Flicts - Meados de 2004

O Flicts é um power trio Oi! de São Paulo que existe, desde 1997. Eles têm alguns lançamentos, destacando-se o split CD com os Excluídos (também de SP), o CD Canções de Batalha (2002) e o split CD/LP com a banda irmã Agrotóxico.. Em outubro de 2004 fizeram uma turnê Européia (a entrevista é anterior). O Flicts é formado pelos irmãos (que responderam a entrevista) Rafael (bateria e voz) e Arthur (guitarra e voz), além do Jeferson (baixo e voz).

Assumindo um rótulo polêmico que (no contexto brasileiro principalmente) remete com freqüência a posturas de direita, a banda precisa mostrar sempre coragem, jogo de cintura e paciência para deixar tudo bem claro:"... uma banda Oi!. explicitamente anarquista, ligada ao movimento punk." É uma surpresa agradável e, se você tem dúvidas ou não conhece, aproveite...

 

Vocês são uma banda Oi!? Se sim, o que isto significa atualmente, considerando a realidade brasileira e, paralelamente, a mundial?

RAFAEL: Sim. No meu entender, somos uma banda Oi!. Claro que existem influências importantes de punk rock e mesmo de hard core em nosso som, mas somos essencialmente uma banda Oi!. Parece que fora do Brasil (Europa, EUA, Japão e restante da América Latina) o Oi! já foi absorvido como apenas um estilo musical próximo do punk rock, marcado por melodias simples e alegres, refrões fortes, coros acentuados, tempo mais cadenciado e letras que tratam de vários temas, mas sempre sob uma ótica "rueira" (sem que isso exclua uma certa dose de lirismo). Isso quer dizer que, fora daqui, quando uma banda passa a se definir publicamente como Oi!, isso significa apenas que ela faz um determinado tipo de som, com determinadas características sonoras. Se lá fora o Oi! é só um estilo musical, assumir-se como Oi! não diz nada sobre a postura política de uma banda nem sobre suas ligações com este ou aquele grupo específico. Existem bandas Oi! comunistas, anarquistas, fascistas e apolíticas. Existem bandas Oi! formadas por punks, por nazipunks, por skinheads tradicionais, por skinheads SHARP, por skinheads RASH, por skinheads fascistas, por herberts etc. Lá fora, assumir-se como uma banda Oi! não é muito diferente de assumir-se como uma banda de punk rock, metal, hard core, ska etc.

Por outro lado, no Brasil, a coisa é um pouco mais complicada, já que por aqui o Oi! ainda é visto como um estilo musical exclusivamente ligado aos "carecas". Ou seja, quando uma banda se assume como Oi!, a maioria das pessoas passa erroneamente a defini-la como uma banda de "carecas" e acredita então que a banda defende as mesmas idéias que os "carecas". Nada mais equivocado, mas é assim que as coisas tendem a acontecer por aqui. Frente a isso, uma banda que, no Brasil, se assume como Oi! tem diante de si três possibilidades muito claras. A primeira: a banda pode adotar uma postura ambígua frente aos "carecas", sem dizer explicitamente se está ou não ligada a eles, sem afirmar claramente se concorda ou discorda das idéias que estes defendem. Nesse caso, pouco importa se a banda adota essa postura ambígua de forma consciente ou não. O fato é que ela vai ser vista e definida quase que obrigatoriamente como uma banda de "carecas" e vai ser cobrada por punks, por "carecas", pela imprensa e por todos nesse sentido. A segunda possibilidade: a banda se assume explicitamente como uma banda de "carecas". Nesse caso, não há ambigüidade. É uma banda formada por "carecas" ou ligada a eles, que defende então uma postura direitista, conservadora e/ou fascista. Por fim, a terceira possibilidade: a banda adota uma postura explicitamente anti-fascista, anti-conservadora e de combate ao preconceito, aproximando-se conscientemente do anarquismo ou comunismo. Nesse caso, também não há qualquer ambigüidade. A banda é uma banda Oi!, mas sem qualquer ligação com os "carecas" e sem qualquer simpatia pelas suas idéias, muito pelo contrário. Essa é a postura do Flicts: uma banda Oi!. explicitamente anarquista, ligada ao movimento punk.

Por isso tudo, segundo meu entender, no Brasil, ao assumir-se como Oi!, uma banda deve obrigatoriamente definir seu posicionamento político. Não há espaço para o Oi! "for fun" que fica em cima do muro ou coisa que o valha. O Flicts há muito tempo definiu seu lado: o anarquismo e o movimento punk.

ARTHUR: Concordo com o que meu irmão disse com relação à música Oi! e acho que ele disse tudo. Mas já que ele falou mais sobre o lado político da coisa, gostaria de pegar pelo lado mais artístico e cultural. Vejo o Flicts como uma banda anarquista, que faz punk rock e que, antes de rótulos, procura fazer um som com originalidade e espontaneidade. Na hora que estamos compondo, não pensamos em fazer um som desse ou daquele jeito, porque vai agradar esse ou aquele tipo de público. O som que a gente faz é Oi! meio que sem querer, entende? É espontâneo. Não é forçado. Vou tentar explicar melhor. As letras das bandas Oi!/Streetpunk sempre tratam de temas como bebedeiras, cerveja, bares, futebol, a atmosfera urbana, a classe trabalhadora. As nossas músicas também falam sobre esses assuntos e muita gente vê que há semelhança entre o Flicts e outras bandas Oi! como, por exemplo, as inglesas. Mas não escrevemos sobre esses assuntos porque "queremos fazer música Oi!", entende? Ou porque "queremos fazer algo parecido com relação às bandas inglesas". Antes de pensar em punk e em guitarra, eu já ia ao Parque Antártica, ver o Palmeiras. Vou a estádios desde que tenho uns seis anos e é uma das coisas que eu mais gosto de fazer. Meu irmão e o Jéferson também adoram futebol. Portanto, nós falamos sobre futebol nas músicas porque gostamos de futebol, de ir a estádios, de jogar bola na rua. Não porque as bandas Oi! falam sobre isso. A mesma coisa com cerveja. Nós falamos sobre cerveja porque é algo que faz parte do nosso dia-a-dia e isto não está relacionado ao fato de a gente gostar de música Oi!. Por último, nós somos todos trabalhadores, temos que lutar todos os dias para sobreviver com um salário de merda. Por isso digo que é algo espontâneo o fato de a gente fazer um som Oi!. Não é algo pensado, tipo: "vamos tocar Oi! e falar sobre classe trabalhadora, sobre cerveja e futebol". Não foi assim. A gente começou a fazer um som, e a escrever letras sobre esses assuntos porque diziam e dizem respeito ao nosso universo. Só depois é que vimos que o que a gente fazia era algo desse universo, da música punk Oi!

"política das ruas/ No fio da Navalha/ Em meio ao fogo cruzado". Que política é essa? Para quê e para quem?

RAFAEL: É difícil definir claramente o que eu entendo por "política das ruas". Quando criei essa letra, essa estrofe específica, eu pensava nos intelectuais de classe média, nos revolucionários burocratas que vêem seu partido ou grupo como o umbigo da revolução, nos libertários de gabinete que discutem o anarquismo como se fosse apenas um estilo de vida exótico e irreverente. Eu pensava nesse bando de almofadinhas que falam do trabalhador, do criminoso, do rebelde, do "zé-ninguém", da liberdade, do anarquismo, do comunismo, da rebeldia, da resistência, do punk, do skinhead, do hip hop e do caralho a quatro como se fizessem parte de tudo isso. E a verdade é que eles nunca estiveram tão longe dessas coisas todas. Eles são covardes e burgueses demais para aproximarem-se disso de fato. A sujeira é muito grande e eles não querem sujar as unhas. O esforço é muito alto e eles não querem suar suas camisas de grife, nem descabelar seus penteados refinados, nem abrir mão de seus jantares e sarais regados a vinhos franceses. Quem realmente está no role e dá a cara a tapa nas ruas, quem não se esconde atrás de gabinetes nem partidos, quem realmente é trabalhador, criminoso, rebelde, anarquista, comunista, skinhead, rapper e o caralho não passa de um mote, de um pretexto para que os otários sigam construindo suas carreiras, para que continuem galgando degraus nas instituições em que vivem e que sustentam. Eles falam da "política das ruas" em suas teses, discursos, projetos, instalações, poesias, jantares etc. Nós vivemos e sentimos a política das ruas. Ela é instintiva, difusa e confusa e só quem a vive é que consegue entende-la de verdade.

ARTHUR: Bem, o homem fez a letra. Quem sou eu pra dizer alguma coisa. (risos)

No show em abril em Pirituba (com No Violence, Grind Day, Force of Change e Fart Stink) vocês comentaram a letra que trata São Paulo como "Paulicéia de todas as cores". Entendo que foi uma resposta Às interpretações exdrúxulas, que enxergaram aí um patriotismo ufanista. Mas, ao retratar a metrópole como coração de mãe que a todos abriga, esquecem-se de um ponto: onde abriga? Como abriga? Porquê abriga? Me parece mais um coração de madrasta.

RAFAEL: Eu me lembro desse show e me lembro mais ou menos do que dissemos antes de tocarmos "Paulicéia de Todas as Cores". Nessa canção, falamos da cidade de São Paulo. Essa música é uma resposta àqueles que querem fazer dessa metrópole algo "puro". Procuramos dar uma resposta aos cretinos que defendem o separatismo ou o nacionalismo, aos fascistas que odeiam nordestinos, aos homofóbicos e a qualquer um que defenda qualquer concepção de uma São Paulo "pura". Essa cidade nasceu híbrida, é híbrida e é justamente isso que a torna bela. Ela é caótica, desordenada. Tem seu lado libertário, seu lado libertino e é difícil saber quando um termina e o outro começa. Ela recebe a todos não como uma mãe nem como madrasta, mas como uma mulher que seduz e se deita com quem lhe der na telha, independentemente de raça, cor, credo e o que seja. Ela envolve a todos como uma droga pesada, que também seduz, dá prazer, mas cobra seu preço. Cada um ela prende de um jeito. Uns, pela grana fácil, outros, pela ilusão da grana fácil, mas ela, de alguma maneira, acaba envolvendo a todos que nela vivem. Algumas dessas maneiras são positivas. Muitas são negativas. Mas para mim, é difícil ficar fora da cidade de São Paulo e até hoje me pergunto se isso é bom ou ruim.

ARTHUR: Perfeito! O professor é foda. Acho que se eu disser mais alguma coisa, vai estragar. Professor! Professor! (risos)

4- Como vocês se envolveram com o punk rock, porque estão nesta até hoje e que mudanças objetivas perceberam desde então?

RAFAEL: Eu me envolvi com o punk rock por causa do anarquismo e vice-versa. Quando era moleque, nos idos de 1980, falar em punk era falar também de anarquia e anarquismo. Lembro que se podia ouvir sobre punk em todos os lugares. A mídia dava sua definição para o punk, os intelectuais davam suas definições para o punk, os punks davam suas definições para o punk, os ícones decadentes da MPB (como Gilberto Gil) também tiravam sua casquinha, mas ninguém falava tão claramente do anarquismo e na minha cabeça de adolescente da região da Freguesia do O / Pirituba (nascedouro do punk no Brasil), estas duas coisas não se separavam (ainda acredito que elas não se separem). Fui eu atrás do que era essa porra chamada anarquismo. Quem me deu a melhor definição na época foi Denise, minha belíssima professora de História da 6a serie. A ruiva exuberante me disse o seguinte: "Anarquismo é um mundo sem regras, sem ninguém mandando em ninguém". Claro que era uma simplificação tosca, mas eu estava na 6a. serie, caralho! De qualquer forma, eu fiquei maravilhado pela possibilidade de um mundo sem ninguém me dando ordens. A partir daí, me descobri anarquista. E como naquela época, punk e anarquismo eram, para mim, mais ou menos a mesma coisa, também me descobri punk. As coisas mudaram muito pouco e o que mudou muito mudou pra pior, com a absorção e domesticação incisiva da rebeldia pela indústria cultural. Continuo nessa porque alguém tem que fazer o serviço sujo. Alguém tem que exercer a voz dissonante. Alguém tem que saber resistir e ir construindo tempos melhores, onde o anarquismo volte a crescer. Isso vai dar certo? Não tenho a menor idéia, mas é muito bom seguir incomodando.

ARTHUR: Eu comecei a ouvir punk por causa do skate. Em 1986, 1987, a galera aqui de Pirituba, Freguesia, todo mundo andava de skate. A gente passava o dia andando, fazendo rampa, roubando compensado pra fazer rampa e o som vinha na cola disso tudo. Tinha o programa "Grito da Rua" que acabava mostrando bandas sensacionais como Agent Orange, Suicidal Tendencies, Dead Kennedys. Então, comecei a entrar no punk desse jeito: por influência do meu irmão e do skate. Lembro que por volta de 87, eu tinha sete anos, e pedi dois discos de aniversário: o "Crucificados" do Ratos e o "Mais Podres do Que Nunca" do Garotos Podres. Depois comprei o "Road to Ruin" do Ramones e aí fudeu de vez. Meu irmão pegou a coletânea Ataque Sonoro e aí veio Cólera, Inocentes. Era isso que a gente ouvia. O engraçado é que se você pegar a galera da nossa rua que curtia som, nos dias de hoje, só sobramos eu e meu irmão! E junto com o punk vem o lado político da coisa, do anarquismo, do "faça você mesmo", do protesto, de lutar pelo que você acredita, e que eu só fui começar a me ligar mesmo com uns 15, 16 anos, quando o embrião do Flicts começou. Então, foi assim que eu comecei a me envolver com o movimento punk, com o anarquismo, comecei a tocar guitarra, ir a shows, pensar em fazer uma banda e nossas próprias músicas.

E hoje não consigo mais viver sem isso e não sei bem porque. Acho que o punk foi um meio que eu encontrei para fazer algo diferente e mais significativo na vida que apenas crescer, trabalhar, ficar velho e morrer. Acho que o punk mantém viva a esperança de que há alternativa, de que há como construir um mundo menos injusto e desigual, sem preconceito, sem racismo, sem homofobia, um mundo mais livre para todos. Acho que o punk sempre mostrou, principalmente nos anos 80, que há alternativa para a sede comercial de grandes corporações como as grandes gravadoras. De que há como chegar até as pessoas e trazer uma mudança positiva sem precisar pagar jabá para rádios e para MTV. Isso trouxe mudanças muito objetivas na forma como eu encaro o meu cotidiano, o meu trabalho, a maneira como me relaciono com as pessoas, minha visão de mundo. Portanto, individualmente, eu noto mudanças claras. Agora, vendo o punk como movimento, fico um pouco triste ao ver divisões entre galeras, a falta de espírito coletivo, o fato de algumas bandas se intitularem "hardcore" e fazer um som completamente desvinculado de um espírito de contestação ou posição política. O nome "hardcore" remete justamente há algo extremo. E não há nada de extremo na maior parte das bandas que aparecem hoje por aí e que falam apenas sobre relacionamentos, namoradas etc. Eu sei que todo mundo pensa nisso e vive isso, mas mesmo assim é uma bosta! E também não é por isso que devemos deixar de tocar e desistir dos nossos objetivos. Acho que as pessoas no meio punk, isso inclui todos nós: punks, straight-edges, rockeiros, anarquistas, comunistas, feministas, revoltados em geral, nós devemos pensar mais como um movimento. Devemos mostrar que há um caminho diferente e que precisa ser percorrido. Se não há, a gente abre uma estrada na marra de um jeito ou de outro. Se o mundo efetivamente não mudou desde que o punk surgiu, nós devemos continuar tentando, sempre, porque "enquanto houver vida, haverá um motivo pra lutar", entende?

Sabemos que o Rafael é professor, mas nada sobre os outros membros da banda. Ainda assim a pergunta vai para todos. Em qual medida o punk rock influencia os outros aspectos de suas vidas?

RAFAEL: Eu procuro sempre me relacionar com todos, estudantes, colegas, amigos, namoradas, etc. de maneira libertária, ou seja, pautando minhas ações pela sinceridade, pela liberdade e pelo caráter. Em muitos momentos, isso é bem difícil, mas sigo tentando.

ARTHUR: Acho que acabei respondendo essa questão na pergunta anterior. Eu, no caso, sou jornalista, trabalho em rádio, e procuro atuar no meu trabalho com a mesma postura que tenho com relação a tudo, entende? Procuro levar um espírito mais solidário e libertário, por exemplo, ao local onde trabalho, tentando melhorar as relações com as pessoas e tal. Mas, é preciso ter critério. Não é porque não concordo com relações de poder e hierarquia que vou mandar meu chefe tomar no cu quando ele "pede" para eu fazer hora extra. Ou ficar puto quando eu trabalho dez horas por dia e ele seis. Eu seria muito estúpido se fizesse isso, porque as coisas continuariam as mesmas e eu estaria ainda mais fodido. Temos que ser mais inteligentes. As mudanças, infelizmente, não ocorrem de uma hora para outra. O punk já existe há mais de vinte anos e o capitalismo continua existindo, crianças continuam morrendo de fome, a polícia continua torturando, a nossa sociedade ainda é machista, os problemas continuam aí. Se quisermos mudar temos que pensar a longo prazo, sem pressa e com inteligência. Acho que o segredo é manter uma ação local, cada um a seu modo, no seu trabalho, na sua escola, no seu bairro, para, no fim, obter um resultado global. E é nisso que penso todo santo dia, ao ir ao trabalho, ao chegar em casa, ao interagir com as pessoas, etc.

De uns anos para cá, o Oi!, rebatizado de "street punk" tem sido redescoberto. Bandas surgem, bandas voltam.Velhos, gordos, com cabelos brancos (ou sem cabelo, ahahahaha) lançam discos ruins (Angelic Upstarts) e se reúnem periodicamente para celebrar, implícita ou explicitamente, a morte do punk/skinhead como algo que perigoso para o sistema (como no festival Hollydays in the sun). Vocês concordam com isso? Resignação é o que nos resta? Existe ainda alguma contribuição do Oi! Resistindo apesar disso tudo? Existe uma cena combativa e/ou faça-você-mesmo?

RAFAEL: Concordo que o velho Mensi e o resto do Angelic Upstarts estejam gordos e calvos, mas discordo que os últimos discos sejam ruins (risos). Mas respondendo a pergunta, gostaria de dizer, antes de tudo, que esse rótulo de "streetpunk" não me convence mais. Eu até o achei simpático por um tempo, mas agora, vejo-o cada vez mais como uma maneira de tornar o Oi! menos agressivo, menos polêmico e mais vendável. Em segundo lugar, acredito ainda que o movimento punk e o movimento skinhead SHARP e RASH são possibilidades interessantes de resistência ao poder e à indústria cultural. Existe sim uma cena combativa e independente, formada por squats, zines, centros culturais alternativos, sobretudo na Europa. Aqui no Brasil, assumir-se como punk ou como skinhead RASH ou SHARP exige ainda uma alta dose de coragem e valentia, já que isso leva um sujeito a estar sempre mais perto da incompreensão, do desemprego, da violência policial e de outros problemas. Ainda assim, existe muita gente sincera que leva o punk, e em menor escala, gente que leva o SHARP e o RASH, como movimentos críticos e alternativos ao que está aí. Se isso efetivamente muda ou contribui para enterrar o tal sistema eu já não sei. Mas resistir é preciso e muitos ainda vamos torcer o nariz para a idéia de se entregar sem luta.

ARTHUR: Sinceramente, acho que qualquer expressão cultural ou política, pode ser punk, rap, qualquer coisa, qualquer squat, qualquer zine, qualquer protesto, qualquer x em uma mão, qualquer moicano na cabeça de alguém, já é um sinal de que existem pessoas insatisfeitas, inconformadas e de que algo precisa mudar. Existe sim uma cena faça-você-mesmo, tanto aqui quanto na gringa, com circuitos, shows, etc. Se ela é de fato combativa eu não sei. Mas que existe, existe. E de qualquer forma, há uma enorme validade e relevância na coisa toda. Existem milhares de pessoas como nós em todo mundo, em qualquer regime, em qualquer sociedade ou país. Talvez, elas não saibam qual a melhor forma de lutar, de transformar intenções e sentimentos em mudanças práticas. Mas nós não temos todas as respostas, ninguém tem. É meio como diz a música do Minor Threat "Você diz pra mim que eu não faço diferença. Ao menos eu tento. E o que diabos você tem feito?" Esse é o espírito.

Em que outras bandas/projetos/zines/etc. vocês estão envolvidos? Comentem um pouco disso.

RAFAEL: Eu também toco bateria na banda punk anarquista Juventude Maldita. Com meu amigo Demente, tento levar pra frente o selo Rebel Music, que lançou algumas coletâneas e discos de bandas que, se não fosse pelo selo, provavelmente nunca gravariam. Enquanto selo também estivemos presentes no ultimo Encontro de Grupos Autônomos, em São Paulo. Como indivíduo, estive presente nos primeiros encontros do FAO (Fórum do Anarquismo Organizado), também ocorrido em São Paulo e venho acompanhando a evolução do mesmo desde então. Contribuo com zines, debates e eventos libertários na medida do possível.

ARTHUR: Eu só toco no Flicts. Já tentei fazer umas bandas hardcore old school estilo Bad Brains, Circle Jerks, Minor Threat, 7 Seconds, que é o estilo de som que eu mais gosto e me identifico. Mas nunca deu certo. Já tentei algumas coisas, alguns projetos, mas nunca foi uma coisa realmente foda. Então, se for pra fazer meia boca, prefiro não fazer. Mas um dia, eu ainda consigo montar uma banda hardcore com uns amigos. Aliás, o som da gente é Oi!, mas tirando o meu irmão, o que a gente gosta mesmo é de hardcore old school! (risos). Ainda mais com a entrada do Jéferson, no baixo! (risos). A gente vai viajar para tocar em outros lugares e meu irmão é obrigado a ouvir todos os cds do Black Flag do começo ao fim! Na Europa, ele está fodido!(risos).

RAFAEL: Eh isso mesmo. Eu assumo que não gosto de Black Flag e que sou o único que realmente curte Oi! antes de qualquer outra coisa. Meu irmão e o Jéferson têm tentado, mas só transformarão o Flicts numa banda de Hard Core se passarem por cima do meu cadáver. E eu não vou me entregar tão facilmente! (risos). O Oi! resiste! (risos).

Pra fechar, o que espera o Flicts do futuro? Disco novo a caminho? Shows? RAFAEL: Temos a tour européia em setembro de 2004. Depois disso, talvez um disco novo. Na verdade, não sei e nem planejamos nada de fato. Somos um bando de vagabundos. Sempre tive a impressão de que a maioria das pessoas leva a banda mais a sério do que a gente mesmo. (risos).

ARTHUR: Como já dissemos em uma entrevista anterior, somos realmente vagabundos, mas, de qualquer forma, a idéia agora é politizar mais os sons do Flicts. Porque, pelo que a gente tem visto, o espírito combativo está sumindo. As pessoas vão aos shows (não aos nossos em específico, mas a todos) para "curtir a balada", "para paquerar alguém" ou para gritar que "cerveja e buceta é bom demais!", sem entender o que essa música realmente representa e qual o sentido de tudo isso. Existem cada vez mais bandas sem postura combativa nenhuma, que não inovam em nada, que só copiam o som dos outros, e a galera não é capaz de olhar para tudo isso com uma postura minimamente crítica. É preciso manter um espírito crítico, revolucionário e contestador em todas as esferas (política, cultural, social) porque se isso não ocorre, nós não somos diferentes de pagodeiros, playboys, etc. Nós seremos mais um grupo que se caracteriza pelas roupas que veste, pelas gírias que fala e pela música que ouve. Por isso, acho importante que nossa postura seja a mais política possível, a de mostrar que somos anarquistas e que levamos o faça-você-mesmo a sério, e que precisamos fazer mais que tocar. Temos que produzir, construir algo, mostrar que há alternativas mesmo sem saber direito quais são. E tenho uma certeza: nós só conseguiremos isso com união. Unindo forças, respeitando diferenças e ao mesmo tempo procurando pontos em comum. E é esse, ao meu ver, o nosso objetivo neste momento. "Vamos até o fim, onde quer que isso seja, atrás do que é nosso onde quer que isso esteja!". Contato: www.geocities.com/flicts77 [email protected]

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