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Sentara-se no mezanino, frente ao televisor, mas não o ligara.
Sua casa situava-se junto ao lago, no sopé da montanha. A natureza
privilegiada triunfava sobre o despojamento da arquitetura do bairro
projetado pela empresa. A constante ida à capital aos fins de semana,
combinada a trabalho e vida familiar, contornava o tédio da cidade
artificial. E ele acrescia música clássica e literatura; e férias
em bons hotéis.
Este esquema de classe média com alguma cultura surpreendera-o;
e o modelo, razoavelmente consumista, parecia estabelecido e aceito:
Pelo menos por falta de alternativa viável...
Mas o horizonte apresentava alguma interrogação.
Há trincas nas paredes, o solo não parece tão firme... Mas devem ser
fenômenos naturais, acomodações de terreno à procura da estabilidade
definitiva...
Não se admitia medroso. Porém, não conseguia abolir vaga tensão,
como o espreitasse uma ameaça; ou a sombra de algo, relegado para um
não sei quando, lhe estivesse às costas.
Um não sei quê... Como se tudo fosse um tanto provisório, indefinido.
Vaga sensação de que não vai em direção alguma, a lugar nenhum.
Mas existe lugar a que se deva ir? Medo... isto é atávico: viemos
de cavernas cercadas por monstros...
E um impulso o fez pegar a caneta e procurar ansioso um papel.
Achou um recibo, e escreveu nele, aproveitando o verso.
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