Tentamos, da Chácara
do Céu, uma fotografia em que se situasse o semblante nítido
com o fundo do Pão de Açúcar. "Ficaram boas as fotos"
- disse depois Rita -, apesar da indefinição do rosto escuro,
ofuscado pela luz imanente do horizonte. Mas ela tem razão. O Manoel
Carlos Pinheiro bateu uma outra no interior do museu, ao lado de uma das
obras, uma em sua casa e outra ao seu lado, essas sim com os rostos em
claro.

Parti do terminal rodoviário
do Tietê com destino ao Rio de Janeiro. Algo em torno de 5 horas
de viagem, se não erro novamente. Eram mais de 23 na saída
e por volta das 5:30 na chegada.
Uma estação
antiga, a do Rio. As pessoas mais frouxas, largadas, mais à vontade.
Uma atmosfera mais popular que a de São Paulo. Acostumado estava
à anterior e antiga que estranhei um pouco. Vi mais da gíria
comportamental suburbana que bem conheço do Recife, embora a tenha
visto nos paulistanos no centro, Bixiga, Brás, e eventualmente nos
próprios Vila Olímpia, Ibirapuera e Sé. No metrô.
Comparei-a, a estação do Rio, com a de Recife: o TIP - Terminal
Integrado de Passageiros: aquela certamente um pouco menor.
Algumas horas depois, como
combinado, Fátima vem ao meu encontro e vou com ela ao de José
Carlos. Um casal de amigos coeso e bonito. Deixo a minha bagagem, passo
pelo Sambódromo, Botafogo, Cinelândia, Aterro do Flamengo,
Bar do Amarelinho, isso depois de ter ido à Avenida Chile, onde
trabalham. Desço e acerto: às 17:30 nos reencontraremos.
Salto para pegar o Bondinho, a trinta reais, e ir ao Morro da Urca e ao
Pão de Açúcar. Uma zueira dos falantes de inglês
e a imagem do Santos Dumont, Maracanã, Copacabana, Baía da
Guanabara. Um Rio de Janeiro em tons de branco. Penso: Boa Viagem é
mais colorida. Ando um pouco por Copacabana.
Penso no Largo do Machado,
no encontro com Manoel, com Pernambuco. Ele também pernambucano.
Encontramo-nos na Igreja de Nossa Senhora da Glória e fomos almoçar
na sua casa. Na sua casa novamente a vista da Baía e Maracanã,
as primeiras fotos, a simpatia de Silvia e dos filhos e o primeiro telefonema
para Rita. O livro do Pierre Verger de presente e a leitura também
de Moacir Lopes ensinando a escrever livros de ficção. Manoel
lê um pequeno conto, fala do Maracatu e do Quinteto Violado, dos
trabalhos que desenvolveram juntos. Sílvia diz que às vezes
ele até dança como recurso de retórica.
Um até logo, depois
do museu e esquecimento do boné na sala, e a pergunta: Manoel, por
que Áfricas e Recifes?
Prometi que ligaria quando
da partida para o Recife mas não consegui. Chego um pouco atrasado
- 17:45 - e com Zé Carlos e Fátima e bom trânsito partimos
para sua casa em Irajá. Lá conheço Gustavo e Henrique,
as habilidades de nadador do Henrique, já que Gustavo resolveu ficar.
Mas não ficou quando fomos ver o Exterminador do Futuro 3, com o
Schwarzenegger, tomar chope, aferir inteligências e comer pizza.
"Quantas revistas têm agora naquela banca"? Exijo uma resposta
exata. Henrique titubeia: todas menos as que foram vendidas... Não,
por razões de lógica. E digo: o dobro da metade... O dobro
da metade? Mas que merda! Gustavo, Henrique, o seu amigo: todos muito
inteligentes. Prometi a Gustavo O Mundo de Sofia.
Durante o dia a visita ao
Corcovado e o sentimento da força e empreendedorismo da gente brasileira.
Colocar aquela estátua incólume e irrepreensível lá
no alto. Do alto vejo a Pedra da Gávea e tudo de novo e comento
com Rita, nos pontos em que havia sinal para o celular: achei os prédios
do Rio quase todos brancos ou esbranquiçados. O cinza amarronzado
dos morros com o verde da vegetação. Digo: Boa Viagem é
mais colorida que Copacabana, apesar de ser mais estreita. Se o Recife
pudesse ser visto dessa altura, com suas águas abundantes (e quem
o vê em fotografias aéreas sabe disso) seria tão bonito
como o Rio. Mas o Rio e o Cristo muito bonitos.
No outro dia, dia da partida
de ônibus para a volta, Zé Carlos me apresenta a Academia
Brasileira de Letras, antes de me deixar para ir trabalhar. Bandeira a
meio mastro pela morte de Roberto Marinho e a informação
do cancelamento da visitação. Não me contento. Quero
ver Joaquim Nabuco, o Secretário de Machado. Vejo o seu busto, e
começo a quebrar a resistência do funcionário cujo
nome agora me escapa. Digo: sou da terra de Austregésilo de Athayde,
Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Barbosa Lima Sobrinho,
Ariano Suassuna e Mauro Mota, por exemplo. Recebo um simpático assentimento,
semelhante a um sim senhor. Vou a todos os compartimentos: Sala do Chá,
de Reuniões, Sala dos Românticos. Sento na cadeira do Presidente
e na Biblioteca faço um soneto
pela Internet. Ganho o Anuário da Academia depois de pedir uma lembrança
para Rita à bibliotecária.
(Recife, agosto
de 2003)