Cutting Edge - Faca Cega #2 - Início de 2003

Uma banda meio paulista e meio santista. Sick of it All com Left For Dead sem parecer nenhum dos dois. Um CD Demo faça-você-mesmo de ótima qualidade. Nada de politicamente correto. Tire suas conclusões.

Com certas excessões louváveis, o punk/hardcore ainda é um espaço onde quem faz as coisas são predominantemente os homens. Na verdade a própria concentração das pessoas envolvidas, mesmo que sendo apenas numa posição não ativa, é predominantemente masculina. Porque vocês acham que isso acontece? Como mudar? Depende de quem?

Thiago e Fábio: Essa é uma pergunta que faz surgir diversas visões sobre um mesmo assunto. Vamos responder tendo como pressuposto o Cutting Edge. O fato de sermos todos homens em uma banda não quer dizer que queríamos apenas homens na banda. Se houvesse uma garota, na época em que formamos a banda, que se encaixasse no perfil do que queremos, com certeza seria inclusa e seria uma "comparsa" nossa. Há alguns anos atrás existiam mais bandas de garotas, é fato. Outro fato que deve contribuir pra isso é sempre o fato de nunca se procurar fazer coisas juntos. Garotas formando bandas só de garotas e vice-versa. Acho que o dia em que as coisas forem norteadas para se trabalharem todos juntos, consequentemente melhores resultados dentro do hardcore virão a tona. Outra coisa é que, pelo que sei, aqui no Brasil ainda há um número maior de mulheres envolvidas com punk/hardcore do que em outros lugares do mundo. O estranho mesmo é que apesar do número de homens e mulheres terem aumentado, a participação e o empenho parece não ter aumentado junto. Mesmo assim, acho que hoje em dia as coisas estão bem melhores na cena, pois todos tem uma visão bem mais ampla e politizada(vide o numero de pessoas no meio punk/hc que participam de movimentos sociais hoje em dia), estamos menos "americanizados" que antes, criando uma certa "identidade própria" e existe uma estrutura e uma rede de comunicação bem legal formada pelo Brasil que pode ser vista com a realização de turnês ou mini-turnês de bandas gringas ou mesmo de bandas daqui, coisa que antes não existia. Não sei se há muito o que fazer para obrigar as pessoas a participarem mais, tanto homens como mulheres, e, acredito eu que essa cena é algo novo, se você for colocar num contexto histórico, e talvez com o tempo essa diferença de número de homens e mulheres acabe.

XTETEX: Depende de todos. Antes de tudo, no próprio meio, ainda existem diferenças. "Não falo com fulano porque ele é straight edge e não falo com ciclano porque ele é melódico e não falo com deltrano porque ele é cristão ou diabólico", que vá tudo a merda! Impressionante como ainda tem gente que trata os outos sem ser pelo caráter...se você não concorda com o que o cara pensa, fala pra ele, ponto final, sinceridade é algo crucial...no dia que isso se desmistificar, acho que a coisa muda...deixa de ser o que se foi dito na questão!!

"Os anos 60 se foram, a guerra explode. Mas você ainda canta suas velhas musicas de merda. "Faça amor, não faça guerra" ecoa, para um mundo hostil" (Peace of Shit - Cutting Edge). Muita coisa rolou nos anos 60 em relação a movimentos sociais, mas tudo o que parece ter sobrado, ou pelo menos o que foi absorvido pelo sistema, foi a "paz de merda". Estamos num mundo hostil, não queremos uma "paz de merda", e agora?

Thiago: Ninguém quer uma paz que seja dada, como se algumas pessoas no topo de uma piramide estivessem com pena de nós. Pode se dizer que é o que houve durante a época da ditadura militar, e penso que muito dessa música vem disso. Aonde se anunciava o "milagre econômico" durante o auge do militarismo e pessoas eram mortas e espancadas em porões sujos e amedrontadores do DOPS. Tenho certeza que os pais de muitas pessoas cantam até hoje as glórias e benefícios que os militares davam para uma nação entorpecida pela imagem de uma país promissor e a propaganda enganosa que era enfiada goela abaixo de todo o povo. Pensamos que não deve ser só no Brasil que isso deva ocorrer, e o militarismo foi só um exemplo do que é uma paz de merda, uma paz que ninguém quer. Claro que não somos a favor de um mundo hostil com bombas e explosões por todos os lados, mas se queremos a paz, ela deve ser conquistada e deve ser instaurada de uma maneira horizontal, igual para todos. Outro exemplo, sobre se cantar "suas velhas músicas de merda" é o fato de baluartes do exílio como Gilberto Gil, Caetano Veloso e tantos outros (devo salientar que não são todos) que na década de 70 cantavam canções sobre a derrubada do poder e a esperança de um povo oprimido, hoje em dia são fantoches da mídia e tão pouco se lixam para o que houve e o que ainda acontece.

XTETEX: Tem gente que fala tanto em paz, que esquece que precisa se batalhar pra ter isso, não sou a favor de dar a cara a tapa...

Vocês acabaram de lançar um CD totalmente faça você mesmo e que está sendo passado num preço bem acessível. Dêm as dicas pra quem quer lançar o disco da sua banda ou da banda do amigo e não sabe por onde começar. Contem como foi o lance da gráfica, do CD, da gravação, problemas/soluções, etc...

Fábio: Devo admitir que não fomos os pioneiros na idéia por aqui em Santos. Os nossos camaradas do Face Forward haviam feito sua última demo em CDR e tinham descoberto uma gráfica que conseguia fazer uma quantidade relativamente pequena (200 cópias) de encartes por um preço baixo e com uma qualidade muito boa. Provavelmente devem existir muitas pelo Brasil afora que conseguem esse bom custo/benefício, basta dar uma boa procurada na sua região. Como resolvemos fazer a arte em Preto e Branco, o custo ficou ainda mais baixo sem prejudicar o layout, pois não é um PB chapado, mas com tons de cinza e tal. Agora quanto ao CD, hoje em dia, um gravador de CD´s custa praticamente o mesmo preço de um som com um deck para você gravar suas demos em k7, e se voce tem um computador, acredito que isso é um bom investimento. O preço de uma fita k7 virgem hoje é o mesmo ou maior que de um CDR, e a qualidade do CD e o seu tempo de vida são muito maiores, por isso, acabamos optando pelo CD. Não pensem que estou aqui fazendo uma campanha contra as fitas k7!! Mas, ao analisar os prós e os contra, no nosso caso, foi a opção mais rápida, barata e de melhor qualidade. Realmente, também é um puta trabalho ficar gravando 200 CD´s..hehehe...mas, o resultado vale a pena(opa, até eu fiquei comovido agora...heheheh)! Depois disso, acabamos encontrando um lugar que fazia silk-screen em CDR´s por um baixo custo também, e isso, apesar de ser algo que não influi em nada no som, é um toque a mais que realmente faz a diferença, dá uma cara muito legal para o CDR ... E, acho que esse acabou sendo o fator que mais me agradou e que aconselho todos que forem fazer seus CDR´s, que façam um rótulo em cima do CD, dá uma outra cara para o negócio!! E outra, não acho que alguém fosse comprar nossa demo se custasse mais caro...hauhahauhauhueh...Se alguém quiser saber telefones ou onde ficam os lugares que nós fizemos as coisas, sintam-se livre para entrar em contato ... As únicas coisas que tínhamos em mente era "Boa qualidade/Preço Muito Baixo & Rock ´n´Roll"...hehhe..E aí saímos atrás disso ...

XTETEX: Cara, o Fábio que é o homem dessas coisa, eu nunca levei a sério banda como levo essa(embora tenho muita disponibilidade, mas...) tive uma brincadeira com uns amigos de BH, com uma banda que chamava Disparo, mas nada sério......Com o Cutting é diferente, os caras foram bem legais comigo, me deram tempo pra aprender a fazer as coisas, ensaiamos muito, coisa de um ano. Quando fomos gravar, com excessão da minha pessoa, que faltou um aquecimento antes, hehehehe (coisa de cabaço mesmo, nunca gravei na minha vida antes), de resto tava tudo tinindo, foi rápido pra gravar, ao vivo, só eu gravei separado (cá pra nós, uma desgraça, hahahahaha). Gráfica procuramos a mesma que o Face Forward fez, foi bem em conta, e de resto, foi tudo em casa...O Fábio gravou tudo na casa dele...e o preço deu pra sair assim, cá pra nós, acessível pra caralho, 2 reais é muito pouco...e a qualidade até que tá bem legal, e eu não entendo porra nehuma dessas coisas, hehehehe mas taí...da pra fazer tudo com uma qualidade boa e com um preço bem em conta!

Em "Mediocridade de Séculos" vocês tratam do racismo. "Sua elite racista não passa de uma fachada para uma mediocridade de séculos". Numa pesquisa recente em escolas públicas da periferia da Grande Vitória, na região da Serra, concluiu-se que o racismo é parte integrante da visão de mundo das crianças. Dezenas de casos de crianças discriminando-se umas às outras foram detectados, a maioria de negros contra negros. Foi registrato o caso de um professor que chamou o moleque de burro por ser negro: "Você é burro. Você é negro e por isso é burro." Da pra ver que o racismo não está preso a uma elite, não somente a ela. O que vocês acham disso tudo? As periferias de SP sofrem a mesma realidade ou há uma maior (auto) valorização do negro através do movimento Hip Hop, por exemplo?

Thiago e Fábio: O uso da palavra "elite" dentro da música, especificamente, não se refere a alguma posição social ou financeira, mas sim ao fato de quem age de maneira preconceituosa. Ao discriminar alguém somente pela sua cor, sendo rico ou pobre, a pessoa se coloca em um degrau acima daquela que sofre o preconceito, formando uma pseudo elite. Por isso, achamos que essa elite independe de condições financeiras ou sociais. O preconceito de negros contra negros, ou de um adulto "professor" contra uma criança, não sei se podemos considerar como algo generalizado . Claro, são fatos bizarros que não podem passar desapercebidos, pois mostra a que níveis podem chegar todo esse racismo que permeia nossa sociedade, ora sultilmente (isso não quer dizer "menos pior"!), ora tão explícito que chega ao absurdo. Mas, como também diz a letra, é uma "mediocridade de séculos", e por isso, por mais que nós enxergamos isso como idiota e ináceitável, ainda levará um tempo para que todos esses pensamentos ridículos de superioridade acabem. Mesmo que nós tentemos levar esse tipo de comportamento para longe de nós e condenando qualquer caso de racismo, é uma das babaquices humanas que, infelizmente, demorará a se extinguir . Não posso te dizer com precisão como a periferia em SP lida com isso, ou se a realidade é a mesma, mas com certeza, todos esses movimentos de valorização são passos importantes na luta contra essa hipocrisia racista.

XTETEX: Bom, caráter é caráter. Tem gente pilantra em tudo que é canto, No próprio hardcore você pode ver isso, tem muita gente que quer sempre tirar vantagem em cima dos outros. Sobre a letra da música, é o seguinte, a gente nasce com um negócio colocado na nossa cabeça, no caso das regiões periféricas, resultado de séculos de opressão, vira estereótipo, entende??? A maior parte da periferia é formada por miscigenados, negros, brancos, etc... Já cansei de ver na rua, negro xingando negro, isso acontece em um monte de lugar...não precisa ser na favela, na periferia, em bairro chique ... é em qualquer lugar, tem negro que não gosta de negro e negro que não gosta de branco, branco que não gosta de negro... Não vou saber comparar como é em SP e em Vitória, porque não sei como é aí. O movimento Hip Hop faz muito aqui em SP, e hoje em dia existe uma valorização do povo negro que é muito grande. O que se tem de fazer é desestereotipar isso, caráter é de cada um...

Falem sobre o Cutting Edge, o que já rolou, o que querem daqui pra frente. O espaço é de vocês.

Thiago e Fábio: Até agora fizemos alguns shows, passamos por uma mudança de integrantes e acreditamos estarmos mais estabilizados hoje. Estamos com uma demo aí sendo divulgada, e queremos divulgá-la o máximo que pudermos (valeu, Ruivo!). Estamos nos preparando pra fazer músicas novas e talvez lançar um CD até o fim do ano. Queremos também tocar o máximo que pudermos. Queremos que as pessoas entrem em contato conosco, para falar de qualquer coisa, fazer uma amizade trocar material, e por aí vai. Afinal, isso é hardcore, é nossa vida e amamos isso.

XTETEX: Po, começamos a ensaiar tem um ano e meio já, eu acho, e só rolou cambiar de baterista, (valeu bueno)!!! Tocamos 3 vezes, posifest em BH, Florestan Fernandes em guarulhos e numa verdurada, é bem pouco, acho que foi sempre progredindo, o nosso show na verdurada, eu gostei muito, acho que saiu tudo como deveria, e o resto da banda também deve achar. Não sei sobre a aceitação da banda, os amigos sempre falam que é bom né, hahahahahaha, vai saber, amigo é pra essas coisas!! Quero tocar muito mais, eu acho foda, gosto muito. De resto, quero falar uma coisa, ninguém mandou dar espaço, hahahahahaha quem foi q falou q freeganismo é q quando algo é de graça e tem algum derivado de leite passa a ser vegan?????? Freeganismo é comer comida VEGAN de graça, saber quando vão jogar comida fora e passar antes do lixeiro, isso é freeganismo, quem falou que é comer coisas com derivados roubadas, vá para puta que pariu, ou tu é vegan, ou tu é vegetariano, num inventa moda errada. Quer desencanar de vegan, desencana, mas num fica falando essas porra...e tem mais, tudo isso surgiu com o emo, hahaha, pessoas que "cresceram". Hardcore é do caralho, tenho quase 30 anos e sou hardcore, ponto final.

topo

Hosted by www.Geocities.ws

1