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Que há, nesta manhã?
Esplêndido sol lograra transpor a montanha e reverberava no mar de
nuvens acomodado sobre o vale; a névoa branca na profusão de luz como
que lhe anunciava algo de novo, puro. Ele olhou de relance o panorama,
desceu do carro e dirigiu-se ao escritório que sobranceava a colina. Sua
expiração entrecortada, a condensar-se ao frio da manhã, evocou-lhe como
que uma reminiscência de infância.
Que é, esta manhã?
A pergunta se formava em si, mas ele a bloqueava, não queria que se
explicitasse. Porém, ao captar esguias chaminés que trespassavam impie-
dosamente a neblina, o abrupto contraste instigou sua percepção:
Por que esta agressão no esplendor?
Mas censurou sua inquirição, queria rechaçar inúteis contemplações.
E acelerou os passos, penetrou no edifício, venceu os corredores, cumprimentou
maquinalmente a auxiliar e adentrou em sua sala. À mesa, esforçou-se por situar-se frente às incansáveis pendências. E, após um lapso,
firmou os lábios e chamou a secretária.
- Diga aos chefes que preciso ver os relatórios da reunião.
- Devem demorar ainda uma hora.
- Paciência... Esperemos...como sempre...
A tensão do esperar causava-lhe incômoda contração nos músculos da
perna.
Sinto-me um Sísifo. Um nunca terminar, jamais perceber resultados
definitivos; sempre este esperar...
Achegou-se à janela, entre concentrado e perdido. Lá fora, a montanha
e o lago pareceram-lhe o horizonte de um mundo a que estava alheio, uma
palavra ignorada. Mas interpretou o sentimento como fuga, uma falha; e
retornou à mesa.
Esperar...
Uma aridez começou a impregná-lo, mesclando-se à sua tensão. Pegou
uma folha e começou a rabiscar a esmo. Entre setas e garatujas esboçaram-
se a montanha e as agudas chaminés a agredirem a neblina.
Seu traço tortuoso frustrava-o. Enfastiado, rasgou o papel folha; mas tomou
outra e ia recomeçar o errático tracejar. Mas a mão estacou; o olhar quedou fixo no papel, a caneta ficou imóvel, a prumo. Parecia alheio e absorto,
como se sintonizasse algo longínquo. E, repentinamente, ele redigiu no centro da folha:
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aridez estéril ...
cresço em ti - autofágico
Prometeu ( não-deus )
eterno acorrentado a mim
sou
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