Carahter- Faca Cega #1 - Meados de 2002

A fúria das montanhas se apresenta com todo o seu peso e raiva. Mas os caras são mineiros e por isso, como não poderia deixar de ser, são de uma simpatia singular.

Qual é a visão e a postura de vocês em relação ao punk? O que vocês vêm de positivo/negativo no Brasil e fora daqui? Já se chegou a alguma coisa nessas décadas de punk? O que falta?

Carahter: O punk/hardcore é algo que faz parte de nossas vidas. Através dele absorvemos uma grande quantidade de informações e idéias que contribuíram em grande parte na formação de cada um influenciando diretamente em tudo aquilo em que acreditamos e consequentemente nas nossas posturas pessoais. Essa quantidade e diversidade de informação que circula por toda a cena, sejam através de zines, letras de músicas ou mesmo por conversas com os camaradas, é certamente um ponto extremamente positivo tanto no Brasil como em qualquer outro lugar onde exista uma cena punk/hardcore. Essas informações nos deram base para formarmos a nossa própria visão crítica sobre o mundo e como agirmos sobre ele. Nessas décadas de Punk algumas coisas realmente legais foram feitas, mas ainda falta um bucado de coisa para ser construído. De negativo, achamos que a cena brasileira é ainda muito pequena. Isso é ruim pra gente, pois além de serem menos pessoas com acesso a essa quantidade de informação a tudo que está envolvido nessa contracultura as coisas ficam um pouco mais difíceis à medida que o número reduzido de pessoas impede que ocorram shows que, querendo ou não são uma coisa fundamental e de extrema importância dentro da cena, além de reduzir a diversidade de idéias que circulam nela e também gerar um número menor de grupos realmente ativos dentro da sociedade que são capazes de produzir algum tipo de impacto ou mudança. Ainda faltam muitas coisas para que haja uma maior rede de organização e comunicação, não só para shows e distribuição de discos, mas também para tudo isso que o punk/hardcore envolve. Mas isso é algo que podemos mudar com o tempo, basta que haja mais compromisso e empenho das pessoas que estão envolvidas nessa comunidade.

Grande parte das bandas no punk rock têm letras de protesto, políticas, etc. Até que ponto ficar reclamando é bom? Como vocês lidam com isso no seu dia a dia e o que fazem além da banda pra mudar essa porra?

Carahter: É claro que ficar só reclamando não é suficiente para mudar porra nenhuma. Mas achamos que quem leva a sério essas idéias acaba correndo atrás pra botar isso em prática no seu cotidiano de alguma forma. Achamos extremamente necessário e importante a existência de bandas que têm letras com um conteúdo político, bandas que tem um posicionamento. Fazer letras críticas e políticas no nosso caso foi uma coisa natural, devido a uma necessidade nossa de expor as nossas idéias, as coisas que acreditamos, e tudo aquilo que de uma forma ou de outra nos contraria. Assim, as políticas de nossas músicas são reflexos do que cada um vê ou passa em seu cotidiano, como por exemplo as diferenças sociais que se refletem absurdamente em todo o país e até mesmo dentro da banda, o que faz com que cada um tome conhecimento dos problemas e da realidade do outro. Bem quanto à ação política fora da banda, isso depende muito de cada membro. Mas no geral podemos dizer que tentamos levar a vida sem sermos incoerentes com as coisas que falamos em nossas músicas e com as coisas que acreditamos.

"Afogados no fanatismo ignorante Consumidos pelo cinismo ideológico" (Por Linhas Tortas) "Verdades pré-fabricadas impõe o silêncio à turba que se humilha de joelhos Um a um Calados para não serem escutados Apagados para não se tornarem uma ameaça" (Ilusões Que Aliviam A Dor). No primeiro trecho, vocês destacam a ignorância, o fanatismo, e portanto a irracionalidade de questões religiosas. Já o segundo trecho trata da mídia corporativa e suas manipulações por interesses do capitalismo. Quando observamos o conflito na Palestina, percebemos a insistência da mídia corporativa em qualifica-lo como conflito religioso e não um conflito político, retirando assim todo o fator racional da questão em favor da irracionalidade religiosa. Como vocês enxergam esse conflito? Quais são, nas suas opiniões, as alternativas para resolução do problema na região?

Carahter: Esse conflito com certeza é muito mais do que uma simples guerra religiosa, pelo menos no que diz respeito à Israel. Na nossa opinião, Israel se aproveita da desculpa religiosa para continuar com o massacre e a opressão do povo palestino. Dessa forma as terras palestinas vão sendo agregadas ao estado de Israel, o que para eles é muito interessante, uma vez que essas terras têm um grande valor estratégico tanto do ponto de vista militar e de defesa como do de recursos, já que elas possuem inúmeras riquezas naturais como a água, que é um recurso escasso e de grande valor na região. Apontar soluções para um problema tão complexo em uma entrevista é embaçado! Mesmo porque a questão envolve interesses de Estados extremamente poderosos e influentes como os Estados Unidos (que dá todo o suporte financeiro e militar necessário para Israel), e qualquer solução que vá contra o interesse dessas potências seria impossível de ser colocada em prática. Mas com certeza algo que tem que ser revisto é a questão do Estado Palestino, isso é mais do que um direito é uma necessidade para que se haja um mínimo de justiça. Outro problema que deveria ser sanado é a porra do Sharon, aquele fascista terrorista que vem impondo um massacre sistemático ao povo palestino tem que ser afastado do poder de qualquer jeito seria legal se algum homem bomba conseguisse levar esse filha da puta para o espaço!

Em certa ocasião o Rabino Henry Sobel disse em uma palestra que é a favor da paz na palestina, mas que não pretendia discutir questões políticas. Bin Laden = Bush? Pacifismo é legal?

Carahter: É claro que Sobel não quer discutir questões políticas. A proposta de paz na Palestina que ele e o Estado de Israel pregam não são compatíveis com o debate político. Bin Laden = Bush. Ambos são fanáticos e fazem de tudo pela sua verdade. Bin Laden explode um prédio pela sua religião, o Estados Unidos se puder explode o mundo pelo capital/lucro e pela defesa de seus interesses econômicos. Então ao nosso ver os dois são realmente parecidos, a única diferença é que o Bush é apoiado pela mídia corporativa e assim suas ações terroristas não são condenadas. A omissão com o Tratado de Kyoto, por exemplo, é um exemplo prático da ação dele no campo do bioterrorismo. Pacifismo é uma merda e só tende a deixar as coisas como elas estão. Não acreditamos no pacifismo como um meio para atingir conquistas sociais. O inimigo não tem nem um pouco de pudor para usar a violência para nos reprimir e nos manter na merda, portanto a mesma arma deve ser usada contra ele. A violência quando bem empregada e bem pensada pode ser muito útil na luta anti capitalista e em qualquer luta que vise uma sociedade menos opressora e mais justa socialmente. Somente ao se sentirem realmente ameaçadas as classes dominantes e o governo irão ouvir à grande maioria que vive em condições precárias e anseiam por uma mudança verdadeira nas suas vidas que foram extremamente zoadas pelo capitalismo.

Falem sobre a banda, projetos futuros/passados, nome, shows e tudo aquilo que é um saco responder em entrevista.

Carahter: Então, a gente acabou de lançar o nosso cd "O intenso desespero sobre a decadência humana" que saiu pela Liberation e agora tamo correndo atrás para divulgá-lo. Infelizmente, devido à crise que domina o país ta mó embaçado de tocar fora de BH. Mas continuamos tentando! A gente vai sair numa coletânea beneficente à causa da Liberação Animal por um selo da Europa. Se tudo der certo, essa coletânea deve sair agora em novembro. E para o terror da milícia PC, também devemos sair em um cd coletânea da Torcida Organizada Galo Metal. No mais é isso, quem tiver alguma dúvida sobre o que a gente quis dizer em alguma parte dessa entrevista, mande um e-mail pra gente. E se quiser só trocar idéia ou marcar algum show pode escrever também! Ah, queríamos agradecer a você Ruivo, pela entrevista e pela iniciativa de fazer um zine. O hardcore brasileiro tá precisando disso! [email protected] www.geocities.com/carahter

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