dia de hoje jamais me sairá do coração! Cativou-me a vossa bondade. Sinto-me irresistivelmente atraído pela vossa bela personalidade! Tantas e tão espontâneas têm sido as provas de vossa lealdade, que tenho a certeza de que sem homens como vós, nada poderíamos esperar de belo e glorioso para a nossa pátria estremecida! Encontro-me de tal maneira emocionado, que receio não saiba corresponder a tanta gentileza...

Fostes, de fato, muito feliz ao mencionar com a devida ênfase os meus predicados de pedagogo e difusor do saber científico; entretanto gostaria de salientar _ na qualidade de empresário, escritor, filósofo, filantropo e hierofante da Igreja Positivista do Brasil _ que, se fiz o que fiz, e se cheguei onde cheguei, nada mais fiz do que cumprir com o meu dever!"

Logicamente, a esta altura já não há viva alma por ali. Até o insolente mendigo se juntou à debandada geral que se deu, logo que o defunto apontou a cabeça.

Começa a chover, e o morto-vivo dá prosseguimento ao certame _ o rosto assimetricamente inchado; o braço direito à frente, retesado num gesto de saudação paralítica... imóvel como o resto do corpo. Flores macegadas lhe escorrem pelos cabelos lambidos sobre a testa. Como os olhos estão inutilizados (o direito revirado pra cima e o esquerdo, saltado da órbita) ele não pode ver que todos se foram. O entardecer vem caindo, e chove cada vez mais. Sua asquerosa voz se mistura ao som dos trovões.

"Oh, senhores, minha alma clama por deixar logo esta grosseira vestimenta carnal e ascender enfim ao reino da pura idealidade! Mas as observações lisonjeiras que a amizade ditou ao meu ilustre e saudável sobrinho forçaram-me a tomar a palavra, embora ciente da minha pouca eloqüência para manifestar tanto sentimento!

Tenho absoluta certeza de que todos os louvores que hoje me foram dirigidos ficarão perpetuados num material bem mais loquaz do que as meras palavras e bem mais sólido que o bronze ou o granito dos monumentos cívicos que possam ser erguidos em minha memória: o coração dos filhos desta gleba generosa e altiva _ Jacupiaçu do Sul! Com efeito, é no batuque sistólico e diastólico do músculo cardíaco dessa minha boa gente que se encontra a minha verdadeira apologia, em forma de samba enredo!

Confesso que cheguei a ter vertigens, lá nos píncaros do Olimpo a que fui alçado pelos disparatados elogios, pelas preces e reverências de todos os aqui presentes! Senti-me encabulado e cabreiro... vexado até! Não obstante, alegrou-me deveras ver meu sobrinho Francisco _ vulgo Chiquinho Cata-Ovo _ no exercício de uma eloqüência que faria inveja a um Cícero e a um Demóstenes! Como é gratificante ver que aquele menino rebelde dos velhos tempos deixou para trás as substâncias ilegais e as más companhias e se tornou um homem sério!, e ainda mais que isso: um exímio esgrimista da palavra, cuja dicção escorreita se mostrou isenta de todo e qualquer plebeísmo ou bestialidade sintática!

Amigos! Quem dentre vós poderá ignorar este admirável mistério que é a Predestinação? Sim, pois só nos mais recônditos e insondáveis desígnios do Mestre Universal posso eu entrever o dínamo secreto de minha vida e minha obra! Tanto é, que sempre que me indagavam sobre como pude não sucumbir, esmagado sob o peso de minhas graves responsabilidades, eu respondia simplesmente: ‘Assim está escrito!’ Sim, irmãos, confesso que nada mais fui do que um resignado servo do Verbo Divino!

Em meus temerários e verdolengos anos, quando aqui cheguei, trazendo comigo os ideais helênicos do bem-falar, do bem-pensar e do bem-agir, encontrei não mais que um arraial de jecas desgrenhados e boquiabertos, atolados até as orelhas no brejo da promiscuidade animalesca. Ainda não conheciam a luz da verdade, aqueles bugres arredios!, assolados por lombrigas e doenças infecto-contagiosas das mais desmoralizantes... Imediatamente encetei uma luta sem tréguas pela iluminação da mentalidade nativa e, sem jamais esmorecer em minhas convicções, digladiei-me num combate ciclópico contra o dragão da ignorância e a serpente da libertinagem!.. Hoje, poucas décadas depois _ e sem devermos favores a ninguém _ somos conhecidos como a Paris do Vale do Birigüi, vanguarda absoluta nas lides parnasianas regionais!

Guerreiros e guerreiras desta terra suntuosa! A despeito de tudo o que realizei, exorto-vos a que não baixeis a guarda, pois eis que a Ignorância novamente ergue sua face catarrenta e despudorada em nossa direção! Meia-dúzia de ciganos pernósticos _ membros da insolente piolharia que assola nossos quadros políticos atuais _ conspiram para desmantelar as bases éticas e institucionais que, com tanto desprendimento, consolidamos em nossa Lei Orgânica Municipal, naqueles tempos sublimes da Aliança Renovadora Nacional _ a saudosa ARENA!.. A gana das facções desalmadas já não conhece limites para sua desfaçatez! É hora de colocarmos rédea e cabresto nesses malfeitores! É hora de varrermos, com braços de Hércules, as estrebarias de Áugias que ameaçam profanar os jardins de Castália! Uma lenda não se destrói num só dia, irmãos! Morrer, sim, mas afrouxar, jamais!!! A saga permanece viva! Continuai minha obra! Meu vulto vigilante vos contempla da Eternidade! Alçai o lábaro do Energismo, irmãos! Zelai pelo fogo sagrado de Vesta!"

A chuva continua firme. A cada duas ou três frases do orador, o clarão dos relâmpagos banha o cemitério com um fulgor lívido, de pesadelo.

"Adeus Dolores, minha perdição!.. eu te perdôo, malvada! Adeus!.. Adeus amados condiscípulos! Adeus conspícuos e vigilantes confrades da Irmandade Águias do Oriente! Proeminentes companheiros e correligionários, adeus! Adeus flores, adeus pássaros! Rios e montanhas de minha terra, adeus! Adeus doutor Anfilófio, nosso aguerrido prefeito!, causídico benemérito!, mestre da nova processualística sodomítico-orçamantária esteatogípica e embasadíssimo especialista em subtração argentária!.. E de resto _ não nos esquecendo de nossa plebe adorada! _, adeus turba obtusa!, adeus néscia gente desta Jacupiaçu fagueira _ fístula nefanda conspurcada nas águas lustrais do pacovismo abjeto!.. Oh, Jacupiaçu-do-meu-bem-querer!.. cloaca pútrida, prenhe das mais vituperantes teratologias!.. Adeus!.. adeus a todos vós, irredentos cropófagos da boçalidade, que têm por guirlanda os nidorosos fulgores excrementícios do hebetismo ancestral! Adeus, pois é chegada a hora!.. Este guerreiro retorna enfim a sua mórbida morada, deixando livre a tribuna a quem nos queira ensejar algumas considerações finais... E pela última e derradeira vez vos conclamo: O Amor por princípio! a Ordem por base! o Progresso por fim!!!"

Num movimento marcial, o morto-vivo faz o sinal do Positivismo, dá duas golfadas e, como uma marionete largada no ar, desmorona-se pra dentro do féretro. A tampa cai violentamente, como se golpeada por uma mão invisível, e a lápide se assenta magicamente.

Os céus rendem sua última homenagem ao professor ABC, enviando à terra alguns fotogênicos fachos de luz mortiça, que escapam por entre umas nuvens ao longe...

 

 

HIPER-VEXAME _ Vide verbete Hiper-inoportuno. A diferença é que aqui o "zuadão", antes de cair da tumba, vomita; e depois de cair, ao invés de manter o ar fidalgo, acaba quebrando um braço e ainda leva uma surra da viúva. O que não quer dizer, necessariamente, que ele tenha sentido vergonha com o fato.

"Efetivamente, os nossos ridículos são, em grande parte, causados por um belo sentimento, por virtudes ou faculdades levadas a um extremo." (Honoré de Balzac)

 HIPER-VERGONHA _ É quando o sujeito, após dar o hiper-vexame (descrito no verbete anterior), acorda na manhã seguinte com suas faculdades de discernimento em estado normal, ou seja, como cidadão compenetrado e com vergonha na cara. Ir trabalhar de ressaca é o de menos, pois ele não se lembra de nada do papelão que fez no dia anterior. O pior da ressaca agora é ele, enfraquecido, estômago embrulhado e senso de humor zero, ter que ouvir de sua mulher uma longa e grave narrativa em todas as suas minúcias, muitas delas estarrecedoras. Tudo isto pontuado de reprimendas, exclamações de desgosto, pitadas de deboche, intimações, ultimatos, observações ferinas e vingativas etc. Como dizia Rod Stewart: " Cachaça... é coisa de pinguço!"


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