As Casas 
 

As casas. 
As casas e suas lembranças 
passeando nos jardins ou debruçadas 
no parapeito das janelas. 

As casas com seus muros 
oitão e quintais. 
E suas gentes. 

Casas com sorrisos de bom dia, 
fuxicos nas calçadas e muita história 
pendurada nos varais. 

Casas com alegria, com parentes. 
Tias, pais, irmãos, avós 
e na esquina a padaria. 
Mais à frente uma multidão. 

Casas com nascente 
poente e paz. 
Casas do ocaso, bolo inglês 
e um luar ao alcance das mãos. 

Casas com as galinhas 
e ao menos um galo das quatro da manhã. 
Casas de alvorada, alvenaria. 

Ah, casas. 
Havia casas 
que viviam conosco, 
e mais nada. 

Não as casas do amanhã. 
Casas sem caso 
Casas de ferro, xadrez. 
As casas catamarã, 
pequenas e que nos levam 
ao décimo terceiro andar 
em gaiolas com os passarinhos. 
(E ainda há vez para esses bichinhos?) 

Há casas que nos guardam 
sozinhos, neuróticos. 
Ao acaso. 
Casas desacasaladas, descasadas. 
Assexuadas ou hermafroditas. 

Ah, casas malditas e desocupadas! 
Estamos fartos 
e noutro lugar! 

Nessas casas, ao entrar, 
só nos resta pedir de joelhos: 

Dê-nos asas... 
Dê-nos casas. 


 
 
2001
 
 
 
As Mãos aos Céus


 
De mãos ao Alto... 
O IPTU da Prefeitura... 
Lá vamos nós de sobressalto... 

Vão da cintura 
As mãos pro Alto! 

Mas não se esquecem 
De nos levar esse ICMS... 
- Que impressionante! 

Mãos na Cabeça! 

É. Não se seguram 
Os preços 
nos supermercados... 

E não se esqueça, 

Mãos à Fazenda! 

Recolha em dia 
O seu Imposto 
de Renda... 

Ai que desgosto... 

As mãos aos Céus! 

Emolumentos, Taxas 
e derramas 
por todos os lados... 

- Não diga nada, 
As mãos pra cima! 

- Ah, seu meliante, 
Estou nessa esquina 
com o que sobrou... 

- Aceita dez centavos?
 
 
 
 



 

2001
 
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