
"Uma espécia de equilibrio
estático é o que primeiro notamos na maneira
de mover-se e de agir deste homem. Força e vigor ocultos
que custam a ser descobertos à primeira vista, ainda
que seu considerável porte semítico já
nos dêem uma pista. a forma de mover-se nos ambientes
urbanos, de pedir um charuto nos bares, nos indicariam o herdeiro
de árabe milionário e prepotente. Ainda mais
se levarmos em conta seu nariz aquilino."
Onliyú (editor da El Víbora)
Vários já foram meus mestres de quadrinhos
-desenhistas e/ou roteiristas em que me mirava, aspirando
que um dia pudesse produzir algo tão bom quanto eles
-e aqui poderia citar e escrever sobre muitos deles. Mestres,
como o italiano Pazienza, Crumb, o brasileiro Lourenço,
Vuillemin... A lista é enorme e espero, no futuro,
poder falar sobre todos eles nesta seção de
REX. Mas por hora, devo escrever sobre este que faz pouco
tempo descobri e que imediatamente tornou-se um dos meus favoritos:
Juanito Mediavilla. O Mediavilla. O que mais me chamou a atenção
nas hqs de Mediavilla foi o roteiro, o texto. Se por um lado
os tipinhos magros de dedos tortos e narizes à Cirano
de Bergerac, não se comparam a um Zanardi ou Colas
dançando, empunhando uma arma ou estuprando uma inocente
garota, se você prestar atenção no texto
de uma HQ de Mediavilla, por consequência logo se pegará
admirando um daqueles homenzinhos magros e desajeitados, estúpidos
até, como a maioria dos seres humanos. Mas o que é
o roteiro de Mediavilla? O que há de tão especial
em seu texto? em primeiro lugar é o modo simples e
cativante que ele tem de falar de coisas simples e cativantes,
como de seu tempo de colégio. Quando conta uma de suas
lembranças de desordem e júbilo colegial, nos
faz lembrar de quando também éramos estudantes
e queríamos por fogo na sala de aula, espancar os moleques
da outra turma, ver a cor da calcinha das meninas ou quando
um professor fazia algo interessante, algum assunto ou atividade
interessante, que nos fazia sentir integrados, sem aquela
eterna e angustiante vontade de ir pra casa. Por exemplo,
na HQ "En classe de religión", Mediavilla(ele
mesmo, caricaturado) se arrisca, ao passar de uma sacada à
outra do colégio, para ganhar o material de desenho
de outro aluno e também para provar aos incrédulos
que se caísse a Virgem o salvaria. E realmente, ele
cai. Porém, surge a Virgem Maria, como de um santinhode
procissão, e o salva, porque sabe que ele gosta muito
de desenhar, pedindo como promessa que Mediavilla nunca deixe
de desenhar uma passagem do Evangelho durante as aulas de
Dom Anselmo (o padre e professor). Há tembém
as Hqs do Niñato (que às vezes é Gallardo
quem desenha). Com uma em que os pais do personagem principal,
ao saírem, deixam uma série de tarefas para
o Niñato e vemos que este começa à fazê-las
e tal... Mas no final vemos que Niñato continua na
mesma, apático, sem mover uma palha, se drogando e
que foi tudo uma possibilidade não realizada, devido
à falta de caráter da personagem. Ou outra,
ainda do Niñato, em que temos a descrição
de uma peça para piano e uma concepção
da vida inspiradas pelo signo de peixes, intercalando a ação.
Já em outra Hq , Mediavilla, caricatura de si mesmo,
apenas deita falação de que "Graças
à Deus" conseguiu se livrar das drogas. Tudo para
no final pedir à seu antigo traficante que lhe perdoe
uma dívida. O que se depreende daí é
a diversidade psicológica, cheia de contradições,
legitamente humana e por isso mesmo forte. E o roteiro de
Mediavilla é forte, sobretudo. Que é o que se
espera de um roteiro, seja ele de cinema ou Hq. É bastante
experimental também, cheio de cortes, viagens psicológicas
e grandes saltos. Ajuda-o também o grande domínio
que Mediavilla têm da linguagem pictórica: se
não há como dizer algo com palavras ele o diz
com movimentos dos personagens, dos balões, dos quadrinhos,
ora pendendo pra lá, ora pra cá, levando o olhar
do leitor, sempre junto. Basicamente é isso: experimental,
mas não confuso ou vazio, já que o roteiro é
o esqueleto que sustenta uma Hq. Diria-se que se não
fosse quadrinhista, Mediavilla daria um ótimo escritor,
daqueles cínicos, ou um roteirista de comédias
tipo Woody Allen. Já falando do desenho, Mediavilla
têm um estilo para cada série de Hqs. Quando
é sobre suas lembranças de colégio, as
cores vibrantes, meio chapadas que ele usa, evocam seu lado
mais artista plástico. Já no Niñato,
costuma usar menos cores, atendo-se às variações
de tom. Em outras ainda, usa apenas o mesmo traço grosso
e cheio de ondulações e angulosidades. Superficialmente
diria-se que é um Crumb (de quem admite influência)
mais estiloso e moderno. Ufa! Espero que vocês tenham
aguentado. Fã é assim mesmo. E mais: espero
que, se ainda não conhece, esteja curioso para conhecer
a obra desta fera que é Juanito Mediavilla.
Rubens Sgarbi
Matéria 2:
Comentário
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