Parceria na CRT sai por R$ 681 milhões
Consórcio liderado pela Telefônica de Espanha e pela RBS paga ágio de 54,77% e fica com o lote de ações da estatal
A Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT) tem um parceiro estratégico. No primeiro grande leilão da área de telecomunicações do Brasil, o consórcio formado pela Telefônica Internacional de Espanha, RBS Participações, Telefônica de Argentina, Companhia de Telecomunicações do Chile e Citicorp arrematou ontem por R$ 681 milhões o lote de 35% das ações ordinárias (com direito a voto) da estatal. O ágio de 54,77% sobre o preço mínimo, fixado em R$ 440 milhões, arrancou suspiros e aplausos da platéia na sessão pública realizada na Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs).
A proposta entregue em envelope lacrado superou a oferta do consórcio da Società Torinense di Esercizi Telefonici (Stet), que ofereceu R$ 677,777 milhões pela participação na CRT. O grupo integrado pela operadora France Telecom compareceu ao leilão, mas não apresentou proposta e foi desqualificado da licitação.
"Sabíamos que existia um grande interesse pela companhia", comemorou o presidente do conselho diretor do Programa de Reforma do Estado, secretário de Energia, Minas e Comunicações, Assis Roberto de Souza. "O patrimônio público se sobrevalorizou." O presidente da CRT, Cristiano Tatsch, disse que não esperava uma valorização tão alta. Um diretor da companhia afirmou, no entanto, que o ágio já era calculado. "Tínhamos a percepção de que o preço chegaria a esse nível ou até mais, por causa do potencial da CRT", revelou. O diretor-presidente da RBS, Nelson Sirotsky, explicou que a conquista integra o planejamento do grupo de participar do setor de telecomunicações brasileiro. "Faz parte da estratégia da RBS um posicionamento na área de telecomunicações", disse Nelson Sirotsky (leia artigo na página 21).
Silenciosa até a abertura dos envelopes pelo presidente da Comissão Especial de Licitação, José Fernando Eichenberg, secretário da Justiça e da Segurança, a sessão pública que vendeu 262.352.653 ações ordinárias da CRT explodiu em reações de alegria e suspense depois da primeira oferta. Às 13h25min, estava batido o recorde de ágio em concorrências públicas envolvendo estatais brasileiras, com a proposta apresentada pelo consórcio da Stet. Mas o valor ficaria R$ 3,223 milhões abaixo da oferta vencedora do grupo integrado pela Telefônica de Espanha e RBS. Atrasada por quase duas horas, a sessão começou às 12h50min e durou mais de cinco horas. A solenidade começou mais tarde devido a uma liminar deferida pelo juiz José Aquino Flôres de Camargo, da 1ª Vara da Fazenda Pública, suspendendo um item do contrato de gestão, sem interferir na licitação. Foi mais um lance na batalha de liminares que antecedeu a abertura dos envelopes. Na véspera do leilão, o governo conseguiu vencer oito ações contra a licitação.
Instalados em salas separadas, os advogados dos consórcios discutiram os possíveis entraves da medida, mas decidiram apresentar os envelopes, convencidos de que a decisão da 1ª Vara não comprometia o processo. Mesmo assim, os outros dois consórcios pediram a utilização do prazo para recursos previsto no edital. Até terça-feira, podem recorrer. O parceiro da CRT assumirá sua participação na companhia em janeiro. Cerca de 500 pessoas acompanharam a sessão pública. Estavam na Fiergs, além de Assis Roberto de Souza e Eichenberg, os secretários Geral de Governo, Nelson Proença, da Fazenda, Cézar Busatto, da Administração, Ottomar Vivian, de Obras, Teimo Kirst, e do Desenvolvimento e Assuntos Internacionais, Gilberto Mosmann. Guilherme Socias Villela, secretário dos Transportes, integrou a comissão de licitação.
Jornal: Zero Hora
Data: 18/12/1996
Página: 04
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