Uma palavra 







   Se digo a palavra - umas ou outras 
   E choro em que penso, ou gargalho em que sinto, 
   Ou talvez ao contrário, ou tão-só por instinto, 
   (Há sussurro nalgumas, ou vocifero noutras.) 

   Se afim a combino - umas com as outras 
   E soletro na dor, ou me apresso no alento, 
   Ou me escapa o sentido, ao valor do momento, 
   (Um suspiro nalgumas, ou blasfêmia noutras.) 

   Mas direi o que quero, simplesmente? 
   Há palavra para isso, somente? 
   E há também quem a escute, enfim? 

   Falarei, então, baixinho e pra mim. 
   (ou pra ti), num silêncio profundo... 
   Numa língua só nossa, ou do resto do mundo. 

2000
 

 
 
 O teu poema







   Quem desatenta me encomenda a um soneto? 
   E bem me pensa um fazedor de poesia? 
   Eu gaguejei no recital das elegias. 
   As tão-só minhas, palpitantes no meu peito. 

   A esse alguém, da minha boca só mudez. 
   Do meu silêncio um brilho baço nos meus olhos. 
   Resíduo alegre das visões doutros restolhos, 
   de sentimentos de minha doce embriaguez. 

   Pois se de um beijo só um suspiro se permite: 
   eu te o digo ou te o dou: estamos quites! 
   E que o tenhas por presente mais sincero. 

   Mas se insistes em querer-te o que te é belo, 
   Minha querida, a quantas horas, quiçá centenas. 
   Eu te prometo, a qualquer dia, o teu poema.

2000

 

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