|
Falta
"apenas" descobrir a prova, mas esta já é "iminente".
Em todo o caso, esta questão não está de forma alguma em aberto.
Pelo contrário: a memória não seria possível, se não estivesse
alojada materialmente no cérebro.
Porém,
a disputa pelo assento da memória não passa de uma questão
secundária, e o papel do cérebro, uma questão paliativa. A
questão radicalmente central é a concepção que Sheldrake apresenta
sobre conceitos e leis: estes não são vistos como atemporais,
imutáveis, mas em constante evolução e transformação. Todo
sistema filosófico ou científico conhecido pressupõe algo
imutável, básico, uma lei constante e primordial. Sheldrake,
porém, embasa sua concepção num cosmo em constante transformação
e evolução. O que chamamos costumeiramente de "leis naturais"
talvez não passe de costumes da criação.
O cerne
mais radical de suas idéias, pondera ele mesmo, consiste em
refutar a existência de algo que possa estar determinado por
leis atemporais, eternas. Infelizmente, a influência que a
cosmovisão pitagórica e platônica exerce sobre nosso pensamento
científico ainda é tão grande, que a maioria dos cientistas
naturais estranha a imagem de um cosmo em constante evolução.
Sheldrake não concorda
que seu posicionamento seja radicalmente novo. A concepção
de uma realidade em constante transformação e evolução há
muito existe no Budismo, assim como também nas correntes filosóficas
do Ocidente, de Heráclito a Bergson: há a idéia de um universo
criativo no "vitalismo" de Hans Driesch e no esboço
que Whitehead fez de um organismo cósmico vivo, capaz de manter
estruturas vivas em todos os níveis.
Do outro lado, o
materialismo pressupõe as leis platônicas imutáveis, que não
passam, segundo Sheldrake, de uma suposição extraordinariamente
metafísica e carente de provas. Aliás, estas leis foram compreendidas
ori-ginalmente como "idéias ocorridas no espírito de
Deus". O materialista coloca-se no lugar de Deus e acaba
ficando a sós com suas idéias; portanto, suas bases não são
tão pragmáticas e sólidas como se pretende.
Por isso, a cosmovisão
mecanicista dos materialistas vem a ser, para Sheldrake, um
sistema altamente "metafísico", visto haver para
eles duas "realidades últimas", que escapam a qualquer
verificação científica: por um lado, a matéria (ou energia),
que é tida como eterna e autoconservadora; por outro lado,
o sistema de leis matemáticas, que mais se parece com as idéias
platônicas mortas, sendo que as substâncias são mera matéria,
desprovida de espírito e vida, subordinada às leis universais
daquelas. À semelhança das leis naturais, as idéias seriam
algo permanente e imutável e o mundo dos fenômenos nada mais
que reflexos delas. Nesta cosmovisão não se admite um "feedback"
do mundo real sobre idéias ou arquétipos.
Os campos morfogenéticos de
Sheldrake, por sua vez, não são fixos. Para ele, há uma conexão
constante entre a realidade e a idéia: novos campos modificam
os anteriores e vice-versa. O que ocorre é um processo constante
e dinâmico: o universo e suas leis - perdão, "costumes"
- estão submetidos a uma constante evolução.
Sheldrake pode ser metafísico,
místico hermético ou agnóstico - como seus colegas cientistas
reclamam -, mas ele é, sobretudo, empírico. O experimento
é decisivo, esforça-se em esclarecer. Suas hipóteses
surgem da intuição: desta ou daquela maneira algo poderia
ser; porém, se é ou não assim, só a expe-riência pode decidir,
ou seja, o experimento científico. A ele Sheldrake se submete.
Desde o lançamento de seu primeiro
livro, há experimentos ocorrendo por toda parte para testar
sua teoria. O centro de conferências Tarrytown, de Nova York,
ofereceu US$ 10.000 para o melhor experimento que comprovasse
ou desmentisse a teoria de Sheldrake. Uma fundação holandesa
acrescentou mais US$ 5.000. Não faltaram boas idéias e, há
pouco tempo, iniciou-se algo parecido a um jogo aberto ao
público, do qual participavam institutos universitários, revistas
científicas, a mídia e também muitos leigos, uma configuração
nada aceitável ao tradicional mundo das ciências.
Um exemplo dessa
situação ocorreu quando a renomada revista americana "Boletim
do Cérebro e da Mente" desenvolveu um experimento, em
que os leitores da revista ti-nham que decorar três versos
em japonês, sendo um verso tradicional; outro de um poeta
contemporâneo, e o terceiro, uma seqüência aleatória de ideogramas.
Segundo a teoria do campo morfogenético, o verso tradicional
- que foi praticado por milhões e milhões de japoneses, ao
longo de séculos - deveria causar uma ressonância morfogenética,
ou seja, ser mais fácil de decorar. E, de fato, o resultado
final do experimento foi este.
Num outro experimento,
feito em grande estilo e envolvendo os canais de televisão
BBC (Londres) e o NDR (Hamburgo), milhões de pessoas participaram,
inclusive telespectadores. Estes receberam a tarefa de identificar
o rosto de algumas pessoas, em meio a um amontoado de rabiscos,
como num desenho abstrato. O resultado foi inacreditável e
confirmou as expectativas de Sheldrake: as fisionomias que
haviam sido mostradas na TV, sem disfarce, foram identificadas
mais facilmente pelas pessoas do experimento que não podiam
ver o programa, do que pelas que podiam! Ou seja, foram "reconhecidas"
mais facilmente em meio aos rabiscos de disfarce. Nesse caso,
a probabilidade disso poder ser creditado ao acaso é menor
que
1 %.
PRÓXIMA
PÁGINA
|
|