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Uma estrofe? questionou-se.
Quem é este Prometeu, este não-deus?
Por que esta evocação mitológica?
Neste instante a secretária entrou. Ele sobressaltou-se, amarrotou a
folha e lançou-a no lixo.
- Anteciparam a reunião para as quatorzee horas.
- Preciso ver as análises agora, como esstejam.
Os chefes vieram, relutantes. Ele leu os trabalhos rapidamente e indicou correções; e passou a aguardar a reunião.
Já no expediente da tarde ele aparentava desgaste:
Cansaço... Mas tudo natural; nunca estive em tal equilíbrio...
E empenhou-se na reunião, tensa, cujo resultado lhe pareceu satisfatório:
Mais um round vencido de interminável luta...
Encarregou a subordinados a execução das decisões, contrariando sua
tendência a realizá-las.
Delegar - e esperar... Olhar a paciente montanha. Que não espera nada
- apenas contempla...
Ia chegando-se à janela; mas, num repente, abaixou-se, achou a folha na
lixeira e desamassou-a. Pôs a caneta em riste, no ponto onde interrompera
a estrofe. E permaneceu estático, como se aguardasse que a mente retomasse
um processo, o inconsciente tateasse um caminho. E, súbito, escreveu
velozmente, parecia perseguir uma sombra fugaz. As palavras saíam-lhe
qual fluxo de represa rompida, a liberação de algo sob pressão. Ao terminar,
ele contemplou o escrito e indagou-se:
Que és, esdrúxula criatura? Qual teu nome: Inferno, Hades? Seja:
ridiculamente dantesco.
E sorriu, com ironia.
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