SHELDRAKE - PARTE 3

          Falta "apenas" descobrir a prova, mas esta já é "iminente". Em todo o caso, esta questão não está de forma alguma em aberto. Pelo contrário: a memória não seria possível, se não estivesse alojada materialmente no cérebro.
           Porém, a disputa pelo assento da memória não passa de uma questão secundária, e o papel do cérebro, uma questão paliativa. A questão radicalmente central é a concepção que Sheldrake apresenta sobre conceitos e leis: estes não são vistos como atemporais, imutáveis, mas em constante evolução e transformação. Todo sistema filosófico ou científico conhecido pressupõe algo imutável, básico, uma lei constante e primordial. Sheldrake, porém, embasa sua concepção num cosmo em constante transformação e evolução. O que chamamos costumeiramente de "leis naturais" talvez não passe de costumes da criação.
         O cerne mais radical de suas idéias, pondera ele mesmo, consiste em refutar a existência de algo que possa estar determinado por leis atemporais, eternas. Infelizmente, a influência que a cosmovisão pitagórica e platônica exerce sobre nosso pensamento científico ainda é tão grande, que a maioria dos cientistas naturais estranha a imagem de um cosmo em constante evolução.
       Sheldrake não concorda que seu posicionamento seja radicalmente novo. A concepção de uma realidade em constante transformação e evolução há muito existe no Budismo, assim como também nas correntes filosóficas do Ocidente, de Heráclito a Bergson: há a idéia de um universo criativo no "vitalismo" de Hans Driesch e no esboço que Whitehead fez de um organismo cósmico vivo, capaz de manter estruturas vivas em todos os níveis.
       Do outro lado, o materialismo pressupõe as leis platônicas imutáveis, que não passam, segundo Sheldrake, de uma suposição extraordinariamente metafísica e carente de provas. Aliás, estas leis foram compreendidas ori-ginalmente como "idéias ocorridas no espírito de Deus". O materialista coloca-se no lugar de Deus e acaba ficando a sós com suas idéias; portanto, suas bases não são tão pragmáticas e sólidas como se pretende.
      Por isso, a cosmovisão mecanicista dos materialistas vem a ser, para Sheldrake, um sistema altamente "metafísico", visto haver para eles duas "realidades últimas", que escapam a qualquer verificação científica: por um lado, a matéria (ou energia), que é tida como eterna e autoconservadora; por outro lado, o sistema de leis matemáticas, que mais se parece com as idéias platônicas mortas, sendo que as substâncias são mera matéria, desprovida de espírito e vida, subordinada às leis universais daquelas. À semelhança das leis naturais, as idéias seriam algo permanente e imutável e o mundo dos fenômenos nada mais que reflexos delas. Nesta cosmovisão não se admite um "feedback" do mundo real sobre idéias ou arquétipos.
     Os campos morfogenéticos de Sheldrake, por sua vez, não são fixos. Para ele, há uma conexão constante entre a realidade e a idéia: novos campos modificam os anteriores e vice-versa. O que ocorre é um processo constante e dinâmico: o universo e suas leis - perdão, "costumes" - estão submetidos a uma constante evolução.
     Sheldrake pode ser metafísico, místico hermético ou agnóstico - como seus colegas cientistas reclamam -, mas ele é, sobretudo, empírico. O experimento é decisivo, esforça-se em esclarecer.  Suas hipóteses surgem da intuição: desta ou daquela maneira algo poderia ser; porém, se é ou não assim, só a expe-riência pode decidir, ou seja, o experimento científico. A ele Sheldrake se submete.
     Desde o lançamento de seu primeiro livro, há experimentos ocorrendo por toda parte para testar sua teoria. O centro de conferências Tarrytown, de Nova York, ofereceu US$ 10.000 para o melhor experimento que comprovasse ou desmentisse a teoria de Sheldrake. Uma fundação holandesa acrescentou mais US$ 5.000. Não faltaram boas idéias e, há pouco tempo, iniciou-se algo parecido a um jogo aberto ao público, do qual participavam institutos universitários, revistas científicas, a mídia e também muitos leigos, uma configuração nada aceitável ao tradicional mundo das ciências.
       Um exemplo dessa situação ocorreu quando a renomada revista americana "Boletim do Cérebro e da Mente" desenvolveu um experimento, em que os leitores da revista ti-nham que decorar três versos em japonês, sendo um verso tradicional; outro de um poeta contemporâneo, e o terceiro, uma seqüência aleatória de ideogramas. Segundo a teoria do campo morfogenético, o verso tradicional - que foi praticado por milhões e milhões de japoneses, ao longo de séculos - deveria causar uma ressonância morfogenética, ou seja, ser mais fácil de decorar. E, de fato, o resultado final do experimento foi este.
       Num outro experimento, feito em grande estilo e envolvendo os canais de televisão BBC (Londres) e o NDR (Hamburgo), milhões de pessoas participaram, inclusive telespectadores. Estes receberam a tarefa de identificar o rosto de algumas pessoas, em meio a um amontoado de rabiscos, como num desenho abstrato. O resultado foi inacreditável e confirmou as expectativas de Sheldrake: as fisionomias que haviam sido mostradas na TV, sem disfarce, foram identificadas mais facilmente pelas pessoas do experimento que não podiam ver o programa, do que pelas que podiam! Ou seja, foram "reconhecidas" mais facilmente em meio aos rabiscos de disfarce. Nesse caso, a probabilidade disso poder ser creditado ao acaso é menor que
1 %.

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