Alguns Clássicos


Encomendaram-me um grande poema 
e me disseram: 
Só assim você provará 
ser um grande poeta! 

Ah!... Mas é tudo o que eu queria... 
Ser um grande poeta! 
Matar não, isso não faria. 
Roubaria até uma poesia dessas desatentas 
de um grande autor. 

Assim na certa, figurando meu nome 
no rodapé dessa obra prima, 
com louvor seria lembrado: 

- Mas olhem que grande escritor! 
- Ele foi mesmo um notável poeta! 

Como roubar está fora de cogitação, 
pelo menos para mim... 
Farei então assim: “No meu país, 
os passarinhos é que fazem os seus ninhos... 
Os pequeninos e bonitinhos 
são os que grasnam mais alto 
e as grandes e pavorosas aves, 
as que voam mais baixinho...” 

Um mal começo? E ainda ao contrário? 

Mais uma vez: “Os ladrões das galinhas 
continuam soltos em seus chiqueiros! 
Bem presos estão os malditos e verdadeiros 
salafrários!...” 

Como eu queria um grande poema. 
Desses que nós cansamos de ler 
duas, três, quatro vezes, 
devagar e com calma 
e ainda ao fim da leitura exclamamos! 

- Minha Nossa Senhora! 

Como tudo é tão belo e profundo!... 
(perdi até a hora do almoço...) 

Mas com todo o alvoroço de hoje em dia 
só mesmo uma boa poesia 
para me abrir o apetite! 
... e alimentar a minha alma... 

Fulano isso disse... Sicrano 
assim falou... Beltrano com graça 
escreveu... 

Santo Deus! Até leio, leio e leio 
os grandes versos da nossa antologia. 
Não falarei de um só 
para não esquecer os outros. 

Mas sabem o que de alguns deles queria, 
de verdade? 
A sua minerva mágica! 

A que fez com que tudo que dissessem, 
por mais vazia parecesse alguma, 
fossem as coisas supremas da arte! 
Ah... os grandes ditos da nossa literatura! 
- Como eu queria um deles... 
 
 

2000
 

 
 
Nós





   Se chorássemos por todas as partidas 
   E tudo fosse lágrimas nesse rosto medonho 
   Se assim nos víssemos frente a qualquer 
   dos espelhos, mesmo aqueles preferidos 
   O que fazer de nós mesmos então? 

   Procurar aquela ótima pessoa em 
   quem acreditamos um dia e assim 
   não nos viu. 

   Alguém que nos convenceu disso 
   e que num desses momentos 
   esteve tão perto e tão longe. 

   E se fôssemos uma passagem 
   ambulante, apenas isso, dentro 
   de uma estória de grandes tomadas 
   em que preferíssemos assistir, somente, 
   para não nos arriscarmos. 

   É, se fôssemos mudos talvez ninguém 
   nos endeusasse nos momentos em que 
   se perdem, e que nos perdem 
   chutados de casa. 

   Se para não ficarmos perdidos, 
   fôssemos uma recordação querida. 
   Faríamos de nós uma outra coisa 
   que não esse nós que nos orgulha 
   e vale pouco aos olhos de quem 
   nos esqueceu. Esqueceu a nossa 
   melhor lembrança. 
 
 








foto de um bem-te-vi



 
 
 
 
 
 
 

2000

 

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