Catavento



 
 
 

Gira, gira Catavento 
Senão meus olhos estacionam. 
Traz-me a brisa das auroras 
Vem com os sons que não me enganam. 

Catavento, Catavento. 
Fale a língua dos Besouros 
Não me traga gesto humano 
A cantiga das Cigarras... 

Borboletas, Catavento 
Sai atrás das coloridas 
Mas me leve às esquecidas 
Onde pousa a solidão 

E se passa, Catavento 
Ziguezique nessa cauda 
Dê-lhe um laço pelas costas 
que me leve pelos sonhos... 

Pois Catavento, gritaria 
Só das crianças nas ruas 
Ah, essa sim jogue na cara! 
Em rajadas, bofetadas 
Tempestades, beliscões 
Não deixe raios sem trovões 
Se um dia escuro, 
a noite é clara! 
Com muita chuva, 
inundação. 

Catavento, vai na barquinha com 
a alegria. 

Catavento, 
deixa remar meu coração.


 
2001
 

 
 
Banquetes



 
 
 

Os patos engoliram os sapos 
mordendo-os como macacos. 
Os verbos no tempo hodierno 
não mais trajam ternos. 
De bermuda uma conjugação muda muda a muda 
da sintaxe, 
E pegam um táxi as palavras vagas, 
trocam-se caladas bastante desapontadas. 

Os gatos vomitaram os ratos 
golfando-os pelos terraços. 
Os verbos no tempo hodierno não usam 
mais gravatas. 
De camiseta modernas canetas 
lavam as golas nas sarjetas. 
E saem em bestas as sentenças novas, 
em versos e prosas 
um tanto ruidosas. 

Os escritores morreram de amores 
penando por suas dores. 
Os verbos no tempo hodierno 
não conjugaram nós. 
E os nós das gravatas, 
o retrós dos ternos, 
enforcaram da poesia o porta-voz. 
Vai num caixão de termos, 
anda a procissão, 
morta a expressão da carne, 
que o verme leitor, 
sem nem usar jargão, 
promete comê-la crua, 
desfrutá-la nua 
e em decomposição.


 
2001

 

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