Eu quis
pensar na maior das poesias, e sempre vinha a minha infância.
Era algo extremamente bonito,
não exatamente o que era, hoje eu sei, mas o que eu sentia, via,
respirava, sacudia, mexia.
Eu era tão menos presunçoso,
tolo, "instruído", sagaz, malicioso, amargo, forte...
Mas eu era o que jamais,
em vida, voltarei a ser.
Há imagens congeladas
na memória, permeada dos sonhos que sempre as emolduravam.
Não eram na verdade
sonhos. Essa coisa de "sonhos", como conhecemos, vim a ter depois.
Eram simples fantasias, imaginações,
visões...
Puxa, como era bom não
ter ninguém mais fraco ou mais forte que eu. Não pensava
em beleza, desempenho, convicções, competição,
medo, sucesso, fuga, reputação, princípios, valores,
causas, força...
A causa era um mundinho pequeno,
mágico e doce, talvez o refúgio que tive de carregar comigo
pelo resto da vida, e que numa das "escondidas", tenha preferido ficar
definitivamente por lá.
Eu sei que não fizeram
isso comigo à toa, hoje eu sei.
Sei que não vivia
"a vida" naquela época. Sei que me acompanhava da ausência
da vida, como se estivesse estagnado numa página eterna de um livro
predileto. Uma página sem letras, mas com uma bela figura pintada
em cores fortes.
Há esse menino que
passeia perdido, e satisfeito, por um quintal de uma casa vazia e tão
cheia de sentimento, de olhares complacentes, meigos, sinceros... de sorrisos.
- Ah, como é bom,
meu pequeno menino, ouvir você, ao longe, caçoando de mim,
do fato de eu nunca mais ter podido te encontrar.
- Não pára
a brincadeira, não! Conta novamente!
- Eu ainda estou aqui, meio
enferrujado, tudo bem, mas ainda à procura de quem brinque contigo,
conosco.