Uma banda meio paulista e meio
santista. Sick of it All com Left For Dead sem parecer nenhum dos dois.
Um CD Demo faça-você-mesmo de ótima qualidade. Nada de politicamente
correto. Tire suas conclusões.
Com
certas excessões louváveis, o punk/hardcore ainda é um espaço onde quem
faz as coisas são predominantemente os homens. Na verdade a própria
concentração das pessoas envolvidas, mesmo que sendo apenas numa posição
não ativa, é predominantemente masculina. Porque vocês acham que isso
acontece? Como mudar? Depende de quem?
Thiago e Fábio: Essa é uma pergunta que faz
surgir diversas visões sobre um mesmo assunto. Vamos responder tendo
como pressuposto o Cutting Edge. O fato de sermos todos homens em uma
banda não quer dizer que queríamos apenas homens na banda. Se houvesse
uma garota, na época em que formamos a banda, que se encaixasse no perfil
do que queremos, com certeza seria inclusa e seria uma "comparsa" nossa.
Há alguns anos atrás existiam mais bandas de garotas, é fato. Outro
fato que deve contribuir pra isso é sempre o fato de nunca se procurar
fazer coisas juntos. Garotas formando bandas só de garotas e vice-versa.
Acho que o dia em que as coisas forem norteadas para se trabalharem
todos juntos, consequentemente melhores resultados dentro do hardcore
virão a tona. Outra coisa é que, pelo que sei, aqui no Brasil ainda
há um número maior de mulheres envolvidas com punk/hardcore do que em
outros lugares do mundo. O estranho mesmo é que apesar do número de
homens e mulheres terem aumentado, a participação e o empenho parece
não ter aumentado junto. Mesmo assim, acho que hoje em dia as coisas
estão bem melhores na cena, pois todos tem uma visão bem mais ampla
e politizada(vide o numero de pessoas no meio punk/hc que participam
de movimentos sociais hoje em dia), estamos menos "americanizados" que
antes, criando uma certa "identidade própria" e existe uma estrutura
e uma rede de comunicação bem legal formada pelo Brasil que pode ser
vista com a realização de turnês ou mini-turnês de bandas gringas ou
mesmo de bandas daqui, coisa que antes não existia. Não sei se há muito
o que fazer para obrigar as pessoas a participarem mais, tanto homens
como mulheres, e, acredito eu que essa cena é algo novo, se você for
colocar num contexto histórico, e talvez com o tempo essa diferença
de número de homens e mulheres acabe.
XTETEX: Depende de todos. Antes de tudo, no
próprio meio, ainda existem diferenças. "Não falo com fulano porque
ele é straight edge e não falo com ciclano porque ele é melódico e não
falo com deltrano porque ele é cristão ou diabólico", que vá tudo a
merda! Impressionante como ainda tem gente que trata os outos sem ser
pelo caráter...se você não concorda com o que o cara pensa, fala pra
ele, ponto final, sinceridade é algo crucial...no dia que isso se desmistificar,
acho que a coisa muda...deixa de ser o que se foi dito na questão!!
"Os
anos 60 se foram, a guerra explode. Mas você ainda canta suas velhas
musicas de merda. "Faça amor, não faça guerra" ecoa, para um mundo hostil"
(Peace of Shit - Cutting Edge). Muita coisa rolou nos anos 60 em relação
a movimentos sociais, mas tudo o que parece ter sobrado, ou pelo menos
o que foi absorvido pelo sistema, foi a "paz de merda". Estamos num
mundo hostil, não queremos uma "paz de merda", e agora?
Thiago: Ninguém quer uma paz que seja dada,
como se algumas pessoas no topo de uma piramide estivessem com pena
de nós. Pode se dizer que é o que houve durante a época da ditadura
militar, e penso que muito dessa música vem disso. Aonde se anunciava
o "milagre econômico" durante o auge do militarismo e pessoas eram mortas
e espancadas em porões sujos e amedrontadores do DOPS. Tenho certeza
que os pais de muitas pessoas cantam até hoje as glórias e benefícios
que os militares davam para uma nação entorpecida pela imagem de uma
país promissor e a propaganda enganosa que era enfiada goela abaixo
de todo o povo. Pensamos que não deve ser só no Brasil que isso deva
ocorrer, e o militarismo foi só um exemplo do que é uma paz de merda,
uma paz que ninguém quer. Claro que não somos a favor de um mundo hostil
com bombas e explosões por todos os lados, mas se queremos a paz, ela
deve ser conquistada e deve ser instaurada de uma maneira horizontal,
igual para todos. Outro exemplo, sobre se cantar "suas velhas músicas
de merda" é o fato de baluartes do exílio como Gilberto Gil, Caetano
Veloso e tantos outros (devo salientar que não são todos) que na década
de 70 cantavam canções sobre a derrubada do poder e a esperança de um
povo oprimido, hoje em dia são fantoches da mídia e tão pouco se lixam
para o que houve e o que ainda acontece.
XTETEX: Tem gente que fala tanto em paz,
que esquece que precisa se batalhar pra ter isso, não sou a favor de
dar a cara a tapa...
Vocês
acabaram de lançar um CD totalmente faça você mesmo e que está sendo
passado num preço bem acessível. Dêm as dicas pra quem quer lançar o
disco da sua banda ou da banda do amigo e não sabe por onde começar.
Contem como foi o lance da gráfica, do CD, da gravação, problemas/soluções,
etc...
Fábio: Devo admitir que não fomos os pioneiros
na idéia por aqui em Santos. Os nossos camaradas do Face Forward haviam
feito sua última demo em CDR e tinham descoberto uma gráfica que conseguia
fazer uma quantidade relativamente pequena (200 cópias) de encartes
por um preço baixo e com uma qualidade muito boa. Provavelmente devem
existir muitas pelo Brasil afora que conseguem esse bom custo/benefício,
basta dar uma boa procurada na sua região. Como resolvemos fazer a arte
em Preto e Branco, o custo ficou ainda mais baixo sem prejudicar o layout,
pois não é um PB chapado, mas com tons de cinza e tal. Agora quanto
ao CD, hoje em dia, um gravador de CD´s custa praticamente o mesmo preço
de um som com um deck para você gravar suas demos em k7, e se voce tem
um computador, acredito que isso é um bom investimento. O preço de uma
fita k7 virgem hoje é o mesmo ou maior que de um CDR, e a qualidade
do CD e o seu tempo de vida são muito maiores, por isso, acabamos optando
pelo CD. Não pensem que estou aqui fazendo uma campanha contra as fitas
k7!! Mas, ao analisar os prós e os contra, no nosso caso, foi a opção
mais rápida, barata e de melhor qualidade. Realmente, também é um puta
trabalho ficar gravando 200 CD´s..hehehe...mas, o resultado vale a pena(opa,
até eu fiquei comovido agora...heheheh)! Depois disso, acabamos encontrando
um lugar que fazia silk-screen em CDR´s por um baixo custo também, e
isso, apesar de ser algo que não influi em nada no som, é um toque a
mais que realmente faz a diferença, dá uma cara muito legal para o CDR
... E, acho que esse acabou sendo o fator que mais me agradou e que
aconselho todos que forem fazer seus CDR´s, que façam um rótulo em cima
do CD, dá uma outra cara para o negócio!! E outra, não acho que alguém
fosse comprar nossa demo se custasse mais caro...hauhahauhauhueh...Se
alguém quiser saber telefones ou onde ficam os lugares que nós fizemos
as coisas, sintam-se livre para entrar em contato ... As únicas coisas
que tínhamos em mente era "Boa qualidade/Preço Muito Baixo & Rock ´n´Roll"...hehhe..E
aí saímos atrás disso ...
XTETEX: Cara, o Fábio que é o homem dessas
coisa, eu nunca levei a sério banda como levo essa(embora tenho muita
disponibilidade, mas...) tive uma brincadeira com uns amigos de BH,
com uma banda que chamava Disparo, mas nada sério......Com o Cutting
é diferente, os caras foram bem legais comigo, me deram tempo pra aprender
a fazer as coisas, ensaiamos muito, coisa de um ano. Quando fomos gravar,
com excessão da minha pessoa, que faltou um aquecimento antes, hehehehe
(coisa de cabaço mesmo, nunca gravei na minha vida antes), de resto
tava tudo tinindo, foi rápido pra gravar, ao vivo, só eu gravei separado
(cá pra nós, uma desgraça, hahahahaha). Gráfica procuramos a mesma que
o Face Forward fez, foi bem em conta, e de resto, foi tudo em casa...O
Fábio gravou tudo na casa dele...e o preço deu pra sair assim, cá pra
nós, acessível pra caralho, 2 reais é muito pouco...e a qualidade até
que tá bem legal, e eu não entendo porra nehuma dessas coisas, hehehehe
mas taí...da pra fazer tudo com uma qualidade boa e com um preço bem
em conta!
Em "Mediocridade de Séculos" vocês tratam do
racismo. "Sua elite racista não passa de uma fachada para uma mediocridade
de séculos". Numa pesquisa recente em escolas públicas da periferia
da Grande Vitória, na região da Serra, concluiu-se que o racismo é parte
integrante da visão de mundo das crianças. Dezenas de casos de crianças
discriminando-se umas às outras foram detectados, a maioria de negros
contra negros. Foi registrato o caso de um professor que chamou o moleque
de burro por ser negro: "Você é burro. Você é negro e por isso é burro."
Da pra ver que o racismo não está preso a uma elite, não somente a ela.
O que vocês acham disso tudo? As periferias de SP sofrem a mesma realidade
ou há uma maior (auto) valorização do negro através do movimento Hip
Hop, por exemplo?
Thiago e Fábio: O uso da palavra "elite" dentro
da música, especificamente, não se refere a alguma posição social ou
financeira, mas sim ao fato de quem age de maneira preconceituosa. Ao
discriminar alguém somente pela sua cor, sendo rico ou pobre, a pessoa
se coloca em um degrau acima daquela que sofre o preconceito, formando
uma pseudo elite. Por isso, achamos que essa elite independe de condições
financeiras ou sociais. O preconceito de negros contra negros, ou de
um adulto "professor" contra uma criança, não sei se podemos considerar
como algo generalizado . Claro, são fatos bizarros que não podem passar
desapercebidos, pois mostra a que níveis podem chegar todo esse racismo
que permeia nossa sociedade, ora sultilmente (isso não quer dizer "menos
pior"!), ora tão explícito que chega ao absurdo. Mas, como também diz
a letra, é uma "mediocridade de séculos", e por isso, por mais que nós
enxergamos isso como idiota e ináceitável, ainda levará um tempo para
que todos esses pensamentos ridículos de superioridade acabem. Mesmo
que nós tentemos levar esse tipo de comportamento para longe de nós
e condenando qualquer caso de racismo, é uma das babaquices humanas
que, infelizmente, demorará a se extinguir . Não posso te dizer com
precisão como a periferia em SP lida com isso, ou se a realidade é a
mesma, mas com certeza, todos esses movimentos de valorização são passos
importantes na luta contra essa hipocrisia racista.
XTETEX: Bom, caráter é caráter. Tem gente
pilantra em tudo que é canto, No próprio hardcore você pode ver isso,
tem muita gente que quer sempre tirar vantagem em cima dos outros. Sobre
a letra da música, é o seguinte, a gente nasce com um negócio colocado
na nossa cabeça, no caso das regiões periféricas, resultado de séculos
de opressão, vira estereótipo, entende??? A maior parte da periferia
é formada por miscigenados, negros, brancos, etc... Já cansei de ver
na rua, negro xingando negro, isso acontece em um monte de lugar...não
precisa ser na favela, na periferia, em bairro chique ... é em qualquer
lugar, tem negro que não gosta de negro e negro que não gosta de branco,
branco que não gosta de negro... Não vou saber comparar como é em SP
e em Vitória, porque não sei como é aí. O movimento Hip Hop faz muito
aqui em SP, e hoje em dia existe uma valorização do povo negro que é
muito grande. O que se tem de fazer é desestereotipar isso, caráter
é de cada um...
Falem sobre o Cutting Edge, o que já rolou, o
que querem daqui pra frente. O espaço é de vocês.
Thiago e Fábio: Até agora fizemos alguns shows,
passamos por uma mudança de integrantes e acreditamos estarmos mais
estabilizados hoje. Estamos com uma demo aí sendo divulgada, e queremos
divulgá-la o máximo que pudermos (valeu, Ruivo!). Estamos nos preparando
pra fazer músicas novas e talvez lançar um CD até o fim do ano. Queremos
também tocar o máximo que pudermos. Queremos que as pessoas entrem em
contato conosco, para falar de qualquer coisa, fazer uma amizade trocar
material, e por aí vai. Afinal, isso é hardcore, é nossa vida e amamos
isso.
XTETEX: Po, começamos a ensaiar tem um ano
e meio já, eu acho, e só rolou cambiar de baterista, (valeu bueno)!!!
Tocamos 3 vezes, posifest em BH, Florestan Fernandes em guarulhos e
numa verdurada, é bem pouco, acho que foi sempre progredindo, o nosso
show na verdurada, eu gostei muito, acho que saiu tudo como deveria,
e o resto da banda também deve achar. Não sei sobre a aceitação da banda,
os amigos sempre falam que é bom né, hahahahahaha, vai saber, amigo
é pra essas coisas!! Quero tocar muito mais, eu acho foda, gosto muito.
De resto, quero falar uma coisa, ninguém mandou dar espaço, hahahahahaha
quem foi q falou q freeganismo é q quando algo é de graça e tem algum
derivado de leite passa a ser vegan?????? Freeganismo é comer comida
VEGAN de graça, saber quando vão jogar comida fora e passar antes do
lixeiro, isso é freeganismo, quem falou que é comer coisas com derivados
roubadas, vá para puta que pariu, ou tu é vegan, ou tu é vegetariano,
num inventa moda errada. Quer desencanar de vegan, desencana, mas num
fica falando essas porra...e tem mais, tudo isso surgiu com o emo, hahaha,
pessoas que "cresceram". Hardcore é do caralho, tenho quase 30 anos
e sou hardcore, ponto final.