Contravenção Poética
 
 

Fazer uma poesia sem nome 
É impossível, diriam. 
Seria empapar alguém sem fome 
ou dormir falando ao telefone 
ou acordar insone, sentindo 
que se não dormiu, na cama. 

Quem já viu uma poesia sem nome. 
É um registro fiel da sua identidade, 
fundamental para que seja 
uma poesia cidadã. 

Ah... mas poesias cidadãs, onde estarão? 
Nos Tribunais em despachos e acórdãos 
acordando policiais para cumprir seu dever. 

Qual o dever de uma poesia cidadã? 
Falar sério aos seus concidadãos 
Não folgar com a imperfeição, corrupção. 
E que perfeição se não há sequer um nome 
na dita poesia cidadã. 
Seria ela cidadã mesma 
ou qualquer uma, uma indigente 
e malandra que não se 
identifica. 

A poesia sem nome, que agora duvidamos 
ser cidadã, devia então ser interrogada.
Coisas como onde mora etc, 
mas principalmente quais são 
suas verdadeiras intenções. 

Acho que uma poesia sem nome 
não tem intenção a não ser 
não ter um nome. 

Ela é acusada pelo que 
disse e diz: ser uma cidadã 
sem nome. 
Crime hediondo e inafiançável! 
Tantos nomes distintos 
e nossa poesia sem nome 
sem nome. 
Fulano de tal ou sicrano... 

Presa. 
Chegando ao presídio 
a nossa poesia sem nome 
seria lá mais uma qualquer. 
E lá mesmo lhe dariam um nome: 
"Contravenção Poética"
 

2001
 

 
 
O Fim da Ilusão
 
 

Marca-se o fim da ilusão para a madrugada. 
Não há para tal hora certa ou errada. 
Certo é que um poeta assinará 
O decreto funéreo e a Causa Mortis. 
Um médico poeta, 
de preferência da corrente 
da medicina natural. 
Dirá: Melancolia e tristeza, nada mais. 
Nada de embolias, paralisias, septecemias 
ou falências generalizadas e afins. 

A Ilusão apenas morreu, velhinha, 
caduca, sozinha e sentimental, 
no leito acompanhada somente da saudade 
que lhe providenciou os serviços 
dos distintos profissionais.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



 
 
 
 
 

2001

 

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