| |
|
|
|
|
|
|
|
Que é isto: eu, a fazer poesia? Em pleno expediente?
Gostara de literatura, chegara a imaginá-la um modo de vida. Mas pesara
o aspecto concreto. Justificava-se:
Preciso é manter-me em terra firme, combater a tendência a divagar.
E optara por sua profissão:
"desértica, insensível, mas com pés no real". Foi por mera utilidade,
não uma aspiração. E o certo; embora pareça que algo se perdeu em mim...
E debruçou-se sobre o escrito, num misto de prazer e perplexidade.
Mudou vírgulas, tirou exclamações, tornou a pô-las e a tirá-las.
Mas a base inicial, que lhe saíra como um jorro, permanecia intacta.
Que és, ó "Hades"? És um pobre jogo de palavras e paradoxos
usando a matéria prima de uma experiência interior. Estado de espírito árido,
seco, mas superado... tanto que estou a brincar contigo. Mas tudo um simples
ludo: um explicitar para fruição, desafogo deste tenso e enfadonho tempo...
Entretanto, sentia como se estranho fato se inserisse em si:
fora complexo o que aflorara naquele papel. Mas preferiu minimizá-lo.
E jogou o papel na gaveta num murmúrio:
Ser sem "para"... sem "com"... Mero e mísero jogo de palavras.
|
|