S U R U C U C U   C O M   I N H A M E                   




                           




    D i c i o n á r i o  H i p e r - T u d o                         




HIPER-PRETENSIOSO _   "São sempre os menos capazes que olham os outros de cima e voltam da luta cheios de orgulho e disposição. A fatuidade da linguagem e a jovialidade que os pretenciosos demonstram, dá-lhes um ganho de causa imediato perante uma assistência em geral fraca e incapaz. A obstinação e a convicção exagerada são a prova mais evidente da estupidez. Haverá algo mais afirmativo, resoluto, desdenhoso, contemplativo, grave e sério que um burro?" (Montaigne, séc. XVI)

Acontece que, embora nos refiramos à "pretensão" de modo pejorativo, está mais do que provado que a mesma é um item essencial no kit de sobrevivência do homem saudável. Sem ela, adernaríamos como um navio sem lastro e afundaríamos no mar do desencanto e do desespero, ao sopro da mais leve brisa. "Não há nada de novo sob o Sol..." Desde o mais infame até o mais sublime dos mortais _ como Montaigne _, somos todos joões-bobos cheios de vento, e a pretensão é exatamente o contrapeso que nos mantém de pé. Além disto, ela possui preciosas qualidades filtrantes, que impedem que sejamos invadidos por uma quantidade excessiva de verdade. Sem dúvida, se tirássemos dos olhos os cariciosos véus da pretensão, seríamos moralmente aniquilados pela inesperada e descomunal visão de nossa patetice... e pularíamos de cima do primeiro despenhadeiro, dando gritos loucos e nos rasgando de unhadas.


              


Mas o que nos interessa aqui não é esta dose providencial de ridículo de que necessitamos; o que nos interessa é o hiper-ridículo, o horrível, o diabólico, o bizarro... O "hiper-pretensioso" pra mim são, por exemplo, esses shows em que bandas de música pop (pra baixo de medíocres) se apresentam acompanhadas de orquestra sinfônica. É bem comum este tipo de palhaçada. Os músicos desses grupos, ingressando na idade madura, depois de emplacar 15 anos de sucesso em cima de uma multidão de débeis mentais, passam a se sentir da estatura de um Beethoven ou de um Bach. Parece exagero, mas não é: engrandecidos de tanto ouvir os gritinhos e faniquitos das tietes, os caras começam a acreditar que são realmente "gente de peso". E aí, é batata: vão passar uma longa temporada revisitando os grandes "clássicos" de sua carreira, acompanhados de oboés, pistons, arpas, clarinetas e o caralho. Imagine só como os músicos da orquestra devem se sentir idiotas, vendo-se reduzidos a uma função meramente decorativa... Lá na frente, sob as luzes da glória, meia dúzia de canastrões cheios de brinquinhos e penteados ficam fazendo caras e bocas, se passando por grandes mestres da música. Os verdadeiros músicos ficam na cozinha, de casaca e violino, aplicando todo o seu virtuosismo a serviço de três simples acordes _ forim-fon-fum, forim-fon-fum... Um belo logro!

Mas não pára por aí: a partir deste ponto de suas carreiras, o vocalista e o guitarrista da banda passarão a freqüentar a mídia na condição de intelectuais, de verdadeiros pensadores da cultura.

Há milhões de exemplos do "hiper-pretensioso" _ e da "hiper-credulidade" (coisas naturalmente inseparáveis). No final das contas é tudo mais ou menos parecido com aquela história medieval da "Senhora Mundo", uma maravilhosa e radiante dama, que aparece a um cavaleiro alemão, sujeito ambicioso: "... mais linda que Vênus e Palas e todas as deusas do amor." Uma visão celestial! Ele vai logo caindo de joelhos, babando, beijando seus pés, jurando-lhe amor e devoção eterna. Ela lhe diz: "Isto seria redundante, nobre senhor, pois sempre foste um de meus servos mais fiéis e denodados... ou não sabes?! Aqui estou para que me desfrute, porque sou tudo isso por que viveste e lutaste com bravura durante todos esses anos, desejando-me e honrando-me de minuto a minuto. Eis-me, sua recompensa..." A beldade então lhe vira as costas, insinuante e sensual, oferecendo-lhe suas primícias: "Estava tudo cheio de horrendas cobras, sapos e serpentes. Bexigas e feias úlceras cobriam sua pele; moscas e formigas pousavam ali dentro de forma pavorosa; e os vermes tinham comido a carne até os ossos. Um intenso mau cheiro emanava daquele corpo repulsivo, e as ricas vestes de seda pareciam desbotadas e desfeitas como cinza... "

Oh, melancolia!


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