Carlos Pena Filho – O Poeta Atlântico 


Lucas Tenório
 

“Tânia: recebe este livro 
agora mesmo composto 
na face azul do teu rosto, 
ilha de sal e de areias 
azuis como as nossas veias”. 
(Dedicatória do Livro Geral de seus poemas
a Tânia, sua mulher)

 
 

É lamentável que a Pena de Carlos Pena Filho ainda seja pouco conhecida de boa parte do público brasileiro , enquanto a Cal de João Cabral de Melo Neto, o maior poeta brasileiro na síntese da materialidade das coisas (Carlos maior que ele na síntese de significados íntimos), e o Armorial de Ariano Suassuna, um híbrido dos dois, tenham alcançado todo o mundo. 

Em conversa com Rita Amaral, outra sua admiradora, ao procurarmos uma identificação para a obra do poeta Carlos Pena, conhecido como Poeta do Azul, concluímos, atrevidamente, por chamá-lo de Poeta Atlântico, com o fito de afastar um pouco da poeira do esquecimento que se depositou sobre o que disse o homem que partiu prematuramente, aos 31 anos, em 1960.  Atrevidos nós, porque julgamos que o sumo acadêmico Manuel Bandeira o tenha cognominado de Poeta Solar, quando recambiou aquela cor para o amarelo do sol, em sua visita ao Soneto do Desmantelo Azul: 

“ESCREVO ESSE NOME, e estou certo que o inscrevo na eternidade [...] Como Mallarmé, tinha o poeta pernambucano a obsessão do azul: a sua bela Maria Tânia lhe parecia ‘bela e azul’, na rosa que ele amou via, nos seios da rosa, dois bêbedos marujos ‘desesperados, sós, raros, azuis’, há uma orgia de azul no ‘Soneto do desmantelo azul’, onde acaba nascendo um sol ‘vertiginosamente azul’ (Bandeira, apud Carneiro Leão, 1999:11) 

 

 
 
 Percebemos, desse relato, relato do maior nome da poesia brasileira de todos os tempos, ao lado de Carlos Drummond de Andrade, o quanto é intenso, belo e forte o estro de Pena Filho. 

Carlos Pena recebeu também, em carta póstuma, os comentários singelos e carinhosos do amigo Romancista Jorge Amado (1999:09) , talvez o maior romancista brasileiro, em que, entre outras coisas, o trata como “Carlinhos”, e que faz silenciar as apreciações nossas para, prudentemente, ouvi-los melhor: 

“[...] Eras frágil de carne e osso, tão leve na balança, um vento mais forte podia te arrastar como uma folha de árvore ou um pedaço roto de poema. Por isso talvez sempre me deste a idéia de um anjo por amor perdido nas ruas do Recife. Mas como eras denso de vida por dentro, como eras tão homem e tão povo, tão pernambucano e universal!” 

O sociólogo Gilberto Freyre, por seu turno, o compara a um pintor de palavras, em seu comentário aposto no Livro Geral de Poemas do poeta. 

“[...] É característico de Carlos Pena Filho ter dado a alguns de seus poemas títulos que confirmam nele o artista pictórico a servir-se por vezes de palavras como se serviria de tintas. A escrever, pintando com palavras (Freyre, 1999:12). 

Imagem do quadro Cidade Azul, de Henri Matisse

 

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