Highscore - Faca Cega #3 - Fim de 2003

Hardcore youthcrew em pleno 2003? 90% de chances de ser chato. Mas eles estão entre os 10% bons. E inteligentes, o que é mais importante. Essa entrevista foi combinada durante a turnê brasileira esse ano, e respondida por email pelo Jobst, aproveitem!

1) Vocês fizeram uma turnê brasileira esse ano. O que acharam do punk rock por aqui? Qual é a impressão que vocês guardaram? É muito diferente da europa? Em que pontos importantes mais precisamente?

JOBST: Bem, foi definitivamente uma ótima experiência. Nós não fazíamos a menor idéia do que esperar antes de vir para a América do Sul. Todos os shows e turnês que tinhamos feito até agora foram apenas na Europa e nós já tinhamos uma experiência bastante diversificada aqui: tocar em países como a Polônia, por exemplo, é muito diferente de tocar na Alemanha ou na Bélgica. É claro que o Brasil é um país que tem uma longa história de punk rock e hardcore, especialmente São Paulo, com tantas bandas e também muitos lugares para tocar. É bom ver tanta gente ativa de uma forma ou outra. O punk rock do Brasil é de algum modo comparável ao da Europa. Por um lado eu acho ótimo que as pessoas tenham idéias similares e façam musica similar por todo o mundo, mas isso também é um pouco estranho. Especialmente por que não tem como negar que a influência norte-americana na cena hardcore mundial. Mas parece que muita gente está ligada nisso no Brasil e tem discussões construtivas sobre estabelecer uma identidade própria sem se tornar um anti-americanismo ou nacionalismo simplista e estúpido. Eu acho que é importante estar ligado na história e no significado das imagens e musica que você constrói.

2) Como nasceu a idéia de tocar no Brasil? Não é fácil fazer uma turnê no terceiro mundo, não é qualquer banda que encara isso de maneira FVM. É quase impossível pagar todos os custos com a grana dos shows. Como vocês trataram disso? Qual foi o combinado com o organizador no Brasil?

JOBST: Quando nós fizemos nosso último disco nós realmente queríamos vê-lo lançado na América do Sul e procuramos por um selo legal. Alguns amigos do Uruguai (helle Diego e Roberto!) disseram que o Liberation Records é definitivamente o melhor selo de hardcore Sul Americano. Eu conferi o website do Marcos e é claro que eu já conhecia o Point of No Return e gostava do jeito político de fazer musica e da atitude fvm em torno da banda. Então eu entrei em contato com o Marcos. Na verdade ele não estava muito empolgado a lançar o nosso disco quando eu disse que o que fazíamos era hardcore oldschool. Ele não tinha ouvido a gente ainda, então lhe mandamos alguns cds e é claro que ele gostou do nosso som, letras e política. Então, por sorte, ele concordou em lançar a versão em cd daquele disco. O Marcos também foi a pessoa que nos chamou pra ir tocar. Ele já tinha feito uma pequena tour para o Heaven Shall Burn e ajudou a fazer o Catharsis. Depois de um tempo nós finalmente encontramos tempo pra ir. Tudo funcionou bem, Marcos fez um ótimo trabalho e nós sabíamos de antemão que seria impossível recuperar a grana da passagem de avião. Isso também é muita grana para nosso padrão, mas é mais ou menos uma experiência única para uma vida e nós decidimos quevaleria a pena. Para ser honesto foi uma luxúria fazer a turnê por que é simplesmente muito caro, nós não podemos negar. Mas no fim é só dinheiro e poder viajar e tocar em lugares diferentes do mundo vale muito mais! Obrigado novamente Marcos, Simone e todas as pessoas que nos ajudaram! Nós vimos também ótimas bandas: O Inimigo, Grind Day, Discarga, I Shot Cyrus e é claro Point of no Return.

3) Os moleques do Brasil que foram em turnê com o Point of no Return na Europa (2002) perceberam na Alemanha um certo complexo relacionado ao povo judeu, que era expressado num apoio reacionário no "direito de defesa" de Israel contra os palestinos. Essa é a realidade predominante em todo o país? Como vocês enxergam os problemas no Oriente Médio?

JOBST: Ish, essa é uma questão difícil. Você tem que saber que essa "questão" é realmente um "tópico quente" na Alemanha atualmente. Existe esse grande debate (ou melhor: briga) na esquerda radical alemã a respeito do conflito Israel-Palestina. Uma boa parde dos esquerdistas "tradicionais" vindos de contextos "anti-imperialistas" vêem a política de Israel a respeito dos palestinos como um imperialismo violento expulsando os palestinos de seu país. Em contraste com isso tem o grupo de pessoas que normalmente são chamados de "os anti-alemães" que apoiam Israel fortemente. Até onde eu sei o argumento padrão é que você não pode botar a polítcia de Israel nas mesmas categorias que outros países, simplesmente porque é fortemente ligada à longa história de anti-semitismo na Europa. Israel não é como qualquer outro país, mas tem uma posição muito especial como "o Estado dos judeus". A coisa estranha nisso tudo é que essa discussão realmente divide a esquerda alemã, não tem como ter idéias diferentes. Nesse caso, é "você tem que decidir de que lado está" e isso significa que não tem como fazer algo juntos. Em alguns casos pessoas de "partidos" diferentes entraram em lutas físicas uns contra os outros. Para ser honesto, eu tento não me posicionar, por que eu entendo parcialmente os dois lados. Não é uma resposta muito satisfatória, eu acho. Mas acho que é difícil falar algo sobre os problemas do Oriente Médio agora. Obviamente eu acho que as ações militares de Israel são fodidas assim como os ataques suicidas palestinos, mas há razões para os dois lados e simplesmente condenar isso numa maneira hippie-pacifista não muda as coisas e provavelmente não ajuda nem a entendermos... infelizmente eu não entendo tudo isso e não me sinto capaz de dar respostas profundas.

4) Vocês têm uma musica legal sobre a guerra imperialista. E não é só mais um clichê em tempos como os de hoje. Nós sentimos ao redor do mundo uma forte onda pacifista, que acaba botando no mesmo saco um monte de diferentes movimentos contra a guerra. Um exemplo foi a posição do próprio Chirac, um político claramente de direita. Vocês não acham isso negativo, no sentido de que encobre as forças reais na luta (eu quero dizer, classes sociais antagônicas)?

JOBST: Eu concordo totalmente com você. Nos grandes protestos anti-guerra apareceram nazis e outras pessoas de direita tentando tomar parte mas, além de serem contra a guerra, também tentavam propagar idéias anti-semitas e estúpidas idéias anti-americanas. O pior talvez seja que um monte de gente diz que está tudo bem ter nazis em protestos anti-guerra, por que é bom ter o máximo de gente possível desde que sejam contra a guerra. Então, eu concordo totalmente com você quando diz que é importante ver quem é que está tomando parte, por exemplo nos protestos anti-guerra, e olhar para as suas motivações. As pessoas têm que entender que os mesmos objetivos óbvios não significam que as pessoas fazem isso pelas mesmas motivações. Idéias nazi e de direita não deveriam ser toleradas em lugar nenhum!

5) Um disco de punk rock (fanzine, camiseta, ect...) é tão filho do sistema produtor de mercadorias quanto um disco de uma empresa grande. O que faz esses tipos de mercadoria diferentes uma da outra? Por que isso é relevante?

JOBST: Boa questão. Eu nem tenho certeza se isso é tão relevante. Em um nível pessoal é legal fazer sua própria coisa e é algo especial ter seu próprio disco (fanzine, camiseta...) por um lado, mas eu não acho que isso faz realmente uma grande diferença na abolição do capitalismo ou seja lá o que for. Provavelmente o mesmo "problema" se aplica em qualquer política da vida cotidiana. Ser vegan, straight-edge, e até mesmo ir em protestos não muda realmente as estruturas fodidas de exploração das sociedades em que a gente vive.

6) Qual é o assunto tratado na musica do Buttocks que vocês gravaram cover? A letra influenciou na escolha da música? É uma banda importante para vocês? Por que?

JOBST: Eu acho que nós basicamente gravamos essa musica por que é uma banda punk alemã das antigas que todos nós gostamos, e queríamos mostrar nossas raízes pessoais. Nós na verdade não escutamos bandas americanas quando tinhamos 15 ou 16 anos. Isso foi importante para nossa socialização pessoal. Um monte de moleques mais novos que escutam hardcore old school agora começam bandas de metal como Earth Crisis, mas essa não é nossa raiz. A letra de "Nein nein nein" é de um punk rock bastante simples. Começa com "não não não, seu porco velho, eu não quero ser mais escravo" e chega em "punk rock é o líder nesse país"; bem básico, mas é assim que o punk era na alemanha dos anos 80. É daí que viemos...

7) No Brasil tem rolado um começo de comunicação entre o movimento Hip Hop (em alguns aspectos, bastante político por aqui) e partes da cena punk/hardcore. Tem algo similar com algum outro movimento cultural/musical e o punk rock por aí?

JOBST: Não, na Alemanha não tem. Às vezes acontece em cenas locais que punk, hip hop e talvez bandas de ska façam algo juntas, mas em geral não tem muita comunicação entre cenas "alternativas"... infelizmente. Seria bom ver isso acontecer mais frequentemente.

8) No texto do CD "Unsuspectin actors in a bad soup opera" vocês dizem que aplicar nossas convicções na vida cotidiana pode melhorar as nossas vidas, mesmo que algumas vezes seja apenas para nos salvar de um sentimento de culpa. Eu sei que todo mundo precisa de uma válvula de escape, por que esse sistema sufoca e limita. Mas por outro lado, através do punk rock as pessoas podem ter acesso a alguns tipos de informação e modos de pensar que não são comuns em outras esferas da vida. Mas isso às vezes se transforma em uma constante obrigação de militancia, ininterrupta e também entediante. Vocês não acham que quando isso se torna uma somente uma válvula de escape ou somente uma militancia obrigatória, se torna também conservador e reacionário?

JOBST: É um ponto interessante. Eu definitivamente acho que um monte de idéias e ideais que eram progressistas podem se tornar conservadores e reacionários. Algumas pessoas não parecem compreender que idéias que tinham significados provocadores 20 anos atrás são simplesmente chatas e sem sentido hoje em dia. Imagens, fúria e musica alta facilmente perdem seu valor original quando são apenas parte de uma subcultura que é vendida pelas grandes empresas. O que o punk rock é hoje e quanto é aceito como uma outra forma de moda ou arte é um bom exemplo de tornar algo radical e energético em algo sem sentido.

9) Vocês viram as bandas brasileiras que estiveram em turnê pela Europa esse ano? Qual foi o impacto? Qual é o significado disso para a cena punk rock européia?

JOBST: É claro. Nós tocamos com o Discarga e eu organizei shows para o Discarga e o I Shot Cyrus. Também vi o Confronto e o Nueva Etica (eu sei que são da Argentina, mas...). Eu acho que um monte de europeus estão realmente de mente aberta e para aqueles que não estão é bom ver que tem bandas ótimas no assim chamado "terceiro mundo", que são tão boas quanto qualquer banda européia ou americana [N.doE: muitas vezes muito melhores...]. Eu vi o Confronto e o Nueva Etica tocando em alguns festivais maiores e muita gente realmente gostou deles. Foi ótimo ver isso. Eu espero que os alemães não continuem a seguir cegamente bandas norte-americanas como fizeram por tantos anos. Ter tantas bandas ótimas em todo o mundo vindo para cá certamente ajuda a mudar algo nessa direção.

10) Planos para o futuro? Novos lançamentos desde a versão brasileira do CD pela Liberation? Algum "foda-se"...

JOBST: Nós fizemos um 7" split com nossos amigos do The Now-Denial, que também são da Alemanha. O disco contém alguma informação sobre os protestos contra a união européia que rolaram em Goeteborg/Suécia em 2001. Alguns de nossos amigos estiveram lá e passaram por apuros com os policiais. Nós também tentamos juntar uma grana para ajudá-los através desse disco. Nada além disso. Nós esperamos lançar outro disco no começo de 2004 e talvez fazer uma outra turnê... veremos. Sem "foda-se", nós somos homens velhos e bonzinhos. Confiram o site www.highscorepunx.com e entrem em contato! Muito obrigado por essa entrevista.

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