Vitamin-X - Faca Cega #3 - Fim de 2003

O Vitamin-X é uma banda da Holanda que fez uma turnê pelo Brasil em meados de 2003. Eu tive a oportunidade de vê-los tocar no Rancor Fest em BH e no último show deles, em São Paulo. É um ótimo show, cheio de energia e de covers bem sacados (AC/DC...). Conversei um pouco com o Marc, o guitarrista, e combinamos a entrevista. Ele respondeu por email e esse é o resultado...

Vitamin X na VerduradaFACA CEGA: Vocês fizeram uma turnê brasileira esse ano. O que acharam do punk rock por aqui? Qual é a impressão que vocês guardaram? É muito diferente da Europa? Em que pontos importantes mais precisamente?

MARC: Nós realmente curtimos a turnê Brasileira. Nós nos divertimos muito!! Somos grandes fãs de bandas de hardcore brasileiro, velho (Ratos de Porão, Olho Seco, etc) e novo (Discarga, Infect, Sick Terror, etc.). Tocamos com muitas bandas boas, mas na verdade são muitas pra mencionar. Eu vou nomear algumas: Discarga, I Shot Cyrus, Infect, Ratos de Porão, Ação Direta, etc. Na verdade, mais e mais bandas brasileiras estão também vindo pra Europa (Sick Terror, Discarga, I Shot Cyrus, etc), o que é um ótimo avanço. A cena punk do Brasil é muito boa e saudável! No Brasil o público é maior, por exemplo, quando tocamos em São Paulo apareceram 300 moleques só pra esse show (e não era festival...). É difícil pras bandas européias terem esse tipo de multidão lá na Europa. O público: no Brasil os moleques são realmente entusiastas e mostram mais as emoções. Se movimentam e gritam bastante. Uma diferença marcante com relação à Europa e aos EUA é que depois do show muita gente vem falar com você, pede autógrafos, baquetas, palhetas, etc. Isso quase nunca acontece em outros países. As pessoas no Brasil são ótimas, eu encontrei um cara que viajou 16 horas só pra nos ver tocar, e ele tinha uma tatoo enorme do Vitamin X!

FC: Como nasceu a idéia de tocar no Brasil? Não é fácil fazer uma turnê no terceiro mundo, não é qualquer banda que encara isso de maneira FVM. É quase impossível pagar todos os custos com a grana dos shows. Como vocês trataram disso? Qual foi o combinado com o organizador no Brasil?

MARC: Nós já estávamos em contato com pessoas do Brasil há um bom tempo, as pessoas nos chamavam pra ir. Então o Boka, baterista da lenda punk Ratos de Porão (e também do I Shot Cyrus), nos mandou um email em julho de 2002 e fez uma oferta realmente séria. Ele tinha ouvido nosso material e gostou tanto que queria organizar uma turnê brasileira e lançar o "Down the Drain" no seu selo, Pecúlio Discos. É claro que queríamos tocar no Brasil!! Nosso primeiro disco "See Thru Their Lies" já tinha sido lançado por outro selo brasileiro, "Usina de Sangue". Nós viajamos pelo Brasil de forma FVM e fizemos 14 shows. Antes de irmos nós já sabíamos que não iríamos recuperar todos os custos. O dinheiro no Brasil não vale muito, é cerca de 30% do Euro. Isso significa que tudo no Brasil é realmente barato, MAS você também não consegue muita grana dos shows. A entrada custa cerca de 3-5 reais (que é entre 1-1,50 Euro). A gente já esperava perder uma grana (é quase inevitável), mas é claro que o mínimo possível. No fim deu tudo certo e não perdemos tanto, também por que tínhamos 2 CDs lançados em selos brasileiros e algum dinheiro guardado de shows na Europa...

FC: As drogas são ruins. Talvez. Eu não gosto. A maior parte das bandas que falam sobre esse assunto acabam em questões meramente pessoais sobre como isso pode foder a sua vida e das pessoas em volta de você. Poucos são aqueles que discutem o assunto de maneira mais radical (quero dizer, chegando à raiz): de onde as drogas vêm? Quem está ficando rico? O que isso significa pro sistema capitalista? Não é um pouco moralista falar apenas sobre um lado do problema?

MARCMARC: Sim, a "guerra contra as drogas" é uma das maiores farsas de todos os tempos. É um termo que eles usam pra enganar as pessoas fazê-las pensar que estão fazendo algo mas todo mundo que tem cérebro sabe que não estão fazendo nada. Desde que a "guerra contra as drogas" começou, os problemas só pioraram. A taxa de viciados subiu como um foguete aos céus em todo o mundo, os chefões da droga estão fazendo mais grana, os preços estão subindo e a qualidade caindo, mais pessoas (sempre as mais pobres) estão morrendo por causa de agulhas usadas e drogas de má qualidade, e assim por diante. O Vitamin X é a favor da legalização das drogas. Nós inclusive temos uma música sobre isso no segundo EP (chamado "First Step"). Isso talvez seja estranho para uma banda 100% straight edge. Mas nós somos a favor da legalização NÃO por que queremos que as pessoas se viciem, mas por que queremos menos e menos pessoas viciadas! Amsterdam tem uma das menores taxas de viciados em drogas em todo o mundo! Foi provado que quando as drogas estão reguladas e legalizadas; - haveria menos crime (os traficantes acabariam) - cairía o número de viciados (como em Amsterdam) - salvaríam-se vidas por causa do controle de qualidade das drogas - e haveria menos vítimas da AIDS/HIV (por que aqui na Holanda os junkies ganham agulhas limpas).

FC: Pelo menos um de vocês é trotskista, estou certo? Como é ser um marxista na comunidade punk européia? No Brasil a polítca punk é majoritariamente anarquista, e o marxismo é, para muita gente, um câncer que deveria ser combatido. Vocês são militants em algum grupo específico? O que faz esse grupo exatameente? Você acha que é possível agir junto aos anarquistas? Por que?

MARC: Nós - até onde eu sei- não somos trotskistas ou marxistas. [NdoE:eu não inventei isso, a culpa é da Renatha, hahaha] Nós somos apenas esquerdistas e apoiamos qualquer grupo de pessoas que se opuser à sociedade capitalista. Fodam-se as corporações capitalistas globais que estão destruindo nosso mundo. Olhe para como a terra está se aquecendo, mas eles ainda não param de destruir e poluir nosso ambiente. E olhe para essas guerras estúpidas! Eles não se importam com as pessoas sofrendo e morrendo, nem com o meio ambiente, não ligam pra nada nem ninguém. Tudo o que importa é dinheiro e petróleo, e gerar lucros. Todos - anarquistas, marxistas, socialistas, etc - deveriam se esforçar juntos para combatê-los!!

FC: Fanzines eletrônicos ou em papel, você tem preferência? É possível a coexistência ou a internet já dominou o mundo? Tem algum fanzine holandês/europeu que você acha muito bom?

MARC: Bem, eu gosto mais dos fanzines em papel, da mesma maneira que prefiro vinil aos CD´s. Acho que o UPS é um ótimo fanzine holandês.

FC: Dentro de um leque de escolhas mais ou menos definido, a musica hardcore/punk rock não é muito variada musicalmente. Muitas bandas estão sempre copiando o som de anos atrás, mas muitas o fazem com energia e sinceridade, e isso é o que ainda faz tudo ser excitante. Existe algum jeito de fugir disso, de ser mais criativo sem fugir do próprio punk? Nós precisamos fugir disso?

MARC: Eu não acho que o hardcorepunk não seja muito variado musicalmente. Acho que TODO gênero musical (jazz, hardrock, funk, hiphop, house, new wave, etc) tem suas regras com as quais você tem que jogar. O house não é house quando não tem a batida dance, funk não é funk sem o baixo funk, e hardrock não é hardrock sem solos de guitarra! E musicas punk têm que ser curtas, rápidas e rebeldes, se não, não é punk! MAS com os caminhos pavimentados por cada gênero é definitivamente possível ser inovador e assim por diante. Lembra-se do que fez o Big Boys com o funk? Isso rompeu barreiras! [N.doE.: sem dúvida está no meu top 10 do punk de todos os tempos]. Ou o que faz o Queens of the Stone Age com o hardrock? E eu posso continuar eternamente. Cada uma dessas bandas dá um passo adiante no gênero, e isso faz tudo mais interessante, e dá novo significado e direção. Não acho que o punk vai ficar sem idéias. Vitamin X é uma banda que tenta fazer algo diferente com o gênero punk/hardcore. Mas eu concluo que isso é muito difícil. De qualquer maneira, todos os nossos discos soam diferentes, eu acho. Toda -boa- banda que eu sei foi mudando seu som através dos anos. Por que? Bem, primeiro de tudo, seria bastante chato (para nós e para nossos ouvintes) tocar o mesmo estilo denovo e denovo. Em segundo lugar, toda banda progride, o que quer dizer que tocam seus instrumentos melhor, aprendem a fazer musicas melhores, etc. Quando começamos o Vitamin X, alguns membros não tinham tido experiência nenhuma. Nosso baterista, Johannes, estava tocando guitarra no Soberesponse e NUNCA tinha tocado bateria antes. Já no começo queríamos tocar mais rápido, mas o Johannes simplesmente não conseguia. Depois de 1 ano ele melhorou e começou a tocar bem mais rápido. Ao mesmo tempo, nosso guitarrista Eric saiu da banda e nós começamos a fazer musicas mais rápidas e mais agressivas, também com solos de guitarra. Espero que possamos continuar progredindo/mudando, e manter os discos interessantes (letras e música) para nós mesmos e nossos ouvintes.

FC: O que é o FVM para você? Por que ainda é relevante? É aplicável a outras esferas da vida? Se sim, como? Se não, por que?

MARC: Nós somos uma banda FVM (faça você mesmo) e acreditamos que se queremos manter a cena sincera, positiva e criativa, deveríamos nos manter independentes de majors e selos comerciais. Queremos manter o controle sobre nossa música e arte visual, e não queremos vender nossos discos/camisetas/adesivos por preços extremamente altos. Nós fizemos 4 turnês européias, 2 americanas, 1 no Reino Unido/Eire e 1 brasileira. Tudo foi feito de forma 100% FVM, é claro que com a ajuda de ótimas pessoas. Acho que isso prova que não tem motivo para assinar com um selo major, exceto pelo dinheiro. Essa musica pertence aos moleques, e não aos homens de negócios. Novamente, apenas nos mantendo independentes de selos major e grandes negócios é que essa musica pode continuar viva, honesta e criativa. Nós não queremos essa sociedade capitalista onde o dinheiro e as possessões materiais são a coisa mais importante na vida. As grandes empresas capitalistas em geral podem ir se foder! A única coisa para a qual essas empresas existem é para fazer grana e lucro. Eles não dão a mínima para o sofrimento das pessoas...

FC: Que bandas européias mudaram suas vidas de maneira significativa, te jogaram nessa coisa toda de punk e ainda são importantes para vocês hoje em dia?

MARC: A Holanda sempre teve algumas ótimas bandas de hardcore. Todo mundo conhece as bandas famosas daqui, como BGK, Lärm, The Ex, Funeral Oration, Manlifting Banner, Seein Red, etc. e eu gosto de todas essas bandas. Bandas européias: todas essas bandas suecas, finlandesas, italianas, etc. Para mim pessoalmente o Black Flag foi a banda punk mais importante. Mas nós não gostamos apenas de hardcore/punk. O Alex curte todos os tipos de música, mas realmente pira em jazz (Miles Davis, etc.), eu gosto de muitos gêneros diferentes; doom (Black Sabbath, The Obsessed, Kyuss, Pentagram, etc), countryrock (Gram Parsons, Lynyrd Skynyrd, etc.), new wave (joy division, cure, etc), hardrock 70's e muito mais. Marko gosta muito de Oi! (Peter And The Test Tube babies, Blitz, etc) e ultimamente tem ouvido AC/DC e new wave (Sisters of Mercy, etc).

FC: Vocês viram as bandas brasileiras que estiveram em turnê pela Europa esse ano? Qual foi o impacto? Qual é o significado disso para a cena punk rock européia?

MARC: Sim, eu vi o Sick Terror no ano passado, e esse ano nós tocamos com o Discarga e o I Shot Cyrus num festival na Holanda (junto com o Seein Red). Essas bandas tiveram grande impacto.Os shows com o Discarga, I Shot Cyrus e Seein´Red foram realmente divertidos. Os caras do Discarga são grandes fãs do Seein Red e pediram ao Olav (baterista do Seein´Red, Lärm e Manlifting Banner) se ele poderia tocar um som com eles. Ele tocou então uma musica doMLB, e mais um som com todos os caras do Seein Red! Foi ótimo!

FC: Por que o Ozzy Osbourne está na banda?

MARC: Eu não sei se você está falando de mim, mas sim, eu sou um grande fã do Black Sabbath. Eu gosto de doom, stoner, coisas do início dos 70, desde que tenha guitarras pesadas!

FC: Planos pro futuro? Novos lançamentos desde o CD no Brasil pela Pecúlio Discos? Algum "foda-se"...

MARC: Bem, nós temos bastante coisa nova vindo aí. Primeiro de tudo, recém lançados: 3 musicas novas na coletânea Hysteria 2, pela Lengua Armada, essas musicas são foda! Também sairá logo: um split com (We Must Burn e Let It Burn) por um selo Japonês (Too Circle Records, outrubro 2003) com 4 musicas novas. Também em outubro: um CD apenas para o Japão para o qual gravamos 6 novas músicas, em apoio à nossa turnê japonesa que deve rolar em 16 de novembro até 3 de dezembro de 2003. Nós teremos uma música nova numa coletânea skate (vol.4) na Element Recs. Também vamos gravar um novo LP em janeiro de 2004, e estamos fazendo novas musicas nesse exato momento. As musicas que já temos estão bastante boas, então acho que vai ser o melhor lançamento até agora. Também em 2004: uma coletânea Brasil-Holanda com novas músicas do Vitamin X, Seein´Red, Discarga, Sick Terror, etc., lançada pelo zine holandes UPS. No que diz respeito a tocar, vamos fazer alguns shows pela Europa, vamos pro Japão e vamos fazer uma turnê européia em março/abril de 2004. Obrigado pela entrevista. Oi para todo mundo que gosta da gente por aí, nos divertimos muito no Brasil e espero que possamos voltar algum dia!! E também obrigado a todo mundo que mantém a cena hardcorepunk viva. Mantenham-se FVM, mantenham-se hardcore! Esperamos ver todos vocês em algum lugar no futuro quando voltarmos ao Brasil. Se alguém quiser escrever: [email protected] Se você quiser checar nossos lançamentos, atualizações, etc. olhe nosso website: www.geocities.com/vitaminxc

Discografia:

1998
'SE Crew' 7"
(Commitment Recs)


1999
'Once Upon A Time' 7"
(Commitment Recs)

 

2000
'See Thru Their Lies' LP/CD
(Underestimated/SOA Recs)
- Saiu em CD no Brasil (Usina de Sangue)

 

2001 'People That Bleed' 7"
(Havoc Recs)

 


2002
'Down The Drain' LP/CD
(Havoc/Underestima
ted Recs)
- Saiu em CD no Brasil (Pecúlio)

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