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Morte Asceta - Faca Cega #1 - Meados de 2002 |
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Mais uma banda foda de Curitiba. Você vai ouvir falar deles logo logo. CD de estréia em breve pela Vietnamita Discos. Qual é a visão e a postura de vocês em relação ao punk? O que vocês vêm de positivo/negativo no Brasil e fora daqui? Já se chegou a alguma coisa nessas décadas de punk? O que falta? Morte Asceta: Do modo que eu vejo a idéia de punk, a forma como se encaixa em minha visão de mundo, é como um pedaço de uma coisa maior, da um espaço social pra onde se deslocam os garotos que apanham na escola, as meninas que recebem cusparadas na cara por não parecerem como as outras, as pessoas que foram excluídas ou se excluíram do esquema social e de certa maneira têm uma consciência política da sua exclusão e de como funcionam as regras da sociedade em geral. Desse mesmo espaço vem a idéia de ativismo político; a vontade de procurar por uma autonomia e desse modo uma independência das estruturas socio- econômicas; uma falta de respeito pela hierarquia e pela autoridade e pelo status; uma necessidade de manter as coisas em movimento; e seguindo por aí, diversas outras formas de resistência política. É esse o modo como tudo se encaixa pra mim. É como uma corrente que liga o Sam Mcpheeters ao Ian Mackaye ao Jello Biafra ao Crass aos Yippies aos roqueiros de garagem e tocadores de jazz em sua época a alguns dos escritores beatniks aos protestos trabalhistas do começo dos 1900s aí por diante até os confins da história, dá pra imaginar o resto. Pra mim é como uma coisa maior. Bom, de qualquer forma, mesmo que alguma banda fale que é punk e não se encaixe em meu conceito de corrente histórica de resistência não há como eu dizer que ela não é punk, mesmo que eu ache ela uma merda improdutiva, porque a própria idéia é muito vaga, o Supla pode dizer que é punk e sob uma certa definição você não tem como dizer que ele está errado (mesmo que sob a minha ele esteja, sinto muito), mas você pode dizer que ele é um bosta de qualquer jeito, certo? Isso é ótimo porque é desse jeito nenhum idiota pode falar que eu não sou punk porque não uso um moicano, mas eu ainda posso jogar merda na cara das pessoas se eu achar que o comportamento delas fere a ética de organização socio-econômica não hierarquizada que move tanta gente dentro do punk. Isso pode escorregar pra um monte de merda quando essas definições conflitam, como na estória da confusão entre Born Against e Sick Of It All que simplesmente não tinham nada em comum nas suas definições de hardcore. Por exemplo. Eu não sei. Não poderia me importar menos com associações por localidade, e de certa forma eu me sinto ligado ao que veio a ser chamado como Terrorismo Brando... que tem bandas simpatizantes como Pluto, Morte Asceta, Política e Purpurina, Jazzus, Autocontrole, Nice est en feu, Ornitorrincos entre outras... mas também acho que é importante construir uma cena local que seja apoiada nisso, nesses preceitos de confrontação e evolução dinâmica. Mas definitivamente algo de positivo existe, certo? Coisas estão sendo feitas. Tem gente nova se aproximando. Se se chegou a algum lugar nesses 20, 30 anos de punk? Com mil diabos eu diria que sim, claro que sim. Muito da organização de movimentos sociais de hoje em dia vem de bases fundadas por duas gerações de punks, especialmente nos estados unidos e europa (claro que essas bases também foram construídas por muita gente antes deles, mas é um ponto que não se pode negar). Mesmo no brasil não há como negar que alguma coisa está acontecendo. É um processo de construção que requer esforço e dedicação, mas acredito que estamos fazendo coisa muito importante por aqui. Mas só pra constar, eu acho que se pode fazer muito mais, as pessoas ainda são muito preguiçosas, ou eu pelo menos sou. Grande parte das bandas no punk rock têm letras de protesto, políticas, etc. Até que ponto ficar reclamando é bom? Como vocês lidam com isso no seu dia a dia e o que fazem além da banda pra mudar essa porra? MA: É. Elas tem. Mas, meu rapaz, letras "de potresto" não são necessariamente ficar reclamando. Mas você sabe disso e estava me conduzindo a resposta que queria ouvir. Eu vi esta vindo a milhas de distância. Tudo certo. As pessoas vivem sob um sistema de regras que fode com elas todo santo dia, de uma forma ou de outra. Se elas deixarem isso levar elas, elas vão se matar ou se afundar numa vida cretina e se tornar cínicas que estariam melhores mortas. Algumas conseguem articular essa pressão melhor do que outras na hora de se expressar e algumas tem uma visão mais clara dos motivos pelos quais todo mundo sofre essa pressão, mas a maior parte das pessoas que escreve esses protestos, faz porque tem de fazer, senão o único caminho é o suicídio ou a submissão. Como lidar com isso no dia a dia, bom, como todo mundo lida, ou pelo menos como devia: não ficando quieto, arranjando confusão, se divertindo, sei lá. De uma certa forma, qualquer ação é uma ação política desde que se tenha consciência das consequências políticas dela. Mas mesmo assim, o morte asceta endossa a organização de movimento populares, organizações locais de resistência, grupos para difusão de idéias revolucionárias no seu bairro etc e tal. O pessoal daqui de Curitiba tem a Casa da Ponte, e lá a gente tem tentado organizar umas palestras, sempre tem almoços aos sábados, e vamos montar um centro para votação no Plebiscito do Alca. Eu acho que sou preguiçoso demais, contudo.
"facas na noite / nas costas dos oprimidos / os filhos da puta têm sua própria consciência de classe" (Nota de Um Dólar - Morte Asceta). O que falta pros oprimidos terem a sua consciência de classe concretizada na prática? MA: Essa canção fala de clubes para gente rica, sociedades secretas, como a maçonaria e a Caveiras e Ossos, esse último um clube da qual participa a família Bush, o que nos leva a refletir sobre o fato do avô e do bisavô de Bebê Bush serem, em sua época, os principais organizadores do envio de dinheiro americano para a Alemanha nazista, e pensar a respeito de como o símbolo do SS era uma caveira sobre dois ossos cruzados. Mas... não foi isso que você perguntou. Falta organização nas comunidades mais pobres, e creio que essa é a única coisa que falta, afinal o MST funciona, e quem vai dizer que eles não realizam na prática o que sua consciência de classe grita para eles fazerem? Mas organização é uma questão de tempo e disposição. E esforço na luta contra a polícia e contra quaisquer outras forças que estiverem dispostas a desfazer esta organização.
Em certa ocasião o Rabino Henry Sobel disse em uma palestra que é a favor da paz na palestina, mas que não pretendia discutir questões políticas. Bin Laden = Bush? Pacifismo é legal? MA: Qualquer um, qualquer idiota, é a favor da paz na Palestina, acredito que até o filho da puta do Sharon deve ter dito isso. Pode-se estudar a questão palestina através de várias fontes, mas a idéia básica é que os israelenses querem que os atentados parem e querem manter os territórios conquistados nas invasões do meio do século passado, e para isso matam árabes e suas famílias com a acusação de terrorismo, enquanto os palestinos querem que suas famílias parem de morrer e querem terra para poderem viver (e direitos iguais no território de Israel) mas uma vez que seus filhos ou seus pais ou sua esposa morrem, se fica desesperado. Isso não é tanto uma guerra quanto uma questão civil e étnica necessária de ser resolvida num tribunal de justiça internacional como o da ONU, no qual muitas vezes foi proposta por decisão quase unânime a criação do estado Palestino, o único veto para a proposta era dos EUA. Pacifismo, a idéia de se lutar contra conflitos armados criados por nações poderosas para atingir os objetivos econômicos de companhias multinacionais, é legal. Eu não quero morrer por petróleo, não quero matar por petróleo, nem quero que ninguém morra por petróleo. Os Estados Unidos tem uma indústria bélica que eles tem de alimentar, por isso eles estimularam tantos conflitos armados no Oriente Médio em décadas passadas, através de pressão política, econômica, ou de treinamento de forças contra-insurgentes como, por exemplo, o grupo de Osama Bin Laden, mas isso não torna igual o atentado de 11 de setembro às agressões americanas, nem justifica o atentado. É necessário compreender que essas questões de política externa não devem ser vistas em espectro de preto e branco. E mesmo que os EUA sejam o inimigo, muitas faxineiras morreram na queda do WTC além do bando de yuppies filhos da puta que trabalhavam lá, e duvido que essas faxineiras pudessem ser consideradas o inimigo. Mas é necessária uma luta pacifista, porque se ela tivesse continuado efetivamente além da guerra do Vietnã nos Estados Unidos, provavelmente teria sido evitado o atentado de 11 de setembro, já que agressões que estimulariam uma vontade terrorista nos árabes teriam sido combatidas em solo americano.
Falem sobre a banda, projetos futuros/passados, nome, shows e tudo aquilo que é um saco responder em entrevista. MA: Eu não me lembro exatamente quando o Morte Asceta começou, mas eu lembro que a turma queria fazer uma surpresa e gravar o disco antes do primeiro show, então o primeiro show foi uma histórica apresentação sob o nome de Irmãos Hansen num bar de metaleiros trapalhões. Já que vocês querem ouvir isso, a turma da banda é composta por gente de várias bandas daqui como White Christian Disaster, Escola Russa de Balé, Test Ban Treaty, Pluto, Fundação Coração Negro, mais aquele rapaz de São Paulo, que tocou em bandas como Inner Struggle, Motherfuckers, Newspeak e coisa e tal. A banda faz parte da Renascença Pretensiosa Confrontacionista, e como todas as bandas dessa geração, prefere ter seu nome escrito numa lápide antes de ficar quieta, se submeter a corrente do rock alternativo muito em voga no momento. O nome tem um porquê, mesmo que seja um porque bastante sujeito a interpretações, e é referente a idéia de rock de monge, que é como chamavam o Minor Threat no começo da banda porque eles não estavam interessados nas coisas comuns a rapaziada do rock da época, como groupies, ou tratamento de estrela, ou ganhar dinheiro com a música, ou o status que estar numa banda proporcionava. Eles não iam distribuir fotos deles autografadas para o público. Asceta, como em oposição ao hedonismo improdutivo que impede uma organização de uma cena independente mais forte e melhor resistente aos interesses da MTV e a onda dos esportes radicais, tatuagem, e pose de estrela. O disco da banda deve sair em breve pela Vietnamita Discos, gravadora do pessoal. Pretendemos fazer uma turnê ou uma série de turnêzinhas rápidas pelo país depois do lançamento. Entre em contato com seu distribuidor local de música independente que provavelmente o disco vai estar por lá, logo logo. Qualquer coisa o endereço para contato com a Vietnamita é Cx. Postal 1880, 80011-970, Curitiba - PR. www.vietnamita.cjb.net. Amamos você, Ruivo. Obrigado e até mais. |
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