Sobras




   Sobraram dois olhos e uma sala de paredes
   brancas. 
   Por trás, uma multidão barulhenta pichava 
   divertidamente as paredes, e eu lia aquela 
   mistura. Lia e escrevia. 

   Um a um passavam por mim completamente melados 
   e com aquele cheiro forte de tinta. 
   Pareciam saciados, mas beiçudos como crianças 
   que são chamadas da brincadeira cedo para dormir. 
   Entregava seus textos às centenas, milhares! 

   Daí que por volta dos mil e alguma coisa, 
   inadvertidamente dei a um deles uma folha 
   em branco. 

   - Ah!... Aqui eu vou escrever a sua estória! 

   Eu me espreguicei dos pés à cabeça, 
   e fechei os olhos. 
 
 
 
 
 
 

2000
 

 
 
Loucura




   Murros! Murros. 
   Eu dou murros em concreto! 
   Grito debaixo de umas seis mil mordaças! 
   E se ainda penso dos meus versos ameaças: 
   Logo os enxergo do tamanho de um inseto. 

   E atino e como atino... e por demais... 
   Ah não meu Deus... estarei louco? 
   Eu que tracei uns seis milhões de estratagemas. 
   Como vencer? 
   Carrego aos pares quatro algemas: 
   - braços, pernas, eu por completo 
   e um pouco mais. 

   Será que um ai encontra eco no silêncio? 
   Será que existe outra parede atrás do tempo? 
   A que nos espere, e pelo maldito: 
   - O de nunca mais! 

   Se tal houver valeram as mãos ensanguentadas. 
   Valeram as bocas, valeram as línguas 
   acorrentadas. 
   Esta loucura de escrever também valeu. 

   Valeram os olhos e os que nos leram, os meus, 
   os teus. 
   Dessas cabeças constantemente encarceradas. 
   - Aos seis bilhões: Seja eu vocês! 
   Vocês sou eu. 

2000

 

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