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TEXTOS ESPECIAIS

O Pequeno Mundo dos que Amam a Cruz de Cristo

Tomás de Kempis

 Tomás de Kempis, monge agostiniano (1380-1471), escreveu para monges “A Imitação de Cristo”, que fora a Bíblia, é o mais famoso e balsâmico de todos os livros legados à Humanidade. Tem cinco séculos de ação sobre místicos e profanos e continua atual. O que aqui se publica é o Capítulo 11 do Livro Segundo da “Imitação de Cristo”, intitulado “Exortações à Vida Interior”. 

Cristo carrega a sua Cruz (Emeric Marcier, 1982/83, óleo sobre tela, 73x72cm)

1. Muitos se apresentam a Jesus, agora, como apreciadores de seu reino celestial; mas poucos querem levar a sua cruz.

Há muitos sequiosos de consolação, mas poucos da tribulação; muitos companheiros à sua mesa, mas poucos de sua abstinência.

Todos querem gozar com ele, poucos sofrer por ele alguma coisa.

Muitos seguem Jesus até o partir do pão, poucos até beber o cálice da paixão.

Muitos veneram seus milagres, mas poucos participam da ignomínia da cruz.

Muitos amam a Jesus, enquanto não encontram adversidades.

Muitos O louvam e bendizem, enquanto recebem d´Ele algumas consolações; se, porém, Jesus se oculta e por muito pouco os deixa, caem logo em queixumes e desânimo excessivo.

2. Aqueles, porém, que amam Jesus por Jesus mesmo e não por sua própria satisfação, tanto O louvam nas tribulações e angústias, como na maior consolação.

E posto que nunca lhes fosse dada a consolação, sempre O louvariam e Lhe dariam graças.

3. Oh! Quanto pode o amor puro de Jesus, sem mistura de interesse ou amor-próprio!

Não são porventura mercenários os que andam sempre em busca de consolações?

Não se amam mais a si do que a Cristo os que estão sempre cuidando de seus cômodos e interesses?

Onde se achará quem queira servir desinteressadamente a Deus?

4. É raro achar um homem tão espiritual que esteja desapegado de tudo.

Pois o verdadeiro pobre de espírito e desprendido de toda criatura - quem o descobrirá? "Tesouro precioso que é necessário buscar nos confins do mundo" (Prov. 31,10).

Se o homem der toda a fortuna, isso não é nada.

E se fizer grande penitência, ainda é pouco.

Compreenda embora todas as ciências, ainda está muito longe.

E se tiver grande virtude de devoção ardente, muito ainda lhe falta, a saber: uma coisa que lhe é sumamente necessária.

Que coisa será esta? É que, deixado tudo, se deixa a si mesmo e sai totalmente de si, sem reservar amor-próprio algum e, depois de feito tudo que soube fazer, reconhece que nada fez.

5. Não tenha em grande conta o pouco que nele possa ser avaliado por grande: antes, confesse sinceramente que é um servo inútil, como nos ensina a Verdade. "Quando tiverdes cumprido tudo que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis" (Lc.17,10).

Então, sim, o homem poderá chamar-se verdadeiramente pobre de espírito e dizer com o profeta: "Sou pobre e só neste mundo (Sl 24,16)".

Entretanto, ninguém é mais poderoso, ninguém mais livre que aquele que sabe deixar-se a si e a todas as coisas e colocar-se no último lugar.

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