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POESIA PORTUGUESA


FLORBELA ESPANCA
Minha Culpa
Amar!
Eu
FERNANDO PESOA
Outros terao um lar, quem saiba, amor..
Eu tenho ideias e razoes
Valeu a pena?
FERNANDO PESSOA /ALBERTO CAIEIRO
Pela unica grande razao

FLORBELA ESPANCA
 

Minha Culpa
 

Sei la'! Sei la'! Eu sei la' bem
Quem sou? Um fogo-fatuo, uma miragem...
Sou um reflexo... um canto de paisagem
Ou apenas cenario! Um vaivem

Como a sorte: hoje aqui, depois alem!
Sei la' quem sou? Sei la'! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei la' quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estatua truncada de alabastro..
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei la' quem sou?! Sei la'! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador...
Subir
 

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar so' por amar: Aqui... alem...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente..
Amar! Amar! E nao amar ninguem!
Recordar? Esquecer? Indiferente!
Prender ou desprender? E' mal? E' bem?
Quem disser que se pode amar alguem
Durante a vida inteira e' porque mente!

Ha' uma Primavera em cada vida:
E' preciso canta'-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser po', cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...


 
 
 

Eu

   Eu sou a que no mundo anda perdida,
   Eu sou a que na vida nao tem norte,
   Sou a irma do Sonho, e desta sorte
   Sou a crucificada... a dolorida...

   Sombra de nevoa tenue e esvaecida,
   E que o destino amargo, triste e forte,
   Impele brutalmente para a morte!
   Alma de luto sempre incompreendida!...

   Sou aquela que passa e ninguem ve...
   Sou a que chamam triste sem o ser...
   Sou a que chora sem saber porque...

   Sou talvez a visao que Alguem sonhou,
   Alguem que veio ao mundo pra me ver
   E que nunca na vida me encontrou!


 
 
 

FERNANDO PESSOA
(13-01-1920)
 

Outros terao um lar, quem saiba, amor..
 

Outros terao
Um lar, quem saiba, amor, paz, um amigo.
A inteira, negra e fria solidao
Esta comigo.

A outros talvez
Ha' alguma coisa quente, igual, afim
No mundo real. Nao chega nunca a vez
Para mim.

"Que importa?"
Digo, mas so' Deus sabe que o nao creio.
Nem um casual mendigo `a minha porta
Sentar-se veio.

"Quem tem de ser?"
Nao sofre menos quem o reconhece.
Sofre quem finge desprezar sofrer
Pois nao esquece.

Isto ate' quando?
So' tenho por consolacao
Que os olhos se me vao acostumando
`A escuridao.


 

Eu tenho ideias e razoes

"Eu tenho ideias e razoes,
conheco a cor dos argumentos
e nunca chego aos coracoes.
" Fernando Pessoa

Valeu a pena?

  "O' mar salgado, quanto do teu sal
   Sao lagrimas de Portugal!
   Por te cruzarmos, quantas maes choraram,
   Quantos filhos em vao rezaram!
   Quantas noivas ficaram por casar
   Para que fosses nosso, o' mar!

   Valeu a pena? Tudo vale a pena
   Se a alma nao e' pequena
   Quem quere passar alem do Bojador
   Tem que passar alem da dor.
   Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
   Mas nelle e' que espelhou o ceu."


 

FERNANDO PESSOA /ALBERTO CAIEIRO
 

Pela unica grande razao
 

"Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas nao fui amado.
Nao fui amado pela unica grande razao -
Porque nao tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e a chuva,
E sentando-me outra vez a porta de casa.
Os campos, afinal, nao sao tao verdes para os que sao amados
Como para os que o nao sao.
Sentir e' estar distraido."


 
 

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