| "Tem gente ruim nesse mundo, que | |
| mata só pra ver o outro fazer careta" |
Dona Atanásia contava então com 64 anos. Alagoana, mulher de fibra, fazendeira, parideira, açodada em seus afazeres domésticos, religiosos e sociais, administradora extremosa, dona de uma determinação do caralho (e ruim como o capeta pros empregados). Apesar da idade e do porte físico mais pra gordo que pra magro, tinha ela uma vivacidade incansável, própria das pessoas afobadas. Hoje (junho de 99), a se completar 75 anos de sua morte, sua figura permanece presente, como um legado ao folclore local, muito viva no imaginário do povo _ às vezes até com atributos sobrenaturais. Naquela região de Alagoas onde viveu, quando se fala em ruindade, seu nome é sempre lembrado. Os repentistas se referem a ela como Dona Diaba, Satanásia, Dona Coisa e mais uma dúzia de alcunhas, todas relacionadas com o Tinhoso, o Coisa-Ruim, o Cão. Dizem eles que a dona era tão ruim que, quando foi pro inferno, Cérbero perdeu o emprego... Esta maldade, que naturalmente lhe roubara bem cedo o encanto faceiro de femeazinha comível, lhe compensara de outro lado com uma obstinação ferrenha (a escrota parecia mesmo ter um formigueiro de lava-pés fervendo dentro do cu e um cacho de marimbondos na boca).
Seu marido, o coroné Gurmêncio da Câmara Taboada
_ tido como homem brabo _ desde o dia de seu noivado, fora sempre um fantoche
da ambição dessa dona. Quando embeiçou-se por aquela
moça, enfeitiçado por um lindo par de olhos verdes, nhozinho
não sabia a víbora geniosa que tava ali, a manipuladora, a
jogadora ousada, falaciosa, mal-intencionada, sabedora de astúcias
imagináveis só numa mulher de trezentos anos de idade, ou seja,
numa bruxa... Não sei se você já notou, mas as pessoas
dissimuladas (daquelas a quem só falta um letreiro na testa), quando
bonitas ou ricas ou de forte personalidade, fazem-se facilmente objeto de
uma paixão de safadeza masoquista, já que o que não
falta é babaca e puxa-saco nesse mundo... e há também
o fascínio perverso do nojo oculto, da atração pelo
horrível _ algo psicologicamente correlato ao tesão que temos
em espremer espinhas e furúnculos... Dona Atanásia fora
moçoila formosa, com umas ancas bem fornidas e uns olhinhos selvagens
que deixaram nhô
Gurmêncio
louco de tesão. Sua pele era de um tal frescor... suas nádegas,
duas jacas túmidas e suculentas... Uma
rapariga
vinda do sertão, como de encomenda, no jeito pra se enfeitar uma cama!..
Só que em pouquíssimo tempo esta beleza azedou, o remelexo
endureceu, o xaxado virou queixume, e o xodó, xiquexique. A feiúra
interna era tão forte que aflorou pelos poros; e a cada dia a moça
parecia mais feia, como que por obra de alguma praga bem rogada.
Mulher rançosa e embolorada de fidalguia, orgulhosa de suas origens, Atanásia descendia na verdade de uma antiga linhagem de mamelucos sitiantes, paupérrimos, ordenhadores de cabra _ todos portadores daquela maluquice religiosa dolorosa e torturosa que a seca produz: aquela tristeza tagarela, a devoção maníaca, as ladainhas, o falatório lamurioso e apocalíptico de cordel, aquelas manias de penitência, de suplício, de autoflagelo com chicotinhos cortantes... Quando se casou com um homem descendente da fina-flor da aristocracia da mandioca e da cana de açúcar, procurou forjar pra si, em sua própria mente, uma ascendência igualmente ilustre. Assim, acabou se convencendo de que seus ancestrais foram autênticos guerreiros... os criadores mitológicos da caatinga e dos cariris ou qualquer coisa que o valha. Seu pai, que alcançou a proeza de sobreviver até os 42 anos (morrendo de velhice), pra ela se transformou no "Senhor dos Espinhais" _ seja lá o que isto signifique. Também ela nascera com um parafuso a menos na cabeça, fato identificável à primeira vista no seu zelo obsessivo por miudezas.
As pobres das empregadas tinham que manter todos os cantos da casa brilhando de limpeza, já que nada era insignificante demais pra escapar aos olhinhos ferozes da dona diaba. Nunca se tinha sossego no casarão, pois era impossível saber qual seria o próximo capricho da patroa; qual infalível detalhezinho poria pra ferver aquela explosiva mistura de sangue caburé e lusitano... Caso encontrasse algum cristal levemente embaçado, ou uma toalha de mesa posta meio enviesada, uma penugem de passarinho esvoaçando pelos cantos, um pentelho perdido... qualquer coisa assim era motivo pruma interminável reprimenda, aplicada com sofisticadíssimas técnicas de humilhação física e moral.
Ela herdara o dom do improviso, a eloquência misteriosa do sertanejo, manifestada em seus avós na forma de rezadeiras desenfreadas, e nela, numa inspiração interminável pra passar esculachos sem nunca se repetir nem perder o tom. Um "sim senhora" que lhe soasse meio diferente podia ser motivo pruma explosão de cólera. Um riso inocente flagrado numa conversa de cozinha podia ser causa prum castigo feroz, pois além do mais, ela tinha uma cisma louca, por conta de sua feiúra. Os empregados, todos negros ou mulatos, não deviam sorrir perto dela em hipótese alguma _ isto era tido como uma irreverência insultuosa, inadmissível. Ali na sede da fazenda, andava-se pisando em ovos, como se houvesse uma arma engatilhada contra a cabeça, pronta a disparar ao menor deslize. Satanásia tinha mil olhos e estava em toda parte, prestes a despontar por detrás de qualquer parede com seu sadismo triunfante, sua língua de açoite e sua verve asiática na aplicação de corretivos... Sua severidade tava bem fudamentada na velha tradição escravagista. Naquela região, como no resto do Brasil, a abolição da escravatura não significou a abolição da escravidão. Os negros haviam adquirido a liberdade de sambar e fazer macumba, só isso.
Certa vez, dona Atanásia flagrou uma das negras sentadas em sua cama. Esta se encontrava exausta de tanto lustrar e esfregar a casa... Deu uma sentadinha pra dar uma respirada, de leve. Mas dona Atanásia _ que tem por estratégia deslizar pelo casarão, silenciosa como uma sombra _ faz sua aparição repentina, como que surgida do nada. Eustáquia dá um pulo, temendo a reação da jabiraca diante de tão grave profanação. Já havia presenciado, esta semana, a Bebete, outra criada, ser traiçoeiramente empurrada de uma janela, pela própria Satanásia, caindo esparramada em cima duma pilha de cadeiras velhas que estavam amontoadas ali embaixo _ isto só porque sinhá cismou que a outra havia usado a sua caneca dágua...
Ao lado da cama, a linda negra Eustáquia treme, medindo as conseqüências, pois tinha jurado a si mesma esfaquear a dona diaba caso esta passasse dos limites novamente. Mas qual não foi a sua surpresa vendo a calma da mulher, o sorriso compreensivo e maroto, cheio de cumplicidade... "Talvez ela não seja tão ruim assim. Acho que ainda tem algum cantinho mole nesse coração." _ pensou Eustáquia, esperançosa na conversão da demoníaca criatura (que, de outra feita, a tinha feito andar com uma forquilha no pescoço por tantos dias quantos foram os copos que ela havia derrubado de uma prateleira _ quinze, pra ser exato.)
_ Não se avexe não, nega bonita! Se adeite e descanse um pouco; sou eu quem tá mandando. Tu é limpinha; pode se esticar, que eu quero te ver aí dormindo que nem um anjo... aí mesmo... na minha cama mais do meu inhô. Tu merece! E, além do mais, dizem que faz bem pegar os ares de mocinha nova... fortalece!.. Nada como uma neguinha quente pra encher uma cama de calor, hem? ora se não!
_ Mas nhá Tanásia, iô inda tem qui perpará os bejim di côco po jantá...
_ Deixa, que eu mando a Divina ajudar a Cristalda lá na cozinha...
Ela engoliu direitinho, e em dez minutos já estava ressonando meigamente. Sonhou com o pai velhinho baforando seu cachimbo, sentado no banquinho de toco: "Quando o mau fica bão, é qui tá pió qui nunca, zi fia..."
Dona Mofina não suporta a beleza do sorriso da negra _ um tanto por inveja (a filha-da-puta tem inveja de tudo!), outro tanto porque lhe dói demais uma espécie de deboche recôndito que enxerga naqueles olhinhos espertos. Mesmo quando lhe sorri humildemente, em reverência a um pedido seu, a neurótica velhota enxerga ali uma espécie de deleite insubmisso e folgazão, uma zombadinha faceira, uma impertinência que a deixa perplexa e enraivecida, pois se trata de algo incapturável e, ainda assim, dolorosamente real. É como se a negra caçoasse no fundo: "Olhe bem a minha cara de preocupada, velha feiosa! Bisonha! Repare como eu sou gostosa e dengosa! Sou uma safadinha na cama; eu gozo e grito como uma louca; sou capaz de coisas que a senhora nem sonha, urubu cambaio, coisa seca!" _ É algo assim que a veneranda Atanásia sente no sorriso da pérola negra.
Eustáquia tem o dom natural da leveza; tira tudo de letra, sem demonstrar fastio, ainda que exausta. E Satanásia exaspera-se por isto... A imposição irada de uma versus a imponência fácil e natural da outra. Sinhá Tazanada sabe que é patética; precisa manter a vigilância. Já Eustáquia não precisa fazer força alguma pra deslizar pela vida da melhor maneira que deus quizer; transpira uma serenidade e uma elegância que perturbam e causam um irresistível sentimento de inferioridade à patroa. Ante as exigências mais absurdas desta, ela costuma sorrir tranqüilamente e, obedecendo, sai gingando cheia de graça, os seios a balançar lindamente, parecendo ter vida própria... vaiando, tripudiando, folgando com a cara da véia. É através desses peitinhos zombeteiros e daquele sorriso sabido que a Satanásia alcança os seus mais proveitosos lampejos de auto-crítica.
Enquanto Eustáquia dorme, a diaba saltita eletricamente de um lado pro outro, torcendo as mãozinhas de satisfação e ansiedade, num acesso de entusiasmo pueril. É até anti-estético o comportamento da velha: uma senhora de 64 anos, aparentando 85, já meio encurvada, sem óleo nas juntas... mostrando-se afogueada como um moleque que acabou de ganhar sua primeira bicicleta. Não condiz com a idade, com a "posição", nem com a severidade carrancuda que ela ostenta normalmente. É que a porra tá doida pra ver se a armadilha que tá armando vai funcionar. Ela quer ver Eustáquia vexada; quer extirpar aquele sorriso oculto, e jogá-lo no chão; ela quer ver Eustáquia velha, sem graça; quer engessar aquele remelexo... Pra isso, tem que arranjar um jeito humilhá-la, acabrunhá-la de alguma forma.
Depois da porta da cozinha, que dá pro terreiro, sai em linha reta uma escada estreita, mais ou menos longa, de uns dois metros de altura, sem corrimão. A armadilha tá ali: uma tábua besuntada com gordura de porco foi colocada sobre os degraus, e ali em baixo, uma pilha de quarenta tachos, panelas e caçarolas _ mais pra efeito cênico do que pra machucar (o tombo certamente ficará mais cômico com uma confusão de panelas batendo). Eustáquia vai fazer o papel de uma bola de boliche; só tem que passar por ali correndo, sem tempo de recuar frente ao perigo.
_ "Eustáquia, acorda! Acorda pelo amor de Deus! Me socorre lá com a Cristalda! Corre lá pro terreiro pra ver que desgraça, Santo Cristo do Jurumbeba! Corre, criatura, corre, santo deus, me ajuda!" _ a velha sem-vergonha gritava esbaforida. Tudo cena, lógico.
Alarmada pela gritaria, Eustáquia veio direto pra cilada, correndo precipitadamente, aflita pra poder ajudar. O escorregão foi feio. Ela rodou meio que em parafuso, desconjuntada, e desceu como uma bala, indo socar as costelas na pilha de panelas. Não fosse a prancha de madeira, teria estourado o coco na quina do degrau na primeira quicada. Muito tonta, ela tenta entender o que tá acontecendo... Meia dúzia de criados, ali reunidos, gargalham de maneira estranha (foram obrigados pela patroa a fazer isto, pra esculhambar mais ainda com a cara da moça). Ao mesmo tempo em que riem, entreolham-se de olhos arregalados, espantados com a esquisitice da situação. O pensamento é um só: "Dona Coisa acabou mesmo de ficar louca!"
Satanásia, triunfante, do alto da escada, na soleira da cozinha, fiscaliza a atuação dos atores, tentando reger o concerto de gargalhadas compulsórias. Ameaçando os empregados com o olhar, ela gesticula possessamente. Por meio de sinais apenas, ela comanda: "Ei você aí, mais força! E você, aumente os agudos! Ei negrinha, mais deboche, ponha essa língua pra fora! Ô crioulo, pule e sacuda a cabeça... isto! sempre gritando! Você aí, largue o cabo dessa enxada e bata palmas! Segure a barriga e se desmanche de rir, nega imprestável!" Uma cena de hospício!..
Eustáquia percebeu a armação e, ali mesmo, zonza, sentada no chão, entendeu claramente a gravidade do estado da patroa. Percebeu que Satanásia neste dia não tava ficando nem mais nem menos louca: na verdade ela sempre fora a mesma. A lua é que sempre muda e, com ela, o tipo de loucura da diaba... O sentimento de inveja e cobiça predominam num dado período; noutro, pode ser a mania de grandeza; noutro, a ostentação raivosa é quem tem a vez; depois pode ser a beatice... ou a avareza... a futricagem... a mania de arrumação e limpeza etc... Mas quando a regência astral de sua alma tá por conta do revanchismo, o esfíncter da premeditação começa a falhar e os desvarios começam. Satanazievska passa então a se mostrar abertamente descontrolada, de uma hora pra outra _ psicotizada e obcecada por pequeninas maquinações dementes... Numa rápida retrospectiva, Eustáquia vislumbrou este caótico padrão de alterações de veneta da Atazanada. Dentre as diversas relações e manifestações possíveis da mesquinhez, o tipo que a acomete em ocasiões como esta é uma birrenta conjunção de ninharias imaginárias: honra pessoal, vingatividade, cisma, inveja, draminhas íntimos, disputas do ego etc _ esta é a atual lua da Satanásia. Até ontem, o calculismo fanático; agora, este surto de peraltice mórbida; amanhã, ela pode muito bem acordar feliz e bem disposta, querendo vasculhar a sede da fazenda de cabo a rabo, com uma listinha na mão, pra ver se há algum objeto sumido ou fora de lugar... A única coisa que nunca muda é a malvadeza. Como se diz, "a raposa muda de pelos, mas não de costume."
Domingo de Ramos de 1920. A família já foi à missa no arraial. Já estão todos comungados, ensopados do sangue do Cordeiro, jubilosos na vivência do mistério da Santíssima Trindade, da Eucaristia e renovados na alegria da Boa Nova. A cara de aperreada que a Atazanada tem por costume fazer quando recebe a hóstia no altar é qualquer coisa de cortar o coração: parece que a lacraia tá sentindo todas as dores do Calvário!
Agora são 11 da manhã e o satanais já dominou novamente a alma da pia senhora. Tá fula da vida, a porra da muièzinha encruada, ranheta e filha-da-puta; socando os pés no chão, enquanto puxa a criada Genilda pela orelha, arrastando-a pelo corredor, aos gritos, até a sala. Ali, apontando prum quadro meio tombado na parede, relincha, dando um banho de cuspe na moça: "Tu é cega, por acaso, nega desarvorada?! Tá pensando que aqui é que nem no seu rancho de taquara e bosta de boi, é?! Tudo que tu põe a mão fica tor..." Antes que pudesse completar a frase, um mal súbito pipoca na carcaça da furibunda velhota: uma fisgada violenta na nuca e um calor intenso no topo do crânio... e a curunga cai pra trás, durinha. Genilda vibra de satisfação, sentindo que a coisa é grave. Sua vontade é de pular e comemorar. Mas ela se contém e fica saboreando a cena, sorridente... Satanásia com a cara no chão, de olhos abertos, tremendo os lábios. A negra se agacha e, olhando pros lados, cautelosa, dá um beliscão na bunda da patroa, pra checar os reflexos; depois uns cutucões nas costelas... Positivo: a praga tá fora de combate, por enquanto.
Genilda decide que não pode deixar escapar essa oportunidade pra dar um fim na sinhá. Pois ela é negra auçá de pai e mãe, ou seja, tem a rebelião em cada gota do sangue; cedo ou tarde ela ia aprontar... "Olha aqui, diaba." _ cochicha ela, baixando o rosto ao chão, junto à cara da velha _ "Óia bem pa mim, coisa ruim, óia! Bilu-bilu-bilu! O babado agora é otro, cacumbu!, que quocê me diz?!" E esbofeteia a cara da outra contra o soalho. _ "Io sabia que um dia as minha demanda havia de valê, fucinhenta! Os urixá infim mi justiçaro!"... Mostrando a língua, ela caçoa, vitoriosa enfim! Corre até a porta, excitada, pisando na pontinha dos pés. Ausculta o movimento no resto da casa... Nada! Ela dá uma vibradinha e volta rápido pra completar o serviço. Levanta a cabeça da patroa pela orelha e sacode, largando-a depois de cara no chão de tábua corrida. Pensa em tudo o que já passou nas mãos do estrupício e em como este mundo dá voltas; tem um acesso de hilaridade, vendo todo aquele orgulho senhoril, aquela velha expressão de sagacidade impiedosa, o olhar terrífico de seca-pimenteira _ tudo isso reduzido agora a um par de olhos vazios. Uma boca aberta. As fuças luzidias, besuntadas de saliva...
Genilda coça o queixo, resolvendo se dá uma boa avacalhada na dona antes de dar cabo nela, ou se a despacha logo, curta-e-grossamente. Achou mais seguro apressar o serviço e abrir mão de saborear mais detidamente o gostinho da desforra _ na certeza de que no Inferno a bruxa-véia haverá de pagar, centavo por centavo, toda a tristeza que causou, os anos de humilhação e exploração que impôs aos empregados, as vidas que destruiu, os suplícios que ordenou. Resta a ela agora afiar-se ao máximo pra gozar, da melhor maneira possível, o espetáculo da morte da diaba.
Ela abre uma das cristaleiras, e da prateleira inferior retira um caminho de mesa de crochê, que ela mesmo tava fazendo por ordem da Satanásia. Enche então a boca da patroa com a linda prenda que ela própria encomendara. A parte que não coube, ela enfia no nariz, empurrando umas flores que enfeitam a trama bem pro fundo das narinas... Satanásia, asfixiada, começa a se mexer ineptamente, aos arrancos; a se debater com espasmos cada vez mais velozes. A criada observa, embriagada, enquanto a véia esperneia _ a cabeça e o sapato batucando no soalho; as taças tilintando frenèticamente dentro das cristaleiras. Um espetáculo triste e patético, do ponto de vista cristão, porém hilário pra negra adoradora de demônios nagôs. "Ispernéia, diaba!!!"
A agonia durou menos que dois minutos. Silêncio agora... Ouve-se o canto de um currupião que pula entre os galhos das pitangueiras. Feliz da vida, Genilda retira a toalha ensalivada da boca da mocréia. Crente que ela morreu, sai gritando, fingindo-se apavorada. "Mi acode, mi acode alguém aí, pelo amor de Deus! Chama nhazinha lá no caramanchão! Manda chamá alguém, que a sinhá panhô umas convulução qui tá qui vai morrê! O negoço é fei, ai são-binitito!!"
Florineide larga as roupas no tanque e sai correndo, eufórica, pra espalhar a ótima notícia. Ela tem bons motivos pra sentir-se animada. Solteirona hoje, aos 37 anos, com 20 fora impedida de se casar, já grávida, a mando da diaba, por um motivo descabido, e depois obrigada a abortar com chá de pemba-crispim. A calanga véia impôs sua vontade ao pai da moça, aterrorizando-o com insinuações estranhas... Rozembergue, o noivo, era um competente sapateiro no arraial. Não havia um só homem na região que não tivesse pelo menos uma das famosas sandálias de couro de jegue por ele fabricadas. Ameaçado de morte, logo tratou de arranjar outra morena... O argumento da Satanásia contra o casamento era absurdo. _ "Mas paínho, num tem nada a vê o cu cum as carça, meu são jeromo!" _ reclamava Florineide, com razão. Satanásia dizia que o avô do noivo, cachaceiro notório e irresponsável, nos idos de 1869 aplicara um golpe milionário em sua família, a ponto de os fazer passar fome. Não fosse o sangue guerreiro e brilhantoso de seu pai, talvez jamais tivessem conseguido se reerguer. Ela não quis entrar nos detalhes do tal golpe, que na verdade foi o seguinte: o avô do moço apareceu certo dia no poeirão de propriedade da família da Satanásia, fingindo-se de bobo, como quem tá só de passagem aproveitando a ocasião pra filar um cafezinho antes de seguir em frente. Pra descontrair um pouco, começou a fazer alguns truques com um par de imãs, iludindo perfeitamente o seu Clovismar, pai da Satanásia, matuto brabo, que jamais tinha visto uma coisa dessas. Um dos truques era fazer um dos imãs andar sozinho em cima de uma placa fina de madeira, usando o outro imã pra conduzi-lo, secretamente, por debaixo da tábua. Com a mão que tava livre, o velhaco estalava os dedos chamando o imã do mesmo jeito que se chama um cachorrinho obediente... Aí fecharam negócio. A cabrita Esmeralda, o xodó do seu Clovismar, em troca de um dos imãs (apenas um, pois o outro era segredo). Ele teria que carregar o imã no bolso da camisa por uma semana, até que este se afeiçoasse a ele e começasse a obedecê-lo normalmente, como ao antigo dono. Durante a semana seguinte, seu Clovismar, maravilhado, mal conseguia dormir. Foi a melhor época de sua vida, certamente. Ele passava horas inteiras namorando o lúdico magneto, sorrindo, sentindo-se o homem mais afortunado ali das bandas do Joazal Esturricado. Como achou que o bichinho devia ser fêmea, batizou-o de Lamparina. "Cá, Lamparina! Cá, Lamparina! Cati, cati, cati, cati!" Às vezes tinha a impressão de que o imã começava a se mexer levemente, mas não saía disso... Quando afinal começou a desconfiar de que tinha sido enganado, caiu numa melancolia profunda. Não tivesse filhos pra criar, talvez tivesse entregado a alma de desgosto... Foi este o golpe milionário a que se referiu Satanásia pra impedir que Florineide se casasse com o sapateiro _ filho do filho do infame vigarista.
Voltamos então a 1920, ao dia em que Dona Diaba beijou o chão. Apesar de tudo _ da isquemia, do tombo, das porradas, do sufocamento _ a praga era tão ruim que não morreu. Pior pra ela, que ficou sem movimentos; perfeitamente lúcida _ note bem, lúcida e alerta _ mas totalmente paralisada. Tudo o que conseguia falar era um custoso "inhên-inhên" e olhe lá. Por determinação da família, Satanásia ficou sob os cuidados da Bebete e da Genilda, justamente as criadas mais sacanas. A matrona, outrora tão orgulhosa, teria agora a bunda lavada pelas negras, que em represália a tarefa tão desagradável, enfiavam pimenta malagueta rabo adentro da trancaia cagona (que ia a Lua e voltava, sem sair do lugar). A cobra, enfim, perdera a peçonha.
Desafortunásia viveria ainda mais quatro anos nesse estado, sendo alvo de tudo quanto é tipo de sacanagem, diariamente... Todas as criadas tiravam a sua casquinha e competiam alegremente entre si pra ver quem inventava a tortura mais engraçada. Tapas, cascudos, peidos, petelecos, telefone; isso era o trivial. Mas, além disso, Atanásia haveria, inevitavelmente, de sentir na pele a proverbial inventividade e jocosidade do caboclo nordestino. E assim, novas e elaboradas invenções de mal-feito se sucediam umas às outras, infalivelmente.
Glinberval era o encarregado de todos os pequenos consertos que se faziam necessários em qualquer parte da fazenda. Cabra talentoso, bolou artefatos de alto requinte pra incomodar a dona. Lançando mão de qualquer peça, objeto, planta ou bicho que se encontrasse por perto, ele sempre aparecia com novos "aparelhinhos"...
Além da importunação física, havia também os métodos _ ora mais, ora menos refinados _ de tortura psíquica (ou tortura do orgulho). Por exemplo: a jovem Bebete, mulata encapetada, gostava de fazer estrepolias com os cristais. Pra isso colocava a Babanásia como espectadora compulsória, na cadeira de rodas, de frente pra fuderosa cristaleira. Diante de seus malditos e obsessivos cristais, ela teria que assistir as palhaçadas e provocações da nêga doida... obrigada a amargar sua impotência diante de tão abominável profanação. Bebete lavava a alma na brincadeira. Aquelas frágeis preciosidades, juntamente com a prataria, tinham lhe dado um trabalho desgraçado no decorrer dos últimos anos. Tempos atrás, ela costumava dizer que preferiria cavar um poço a ter que lustrar meia dúzia daquelas odiosas relíquias; porque _ não importava a perfeição da limpeza _ Satánasia só se dava por satisfeita quando a esfregação já havia durado um tempo vinte vezes mais longo que o limite da paciência humana.
Bebete ia saltitando à volta da patroa, com tremeliques de zombaria, sacolejando-se e fazendo malabarismos com as peças. Vez ou outra, uma se espatifava no chão. Ela sabia que isso doía fundo na dona; tinha absoluta certeza de que, apesar da invalidez, a ruindade e a avareza ainda estavam intactas ali, indelevelmente entranhadas naquela carcaça... Arregalava então os olhos e lambia a borda dos copos e das taças, cheia de trejeitos. "Come aqui essa merda, babona. Isso deve di tê um gostinho dinisco de bão. Isprimenta! Vamo lá, abre essa caçapa, mamulenga!" _ zombava a nega, esfregando o copo nos beiços da Babanásia... E atiçada pelas risadas das outras, redobrava o tom, com esgares impagáveis. Sob aplausos, Bebete se desmanchava em caretas extremamente desrespeitosas na frente da cara da anciã. E dava cada grito em suas orelhas!..
Pra se compreender tanta crueldade é preciso que não se perca de vista que a vítima não era uma doce velhinha infeliz, mas a filha-da-putice em pessoa _ a ocasião é que havia transformado o diabo num bode descadeirado. Seu sadismo inflexível, tenaz, implacável; sua picuinha aporrinhante, dia após dia, ano após ano, haviam produzido uma revolta incurável dentro daquela gente.
Com o passar do tempo as negras foram pegando tarimba na coisa. Aos poucos foram desenvolvendo, dentre outras traquinagens, um teatrinho genial: Divina imitava a Satanásia em seus ataques, grasnando, ralhando e ensaboando a Genilda ou a Bebete, que faziam o papel de criada desbocada e respondona, devassando a alma da patroa com diálogos improvisados, ridicularizando suas manias, seus cacoetes, sua vida íntima, seus rituais de família com o marido bundão e os filhos lerdos, seus longos palratórios com o vigário, sua avareza... A velha cascavel ficava só olhando, babando e rogando pragas em silêncio...
Um dos aparelhinhos mais divertidos inventados pelo Glinberval era uma argola de metal de uns 20 centímetros de diâmetro, em torno da qual, soldadas, se distribuíam seis pequenas roldanas com manivelinhas e travas. Dali saíam cabos (de barbante) com ganchos e encaixes de vários tipos. A argola se encaixava como um diadema no crânio da referida senhora; os encaixes eram distribuídos pelas quinas e orifícios da cabeça; e aí, de acordo com a tração aplicada nas diversas manivelinhas, podia se produzir uma infinidade de caretas na cara da Babanásia... Eusébia era a mais criativa da turma. Quando ia manivelar uma careta, ela pedia que todos se virassem de costas. E começava a manejar a engenhoca, cruzando os fios, passando-os por uma série de pequenos "varais" (por ela mesma desenvolvidos). Concluída a obra, cantarolava feliz, "Podem se virá-aaaa!" Era uma explosão de risos. Alguns chegavam a passar mal. A dona parecia um monstro humorista, se escancarando pra divertir a platéia.
Outro "aparelhinho" bacana era uma cabaça acoplada a um canudinho de borracha, que era enfiando numa das narinas da Babanásia. Abria-se então uma tampinha no topo da cabaça (que estava cheia de formigas lava-pés) e gotejava-se ali dentro um pouco de amônia ou querosene. As bichinhas ficavam desatinadas e tentavam desesperadamente escapulir subindo pelo canudinho, indo se alojar nas ventas da diaba. Nheeeinnhenheieeh!! _ ponderava ela, cheia de razão.
Nos primeiros meses da invalidez, todas as quintas-feiras, as criadas da casa promoviam um pequeno campeonato de esculhambação com a pobre-diaba. Dentre as diversas modalidades de disputa, havia uma especialmente animada, que consistia em ver quem conseguiria colocá-la na posição mais esquisita, mais desengonçada. As negras se mijavam de rir vendo a megera nas poses mais esdrúxulas imagináveis: escancarada, retorcida, desmantelada, trançada, engalfinhada consigo mesma... sempre com aquela cara de pamonha extasiada...
Uma vez a diaba tava tomando um arzinho na frente da casa, em sua cadeira predileta. O capataz da fazenda zanzava por ali, aguardando a chegada de nhô Gurmêncio a fim de tratar de uns assuntos. Pra passar o tempo, inventou de tentar enfiar a mão da Satanásia inteirinha dentro da própria boca (dela, lógico). Ele e Cristalda, sua cúmplice na brincadeira, choravam de rir durante a tentativa. Quando parecia que iam conseguir, houve um estalo e o queixo da dona caiu, solto. O maxilar desencaixou. A cara da mulher ficou tão engraçada, que os dois não puderam conter um ataque de riso... "Cristalda, sigure aqui.", disse o capataz posicionando a queixada da Babanásia. E pum! "Torna a sigurá." Pum! Depois de várias porradas, a cara da mulher finalmente encaixou no lugar.
E foi nessa "toada" que a dona Intanha passou os últimos quatro anos de sua vida; entrevada, mas fazendo aquela boa gente rir tanto, que merecia até ser beatificada.
Em 24 de agosto de 1924 (dia de São Bartolomeu, dia em que os demônios se soltam), dona Coisa foi arrastada às profundezas... Foi uma tristeza! Um vazio muito grande! Muitos dos empregados ainda não estavam saciados de vingança; outros não se saciariam nunca; e outros simplesmente já tinham se acostumado tanto, que já não se viam mais sem aquelas brincadeiras tão lúdicas. É isso aí.
Anarriê, pliê, balancê. Adiê, Santa Atanásia!
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