Comecei a perceber o Recife
quando das primeiras lembranças,
e o meu primeiro Recife,
minha primeira comunidade, aquele da casa da Iputinga onde morei dos três
aos sete anos.
O ainda hoje meu cosmos por
excelência: o grande quintal todo murado, com o pé de siriguela,
abacate, os coqueiros, os gafanhotos, borboletas, louva-a-deus, ziguezigues
(pra quem dava os gafanhostos de comer, e "amestrava" com uma linha amarrada
na cauda - sempre morriam depois), os combogós que davam vista pra
uma casa vizinha esquisita, que achávamos que lá havia uma
bruxa. A casa dos besouros do inverno, tanajuras, dos programas de rádio
que ouvíamos cedo antes da escola, com as antigas propagandas e
seus bordões indeléveis na memória.
Foi o Recife das casas simples,
do primeiro educandário (Santo André), do primeiro contato
com a igreja católica, das cantigas de roda, de passar o anel, dos
fogos de São João, dos passarinhos que me encantavam e me
fizerem ansiar por um dia ter um viveiro - tinha os meus alçapões,
do Carnaval com as bisnagas, os óculos d'água, as bombas
dos meninos mais velhos, e o mela-mela, moderado - talco e batom. As alaússas.
O sonho de ter um Autorama.
Da venda de seu Nino, onde
comprávamos nosso arsenal, o papel de seda, os piões, as
bolas de gude (nunca fui bom nos dois), as primeiras figurinhas dos nossos
álbuns com os ídolos do futebol. Os chicletes e confeitos
de amendoim, de mel não gostava. Pirulito zorro, peixe de chocolate
coberto com papel metálico colorido, cigarros de chocolate e de
erva cidreira. O jambeiro da vizinha e a hepatite.
Recife-Iputinga de Fernando
Neguinho, moleque mais pobre
da vizinhança que
construía, e eu invejava, os carros sofisticados de lata, os carros
de rolimã, patinete, e nos vendia chiés do mangue - daí
o meu fascínio até hoje pelos caranguejos, os saborosos guaiamuns.
(Eu, nós, relativamente preservados
pela minha mãe, que
nos impedia de tomar picolé em saquinho,
dudu, por não saber
da procedência da água.)
O derradeiro Recife-Iputinga
da cheia de 1975 - mudamos da Iputinga em 1976 -, em que ficamos no estuque
da casa com mais uma família. Isso foi uma festa pra gente e prenhe
de significados. Mas o Recife das séries Perdidos no Espaço,
O Homem de Seis Milhões de Dólares, Kung Fu (aquele do Gafanhoto),
Viagem ao Fundo do Mar, Terra de Gigantes, a Pantera Cor de Rosa e tantos
outros desenhos animados, que teatralizávamos nas nossas outras
brincadeiras de faz de conta. O Recife das primeiras, e talvez necessárias,
alienações. O Recife das novelas da tupi.
Havia também o pega
(com as várias modalidades), barra bandeira, se esconder - não
jogava ainda futebol. E a África, qual meu primeiro contato. Lembramos,
eu pouco, principalmente minha irmã mais velha, de Negão,
um ajudante de papai que fazia serviços diversos, capinava o quintal,
conversava conosco e é uma referência dócil na nossa
memória, de crianças que
não viviam o sentido
da diferença. O próprio Fernando Neguinho, hábil artesão
nas coisas de brincar, esperto, ágil, polissêmico.
(Depois tantos outros, Tripa,
virtuose da bola, esse já dos meus treze anos, quando ensaiava,
tentava, algumas jogadas de efeito.) A África dos primeiros
livros de escola (não conhecia Frei Betto, Leonardo Boff, Machado
de Assis) que nos ensinavam que negritude era sinônimo de escravidão.
Em determinada época achei que o escravo brasileiro foi escravo
por ser negro. Imagine o impacto na formação incipiente do
símbolo-identidade do ethos afro-brasileiro. Não conhecia
Milton Santos.
Logo depois o nosso mestre,
Péle, e toda a sua mítica na epopéia antropofutebolística
do nosso imaginário. Os nossos clubes: Náutico, Sport, Santa
Cruz e América e seus grandes feitos.
A primeira África
na voz de Maria Betânia, parece-me, se não erro, Ruanda, e
a primeira embriaguez da ciranda, o embalo sinuoso e lúdico, a ciranda
de Lia, de Itamaracá. (Não conhecia os terreiros, ainda não
os conheço, embora apreciador dos toques dos tambores - não
conhecia Rita Amaral). A África do Véio Zuza, de Chico
Anísio, dos velhos e velhas cachimbeiros da fantasia dos meninos.
África das lavadeiras, das vendedoras de peixe frito, passarinha
(dizem, a genuína, placenta da vaca frita). África dos borracheiros
e a África dos primeiros badoques (estilingue), com que vim matar
minha primeira lagartixa muito depois, depois de várias tentativas,
e muitos arrependimentos depois.
Houve Áfricas depois,
e houve Recifes. A partir de 1977. Conto em seguida.