Ainda
com respeito ao Recife-Iputinga:
* A
primeira ida a Porto de Galinhas com meu tio Zé-José. A dormida
na estrada apesar das esteiras. A tristeza do falecimento de tio Zé;
* A
lembrança da construção do Bompreço (hipermercado)
da Avenida Caxangá. As idas-compras festivas no Bompreço;
* A
presença logo ao lado imponente do hospital onde nasci - Barão
de Lucena, com suas extensas grades pelas quais depois tateava andando
na calçada;
* Os
caminhões-cheiro de melaço de cana, as chupetinhas de açúcar,
os japonês (doces de tabuleiro) e pirulitos de mel;
* O
amolador de tesouras, os "mascates" que vendiam na rua com suas carroças
bugigangas, brinquedos, utensílios domésticos;
* Os
bolos de rolo das visitas da minha falecida tia-avó Jaci;
* A
morte da minha avó materna Dagmar, que me chamava "meu marido" porque
tenho o nome dele. As poucas e esmaecidas lembranças dela;
* Os
"fura-dedos" (o pessoal de controle da endêmica Filariose) e o corre-corre
e alvoroço da meninada (Recife é/era uma das cidades do Brasil
com maior número de casos da doença, daí os indispensáveis
mosquiteiros nas nossas camas que se faziam nos nossos sonhos de acordados
verdadeiros velames de uma nau.);
* Os
nossos banhos de bica de papai quando a caixa d'água esborrava e
a água escorria pelo telhado;
* As
cabanas que mamãe fazia pra gente no quintal, com suas incontáveis
estórias;
* A
primeira enciclopédia e deslumbre por dinossauros;
* As
espiadas malabarísticas, brechadas, dos banhos da secretária
de mamãe, a bela Neves, coisa como um "primeiro alumbramento" menor
e primícias de voyeurismo;
* As
visitas de tio Edson que fazia uma gaita com as mãos, dos polegares
o bocal, e dizia haver ali escondido um passarinho. Prometia-me um viveiro.
(Depois aprendi a tocar essa gaita.)
* O
fascínio pelos vagantes balões de São João;
* As
inesquecíveis idas à "Festim", nosso parque de diversões
predileto;
* As
visitas a Cordelha e Nenu, primos-irmãos-amigos de mamãe,
e a Sérgio e Hildinha, outra prima-irmã e ele primo-irmão
filho de tia Jaci;
* O
1º amigo, Paulo;
* Os
Trapalhões. Ah. Os inesquecíveis Trapalhões. (Um ótimo
filme do início da década de 1980 "Os Saltimbancos Trapalhões",
com música de Chico Buarque.)
Mudamos
para o Prado em fins de 1976, para um edifício de apartamentos próximo
ao prado do Jóquei Clube Recife e perto do meu avô paterno
Antonino, o materno, Galvão, não conheci. Algumas visitas
ao meu avô e tias e primos.
Víamos
lá de cima, do terceiro andar pela área de serviço
(nunca subira em árvores com medo preventivo de altura), os páreos
com
os cavalos diminuídos pela distância sem que tivéssemos
a noção perfeita de quem estaria ganhando ou na dianteira.
Uma visão que hoje me parece a conjunção de fragmentária
e como que em câmera lenta. Um espetáculo vagaroso, lacunoso
e monótono.
Foi
"nos apartamentos" que me iniciei nas artes dos papagaios, pipas, e me
aperfeiçoei na de desenhar. Papai me fazia um genuíno papagaio
de ripas da haste da palha do coqueiro (depois aprendi ser melhor, mais
maleáveis, as taboclas e para as pipas - oriundas do sul do país,
até mesmo as finas hastes das próprias folhas da palha, desde
que convenientemente espessas). Papai não conhecera o cerol, ele
não era adepto da "torança", de torar, cortar a linha do
outro, embora tivesse participado da peleja no seu tempo.
Dizia,
e concordo, que na modalidade de sua época havia na execução
mais beleza e desenvoltura, habilidade do empinador, porque colocavam-se
giletes armadas ao longo da comprida "rabada" de pano do papagaio, devendo
o oponente conseguir passar a lâmina pontualmente na linha do adversário
para poder cortá-la. Os papagaios eram grandes, robustos, daí
o esqueleto de tala de coqueiro e a linha zero, grossa, pra empiná-los.
(Conheci depois papagaios enormes e seus artesãos-empinadores.)
Descia para a área térrea do edifício e me punha a
tentar empinar o papagaio, mas invariavelmente era a mesma coisa: enquanto
fixava nele insuflado ao sopro do vento a vista, correndo de costas pra
favorecer o disparo e continuidade desse complexo fenômeno aerodinâmico
de suspensão no ar, dando linha meticulosa e calculadamente conforme
a tensão estabelecida, a turma da redondeza cortava a meada na parte
posterior e levava o carretel.
Nem
via. Lá ia eu com Neves comprar na venda mais um carretel de linha
zero depois de escutar de mamãe:
Deixa
de ser besta, Carlos, presta atenção pra não te roubarem
de novo!
Não
fui muito bem sucedido com os papagaios. Com as pipas, depois, foi outra
estória.
Comecei
a desenhar principalmente Cristos Redentores. Papai nos trazia essas estatuazinhas
de metal, algumas reluzentes ao escuro, das viagens que fazia ao Rio de
Janeiro. (Comentou comigo sobre a escola de Belas Artes.) Gostávamos
do Poli, aquele brinquedo de montar que hoje se conhece por Lego.
Chaparral.
Montávamos, mamãe gostava muito, navios em miniaturas. Fazia
com a minha avó, ainda na Iputinga, esculturas com cola e caixas
de fósforos de madeira. Teimava por cortar pedaços de tábuas
pra montar nem sei o quê. Depois fiz algumas esculturas em barras
de sabão de coco, mais velho. Até pintávamos umas
besteiras que papai emoldurou.
Fizemos
uma breve viagem ao Rio em 1977. Hotel Ambassador, Fanta Uva, o Cristo
ao longe passando pelo vidro embassado do táxi noturno. A casa de
um amigo de papai. A chuva no desembarque, os guarda-chuvas, a cabine da
tripulação. Lembro de que no avião perguntei a um
senhor já de idade:
-
Vamos pro ceu?
-
Não
diga isso, meu filho.
Recordo
da impressão da geometria da pista sendo desfeita em perspectiva
quando o avião manobrava para a decolagem, pela janela.
Montamos
num quarto de serviço do apartamento, eu e Nana, minha irmã
mais velha, uma espécie de laboratório onde fazíamos
mais experiências imaginárias do que concretas e reais. Peixes,
rãs, lagartixas e alguns insetos. Fórmulas químicas.
Tínhamos um esqueleto plástico em miniatura e um anel de
Mandrake. Não faltavam os álbuns de figurinhas. Embaixo do
prédio encontrávamos algumas cobras coloridas, sendo ele
que era arrodeado por um matagal com um córrego que o alagava parcialmente,
coisa muito comum nos arrabaldes do Recife.
Estudava
na Escolinha do Garibaldo. Ah! Ênio e Beto, o Garibaldo, do VilaSesamo!
Quase esquecia. O início do Sítio do Pica Pau Amarelo pela
Globo, a figura risível e uma das mais paradigmáticas, do
Sugismundo (Estude senão via puxar carroça!). A Escolinha
do Garibaldo ficava na Iputinga e ia com a minha irmã mais nova,
Rita. Íamos de condução e papai nos apanhava. Fazia
o início do primário.
Mudamos
em fins de 1977 para Jardim São Paulo, para uma casa novamente de
jardim, oitões e quintal. Uma reconstrução amadurecida
da Iputinga.
E a
África?
Creio
que permaneceu a antiga e boa África do universo anterior. Na verdade
Prado-Iputinga eram a mesma África-Recife fusionados e indistintos.
E por
que a África? (Mesmo que seja essa a pergunta desnecessária.)
Por
que inseri-la, e apropriá-la/capturá-la ainda que simbolicamente
pela sua intertextualização nesse simplório
enredo
de recordações infantis, aproximação destituída
de um efetivo e necessário liame correlacional de significações
materiais
ou imateriais no espaço-tempo entre ambos?
Responderei
no decorrer do tempo, creio. Tempo que usarei para conhecê-la melhor
com os escassos meios de que disponho. Ou quem sabe conclua que por
nada. Como quando respondemos ao pai e mãe da gente:
-
Por que você fez isso, menino?!!
Até
breve.