Sai, Capeta





   Sai pra lá, ô capeta, tenho poesia no sangue!
   E não vem com convite pra essa festa no inferno
   Já brindei com o Rei, o profeta, o eterno,
   Não vou mais me meter a andar nesse mangue

   Ô safado capeta, não me sopre ao ouvido
   Mais suplícios de dor, mil ardis, ironias
   Oh senhor dos vencidos, menestrel da agonia
   Enjoei da tua cara, sai pra lá seu fingido!

   Mas capeta te entendo, até tens de mim pena
   Viver sem um amor, sem paixão, sem novena
   Vagar só e sozinho, entre chamas, no frio

   Caro amigo, te digo, sincero, não rio
   Vai-te rumo à ilusão, ao calor, à beleza
   Sai dessa escuridão, sai pra lá, sai tristeza!
 

 

 
 
Ao Soneto




   E porque andas vigilante ao lado dela 
   Assim com ela me prendeste desatento. 
   Requisitaste a um só gesto e pensamento, 
   Toda a vigília do meu sonho à sentilena. 

   Eu te busquei, tua magia, tua matéria. 
   Eu encalcei o que ao léu arremessaste. 
   Me permiti vagar no vão que enclausuraste 
   A substância que restou de massa etérea. 

   Mas por que eu, se nessa prova ainda estou, 
   num labirinto de ilusões e fantasias 
   a decifrar-lhe o que não te é a fina flor? 

   Busca, Soneto, quem te usou em maestria. 
   Até procuro e dou a ela a antologia, 
   doutros poemas, obras primas do amor.

2000

 

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