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No
processo de aprendizagem, por exemplo, o fato de alguma coisa
ser aprendido por alguém implica no fato de ela vir
a ser aprendida por outrem mais facilmente, onde quer que
ele esteja. Para esta teoria, Sheldrake encontrou comprovação
numa série de experimentos, em que ratos eram treinados para
encontrar o caminho ao comedor por um labirinto de passagens.
Quando os animais haviam rea-lizado tal aprendizado, num laboratório
qualquer, outros ratos, nas partes mais distantes do globo,
realizavam a mesma tarefa num tempo menor.
Outro exemplo esdrúxulo
era o fato de que, há décadas, em Southampton, foram flagrados
os primeiros chupins, que, para completar sua dieta alimentar,
furavam a capinha de alumínio das garrafas de leite que o
leiteiro deixava nas portas das casas. Em seguida, dezenas,
e depois milhares, de chupins - em toda Inglaterra, na Suécia
e na Holanda - "imitavam" tal comportamento, apesar
de o raio de voo do chupim não passar de 15 Km. Esse hábito
específico da espécie e o campo morfogenético correspondente
sobreviveram à II Guerra Mundial. Quando a entrega do leite
voltou a ser feita, após vários anos de interrupção, os chupins
já estavam de prontidão.
Dessa forma, o passado
se torna presente em qualquer acontecimento, ou, segundo Sheldrake,
se torna frutífero para acontecimentos similares. Mas Sheldrake,
biólogo por formação, de maneira alguma restringe a ação dos
campos morfogenéticos ao reino orgânico. Não fala apenas em
ratos, chupins e no homem, mas fala com igual dedicação, por
exemplo, de cristais: assim que, em algum laboratório, se
tenha constituído determinado cristal, será mais fácil e mais
rápido produzir cristais do mesmo tipo em outros laboratórios.
A explicação convencional para tal fenômeno pressupõe o transporte
de moléculas de um laboratório a outro, através das roupas
e dos cabelos dos químicos viajantes. E Sheldrake considera
seu campo morfogenético bem mais plausível do que todos os
hipotéticos cientistas transeuntes.
Em seu novo
livro, ele avança mais um passo: verifica, conseqüentemente,
a hipótese de a natureza possuir uma memória. Sheldrake pondera
que tal memória teria o caráter cumulativo, que vai sendo
ampliada por cada repetição, de forma a podermos dizer que
as características das coisas provêm de um processo de habituação.
Os hábitos são capazes de construir a natureza de todos os
seres vivos, mas também dos cristais "mortos" das
moléculas e dos átomos e, enfim, de todo o cosmo.
A provocação singular
desse novo livro, que causou uma tormenta, está expressa da
seguinte forma: "nossos hábitos pessoais poderiam ser
derivados da influência acumulada de nosso comportamento passado,
com o qual mantemos uma comunicação por ressonância.
Se isto for verdade, nossas
experiências passadas não teriam que estar armazenadas de
uma forma física em nosso sistema neuro-sensorial. Isto será
válido quando lembrarmos de uma canção, ou de algo que tenha
acontecido no ano passado.
Seria viável termos acesso ao
passado por via direta. Talvez nossa memória nem esteja gravada
no cérebro, como pressupomos tão naturalmente". Nesse
sentido, Sheldrake fala de sugestões plausíveis, de possibilidades
que ainda estão por ser comprovadas.
Para elucidar sua hipótese,
Sheldrake gosta de compará-la a um aparelho de televisão.
Diz ele que a biologia e a genética convencionais se parecem
com aqueles que tentam explicar o funcionamento do televisor
com conceitos mecânicos e restritos à caixa do aparelho. As
informações que produzem as imagens seriam provenientes de
determinados circuitos, localizados dentro do aparelho. Contudo,
como todos sabem, cada televisor recebe suas imagens de uma
fonte distante e central, ou seja, dos estúdios de uma emissora
de televisão, que as emite através de sua estação de transmissão,
um campo invisível capaz de gerar imagens.
Portanto, na opinião de
Sheldrake, nosso cérebro funciona como um apa-relho de televisão
e os campos morfogenéticos nos transmitem informações de maneira
semelhante, não-espacial e não-mecânica. E ainda formula a
questão, altamente herética para a concepção científico-materialista
ortodoxa , se é realmente o cérebro que contém a memória,
sendo que, na verdade, ao nos lembrarmos de algo, estaríamos
instantaneamente ligados, em linha direta, ao nosso passado.
Nosso cérebro, então,
seria mais comparável ao aparelho de televisão do que ao programa
transmitido. Em outras palavras, aquilo que lembramos não
se encontra no nosso cérebro, assim como o comentarista não
se encontra dentro da TV.
Foi nesse ponto que os críticos
de Sheldrake protestaram mais: se isso fosse possível, então
não haveria razão nenhuma para não admitir a existência da
telepatia e para negar a ação de uma reza. Nada poderia ser
dito contra toda a sorte de fenômenos religiosos e até místicos;
ou seja, contra uma concepção altamente anti-científica.
Em conseqüência, Sheldrake foi
declarado um inimigo da ciência, especialmente do materialismo,
e sua teoria rotulada de "Cavalo de Tróia", pois
tentava reintroduzir, sorrateiramente, a metafísica no mundo
de hoje, depois que a ciência natural a tinha banido definitivamente.
Todo neurologista que
se sente comprometido com o rigor da ciência - como comenta
Stephen Rose - sabe que a memória deve estar alojada, "de
alguma forma", dentro da massa cerebral, talvez em forma
de código. "Todos conhecem" a relação que existe
entre a memória e o conjunto das funções nervosas, como a
sinapse, o neurônio, os dutos neurais, etc.
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